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domingo, 14 de abril de 2019

"Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada"

Depois da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, três aviadores portugueses aventuram-se na tentativa de escrever mais uma vez o nome de Portugal na história da aviação mundial.  A 7 de Abril de 1924 descolam de Vila Nova de Mil Fontes (está lá uma estátua a recordar esse dia) - voaram antes oriundos da Amadora - rumo a Macau. Ou sejam, por estes dias, há 95 anos, o "Pátria" rasgava os céus em direcção a Macau...
O avião escolhido foi o Breguet 16-Bn2 com motor de 300 cavalos de potência, adquirido por subscrição pública e equipado com depósitos suplementares para aumentar a autonomia. Na fuselagem tem pintado a expressão: “Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada”.
Ao fim de vários dias de viagem, no deserto de Thur, na Índia, o Pátria acaba por se despenhar. Estava em jogo o prestígio do país e de Lisboa depressa segue a autorização para comprar outro avião para concluir a viagem. O avião escolhido foi um DeHavilland DH-9A com um motor de 450cv, comprado por 4.700 libras e baptizado de Pátria II mas com lugar apenas para dois tripulantes. Os restos do primeiro “Pátria” foram encaixotados e enviados para Lisboa e a 30 de Maio de 1924 o “Pátria II” descolou às primeiras horas da manhã, rumo a Ambala.


No dia 20 de Junho o “Pátria II” descolou de Sontai rumo a Macau a mais de 1000 quilómetros de distância No diário de bordo escrevem:  "O motor funcionava admiravelmente, o tempo conservava a transparência de um dia de Novembro, no nosso pensamento só uma ideia vivia, só uma aspiração vibrava - chegar a Macau."
E assim parecia que ia acontecer. Só que o mau tempo pregou uma partida. «Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco."
Em Macau a população em peso olha para os céus e testemunha as cores de Portugal só que o vento impede a aterragem.
"São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão"
Perante a intempérie rumam a Cantão onde fazem uma aterragem forçada junto à linha férrea (que ligava a hong Kong). Avistam um pequeno campo perto de um cemitério na aldeia Sham Chun (o rio com o mesmo nome faz a fronteira em Hong Kong e a China). Na aterragem batem numa sebe e partem a hélice e o trem de aterragem. Era o fim da viagem.

O "Pátria II" na aldeia chinesa de Sham Chum (entre Cantão e Hong Kong): Junho 1924
Debaixo de chuva, Sarmento de Beires e Brito Pais procuram ajuda. Sem ninguém que os compreenda caminham até Hong Kong onde foram recebidos pela colónia portuguesa e pelo cônsul. Por esta altura a notícia do feito alcançado já se espalhara por todo o mundo. Os jornais do dia 21 de Junho de 1924 não falam de outra coisa.
"Victoria! Brito Paes e Sarmento Beires chegaram a Macau": título da primeira página totalmente dedicada ao raide da edição de 21 de Junho de 1924 do jornal brasileiro "A Noite".
Nesse dia a canhoneira “Macau” que partira do território chega a Hong-Kong. O navio tinha andado o dia anterior em buscas para encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau a bordo da Canhoneira. No território Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia foram recebidos entusiasticamente e como heróis de uma façanha nunca antes alcançada: 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos.
Na sessão de 23 de Junho no parlamento português o feito também não passou despercebido. Na sua intervenção Jaime de Sousa diz: "Sr. Presidente: é do conhecimento de V. Exa. e da Câmara, e conhece o país inteiro, o facto extraordinário da chegada a Macau dos ilustres aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires, que em condições tam difíceis, sob o ponto de vista material, chegaram a terras nossas no Oriente, demonstrando a sua audácia e habilidade. Há quarenta e oito horas que Portugal inteiro vibra de entusiasmo por êsse rasgo de audácia. O nosso coração de portugueses regista mais uma vez as energias duma raça."
Por via do que fora alcançado nesta sessão parlamentar acaba por ser  concedida uma amnistia aos aviadores que estavam presos em S. Julião da Barra.

