quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Festa do Bolo Lunar - 中秋节

Por estes dias o prenúncio do Outono é assinalado pelo povo chinês (esteja na China, Macau ou em qualquer outra parte do mundo) com a comemoração da Festa do Bolo Lunar, a segunda festividade chinesa mais importante logo depois das celebrações do ano novo. 
Este ano o décimo quinto dia do oitavo mês lunar corresponde ao dia 19 de Setembro. Desde a Antiguidade, acredita-se que é a mais bela lua cheia do ciclo anual. Para além dos tradicionais bolos lunares, ao cair da noite muitas pessoas juntam-se para observar a lua transportando consigo lanternas das mais variadas formas e cores. É por isso que o evento também é conhecido por festa das lanternas.
Nota: inicia-se neste dia a publicação no Jornal Tribuna de Macau de uma coluna semanal intitulada Macau Antigo. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Memórias de Victor Neto (1962-1965): 2ª parte


(continuação do post anterior)
As visitas que fiz a muitos locais interessantes que cito: Fortalezas, do Monte, Guia, Mong Há e Barra, as ruínas de S.Paulo, a avenida Almeida Ribeiro coração comercial da cidade, Porta do Cerco, Ilhas Verde, da Taipa e Coloane e muitos outros locais onde passei excelentes horas de lazer fizeram que passasse a admirar Macau as suas gentes e a sua história.

A ida regular a cinemas onde vi inúmeros filmes, a Feira Popular no campo de Mong-Há, eram divertimentos que nos proporcionavam prazer, assim como o convívio com a tripulação do navio da Armada "Gonçalves Zarco" e também os pantagruélicos lanches nas traseiras do Teatro D. Pedro V, eram assim formas de atenuar as saudades de casa e da família. Entretanto, maravilhado com um mundo diferente do ocidental, ia observando todos os costumes da população e as suas comemorações e a pouco e pouco comecei a ter novos conhecimentos sociais.

Como os tufões são frequentes na região, todo o pessoal militar era mobilizado e ficava de prevenção para o que pudesse acontecer. Eu que tive a oportunidade de assistir a dois muito violentos, principalmente o tufão "Ruby" que atingiu Macau em Setembro de 1963 e fez muitas destruições, incêndios, 1 morto e vários feridos, num cenário de catástrofe natural impressionante.

Antes de ser destacado para o Quartel-General, estando ainda em serviço na Flora, em determinada noite em que fomos todos mobilizados ficando de prevenção para um tufão que se aproximava do território, tive de ir a casa do Cabo Gaspar que era o intérprete luso-chinês, dizer-lhe que tinha que ir para o quartel. Atravessei a Colina da Guia e ao chegar perto da sua casa fui atacado por um enorme cão que deu uma dentada na bota, furando o cabedal, a meia e a pele. Eu não tenho o costume de maltratar animais, mas naquele momento dei ao cão um pontapé que o fez afastar.

Este foi um dos muitos episódios em que me vi envolvido, assim como um outro em que fui comandar uma posição de morteiro num exercício militar, sendo que a minha especialidade era de transmissões e o suposto fogo do morteiro tinha de atingir as praias e o mar.

Durante as provas do Grande Prémio de Macau fui escalado com outros camaradas para assegurarmos as comunicações em postos fixos, equipados com telefone e rádio em todo o percurso das corridas, em época onde não se sonhava sequer com telemóveis. Imaginem as dificuldades com as interferências electro-magnéticas.

Como o Ano Novo Chinês é uma festividade com um enorme impacto, na vida da cidade, nessa altura era permitido que os funcionários estatais e os militares pudessem jogar nos casinos e assim participar em todo o programa da festa. Eu também joguei com o meu número da sorte (sete) e cheguei a ganhar algumas patacas que eram gastas no comércio local em refeições. Foram uns dias eufóricos em que Macau tinha um desusado movimento de turistas e de habitantes nas ruas, dia e noite. Uma curiosidade barulhenta era o rebentar de panchões, pequenas bombas interligadas de fabrico local e anunciadoras dos eventos.

Resumidamente foi assim que exerci a minha comissão militar em Macau na década de 1960 e fez com que já em Portugal começasse a fazer uma colecção de objectos onde se incluem Selos Postais, Moedas, Postais, Livros, Folhetos etc. que recorda os bons dias que ali passei. Muito mais havia a relatar, mas eventualmente fica para próxima oportunidade.

