segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Views of the pearl river delta


This catalogue (published 2002) contains works from the exhibition "Views of the Pearl River Delta: Macau, Canton and Hong Kong" (Australia National Maritime Museum) that took place at Hong Kong Museum of Art in 1998.
The art works includes paintings, drawings, prints and maps, lacquer wares, silver wares, ivory products, porcelain and wood furniture. The exhibits illustrate the patron needs and aesthetic tastes in the heydays of China trade.
A segunda edição do catálogo da exposição que teve lugar no Museu de Arte de Hong Kong "Views of the pearl river delta - Macao, Canton and Hong Kong" em 1998 surgiu em 2002.  A mostra incluiu a exibição de pinturas, mapas, peças em marfim, porcelana e marfim e mobiliário em madeira. Sobre o tema sugiro ainda a leitura de Merchants of Canton and Macao.

domingo, 26 de outubro de 2014

Boletins do governo na segunda metade do século XIX

Para evitar equívocos e dissabores, o secretário do Governo de Macau, Miguel Pereira Simões, fez publicar o seguinte Aviso no “Boletim Oficial do Governo de Macau”, na edição de 3 de Outubro de 1838: “Por ordem do Ilmº. Governador desta Cidade e suas Dependências faz-se público, que não obstante o Periódico semanal, que hoje se imprime nesta Cidade ter o título de – Boletim Oficial do Governo de Macau – o Governo não concorre para a sua redacção com outros trabalhos, além das Peças Oficiais, que julga dever mandar publicar, e que nada tem com a redacção, nem com as doutrinas publicadas no mesmo Boletim”.
II
O que se podia ler em Macau, melhor dizendo, que publicações periódicas e livros se poderiam adquirir no mês de Fevereiro de 1855? O anúncio da “Loja de J. da Silva” publicitava estes títulos: “Código Comercial Português; Gramática de Lobato; Gramática Latina; Manual Enciclopédico; Dicionário de Fonseca e Roquete; Ortografia; Armazém de Conhecimentos”. O mesmo estabelecimento, num anúncio à parte, informava que tinha para venda o “Reportorio Tonico de Palavras Polyssyllabos e de Frases Chinezas em 140 volumes, por Imperador Kan-Ky”. Por outro lado, a Tipografia de J. da Silva, em Macau, ou a empresa J.J. da Silva e Souza, em Hong Kong, providenciavam as assinaturas do “Boletim Oficial de Philipinas”, da “Ilustrated London News”, “Spectator”, “Home News”, “Atlas for India”, “Economist”, “Ladie’s Own Journal and Miscellany” e “Straits Guardian”.
III
No “Boletim do Governo de Macau”, de 1 de Janeiro de 1866, noticia-se orgulhosamente o nascimento do Clube Lusitano em Hong Kong: “No dia 26 de Dezembro último, foi S.Exª. o Governador a Hongkong presidir à festa solene da colocação da primeira pedra do edifício que ali se vai erigir para um clube português, com o título de Clube Lusitano. Sua Exª o governador foi de Macau, acompanhado pelo seu estado maior, e foi recebido em Hongkong pelos cavalheiros da comissão directora do referido club, estando no cais, para o mesmo fim, o general das forças britânicas em Hongkong, e uma guarda de honra de infantaria 9, salvando-se ao desembarque de S.Exª. com a salva que lhe competia. A festa, a que assistiram todos os principais funcionários ingleses, e a maioria dos portugueses residentes na colónia, correu sumptuosa e brilhante. S.Exª. o governador partiu de Hongkong penhorado por tantas atenções de consideração como as que recebeu na curta demora que teve naquela cidade. Depois da cerimónia que correu com as devidas formalidades, serviu-se um esplêndido ‘lunch’, no qual se fizeram vários brindes, todos com entusiasmo recebidos. Os primeiros foram a S.M. a Raínha Vitória e a S.M. El-Rei o sr. D. Luiz. Damos sinceros parabéns aos sócios do novo club pelo bem que correu esta festa, de muito alcance, e pela dignidade com que se houveram em acto tão solene”.
Ca. 1860. John Thomson
IV
Na ‘Parte não Oficial’ do “Boletim do Governo de Macau”, de 7 de Janeiro de 1867, avultam duas breves notícias susceptíveis de permitirem leituras divergentes quanto à estabilidade governativa: a primeira, diz-nos que “a canhoneira ‘Príncipe Carlos’ não se acha no porto, tendo saído a cruzar na costa em perseguição dos piratas”; a segunda, informa secamente que “temos a registar a cedência de 400 arrobas de pólvora que o governo de Hongkong fez ao nosso governo, o que é uma prova das boas relações entre as duas colónias”.
V
No Relatório do major Francisco Maria da Cunha, publicado no dia 3 de Janeiro de 1870, sabemos que foi construída “uma boa cavalariça e cocheira no palácio do governo, obra necessária não só porque as casas destinadas aqueles misteres não tinham a precisa capacidade, nem estavam colocadas em lugar apropriado, como porque não satisfaziam a nenhuma das condições higiénicas”.
VI
Na “Parte Não Official” do Boletim da Província de Macau e Timor, edição do dia 8 de Agosto de 1870, foi inserida uma bionecrologia assinada por “S.”, de uma personalidade macaense, Leocádio Justino da Costa, cuja memória importa recuperar. “S.” será presumivelmente Saverio, o padre Francisco Saverio Rondina. Vale a pena ler:
“Uma Lágrima. Para os macaenses foi fatal o dia sexta-feira 29 de Julho, porque além de ser esse o dia em que o nosso Redentor foi morto, lá pela 1 hora da tarde desse dia, expirou o nosso amigo, o médico civil Leocádio Justino da Costa, com 51 anos, 7 meses e 25 dias de idade.- ‘Hodie Mihi, cras tibi ! Natural de Macau, em seus verdes anos, cursou os seus estudos no real colégio de S. José de Macau com grande aproveitamento, e sem ainda os completar deixou o colégio, e se pôs a navegar por alguns anos como quem queria seguir a vida náutica, mas finalmente deixou de seguir essa vida tão perigosa e incomodativa para os homens, e se resolveu ir a Goa estudar a medicina, até que em 1841 recolheu-se à sua terra natal, formado e encartado para seguir a honrosa profissão de médico. Inda que no princípio de sua carreira nessa profissão a que se dedicou, novo e com pouca prática que então possuía, pouco fez, contudo depois de 1851, com os anos de prática que já tinha adquirido, com os seus estudos e assíduos trabalhos nessa profissão, tornou-se querido e chamado por quase Macau inteiro para acudir aos seus doentes e nessas ocasiões era tão pronto em acudir risonho e consolador tanto aos ricos como aos pobres como era feliz em acertar com a cura; no ano de 1859 em que grassou por aqui a cólera morbus, distinguiu-se muito entre os seus dignos colegas e o chefe de saúde levou os seus feitos ao conhecimento de Sua Majestade, que o condecorou com o hábito da Torre e Espada – honra lhe seja. Finalmente nos últimos anos de sua vida, além de sua bondade e bonomia natural em tratar e corresponder com todos geralmente, foi bem quisto, estimado e distinguido, não só pelos seus concidadãos como também pelos estrangeiros, e tão popular se tornou por praticar as obras de caridade, não só em acudir e curar, como também em socorrer com remédios e dinheiro aos necessitados, que até entre os chinas indígenas e principalmente entre os pobres era muito venerado. Muitos dos seus concidadãos ao acompanhar o seu féretro à última morada, clamavam : ‘fechou-se mais uma porta de misericórdia !!’. Como o dr. Leocádio, filho de Nicolau Tolentino da Costa e Mariana Osório da Costa, raro há neste mundo que o exceda em amor filial. Como marido foi sempre extremoso; como cidadão ocupou com zelo e ilustração vários cargos importantes nesta sua terra, e em todos se distinguiu sempre com esmero e aptidão. Como cristão, recebeu antes de morrer todos os Sacramentos, e inda que poucos dias sofreu de moléstia, mostrou-se resignado e sofredor durante os 12 dias de seus últimos padecimentos, consolando e despedindo-se de todos com aquela mesma natural bondade. Como amigo, era estimado de Macau inteiro e de todos os que o chegaram a conhecer, tanto aqui como em Goa onde esteve estudando por espaço de seis anos. Esta lágrima de saudade que este seu amigo derrama sobre a sua campa, será partilhada por muitos dos seus amigos e admiradores das suas virtudes, de quem eu peço um P.N. para o descanso de sua alma e para consolação de seus irmãos e parentes que o chorarão inda por longos anos. No dia sábado às 6 e meia horas P.M. baixou à sepultura, acompanhando-o os seus numerosos amigos e uma guarda de honra. ‘Requiescat in pace’. S. Macau, 31 de Julho de 1870”.
VII
Anúncio publicado no “Boletim da Província de Macau e Timor”, de 27 de Setembro de 1873 : “Os senhorios e o capitão da galera peruana ‘Macao’, não respondem pelas dívidas contraídas por nenhum dos tripulantes da dita galera, durante a sua permanência neste porto”.
VIII
O bilinguismo administrativo recebeu um impulso decisivo mercê da Portaria Nº 25, de 6 de Fevereiro de 1879, assinada pelo Governador Carlos Eugénio Correia da Silva. A razão é simples: “Atendendo a que só a publicação em caracteres sínicos poderá facilitar-lhes a leitura de tais actos, pela ignorância quase completa que tem os chins da língua portuguesa”. Por isso, o Boletim Oficial da Província de Macau e Timor “será publicado em português e chinês, devendo a repartição de sinólogos ser encarregada da tradução de todos os actos oficiais”. Esta Portaria Nº 25 foi integralmente traduzida por Pedro Nolasco da Silva, 1º intérprete.
IX
O governador Joaquim José da Graça, pela Portaria Nº 23, de 7 de Abril de 1880, determina que “ficam as patrulhas dispensadas de usar espingardas, devendo este serviço ser feito com revólver e espada-baioneta, tudo conforme propõe o comandante geral interino da guarda policial, cujo zelo pelo serviço é muito digno de consideração”.
X
A ordem a observar na procissão do Corpo de Deus, no dia 27 de Maio de 1880, é a seguinte: “1º. Cruz e confraria de N.S. da Boa Morte; 2º. Confraria de N.S. da Boa Viagem; 3º. Confraria de N.S. dos Remédios; 4º. Confraria de N.S. da Conceição; 5º. Confraria de N.S. do Rosário; 6º. Confraria do SS. Sacramento; 7º. Ordem terceira de S.Francisco; 8º. Cruz da freguesia de Santo António; 9º. Cruz da freguesia de S. Lourenço; 10º. Cruz da freguesia da Sé; 11º. Seminário Diocesano; 12º. Comendadores e cavaleiros com mantos; 13º. Cruz do cabido e clérigos com capas; 14º. O Santíssimo Sacramento. Irão ao pálio os comendadores e cavaleiros previamente convidados; 15º. O estandarte do Leal Senado; 16º. S.Exª. o Governador e o seu estado maior, o conselho do governo, o leal senado, o corpo consular estrangeiro, os juízes, a junta da fazenda, os oficiais efectivos e reformados, os oficiais das outras classes, os juízes de paz e os empregados públicos, fechando o préstito a guarda da procissão”.
Selecção de António Aresta. Publicado no JTM de 4.4.2004