Na edição de 10 de Julho de 1924 da Gazeta das Colónias escreve-se:
"Terminada a viagem dos heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires , mal apagadas ainda as ultimas manifestações do entusiasmo, em que o País inteiro vibrou, procurámos colher sobre o valôr do brilhante raid as impressões de alguem que pudesse dar-nos uma opinião segura , imparcialmente formada nos moldes da técnica, liberta de quaisquer tendencias que pudessem desvirtua-la" (...) “A Gazeta das Colonias presta hoje as suas sinceras homenagens aos intrepidos aviadores, majores Brito Pais e Sarmento de Beires e ao seu habil e dedicado mecânico, alferes Manuel Gouveia os quais pelo brilho e pela bravura com que empreenderam e rialisaram a travessia Lisboa-Macau foram lá longe, no Extremo Oriente, aviventar o prestigio do nome de Portugal e mostrar ao mundo que na velha Raça Portuguesa ainda perduram as virtudes que a tornaram grande".

quinta-feira, 9 de abril de 2015

"Na Esteira do Pátria"

Embora hoje quase esquecida entre nós, e totalmente ignorada pelas bibliografias aeronáuticas estrangeiras, a primeira viagem aérea entre Portugal e Macau, iniciada a 7 de Abril de 1924 pelos pilotos Brito Paes e Sarmento de Beires, deu um contributo para o desenvolvimento da aviação mundial, quanto mais não seja por ter cumprido, com um só aparelho, o primeiro voo entre vila Nova de Milfontes e Carachi, num gigantesco pulo do Atlântico ao Índico.
O motor do Pátria patente no Museu do Ar em Alverca
"Os Portugueses somos do Ocidente. Imos buscando as terras do Oriente" Luís de Camões, "Os Lusíadas", canto I, estrofe 50 "(...) se nós, os da Aviação, tomássemos a peito não deixar esquecer os nomes daqueles que à Aviação deram brilho, talvez que os outros, os de fora da casa, se não esquecessem também de nós, como é costume, nem se esquecessem de nos reservar o lugar que nos compete (...)" Jorge de Castilho.
Estava-se em 7 de Abril de 1924, no sítio de Coitos, uma terrinha atirada lá para baixo, para os confins do Alentejo, algures para os lados da embocadura do rio Mira, onde os sobreiros e as moitas se escapam da paisagem, e a terra desliza em planície mansa, até se fundir com as rochas abruptas e o ruído do mar. Na madrugada desse dia, os pilotos Brito Paes e Sarmento de Beires, aos comandos do "Pátria", um desactualizado Breguet XVI BN2, modelo de 1919, equipado com um motor Renault de 300 Cv, adquirido em segunda mão por subscrição pública - um avião de "esmolas" como então lhe chamaram - estavam prestes a iniciar uma das mais interessantes jornadas da nossa aviação pioneira, a primeira viagem aérea entre Portugal e Macau.Brito Paes e Sarmento de Beires eram oficiais do exército e pertenciam ao grupo de esquadrilhas de aviação República, sediado na Amadora. 
Brito Paes era natural de Colos, no Alentejo e na altura da viagem estava quase a completar 40 anos. Tinha o "brevet" passado pela escola de aviação militar de Avord, França. Sarmento de Beires, por sua vez, era natural de Lisboa, onde nasceu a 4 de Setembro de 1893, e na altura da viagem tinha 31 anos. Foi instruendo de Sacadura Cabral no primeiro curso de aviação em Portugal, em Vila Nova da Rainha. O aparelho, que inicialmente estivera destinado a tentar a primeira travessia aérea do Atlântico sul, embora seguindo uma rota diferente da que Sacadura Cabral e Gago Coutinho escolheram para o "Lusitânia", não chegaria, no entanto, cumprir tal objectivo, pois este, sucessivamente adiado, acabaria por perder, com o correr do tempo, toda a razão de ser, quando em 1922, já lá para as bandas do Brasil, o hidroavião "Lusitânia" passeava apoteoticamente os seus dois tripulantes.Perdido o objectivo inicial, foram surgindo as primeiras ideias de levar um avião português até à Índia - dada a finalidade histórica de tal viagem -, ideias que, quase de imediato, se estenderam até Macau e que, num eufórico acesso de optimismo, só compreensível se nos reportarmos ao ano aeronáutico de 1924 - em que tudo podia acontecer - se alargaram, desmesuradamente, até uma despropositada viagem de circum-navegação aérea, para a qual o avião não dispunha de autonomia suficiente e os pilotos de meios bastantes.
Embora hoje quase esquecida entre nós, e totalmente ignorada pelas bibliografias aeronáuticas estrangeiras, esta primeira viagem aérea entre Portugal e Macau teve o seu valor e, de alguma forma deu um contributo para o desenvolvimento da aviação mundial, quanto mais não seja, por ter cumprido, com um só aparelho, o primeiro vôo entre Vila Nova de Milfontes e Carachi, num gigantesco pulo, do Atlântico ao Índico, onde, pela primeira vez, se realizou a travessia de todo o Norte de África. Esta proeza, mais difícil do que parece à primeira vista, obrigou o "Pátria" a vencer condições de extrema dificuldade, em que os perigos do calor excessivo e das térmicas traiçoeiras se misturavam com o receio constante de uma "panne" inesperada, ou de uma bala perdida, saída do cano de uma qualquer espingarda de kabila revoltado. Assim, em caso de uma aterragem forçada, sobre o deserto, o panorama não se apresentava lá muito animador, pois se os não encontrassem, morreriam de sede e se alguém desse com eles, tinham grandes hipóteses de acabar decapitados. Foi por isso, que na época, tal proeza não passou despercebida e encontrou eco em muitos dos grandes jornais europeus, destacando-se, até, uma entrevista exclusiva, realizada por Stanley Parker, correspondente do Times no Egipto.
