terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O "Trânsito de Vénus" de 1874

No início de 1873 os dois mais conceituados astrónomos portugueses, Frederico Oom e João de Brito Capello são nomeados pela "Classe de Sciencia" da Academia de Sciencia de Lisboa para elaborarem uma proposta de deslocação a Macau de forma a que Portugal participasse na observação do trânsito de Vénus, que teria lugar em 8 de Dezembro de 1874. O território fica na área de melhor observação do fenómeno astronómico raro - Vénus passa frente ao Sol provocando um pequeno eclipse visto da Terra (a última vez ocorreu em 2012) - e tinha a vantagem de pertencer a Portugal.

No relatório dos dois cientistas portugueses explicam que o mundo astronómico se preparava para a observação com recurso a instrumentos mais aperfeiçoados e auxiliados pela "telegraphia eléctrica", para a determinação rigorosa da longitude, e a "photographia" para registar "fielmente as phases do phenomeno". É ainda explicado os investimentos que estavam a ser feitos por países como os Estados Unidos, Inglaterra, França e Rússia.
A estes dois homens junta-se um outro, César Augusto de Campos Rodrigues, marinheiro que esteve em comissão em Macau durante 4 anos a bordo da lancha Amazona por volta de 1860. O seu interesse pela ciência era tal que fará uma recolha de registos meteorológicos numa viagem de 160 dias entre Lisboa e Macau a bordo do brigue Mondego.

Parte do "Orçamento das despesas da Expedição a Macau"
Total das despesas previstas: 8:809$000

A expedição a Macau seria autorizada por ofício do Ministério do Reino de 3 de Julho de 1873 e até se criam equipamentos especiais para o efeito (Campos Rodrigues, engenheiro hidrógrafo desde 1865, é nomeado observador nesta missão e cria o 'revólver fotográfico'), mas a expedição chumba no parlamento que não dá autorização para as despesas e nem a viagem nem as observações acontecem.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Topographia e Orographia de Macau

