segunda-feira, 13 de novembro de 2023

15º aniversário em destaque no Ponto Final

Rita Gonçalves assina o artigo - com chamada de capa - intitulado "Blogue de João Botas, há 15 anos a abrir o baú de memórias do Macau antigo" publicado esta segunda-feira, 13 de Novembro, no jornal Ponto Final.

domingo, 12 de novembro de 2023

Reportagem de Adé sobre o GPM de 1954

"Quando, a 17 de Julho findo, se reuniram, pela primeira vez, no Riviera, com os jornalistas, a quem comunicaram a sua ideia de levar a efeito a realização de provas de automobilismo, longe estavam, certamente, os organizadores do Grande Prémio de Macau de pensar que duma tão simples quão modesta iniciativa poderia advir tamanha grandiosidade e tão grada repercussão para a vida desta risonha e progressiva terra portuguesa. E porque o festival de automobilismo, em tão boa hora promovido por esse núcleo de entusiastas da modalidade concluído, no domingo passado, em tão grandioso sucesso, não pode deixar de ter conquistado, para si e para a modalidade, uma página gloriosa na história desportiva desta terra. (…)
Fernando Macedo Pinto ficou em 4º na primeira edição do GPM com um MG
Cremos não haver exagero da nossa parte se dissermos que a história do Grande Prémio de Macau entrou, forçosamente, como assunto de todas as conversas nos meios desportivos das principais cidades do Oriente, mas quantos haverá que terão reconhecido o grande mérito de toda a organização e a inexcedível boa vontade e eficácia daqueles que tão prontamente colaboraram e, por conseguinte, contribuíram para o bom êxito do certame? Há nomes que não poderão ficar esquecidos, pelo muito que eles representam para a efectivação deste, digamos, ensaio automobilístico no nosso meio desportivo. São eles: Carlos Humberto da Silva, António Nolasco, João Pires Antas e Fernando Macedo Pinto, os principais responsáveis pela organização e sucesso do certame, e Manuel Ferreira Cabrita, Horácio de Oliveira e Paul du Toit, pessoas que, desde sempre, mais de perto acompanharam os organizadores, a quem prestaram directa colaboração. (...)
Zona das boxes