O facto desta viagem não ser mais conhecida, apesar de toda a divulgação que teve na época, deve-se ao grande incremento que a aviação teve desde então, e que dissolveu, por completo, façanhas como as do "Pátria", um pouco à semelhança daquilo que hoje se passa com as sondas espaciais que, ao tocarem Marte, parecem tornar menores os escritos e "croquis", surpreendentemente correctos, que o russo Konstantin Tsiolkovsky passou ao papel em 1898, ou mesmo as façanhas da Vostok I, ou de muitos outros foguetões que lhe sucederam nos vários programas espaciais, norte-americanos ou soviéticos e dos quais já ninguém recorda o nome.A isto juntar-se-á, ainda, uma certa incapacidade que Portugal tem demonstrado para "puxar lustro" aos galões dourados dos seus valores, não publicitando internacionalmente, com um mínimo de empenho, os feitos dos homens que fizeram os anos de ouro da nossa aviação. Aliás, a Aviação portuguesa nunca foi alvo de um estudo sistemático e sério. O grande manancial para o seu conhecimento são os jornais da época, e as obras que existem sobre essa temática, devem-se, quase todas, ao empenho de alguns dos protagonistas da "Idade Heróica",que dela nos deixaram os seus testemunhos.Entretanto, permanece um vazio no área da investigação da história aeronáutica portuguesa e, enquanto isto, vai-se perdendo a memória de toda uma época, apagada dia-a-dia pelo dedo implacável do tempo, fazendo desaparecer fotografias e outros testemunhos, para os quais não houve espaço para a sua sobrevivência Relembrar esse tempo é voltar a uma época aventurosa e breve, em que o mundo girava depressa e viver era mais importante que a própria vida.Naquela madrugada de 7 de Abril, não foi só o "Pátria" que partiu de Vila Nova de Milfontes. Com ele seguiram os sonhos de todo um povo que, mesmo na pobreza, soube encontrar os meios para levar um avião até aos confins do Oriente. 
 Os momentos que então se viveram, só quem passou por eles lhes conhece o contorno das palavras. É o caso do próprio Sarmento de Beires, que relata a experiência no seu livro "De Portugal a Macau", editado pela Seara Nova em 1925: "É preciso ter vivido esses momentos, ter visto a manhã mal transparecendo ainda através da noite moribunda, ter ouvido essas vozes que, veladas, diziam não sei o quê na sombra em que as formas mal se distinguiam! (...) É preciso ter ouvido o relinchar sonoro da Boneca, a égua inteligente que, puxando a frágil carrinha alentejana, nos levou, pelo caminho sinuoso e estreito, à esplanada cortada a prumo sobre o mar. Lá em cima, era a noite ainda - noite brumosa a desabrochar em pálidas claridades foscas. O Pátria, condor gigante de alumínio e seda, recortava-se na sombra agonizante, como fantasma estranho. Parecia outono. Cheirava a terra húmida. Andavam pelo espaço profecias mudas... Gente, muita gente, não sei quanta. Xailes, lenços, vultos masculinos, crianças.(...) Alguém quis escrever o seu nome na tela do avião(...) e outro, e outro... São dezenas de almas a prender-se, a esconder-se na fuselagem, para sofrer, morrer ou triunfar connosco... Num gesto, que fazia lembrar outros gestos vindos do passado, o pai de Brito Paes tirou do dedo o anel onde se espelhava o brazão da família e entregou-o ao filho.- Vamos !Quem disse a palavra? nem sei... Há segundos que são vácuo na memória (...) tomamos os nossos lugares(..) seis horas e dois minutos (...) lentamente, muito lentamente, como se lhe custasse aquele adeus à terra portuguesa, o Pátria começa a rolar na primeira luminosidade pérola da manhã. E ao fim de oitocentos metros de corrida solta-se do terreno macio e húmido, aproando a Oriente, a um sol que não nasceu ainda, mas que das bandas de Espanha, dispara já as suas claridades frouxas, por bombordo, um aguaceiro espesso desaba sobre a serra do Cercal. E pouco depois o ronco do Pátria desaparecia entre as nuvens." A aventura começara. 
Uma foto que muito provavelmente testemunha uma das 
várias homenagens dos pilotos em Macau (Grémio Militar)
Os calendários marcavam 7 de Abril, No livro de bordo lia-se "De Portugal a Macau - dia 1". Só terminaria dois meses depois, a 20 de Junho, com uma aterragem forçada em Shum-chum, em território chinês, dada a impossibilidade de aterrar em Macau devido a condições atmosféricas adversas. Ao longo da viagem, que passou por inúmeras paragens (Málaga, Cairo, Bagad, Carachi, Calcutá, Rangun, Banguecoque, Hanói), o avião teve de ser substituído por outro, de fabrico inglês, um Haviland DH9, baptizado como "Pátria II".  
Texto de Henriques Mateus, autor do livro "Na Esteira do Pátria", editado em 1999

