sexta-feira, 12 de março de 2021

Corveta D.João I num temporal em 1851

Pela mala da India vieram noticias de Macau até 15 de Junho. Consta por ellas que aquella cidade estava tranquilla e em boa intelligencia com os chinas, a ponto de haver alli quem julgue que não são já precisos os nossos navios de guerra cuja despesa onera inutilmente o nosso governo. A notícia mais notavel que veio de Macau foi a de um grande temporal que houve naquelles mares e de cujos pormenores extrahiremos o seguinte.
Na sua viagem para Wampoa a corveta D. João I commandada pelo sr Guimarães Junior soffreu aquelle temporal, desde o dia 30 de Abril até 19 de Maio, sendo obrigada a pôr de capa rigorosa por espaço de cincoenta e oito horas, e a correr depois com o tempo por espaço de vinte e duas horas. Representando pratico daquelles mares que a corveta se não podia aguentar por mais tempo com o vento e mar que faziam, e contra a monção, o commandante convocou um conselho dos seus officiaes e todos concordaram que era de indispensavel necessidade arribar a Macáo.
Os praticos asseveram que ha muitos annos não houve naquellas regiões um temporal tão forte. Foram immensos os desastres que soffreram os navios que navegavam por aquellas costas. Quatro navios inglezes que tinham sahido de Hong Kong para diversos pontos e entre elles o vapor de guerra inglez Salamandra chegaram a Ammoy com grandes avarias. No baixo do Prato naufragou um navio inglez. O governador de Hong Kong logo que soube deste naufragio mandou sahir o brigue de guerra Piloto e o Renard para salvarem a tripulação naufragada.
O vapor perdeu-se desgraçadamente no mesmo baixo. No dia 30 o brigue pôde receber os naufragados que se achavam asilados num ilheo e conduziu-os a Hong Kong. A corveta de guerra americana Marion que tinha sahido de Macao no dia 24 de Abril com destino a Changai, encalhou na costa da Ilha Formosa e viu- se precisada a alijar ao mar seiscentas balas; por fim teve a fortuna de se safar mas com o fundo todo arruinado.
A fragata hespanhola Bilbou esteve encalha da nuns penedos; partiu a quilha ficando em miseravel estado, a ponto de ser condusida a reboque por um vapor. Arribaram a Hong Kong muitos navios, entre elles, alguns dos chamados Clipers, que são construidos de modo proprio para navegar contra a monção.
Alem destes desastres é natural que houvesse muitos outros de que ainda não houvesse noticia. A corveta D. João I foi, de todas as notícias havia, o navio que menos soffreu e as suas varias foram reparadas em cinco dias; e no dia 27 de Maio sahiu outra vez para Wampoa. A disciplina introduzida na corveta D. João I pelo sr Guimarães Junior, e o sangue frio e coragem com que ele se portou durante o temporal, assim como o modo como todos os officiaes da mesma corveta se conduziram foram as causas que salvaram aquele navio dos maiores desastres. Veio d'ahi grande consideração para o Guimarães Junior e para a nossa marinha; os nossos marinheiros são hoje naquellas regiões julgados como excellentes e aptos para o melhor serviço."
in O Patriota 2.09.1851 (jornal publicado em Lisboa)

Contexto da época: O governador Ferreira do Amaral tinha sido assassinado pouco tempo antes (1849) e o cônsul português em Xangai acabara de ser reconhecido pelas autoridades chinesas pelo que a corveta D. João I saiu de Macau com destino a Xangai a 25 de Abril de 1851 mas o temporal não o permitiu tendo regressado ao território a 21 de Maio onde ao fim de alguns dias seguiu viagem para Whampoa.
A corveta D. João I, feita de madeira de teca, foi construída em Damão em 1828, a partir de uma outra corveta que fora abatida, a Infante D. Miguel, aproveitando os materiais do desmancho desta corveta e lançada ao mar em 9 de Outubro de 1828. Tinha boas qualidades náuticas.Tinha quase 46 metros de comprimento e 10,5 de largura. Com capacidade para trasportar uma guarnição de quase 200 homens estava equipada com 2 peças de bronze de calibre 18, 1 peça de bronze de calibre 3, 16 caronadas de ferro de calibre 32.
Começou por prestar serviço em Portugal, depois Brasil, Açores, Madeira e novamente Brasil. Dali, em 1850, largou do Rio de Janeiro para Macau, conduzindo o novo Governador Capitão-de-mar-e-guerra Pedro Alexandrino da Cunha. Em Janeiro de 1851, a "D. João I" largou de Macau para Hong-Kong, conduzindo o novo Governador, Capitão-de-mar-e-guerra Francisco António Gonçalves Cardoso. 
A Corveta D. João I numa imagem da Marinha Portuguesa