Aproximava-se, então, o momento da grande expectativa. Após os três sinais regulamentares dados pela sereia, Sua Exa. o Governador baixou a Bandeira Nacional para dar a partida. Os concorrentes encontravam-se de pé, frente aos carros respectivos, estes com a frente voltada para o mar. Ao sinal de largar, correram todos para os carros, uns saltando para dentro destes, outros abrindo rapidamente a portinhola, ao mesmo tempo que punham o motor a funcionar. Esta emocionante partida valeu por todo o resto da prova. Foi simplesmente extraordinária!
Com uma rapidez de relâmpago, o corredor G. J. Bell, num ‘Morgan’ de 2088 c.c., em menos de 30 segundos já se encontrava no circuito. A seguir, largaram dois carros de turismo, depois o ‘Triumph TR 2’ do nosso conterrâneo Carvalho, seguido de mais dois outros da mesma marca. O ‘Austin Healey 100’, conduzido por R. I. Pennels, que era o carro mais potente da prova – 2660 c.c. – perdeu imenso tempo na largada, assim como o ‘MG Special’ do único corredor de Macau, Macedo Pinto, que, segundo nos constou depois, no meio da excitação, estava a insistir com o carro travado.
Entraram ao todo 15 carros: na categoria de carros de desporto ou especiais, 3 ‘Triumph TR 2’, 1 ‘Morgan’, 1 ‘Austin Healey 100’ e 1 ‘MG Special’; na de carros de turismo, 3 ‘Fiat 1100’, 2 ‘Hillman’, 1 ‘Citröen’, 1 ‘Ford Zephyr’, 1 ‘Mercedes Benz 220’ e 1 ‘Riley 2 ½’. O ‘Morgan’, rapidíssimo, tomou logo a dianteira, fechando a primeira volta com quase um terço do percurso de avanço sobre o segundo. Porém, antes de fechar a 5.ª volta, ao passar junto da guarita que fica na curva do reservatório de água, para infelicidade do condutor, saiu-lhe uma roda no carro, vindo este a ficar inutilizado para o resto da prova. O motorista, contudo, não sofreu nada, pois que a viatura, apesar da velocidade que trazia, vinha encostada ao muro do Porto Exterior, tendo o condutor a presença de espírito de não largar o volante e conduzir o carro travando até parar completamente, mas já na rampa que desce para a água.
A prova continua com o ‘Austin Healey’, de Pennels, na dianteira, seguido dos ‘Triumph’. Mais atrás seguem os carros de turismo, comandados pelo ‘Fiat 1100’ de Ritchie, e entre aqueles o ‘MG’ de Macedo Pinto. Contudo, à 8.ª volta já Macedo Pinto se achava à frente de todos os carros de turismo. À 11.ª volta, Pennels pára o seu ‘Austin Healey’, n.º 9, junto dos poços, para a substituição duma roda. Passa então a comandar o desfile o ‘Triumph’ com o n.º 5, de Eduardo Carvalho, seguido por Paul du Toit, n.º 8, e Reginaldo Rocha, n.º 14. Atrás, seguem Macedo Pinto, n.º 11, e Robert Ritchie, n.º 19, num ‘Fiat 1100’. Os restantes vêm mais atrasados, com Wen Lenard, n.º 4, na cauda.
Tendo completado a 14.ª volta, o ‘Austin Healey’, n.º 9, de Pennels, sofre um acidente perto da ponte sita em frente ao quartel de S. Francisco e fica inutilizado para o resto da prova. Saliente-se aqui a admirável perícia do condutor que, com inexcedível presença de espírito, conseguiu, após manobras dificílimas, tirar o carro da direcção de uma área onde se encontravam dezenas de espectadores, acabando por embater com ele contra um poste.
No circuito há agora 13 carros. Entre o n.º 5, de Carvalho, e o n.º 8, de P. du Toit, é travada luta tremenda para a conquista do posto de comando. O n.º 5 não larga a dianteira, nem o n.º 8 o seu intento de o ultrapassar. Esta luta mantém a assistência emocionada e mostra, ao mesmo tempo, a destreza de ambos os volantes. Entretanto, Macedo Pinto, n.º 11, caminha sereno e muito seguro, prosseguindo na prova com uma regularidade só comparada à dos melhores volantes. Muito menos seguro e perdendo sempre terreno, segue o ‘Triumph’ de Reginaldo Rocha, n.º 14. Atrás destes, vemos o ‘Fiat 1100’, de Ritchie, n.º 19, sempre fugindo dos restantes. Entre estes, salientam-se o ‘Fiat 1100’, de Astwood, n.º 20, e o ‘Hillman’, de Steane, n.º 26.
A cerca de 2 horas da prova, o efectivo dos carros em competição baixou para 12, em virtude da desistência do n.º 25, um ‘Riley 2 ½’ conduzido por A. White, o qual teve uma avaria mecânica, depois de completadas 20 voltas. Até ao fim da prova não se registou mais nenhuma desistência nem acidente, à excepção duma ou outra ultrapassagem em circunstâncias dificílimas que bastaram para pôr os cabelos em pé a grande parte da assistência. De todos os carros, os únicos que não pararam junto dos poços vez nenhuma foram, precisamente, os três conduzidos pelos portugueses, Eduardo Carvalho, Reginaldo Rocha e Macedo Pinto.

O Clube Náutico 'transformado' por ocasião do GPM

É chegado o fim da prova e os carros cortam a meta no meio dos animados aplausos dos espectadores. Em primeiro lugar, chega o ‘Triumph TR 2’, n.º 5, do volante português Eduardo Carvalho, classificado, portanto, vencedor absoluto da prova. Paul du Toit e Reginaldo Rocha, ambos em ‘Triumph TR 2’, classificam-se, respectivamente, em 2.º e 3.º lugares, pertencendo a Macedo Pinto, em ‘MG Special’, o 4.º lugar na classificação geral." 
Partida para o primeiro GPM em 1954

Artigo de José dos Santos Ferreira (Adé), em 1954, publicado no livro  “Escandinávia – Região de Encantos Mil” que reúne crónicas do autor. Foi editado pela primeira em 1960 e teve uma reedição em 1994. As imagens não são do livro mas de diversas fontes disponíveis na internet.
PS: Este ano acontece a 70ª edição do Grande Prémio de Macau

sábado, 11 de novembro de 2023

"Aviso à Navegação"