Nota: com este post fica concluído o testemunho de Victor Neto sobre a sua comissão militar em Macau. O meu agradecimento público por ter aceite colaborar com este depoimento que por certo será muito útil a quem vier a escrever a história do século XX em Macau. 

A título de curiosidade informo que este foi um dos posts com maior número de visitantes nos últimos tempos. Foram quase 700 num só dia assim distribuídos:

Macau 146, EUA 128, Portugal 107, Brasil 101, Bélgica 37, Hong Kong 36, Canadá 13, Rússia 13, China 11, Espanha 8.


















terça-feira, 17 de setembro de 2013

Memórias de Victor Neto (1962-1965): 1ª parte



Escrever algo sobre a minha presença em Macau, durante os anos em que cumpri o serviço militar no território é um prazer sabendo que estas linhas serão reproduzidas no magnífico blog "Macau Antigo".
Quando desembarquei do navio "Fat Shan" em Setembro de 1962 (foto acima), navio que nos transportara de Hong Kong para Macau, com os meus camaradas da Companhia Independente de Caçadores nº 363, fiquei ao mesmo tempo surpreendido e deslumbrado com o ambiente exótico que vi, aliado a uma temperatura muito elevada que nos fazia transpirar abundantemente.
Depois da cerimónia de boas-vindas presidida pelo Comandante Militar, fomos da ponte-cais até ao quartel que ficámos a conhecer por Barracas Metálicas da Flora, numa caminhada penosa devido ao calor excessivo a que não estávamos habituados, através das ruas e avenidas o que nos permitiu um olhar fugaz das edificações e pelo normal movimento de pessoas que se deslocavam em todos os quadrantes.
A primeira desilusão aconteceu quando já no quartel com uma sede terrível procuramos beber água ou qualquer outra bebida fresca, mas procuramos em vão.
Os anteriores ocupantes do quartel, uma Companhia de Landins de Moçambique que nele ainda encontrámos, tinham esgotado todo o stock de bebidas, que só a nossa companhia podia repor o que veio a acontecer na tarde do dia seguinte. A água que existia estava nas canalizações mas com uma temperatura tão elevada por acção do calor só depois das 22h desse dia é que a pudemos consumir.
A saída do quartel só foi permitida três dias depois, mas eu saí logo no dia seguinte para ir ao Clube Militar entregar ao Comandante da Companhia uma pasta com documentos, sendo assim a primeira pessoa a conhecer o Capitão Namorado Freire, que se apresentou ao pessoal alguns dias depois.
Então começaram as minhas aventuras pela cidade explorando as ruas e as lojas onde inúmeros artigos desconhecidos se apresentavam aos nossos olhares. A primeira despesa que fiz foi numa gelataria na Rua do Campo onde comi um gelado de feijão encarnado. Podem crer que era mesmo bom e presumo que era fácil de fazer, pois constava de puré de feijão cozido com açúcar a que se adicionava bolas de gelado.

Para quem nunca foi a Macau pode imaginar erradamente que devido à dimensão do território se ficava a conhecer todo o seu perímetro em pouco tempo. Mas não era assim. Depois dos primeiros dias de ambientação e conhecimento do traçado das ruas e dos locais mais importantes incluindo os monumentos que serviam de referência para encontrarmos o caminho de regresso á nossa unidade, passámos então a conhecer melhor a cidade em rotinas que nos permitiam aproveitar todas as vantagens de ver o espaço urbano e os poucos locais arborizados e ajardinados. (continua)
 Na "sala do soldado"
 Natal de 1962
 Ensaio para o desfile do 10 de Junho
O "Niassa" na escala em Moçambique

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um apelo às mulheres em 1910

Neste postal pode ler-se "Botanical Gardens". Refere-se ao Jardim de S. Francisco, o primeiro a ser criado em Macau no final do século XIX, tb conhecido na época por "passeio público". Ao meio destaca-se o coreto. Ao fundo a Fortaleza do Monte.

A propósito do coreto e da banda musical que ali actuava recordo um artigo publicado no jornal "A Verdade" na edição de 15 de Setembro de 1910.

