domingo, 19 de março de 2023

Acácias Rubras na Av. Infante D. Henrique

Neste postal ilustrado do Hotel Lisboa na década de 1980 visto da Av. Infante D. Henrique, entre o Liceu e o Campo dos Operários, para além da fila de táxis, destacam-se as acácias rubras que cobriam Macau de vermelho, nomeadamente nos meses de Maio a Julho.
Sensivelmente a mesma perspectiva numa fotografia feita na década de 1970 frente à Escola Comercial. À direita, destaca-se o pavilhão desportivo do Liceu e o muro que rodeava o campo de jogos.

sábado, 18 de março de 2023

Novas propostas para classificação como património

O Instituto Cultural anunciou que vai entrar em consulta pública com vista a classificação como "património cultural" um conjunto de seis imóveis em Macau que "reflectem características culturais locais, apresentam documentação completa e bem fundamentada e cumprem todos os requisitos para a classificação".
Das propostas fazem parte:
- 12 casas na Avenida do Coronel Mesquita e na estrada de Coelho do Amaral com características do estilo arquitectónico 'Português Suave' e construídas no início da década de 1950 para residência de funcionários públicos;

- 4 edifícios bi-familiares localizados na Avenida do Coronel Mesquita e na Rua de Francisco Xavier Pereira, do mesmo estilo arquitectónico e que serviram como residência de funcionários da antiga Repartição dos Serviços de Correios, Telégrafos e Telefones;

- Mansão Chio/Chiu Vun Ching (comprada pelo IC em 2021 por 8 milhões de patacas), na Travessa da Porta - perto da Rua dos Mercadores - com data de construção anterior a 1875, de estilo Lingnam onde sobressaem os tijolos cinzentos, e uma das poucas antigas residências chinesas ainda existentes no território;

- Antiga residência de Lu Muzhen, mulher do antigo líder chinês Sun Yat-sen, no nº 1 da Rua de Silva Mendes; 
Na imagem acima a primeira versão do edifício que ficou destruído na explosão do Paiol da Flora em Agosto de 1931 sendo feito posteriormente o que se pode ver abaixo e que desde a década de 1960 é uma casa-memorial (museu). O primeiro edifício é do final da década de 1910 ficando no nº 1 da Rua da Povoação de Long Tin que na década de 1930 passou a designar-se Rua de Silva Mendes.
- Antigo posto alfandegário do Porto de Coloane e de Ká-Hó (antigo Posto Sanitário de Coloane);
- Antigo Matadouro Municipal, construção com mais de um século, no sopé da colina da Barra , junto às antigas Oficinas Navais (imagens abaixo) e onde nas imediações existiram armazéns para guardar o gado.
Na imagem abaixo assinalei as vergas onde eram transportado os porcos.
Actualmente Macau tem um total de 159 imóveis classificados como património cultural.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Ragionamenti di Francesco Carletti Fiorentino (...)

Já em posts anteriores falei de Francesco Carletti (1573-1636). Para a publicação de hoje seleccionei alguns excertos sobre "Amacao" no tempo em que este mercador italiano por lá andou, no final do século 16, tendo assistido a um eclipse e sentido de perto os efeitos de um tufão. Fazem parte do livro "Ragionamenti di Francesco Carletti Fiorentino sopra le cose da lui vedute ne' suoi viaggi Si dell'Indie Occidentali, e Orientali (...) Firenze" publicado em 1701.
Publicado em Firenze (Florença) em 1701.

Primeiros tempos do assentamento português
"(...) Ao cabo de doze dias chegámos à ilha de Amacao, situada a 19 graus de norte, perto de Cantão, terra firme e cidade da China que dá o nome a uma daquelas províncias, a setenta milhas pouco mais ou menos. É uma pequena cidade sem muralhas e sem fortalezas, com umas poucas casas de portugueses, sendo chamada Cidade do Nome de Deus; e se bem que é ilha adjacente à China, contudo é governada por um Capitão Português que vai lá de Goa todos os anos com patente e provisões reais da Coroa de Portugal , para administrar a justiça aos portugueses que ali moram. (...)
Quer, como prémio por este serviço, quer para o recompensar por outros serviços prestados na Índia, em matéria de guerra, à Majestade Católica, é concedido a esse capitão o privilégio de ele só, e não outros durante aquele ano, aprontar uma nau para ir ao Japão, transportando as mercadorias que os habitantes da cidade lá mandam, as quais são compradas duas vezes ao ano, na cidade de Cantão, onde se fazem as feiras. Estas mercadorias são transportadas à Índia oriental no mês de Setembro e Outubro, e ao Japão no mês de Abril e Maio: estas últimas são principalmente seda crua, da qual se transportam em cada viagem setenta e oitenta mil libras de vinte onças cada uma, que eles chamam 'cates'. Também transportam para lá grande quantidade de drapejamentos diversos e muito chumbo (...); e ainda prata pura e zarcão e grande quantidade de almíscar com as suas vesículas, tudo o que se consome nestas partes entre estes povos.. (...)"

Culto da deusa A-Ma
Quando oferecem os alimentos nalguma festa solene, comem-nos perto do ídolo, como vi fazer em Amacao (...); esse ídolo chamava-se 'Ama', por isso a ilha é chamada Amacao, quer dizer 'lugar do ídolo Ama'. Celebram essa festa no primeiro dia da lua nova de Março, que é o seu Ano Novo, sendo celebrado por todo o reino como festa principalíssima. (...) 

Tufão
"L'anno 1599 alli 28 del mese di Luglio, ch'io mi trovava in detta Città d'Amacao, vidi rovinar più di dieci case atterrate dall acqua, e dalle furie del vento Tuffone, che è quel medesimo, che nell Isole Filippine chiamano Uracan."

No ano de 1599, aos 28 do mês de Julho quando eu estava na cidade de Macau, vi mais de 10 ou 12 casas arruinadas pela água e pela força do tufão que nas ilhas Filipinas é chamado pelos castelhanos 'Uracan'. As casas são feitas de terra misturada com cal viva; são fortificações de tantas a tantas braças com tabiques de pedra murados a cal, sendo as paredes estucadas com cal por dentro e por fora, e cobertas de telhas em tudo ao modo da Espanha. Depois de ter soprado com tanta fúria, que não se podia andar pelas ruas nem sequer mostrar lá a cara, o vento parou, tendo passado por todos os rumos da rosa dos ventos, e continuou durante dois dias. além de muitos danos, e naus que fez desviar por toda a costa e portos de China, fez também perder no porto de Amacao uma nau que tinha vindo do Reino do Sião, carregada de lenha chamada comummente pau brasil, que eles neste país chamam 'sapan'. (...)