Boletim do Governo de Macao - 2.10.1865

"24 de Setembro de 1865: Acende-se pela primeira vez o farol de Nossa Senhora da Guia da cidade de Macau, edificado sob a immediata direcção do governador José Rodrigues Coelho do Amaral e no que respeita á machina com a valiosa coadjuvação do habil macaense Carlos Vicente da Rocha. Segundo o aviso official da capitanía do pôrto, este farol está situado na latitude de 21º 11 N e na longitude de 113 33 a leste de Greenwich tendo a luz 101,5 metros de elevação acima do nivel do mar nas mais altas marés de tempo calmo e a torre 13,5 da base á cupula. A luz é branca e de rotação fazendo um giro completo em 64 segundos e avista-se com tempo claro a 20 milhas de distancia."
In Ephemerides Comemorativas da História de Macau, António Marques Pereira, 1868
Inaugurado a 24 de Setembro de 1865 o Farol da Guia foi o primeiro a ser construído na costa do sul da China. Começou por ter um formato octogonal. Da base ao topo tinha cerca de 15 metros de altura e era pintado de branco. A imagem acima, um detalhe de uma fotografia de John Thomson tirada ca. 1870 é um dos raros registos do primeiro formato do farol. Severamente afectado pelo tufão de Setembro de 1874 o farol teve de ser reconstruído e na renovação profunda viria a ganhar o formato cilíndrico voltando a funcionar apenas a partir de 29 de Junho de 1910.


"Information has been received at the office of the Lighthouse Board that the Portuguese government have established a light at Fort Guia on the peninsula of Macao, south coast of China. The light is a revolving white light placed at an elevation of about 330 feet above the mean level of the sea and in clear weather should be seen from a distance of 20 miles. The tower stands in about lat 22 deg 12 min N long 113 deg 33 min 30 sec east of Greenwich."
in The United States Amy and Navy Journal, 20.1.1866
Década 1980. Foto Eduardo Tomé

Década 1910

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

"A Chinese strawberry garden"

Nas imagens estão dois stereoviews com a mesma fotografia mas com legendas diferentes.  Num surge a referência a Macau e noutro não. A legenda é "Proprietário e trabalhador de um jardim chinês de morangos".

nº 187 "A Chinese strawberry garden. Proprietor and coolie, China"
 The Universal Photo Art Co., 1902. C. H. Graves - Philadelphia
nº 45  "A strawberry garden, Macao, China" 
Stereo Travel Co. - Corona - New York City

O nome de Carlton Harlow Graves (1867-1943) surge como detentor dos direitos de autor, mas o fotógrafo foi Herbert Ponting (1870-1935) que andou pela Ásia (incluindo Macau e China, incluindo Pequim) entre o final do século 19 e o início do século 20, nomeadamente a acompanhar a guerra entre a Rússia e o Japão (1904-5) e trabalhando como free-lancer para a imprensa do Ocidente. Graves era o dono da empresa - sedeada em Filadélfia - que adquiriu os direitos da imagem para a usar num stereoview. Também era fotógrafo mas apenas exerceu nos EUA.
Estamos perante duas empresas que comercializavam estes produtos. A Stereo Travel Company, com sede em Nova Iorque, começou a operar após 1905. Já a Universal Photo Art, com sede em Filadélfia, era mais antiga e foi uma das mais conceituadas.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Um desenho que reproduz uma fotografia