Coisas ha, que, por mais que queiramos fugir a ellas, nos andam constantemente no pensamento, ferindo-nos com a sua insistencia, impondo-se pela obstinação com que nos perseguem, chegando mesmo a brutalizar-nos pela duresa com que ao nosso espirito vêm e voltam, maguando-nos o pensamento, tal como a vista se nos magôa quando insistentemente seguimos um bando d‘aves em espiraliferos vôos pelo infinito em fóra… E o lema fatalista? tem que ser‘ executa-se, porque não ha meio de fugir a um pretendente que agora, logo, depois e sempre, nos persegue implacavelmente com o mesmo pedido, a mesma aria, a mesma e eterna lamuria!… A talho de foice vem estas considerações filosoficas, a proposito d‘um facto que é o primeiro a ser tratado nestas minhas cronicas e que vem a ser a ausencia das lindas mulheres de Macau, nas noites de musica, no jardim publico.
O arvoredo (à esq.) contornava o Jardim de S. Francisco na época
É uma coisa exquisita essa: jardim junto ao mar, onde, nestas noites quentissimas do verão de Macau, se goza d‘uma frescura admiravel; musica, a melhor que cá temos, a da tropa; portanto, flor e musica, falta o complemento mulher, a terceira pessoa d‘esse belo terceto, a mais bela obra da creação e do creador… E porque hão de faltar, porque não hão de vir á noite dar-nos o encanto que das suas figuras lindas dimana, envolver-nos naquella onda de caricias que mais se adivinha do que se sente; deixar-nos embalar o espirito ao ouvirmos uma valsa de Strauss, e, vendo-as passar, ligeiras, subtis, vaporeas, sonhar que ellas são a cristalização d‘essas notas divinaes - ether feito materia - de conjunto com o aroma das pobres florsitas que de iume se mirram pelos canteiros além?… Porque não hão de vir?! Sim. Se as noites são tão amenas, se a viração nos refresca o corpo e o espirito, se a musica convida?… E, depois, lindas mulheres, como sois ingratas com os pobres musicos, se é para vós que elles tocam, que elles se esfalfam para que as notas tenham o sentimento que devem ter!!
E, agora, leitoras lindas, acedei ao meu apêlo (como não aceder ao apêlo do ignoto?): ide com a vossa presença animar aquelles que só estão bem sob a caricia dôce do vosso olhar, completando esse conjunto: flores, musica e mulheres, sob a luz pálida da lua, nun flirt dôce, bem dôce… emquanto o mar, o eterno namorado, continua, lá em baixo, a sua eterna canção d‘amor…

domingo, 15 de setembro de 2013

Diário da navegação de Macau: 1759-1761

Diário da navegação de Macau, 1759-1761: códice nº 183 do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças / ed. lit. Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. Lisboa: Agência-Geral do Ultramar, 1970. Por António da Silva Rego.
Regista movimentos comerciais no porto de Macau durante três anos em meados do século XVIII.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Ex-Líbris da Biblioteca do Liceu de Macau