Eclipse
Enquanto estive lá notei um grande eclipse que sucedeu no ano de 1599 aos 6 de Agosto. Vi na quinta-feira de tarde a lua que se obscureceu quase toda, estando já cheia ao aparecer, a qual saiu fora do horizonte, durando cerca de duas horas: apareceu de cor vermelha muito inflamada, e o pouco que ficava claro era da banda do norte. 
No mesmo ano, no mês de Dezembro, vindo o tempo da partida das naus que da China vão a Goa, pensei embarcar numa delas, levando as mercadorias que tinha comprado nas duas naus que partiam naquele ano."

quinta-feira, 16 de março de 2023

Macau e o chá dos Açores


A 18 de Outubro de 1877 é publicado no Boletim do Governo de Macau um "aviso" onde se informa que "o governo portuguez deseja contratar os serviços de um agricultor e um manipulador de chá, para os empregar das direcção dos trabalhos de cultura e preparação da folha nas Ilhas dos Açores (Oceano Atlântico)," onde já havia, refira-se, plantações de chá. O governo garantia ainda o pagamento da passagem de ida e volta "e o salário que se convencionar".
A 13 de Novembro de 1877, o mestre Lau-a-Pan e o ajudante e tradutor Lau-a-Teng seu assinaram um contrato bilingue (chinês e português) na presença do governador, Carlos Eugénio Correia da Silva. (imagem abaixo)
Os dois contratados seguiram viagem na embarcação "África", primeiro para Lisboa e depois para os Açores onde chegaram a 5 de Março de 1878.
Contrato assinado em Macau em 1878 entre o Conselheiro Carlos Eugénio Correia da Silva, o  representante do presidente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, e o chinês Lau-a-Teng, para serviço e preparação da cultura do chá em S. Miguel 


O contrato era de um ano, renovável por mais três, e garantia aos dois cidadãos chineses um salário que era pago em Macau e outro na ilha, em partes iguais. O mestre recebia 25 dólares mensais, para além de casa, duas libras de arroz ou o equivalente em pão, uma libra de peixe fresco ou salgado ou meia libra de vaca e uma libra de hortaliça.
Chegados no início de Março de 1878 o trabalho começou de imediato mas iria durar pouco mais de um ano já que regressaram a Macau a 18 de Julho de 1879. No entanto deixaram os ensinamentos em fábricas como a Gorreana e a Porto Formoso.
Já na década de 1890 seriam contratados em Macau mais dois técnicos. Chum Sem e Lum Sum chegaram aos Açores em Dezembro de 1891.
Na altura a corte portuguesa estava instalada em terras de Vera Cruz e num ofício de 1810, Almeida Melo e Castro, conde das Galveias e responsável no reino pelos assuntos ultramarinos solicita ao Ouvidor de Macau, Miguel de Arriaga, o envio de plantas de chá e de homens especializados no seu cultivo.
O cultivo do chá nos Açores remonta aos finais século XVIII numa época em que era usado sobretudo para fins ornamentais. Quanto a datas são várias as teorias possíveis. Umas indicam que a "Camellia sinensis", planta que está na origem do chá verde e do chá preto terão chegado à ilha de S. Miguel por volta de 1750. Outras indicam que também o micaelense Jacinto Leite, comandante da Guarda-Real de João VI de Portugal, trouxe consigo sementes quando voltou do Brasil por volta de 1820.

Voltando aos Açores, são vários os documentos que atestam a proveniência das plantas do chá de Macau. É o caso de um documento publicado no Boletim Oficial de Macau de 1878 e que reproduz uma carta da direcção da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense destinada ao ”Exmo. Sr. Conselheiro Carlos Eugénio Corrêa da Silva” (governador de Macau entre 1876 e 1879 - imagem acima) dando conta de que tinham chegado a S. Miguel dois chineses para ensinar o cultivo e a transformação industrial do chá.
​"(...) comunico a V. Exa. a chegada​ a esta ilha no dia 5 do corrente dos dois chinas contratados por V. Exa. para dirigir aqui a cultura e preparação do chá; bem como dos utensílios respectivos que para esta sociedade ahi se adquiriram. A semente chegou em parte deteriorada pelas delongas da viagem, mas temos esperança de que boa porção germinará ainda. Por fortuna existia aqui a planta do chá em boas condições de vegetação e já n'esta Primavera contamos proceder a alguns ensaios decisivos sobre o fabrico entre nós (...)."
Entre as espécies levadas de Macau/China estavam a "Jasmin grandiflorum" e a "Malva vacciones".
O cultivo e fabrico do chá nos Açores teve grande desenvolvimento até ao início do século XX chegando a existir seis fábricas a laborar em simultâneo.
Actualmente é na ilha de S. Miguel que ficam as únicas plantações de chá da Europa para fins industriais asseguradas pelas empresas Gorreana e Porto Formoso. A Gorreana é mesmo a mais antiga da Europa tendo sido criada em 1883.
Segundo os especialistas o arquipélago reúne as condições ideais para o crescimento da planta. O clima é temperado (chuva bem distribuída, sol não muito intenso e não ocorrência de geadas) e o solo vulcânico (argiloso e ácido) proporciona um chá perfumado e de travo agradável. 
"From Macao (...) 6148 boxes tea"
in The London and China Telegraph 4.3.1872

Em Macau não se cultivava chá (vinha da China) mas fazia-se a chamada preparação e era uma das mais importantes actividades económicas no território no século 19 sendo sobretudo para exportação.
Veja-se a seguinte intervenção do deputado Horta e Costa feita no Parlamento português em Maio de 1889, e dirigida ao ministro da Marinha:
"O chá, vindo do interior quase em bruto, ou preparado e passado por tantas operações sucessivas, de modo a sofrer uma alteração tão completa, que quase deverá ser esquecida a sua classificação primária, para ser considerado apenas como um produto da indústria daquela colónia".
Da intervenção daquele que viria a ser, depois, duas vezes governador de Macau fica a saber-se que havia naquela altura 15 fábricas de transformação de chá em Macau, "onde trabalhavam 120 operários fixos e 853 avulsos, dos quais 348 eram homens e 505 mulheres, e isto ainda além de 300 outros, empregados em carretos e transportes. E todo este chá ali preparado vai para Hong Kong, e dali para Inglaterra".