A primeira imagem deste post é um desenho cuja autoria é atribuída ao inglês T. Taylor. A ilustração da baía da Praia Grande em meados do século 19 foi publicada pela primeira vez numa edição de 1875 do semanário francês "Le Tour du Monde, Nouveau journal des Voyages". 
Fundado em Janeiro de 1860 o jornal publicava relatos de viagens realizadas em diversos lugares do mundo, por grandes exploradores da época. Semestralmente, os números semanais, vendidos através da rede francesa de estações ferroviárias, eram reunidos num volume, que era depois disponibilizado nas livrarias.
A representação da Baía da Praia Grande é uma das ilustrações - ocupa uma página inteira - do artigo "Voyage en Chine" de M. J. Thomson. O jornal traduziu para francês partes da obra "lllustrations of China and Its People", de Thomson, publicada poucos anos antes.
Na verdade trata-se de uma gravura inspirada numa fotografia do escocês John Thomson  (1837-1921) feita em Macau ca. 1868/69 - imagem abaixo. Há um detalhe que permite esta exactidão de datas: o edifício do Grémio Militar quase pronto tendo sido inaugurado em 1870.
Excerto da tradução para francês do relato de John Thomson:
Macao est le seul établissement que possèdent les Portugais sur les côtes de la Chine, et, à ce titre, il est doublement intéressant. De Hongkong ou de Canton on y va en bateau à vapeur, et c'est durant l'été l'undes endroits les plus fréquentés par les résidents de notre petite colonie.
Dans cette jolie ville maritime on peut jouir des fraiches brises de mer et se figurer presque, en se promenant sur la Praya Grande, qui entoure à demi une baie vraiment pittoresque, qu'on a été soudainement transporté sur le quai de quelque ancienne ville maritime d'Europe. (...)
De la Praya Grande, avec sa belle jetée, son hôtel du gouvernement et ses maisons peintes, nous passons dans une petite rue, il y en a beaucoup de parcilles, des deux côtés de laquelle s'élèvent de hautes murailles. (...)
Les forts, naturellement, ont pour garnison des troupes européennes, et le bruit de tambours et de trompettes qui s'y fait entendre sans discontinuer est telqu'un étranger serait tenté de croire que les troupes sont en mouvement et prennent les armes pour repousser les assauts d'une armée chinoise.
Il faut que Macao soit vraiment une ville bien pieuse. Jamais les cloches n'y cessent de sonner, et trois fois par jour, le matin, à midi, le soir, on voit les habitants se' rendre en foule à la cathédrale et aux autres églises pour y faire leurs dévotions.
Vers quatre heures de l'après-midi, la colonie semble s'éveiller les carrosses roulent, les chaises à porteurs se dirigent vers le rivage, et les solitudes de la Praya Grande se convertissent en une promenade fashionable. Les dames s'y réunissent, vêtues des costumes les plus légers et des couleurs les plus gaies. Quelques-unes sont jolies; mais le plus grand nombre ont le teint jaune, l'air peu intéressant et sont chamarrées de rubans dont les couleurs voyantes produisent des contrastes si choquants, qu'on se demande comment le peintre Chinnery a pu passer tant d'années da sa vie dans un milieu où les goûts artistiques font si complétement défaut. Les jeunes gens, car il ne semble pas y avoir de vieillards, tous s'habillant de même, en dépit des différences d'âge, sont élancés, mais petits. Ces élégants pygmées donnent à leur toilette beaucoup de temps et de soins; ils font, pour se conformer à la mode, tout ce que leur perniettent
leurs modiques ressources, et certains d'entre eux, je le sais, vont jusqu'à se priver du nécessaire et à engager d'avance leur traitement pour se procurer les élégantes cravates, les gants de chevreau et les bottes vernies dont ils s'ornent pour faire à la cathédrale ou sur la Praya leurs dévotions au beau sexe. Ils ont, pour récompense de leurs efforts, les regards que du haut de leurs fenêtres ou balcons, les dames laissent tomber sur ces dévots admirateurs.
Si Macao est intéressant comme le seul établissement qui, de tous ceux que les premiers' navigateurs fondèrent en Chine, reste encore aujourd'hui au Portugal, il est aussi intéressant à' d'autres points de vue. C'est là que le poëte Camoëns trouva une retraite; c'est là aussi que Chinnery produisit une multitude d'esquisses et de tableaux, qui réellement n'ont pas été sans influence 'sur le développement de l'art dans le sud de la Chine...
Desenho colorido de Taylor