terça-feira, 12 de abril de 2016

Exposição "Rumo ao Oriente: objectivo Macau"


A Casa do Governador em Beja reabriu em Março último com a exposição "Rumo ao Oriente - Objectivo Macau, apontamentos de uma viagem aérea em 1924" que celebra a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau, realizada em 1924.
A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau foi realizada por Brito Paes, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia em 1924 a bordo da aeronave "Pátria" e a Casa do Governador, em Beja, está a expor parte do espólio de Brito Paes, doado pela família ao Museu Militar do Baixo Alentejo nas décadas de 40 e 50.
A preparação para a viagem teve início em 1920, sendo que a aeronave "Pátria", modelo Breguet 16-Bn2, partiu de Vila Nova de Milfontes a 7 de Abril de 1924.
A viagem foi realizada dois anos depois da famosa travessia aérea do Atlântico Sul, a ligação Lisboa-Rio de Janeiro feita por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922, sendo que a sua preparação começou em 1920.
Para a história o avião que ficou conhecido foi o Pátria mas, na verdade, foram utilizados dois aviões. Até Jodhpur (Índia), um “Breguet” 16 Bn2 equipado com motor de 300 CV e da Índia até Macau, um “De Havilland D.H.” 9 A com um Motor de 450 CV. Daí que existam referências ao Pátria I e ao Pátria II.
A viagem iniciou-se no dia 7 de Abril de 1924, em Vila Nova de Mil Fontes (na localidade existe um monumento que assinala o feito) e terminou a 20 de Junho do mesmo ano. Curiosamente o mau tempo não permitiu a aterragem em Macau. Sarmento de Beires relatou assim o que se passou: “Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco” (...) “São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão”.  
No dia 21 de Junho a canhoneira “Macau” da Marinha Portuguesa que se tinha deslocado de Macau chegou a Hong-Kong. Na viagem tentou em vão encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau, a bordo da Canhoneira, onde foram recebidos de forma entusiástica. Chegava ao fim uma viagem de 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos. Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia, três pioneiros, acabam de escrever o seu nome em letras de ouro na história da aviação portuguesa e mundial.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O raid aéreo de 1924: mais dados

Tripulado pelos oficiais da Aeronáutica Militar, Sarmento de Beires e Brito Pais, grandes impulsionadores dos “raids” aéreos portugueses nos anos 20 do século passado, o “Pátria”, um avião Breguet XVI com motor de 300cv, descolou de Vila Nova de Milfontes a 7 de Abril de 1924, rumo a Macau, que apenas acabou por sobrevoar devido a um tufão que obrigou a uma aterragem forçada na vizinha Hong Kong. 
Na viagem, os dois pilotos estiveram acompanhados pelo mecânico Manuel Gouveia que, no entanto, só se juntou à tripulação em Tunes, para onde viajara de barco. O início da viagem ficou marcado por um forte temporal que obrigou os aviadores a efectuarem escalas em Málaga e Oran, antes da chegada a Tunes. Já com Manuel Gouveia a bordo, a ligação prosseguiu sem contratempos de maior, passando por Tripoli, Homs, Benghazi, Cairo, Rayak, Bagdad, Bushire, Bender Abbas e Dsjask. Em contrapartida, na etapa até Karachi, uma montanha não registada nas cartas de navegação causou alguns calafrios aos tripulantes. A etapa seguinte, com destino a Agria, não foi mais tranquila devido a um problema grave que levaria à substituição do aparelho, depois do voo ter sido interrompido na aldeia de Budana, no percurso para Jodhpur, a 7 de Maio de 1924.
Correio da Manhã (Brasil): edição 10 Maio 1924