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ásia Sínica e Japónica

Escola Tip. do Oratório de S. J. Bosco (Salesianos), 1941
"O livro "Azia Sinica e Japonica", que o arrábido Frei José de Jesus Maria escreveu, "desde o anno de 1740 athé o de 1745", em Macau, e agora o Instituto Cultural reedita, em fac-simile, encontrou-o João Feliciano Marques Pereira, em 1899, em manuscrito de 351 páginas de texto, precedido por 16 páginas não-numeradas, das quais a primeira forma o frontispício, 14 o índice e uma final em branco. Abrange a obra toda a história desta Cidade do Nome de Deus, desde o início até 1745, revestindo particular interesse histórico o livro VIII do segundo volume, páginas 76 a 97, e os documentos dos códices mais antigos do velho núcleo do Leal Senado, que as intempéries e os bichos destruíram, mas a que o autor ainda teve acesso. Noutros pequenos pontos, melhor documentados por outras fontes, a informação de Frei José é deficiente e, até, errada, como, aliás, mostram as excelentes notas de Marques Pereira, Charles Boxer, sobretudo, e José Maria Braga.
A primeira parte do segundo volume da "Ásia Sinica e Japónica" foi dada à luz da publicidade durante a última guerra, na Revista "Renascimento", numa ocasião em que o distinto professor C. R. Boxer, não se encontrava em Macau.
Tínhamos, portanto, a publicação a nosso cargo e, na Intenção de melhor elucidar os leitores, tornámos maior o número de anotações, das quais nos cabe inteira e absoluta responsabilidade.       Julgamos, assim, nosso dever prestar este esclarecimento, para que tais anotações não possam ser atribuídas ao professor C. R. Boxer."

As palavras são de Benjamim Videira Pires e referem-se à reedição da obra de 1941 em dos dois volumes no ano de 1988.


Ásia Sínica e Japónica: obra póstuma e inédita do frade arrábido, José de Jesus Maria.
Editora: Instituto Cultural de Macau; Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988
Notas: Reedição Fac-similada da obra com o mesmo título editada pelo autor, Macau, 1941 - Obra Póstuma e Inédita do Frade Arrábido José de Jesus Maria. Anotada por Charles Ralph Boxer


Excerto:
"A muitos chinas novos cristãos em que se conhece melhor capacidade, se tem mandado para a Europa estudar, com especialidade a Companhia de Jesus para os seus famosos Colegios de Italia e Europa, alem dos que na India e Macau ensinão, conduzindo tudo para a propagação da Fé. Alem destes há inumeraveis Catequistas. Os irmãos Leigos da Companhia e mais religioens que são muitos concorrem para o mesmo effeito de Cathequizar."
A páginas tantas o autor refere as igrejas que em Macau foram edificadas em devoção à Virgem:
"A igreja Matris com o titulo de S. Senhora da Natividade, o Colegio da Companhia (chamado hoje de S. Paulo), a N. Senhora Madre de Deus, o convento de S. Domingos, a N. Senhora do Rosario. A Santa Casa da Misericordia, a N. Senhora da Visitação. A Igreja de S. Lourenço a N. Senhora do Socorro. O Convento do S. Agostinho, a N. Senhora da Graça; A Igreja sobre o monte, a N. Senhora da Penha; O convento de S. Francisco, a N. Senhora do Amparo; A Igreja do hospital de S. Lazaro, a N. Sra. da Esperança; A Igreja da Fortaleza da Guia, à mesma Senhora; A do Forte do Bom Parto, tambem a N. Sr.ª com este titulo; alem destas Igrejas e conventos dedicado tudo á May de Deus tem mais o Convento de S. Clara de Religiosas Capuchas dedicado á Conceição de N. Senhora."