Regressou a Lisboa e em 1852 levantou ferro para Macau com escala pelo Cabo da Boa Esperança e Timor. Em 1854, conduzindo o Governador da província e o ministro plenipotenciário francês, largou de Macau para Ning-Pó, fazendo escala por Hong Kong e Amoy. Em Julho de 1854 travou combate com os piratas chineses com completo êxito. Em 1860 teve como missão transportar Francisco Guimarães, Governador de Macau, ao Japão, a negociar um tratado de paz, amizade e comércio com os japoneses. Em 1861, largou em segunda viagem ao Japão, com escala por Xangai, para se proceder ali à ratificação do tratado do comércio luso-japonês. Devido ao mau tempo não chegou ao seu destino. Depois de uns anos em Lisboa em 1869 foi reforçar a Estação Naval de Macau.Na década de 1870 prestou serviços nos Açores e Angola onde seria desarmada em 1874 e ali ficou até pelo menos 1892 já não navegando.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Travessa(s) do Meio

Entre a Travessa de S. domingos e a Travessa da Sé fica a Travessa do Meio




Existe outra travessa com o mesmo nome - pelo menos em português, por os caracteres em chinês são outros - mas em Coloane (imagem abaixo).

quarta-feira, 10 de março de 2021

"Bebam Bubble-Up"

Bubble Up é uma marca de refrigerante de limão-limão criada em 1919 pela Sweet Valley Products Co. de Sandusky, Ohio (EUA). Ou seja, 10 anos da 7Up tendo celebrado em 2019 um século de existência.
O nome começou por ser pensado para um refrigerante de uva mas nunca existiu e só na década de 1930 passou a ser usado numa bebida de lima-limão. Depois teve umas variantes: soda, ginger ale, tonic water, soda water, mojito, etc...
A marca consolidou-se e atravessou fronteiras nas décadas de 1950 a 1970, quer em África quer na Ásia, como se pode ver neste enorme mural publicitário: fachada de um prédio na rua das Lorchas (Porto Interior), junto ao antigo armazém do ópio na Praça de Ponte e Horta.
O slogan publicitário mais conhecido foi o "kiss of lemon, kiss of lime." A empresa encerrou actividade no final da década de 1970. Foi depois comprada, regressou ao mercado e ainda hoje existe.

segunda-feira, 8 de março de 2021

"Estado em que se achão as ruas desta Cidade": 1846

Com "regos", "covas" e "barrancos" era este o estado da Rua da Praia Grande, especialmente entre o Forte de S. Pedro e o largo de S. Francisco no início de 1846. Uma "grande lástima e vergonha", segundo o autor do texto publicado no Boletim da Província de Macao, Timor e Solor no início de 1846. Clamando pelo "prompto socorro" argumenta-se que se tratava da "principal e melhor rua da Cidade; a mais frequentada de todas e por isso a única que oferece algum recreio e espaço para passeio, principalmente nas tardes de veram (verão)".
Ilustração da Praia Grande de B. Clayton inserida num livro de 1847

sábado, 6 de março de 2021

General view of Macao and harbor seen from the Lighthouse Hill

 Fotografia feita a partir do Farol da Guia. Ao fundo a Fortaleza do Monte e o Porto Interior.