Tradução que fiz para português
Macau é o único estabelecimento propriedade dos portugueses na costa da China e, como tal, é duplamente interessante. De Hong Kong ou Cantão vamos de navio a vapor, e durante o verão é um dos locais mais frequentados pelos moradores da nossa pequena colónia (Hong Kong). Nesta bonita vila marítima pode-se desfrutar da brisa fresca do mar e quase imaginar, enquanto passeamos pela Praia Grande, que rodeia parcialmente uma baía verdadeiramente pitoresca, que fomos subitamente transportados para o cais de alguma antiga vila marítima da Europa. Da Praia Grande, com o seu belo cais, palácio do governo e suas casas pintadas. (...) 
Os fortes, naturalmente, são guarnecidos por tropas europeias, e o barulho de tambores e trombetas que se ouve continuamente é tal que um estrangeiro seria tentado a acreditar que as tropas estão em movimento e pegando em armas para repelir os assaltos de um exército chinês. Macau deve ser uma cidade muito religiosa. Os sinos não param de tocar, e três vezes ao dia, de manhã, ao meio-dia e à noite, vemos os habitantes indo em multidão à catedral e a outras igrejas para fazer suas devoções.
Por volta das quatro da tarde, a colónia parece acordar, as carruagens rodam, as liteiras dirigem-se para a praia e a solidão da Praia Grande transforma-se num passeio da moda. Ali reúnem-se as senhoras, vestidas com os trajes mais leves e as cores mais alegres. Algumas são bonitas; mas a maioria tem tez amarelada, aparência desinteressante e com roupas cujas cores berrantes produzem contrastes tão chocantes que nos perguntamos como o pintor Chinnery pode ter passado tantos anos de sua vida num ambiente onde os gostos artísticos parecem não existir. Os jovens, pois não parece haver velhos, todos vestidos  de igual, apesar das diferenças de idade, são esbeltos, mas pequenos. Estes pigmeus elegantes dedicam muito tempo e cuidado à aparência; Fazem, para se conformarem com a moda, tudo o que permite os seus modestos recursos, e alguns deles, eu sei, chegam ao ponto de se privar do necessário e comprometer antecipadamente o seu salário para obter as gravatas elegantes, as luvas de pelica e as botas de verniz de que necessitam para seduzirem as mulheres na catedral ou na Praia Grande. Como recompensa pelo seu esforço, têm os olhares que as senhoras lançam, quais devotas admiradoras, do alto das suas janelas ou varandas.
Se Macau é interessante como o único estabelecimento que, de todos aqueles que os primeiros navegadores fundaram na China, ainda hoje pertence a Portugal, também é interessante sob outros pontos de vista. Foi ali que o poeta Camões encontrou refúgio; foi também lá que Chinnery produziu uma infinidade de esboços e pinturas, que realmente tiveram influência no desenvolvimento da arte no sul da China.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

15º aniversário

A fazer história desde 2008 o blogue Macau Antigo celebra este mês o 15º aniversário. Já foram publicados cerca de 6000 posts que tiveram mais de 2,2 milhões de visualizações.* Os dados estatísticos mostram ainda que a maioria dos leitores é de Portugal, Estados Unidos, Macau e Brasil.
Entre os conteúdos previstos para este mês de aniversário: descrição pormenorizada de um hotel em Macau no ano de 1850; primeiras fábricas de incenso em meados do século 19; fotos raras da Praia Grande e da fachada da igreja Mater Dei, o relato de dois viajantes (uma norte-americana e um alemão) no final do século 19 e edições de outros tempos do Grande Prémio de Macau, no mês em que se realiza a 70ª edição.
Para assinalar o 15º aniversário do blogue Macau Antigo, à semelhança de outros anos, será realizado um passatempo com ofertas para os leitores.
* dados da plataforma onde o blog está alojado

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Encerramento do restaurante "A Vencedora"

Localizado na Rua do Campo, o restaurante A Vencedora/坤記餐室 (Kuan Kei), um dos mais antigos de Macau, a par do Fat Siu Lau, encerra portas esta semana.
O espaço foi fundado em 1918 por Lam Kuan, que tinha sido cozinheiro num navio da Marinha Portuguesa estacionado em Macau onde aprendeu a fazer os pratos portugueses. Para além do serviço de restaurante nos primeiros anos de actividade também comercializava conservas, vinhos, azeite, chouriços, etc... sendo muito frequentado pelos militares portugueses em comissão de serviço no território. 
Década 1970
Da ementa faziam parte pratos da gastronomia portuguesa e macaense: bacalhau cozido com grão de bico, iscas, feijoada, bitoque, minchi, costeleta frita, pastéis de bacalhau, caldo verde, etc...

Década 1920

Década 1960

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Una missión diplomática en la Indo-China

