Esta pintura das Ruínas de S. Paulo (aguarela e tinta da china - 43.5 x 46.5 cm) é uma das últimas obras da autoria do conceituado pintor Gao Jianfu (1879-1951), nome maior da pintura chinesa moderna com fortes ligações a Macau.
Produzida ca. 1950 inclui elementos das pinturas ocidental e chinesa evidenciando-se o domínio da técnica de caligrafia chinesa e da pintura de paisagem, incluindo árvores, animais e figuras humanas.
A fachada da igreja Mater Dei é apresentada numa perspectiva pouco habitual sendo vista a partir da Calçada de S. Paulo, aparesentando-se à direita o templo de Na Tcha.
No topo os caracteres na horizontal 馬交聖蹟 significam "Vestígios Sagrados de Macau". Em baixo para além da assinatura do pintor está um poema.
O texto começa com a identificação do local: 三巴門外 que significa "Fora da Porta de São Paulo". Segue-se uma descrição da atmosfera do local evocando a passagem do tempo e a decadência da antiga glória do Colégio e Igreja de São Paulo, mencionando o contraste entre as pedras sobreviventes e a vida humilde que se instalou ao seu redor. Referem-se ainda "vendedores" e "trabalhadores" (como os carregadores que vê na pintura) que circulavam naquelas ruas estreitas em meados do século 20.
Detalhe da 'assinatura' da pintura no canto inferior esquerdo:
Caracteres pretos na vertical 劍父 (Jiànfù) e carimbo vermelho em estilo de sinete.
Nascido em Panyu (Cantão), Gao Jianfu (em chinês: 高劍父/ "Gou Gim Fu" é reconhecido por liderar o esforço da Escola Lingnan para modernizar a pintura tradicional chinesa como uma "nova arte nacional".
Aos treze anos ingressou no atelier do artista chinês Ju Lian, em Lishan, onde serviu como seu aprendiz durante os sete anos seguintes. Durante este período, Gao Jianfu pintou num estilo semelhante ao do mestre: vibrante, colorido e realista. Os temas das suas pinturas eram sobretudo pássaros, flores e paisagens[3]. No estúdio de Ju Lian, Gao Jianfu tornou-se amigo próximo de Chen Shuren, também ele artista.
Em 1903, Gao Jianfu começou a trabalhar com o pintor e colecionador Wu Deyi tendo os primeiros contactos com a pintura tradicional chinesa.
Estudou no Canton Christian College, hoje conhecido como Universidade de Lingnan. Dois dos seus professores mais influentes foram "um professor francês de pintura conhecido apenas pelo seu nome chinês, Mai La," e Yamamoto Baigai, um dos muitos professores japoneses que então viviam na China. Profundamente inspirado pelos seus professores, Jianfu viria a viajar para Tóquio no inverno de 1906 mas seria uma curta estadia. Devido à falta de recursos regressou a Cantão para passar o verão. Em 1907 regressou a Tóquio com o seu irmão de dezanove anos, Gao Qifeng, tendo convivido com o amigo Chen Shuren.
Durante a sua estadia no Japão, os três homens foram expostos aos debates nacionalistas "que então ocorriam no mundo da arte japonesa sobre o impacto modernizador da arte ocidental nas tradições artísticas locais do Japão". Jianfu interessou-se pelas sínteses das abordagens ocidentais e tradicionais, que eram paralelas ao trabalho no mundo da arte contemporânea japonesa. Jianfu, juntamente com os seus pares da Escola Lingnan, viu esta mistura de estilos como um modelo para a arte nacional moderna. Muitos dos estudantes da Lingnan juntaram-se ao movimento anti-Manchu de Sun Yat-sen, um movimento nacionalista revolucionário. Mais tarde, Gao juntou-se ao Corpo de Assassinos Chinês, um grupo anarquista chinês.
Em 1912, após a queda dos manchus, Gao Jianfu e o seu irmão mudaram-se para Xangai. Começaram a publicar um jornal intitulado Zhen xiang huabao (O Registo Verdadeiro). A publicação apresentava artigos sobre arte e política, bem como ensaios que promoviam uma nova arte nacional modernizada na China. Embora tenha durado apenas um ano, o jornal foi um dos primeiros a levar a arte ao grande público. Os irmãos defendiam o apoio governamental às artes e abriram a primeira galeria pública do país para a exposição e venda de obras de arte, a Livraria Estética. Em 1918 saíram de Xangai e foram para Cantão onde em 1923 fundaram a Academia de Arte do Despertar da Primavera em Cantão.
Em 1929 Jianfu foi acusado de sentimentos xenófobos durante o seu período como principal organizador da primeira Exposição Nacional de Arte do governo, realizada em Nanquim. Devido à grande importância da Escola Lingnan, houve uma reação hostil à inclusão de tendências artísticas não chinesas.
Em 1936, Jianfu começou a lecionar na Universidade Sun Yat-sen. Continuou a publicar artigos, nos quais defendia o seu conceito de nova arte nacional. Sugeriu que a pintura nacional abandonasse o "elitismo" da arte tradicional e se envolvesse mais directamente com o público chinês. Com a invasão da China pelo Japão em 1937 Gao Jianfu deixou Cantão e foi para Macau em 1938 onde viveu até 1945. Regressaria a Cantão onde viveu até 1949. Com a chegado ao poder de Tsé-Tung em 1949 fugiu novamente para Macau onde fundou uma escola e viria a morrer a 22 de Maio de 1951. Gao Jianfu legou a Macau um grande número de obras que constituem um verdadeiro tesouro artístico do território e tem sido exibidas em várias exposições.

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