Topographia e orographia de Macau
A pequena possessão portugueza da China na linguagem de Faria e Sousa era uma pequena ilha arida e em grande parte semeada de rochedos que a tornavam facil de defender e propicia para aquelles que se dedicavam á pirataria. As grutas formadas pelos seus rochedos serviam de refugio a numerosos bandidos que d alli saiam a infestar as ilhas visinhas. Alvaro de Semedo na sua Relação da China referindo se á ilha de Macau a que os chinezes chamavam Gauxau diz que é pequena e por tal forma cheia de rochedos que é facil de defender e por isso mesmo muito propria para covil de bandidos. Sonnerat na sua viagem ás Indias Orientaes e á China refere que os portuguezes em premio das suas victorias sobre os piratas obtiveram uma pequena ilha secca e arida á entrada do Rio de Cantão na qual edificaram Macau. Froger na Relação da Primeira Viagem dos francezes à China diz que Macau está situada na ponta d uma grande ilha.
As proprias chronicas chinezas escrevem que sob o reinado da dynastia Ming tendo vindo negociar a Cantão alguns navios portuguezes lhes fôra permittido construir cabanas nas ilhas exteriores para alli residirem cabanas que eram demolidas depois da partida dos navios mas que depois que S. M. Imperial decretara que todos os annos se percebesse d elles um direito territorial foi então que começaram as edificações de casas em Macau.
Todos estes extractos da interessante Memoria sobre a soberania territorial de Portugal sobre Macau do sr Nogueira Soares são accordes em que o terreno da nossa colonia Macaense era uma ilha exterior deshabitada secca arida pedregosa e accidentada.
Seria pois uma ilha ou já uma peninsula no estabelecimento aqui dos portuguezes. Parece me provavel que tivesse na verdade sido anteriormente uma ilha mas já em 1557 transformada em peninsula pelos depositos das aguas e cujo isthmo fosse talvez ainda coberto pelas prea mares.
Hoje este isthmo é formado de terrenos alluviaes modernos e de areias soltas. Extende-se primeiro na direcção geral de N a S e na extensão de 720 e largura de 200m. Alargando-se depois rapidamente para E a sua direcção geral inclina se um pouco para 0 e prolonga se na extensão de 3 650m. Do lado oriental a costa irregular recortada de bahias e de restingas salientes é banhada pelas aguas do mar da China e do lado occidental pelas aguas do porto interior que consiste no pequeno canal que separa as ilhas de Sham chau da da Lapa.
A grande bahia de D Maria Il é limitada por um pequeno cabo coroado pelo Forte do mesmo nome formando ao S a bacia de Cacilhas á qual se segue uma costa muito pedregosa e accidentada na direcção geral de NE e na extensão de 2 400m até á restinga de S Francisco onde se abre novamente a bahia da Praia Grande separada das pequenas bahias do Mainato e do Bispo pelas restingas do Bom Parto. Da nova restinga do Tanque Mainato ou de Sancta Sancha continua a costa pedregosa e accidentada até voltar para Poente tornear a Fortaleza da barra e seguir para o N ao longo de todo o porto interior actualmente regularisado por um muro do caes que affecta uma curvatura geral de grande raio na direcção da Ilha Verde. 
Mapa de 1889
Este pequeno rochedo conico mas vestido de verdura levantava se no meio d um consideravel alargamento do canal interior mas hoje acha se quasi ligado com a terra pelos grandes depositos de vasa que as aguas alli têm deposto.
A peninsula mede pois approximadamente na sua maior extensão 4 400 e na maxima largura 1 680 metros sendo a sua area de cerca de 330 hectares aos quaes dentro em pouco se lhe addicionarão mais 100 a 150 em estando mais adiantado o grande assoriamento do canal que separa a Ilha Verde do Isthmo e das Portas do Cerco ou mais 360 se se executar o projecto de que adiante tractarei.
Esta pequena lingua de terreno é grandemente accidentada e formada d uma serie de pequenos outeiros ou pincaros de rocha d entre os quaes as alluviões e os depositos das aguas d oulras epochas formaram planicies que constituem hoje varzeas para a cultura de hortas e de arrozaes Aquellas pequenas collinas quasi todas coroadas por fortalezas podem contar se distinctamente em numero de oito sem regularidade alguma geometrica na sua distribuição como é usual em terrenos primitivos e de origem ignea. 
São estas as da Fortaleza do Cerco com a altitude maxima de 55, a do forte de D Maria II com a de 50, a do Pharol da Guia com a de 93m atraz da qual se extende uma pequena planura de proximamente 38m de altitude a da Fortaleza do Monte com a altitude de 40m a do Forte de S João com a de 68 a de S Lourenço com a de 22 a da Senhora da Penha com a de 75m e finalmente a do Forte de S Thiago da Barra com a de 77m.
Dentro em pouco deverá addicionar se lhe a da Ilha Verde que deve ter a altitude de 49m. Estas altitudes sobre o nivel medio das aguas são extrahidas da carta de Macau levantada em 1865 e algumas grosseiramente apreciadas por um nivelamento barometrico para o qual me servi d um barometro aneroide portatil. As varzeas cultivadas e que pouca importancia agricola têm pela sua pequenez são situadas na parte mais larga da peninsula e podem medir 40 a 60 hectares. A porção pedregosa improductiva e montanhosa andará por 60 a 70 hectares. Finalmente a superficie edificada e a das suas ruas estradas jardins e cemiterios orçará por 200 a 210 hectares.
in "O Porto de Macau: ante-projecto para o seu melhoramento", Adolpho Loureiro, Coimbra, 1884 (escrito em Macau nesse ano) 
Nota: Imagens não incluídas no livro.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Anúncio: 1845

"O Bacharel em Medicina, Adelino António das Neves e Mello, julga de seu dever, e honra, vistos estar prestes a retirar-se desta Cidade para Portugal, avisar ao público, que se houver alguma pessoa a quem elle esteja devedor de qualquer quantia, a poderá ir exigir à sua Caza sita na Praia do Manduco, contando o prazo desde a data deste anuncio até ao último do corrente mez; afim de que lhe possa ser satisfeita, e para que a todos chegue este avizo mandou inserir neste Periódico. Macao 1 de Dezembro de 1845."
Adelino António das Neves e Mello formou-se em Medicina em Coimbra (1835) ocupou o cargo de Físico-Mor na Índia e em Macau. Foi ainda sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa. Publicou em Coimbra no ano de 1882 uma brochura de 30 páginas intitulada "O estudo da historia segundo os processos scientificos de Henry Thomas Buckle".
Curiosidade: Adelino era casado com uma filipina (D. Domingas Carneiro de Mello)  tendo o filho nascido na viagem de Macau para Lisboa a 6 de Maio de 1846 junto à ilha de Santa Helena.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O Anno Novo China... em 1851