Após 22 dias em terra, a ligação foi retomada graças à aquisição de um aparelho, o De Haviland Liberty 9A, de 450 cv, baptizado de “Pátria II”. Na passagem por Ambala, Boumari, Calcutá, Akiab, Rangum, Banguecoque, Oubon e Hanói, a tripulação não encontrou quaisquer problemas que, ironicamente, só voltaram a aparecer na derradeira parte da viagem, rumo a Macau.
Afectado por um violento tufão, o “Pátria II” acabou por aterrar de emergência num cemitério perto de Shum-Chum, nos arredores de Hong Kong, sem que tal tenha inviabilizado o objectivo de sobrevoar efectivamente Macau, facto que aconteceu no mesmo dia - 20 de Junho. Quatro dias depois - dia de Macau, Sarmento de Beires e Brito Pais embarcaram num navio de guerra português e pisaram Macau onde tiveram uma recepção apoteótica. 
José Manuel Sarmento de Beires nasceu em Lisboa a 4 de Setembro de 1892. Frequentou o Colégio Militar e em 1916, concluiu o curso de engenheiro militar na Escola de Guerra. No ano seguinte, com a patente de alferes, terminou o primeiro curso de pilotagem militar efectuado em Portugal, e recebeu o diploma da Sociedade de Geografia de Lisboa. Após a promoção a tenente, partiu para França, integrando os Serviços de Aviação do Corpo Expedicionário Português. Em terras gaulesas, frequenta cursos de aperfeiçoamento e especializou-se em aviação de caça para regressar a Portugal em 1919, vindo a integrar o Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República. Foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal (1920). O aviador esteve também ligado ao grupo da “Seara Nova”, sendo afastado por motivos políticos, devido à oposição a Salazar, mas seria reintegrado com a patente de coronel em 1972. Foi também escritor e jornalista. O homem que um dia escreveu “a aeronáutica militar tem uma missão histórica a cumprir”, morreu em Vila Nova de Gaia a 8 de Junho de 1974.
Em cima: aterragem na Índia e vista da Praia Grande (Macau)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A viagem do "Pátria" em 1924

Há 88 anos estavam algures nos céus dois portugueses dentro de um avião com uma rota traçada: Macau. Venha daí!  Embarque nessa viagem!
A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau iniciada a 7 de Abril de 1924 a partir de Vila Nova de Mil Fontes nasceu da primeira tentativa da viagem aérea à Madeira, que Brito Pais e Sarmento de Beires tentaram concretizar em 1920.
Na esperança de poderem levar avante o sonho da travessia aérea do Atlântico Sul e constatando que o Governo português pouco interesse manifestava em relação a estes feitos, os pilotos recorreram a uma subscrição pública conseguindo uma verba para a compra de um Breguet de bombardeamento nocturno que outrora tinha servido na 1ª Guerra Mundial. Adquirido o avião Breguet 16 Bn-2 com um motor Renault de 300cv foi necessário fazer algumas alterações, nomeadamente retirar-lhe grande parte da sua carga militar e introduzir-lhe depósitos de gasolina suplementares, de forma a aumentar o seu raio de acção. O «Pátria», nome que lhe será atribuído terá como tripulantes, o Major Brito Pais, o Major Sarmento de Beires e o Mecânico Alferes Manuel Gouveia, que se juntou à tripulação em Tunes. Segundo Brito Pais a viagem tinha dois objectivos principais: A ida a Macau e não permitir que a aviação Portuguesa estagnasse. Os contratempos foram de vária ordem com condições atmosféricas bastante adversas, desde tempestades de areia, calores intensos e cartas geográficas sem rigor, o «Pátria» acaba por aterrar no deserto de Thur na Índia, totalmente danificado. Depois do sucedido, chega de Portugal, a notícia de que o Governo autoriza a compra de um novo avião. No dia 7 de Maio o «Pátria I» é substituído por um Havilland Liberty, DH9 de 400cv, comprado na Índia por 4.700 libras, baptizado com o nome de «Pátria II». Para que o «Pátria II» pudesse prosseguir viagem, Manuel Gouveia não acompanha o resto dos tripulantes por uma questão de lotação da aeronave seguindo directamente para Macau. 