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Casa de Penhores Cheong Tai


As casas de penhores estão espalhadas um pouco por todo o território, sendo mais frequentes junto aos casinos e/ou locais de comércio. Uma das imagens que lhes está associada é a figura do morcego. As mais antigas funcionavam nas chamadas torres prestamistas.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Carlos Gomes Bessa: 1922-2013

Falecido no final de 2013 o coronel Carlos Gomes Bessa não prestou serviço militar em Macau mas visitou o território várias vezes. Para além de militar foi também historiador. Na vasta bibliografia que produziu, Macau esteve presente em diversas obras.
Coordenou o volumoso “Presença Portuguesa no Oriente”, um número especial da Revista Militar (Janeiro de 1999), que inclui os artigos “Restauração em Macau – património e perspectivas do futuro de Portugal no Oriente” (1989), “Macau do Santo Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares” (1999), “Aljubarrota – sua evocação em Macau” (ICM, 1986) e “Macau e a Implantação da República da China – uma carta de Sun Yat-Sen para o Governador José Carlos da Maia” (Fundação Macau, 1999). 



Considerado "o pai da China moderna" Sun Yat-sen foi o primeiro presidente da República chinesa, proclamada a 10 de Outubro de 1911. Nascido no sul da China em 1867, Sun Yat-sen exerceu medicina em Macau e era um admirador da República portuguesa, proclamada um ano antes. Uma admiração que ficou expressa numa carta que Sun Yat-sen escreveu em 1916 ao então governador de Macau, José Carlos da Maia, agradecendo a "ajuda" da administração portuguesa aos seus partidários.
"Formulo ardentes votos, meu caro Governador, para que a ordem e a paz sejam rapidamente restabelecidas na China, a fim de que nós possamos, com a ajuda e o exemplo da República Portuguesa, instaurar na China os princípios e as bases de uma administração que traduza as aspirações do povo".

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Coloane by Jolie Ho


Duas fotografias que retratam Coloane em meados da década de 1970 e que se mantiveram actuais praticamente até à década de 1990. Fotos (acima) do IICT: acesso à Cheock Wan e Praia de Hac Sa, destacando-se as casuarinas e o antigo campo de tiro.
Coloane's old world charms still beating strong
The boats may have left Coloane decades ago, but the island dotted with narrow lanes still offers a taste of authentic Portuguese village life
Choi Shoi-ying has been living in Coloane, one of Macau's two main islands, for 60 years.
Originally from Zhongshan , Guangdong province, the 90-year-old salted fish trader remembers how the village was once a thriving fishing port, with boats packed along its coast. "Salted fish on the island were in abundance and just piled up," said Choi, who together with her husband raised five children. "We needed to wake up at 6am to wash the fish … Then we took them outside and covered them with plastic," she said. "They had to be placed under the sun for two to three days. When it rained, there would be worms."
Those days are long gone. As Macau celebrated its 13th anniversary of the handover yesterday, long-time Coloane residents like Choi looked back to a time when the former Portuguese colony was home to many hardworking fishermen.
Another Guangzhou immigrant, Sio Yio, who has lived in Coloane since the 1970s, used to run a small Chinese restaurant on the island. The 75-year-old said: "The fishermen used to knock on my door at three or four in the morning to look for food because some of them would return from the sea in the middle of the night. We did not have to worry about our business at all." But starting in the 1980s, fishing in the area declined, Choi said. "The fishing boats went to Hong Kong instead, and some fishermen went to work in the factories," she said. Choi then decided to open a mahjong parlour. "Many policemen came to play mahjong at my place, but they are not allowed to gamble any more today."
The parlour was forced to close about 15 years ago.
Today, fishing boats are a rare sight and young people leave Coloane to look for opportunities elsewhere, largely in central Macau, some in Hong Kong and the rest on the mainland. Macau central has in recent years reinvented itself as a mega entertainment centre - the Las Vegas of the East. A quarter of the population works in the gaming and hotel industry.
But Coloane has so far maintained much of its earlier character.
With its cobblestone roads, salted fish stores, South European-style buildings and stilt houses on the water, locals still consider Coloane an ideal place to experience authentic Portuguese village life. Local delicacies such as Portuguese egg tarts as well as salted fish are also popular with visitors.
With an area of 7.6 sq km and a population of just 4,300, Coloane is located at the south-most part of Macau. Together with Taipa, it is one of the two main islands of the city.
The Portuguese name "Coloane" is derived from the Cantonese pronunciation of Gwo Lou Waan, literally means "Passing-road Ring". The name is believed to be borrowed from a place on Hengqin Island in Guangdong, located to the west of Coloane.
Historians believe the island was inhabited as early as 4,000 years ago. Until the Portuguese arrived in 1864, Coloane was mainly a sea salt farm.
The island came fully under Portuguese occupation after the country's soldiers helped villagers combat pirates in 1910. A monument commemorating a victory over pirates still stands today.
Coloane's history as a fishing village is evident in the area's Portuguese street names, such as Travessa do Balichao (meaning salted shrimp lane). Another main road is Avenida de Cinco de Outubro, or Avenue of October the fifth - the establishment date of the Republic of Portugal. Olavo Rasquinho, head of the Typhoon Committee Secretariat, a UN-linked international organisation headquartered in Coloane, has noticed a surge in tourists to the island over the past five years. "It is not easy to park cars now," said the 69-year-old immigrant from Portugal. "It's quiet and peaceful, and you can still see people getting oysters from the ocean. It's still a village itself. And the narrow streets and characteristics of some buildings remind me of some Portuguese villages."
Such is the charm of this historical neighbourhood. Sio said the island remained safe even when Macau was rife with gangland violence in the 1990s. "Coloane was and has always been a peaceful place. People could sleep on a cot in the street and it was safe," he said.
Macau lawmaker Au Kam-san said the island had been spared the rapid redevelopment that is spreading across Macau.
"Some of the land was developed by farmers during the Ming and Qing dynasties and [their descendants] have sandpaper leases in their hands … but the Macau government does not recognise these leases," Au said. He said villagers could not change the land use rights and the government dared not confront them all at once, so the island had been spared large-scale developments. "There is not yet a development plan for the whole of Coloane, which is one of the places that has changed the least in Macau," Au said.
Article by Jolie Ho published on South China Morning Post 21 December 2012

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Cine-teatro Vitória: 20 Outubro 1945

Na imagem um folheto do programa de 20 Outubro 1945:
seis sessões diárias (14, 15, 17, 19 20 e 21 horas) para ver um conjunto de seis documentários com as últimas novidades sobre a 2ª Guerra Mundial que terminara meses antes. O preço dos bilhetes oscilava entre as duas patacas para a galeria e a pataca e pataca e meia para a plateia.
Também em Outubro, mas de 1962, estreou o filme The Young Ones, na senda do sucesso do grupo britânico The Shadows.
O Vitória foi inaugurado em 1910 sendo uma das mais antigas, senão mesmo a mais antiga sala de cinema de Macau.