No nº 13 do Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor publicado a 15 de Fevereiro de 1851 (um "sabbado") é publicado - na "Parte Não Official" - um artigo sobre o ano novo chinês. Um relato feito no português que se usava em meados do século XIX e que aqui se reproduz na íntegra.
"O dia primeiro de Fevereiro da era christã foi neste anno o primeiro dia do anno novo china, do qual só agora começam a contar o reinado do actual imperador, que na língua mandarina se diz Hien-Fong, e no dialecto de Cantão Ham-Fon.
É do estilo dos Chinas continuarem a datar seus escriptos em referencia ao anno do reinado do ultimo Imperador até ao fim daquelle em que fallece, como se vê do Edicto imperial transcripto noutra parte desta Folha.
A aproximação e principio do anno novo é para os Chinas a mais solemne e importante epocha. Há a obrigação então de ajustar as contas; de pagar todas as dívidas; desempenhar as hypothecas ou penhores, etc. e o credor inexoravel não deixa a caza do seu devedor remisso, até ao momento de bater a meia noite, que termina o anno velho: momento mágico, e o mais delicioso para os tristes devedores; pois nelle se opera uma transformação completa.
Das mais assíduas e dezabridas exigencias; das mais renhidas disputas; do mais violento ódio e ameaças - passam os authores e pacientes destas scenas às mais cordiaes zumbaias e congratulações.
O devedor conta então com um alivio ou folga, que se estende muitas vezes até ao seguinte novo anno, succedendo tãobem frequentemente fazerem-se grandes abatimentos nestas dividas: em summa elle sente-se transportado de repente a uma nova situação nos seus meios de viver.
Não há povo algum na terra onde haja tanta confiança mútua, e facilidade de venderem a crédito, ou de fazerem fornecimentos, e obras a pagar a longos prazos, e mesmo empréstimos de dinheiro, quazi sempre sob palavra, ou simples escipto particular.
Estas disposições tãobem as extendem aos estrangeiros, mas infelizmente muitos destes as têm diminuido, por abuzos repetidos de boa fé.
Voltando porém a fallar do anno novo, diremos que o primeiro dia delle é de jejum geral para todos os Chinas, e o unico que elles tem tãobem geral de guarda ou suspensão de trabalhos corporaes, e de toda a qualidade de serviços.
Todas as lojas ou boticas se fecham; não há tranzacções algumas, e só os absolutamente miseráveis se entregam a algum serviço ou venda para grangearem o sustento.
Todas as embarcações recolhem aos portos a descançarem mais ou menos dias, embandeiradas, e tocando suas bategas.
A Macao concorreram este anno mais que nos precedentes, e dozentas ou mais ancoradas apinhadamente no rio, e todas com os seus lampiões no gosto china (da forma de balões, d euma espécie de gaze gomada e, transparente e diversamente pintada, que contem a luz), produziam um lindo effeito na noite de 31 de Janeiro e seguintes, e tãobem na mesma noite igual illuminação, e muita diversidade de lanternas de variados feitios e ornatos e lustres, esclareciam todas as boticas do Bazar, mui curioso de se vizitar nestas occasiões.
À meia noite estrondoza bulha de panxões, conhecidos em Portugal pelo nome de estallos da China, annunciava a entrada no novo anno.
Os Chinas gastam estes panxões em profusão nas suas festas e correspondem aos foguetes do ar na nossa Pátria.
Todos os Chinas no primeiro dia do anno aparecem com os melhores fatos que teem, ou que compram para estes dias, durante os quaes se vizitam, banqueteam, e jogam; prolongando por mais ou menos tempo estas férias e regallos, segundo as possibilidades de cada um, chegando os mais ricos a fazellas durar de quinze a trinta dias.
Entre os Chinas de Macao se passou esta notavel epocha, com a maior quietação, tanto no mar como na terra.
No Bazar reinou a melhor ordem: patrulhas dobradas o percorreram constantemente nestes dias, e nem um só roubo ou perturbação teve logar, couza bem admirável entre os Chinas nestas ocasiões, em que delliberadamente concorrem os ladrões de terra e mar, aos Bazares para roubarem quanto podem. 
Tão louvavel e raro socego e segurança foi devido ao bom serviço dos nosso soldados, dirigido pelas acertadas providencias do Procurador desta Cidade o Sr. Lourenço Marques, ao qual os Chinas manifestam o maior affecto e gratidão, gozando entre elles de grande veneração por estes benefícios, e pela recta e inteiramente gratuita justiça que lhes administra.
Na verdade a Cidade de Macao muito está devendo ao seu digno Procurador, pela maneira com que desempenha as importantes funcções do seu cargo, fazendo amar e preferir pelos Chinas, tão sequiosos da justiça que não têm entre os seus, a administração pública deste Estabelecimento."