quarta-feira, 15 de março de 2023

O comércio do chá de Macau: legislação séc. 19

"(...) A distancia entre Lisboa e Macau é de milhares de léguas. Pois o chá preparado naquella nossa possessão* com destino a ser exportado não podia ser remettido directamente para Lisboa senão num navio sob bandeira portugueza. Mas visto que apesar desse privilegio a bandeira portugueza não entrelinha tal navegação, signal de que com elle nada lucrava, por isso o resultado era aproveitar os navios de vapor inglezes encarreirados para Inglaterra. Acontecia porém que a qualidade de navio estrangeiro lhe impedia de tomar qualquer carga directamente para Lisboa. Conduziam, portanto, o chá até um porto de Inglaterra e embora o vapor inglez passasse em frente do porto de Lisboa não podia aqui descarregar aquelle genero, podia porém transporta-lo até um porto de Inglaterra e desse porto vir depois para Lisboa nesse navio ou noutro qualquer. Pois esse processo que dantes vigorava com relação a Macau e Africa oriental é o que ainda vigora pelo artigo 1315 com relação à Africa occidental, Madeira e Açores, e isto é contradictorio, é contraproducente, é visivelmente absurdo.
Quantas vezes tem acontecido querer alguem remetter de Lisboa para um ponto da Africa occidental um volume qualquer por exemplo um barril de vinho, uma sacca de arroz e não ser possível fazer tal remessa num navio que tenha bandeira estrangeira que muitos aqui aportariam com igual destino se não fora a restricção e ser necessario esperar pelo longo praso que medeia entre as viagens de uma carreira nacional. Ora esta disposição tem grandes inconvenientes. (...)"
in Appendice ao codigo commercial portuguez approvado pela carta de lei de 28 de Junho de 1888/ Discussão na Câmara dos Pares. Coimbra, 1893.
* O chá não era de facto produzido em Macau; as folhas vinham do Sul da China e eram preparadas no território sendo depois exportadas. Em 1867, por exemplo, existiam 14 fábricas de chá em Macau, dando emprego a 430 pessoas. Era uma das principais exportações do território.
Vejamos alguns excerto do que escreveu Corte Real, José Alberto Corte Real no livro "O comércio e indústria do chá em Macau e a lei de 27 de Dezembro de 1870" impresso na Typ. Mercantil de Macau em 1879. Recorde-se que antes desta lei o chá de Macau era exportado directamente para Portugal.
"(...) Ascende a mais de um milhão de patacas o valor de chá produzido pelas fábricas aqui estabelecidas, além do movimento comercial e de outras indústrias que desta se derivam, e da importância que por conseguinte tem sobre a riqueza particular e pública da colónia e navegação de seus portos." (...)
Acrescente-se ainda para contexto dois pontos:
- havia proteccionismo do governo de Lisboa ao chá oriundo da então chamada África portuguesa;
- contratação em Macau de dois chineses, Lau-a-Pan (mestre) e Lau-a-Teng (ajudante e tradutor), que chegaram a São Miguel (Açores) no dia 5 de Março de 1878 para ensinar as técnicas tradicionais de cultivo e preparação do chá. É desses tempos que remonta a Gorreana, a mais antiga, e atualmente única, plantação de chá da Europa.
PS: sobre a chegada do chá de Macau aos Açores em breve publicarei um post.

terça-feira, 14 de março de 2023

Trespasse da "Pharmacia Popular": 1910

 
"Pharmacia Popular
Quem quizer tomar de trespasse a Pharmacia Popular com todos os medicamentos, utensílios e mobília, dirija-se ao abaixo assinado (...) Todas e quaesquer informações poderão ser obtidas na referida pharmacia em todos os dias úteis, das 10 horas ao meio dia. Macau, 25 de janeiro de 1910. O Director, Henrique Nolasco da Silva." Anúncio da década de 1910.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Sepultura de S. Francisco Xavier na ilha de Shangchuan

Grabb-Statt des Heiligen Franc. Xavery auf der Infel Sanciano
Sepultura de S. Francisco Xavier na ilha de Shangchuan é o título deste mapa impresso em 1726 em Augsburgo (Baviera, Alemanha). Na ilha chegou a ser construída uma capela.
Em Macau na Rua Francisco Xavier Pereira existe desde 1907  a Igreja de São Francisco Xavier. (imagem acima e abaixo) Em Coloane existe desde 1928 uma Capela dedicada a S. Francisco Xavier. Ao lado das ruínas de S. Paulo - onde tem uma estátua - fica a Calçada de S. Francisco Xavier.
Francisco Xavier nasce perto de Pamplona, Espanha, a 7 de Abril de 1506, quinto filho de D. João de Jassu, Senhor de Xavier e Ydocin, e de Dona Maria de Azpilcueta e Xavier. Aos 19 anos está em Paris, instalado no Colégio de Santa Bárbara, a estudar Humanidades. Forma-se depois em Filosofia e Teologia pela Sorbonne.
Aí conhece Inácio de Loyola que viria a ser fundador da Companhia de Jesus. Torna-se seu amigo e seguidor.
A 15 de Agosto de 1534, na Capela de Montmartre, faz votos de pobreza e castidade perpétua. Recebe as Ordens Sacras em Veneza a 24 de Junho de 1537, seguindo depois para Roma onde se põe à disposição do Papa para o serviço da Igreja. A 15 de Março de 1540 parte de Roma com destino a Lisboa, onde chega três meses depois.
Enviado pelo Papa Paulo III, era a resposta de Roma aos apelos veementes do Rei de Portugal, D. JoãoIII, preocupado com a evangelização da Índia e a dilatação da Fé no Oriente.
Chegado a Lisboa, o Pe. Francisco Xavier refugia-se no Hospital de Todos-os-Santos onde de imediato se dedica aos enfermos e ao ensino da doutrina cristã. Ganha em pouco tempo a percepção do universalismo dos portugueses e de Lisboa larga, a 7 de Abril de 1541, na armada das índias, para ser Apóstolo e Santo. Antes da partida, o Rei D. João III entrega-lhe o Breve Papal nomeando-o Núncio Apostólico nas Partes da índia, com amplos poderes para estabelecer e manter a Fé em todo o Oriente.
Depois de uma breve passagem em Moçambique, chega a Goa a 6 de Maio de 1542. Logo se apresta a ir oferecer os seus serviços a D. João de Albuquerque que pastoreia a Diocese de Goa, na altura a mais dilatada da Cristandade. Rapidamente se apercebe de uma vida religiosa local muito precária, e carenciada de assistência. Os pouco mais de dez anos que se seguem até à sua morte, vai vivê-los de forma febril, andando por terra e por mar, sem nunca parar, num frenesim constante a espalhar a palavra Divina, a levar a Boa Nova.
Logo em Outubro de 1542 parte para o Sul da índia a evangelizar os pescadores da Costa da Pescaria. Visita Comorim, Manapar e Tuticorim. Em Outubro de 1543 regressa a Goa. Fundada canonicamente a Companhia de Jesus, o Padre Francisco Xavier é nomeado Superior de toda a Missão da índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até à China. Volta à Costa da Pescaria. Visita depois Cochim, Malaca, as Molucas, Macassare, Ceilão. Ensina, baptiza, e concilia príncipes desavindos.
A 15 de Agosto de 1549, via Cochim e Malaca e navegando pelos mares da China, chega a Kagochima, na costa meridional do Japão. De regresso a Cochim envia cartas ao Rei D. João III. Solicita-lhe reforços missionários. Tentando a missionação na China, para lá se dirige a bordo da nau Santa Cruz. Em Singapura volta a escrever a D. João III. Em Setembro de 1552 desembarca na Ilha de Sanchoão, a dez léguas da Ilha de Macau, na China.
Selos de 1952
No 4º centenário da morte de S. Francisco Xavier