Emissão filatélica de 1999: nos 75 anos da viagem
A viagem aproxima-se do fim e no dia 20 de Junho, o «Pátria II» deixa a Indochina rumo a Macau. Por razões de mau tempo, a tripulação viu-se forçada a fazer uma aterragem de emergência numa povoação chinesa junto a Hong Kong depois de ter sobrevoado Macau, tendo o avião ficado danificado embora sem consequências para os pilotos. 
Uma lancha canhoneira - a "Macau" - veio de Macau até Hong Kong para levar consigo os tripulantes. No território após horas à espera a população temeu o pior quando a certa altura viu a bandeira de Portugal a meia haste no Palácio do Governo. Mas nada tinha a ver com os pilotos, mas antes um membro do corpo diplomático que morrera na China.
Sobre o mar, montanha e deserto, o Pátria percorreu 16.380km voados em 115h e 45m para chegar a Macau.
Ainda hoje se encontram no Clube Lusitano de Hong Kong um painel formado com partes do avião para sempre ligado a este feito da Aviação Portuguesa. Em Portugal sugiro uma visita ao Museu do Ar.
No livro de Sarmento de Beires "De Portugal a Macau: a viagem do Pátria" (há uma primeira edição de mais de 200 páginas com muitas ilustrações logo em 1925 da Seara Nova; a 2ª edição é de 1953) pode ler-se sobre Macau:
"A península minúscula em que a secular cidade portuguesa dos confins da Ásia se comprime, na desordem dos seus bairros, entre as Portas do Cerco e o mar, parece a palma da mão que a China estende ao Pacífico, como a mendigar-lhe a esmola das suas ilhas aveludadas e sombrias. A Praia Grande, avenida quase circular, faz a curva entre a chave da mão e o polegar, onde a capelinha da Guia se alcandora no topo de uma colina."
Uma récita que evocou o feito no teatro D. Pedro V a 4 de Julho de 1924
Nota: existem diversos posts relacionados com este tema pelo que sugiro utilização do campo de pesquisa. Em breve vou disponibilizar alguns recortes dos jornais portugueses da época.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Flying Around the World

Na década de 1920 vários países, oficial e oficiosamente, empenharam-se nas travessias aéreas intercontinentais. Portugal foi um deles e uma das aventuras, feita sem o apoio oficial do Estado, teve como destino Macau.
Em 1924 - faz no próximo ano um século - dois aviadores militares, José Manuel Sarmento de Beires e António Jacinto da Silva Brito Paes, acompanhados pelo mecânico Manuel Gouveia, fizeram a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau.
Num feito notável para a aviação mundial, partiram a 7 de Abril do Campo dos Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) e chegaram ao destino a 20 de Junho. Numa viagem muito atribulada e com recurso a duas aeronaves (com o nome Pátria) percorreram 16,760 Km - o dobro da distância da travessia do atlântico sul realizada em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral - num total de 117 horas e 41 minutos de voo.
O excerto de texto abaixo é retirado da edição de Setembro de 1924 da revista Us Air Services.
"(...) The idea of flying around the world is not new it has been the dream of aviators from the beginning and only waited development of a suitable airplane. The United States Army Air Service seriously considered the project in 1921. Sir Ross and Sir Keith Smith, the first to fly from England to Australia, also had planned to make the flight in 1921. Major Blake succeeded in reaching Akyab India in his attempt in 1922 when his plane was wrecked and his crew all but lost their lives. With the approach of 1924 came realization of the high hopes of some and the disappointment of others. The stage was set for circumnavigation of the world by air. The plans of three expeditions representing three great nations were completed and the world waited and watched with interest ready to acclaim the first to accomplish this difficult task. The first to start was the English Flight under the leadership of Capt Stuart MacLaren which left Calshot England on March 15. The British Government was not officially back of this attempt which was financed privately by the company which built the plane.
The Portuguese were next to start leaving Lisbon on April 2. This expedition, like the British, was not an official flight of the Portuguese Government being financed by the donation of Major Brito Pais and by popular subscriptions from the Portuguese people. The pilots were Major Brito Pais and Major Sarmento Beires.
The American Flight left Seattle Washington on April 6 1924 and is the only flight that represents the official effort of any of the nations represented in the race around the world. On July 26 came unexpected announcement that Major Pedro Zanni of the Argentine Army had taken off from Amsterdam, Holland to fly around the world making the fourth entry this year.
Stuart MacLaren, the gallant English man, was forced out of the competition when after a series of misfortunes he was trapped in a dense fog while attempting to fly from Petre pavlosk Kamchatka to Nikolski in the Kom andorski Islands of the North Pacific and upon landing near the shores of Behring Island August 2 his plane was hopelessly damaged MacLaren sent the following message to the Air Ministry in London. For the sake of the Royal Air Force I am sorry I failed but conditions here now are im possible for flying
The Portuguese Flight ended after a game fight against continuing misfortune at Shamiehun China near Macao, the Portuguese settlement. These airmen had suc in southeastern China ceeded in attaining their first goal after having traversed 11,000 miles in 118 hours flying time.  The crash of their plane brought to an end the hope that they could circumnavigate the globe this year.
As this is written Major Zanni commanding the Argentine Flight has reached Hanoi the capital of Indo China In attempting to take off he wrecked the plane and was trying to obtain another plane from Japan after which he hoped to follow the same route proposed by the ill fated MacLaren It is hoped he will have better weather conditions than were experienced by his predecessors.
With the landing of the Am erican World Flyers in Labrador their next stop they will again be on the American continent and although they must reach Seattle before their mission is completed they shall have covered 20,091 miles a greater distance than has ever before been flown by a single aerial expedition Though still 5,000 miles away from their goal they have placed behind them the great obstacles presented by the Pacific and Atlantic Oceans and we may therefore look forward to a successful completion of their great undertaking.(...)
in US Air Services, Setembro 1924
Monumento construído em 1992 em Vila Nova de Mil Fontes.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