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

"Cidadela de Macau"

Vista panorâmica na década 1950 (cima) e planta do século 18 (baixo)
"Esta fortaleza foi construida no anno de 1626*. Tem actualmente cincoenta e uma peças de artilheria, sendo sete de bronze e as outras de ferro. Quarenta e oito estão montadas e tres apeadas. Cinco das de bronze são de fundição macaense. Uma destas é de calibre 36, foi fundida em 1626, e acha-se montada. Duas são de calibre 30 foram fundidas em 1627, e uma está montada, e outra apeada. As duas ultimas finalmente foram fundidas no mesmo anno de 1627 e acham se apeadas sendo uma de calibre 28 e outra de calibre 12. O fundidor foi Manoel Tavares Boccarro. Este esclarecimento foi extrahido de umas inscripções que estão gravadas nas mesmas peças. 
Esta fortaleza, chamada tambem a Cidadela de Macau, foi em outro tempo a residencia dos governadores da colonia; hoje é commandada pelo sr major José Antonio da Costa, cavalleiro da ordem de Christo e condecorado com a medalha nº 2 das campanhas da liberdade."
* referência à conclusão das obras iniciadas em 1617.
Texto de 1866

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

As seculares árvores de pagode

"Sangra-nos o coração ao ver que hoje pouco ou nada resta das solarengas casas apalaçadas da Praia Grande, que em idade rivalizavam com as centenárias árvores de pagode (banyan trees)"... 
Assim escrevia monsenhor Manuel Teixeira na sua 'bíblia', a Toponímia de Macau. De facto, das casas apalaçadas pouco resta, mas muitas das chamadas árvores de pagode - o nome deve dever-se ao facto destas árvores serem habituais nos templos - ainda hoje existem fazendo jus ao adjectivo "centenárias". Existem várias espécies destas árvores em Macau sendo as mais habituais a Lagerstoemia Indica e a Ficus Microcarpa, também conhecida como baniana chinesa.

Árvore de Pagode no Jardim de S. Francisco.
Foto de McKay Savage. 2006

A imagem de cima é do Jardim de S. Francisco, o primeiro jardim público de Macau que remonta a 1861. Cingindo-me só a zona da baía da Praia Grande, onde ainda existem mais de uma centena destas árvores de grande porte, importa dizer que até ao início da segunda metade do século 19 a orla da Praia Grande não tinha praticamente nenhuma árvore. Foram plantadas algumas, a posteriori, e que depois seriam arrasadas com o tufão de Setembro de 1874.
Na imagem acima - de ca. de 1890 - podem ver-se as árvores, hoje centenárias - plantadas após o tufão de 1874 junto ao Palácio do Governo. Um testemunho de 1892 pode ser lido aqui.
Consultando algumas edições da década de 1890 d'"O Occidente: revista illustrada de Portugal e do extrangeiro" pode ler-se:
"A arteria principal de Macau é a Praia Grande, que se acha povoada de elegantes edificações de architectura europea. (...) As babitações dos Europeus são d'aspecto agradavel, ha algumas mesmo notaveis pelo tamanho e bom gosto, quasi todas as da Praia Grande teem os seus jardins e ostentam na fachada da frente grandes varandas ou galerias. O palacio do Governo, antiga habitação dos Barões do Cercal e o actual edificio dos tribunaes, ex palacio do Governo, são edifícios dignos de especial menção".
Já nos primeiros anos do século 20 o "Ta-ssi-yang-kuo" destaca a fama da baía da Praia Grande: (...) Toma-se um rikchá com um par de cules puxadores e passa-se ao longo da Praia Grande sob a sombra das bellas e antigas arvores de pagode, pendentes sobre o attrahente boulevard que orla a pequena bahia, que dá tão grande fama à colónia. (...)"
Em 1927, num texto sobre as obras do novo porto, João Carlos Alves também elogia a beleza da baía: "A larga Avenida que a circunda, orlada de árvores seculares, constitue um dos melhores passeios da cidade."
Década 1960: já com porte significativo