General view of Macao and harbor seen from the Lighthouse Hill, China
Edition de luxe, 1903
H. G. White Co., Chicago, New York, London
stereo nº 4141 - The Perfect Stereograph
Sensivelmente da mesma época pode ver aqui um stereoview da Baía da Praia Grande

sexta-feira, 5 de março de 2021

"Maccavw”

Dos vários nomes com que o território surge em documentos dos séculos 16 e 17 este "Maccavw" é provavelmente o mais peculiar. É o título de uma estampa do território produzido na primeira metade do século 17 servindo de ilustração ao relato da viagem que o médico Seyger van Rechteren realizou à Ásia entre 1629 e 1633 ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais
A referida esatampa surge incluída em várias obras, nomeadamente em "Generale beschrijvinghe van Indien, ende in't besonder van't coninckrijck (...), de Johan Van Twist*, publicada em 1638. Excerto: "De Stadt Macaron ofte Maccauw (A cidade de Macaron ou de Maccauw)" e em "Begin ende Voortgangh Van de Vereenighde Nederlantsche Geochtroyeerde Oost-IndischeCompagnie" publicado por Isaac Commelin em Amesterdão no ano de 1646.
Macau é visto a partir da ilha da Lapa sobre o Porto Interior, destacam-se as várias colinas do território, a Porta do Cerco à esquerda, algumas fortificações, nomeadamente a Fortaleza do Monte ao centro (ver bandeiras) e ainda a igreja Mater Dei (vulgo S. Paulo) e a imensa escadaria.
* mercador, foi o primeiro governador holandês de Malaca em 1641 quando os holandeses conquistaram a região aos portugueses dando início a um domínio que, mesmo cedido aos britânicos em alguns períodos, durou até ao início do século 19.
Curiosidade: um painel de azulejos que reproduz esta 'estampa' pode ser visto em Macau, na Travessa do Meio junto ao Largo da Sé; no local estão outros painéis que reproduzem antigas representações do território.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Macau e a Fábrica de Louça de Sacavém

A Fábrica de Loiça de Sacavém (FLS) foi uma importante unidade industrial de produção cerâmica fundada em 1856/58 na freguesia de Sacavém, concelho de Loures. A sua importância ficou plasmada na expressão "Sacavém é outra loiça!". Actualmente é sede do Museu de Cerâmica de Sacavém.
Na imagem pode ver-se uma serigrafia da FLS - para a produção de um azulejo em formato quadrado - criada na década de 1950/60. No desenho pode ver-se um dragão e uma figura humana representando um chinês com traje típico e o sistema de transporte denominado pingaA serigrafia de 28 x 22 cm faz parte do fundo documental da FLS.
Outra das referências de Macau na história da FLS aconteceu durante a participação na 1ª Exposição Colonial Portuguesa realizada no Porto em 1934. No evento onde a então colónia de Macau também esteve representada, a FLS teve o seu próprio pavilhão no edifício e nos jardins do Palácio de Cristal.
Na imagem acima - do estúdio fotográfico Alvão, Porto - uma vista parcial do pavilhão da FLS podendo ver-se dois dos oito painéis de azulejos da autoria de António de Castro Mourinho (1892-1963) que decoravam o exterior do pavilhão.
No painel do lado esquerdo pode ver-se no topo o Escudo de Portugal várias embarcações. No lado direito, o painel tem no nome o Brasão de Armas de Macau e em baixo uma cena do quotidiano com população chinesa em primeiro plano tendo ao fundo uma paisagem que pretende ser representativa de Macau. 
Os painéis contêm inscrita a expressão "Fábrica de Loiça de Sacavém - 1934"
O painel de Macau visto em detalhe
Tem por base o brasão em vigor desde 1932 (imagem acima)

A face de um dragão está em destaque no conjunto de azulejos. Segundo a mitologia chinesa, o dragão (l龍 ou 龙, lê-se long) foi um dos quatro animais sagrados convocados por Pan Ku para participarem na criação do mundo e é um dos 12 animais do horóscopo chinês. Entre os vários significados simboliza poder e sabedoria.
Agradecimentos:
Câmara Municipal de Loures. Divisão de Cultura. Unidade de Património e Museologia. Museu de Cerâmica de Sacavém.