Aí adoece gravemente. Sofrendo vertigens e convulsões, minado por febres devoradoras, cheio de privações, morre só e pobre na noite de 2 para 3 de Dezembro de 1552. Havia percorrido milhares de quilómetros, cruzado várias vezes os mares do Índico e do Pacífico, visitado mais de cinco dezenas de reinos, fundado Igrejas, reorganizado as missões.
Exemplo de humildade e de solidariedade cristã, de amor ao próximo e de evangélica pobreza, era venerado por milhões de pessoas de todas as condições sociais, de todas as idades, de todas as etnias. A fama de Santo, o “Santo de Goa”, tinha chegado a toda a parte, as suas virtudes eram exaltadas.
Em 17 de Fevereiro de 1553 o seu corpo é removido e levado para Malaca e daqui para Goa, onde chega a 16 de Março de 1554. A recebê-lo, numa impressionante manifestação de Fé, estão o Vice-Rei, o Clero, a Nobreza e o imenso Povo.
A devoção de que já gozava em vida vai crescer extraordinariamente depois da morte. Os seus milagres tornam-se conhecidos.
A 25 de Outubro de 1605 Francisco Xavier é beatificado por Paulo V e Gregório XV canoniza-o a 12 de Março de 1622. A 24 de Fevereiro de 1748 Bento XIV proclama-o Padroeiro do Oriente. Em 1904 Pio X coloca sob a sua protecção a Sagrada Congregação da Propagação da Fé. Em 1927, Pio XI constitui-o, com Santa Teresa do Menino Jesus, protector de todas as obras missionárias. O seu corpo repousa numa riquíssima urna de prata, na Basílica do Bom Jesus, na Velha Goa.
Texto da Paróquia de S. Francisco Xavier em Lisboa

domingo, 12 de março de 2023

Chaple in the Great Temple / Chapelle du grand temple / Kapelle in dem grosssen Temple

Auguste Borget
 
Thomas Allom

Chapel in the great temple, Macao / Chapelle du grand temple de Macao / Kapelle in dem grosssen Temple, Macao. Este é o título das imagens acima e que correram mundo na primeira metade do século 19, sendo das mais conhecidas de Macau nessa altura.
O desenho - do Pagode da Barra/Templo de A-Ma - de Thomas Allom (1804-1872) - pintor, desenhador, arquitecto - foi publicado num edição de 1846 da "New York Illustrated Magazine of Literature and Art" acompanhado de um excerto do livro "China: In a Series of Views, Displaying the Scenery, Architecture" com desenhos de T. Allom e texto do reverendo George Newenham Wright. A edição do livro foi referenciada em várias publicações do Ocidente logo no ano em que ficou disponível, 1843, nomeadamente na revista londrina "Lady's Magazine".
O livro teria múltiplas edições, nomeadamente a de 1858 intitulada "The Chinese Empire Illustrated: Being a Series of Views from Original Sketches, Displaying the Scenery, Architecture, Social Habits, &c., of that Ancient and Exclusive Nation".
Não existem provas de que Thomas Allom tenha visitado a China - embora tenha viajado até ao Médio Oriente - pelo que os seus desenhos (dezenas...) foram baseados em trabalhos de outros autores que estiveram de facto na China e em Macau, apenas de passagem, ou ali vivendo durante alguns anos, como Chinnery e Borget. Certo é que Allom não se limitou a copiar e que foi responsável por criar a primeira 'imagem' da China no Ocidente na primeira metade do século 19.