"Una missión diplomática en la Indo-China: Descripción del viaje de la legación especial de España al Imperio de Annam y Reino de Siam, dando en dos años la vuelta al mundo" é o longo título do livro da autoria de Melchor Ordóñez y Ortega publicado em 1882.
Melchor passou por Macau vindo de Cantão em Dezembro de 1880 onde se detém apenas um dia tendo-se encontrado com o cônsul de Espanha no território - entre 1878 e 1884 no tempo do tráfico dos cules - Enrique Gaspar (1842-1902), uma personalidade muito curiosa.  Além de diplomata, foi também escritor. É dele o primeiro romance de ficção sobre uma máquina do tempo. Foi publicado em 1887 com o título El anacronópete.
Voltando o livro tema deste post, inclui uma referência (e ilustração) à Gruta de Camões, o grande atractivo do território para a esmagadora maioria dos viajantes ao longo do século 19.
Después que abandonamos Cantón bajamos el río de las flores y nos detuvimos en Macao, antigua factoría portuguesa hoy triste recuerdo de lo que en otro tiempo fué el poderío lusitano.
Es Macao, ó Macau, un peñasco árido de más de una legua de largo media de ancho y unida al teritorio chino por un itsmo de cincuenta brazas de anchura. Fué cedido por los mandarines á los portugueses en 1557 en premio de los servicios prestados por éstos salvando á Cantón de los piratas que la habían sitiado. Hasta principios del siglo XVII Macao fué un puerto importante pero la llegada de los holandeses primero y de los ingleses después causó su ruina. Sólo mientras duró el tráfico de los coolies tuvo un momento de esplendor pero el establecimiento de los ingleses en Hong Kong acabó de quitarle toda su importancia.
Hoy habrá en Macao 4.000 portugueses y mestizos y hasta 25.000 chinos. La ciudad carece de agua por completo siendo necesario traerla de dos fuentes vecinas. Las calles son estrechas inclinadas tortuosas y no muy limpias. El puerto es poco seguro y además poco frecuentado. 
En esta ciudad medio desierta sólo atrae la curiosidad del viajero la gruta de Camoëns, donde el inmortal autor de los Lusiadas empezó su poema pensando en su amada Catalina y viendo desarrollarse ante sus ojos desde los escuetos peñascos de la factoría portuguesa el drama grandioso de la exploración del planeta terminado por el encuentro de españoles y portugueses en las aguas de la Malasia. 
Un poeta español y por cierto de los más notables de la generación actual fuimos á encontrar allí donde tanto padeciera el portugués favorito de las musas del siglo XVI. Enrique Gaspar es actualmente cónsul de España en Macao y mientras otros con menos méritos pasean favorecidos por la suerte en las calles de Madrid él allá en el más oscuro rincón del extremo Oriente en un árido promontorio cuya existencia ignora el noventa por ciento de los españoles deja relajarse en el hastío las grandes fuerzas de su rica imaginación. El lector convendrá conmigo en que el autor del Estómago de quien mucho pueden aún esperar las letras patrias no debe continuar olvidado durante tanto. Enrique Gaspar y su amable señora nos obsequiaron cuanto les fué posible esforzándose por hacernos lo más agradable el día que pasamos en Macao. En efecto el tiempo transcurrió más aprisa de lo que creíamos gracias á sus cuidados y hubimos de abandonar precipitadamente la mañana del día siguiente compañía tan estimada y estimable. (...)

domingo, 5 de novembro de 2023

Carimbos e selos adesivos no séc. 19

Antes de surgirem os selos adesivos eram usados apenas os carimbos. As marcas postais abaixo são da década 1840.


Em baixo uma referência à emissão de 1884 de selos adesivos (Tipo Coroa) - os primeiros a serem emitidos no território - no "A supplement to The Imperial postage stamp album",de E.S. Gibbons, Imperial postage stamp album" de 1885.

sábado, 4 de novembro de 2023

"Chine - Panorama de Macao"

Fundada em 1906, a chocolataria De Marlieu depressa se tornou uma das mais conceituadas em França. À semelhança da concorrência, quando os postais ilustrados eram ainda uma novidade, foram usados para acções de publicidade/marketing de forma a promover a venda dos produtos. Uma das soluções usadas era a inclusão de um postal em cada chocolate que depois os clientes coleccionavam e colocavam em cadernetas concebidas para o efeito.

Nesta colecção o postal alusivo a Macau é o número 86 - Chine - Panorama de Macao. Trata-se de uma imagem do Porto Interior (ao fundo do lado direito está a Ilha Verde).
Do "Album du Chocolat de Marlieu" faziam ainda parte postais ilustrados de Marrocos, Arábia, Rússia, Japão. Em baixo uma imagem de um vendedor ambulante na China.
A primeira metade do século 20 foi a chamada idade de ouro do bilhete-postal ilustrado - incluindo o coleccionismo - cuja produção se expandiu logo no final do século 19.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