terça-feira, 2 de março de 2021

Depths Channels on Macao Harbor

Uma imagem típica de Macau das década de 1960/70 é a do terminal de passageiros do Porto Interior com um anúncio gigante da Seiko (semelhante ao que existia no topo do edifício Rainha D. Leonor) colocado na fachada da passagem superior sobre a Avenida Oliveira Salazar (depois denominada Amizade) e que parte da recta do Grande Prémio.
Em baixo uma imagem de um hydrofoil.
Macao Harbor (22,11 N 113,34 E) is a small harbor protected by breakwater. The harbor is accessible only to small vessels .The entrance of the harbor lies about 1 mile northeastward of the northeast extremity of Ilha de Taipa. The city of Macau is located about 1 2/3 miles northward of Ilha de Taipa at the south end of Ao men Tao.
Depths Channels
The 3 fathom curve lies about 3 miles eastward of the Outer ends of the entrance breakwaters. The 1 fathom curve lies in close proximity of the outer ends of the breakwaters. A channel with a depth of 0.3 m 1 ft to 1.8 m 6 ft leads northwestward between the breakwaters to an enclosed inner harbor. A marked channel with a depth of 1.9 m 6 1 2 ft to 2.7 m 9 ft leads southward of the south breakwater to harbor installations on the west side of Macau. Among these are the Macau-Hong Kong ferry piers.
The channel to the outer and artificial harbors is dredged to a depth of 4.6 m 15 ft Navigational aids Fortaleza da Guia a prominent fort stands on the summit of the Small peninsula on which the city of Macau stands. A light is shown from a circular tower on the fort A signal station and some yellow buildings are located near the fort. Four radio masts three of which are painted red and white stand on a hill in a position about 1,2 mile northeastward of the fort.
An observatory is located about 1,4 mile southwestward of the fort. Leading lights located seaward of the fort in range 305 lead into the artificial harbor The eastern and western sides of the artificial harbor is marked by a tower. A light is shown from each tower Numerous aids to navigation improve the approaches to and the harbor of Macao. The light list and best scale chart should be consulted for details of these aids Pedra d'Areca a rock which dries lies in the northwestern part of the harbor about 1 miles south southwestward of Fortaleza da Guia. It is marked by a lighted beacon.
Tides tidal currents
The mean tidal range is 5 feet. The tidal currents set strongly across the harbor entrance. (...)
A submarine cable crosses the harbor from the mainland southward of Fortaleza da Guia to the northern extremity of Ilha da Taipa.
Directions pilotage
Vessels not having recent local knowledge should not attempt to enter the harbor. Pilotage is compulsory. The pilot station is located about 1 mile westward of La sa wei.
Storm signals
The local storm signals code for Macau is the same as used at Hong Kong. Typhoon warning signals are made at the office of the Captain of the Port and at Fortaleza da Guia.
Channel signals
Vessels using the Macau channels by day shall carry at the mast two black spheres vertically arranged and by night two green lights on the yard arm similarly arranged.
Caution
Caution must be used when entering the harbor as in 1965 changes in the depths and navigational aids had taken place.
Water signal
To call for water the A flag should be hoisted.
Macau is a Portuguese settlement located on the peninsula on the north side of the harbor. The city is built on the slope of hills which are 200 to 300 feet high. It is a free port and has a population of 169,300 1962. The principal exports are fish, fireworks, incense candles, matches, textiles and tobacco products. Imports include food and heavy machinery. There is a Meteorological Station at Macau.
Piers
The principal piers are on the west side of Macau. One of the largest piers has a berthing length of 140 feet and an alongside depth of 3.9 m 13 ft .The piers have no mechanical cargo handling equipment Lighters and tugs of up to 400 estimated horsepower are available.
The port has a 20 ton floating sheerlegs and a 15 ton hand operated job crane at the naval shipyard. At least twenty four warehouses serve the port.
Em Hong Kong
Supplies
Fresh water reported brackish and requiring boiling and chlorination is laid on the piers and obtained from water boats. A limited amount of diesel oil in drums is available plus limited supplies of coal. Some provisions and stores can be obtained.
Repairs of a minor nature can be undertaken at the navy yard located near the southwest end of the Peninsula.
A 150 ton marine railway capable of handling vessels of up to 148 feet in length is located at the navy yard.
The drydock in Patane handles vessels up to 131 feet in length and 8 feet in draft. Several small shipyards build fishing vessels.
Communications
There is a radio Station at Macau. The city is in telegraphic and radio Communication with Hong Kong and from thence to all ports.
Daily communication by steamers is maintained with Hong Kong and Kuang chou. There is an airport at Macau with regular air service between Macau and Hong Kong.
A luminous time signal is located at the observatory. (...). There is a Public Health Service Several hospitals are located in the city.
Texto em inglês in Sailing directions for Western Shores of South China Seas, United States. Defense Mapping Agency. Hydrographic Center, 1966