sábado, 11 de março de 2023

Aparatos para a história do bispado de Macau

Quando o bispo D. Hilário de Santa Rosa* foi para Macau em 1742 - nomeado em 1740 - levou consigo quatro padres jesuítas, sendo um deles o Padre José Montanha. Nascido em Coimbra em 1708 ingressou na Companhia de Jesus em 1722. Chegaram a Macau no dia 5 de Novembro de 1742 e a tomada de posse foi a 12. Num documento da época pode ler-se:
"De acordo em distancia de sete legoas, tendo a Nau dado fundo com vento contrario defronte da Ilha dos Ladroens, escreve S. Exa. ao guardião de S. Francisco avizando-o que no seu Convento inteiramente se desejava recolher, e como chegasse primeiro a bordo dum escaler, ou escuna dos Padres da Companhia a buscar para terra quatro Padres seus que vinhão no mesmo navio, persuadido por elles S. Exa. se embarcou também, e por ser já tarde quando chegarão pernoitamos todos no Collegio de São Paulo, adonde S. Excia. foi com todo o applauzo recebido, sem que a tarde da noite fosse impedimento para o Governador desta Praça, Manuel Pereira Coutinho (1738-1743), lhe ter prevenido na praia uma companhia de soldados, e o seu Palanquim que não aceitou por hir com os padres; ao mesmo tempo se deu salva de artelharia. No dia seguinte e sedo se recolheu oculto ao Convento de S. Francisco, adonde foi comprimentado de todas as Relligioens, Clero, Senado e Nobreza desta Cidade. Esteve nelle perto de três semanas primorosamente assistido, em quanto se lhe preparavam casas para residir."
Tendo acesso aos arquivos do colégio de S. Paulo, o padre Montanha escreveu uma obra que intitulou "Apparatos para a historia eccleziastica do Bispado de Macao". O manuscrito elaborado entre 1749 e 1752 foi depois mandado para Lisboa (provavelmente uma cópia). Que eu saiba, nunca foi editado na íntegra. Contém uma das mais completas descrições da Igreja e do Colégio de São Paulo. Em baixo reprodução de duas páginas da obra manuscrita.
* Regressou a Portugal em 1750 e resignou em 1752 tendo morrido na pobreza em 1764. Durante os anos que esteve em Macau foi restaurada a igreja da Sé e o bispo foi muito crítico da escravatura, nomeadamente de crianças, chegando a escrever ao rei de Portugal Um retrato a óleo do bispo pode ser visto no Museu de S. Roque.
"Ano de 1603 em que se mudou o santíssimo sacramento para a igreja nova"
"Collegio de Macao"

Contexto:
A Companhia de Jesus foi reconhecida pelo Papa Paulo III em 1540. Pouco depois partiu do Vaticano rumo a Lisboa o padre jesuíta Francisco Xavier partiu para Lisboa de onde voltaria a partir para missionar no Oriente a 7 de Abril de 1541.
Os portugueses estabelecem-se em Macau por volta de 1557. Em 1567 o Papa Pio V designou o jesuíta D. Melchior Carneiro Leitão, Bispo de Niceia, para governar as Missões da China e do Japão. A Diocese de Macau seria criada a 23 de Janeiro de 1576 ficando anexada ao Arcebispado de Goa.

Alguns excertos dos "Aparatos":
As primeiras ermidas edificadas em Macau pelos jesuítas remontam a 1557, as de S. Lázaro e Sto. António feitas de "palha, como eram todas as casas de Macau", segundo o padre Montanha que acrescenta "como os chinas lhe punham fogo para furtarem (...) acudiram os moradores e fizeram a igreja de madeira e coberta de telha".

Muros da cidade cristã
"E pegado a ella (referência à Fortaleza do Monte) está hua porta que vai para o Campo de Moha, (Mong Ha) e desta porta vai correndo o muro das casas dos moradores athe S. António, aonde está outra porta para o ditto Campo, e na mesma forma vay correndo o muro para o Campo da Patane, aonde está hu postigo, e vindo de volta para a praya pequena, fica outro postigo que se fechou por não ser necessário, e do terceiro baluarte desta Fortaleza corre outro pano de muro para a parte de leste pegado ao Baluarte, aonde está o sino, aonde tem hum postigo para o Campo, e andando para o pano do muro a tiro de mosquete está a porta que vai para o Campo de S. Lázaro, e desta porta andando pelo muro a tiro de mosquete está um Baluarte (S. João) cô duas peças de ferro de 10 libras e na mesma conformidade a tiro de mosquete no mais alto d´esta muralha, e defronte da fortaleza da Guia está outro Baluarte cô huma pessa de ferro assistida para a porta da Fortaleza da Guia e dahi volta o muro para o sul em direitura ao convento de S. Francisco, e antes de chegar a elle tem hua porta que cahe para o mar, a qual se fecha todas noites (...)
Após um surto de peste bubónica, que teve origem nas habitações existentes próximo do baluarte (de S. João), no ano de 1895, foram queimadas as barracas com todos os haveres, e seguidamente construídas e alinhadas as ruas. Foi, então, desmantelado esse baluarte de S. João, que ficava no cruzamento da Travessa de S. João com a Rua da Colina. (...)

A primitiva ermida de Santo António
"E começou neste mesmo sitio em hua cazinhas térreas, mas mais abaixo junto de hua ermida de S.° António, e depois subirão ca p.ª cima, e vivendo de esmollas, cõ m.to poucos da, Gomp.ª até que andando o tempo e crecendo os da Comp.ª, digo e crecendo a povoação dos Portuguezes, e a Christandade em Japão, creceo tãbe esta Caza em numero de gente e edifícios.

Sobre a procissão em honra de S. Francisco Xavier
"Faz-se nesta Cidade em dez de Dezembro hindo na Procissaõ o Gouv.ºr e atraz do Palio com afua vella na maõ ; e entaõ o Prefeito da Congregaçaõ vay atraz da cherola do braço do Santo, e naõ hindo o G.ºr vay entaõ atraz do Palio cõ sua vella de cera na maõ.
Diante de toda a Procissaõ vaya Cruz grande que leva hum Irmaõ da Congregacam.
O Primeiro Guiaõ de Saõ Francisco Xavier Peregrino, e a cherolla de Saõ Joaõ Francisco Regis.
O Terceiro Guiaõ, e cherolla de Saõ Luis Gonzaga. O Quarto Guiaõ, e cherolla de Santo Estanslao Kostka. O Quinto Guiaõ, e cherolla dos Santos Martires de Jappam. O Sexto Guiaõ, e cherolla de Saõ Francisco Borja. O Septimo Guiaõ, e cherolla de Nosso Padre Santo Ignacio de Loyolla, Fundador da Companhia. O Oitavo Guiaõ, e cherollas das Santas Onze mil Virgens. O Nono Guiaõ, e cherollas de Saõ Miguel Arcanjo. O Decimo Guiaõ, e cherolla de Jesus, segue-se a sua Cruz, e confraria, e os Irmaons em ordem com as suas capas brancas, e tochas nas maons, e o Perfeito com a fua vara de prata na maõ, esta confraria lhe pafsou a Bulla o Papa Sixto Quinto. O Undecimo Guiaõ, e cherolla da Senhora da Annunciada com a fua Cruz, e os Irmaons estudantes com suas vellas nas maons. O Duodecimo Guiaõ de Sam Francisco Xavier, e cherolla com fua Reliquia do braço do santo, que levão quatro Religiozos da Companhia naõ Sacerdotes.
Ultimamente se segue a Commonidade com a sua Cruz. Depois o Palio. E atraz huma Companhia de soldados formados com seus oficiais"

