quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Farmácias chinesas por Ana Maria Amaro

"(...) Contrariamente aos ervanários, as farmácias chinesas, conhecidas por iéok chói pou [yao cai pu 藥材 鋪], eram amplas e bem iluminadas, embora também sem janelas laterais, mas abertas para a rua em toda a extensão da sua fachada. Dentro dos grandes balcões envidraçados encontravam-se os simples mais preciosos, encerrados, muitas vezes, em verdadeiros estojos, cheios de algodão, ou forrados de seda: chifres de veado e de rinoceronte, mandrágoras e ginseng, patas de urso e hipocampos ressequidos (mas perfeitamente conservados) e certas pedras-bezoares. Em prateleiras, geralmente dispostas ao longo da parede fronteira ao balcão, sucediam-se grandes boiões de vidro, ou porcelana cara, com tisanas já preparadas. Nas paredes ou nos lintéis das portas estavam gravados ou pintados o nome ou o reclame da firma, enquadrados em molduras, geralmente de talha, a par de grandes espelhos, tradição antiga para afastar más infl uências e espíritos malfazejos, que podiam entrar com os doentes. Guarnecendo as paredes, sucediam-se fi las de gavetinhas em madeira preciosa, muitas vezes em pau-rosa ou teca, para melhor conservar as numerosas ervas secas, geralmente importadas. Estas gavetas distinguiam-se imediatamente das que se encontravam nas lojas dos ervanários pelos seus mais ou menos vistosos lavores, muitas vezes em preciosa obra de talha. Por toda a vasta sala, além dos espelhos decorativos, com inscrições e, por vezes, desenhos gravados dispunham-se pinturas, baixos-relevos ou caquemonos, primorosamente bordados a matiz, representando os patronos da medicina chinesa, antigos médicos ou imortais tauistas, alguns semilendários, com fama de milagrosos e, ainda, fi guras alegóricas ou emblemáticas de saúde e longevidade, como pêssegos, cabaças, cidras, gatos e borboletas, garças sobre pinheiros, densos maciços da bambu, a deusa Má Ku [Magu 麻姑] ou Sau Seng Kong [Shou Xing Gong 壽星公], bem como, em diferentes estilizações, o carácter sau [shou 壽], ideograma que significa “longa vida”. (...)
A mais antiga farmácia chinesa de Macau era na altura o Pavilhão da Longa Primavera (Chéong Chön Tong) [Chang Chun Gong 長春宮]. Fundada em meados do século XIX anos, na sequência da morte do seu proprietário vem a perder na década de 80 do século XX toda a sua riquíssima decoração em talha dourada, vendida, ao que se disse então, a um comprador de Hong Kong. Situada perto do Largo de S. Domingos, o seu nome estava perfeitamente da acordo com a sua actividade, já que Longa Primavera corresponde, metaforicamente, a longa juventude e, portanto, a longa vida, conceito básico da medicina tauista, e que leva a pensar nas vantagens dos bons remédios, quando bem escolhidos e bem preparados. (...)
Excerto de "Farmácias e Ervanários Tradicionais Chineses em Macau", de Ana Maria Amaro publicado na Revista de Cultura, nº 26, 2008.
"Pock Vo Tong Pharmacia China"  
Fotografias de Neves Catela ca. 1930
não incluídas no artigo referido
A indicação "#P" significa Poço (em chinês e em português); informava que dentro da propriedade existia um poço sendo útil aos bombeiros.

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