Ao folhear a “Filosofia Amena do Ex-Líbris” publicada em 1960 por Manuel da Cruz Malpique (1902-1992), professor de filosofia no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, filósofo, pedagogo e fecundo ensaísta, lembrei-me que a Biblioteca do Liceu de Macau possuía um interessante espécime de ex-líbris. Nos tempos de antanho, em que os livros simbolizavam o saber e muito especialmente o poder do saber, os seus proprietários, pessoas singulares ou instituições, tinham o gosto e a vaidade de aporem uma vinheta colada na contra-capa que os identificava, ao mesmo tempo que veiculava um lema de vida ou de filosofia da cultura. Tempos em que a cultura prestigiava e nobilitava. Usualmente cometida a um artista a concepção e o desenho da vinheta, eram frequentemente consideradas obras de arte.
Um dos maiores colecionadores portugueses de ex-líbris foi Adolfo Loureiro (1836-1911), general oriundo da arma de engenharia, que esteve em Macau entre 1883 e 1884 para estudar as soluções técnicas para o Porto e cujo nome está na toponímia local. Autor de uma interessante obra, é uma figura injustamente esquecida no Território. Três outras personalidades bem conhecidas em Macau, Camilo Pessanha, Charles Boxer e Danilo Barreiros, possuíam ex-libris esteticamente atraentes nas suas respectivas simbologias culturais.
Através da carta de lei de 27 de Julho de 1893, assinada pelo Rei D.Carlos, é criado o Liceu Nacional de Macau, que também foi o culminar de uma difícil e angustiosa demanda empreendida pelas famílias e com o apoio expresso do Leal Senado para que Macau fosse dotado de um estabelecimento de ensino daquela natureza. Rivalidades à parte, Goa já tinha o Liceu desde 1854. No artigo 12º dessa carta de lei podemos ler o seguinte: “Junto ao lyceu nacional de Macau serão creados um gabinete de physica e chimica e historia natural, e uma bibliotheca, que terá o nome de bibliotheca nacional de Macau” e “um professor do lyceu, escolhido pelo conselho escolar, exercerá as funções de bibliothecario”. Evidenciando o papel social e cultural que a biblioteca poderia vir a ter, foi acrescentado o seguinte parágrafo: “O governador depois de ouvir o conselho escolar, formulará o regulamento para o funcionamento da biblioteca, por forma a que possa ser frequentada, não só pelos alunos, mas também pelo público”.
Através do Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar e da Direcção Geral do Ultramar chegava toda a legislação sobre a contratação do pessoal, planos de estudos, regime de frequência, livros , exames e calendário escolar. O orçamento era fixado na metrópole mas seria integralmente pago pelo governo de Macau. Um hábito antigo, como se observa.
O Governador Horta e Costa faz publicar no Boletim Oficial do Governo da Província de Macau e Timor, de 16 de Agosto de 1894, o Regulamento do Lyceu Nacional de Macau, que assim entrava em funcionamento com 57 alunos e com um corpo docente excepcional, onde pontificavam, entre outros, Camilo Pessanha (filosofia), Mateus António Lima (língua francesa), Horácio Poiares (língua e literatura portuguesa), Wenceslau de Moraes (matemática), Augusto Abreu Nunes (desenho) e José Gomes da Silva (física, química e história natural).
A Biblioteca fixada no Liceu teve o condão de polarizar a necessidade imperiosa de dotar o Território de uma biblioteca pública, especialmente após o fracasso da Biblioteca Macaense cujos estatutos tinham sido aprovados pelo Governador Visconde de S. Januário a 27 de Dezembro 1873, precisamente no dia em que “fica proibida a imigração chinesa pelo porto de Macau”. A acidentada trajectória da biblioteca pública de Macau está razoavelmente documentada e podem ler-se com proveito dois artigos, ambos de 1995, um de Maria João Leal [“Biblioteca Central: cem anos de vida”, revista Macau] e o outro de Jorge Arrimar [“A Biblioteca Central de Macau: cem anos de história”, RC - revista de cultura]. Não deve ser esquecido o papel do Instituto de Macau, criado em 1920, e que se pode considerar o vero precursor do Instituto Cultural de Macau, e cujo principal escopo consistia em organizar a biblioteca pública, lançar o museu e publicar uma revista. Duas décadas depois, com bastante trabalho feito , perdido o élan criador em virtude do conflito de egos, ficou a importante revista “Arquivos de Macau”, publicada irregularmente entre 1929 e 1941.
A consolidação do Liceu no panorama educativo de Macau permitiu que a sua biblioteca, mercê sobretudo de doações e de uma sovina política de aquisições, fosse paulatinamente crescendo. Contudo, as sucessivas mudanças de instalações acarretaram a perda e a destruição de importante património, trabalhos de alunos, obras de arte e livros. A biblioteca é sempre o melhor cartão de visita de um estabelecimento de ensino. E a biblioteca do Liceu de Macau não fugia a essa regra. O seu acervo mais valioso foi incorporado na biblioteca do Leal Senado, então sede da biblioteca pública, cujas instalações eram vistosas e muito apreciadas.