sexta-feira, 10 de março de 2023

"Planta" de Macau na "Asia Portugueza" de Manuel de Faria y Souza

Não se conhece o autor da "Planta" de Macau inserida na "Asia Portugueza" de Manuel de Faria y Souza (1590-1649)*, português cavaleiro da Ordem de Cristo e da Casa Real. A obra, escrita em castelhano (Portugal estava sob domínio espanhol e as duas coroas ibéricas unidas), foi impressa em Lisboa no final do século 17 (1666, 1674 e 1675). Tem 3 tomos (volumes). A "planta" de Macau - desdobrável - está no 3º, publicado em 1675.
Sobre a população de Macau escreve-se que "Não é grande em número, como em qualidade, (...); terá até mil portugueses; povo lusida, tão poderoso em riquezas, e dos melhores da Índia."
Excerto** do tomo 3, Parte 3 capítulo 20:
"Escombrado el sitio con las armas en una mano y có los açado nes en otra, abrian las çanjas, a nueva Població q vino a tener el nombre de Macao, tan notorio entre todas las gentes aviendo dexado entre ellas èl del Nombre de Dios, q fue el q le dieron sus Fundadores
Esta fue la causa de q los Olandeses se empenasse siempre mucho en ganar esta Plaça,. (...) No es grande en numero, como en caliuad esta Poblacion. Tendrà asta mil Portugueses; gente luzida; como poderosa en riqueza, y de la mejor dela India (...)."

"Tendo desocupado o local com armas numa das mãos, e com azáleas na outra, abriram as valas, a uma nova população que veio a ter o nome de Macau, tão notório entre todos os povos, tendo deixado entre eles o Nome de Deus, que foi o que seus Fundadores lhe deram; (...); Esta foi a causa dos holandeses sempre se esforçarem para conquistar esta Praça,.(...) Não é grande em número, como em qualidade desta Vila. Terá até mil portugueses; gente brilhante; tão poderosa em riqueza, e o melhor da Índia (...)."
A "Planta" tem muitas semelhanças com esta, de meados do século 17.
Já no final do século 19 foi 'copiado' e acrescentadas legendas ao mapa publicado numa edição do "Ta-ssi-yang-kuo: archivos e annaes do extremo-oriente portuguez" 
(imagem abaixo)
Com o Porto Interior em primeiro plano, são representadas sobretudo as fortificações militares (Fortalezas do Monte, Guia, S. Francisco e São Tiago da Barro, por exemplo), as muralhas da chamada 'cidade cristã', não obstante incluir também uma representação dos edifícios com uso civil e religioso - dois cruzeiros e várias igrejas -  já construídos na cidade.
** o mesmo excerto encontra-se no livro acima referido.

quinta-feira, 9 de março de 2023

"Sto. Nome de Deus de Macau"

"Macau Terra de Lendas", da autoria de Hermengarda Marques Pintos, foi editado em 1955 pela Companhia Nacional de Educação de Adultos. Fazia parte do Plano de Educação Popular (contra o analfabetismo).
Inclui este 'mapa' com o título "Santo Nome de Deus de Macau"

Para além do Brasão (esquerda) e de uma caravela portuguesa, assinalam-se as ilhas da Taipa e Coloane e a península de Macau (Porta do Cerco, Pagode da Barra e Farol da Guia). Noutra cor, as ilhas da Lapa, D. João e Montanha, nesta altura já sob domínio da China.

quarta-feira, 8 de março de 2023

"Antigo Collegio de S. Paulo em Macau"

A primeira Residência dos Jesuítas em Macau foi fundada em 1565. Em 1572 foi-lhe acrescentada uma escola elementar. Esta viria a transformar-se no famoso Colégio de S. Paulo.
Tudo começou, pois, com uma escola de ler, escrever, contas e música, logo a partir de 1572. Em 1584 há registo de já haver aulas de Gramática e um total de 12 alunos. 
O Colégio de S. Paulo é aberto a 1 de Dezembro de 1594, passando a ter estudos de Teologia Especulativa, de Moral e um Curso de Artes com categoria universitária. Terá ainda dois Seminários para formação do clero japonês e chinês.
Por esta altura já estavam em marcha os planos para construir a Igreja Mater Dei / Madre de Deus que ficou pronta no Natal de 1603.

Em 1621 realizam-se as festas em honra da Beatificação de S. Francisco Xavier, proclamada em Roma a 25 de Outubro de 1619. A relíquia de um dos braços do Apóstolo foi oferecida à Província do Japão e instalada no Colégio.
Nas Actas da Congregação Provincial de 1654 pode ler-se:
"Macaense Collegium si parva magnis licet componere speciem quandam prae se fert Maximi omnium atque primarii Societatis Nostrae Collegii, Romanum dico, quod exteros qui de natione omni que sub coelo est illuc iugiter confluunt patria charitae complectiture, videre nanque saepius est in hoc Japponiae Provinciae Collegio non Lusitanos duntaxat sed Italos etiam per plures, Gallos item et Belgas, Allobroges, Germanos, Helvetios"
Ou seja, o colégio de S. Paulo em Macau, foi um dos mais importantes da Companhia de Jesus.
"O Colégio Macaense, se for permitido juntar os pequenos com os grandes, tem diante de si o maior de todos e o primeiro da Sociedade do nosso Colégio, quero dizer os Romanos, que os estrangeiros que de todas as nações sob o céu constantemente acorrem para abraçar o país da caridade, e vê-se muitas vezes neste Colégio da Província do Japão não só os portugueses, mas também muitos italianos, tanto os franceses como os belgas, os alobrogues, os alemães, os suíços"
Fotografia ca. 1870