National Bank of China Limited

O National Bank of China Limited / 中華匯理銀行 foi um banco privado fundado em Hong Kong no ano de 1891 por um grupo de comerciantes abastados, incluindo cidadãos chineses oriundos de Cantão. Tinha sucursais em várias cidades da China continental, em vários países asiáticos e ainda na Europa, Canadá, EUA e Nova Zelândia. Em Macau o agente do banco foi o Visconde de Senna Fernandes.
O anúncio acima é de 1893 e foi publicado no Boletim Oficial. Por lapso surge "nacional" em vez de "national".
Anúncio de 1892

O banco começou a emitir papel-moeda em 1894 (valor facial de 5 e 10 dólares) mas seria proibido de o fazer no ano seguinte. Viria a fechar portas em 1911.
Frente e verso de uma nota de 5 dólares emitida em 1894

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

"One of the most charming places in China"

"One of the most charming places in China is Macao, three hours distant by steamer from Hong Kong, the people of which place resort to Macao in the hot season, as the fine sea breezes there greatly mitigate the heat. The drives about the place, commanding in every direction an open sea-view, are beautiful. The old church of St Paul, the most of which remains though ruined by fire, is a fine specimen of architecture.
The most notable thing in Macao is the grotto where Camöens the Portuguese poet died in banishment for publishing a satire on the viceroy. The wild botany of the place and the geological upheavals which give clear signs of glacial action are remarkable. Bowlders are piled up here in ways which show a hydrodynamic force beyond human skill. Near the grotto is a cemetery for foreigners and, among the many sainted dead from missionary circles there entombed, the Christian traveller lingers with deep interest around the burial-place of Morrison. (...)"  
Excerto de A Voyage Arount the World, de Nehemiah Adams, publicado em 1871. 
Nota: A passagem por Macau ocorreu em 1869
Tradução/Adaptação:
"Um dos locais mais encantadores da China é Macau, a três horas de barco a vapor de Hong Kong, cuja população recorre a Macau na estação quente, pois ali as brisas marítimas atenuam muito o calor. Os passeios pelo local, com vista para o mar em todas as direções, são lindos. A antiga igreja de São Paulo, a maior parte da qual permanece tal como foi destruída pelo fogo, é um belo exemplar de arquitetura.
A coisa mais notável em Macau é a gruta onde Camões, o poeta português, morreu no exílio por publicar uma sátira ao vice-rei. A botânica selvagem do local e as marcas geológicas são  sinais claros de ação glacial são notáveis. Os rochedos estão empilhados de uma forma resultante de uma força hidrodinâmica além da capacidade humana. Perto da gruta há um cemitério para estrangeiros e, entre os muitos missionários mortos ali sepultados, para o viajante cristão destaca-se o túmulo de Morrison."

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Exclusivo do vinho chinês "Liu Pun"

Na Cronologia da História de Macau, de Beatriz Basto da Silva, pode ler-se:
"No dia 20 de Abril de 1892 e nos dias seguintes verifica-se em Macau uma greve. Mais uma vez a questão dos monopólios - agora do vinho chinês “liu-pun”, que fora arrematado, ainda por cima a um chinês de Hong Kong. A questão foi encaminhada para resolução na Corte, em Lisboa e o Visconde de Sena Fernandes assumiu a questão do pagamento das taxas que o arrematante exigia, até vir resposta, o que de momento acalmou os ânimos.
Este protesto foi originado pela publicação do Decreto do Governo de Sua Majestade Fidelíssima, de 1 de Outubro de 1891, para que estabelecesse em Macau o exclusivo da bebida chamada liu-pun, a que estavam ligados muitos interesses chineses. Já em Boletim Oficial de 6 de Abril de 1892, o Governador Conselheiro Borja alertava e põe nesta data um ponto de ordem sobre uma agitação provocada através de pasquins afixados publicamente por «certos perturbadores da ordem, mal intencionados» acerca desse Decreto."
Excerto do edital acima referido publicado no suplemento ao nº 13 do
Boletim Official  do Governo da Província de Macau e Timor a 6.4.1892