De Portvgal a Macav: há 88 anos

Depois da 1ª Guerra Mundial a aviação conquistou grande prestígio e as grandes potências mundiais iniciaram um programa de voos intercontinentais com várias tentativas de ligação entre a América e a Europa. Portugal entrou também nesta corrida. A estreia aconteceu com o com o voo de Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922. Dois anos depois seria a vez de Sarmento de Beires. A 7 de Abril de 1924, no mesmo dia em que foi promovido por distinção a major, partiu de Vila Nova de Mil Fontes com Brito Pais, para o voo com destino a Macau a bordo do "Pátria", um Breguet Br16 especialmente transformado nas oficinas da Amadora para a longa viajem mas que não chegaria - por pouco - ao destino. Foi preciso um Pátria II. Quer isto dizer que, por esta altura, há 88 anos, o "Pátria" estava algures nos céus...
"De Portugal a Macau - A Viagem do 'Pátria'", de Sarmento de Beires, Edição Seara Nova, Lisboa, 1925. Primeira edição. 

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Aviation snapshot until 1995

Local newspaper O Liberal reported in 1920 "This week's main news is the government's planned purchase of Macao Aerial's hydroplanes, for which it has appointed a committee comprising lieutenants Carmona, Lara Reis and Rogério. On this matter, we have only one thing to say: you have our fullest support!"

American aviator David J. Dotty hired to give instruction at a flying school with two seaplanes in its fleet in 1922.

Pilots of the 1st Lisbon Macao Air Crossing - Majors Brito Pais and Sarmento de Beires plus mechanic Manuel Gouveia - arrive in Macao on 25th June, 1924.

In October 1927, Macao takes delivery of three seaplanes including the 'Santa Cruz' which made history flying the South Atlantic. They became the fleet of the Naval Aviation Centre on Taipa Island where the airport is now situated.

On 18th November 1934, Commander-Lieutenant Humberto da Cruz and mechanic Gonçalves Loberto land their craft at Areia Preta horse racing track en route to Dili from Lisbon.

On 23rd October 1936, Pan American Airways System's Martin M-130 four-engine flying boat Philippine Clipper touches down on the waters of Macao's outer harbour. It extended the transpacific route, pioneered by its sister M-130, the China Clipper in 1935, and was the first link to the China Coast.

In 1948 Cathay Pacific pioneers Roy Farrell and Sydney de Kantzow make a muddy, ignominious belly-up landing in front of the VIP rostrum on the Areia Preta race track and decline to pursue further opportunities in the territory.

From the late 40s to the early 60s, local airline MATCO - now operating hydroplanes - plies the 37 nautical miles between Macao and Hong Kong, providing up to four flights a day by 1961. The busy waters of Hong Kong Harbour, however, force the service to close.