segunda-feira, 1 de março de 2021

A Travessa da Ponte Nova e a Rua da Barca

Sob o ponto de vista de construções urbanas, esta cidade adquiriu nos últimos anos um desenvolvimento deveras notável. A zona de depressão limitada pela colinas de S. Miguel e de Mong-Há, que há uns 50 anos atrás mais não era senão um extenso e insalubre lodeiro em parte ocupado por arrozais, encontra-se hoje completamente saneada, tendo surgido em seu lugar denso aglomerado de casas de comércio e de boas habitações servidas por óptimos arruamentos.
A necessidade de conquistar o terreno por meio de expropriações e de aterros, para construção de novas e espaçosas vias, e o consequente aformoseamento da cidade fizeram desaparecer o que havia de mais pitoresco em certos lugares tipicamente chineses cuja existência é, no entanto, ainda recordada nos nomes por que são designadas certas ruas.

Ora, uma das áreas consideradas das mais perigosas para a saúde da população desta cidade era a que ficava em volta do templo de Lin-K`âi. É ela conhecida pelo nome de Sân-Kiu que significa — Ponte Nova — e uma das ruas que serve esta zona é denominada Tôu-Sün-Kái, isto é, a Rua dos Tôu ou das Barcas.
Mas qual será a origem toponímica dessa extravagante nomenclatura em sítio onde não existem vestígios de ponte ou barca?
Se pudéssemos voltar a alguns anos atrás, isto é, antes de drenagem e do aterro desta zona, teríamos visto na realidade uma ponta de pedra, colocada entre as actuais ruas de João Araújo e a da Pedra. Esta última, chama-se assim porque era ali que vivia um grupo de operários chineses dos mais pobres, cujo mister consistis no trabalho de lapidação de blocos de granito, utilizados em obras de cantaria ou na pavimentação de lajeados.
Quanto à ponte, foi esta primitivamente construída com bambus, mas como este material se deteriorava facilmente, obrigando a constantes reparações, substituíram-na, mais tarde, por uma de pedra, custeada a expensas dos moradores do referido bairro.
A ponte era imprescindível porque sem ela não lhes seria possível ir até ao Templo de Lin-Kâi venerar as divindades da sua devoção, visto o local onde se encontrava edificada tal casa de culto estar separada da outra margem por um riachozinho.*
Esta pequena derivação do braço do delta que banha o Porto Interior, entrava na zona de Sân-K`iu nas alturas do edifício onde funcionou o Cinema Ü-Lók e, serpenteando até ao templo onde formava um largo charco, seguia depois em direcção à antiga aldeia de Mong-Há, através das ruas da Barca e da Ressurreição, para ir ligar-se outra vez ao delta, depois de ter regado com as suas barrentas águas a entrada do convento budista de P`ou Tchâi-Sim-Ün.
Como a ponte não bastasse para o grande movimento das pessoas que por ela diariamente transitavam, muitos moradores deste bairro, para entrar na cidade, tinham de fazer a travessia do riacho em tán-ká que nesse tempo costumavam varar em grande número nas duas margens. Ora, nessa época as estâncias de madeira e os estaleiros chineses estavam também instalados nesse local e, como ainda não existiam barcos a vapor, foi esse o período da sua maior prosperidade. Por isso, inúmeros tôu da navegação costeira entravam constantemente nesses estaleiros a fim de sofrerem as beneficiações de que careciam para o prosseguimento das suas viagens.
Os chineses passaram então a chamar Tôu-Sün-Kai à rua que servia esses estabelecimentos e este nome passou para o português na sua tradução da Rua da Barca.