domingo, 19 de outubro de 2014

Terra de tufões

Com a entrada da tempestade tropical num semicírculo de 800 quilómetros em volta de Macau, começam a ser hasteados os sinais de alerta que aumentam consoante a intensidade dos ventos e a aproximação da tempestade, numa escala de cinco níveis que integra os números um, três, oito, nove e dez. Com ventos até 62 km/h chama-se depressão tropical; de 62 até 88 km/h ciclone tropical; de 89 km a 117 km/h ciclone tropical severo; quanto os ventos sopram acima de 118 km/h designa-se tufão.
O termo português é tufão e em inglês Typhoon, fruto da pronúncia da palavra chinesa 大风, Tai Fung, que significa “grande vento”.
Estes são os termos actuais de um fenómeno que se faz sentir anualmente entre os meses de Maio e Outubro e cujos primeiros registos remontam ao final do século 16.
No ano de 1599, aos 28 do mês de Julho quando eu estava na cidade de Macau, vi mais de 10 ou 12 casas arruinadas pela água e pela força do tufão que nas ilhas Filipinas é chamado pelos castelhados «huracán». As casas são feitas de terra misturada com cal viva; são fortificações de tantas a tantas braças com tabiques de pedra murados a cal, sendo as paredes estucadas com cal por dentro e por fora, e cobertas de telhas em tudo ao modo da Espanha. Depois de ter soprado com tanta fúria, que não se podia andar pelas ruas nem sequer mostrar lá a cara, o vento parou, tendo passado por todos os rumos da rosa dos ventos, e continuou durante dois dias. Além de muitos danos, e naus que fez desviar por toda a costa e portos de China, fez também perder no porto de Amacao uma nau que tinha vindo do Reino do Sião, carregada de lenha chamada comummente pau brasil”. As palavras são do mercador florentino Francisco Carletti (1573-1636) – nos “Arrazoamentos da minha viagem à volta do mundo” – que esteve em Macau de 15 de Março de 1598 a 28 de Julho de 1599, vindo do Japão.
Antes de funcionarem no monte da Guia, era na fortaleza do Monte que eram içados os sinais de aviso de aproximação de tufão, sendo que por vezes também eram emitidos sinais sonoros.
No século XVIII registou-se um grande tufão. Foi a 5 de Setembro de 1738. Relatos da época referem que “nesse dia e até à manhã do dia seguinte, sofreu esta cidade e porto um horroroso tufão que pela grandeza dos estragos e desastres que dele constar, deve ser considerado talvez o maior que nestas paragens se viu”. Mais de um século depois, este “título” seria destronado.
Foi a 22 e 23 de Setembro de 1874. Para além do rasto de destruição, estima-se que entre 4 a 5 mil pessoas tenham morrido. Pedro Gastão Mesnier, secretário do Governador, registou no Boletim Oficial as suas impressões: “Encapelando-se em montes sobrepostos, o mar levantou-se numa vaga medonha, e sopesando-se num instante, precipitou-se de cofre sobre toda a parte oriental da cidade, desde o forte de S. Francisco até à Barra. As portas das casas da Praia Grande foram arrancadas, peças de artilharia de muitas toneladas foram desmontadas e transportadas a grande distância”.
Há ainda um registo de um Padre de nome Alves a este propósito: “Um pavoroso tufão desabou sobre esta cidade, reduzindo grande parte dela a um montão de escombros. A casita, que a Madre Ferrario alugara na Rua de S. Paulo, desabou também, não havendo, felizmente desastres pessoais (…)Por essa ocasião havia em Macau um padre de Goa, Francisco Rosário dÁlmeida, que tudo o que tinha, e até o próprio tempo de que dispunha, o empregava em fazer bem à pobreza. A sua casa era um asylo de creancinhas e pobres abandonados, onde todos tinham esteira e arroz para viver. Quando este Padre viu as religiosas reduzidas à miséria e ao abandono com o desabamento da casa (…) foi procurar-lhes uma casa na rua de Sancto António, onde pagavam de renda 10 patacas mensaes”.
Em 1875 um outro tufão arrastou mais de 140 embarcações e danificou quase 20 edifícios, incluindo o Palácio do Governo.
No final do século XIX, a 29 de Julho de 1896, os tufões voltariam a provocar estragos assinaláveis e a provocar mortos. De acordo com o testemunho de Abreu Nunes, director das obras públicas, no “palácio do governo sofreram os estuques, a pintura das salas e a caiação e pintura exterior que ficaram imundas pela lama arremessada pelo vento. No edifício da Liceu abateu uma pequena casa separada do corpo principal que servia antigamente de cozinha e o muro contíguo”.
Já no século XX, em 1923, um ciclone tropical destruiu cerca de 200 prédios, afundou dezenas de embarcações e provocou a morte a 400 pessoas. Um barco foi mesmo projectado para perto da catedral de Macau e outras embarcações foram arrastadas para a zona do antigo “bazar”. Registaram-se ainda diversos incêndios e ataques de piratas. É por esta altura que são introduzidas melhorias nas previsões dos Serviços Meteorológicos e no sistema de alerta.
A 20 de Agosto de 1927 um outro tufão assola Macau, o terceiro mais violento a atingir o território até então. No testemunho do capitão do porto, Almeida Pinheiro, fica-se a saber, por exemplo, que a amarra que segurava o cruzador “República” à bóia se partiu. O navio chegou a adornar e esteve em risco de afundar. No jornal “A Pátria” (23 de Agosto) pode ler-se que o “República” galgou o molhe do Porto Exterior e foi parar em frente a Santa Sancha a uns escassos 100 metros de distância da terra.
Ao longo do século XX ainda ficaram para a história, pelas piores razões, o “Glória” (1957), “Ruby” (1964), “Rose” (1971), “Hope” (1979), “Ellen” (1983), “Becky” (1991) e “York” (1999).
António Cambeta recorda-se do “Rose” em Agosto de 1971. “No dia 16, na companhia da minha mulher fomos no navio Fat Shan para Hong Kong onde ao chegar nessa manhã ficámos a saber que tinha sido içado o sinal 1 de tempestades tropicais, pelo que regressámos a Macau no primeiro navio. No caso, o navio “Macau”. O navio Lee Heng, um antigo barco de carreira entre Hong-Kong e Macau, afundou-se, numa zona entre Sham Shui Po e Lai Chi Kok, tendo perecido dois dos seus nove tripulantes, o mesmo não se poderá dizer do navio Fat Shan, que após ter sofrido dois abalroamentos, afundou-se ao largo da Ilha de Lantau. Da sua tripulação de 92 pessoas, só quatro sobreviveram. O navio Macau também sofreu alguns rombos, mas felizmente não causou mortes.”
A tragédia repetir-se-ia na madrugada de 9 de Setembro de 1983 com o “Ellen” a causar mais de uma dezena de mortos, resultantes sobretudo do afundamento de juncos nas águas do Porto Interior. Nos últimos anos do século passado, apenas o “Becky” e o “York” justificaram o içar do sinal nº 10.
Depois da 2ª Guerra Mundial os tufões “ganharam” nome. Até 1979 tinham nomes de mulheres. Depois desta data passaram a incluir nomes de homens. Em 2000 o sistema de designação de tempestades tropicais mudou. Agora há uma lista feita previamente, de seis em seis anos, e o baptismo é feito de forma rotativa. Em 2007 Macau contribuiu com uma lista de cinco nomes: Bebinca (pudim da gastronomia macaense), Peipah (peixe de estimação), Lin Fa (flor de lótus), Malou (pedra preciosa – em português Ágata) e Sanvu (coral). Em termos estatísticos Macau é atingido por cerca de uma dezena de tufões todos os anos, sendo que um em cada dez atinge o nível oito.
PS: No Arquivo Histórico de Macau está patente até ao dia 7 de Dezembro uma exposição intitulada “Em tempo de Tufões – Exposição dos Documentos Históricos de Macau”.
Artigo da autoria de João Botas publicado no JTM de 18.09.2014 