O vinho liu pun - vinho que resulta da fermentação do arroz – era uma das indústrias mais rentáveis em Macau. Em 1927, por exemplo, existiam 48 fábricas em Macau que produziam o vinho liu pun. Na década seguinte eram 11.
O exclusivo deste produto fora criado em 1891. 
Na edição de 4 de Março de 1893 o Boletim Official do Governo da Província de Macau e Timor - imagem acima - refere o número de licenças emitidas para o negócio de Liu-pun em Macau, Taipa e Coloane entre Janeiro e Abril: 24 licenças para importação do Liu-pun; 24 licenças para o fabrico de vinho; 62 para a venda por grosso e 143 para a venda a retalho. As receitas obtidas foram superiores a um milhão de patacas.
Na gastronomia macaense este vinho é usado na galinha chau chau parida, por exemplo.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Alvará do Regimento da Ouvidoria de Macau

A 26 de Março de 1803 o Príncipe Regente manda publicar o Alvará com o Regimento da Ouvidoria de Macau que era assim restabelecida. O vencimento do Ouvidor era pago pelo Senado, recebendo vencimento igual ao do Governador e ao do Bispo, e tem direito a emolumentos, sendo nos impedimentos substituído pelo Juiz Ordinário mais velho. Como este alvará era ainda instituída a Junta de Justiça.
Com apenas 26 anos Miguel de Arriaga Brum da Silveira (1776-1824) assume o cargo de Ouvidor de Macau a 3 de Janeiro de 1803.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Um quartel que não passou do papel

É de cerca de 1900 esta planta de uma projecto de edifício para albergar uma Companhia de Infantaria. O objectivo era a construção ser feita no espaço onde ficava o Convento de Santo Agostinho que seria demolido para o efeito. O projecto não passou do papel.
Vicissitudes várias, incluindo a expulsão das ordens religiosas, fizeram que o antigo convento albergasse ao longo de várias décadas vários agrupamentos de militares no território - Batalhão do Príncipe Regente, por exemplo - bem como de polícia. Mesmo em avançado estado de degradação o edifício ainda serviu como primeira casa do Liceu de Macau aquando do primeiro ano lectivo em 1894. Já no início do século 20, o edifício em ruínas seria comprado por Artur Basto (1873-1935), o primeiro filho de António Joaquim Basto, que ali instalou residência até morrer em 1935 passando o edifício para a posse da Companhia de Jesus que ali instalou a Residência de Nossa Senhora de Fátima (Edifício Vila Flor, anexo à Igreja de Santo Agostinho).

domingo, 29 de outubro de 2023

Polícias Mouros da Índia para Macau: 1872

Secretaria do Governo Geral
Por ordem de sua exa o sr governador geral se publica o seguinte:
O governo de Macáu propõe o engajamento de 60 mouros para o serviço de policia daquella cidade nas condições abaixo mencionadas:
1º O mouro que se engajar por para o dito serviço deverá ter servido no exercito de Goa ou no da India Ingleza com boa nota; 
2º Deverá ser robusto e estar em condições de continuar o serviço segundo o parecer da junta de saúde de Goa; 
3º Engajar-se-ha para servir por tres annos a contar do seu desembarque em Macau;
4º Ficará sujeito aos regulamentos militares desde que assentar praça no corpo policia que será no dia immediato à sua chegada a Macau; 
5º Se findos os tres annos do serviço quizer continuar terá direito ao augmento de 1 pataca no seu vencimento mensal alias dar-se-lhe ha logo passagem para o seu regresso a Goa; 
6º Terá o vencimento mensal de 7 patacas correspondente, segundo o cambio actual, a 44 pardaos cobre approximadamente; 
7º O serviço em Macau será semelhante ao que tinha o corpo de policia em Goa; 
8º A importancia dos uniformes ser-lhe-ha descontada por modica deducção em seus vencimentos; 
9º São preferidos os mouros que serviram no corpo de policia de Goa; 
10º As praças que se engajarem receberão uma semana antes de embarcarem e sob fiança uma ajuda de custo de 10 patacas ou 62 pardaos cobre aproximadamente sem sujeição a desconto; 
11º A bordo terão rações sufficientes fornecidas em Goa segundo os habitos e religião d'estas praças; 
12º Em Macau viverão em commum no quartel fazendo parte da mesma companhia e tendo as commodidades e arranjos proprios da sua seita; 
13º Dar-se-lhes ha terreno para a edificação de uma mesquita se isso lhes convier.
NB: Não terá lugar o engajamento não excedendo o numero a 40
Os que pretenderem entrar neste serviço compareçam com os seus competentes documentos na repartição militar até ao ultimo do corrente mez de novembro. Secretaria do governo geral, 11 de novembro de 1872.
in Boletim do Governo do Estado da Índia, 12 Novembro 1872