Num texto em inglês, de 1946, referem-se as "banyan trees" (Ficus benghalensis / Ficus Microcarpa (Figueira asiática)):
"A broad avenue, the Praia Grande, follows the curving eastern shore line of the peninsula. Government buildings and large, beautiful homes, many of south European design, rim its landward edge. Sprawling banyan trees paralleling the sea wall cast ragged shadows across the wide roadway."
Já na segunda metade do século 20 as majestosas e frondosas árvores de pagode também não foram esquecidas por Henrique de Senna Fernandes em alguns dos seus livros.
Na obra Nam Van: "A Praia Grande esvaziava- se e ficavam só os embalos do mar de encontro às pedras da muralha, o sussurro das árvores de pagode, ao sopro da viração."
Na obra Mong-Ha: "A baía da Praia Grande fazia ali a mais graciosa das curvas e o mar rumorejante batia junto às árvores de pagode, nos seus eternos soliloquios. (...)
Eu gostava muito da parte superior do Jardim de S. Francisco, paredes-meias com a Rua Nova à Guia. A área era mais larga que hoje, cobria a Calçada do Quartel que não existia, e estava separada da ala das residências dos oficiais, por um muro formando beco. Havia ali um jardim frondoso e bem tratado com áleas, onde se aprumavam frangipanas e bauínias entre arbustos e outra vegetação. As frangipanas davam as chamadas "flores de S. João" branco-amarelas, de cheiro capitoso. As bauínias abriam as suas flores arroxeadas ou róseas na Primavera e eram um regalo para os olhos. As champacas misturavam-se com as roseiras. Sebes de camélias e damas-da-noite dividiam os caminhos. Pairava no ar uma confusão de aromas inebriantes. De manhã à noite, desbobinava-se a sinfonia zangarreante das cigarras, em labor incansável, desmentindo a fábula conhecida. Nos bancos verdes e já veneráveis, sentavam-se os anciãos chineses que traziam, em gaiolas grandes e pequenas, algumas artisticamente ornamentadas, os seus pássaros favoritos - rouxinóis, chevites, melros, canários e outros - que trinavam à compita com a passarada livre, derramada pelas árvores."
Árvores frondosas, também existem, por exemplo, ao longo da Avenida da República, sendo ali plantadas no início do século 20.
Curiosidade: Na toponímia macaense existe a Rua das Árvores do Pagode. Em 1887 o governador Tomás de Sousa Rosa levou a cabo uma grande acção de florestação do território tendo sido plantadas 60 mil árvores, segundo o Conde de Arnoso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A antiga igreja da SCM

Se não fossem os desenhos de George Chinnery de meados do século 19 não teríamos qualquer representação gráfica da antiga Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Macau, instituição fundada em 1569 por D. Belchior Carneiro com o objectivo de dar à população serviços de beneficência e assistência (apoio a órfãos e viúvas de marinheiros perecidos no mar). Tinha funções semelhantes às da Associação de Caridade da Nossa Senhora de Portugal, fundada pela rainha D. Maria, daí o nome "Santa Casa da Misericórdia".
D. Belchior Carneiro, pouco tempo depois de fundar a Misericórdia, abria um hospital, "onde se admitem tanto cristãos como pagãos", segundo escreve o próprio numa carta ao Geral da Companhia de Jesus, datada de 20 de Novembro de 1575. Chamou-se hospital dos pobres e só por volta de 1800 ficaria conhecido pelo nome de S. Rafael.
Desenhos de G. Chinnery em 1833 (em cima) e 1839 (em baixo)