sábado, 18 de outubro de 2014

Manuel da Fonseca Moreira: 1925-2014

O padre Manuel da Fonseca Moreira, antigo pároco da igreja de São Lourenço e director do jornal O Clarim entre 1983 e 1985 e  faleceu no passado dia 12 de Outubro, em Fátima, aos 88 anos de idade. Nascido em Santa Eufémia (Leiria) a 20 de Outubro de 1925, o padre Moreira entrou em 1939 para o Seminário de Leiria, transitando posteriormente para o Seminário de Macau, onde terminou o curso de Filosofia-Teologia e foi ordenado presbítero tendo desempenhado  várias missões pastorais: pároco e vigário episcopal para a comunidade.
Em 1987 foi para a Diocese de Leiria-Fátima, onde durante um ano foi capelão do Santuário de Fátima. De 1988 até 2001 foi Pároco do Arrabal. Durante este tempo desempenhou ainda as funções de Assistente Espiritual da Cúria Diocesana da Legião de Maria e foi membro da Equipa Sacerdotal dos Cursos de Cristandade. Em 2001, por motivos de saúde, deixou a responsabilidade paroquial e passou a auxiliar o Pároco dos Marrazes como Vigário Paroquial, até 2008, ano em que passou a residir na Casa Diocesana do Clero, onde morreu.
Foi uma figura muita estimada nos anos em que viveu em Macau. Na década de 1980 era também o responsável pelo "Encontro", o Boletim Interparoquial (mensal) de comunidade portuguesa.
Foto de grupo em 1987 frente à igreja de Santo António

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Repartição dos Assuntos Sínicos e a inssureição de 1900

(...) Apesar da política de tolerância do governo português para com os revolucionários chineses a administração colonial permanecia tanto atenta quanto podia aos seus movimentos e actuava mesmo quando as suas acções ultrapassavam os limites considerados aceitáveis de modo a não porem em risco as relações entre Portugal e a China. Encarregava-se da vigilância do mundo chinês a Repartição dos Assuntos Sínicos (RAS), um departamento administrativo do governo que podia considerar-se como uma espécie de serviços secretos de Macau. Dotada de um quadro de agentes chineses e de intérpretes tradutores a RAS complementava os serviços de polícia, os quais mantinham também uma secção de investigação, permanecendo, tanto quanto podia, atenta essencialmente aos fenómenos políticos internos que iam desde a censura aos jornais teatros e cinemas até ao controlo dos comícios e de figuras suspeitas de actividades subversivas.
A RAS era directamente tutelada pelo próprio governador que decidia sempre em última instância, sobre os processos em curso. Na sua actividade de manutenção da estabilidade e dos instáveis equilíbrios que se verificavam no seio da comunidade chinesa, tendo sempre em atenção a vizinha e poderosa China a RAS confrontava-se com um volume demasiado grande de serviço burocrático acabando por despender grande parte dos seus esforços no domínio da tradução de documentos, licenciamentos e fiscalizações rotineiras. Restava-lhe, assim, pouco tempo para um efectivo controlo político da comunidade chinesa.
A situação manteve-se todavia sob relativo controlo até ao final do século XIX momento em que a agitação revolucionária se incrementou com a decidida ascensão dos republicanos de Sun Yat-sen no seio do movimento revolucionário chinês e o consequente isolamento dos reformistas cujas teses perdiam terreno à medida que a irredutibilidade do governo central de Pequim se acentuava rejeitando quaisquer veleidades constitucionais. O corte radical entre reformistas e republicanos seria selado em 1900, na sequência da segunda tentativa de Sun Yat-sen para derrubar o governo de Cantão e proclamar a independência das províncias gémeas de Guangdong e Guanxi.
A tentativa revolucionária de Sun Yat-sen, no Veräo de 1900 mais uma vez contou com o apoio da Tríade que se dividia por quantos bandos de piratas cruzavam o rio das Pérolas, muitos dos quais mantinham os seus quartéis generais em Macau. Através de Macau passavam também as espingardas e munições que armavam esses grupos cujo número chegava a ser de 200 a 300 homens em pequenas armadas que assolavam a província de Guangdong. A suspeita levantada já em Macau em Maio de 1896 de que tais “quadrilhas armadas se poderiam combinar sob um chefe forte para derrubar o governo” confirmava-se três anos depois quando, Sun decide reactivar a sua organização revolucionária em Hong Kong e Macau empenhando-a na arregimentarão desses bandos para uma operação semelhante a insurreição fracassada de 1895.
Encarregou-se do recrutamento dos insurrectos Cheng Shi-liang que estabeleceu quartel general em San Chou-tien, uma ilha conhecida por ser abrigo de piratas, situada no rio das Pérolas a cerca de dez quilómetros da costa chinesa e a menos de 20 da fronteira dos Novos Territórios de Hong Kong. A revolta aproveitava o estado de confusão reinante no país pelo pronunciamento dos Boxers no norte, que tinha lançado a China no caos e servido os apetites colonialistas das potências ocidentais que ameaçavam dividir o velho continente em várias esferas de influencia desintegrando o trono. As hesitações de Sun Yat-sen que chegou a considerar, juntamente com o governador de Cantão, Li Hung-chang, a hipótese de proclamar a independência das províncias do sul, levaram a que as movimentações dos rebeldes em San Chou-t’ien chegassem ao conhecimento das autoridades imperiais o que fez com que o exército improvisado de Cheng Shi-liang fosse obrigado a pronunciar-se marchando sobre a capital distrital. ali, num confronto com um destacamento imperial, obteve uma decisiva vitória que lhe permitiu ganhar aderentes e continuar em direcção a Cantão objectivo designado pelo próprio Sun Yat-sen.
Esse exército cresceu rapidamente para cerca de dez mil homens, conquistando as vilas e aldeias que se interpunham no percurso em direcção à capital provincial. Quando se encontravam porém a pouca distância das muralhas de Cantão receberam ordens de Sun Yat-sen para alterarem os planos e marcharem para norte com o objectivo de capturar Amoy. A razão para tal alteração prendia-se com o facto de o Japão ter prometido assegurar apoio militar aos revoltosos se estes dirigissem os seus esforços contra a capital fuquinense onde os japoneses se pretendiam instalar também a partir das suas bases em Taiwan. As forças revoltosas foram então reagrupadas marchando com destino ao novo objectivo a 17 de Outubro.
Logo no dia 20 porém confrontavam-se com um batalhão do exército imperial comandado pelo capitão Wu Hsiang-ta que lhes infligia a primeira e fatal derrota. Três dias depois Sun Yat-sen que se encontrava em Taiwan informava Cheng Shi-liang de que afinal não poderia contar com qualquer auxílio japonês. Ciente então da inutilidade dos seus esforços Cheng decidiu finalmente desmobilizar as tropas e pôr termo à insurreição que durara duas semanas e meia. Desta vez os acontecimento de Guangdong reflectiram-se no entanto com mais intensidade em Macau onde chegavam várias famílias de refugiados. A população civil chegou mesmo a ser armada enquanto a guarnição militar era reforçada por destacamentos vindos da metrópole. A defesa marítima intensificava-se também com a chegada do Cruzador Adamastor.
O clima de tensão explodiu em Julho de 1900 com um incidente nas Portas do Cerco que provocou viva troca de tiros entre as guarnições portuguesa e chinesa através da fronteira durante dois dias consecutivo. Apesar dos confrontos não se registaram movimentações de tropas de qualquer dos lados e a vida continuou por isso a decorrer com alguma normalidade na cidade que rapidamente voltaria ao sossego absoluto.
O regresso da paz, permitiu ao governador Horta e Costa, que havia chegado no Cruzador da Armada Portuguesa reassumir o posto que tinha ocupado já anteriormente (1894/1896) e dedicar-se às tarefas administrativas internas mais urgentes: urbanização nova da cidade, saneamento básico e erradicação das epidemias cíclicas que afectavam o pequeno território. A insurreição do Verão de 1900 teve no entanto importantes repercussões. Nos anos seguintes, o governo de Guangdong enveredaria pelo caminho das reformas seguindo as orientações de Pequim o que provocou uma cismo inelutável entre os reformistas de Kang Iu-vai que se passavam declaradamente para o campo da dinastia Ching (a qual na prática abraçava as suas propostas reformistas) e as correntes anti- manchu entre as quais se contavam os correligionários de Sun Yat-sen, então ainda um nacionalista indeciso e os republicanos. Em Macau, os reformistas mantiveram ainda por algum tempo uma certa influência que no entanto se foi desvanecendo. (...)
Excerto de um artigo da autoria de João Guedes publicado na Revista de Cultura (ICM)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