Excerto da parte não oficial dos Annaes Maritimos e Coloniaes, nº 10 - 3ª série, de 1843:
Antigo Collegio de S. Paulo em Macau (refere-se na publicação de uma estampa /ilustração que não encontrei)
A Asia, com ser o berço sumptuoso da architectura religiosa, que ostenta em seus templos monumentaes e riquissimos pagodes o caracter do trabalho aturado e privativo de seus indigenas figura todavia pouco na resenha da architectura christã do globo. É portuguez, portuguez somente, o pouco que ahi ha a mencionar no genero architectonico e os orgulhosos dominadores que nos roubaram a posse do Oriente prégando a simplicidade do protestantismo curam mais de edificar cáes e alfandegas do que altares e templos. 
Pelos annos de 1565 os Jesuitas tinham em Macau uma pequena casa ou hospicio para servir de pousada aos seus Missionarios do Japão em quanto aguardavam a monção e junto desta casa na visinhança do assento actual da Igreja de Santo Antonio construiram elles uma Capella a qual com o hospicio foi annos depois consumida por um fogo.
Posteriormente andando o anno de 1662 edificaram os mesmos Padres e no mesmo sitio o celebrado collegio de S Paulo destinado para os cathecumenos do Japão para os cathecumenos da China era e é ainda hoje o de S José já não existe senão a fachada cuja é a estampa que apresentamos e que é em si mesma a sua mais exacta e brilhante descripção Ainda em uma das paredes se vê gravada a seguinte inscripção:
Virgini Magnae Matri
Civitas Macaensis Libens
Posuit An 1602
("A Cidade de Macau construiu esta Igreja em honra da Grande Virgem Mãe no ano de 1602")
São Paulo, alçado da fachada
Reproduzido do Journal of Oriental Studies, Vol. 1, Nº 2, July 1954, University of Hong Kong

Era fado das edificações dos Jesuitas nesta localidade que o fogo as devorasse! - Extincta aquella ordem ficou pertencendo ao Senado de Macau o collegio de S Paulo, o qual foi reduzido a cinzas em 26 de Janeiro de 1834 servindo então de quartel de tropa. - Tinham soado as seis horas da tarde quando o fogo começou d atear se e tão rapido lavrou que o primeiro quarto depois das oito immediatas foi para os desconsolados habitantes de Macau a despedida do grandioso relogio do collegio que o devia á munificencia de Luiz XIV. 
O antigo recinto da Igreja está presentemente convertido em cimiterio cujo frontispicio é a mesma fachada do collegio que bem se vê ter sido construida com abundancia de meios ainda que lhe falleça um gosto mais exquisito. Seu typo é o de todos os outros collegios, que os Jesuitas, por toda a parte espalharam e a sua grandeza e magnificencia um padrão do seu poderio e riqueza. E foi provavelmente erguido por algum irmão da ordem que aprendera por ventura as regras de Palladio e Barozzio e que seguio tambem as inspirações de sua imaginação e talento em que poucos delles eram, nesse tempo, mingoados. 
Se como se vê na estampa a magestosa fachada não é um modelo d aprimorado gosto nem uma pagina viva da historia da arte sob traços caracterisadores d um estylo propriamente dito a largueza e apparato da forma e o generoso da construcção lhe deram sempre a primazia sobre todos os edificios de Macau cujos habitantes se ufanavam da posse d um monumento afamado em todo o Oriente e que não podia contemplar-se sem pasmosa attenção! 
Quatro ordens de columnas com um entablamento coroado d'um pequeno frontão tudo profusamente ornamentado remates e pinaculos sem significação pronunciada e simbolos dispostos a arbitrio da fantasia do constructor que parece ter querido involve-los em mysterioso amalgame, eis o que nos dá o exame geral da fachada. A primeira e segunda ordem tem cada uma dez columnas jonicas na primeira compositas na segunda. A terceira ordem tem seis columnas corinthias e no meio a Virgem entre um coro d'Anjos e dos dois lados uma fonte e um cipreste acompanhados d'outros ornatos allusivos. A quarta só tem quatro columnas entre as quaes sobresahe a imagem do padroeiro do collegio e tudo isto fórma a base do frontão (com uma cruz no acrotério e dois postes aos lados) em cujo timpano apparece o Espirito Santo entre o sol e a lua. 
Na fabricação do cemiterio em que avisadamente se aproveitou o frontispicio do collegio e as paredes da Igreja demoliram se estas até meia altura e por meio de pilares dispostos parallelamente se construio na parte superior um passeio calçado de tijolo em toda a circumferencia. Por baixo abriram se catacumbas na parede e sepulturas no pavimento Aos lados da estrada principal do cemiterio se edificaram dois carneiros de abobeda para receberem as ossadas e no assento da Capella mór da Igreja queimada uma pequena Capella onde se depositam os cadaveres antes de se darem á sepultura. 
Todo o terreno interior està plantado de cedros. Paga-se uma taxa pelas sepulturas e catacumbas que reverte em beneficencia da Misericordia e junto ao cemiterio ha logar destinado para enterramento dos expostos. Esta obra tão util e tão recommendavel com a qual se converteu em tão santa applicação o que as chammas não poderam tragar desse edificio grandioso foi levada a effeito no anno de 1837 sob a direcção do Superior do collegio de S José o Rv do Joaquim José Leite e á custa do cofre da Misericordia."

terça-feira, 7 de março de 2023

Turistas dos cruzeiros no início do século 20

O primeiro cruzeiro da empresa Hapag nasceu de uma ideia puramente pragmática. Era o tempo dos grandes fluxos migratórios da Europa para os Estados Unidos. O Augusta Victoria, navio principal da Hamburg America Line (HAPAG) - demorava apenas 7 dias entre Southampton e Nova Iorque - passava o Inverno parado já que não fazia a travessia do Atlântico. 

Foi então que Albert Ballin teve a ideia de organizar um cruzeiro no Mediterrâneo durante esse período. A 22 de Janeiro de 1891, o Augusta Victoria partiu de Cuxhaven com 174 convidados da Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos e uma tripulação de 245 elementos. O cruzeiro de dois meses foi um sucesso estrondoso. Estava aberto o caminho para um negócio que levaria os navios da empresa aos quatro cantos do mundo. 

Entre as inúmeros mordomias a bordo dos navios cruzeiro da Hapag, havia uma fotógrafo oficial da empresa. Oswald Lubeck foi um deles, no início do século 20. Tirou fotografias memoráveis enquanto o navio  - o SS Cincinnati, por exemplo (imagem acima) - fazia escala de alguns dias em portos como Hong Kong ou Tóquio. 