Monsenhor Manuel Teixeira na importante monografia que dedicou ao Liceu de Macau aponta a origem do ex-líbris da biblioteca: “Em 16 de Abril de 1936, os alunos do liceu realizaram no Ginásio uma exposição de desenho e de pintura; foram também expostos alguns ‘ex-líbris’ para a Biblioteca do mesmo estabelecimento, sendo destes últimos classificado em primeiro lugar um desenho com a divisa ‘Amicus Humani Generis’, da autoria do aluno João Siu, hoje engenheiro civil, ex-director da Repartição Provincial das Obras Públicas de Macau”.
A vinheta com o ex-líbris ganhou vida e foi colada em milhares de volumes de todas as áreas do conhecimento. Assim, a biblioteca, ela própria, transmutou-se no ex-líbris do conhecimento, uma simbiose que Jorge Luís Borges acreditava ser perfeita. Esse relato, sem dúvida muito importante, suscita-nos algumas pequenas reflexões marginais.
A primeira, saber se o concurso para a concepção do ex-líbris para a biblioteca foi uma isolada iniciativa local ou se se tratou de uma acção concertada pelo ministério das colónias/ultramar para todas os liceus do império.
A segunda reflexão conduz-nos à figura do professor Fernando Lara Reis, personagem chave na vida cultural da instituição, o homem de todas as artes e mobilizador da comunidade para a construção de uma escola realmente cultural. Terá sido ele o inspirador do concurso ? Talvez a consulta do seu espólio possa responder à pergunta.
A terceira reflexão tem a ver com a própria simbologia escolhida para o ex-líbris, visceralmente clássica e digna do liceu aristotélico. A divisa latina fez-me lembrar o impagável Malhadinhas de Aquilino Ribeiro: “com latim, rocim e florim andarás mandarim”. É curioso notar a ausência de quaisquer símbolos que identificassem , mesmo ao de leve, os arquétipos orientais e chineses. É aquilo a que Roland Barthes chamava a isenção do sentido.
A quarta e última reflexão, diz respeito ao autor do ex-líbris, João Tomás Siu. Estará ele ainda entre nós ? Se está, que memória guardará disto ?
Vale a pena referir um episódio menor, corria o ano de 1968, a pretexto de homenagearem a funcionária da Biblioteca, que se aposentava, alguns alunos organizaram uma festa não autorizada, incluindo bebidas alcoólicas, jazz e críticas ferozes ao ‘modus vivendi’ do Liceu. Uma coisa em grande que acabou num conselho disciplinar. Este incidente , a somar a outros problemas e desinteligências entre o professor João Ferreira Felício, secretário do Liceu, e o próprio Reitor, António Maria da Conceição, deu origem a um processo disciplinar, tendo ambos sido afastados dos cargos que desempenhavam.
Quando foram inauguradas as últimas instalações do Liceu de Macau, em 4 de Janeiro de 1986, sob a infeliz designação de Complexo Escolar de Macau, um grandioso edifício projectado pelo arquitecto Tomás Taveira, no tempo do Governador Vasco Almeida e Costa, a Biblioteca continuou a merecer a atenção devida: “Esta biblioteca, pelo seu acervo documental e pelas instalações e equipamentos que possui, é uma das boas bibliotecas escolares do País. Aquando da sua inauguração, as pessoas que ali se deslocaram puderam apreciar uma exposição do Manual Escolar, na qual se destacavam os Manuais que, no século passado, serviram os alunos do Liceu”. Nesta Escola serviu o autor destas linhas, cerca de uma década como professor de filosofia e três anos como director da biblioteca.
O ex-líbris, esse deixou de ser utilizado, parecia uma peça da arqueologia da cultura escolar. Tinha chegado o império dos carimbos e a primeira vaga de informatização, também o fim de uma época. Estou em crer que o ex-líbris poucas vezes mais terá sido utilizado, com a excepção em Novembro de 1986, num Catálogo Biobliográfico dedicado ao Padre Manuel Teixeira, uma edição trilingue (português-inglês-chinês) da Biblioteca do Complexo Escolar de Macau [o texto de Jorge Arrimar, a direcção gráfica de Rui de Carvalho, as fotografias de Natalino Wong e António Andrade , a versão chinesa de Wong Wai e a versão inglesa de Maria do Rosário Pereira]. A sua última aparição foi simbólica, coincidiu com o fim do Liceu em 1998, estampado no Catálogo da Exposição Bibliográfica dedicada ao Padre António Vieira [organizada por Orlando Bento, o último director da biblioteca], onde foi mostrado um excepcional e valioso acervo de obras do imperador da língua portuguesa, como lhe chamou Fernando Pessoa. A Biblioteca acolhia leitores e estudiosos e recebia os criadores de cultura. Recordo que por lá passaram, entre tantos, Graciete Batalha, Henrique de Senna Fernandes, José dos Santos Ferreira, Leonel Barros, António Manuel Couto Viana, Agustina Bessa-Luís, Maria Ondina Braga, Eugénio de Andrade e José Augusto Seabra.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de Setembro de 2013 
Nota do autor do blog: quando o liceu passou a funcionar no complexo Escolar o busto do Infante D.Henrique (patrono do Liceu) foi colocado à entrada da biblioteca. Antes, na Praia Grande, estava no átrio principal do edifício.