National Geographic: Around the World in 125 Years

Fishing Boats, Macao. Photograph by W. Robert Moore, National Geographic
Hanging from boats in a Macao harbor, fishing nets dry in the early morning sunlight around 1931, the year photographer W. Robert Moore began his career at National Geographic.

Desde 1888 a revista norte-americana National Geographic (os seus fotógrafos) regista o mundo em fotografias. Agora (2014) foram editados 3 volumes que reúnem as melhores imagens tiradas ao longo de 125 anos.  Foram selecionadas 900 de um leque inicial de 11 milhões A Ásia (com Hong Kong e Macau, por exemplo) pode ser vista no volume 3. A NG possui um dos mais ricos arquivos de fotos de biodiversidade, multiculturalidade e paisagens naturais. A edição da Tashen - com mais de 1.500 páginas e 20 quilos de peso - é limitada a 125 mil exemplares.
A National Geographic Society foi fundada nos Estados Unidos a 27 de Janeiro de 1888 por 33 homens interessados em "organizar uma sociedade para o incremento e a difusão do conhecimento geográfico". Começaram a discutir a formação da sociedade duas semanas antes, em 13 de janeiro de 1888. Gardnier Greene Hubbard foi o primeiro presidente, e o seu genro, Alexander Graham Bell, o seu sucessor. O seu propósito era divulgar e melhorar o conhecimento geral da geografia e do mundo entre o público em geral. Para isso, realiza e apoia viagens de exploração e estudos científicos e publica mensalmente uma revista, a National Geographic. Inovou tecnicamente ao utilizar a cor nas fotografias logo nos primeiros anos do século XX. São também reconhecidos pela qualidade apresentada os seus mapas.
Macau tem tido presença regular na conceituada revista National Geographic desde o os primeiros anos do século 20.
"Land of Sweet Sadness: the oldest European settlement in the Far East, long the only haven for distressed mariners in the China sea"  by Edgar Allen Forbes - "Terra de suave tristeza" foi o título da principal reportagem da edição de Setembro de 1932. A reportagem foi traduzida para português e faz parte do espólio de Oliveira Salazar no ANTT. Dessa edição uma das imagens mais conhecidas e que foi selecionada neste especial 125 anos é da autoria de Robert Moore. Captou dezenas de barcos de pesca num amanhecer em 1931.
Nessa edição a revista National Geographic Magazine  destaca o facto de os artigos serem constituídos por "13 ilustrações" e "11 Natural Color Photographs".
Num boletim semanal de 16 de Março de 1936 a reportagem intitulou-se "Macao portuguese port of happy landings in China".
Em 1952 Joseph Baylor Roberts assina as fotografias da reportagem - com texto de George W. Long - que só saiu na edição de Maio de 1953. Tinha como título "Macau, a Hole in the Bamboo Curtain". Se tivermos em linha de conta que o Partido Comunista chinês tinha tomado o poder em 1949, percebe-se este título... São preciosas as fotografias que documentam a visita do ministro do Ultramar (Sarmento Rodrigues) ao território.
Em Abril de 1969 o território voltaria às páginas da National Geographic com a reportagem "Macao Clings to the Bamboo Curtain". Ao longo de 20 páginas profusamente ilustradas podemos ver  imagens do território e alguns dos seus protagonistas, casos do governador Nobre de Carvalho e de Stanley Ho, fotografado frente ao hotel Lisboa ainda em construção.
Já mais recentemente, em 2011, houve uma edição Especial da National Geographic dedicada a Macau. O objectivo era retratar o património cultural da cidade Património Mundial. A edição contou com fotografias de Paulo Barata, infografias da Anyforms, textos de Gonçalo Pereira e João Paulo Oliveira e Costa e apoio documental e pericial do Instituto Cultural de Macau.
Boletim semanal: 16 Março 1936
Cronologia e curiosidades:
13 de Janeiro 1888: 33 membros fundadores encontram-se em Washington para criar uma “sociedade para o aumento e difusão do conhecimento geográfico”.
Outubro 1888: a primeira edição da revista National Geographic é enviada para 200 membros.
1890-91: primeira expedição patrocinada pela NG visita o Monte St. Elias, Alaska, e descobre o ponto mais alto do Canadá, Monte Logan.

Julho 1906: George Shiras III é pioneiro na publicação de fotografias de animais à noite.
1941: os mapas da National Geographic Society ajudam o Governo norte-americano na Segunda Guerra Mundial.

Setembro 1959: primeiras fotografias a cores na revista.
1960: a revista passa a ostentar fotografias na capa
Julho 1969: os astronautas da Apolo 11 levam a bandeira da NG à lua.
Junho 1996: lançamento do primeiro site da NG.

Setembro 1997: A NG entra no mercado de televisão por cabo.
Março 2002: A NG anuncia que localizou Sharbat Gula, a rapariga afegã que apareceu na capa da edição de Junho de 1985.
2012: os canais da NG chegaram a 440 milhões de assinantes em 171 países e 38 línguas.
Artigo da autoria de JB publicado no JTM a 9.10.2014
PS: no blogue Macau Antigo existem diversos post's sobre as diferentes edições da NG com artigos sobre Macau.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Exposição Internacional de Antuérpia: 1930

Brochura sobre Macau escrita em francês e impressa na Bélgica: Inclui gravuras do território e pequeno texto informativo sobre a realidade do território no final da década de 1920.                                          Em anexo, um conjunto de seis pequenas fotografias: estátua do gov. Ferreira do Amaral e vistas da Praia Grande com diversas cenas marítimas com juncos.                                                                   A brochura foi feita para a "Exposition internationale coloniale, maritime et d'art flamand" (Exposição Internacional Colonial e Marítima) que se realizou em Antuérpia (Bélgica) em 1930 e onde Portugal esteve representado.                                                   Seguindo o modelo deste evento o regime do Estado Novo criaria em 1934 a  Exposição Colonial Portuguesa que decorreu no Porto.   
No final dos anos 20 Macau é referenciado aos turistas como a Europa na Ásia. As notas de Hong Kong circulam livremente e são geralmente aceites "excepto nos Correios e outros departamentos governamentais." Nas lojas chinesas os preços são por vezes em moeda de Kwangtung, "about $1,30 of wich is equal to a HK or Macao dollar".