Muitos chineses que vêm a esta cidade pela primeira vez mostram a sua estranheza pelo facto de não existir nenhuma ponte nem nada que se pareça com um barco numa rua que se chama da Ponte Nova e noutra que é denominada da Barca. Como gostam de se inteirar da razão do nome das localidades, a sua curiosidade só fica satisfeita depois de se lhes explicar o que acima ficou exposto.
Actualmente a Travessa da Ponte Nova é exclusivamente habitada pelos chineses da classe trabalhadora, como operários, artífices, criados de servir e cules. Quanto à Rua da Barca é ela hoje uma das mais movimentadas da cidade, sendo enorme o negócio que se faz nas inúmeras casa de comércio que se encontram ali situadas, umas contíguas às outras e nos dois lados da rua.
Luís Gonzaga Gomes, 18 de Maio de 1942, in “Curiosidades de Macau Antiga”
* conhecido por Regato Lótus.
Nota: No livro As Ruas Antigas de Macau-Freguesia de Santo António publicado pelo IACM aponta-se uma outra explicação....
“Antigamente, havia um riacho, formado pelas águas das fontes que escorriam da Colina da Guia e, a partir do sopé oriental, próximo do actual Jardim da Flora, fluíam para ocidente, passando pela aldeia San Kio, Rua de João de Araújo, inflectindo a seguir para norte e desaguando no rio Hou Kong, a que os moradores chamavam “Ham Chung” ou “lin Kai”. Para facilitar o transporte, construiu-se uma ponte de madeira na zona da actual Estrada do Repouso, que por entretanto se degradar com o passar do tempo, foi substituída por uma ponte nova, dando então o nome à zona, “San Kio” (ponte nova). Muitas barcas utilizavam o riacho “Lin Kai” como via de transporte. A Rua que mais tarde surgir na zona, era referida pelos moradores como “rua das barcas” e, em 1869, o governo colonial acabaria por anunciar oficialmente o novo topónimo como “Rua da Barca”.

Pegando num mapa de 1889 esta última teoria parece-me pouco verosímil; primeiro pela extensão do curso de água assinalado no mapa; depois porque seria necessário que a água proveniente da colina da Guia fosse em muitíssima quantidade a ponto de existir caudal que permitisse a navegação. Aqui fica o comparativo de um mapa de 1889 e outro feito mais de um século depois.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Os Brasões Florais da Praça do Império

São muitas as marcas do antigo império português na zona de Belém, em Lisboa, onde decorreu a Exposição do Mundo Português em 1940. 
Desta feita vou ocupar-me de uma marca - brasões florais - que existia no Jardim da Praça do Império (antes de 1940 chamava-se Praça D. Vasco da Gama) que remonta a 1960, quando se assinalou o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique. Ou seja, o projecto original do jardim construído em 1940, da autoria de Cotinelli Telmo, não continha os brasões florais, onde também Macau estava representado (ainda não encontrei imagens).
Nesse ano, em redor da fonte luminosa da Praça do Império foram plantados 32 brasões florais que representavam as armas das cidades capitais de distrito portuguesas e das ex-colónias e ainda a cruz de Cristo portuguesa e a cruz de Avis. Com o passar dos anos estes brasões degradaram-se e hoje já não existem.
Curiosidade: Em redor da fonte, construída em 1940 num projeto da autoria do Arquiteto António Lino estão 48 escudos, relacionadas com famílias ligadas à Expansão Marítima, incluindo as de D. João I, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel/D. João III.

A este propósito recordo que ali ao lado existem outras 'marcas' de Macau junto ao Padrão dos Descobrimentos.