sábado, 19 de setembro de 2026

Memórias da comissão militar de José Rosa (1969-1971)

José Rosa tinha 21 anos quando chegou a Macau como militar. Numa rendição individual partiu de Lisboa a bordo do navio Timor - Companhia Nacional de Navegação - a 26 de Dezembro de 1969, uma sexta-feira. Atracado no cais da Rocha Conde de Óbidos, o Timor impressionava com 131 metros de comprimento, 7656 toneladas de arqueação bruta e lotação para 387 passageiros e 120 tripulantes.
A bordo seguiam mais cerca de 200 militares. A maioria ficou alojada no porão. Uns iam para Macau outros para Timor, o destino final (Dili). Desde 1967, com o encerramento do Canal do Suez, passou a seguir para o Oriente pela rota do Cabo da Boa Esperança (África) com escalas em Angola e Moçambique. José Rosa fez escala no Lobito (onde visitou a irmã), Luanda, Beira e Lourenço Marques. Ao fim de 48 dias o Timor lançou âncora em Hong Kong. Da então colónia britânica quem tinha como destino Macau podia viajar nos novos hydrofoils ou nos mais velhinhos ferries a vapor, como o Fat Shan, o Tai Loy ou o Tak Shing. A viagem demorava cerca de 3 a 4 horas. Os militares seguiam nos mais baratos e mais lentos ferries. 
Troço final da Av. Almeida Ribeiro nos anos 1970
ilustração criada por IA a partir de fotografia

Quando atracou no Porto Interior, já era noite cerrada daquela quinta-feira 12 de Fevereiro de 1970. Ainda deu para ver o bem iluminado casino flutuante denominado "Casino de Macau".
José Nobre de Carvalho era o governador promovido a general em Novembro de 1970. Os trabalhos para construção da ponte, a primeira a ligar Macau à Taipa, estavam prestes a começar. Uma ponte que haveria de receber o nome do governador... Mas isso seria apenas em Outubro de 1974. Em 1970 ainda pairava no ar a tensão dos momentos quentes da Revolução Cultural chinesa vividos de forma mais intensa entre 1966 e 1967.
Dos tempos de serviço José Rosa recorda fazer rondas com os carregadores vazios, dos corpos de chineses que surgiam junto à costa, afogados, ao tentarem entrar em Macau a nado.
J. Rosa frente ao Hotel Lisboa onde se destaca o trabalho artístico de Francisco Borboa
À chegada o Hotel Lisboa ainda cheirava a novo. Tinha sido inaugurado poucos dias antes, a 3 de Fevereiro, a tempo de aproveitar os festejos do Ano Novo chinês (Ano do Cão). O Lisboa dava também para matar saudades da metrópole, como se dia na altura. Havia comida portuguesa e por vezes sessões de fado. Na gastronomia portuguesa o Lisboa podia ser novidade mas a qualidade a preços mais acessíveis conseguia-se no Ruby, Belo, Safari, Fat Siu Lau, Solmar... No casino os militares não estavam autorizados a entrar, mas podiam ver e jogar nas máquinas de diversão e no bowling. Ou então assistir às corridas de galgos no Canídromo, na época muito concorridas.
O novo e majestoso edifício contrastava com uma urbe que mais parecia uma pequena vila onde as diferentes comunidades pouco conviviam e os militares, não sendo hostilizados, eram olhados com desconfiança. No Porto Exterior, depois da curva dos pescadores, junto ao Reservatório, ainda havia as "barracas de banho".
Um maço de cigarros custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. As marcas eram muitas. Muita oferta tal como nas salas de cinema: Apollo, Nam Van, Vitória, Lido, Capitol, etc...
Na baía a Praia Grande ainda abundavam os pontos de pesca artesanal (umas canas de bambú compridas e com redes agarradas), nomeadamente junto ao Hotel Caravela, na Av. da República.
As saudades de Portugal podiam ser atenuadas em momentos como os que ocorreram em Agosto de 1970 quando no Jardim de Camões actuou (dia 16) a Tuna Académica de Coimbra e a Orquestra de Câmara Carlos Seixas, sob a direcção de Tobias de Lurdes Cardoso... ou quando a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica fez dois jogos (dias 20 e a 22) no Campo 28 de Maio (Canídromo) tendo vencido a selecção local por 4 golos e a selecção de Hong Kong por 7 golos sem resposta. Num jornal da Companhia de Polícia Militar da época pode ler-se:
"Tu vieste a esta pequena parcela do Território Nacional, modificar-lhe a sua maneira de viver durante cinco dias. Tu, Benfica, foste um verdadeiro embaixador da Mãe Pátria. Vieste aqui e todos te reconhecem como um grande no desporto. na correcção e na socialidade. Esse abraço que trouxeste, a nós militares, de todos os portugueses - que tão longe se encontram de nós - não será facilmente esquecido. A nós, militares, foi uma alegria e honra ver a tua atenção para connosco e mesmo procurar a nossa companhia. Nunca nos esqueceremos da fantástica lição de futebol e correcção que deram. Saíste vitorioso do campo, depois de teres feito abrir a boca de espanto e admiração à grande maioria da assistência. Aquele aceno amigo que fizeste no princípio do jogo também não será esquecido... Por tudo, Benfica, por nos teres dado a grande alegria de ver o teu futebol, pela tua correcção, pela tua socialidade e pelas atenções que tiveste com todos os militares, o nosso Obrigado."
Em plena guerra colonial no Ultramar, a José Rosa coube cumprir o Serviço Militar Obrigatório em Macau, um território pacífico, exótico e isolado no Extremo Oriente, escapando à mobilização para a frente de combate em África. Talvez por ser Operador de Rádio, função que ocupou integrado no destacamento de manutenção instalado nas denominadas "Barracas Metálicas" do Quartel de Mong Ha tendo como comandante o capitão Alberto Pereira.

Ao fim dos dois anos de comissão José Rosa regressaria de avião a Portugal em 1971. De Macau ainda levou a recordação de ter participado no Grande Prémio, prova onde os militares serviam por exemplo como 'bandeirinhas' de pista.
PS: Artigo escrito depois do filho de José - Pedro Jorge Rosa - ter-me contactado. Com 78 anos e alguns problemas de saúde, o pai, embora queira - e muito - já não se recorda de muita coisa. Este artigo visa o reavivar da memória e também encontrar antigos militares que tenham estado em Macau na mesma época para troca de impressões com José Rosa. Quem o pretender basta usar os contactos do blogue que reencaminharei a mensagem.

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