Efectuam-se carreiras diárias de vapores para HK e Cantão. Para picnics e excursões à Taipa ou Coloane, lanchas-motoras podem ser alugadas (até 15 passageiros). Os interessados devem contactar o Port Works Department com uma hora de antecedência no nº 39 da Praia Grande ou através do telefone nº 340, ou ainda a Doca de Patane com o telefone nº 343. Preço/hora viagem: 4$90 - Preço/hora espera: 1$00 - Preço por 10 horas: 42$00.
Automóveis podem ser alugados a três patacas por hora e 1$50 por cada hora de espera. Os visitantes de Hong Kong não precisam de tirar licença de condução. O uso da estrada entre Macau e Shekki obriga ao pagamento de $2,00 em dinheiro de Kwangtung. Os turistas são ainda informados que os meses de maior humidade são entre Abril e Junho, os mais chuvosos entre Maio e Julho e os de tufões entre Agosto e Outubro.
Postal da Av. Almeida Ribeiro - San Ma Lou - na época (frente e verso)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Viagens marítimas: dos anos 20 ao início da 2ª Guerra



"Tjibadak": neste viajou Danilo Barreiros quando em 1940 foi o responsável da delegação de Macau à Exposição do Mundo Português.


Rota do "Sibajak"
Desde meados da década de 1920 e até ao romper da 2ª Guerra Mundial as viagens até ao Oriente faziam-se essencialmente por via marítima - ver mapa. Ir de Lisboa a Macau demorava cerca de dois meses. As velocidades rondavam as 13 milhas/hora. 
Os países com possessões naquelas paragens detinham as empresas de navegação com os paquetes a vapor: Holanda, França e Reino Unido, em especial (Lloyd, P&O, etc). Portugal teve, de forma intermitente a sua carreira de paquetes civis, a partir da década de 1950. O transporte de militares não se inclui nesta análise (existem outros post's sobre o tema).


Publicidade dos anos 40 do século XX embora a agência A.A. de Mello já se dedicasse ao negócios desde 1840
Os navios terminavam a viagem não em Macau - que não tinha porto de águas profundas com condições para 'acolher' navios de grande calado - mas em Hong Kong, ou até antes, na Batavia, por exemplo (actual Jacarta), e aí os passageiros apanhavam outro barco.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Interessantes apontamentos da viagem à China

Romancista, ensaísta e dramaturgo, Artur Lobo de Ávila (1855-1945) – ou Arthur Lobo d’Ávila, como assinava – foi filho de um governador de Macau, tendo acompanhado o pai e ocupado cargos diplomáticos até 1877. 
Regressado a Portugal tirou o curso superior de Letras, sendo classificado com distinção nas cadeiras de história, literatura e filosofia. 
Trabalhou como primeiro escriturário da Caixa Económica Portuguesa. 
Colaborou em diversos jornais e escreveu diversos livros. 
Na ficção histórica, a sua estreia ocorreu em 1898, com o romance A Descoberta e Conquista da Índia pelos Portugueses, que fora primitivamente publicado no Diário de Notícias e premiado num concurso literário daquele jornal no ano anterior.  
Este livro, de 1946, reúne as suas memórias "com interessantes apontamentos da sua viagem à China".

sábado, 11 de outubro de 2014

Memória sobre Macao: José Guimarães e Freitas (1828)