Nesta fotografia de Lubeck pode ver-se um grupo de turistas - acompanhado pelos condutores de jerinxás - cerca de 1910-14, a visitar uma fortaleza em Macau.
Numa primeira análise pareceu-me ser a fortaleza de N. Sra. do Bom Parto, localizada logo abaixo do Hotel Boa Vista, onde muito provavelmente estes turistas ficaram hospedados. No entanto, pesquisas posteriores provam que a "Fortaleza do Bomparto" foi desmantelada por "Ordem à Força Armada" publicada no Boletim Oficial em Abril de 1892 sendo as peças de artilharia (vulgo canhões) distribuídos pelas restantes fortalezas.
Fortaleza de São Tiago (da Barra) em 1899
Photogravura de P. Marinho a partir de fotografia de Carlos Cabral
Assim, a hipótese que se afigura como correcta é a foto ter sido tirada da plataforma inferior da Fortaleza de São Tiago da Barra, edificada em 1622, sendo uma das mais antigas de Macau. Só foi 'desmantelada' do equipamento militar na década de 1930 e passou a funcionar como pousada na década de 1980. Recorde-se que por volta de 1910 já existia acesso a esta fortaleza por estrada do lado da Praia Grande. Foi quando ficou pronta uma avenida marginal - que recebeu o nome de Avenida da República - que passou a ligar o Porto Exterior ao Porto Interior por uma estrada costeira.

segunda-feira, 6 de março de 2023

The Popular Encyclopedia

Macao, a seaport and Portuguese settlement in southern China at the mouth of Canton river irregularly built on a high peninsula that terminates the island of Macao to the south and joined to it by a narrow isthmus north from the town. It occupies a slope gradually descending to the sea backed by a range of lofty hills and having an extensive plain stretching east. It is nearly surrounded with water and is open to the sea breezes on every side. The houses occupied by the foreign population are large roomy and open and the shops are numerous.
The quay or Praya Grande is commodious forms a pleasant drive and is protected by a battery. The harbour is formed between the peninsula on which the town stands and the large island Twee lien shan to the west Macao is considered the healthiest residence in South east Asia.
Near it in a beautiful garden is the grotto in which the poet Camoens is said to have finished the Lusiad. The settlement is about 8 miles in circuit and its limits landward are defined by a barrier wall stretching across the isth mus where a guard of Chinese troops is stationed to prevent foreigners from trespassing on the Inner Land.
The principal exports are tea, cassia and cassia oil, anise and anise oil and opium. The commerce which is chiefly carried on with Hong Kong, Canton, Batavia and Goa has greatly declined since the opening of the rival free ports and a considerable part of the colonial revenue which amounts to about 75,000 is drawn from a tax on the gambling tables for which Macao is notorious.
It was in 1557 that the Portuguese first obtained permission to form a settlement and to trade at Macao. From 1563 they were required to pay a yearly tribute to the Chinese government and their trading privileges were much restricted till 1844 when they were allowed to carry on commerce with the five ports then open to foreigners. Macao was then declared a free port but the Chinese continue to ignore the territorial claims of the Portuguese. Till 1868 Macao was the seat of an infamous Coolie traffic which was winked at by the Portuguese authorities. In that year the English interfered and since then a check has been put to the worst of the barbarities formerly connected with the traffic. Pop. about 72,000.
in The Popular Encyclopedia: A general dictionary of arts, sciences, literature, Vol. 8, de Charles Annandale. 
Esta enciclopédia começou a ser publicada em Inglaterra no ano de 1817. Tem um total de 14 volumes. Teve várias edições, revistas e aumentadas, ao longo dos anos. Entre as múltiplas ilustrações incluídas, contam-se diversos mapas. No da Ásia, de que apresento apenas uma parte, assinalei a localização de Macau.
Os dado apresentados relativos a Macau indicam que a presente edição é de ca. 1870.
Excerto de um mapa do final do séc. 18
(não incluído na obra referida)
Ao centro a baía da Praia Grande

Tradução
Macau, porto marítimo e assentamento português no sul da China, na foz do rio Cantão, construído irregularmente numa península que termina na ilha de Macau ao sul e ligada a ela por um estreito istmo ao norte da cidade. Ocupa uma encosta que desce gradualmente para o mar, apoiada por uma cadeia de altas colinas e possuindo uma extensa planície que se estende a leste. É quase rodeado de água por todos os lados e está aberto à brisa do mar por todos os lados. As casas ocupadas pela população estrangeira são grandes, espaçosas e abertas e as lojas são numerosas.
O cais ou Praia Grande é amplo, forma um passeio agradável e é protegido por uma bateria/fortaleza. O porto fica entre a península onde fica a cidade e a grande ilha Twee lien shan, a oeste. Macau é considerada a zona mais saudável do Sudeste Asiático.
Perto dela, num belo jardim, encontra-se a gruta onde se diz que o poeta Camões terminou os Lusíadas. O assentamento tem cerca de 8 milhas de circuito e seus limites em direcção à terra são definidos por um muro que se estende pelo istmo, onde uma guarda de tropas chinesas está estacionada (Porta do Cerco) para impedir que estrangeiros invadam o continente chinês.
As principais exportações são chá, cássia e óleo de cássia*, anis e óleo de anis e ópio. O comércio feito principalmente com Hong Kong, Cantão, Batávia e Goa diminuiu muito desde a abertura dos portos francos rivais e uma parte considerável da receita colonial que ascende a cerca de 75.000 é retirada de um imposto sobre o licenciamento do jogo, aspecto pelo qual Macau é bastante conhecido.
Foi em 1557 que os portugueses obtiveram pela primeira vez autorização para constituir povoação e comércio em Macau. A partir de 1563, foram obrigados a pagar um tributo anual ao governo chinês e os privilégios comerciais foram muito restritos até 1844, quando foram autorizados a fazer comércio com os cinco portos então abertos aos estrangeiros. Macau foi então declarado porto franco, mas os chineses continuam a ignorar as reivindicações territoriais dos portugueses. Até 1868, Macau foi a sede de um infame tráfico de cules, que foi ignorado pelas autoridades portuguesas. Naquele ano os ingleses interferiram e desde então foi posta em causa a pior das barbaridades anteriormente ligadas ao tráfico. Pop. cerca de 72.000.
* típica da Ásia, com sabor semelhante à canela.