A igreja foi construída em 1569 e demolida em 1886. Segundo Pedro Dias: "A fachada era dominada pela empena triangular da igreja privativa, dotada de um portal sobrepujado por uma janela de sacada e por um nicho ou baixo‐relevo, tudo de estilo clássico. À esquerda levantava‐se uma pequena torre e à direita as outras instalações privativas. A frontaria era muito simples e despojada, com as quatro grandes janelas do andar alto, com molduração de cantaria e um portal de aparato a meio, de desenho clássico. A construção era de carácter ocidental, dentro dos parâmetros das Misericórdias das vilas de média importância que existiam no Portugal do século XVII. O conjunto dos edifícios incluía um pátio, à volta do qual se organizavam as dependências, como o cartório e as casas dos expostos."

Um baixo-relevo da antiga Igreja actualmente colocado no edifício do IACM (ex-Leal Senado)


Ainda de acordo com Pedro Dias... "Cerca de 1905 foi dado à frontaria o aspecto neo‐clássico que esteve em voga em Macau durante quase todo o século XIX. Avançou‐se o corpo médio, que foi coroado com um grande frontão de raiz clássica. No piso térreo construiu‐se um átrio, hoje em dia mais utilizado como arcada de passagem, como acontece com quase todas as construções do Largo do Leal Senado. No andar nobre foi aberta uma varanda de aparato. No interior pouco resta de antigo, dadas as necessidades de adaptação às funções de assistência dos novos tempos.
Igreja SCM na actualidade. Foto Agência Lusa 

O Compromisso de 1627 é considerado o primeiro 'regulamento' da Misericórdia de Macau.
Das várias misericórdias que existiram na Ásia, a de Macau é a única que ainda existe.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Foto-Legenda: Ponte-Cais nº 16

 Mais informações e fotos da Ponte-Cais nº 16 aqui e aqui
Junção da Rua das Lorchas com a Rua Visconde Paço de Arcos, Porto Interior.
Nota: o edifício ainda existe mas desapareceram os caracteres chineses e a inscrição "1948".

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Datas no Arco da Porta do Cerco

A primeira Porta do Limite ou Porta do Cerco remonta ao século 16, mas a mais conhecida, porque ainda hoje existe, foi construída na segunda metade do séc. 19.
Dedicado à memória do Governador João Maria Ferreira do Amaral, bem como à tomada do forte de Passaleão por Vicente Nicolau de Mesquita, no Arco da Porta do Cerco encontram-se quatro lápides, duas no exterior e outras duas no interior. As duas primeiras evocam as datas do assassinato de Ferreira do Amaral - 22 de Agosto de 1849 - e a tomada do forte de Passaleão - 25 de Agosto de 1849. Nas outras duas encontram-se gravadas as datas de 22 de Agosto de 1870 e 31 de Outubro de 1871, respectivamente, a data do início da construção e a data da inauguração.
Na década 1980
O Brasão que entretanto 'desapareceu'
Séc. 21 

No topo está gravado o lema da marinha portuguesa: 
Excerto do Boletim da Província de Macau e Timor, 31.5.1873
"Arco das Portas do Cerco. Obra construida segundo o plano que achamos delineado tendo sido inaugurado o seu acabamento por ordem do governo da colonia no dia 31 de outubro anniversario natalicio de Sua Magestade Fidelissima El Rei o sr D Luiz I. Este arco construido no caminho principal que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado à memoria do benemerito ex governador João Maria Ferreira do Amaral e á tomada do forte de Passaleão conforme se acha publicado no Boletim Official do governo nº 44 de 30 do referido mez (1871)".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Indústria de Panchões: uma história ilustrada

Nesta sequência de 20 fotografias tiradas na década 1950 por Harrison Forman (1904-1978) apresento alguns dados sobre a indústria de panchões em Macau que tem uma história com mais de um século.
Fotógrafo e jornalista dos EUA, Forman trabalhou durante várias décadas no Médio e Extremo Oriente (incluindo China e Tibete) tendo trabalhos publicados em títulos conceituados como o jornal New Yok Times e a revista National Geographic.