Nascido na segunda metade de setecentos em Minas Gerais, no Brasil, coronel de artilharia e procurador da cidade mineira, servidor militar em Angola, mais tarde no ocaso da sua vida governador de Coimbra, José de Aquino Guimarães e Freitas viria a publicar aquele que se mostra cronologicamente o mais antigo trabalho singular de história de Macau.
Tendo visitado e cumprido funções militares no enclave português do Sul da China nas primeiras décadas do século XIX, por volta de 1820 a 1825, Freitas associou ao interesse curioso e científico sobre o território uma frequência admirada, entre elogio político e conservadorismo social, pela forte «autoridade» exercida em Macau pelo poderoso ouvidor e conselheiro Miguel de Arriaga Brum da Silveira. Intitulada Memória sobre Macao, estampada em Coimbra pelos prestigiados prelos da Real Imprensa da Universidade, em 1828, a obra de José de Aquino oferece ao longo de noventa e quatro rápidas páginas um estudo organizado de acordo com os modelos da iluminada erudição epocal e da sua experiência pessoal, militar e políticas no enclave macaense.
Trabalhando na sua especialidade de artilharia no batalhão português de Macau sob as ordens do Brigadeiro Dionísio de Melo Sampaio, José de Aquino Guimarães e Freitas apenas cumpriria uma tarefa prestigiante no território quando, em 1822, foi nomeado pelo governador e Leal Senado para representar em Lisboa a cidade na cerimónia de felicitações pelo regresso do Brasil de D. João VI.Desconhecem-se a sua vida e actividades nas diferentes colónias portuguesas em que exerceu funções militares, mas é possível que José de Aquino tenha feito parte desse muito pouco estudado grupo de soldados portugueses que, hostil à independência do Brasil, foi sendo distribuído por outros espaços coloniais mantendo forte desconfiança pelos rumos do liberalismo em Portugal.
A sua estreita frequência dos ideários conservadores do ouvidor Miguel de Arriaga, paradigma do absolutismo do Antigo Regime em Macau, autoriza a adiantar estas perspectivas. Mais importante é destacar a prioridade da Memória sobre Macao, enquanto primeira grande tentativa de redigir uma história do território macaense. Normalmente, como se sabe, os manuais e guias da história de Macau consagram o trabalho do sueco Anders Ljungstedt, Um Esboço Histórico dos Estabelecimentos dos Portugueses e da Igreja Católica Romana e das Missões na China, estampado em 1836, como o mais antigo trabalho autónomo de história de Macau. Publicado inicialmente em inglês, este estudo aparece traduzido em português pelo periódico Echo Macaense, entre 1 de Agosto de 1893 e 13 de Dezembro de 1896, mas oferecendo aos leitores apenas a primeira parte do livro. A seguir, em 1909, esta versão parcial da obra de Ljungstedt foi incluída numa nova publicação dedicada à divulgação de trabalhos respeitantes à história de Macau, editados pela Imprensa Nacional.
Mais tarde ainda, a Direcção dos Serviços Diplomáticos, Geográficos e da Marinha do Ministério das Colónias veio a publicar esta colectânea através de prelos lisboetas, em 1921. Uma divulgação praticamente oficial que fez com que a obra de Ljungstedt dominasse a fundação de uma historiografia macaense ao longo de quase setenta anos até ao aparecimento do referencial Macau Histórico de Montalto de Jesus. Não são, todavia, assim as lições incontornáveis da cronologia. Anterior ao Esboço de Ljungsted publicou-se esta Memória de José de Aquino Guimarães e Freitas. Naturalmente, com desigual sucesso e muito menos impacto intelectual. A investigação do seu pequeno livro talvez ajude a explicar o quase completo esquecimento em que caiu o primeiro ensaio de história de Macau.A abrir a obra, como era normativo, esclarecem-se as ordens da geografia e da topografia. Determinada no primeiro capítulo a posição geográfica e resolvido com brevidade no capítulo seguinte o tema evidente da extensão do território — “uma escassa légua de comprimento, sobre meia, ainda mais escassa, em a sua maior largura” —, a memória disserta com mais interesse e observação acerca da natureza do solo. O texto capitular esclarece que Macau se implanta em “terreno próximo do mar e minimamente arenoso”, sendo a “terra vegetal em as eminências quase nula e a que encerra os sítios planos não tem mais de três pés de espessura”, notando-se ainda ser “acamada numa base argilosa que terá quando muito de 12 a 15 pés de profundidade”. Utilizando uma estratégia de curiosidade pessoal recorrente em todo o volume impresso, aponta-se ainda nesta secção existirem “alguns jardins achegados às moradas dos habitantes cristãos, mas todos acanhados”, com a notada excepção da “quinta do conselheiro Manuel Pereira”.
O capítulo quarto versando a ictiologia de Macau resolve-se em duas linhas, sublinhando que “o mar é prodigiosamente piscoso, e o peixe da melhor qualidade no Inverno como no Estio”. [6] Salta-se, em continuação, para o quase romântico capítulo das fontes aquáticas, lendo-se em três apertadas linhas que, infelizmente, “só duas possui a ilha e ambas colocadas fora dos muros da cidade”, mas, em contraste, “a água é primorosa”.  Desaguando no tema do porto, a memória continua a esclarecer sucintamente que este é
“formado pelo rio que desce de Cantão”, não oferecendo “capacidade para navegação de grande porte”.
Quanto ao clima, o autor confessa singularmente ter encontrado “um dos melhores da Ásia”, conseguindo mesmo testemunhar “uma não ordinária longevidade não só entre os indígenas, senão ainda em o mesquinho número dos portugueses, não obstante os poucos sacrifícios que fazem à sobriedade”. Ocasião para se abrir um oitavo capítulo dedicado às moléstias, diagnosticando que, apesar de não se encontrar “nenhuma endémica”, a cidade viu-se atacada, desde 1820, pela “cholera morbus” que se mostrou “precursor do flagelo moral, que a despenhou na borda do túmulo — a imunda Ochlocracia”. Mais calmamente, o aspecto topográfico organiza um território de “fisionomia pitoresca e aprazível”, ao mesmo tempo que, em matéria de edifícios, celebra o décimo capítulo que “em nenhuma parte do mundo, proporção atendida, há tão grande número de templos e conventos”, pese embora a indignidade do hospital e a regularidade limitada das habitações contrastando com “o luxo das mobílias que em muitas observei, sem invejar, é prodigioso, e não dúbio termómetro da prosperidade do País”.
Seguem-se, como normalmente acontece em estudos deste período oitocentista, os capítulos dedicados à população, estendendo-se das estimativas quantitativas à investigação moral. Esta associação entre considerações éticas e demografia assumia em muitos pensadores e ensaístas europeus do século XIX, na linha do trabalho fundacional de Thomas Malthus, uma dialéctica verdadeiramente causal, assentando a ordem das estruturas populacionais não em factores sócio-demográficos, mas antes nos constrangimentos impostos pelos valores e «estados» civilizacionais agitados pelos novos ventos da industrialização. A população cristã macaense é avaliada em Abril de 1822, dividindo-se pela seguinte dispersão espacial: na freguesia da Sé apontam-se 289 homens maiores de 14 anos, 251 menores, 1342 mulheres e 248 escravos; reunia a freguesia de
S. Lourenço 258 homens maiores de 14 anos, 170 menores, mais 1058 mulheres e 236 escravos; na pequena freguesia de S. António arrolavam-se somente 59 homens maiores, 52 menores, 301 mulheres e 53 escravos. Quanto à população chinesa — significativamente afastada de forma homogénea da categorização anterior de «cristã» — a memória acredita ser já muito superior às 8000 pessoas estimadas no começo do século
XIX, crescendo devido ao “subsequente desenvolvimento do comércio” somado à “indiscreta tolerância que lhes permite a criação de novas casas e arruamentos" (...)
Apesar de acompanhar esta normativa narrativa da fundação de Macau, perfeitamente estabilizada e oficializada nos primeiros anos do século XIX, o esforço apresentado como de «investigação» pelo nosso autor referencia ainda outras opiniões e inquéritos «locais», mergulhando as origens do estabelecimento português mais longe no tempo, entre 1521-22. No entanto, apesar dos seus esforços e leituras, incluindo uma longa entrevista com o auxílio das “transcendentes luzes do benemérito Conselheiro Arriaga”, a sua obra não havia logrado esclarecer rigorosamente as origens históricas da presença portuguesa em Macau, restando a «fama» da legenda do auxílio português aos mandarins de Cantão contra os ataques de pirataria em meados do século XVI e fixando-se o que José de Aquino considerava a mais importante lição histórica de Macau justificando inteiramente a redacção e impressão da sua memória: “conhecermos e aproveitarmos o que actualmente possuímos”.
Prosseguindo nesta divulgação do «conhecimento» de Macau, o capítulo dezassete da obra trata com excessiva brevidade do Governo do território, praticamente não revisitando a sua história para preferir exornar o papel central do Senado eleito com dois juizes ordinários, três vereadores e um procurador, dirigindo a vida política de Macau com a assistência do ouvidor e a «presidência» do governador e capitão-geral. A memória de José de Aquino exagera mesmo a centralidade e autoridade do papel do governador, discriminando a sua burocracia: “tem um Escrivão, sem voto, com o titulo de Alferes Mór da Cidade, que tambem o é da Fazenda; e bem assim um tesoureiro; aquele inamovível, este temporário”. A administração judicial aparece igualmente sumariada com economia, apenas se sublinhando a acção da magistratura civil e da Junta das Justiças, um orgão mobilizando as principais autoridades políticas de Macau, sobretudo em períodos de crise ou para enfrentar acontecimentos políticos e judiciais complexos". (...)
Coroando a sua memória, o nosso autor ainda nos oferece um vigésimo primeiro capítulo sobre a “Maneira de comerciar em Macau». Trata-se de procurar, nem sempre esclarecidamente, mobilizar algumas vantagens da navegação e comércio macaenses, transformando mesmo as restrições em oportunidades e o controlo imperial sínico em estabilidade.
No interior do enredado sistema alfandegário de Macau, sujeito à estreita vigilância das autoridades chinesas, José de Aquino descobre vantagens em relação ao trato portuário sediado em Cantão, incluindo amplas possibilidades de desenvolvimento de várias formas de contrabando: Aqui, quanto a navios, há uma medição menor, e ficando com numeramento, isto é, alistado no número dos 25, de que tem privilégio a Cidade, não paga das segundas viagens mais do que a terça parte do que pagou pela primeira, e isto enquanto durar o navio, tendo o Proprietário ou Agente o cuidado de tirar o Pautão que, à maneira de Patente, faz passar o Governo Imperial para fazer conhecer o destino da embarcação, supondo sempre a mesma oficialidade, desde o começo do Estabelecimento. E, quanto à carregação, fica na Alfândega e vende o carregador quando, e como lhe faz mais conta, sem a intervenção vexatória de Anista, com grandes vantagens para a permutação, assim pelos menores direitos de despesas que em Cantão, como pela facilidade que hão os Chins de fazer o contrabando e iludir os encarregados das suas Portagens, despachando as mercancias para diferentes Terras do Império, donde a final as introduzem em Macau, em cuja Alfândega não há direitos, nem de entrada, nem de saída. Esta posição privilegiada de Macau que, estendendo-se, afinal, do compromisso político às particularidades da circulação comercial, permite a José de Aquino concluir a sua proposta de uma Companhia capitalista portuguesa para a Ásia enquanto rede associada de enclaves portuários polarizada pelas vantagens do território macaense. (...)
Excertos de um artigo da autoria de Ivo Carneiro de Sousa - "Um autor e uma obra para a memória da presença colonial portuguesa em Macau e no mundo asiático: A “Memória sobre Macao” de José de Aquino Guimarães e Freitas