The single-engined 'Sagres' lands on Coloane Island after its mammoth flight from Lisbon in 1987

A 9 de janeiro de 1987 descolava de Tires (Portugal) a caminho de Macau, com 10 escalas previstas, um pequeno monomotor "Mooney" CS-ALG, baptizado de "Sagres". Era tripulado por três pilotos portugueses. Jorge Cruz, Arnaldo Leal e Prata Mendes propunham-se reviver a primeira ligação aérea Portugal-Macau, efectuada por Sarmento de Beires e Brito Pais e Gouveia em 1924 (ver outro post sobre esta viagem). O Sagres chegou a Macau às 12h45 (hora local) de 4 de Fevereiro (na imagem), após 28 dias de viagem. O pequeno monomotor encontra-se exposto no Jardim de Seac Pai Van, na ilha de Coloane, em Macau.
An Air Macao Airbus-321 touches down at the new Macao International Airport on 5th November, 1995

terça-feira, 9 de abril de 2024

Centenário da primeira travessia aérea Portugal-Macau: 1924-2024

A deposição de uma coroa de flores no monumento existente em Vila Nova de Mil Fontes e uma sessão oficial no Museu do Ar em Sintra marcaram o arranque, no passado domingo, das comemorações do centenário da primeira travessia aérea entre Portugal e Macau. 
A viagem teve início a 7 de Abril de 1924 em Vila Nova de Mil Fontes e a Junta de Freguesia associou-se às iniciativa com uma medalha comemorativa de um dos maiores feitos da história da aviação. É apenas uma das várias manifestações agendadas que vão decorrer até Setembro em Portugal, Hong Kong e Macau.
"Há cem anos, a viagem aérea de Portugal a Macau constituiu um notável feito aeronáutico de destaque internacional. Com a sua realização, Portugal competiu com êxito no plano das grandes viagens aéreas intercontinentais que então eram promovidas pelas grandes potências internacionais. Mas, contrariamente a essas grandes potências, o Estado português não apoiou este raide. Foi o povo que se mobilizou para o financiar, através de ampla subscrição pública, numa ação solidária e entusiasta que galvanizou o país
inteiro, desejoso de feitos que animassem os tempos sombrios da I República.
O raide foi sonhado e meticulosamente preparado pelos aviadores Brito Paes e Sarmento de Beires, com o apoio do mecânico Manuel Gouveia. A 2 de abril, o avião «Pátria» (um Breguet 16) dirigiu-se da Amadora para Vila Nova de Milfontes (terra a que Brito Paes estava pessoalmente ligado), pela vantagem oferecida pela pista dos Coitos, a única que garantia a descolagem segura do avião em carga plena.
Partindo a 7 de abril, os aviadores viveram momentos de elevado risco, como o da aterragem de emergência na Índia, que danificou definitivamente o avião e obrigou à aquisição de um um novo aparelho, igualmente custeado pelo povo português. Os aviadores percorreram um total de 16.760 Km em 25 etapas, até aterrarem a 20 de junho em Shum-Chum, na China, após terem sobrevoado Macau, onde não conseguiram aterrar devido a um ciclone." (leia-se tufão).
Texto da Comissão de Organização das comemorações constituída pelo Município de Odemira, Universidade do Porto e Força Aérea Portuguesa.
Os três protagonistas da travessia aérea: Sarmento Beires, Manuel Gouveia e Brito Paes, natural de Colos, concelho de Odemira, a que pertence também a freguesia de Vila Nova de Mil Fontes.

No verso o brasão de V. Nova de Mil Fontes: escudo de prata, semeado de fontes heráldicas de azul e prata e, brocante, uma cruz da Ordem de Santiago, de vermelho; planície ondeada de ouro, perfilada de verde. Coroa mural de prata de quatro torres. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

“O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”

Na edição de 13 de Dezembro de 1924 - há 100 anos - a Empresa Cinematográfica Macaense anunciava no jornal "A Pátria" (Macau) a estreia no Star Theatre em Hong Kong de um documentário intitulado "O Vôo Audaz das Águias Portuguesas" que documentava a chegada a Macau em Junho desse ano dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e do mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes em Abril para pela primeira vez realizaram uma ligação aérea entre Portugal e Macau, um dos maiores feitos da aviação portuguesa.
Este ao foi assinalou-se o centenário do 'raid' e no blogue existem inúmeros artigos sobre o mesmo. Basta utilizar o campo de pesquisa. Em baixo mais um documento raro, publicado em Portugal, que inclui no verso a "chronometragem" e o mapa com a rota percorrida.

domingo, 7 de abril de 2024

"Levantou hoje vôo o Pátria"

Há 100 anos tinha início a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. O jornal A Capital (Portugal) noticiou o facto protagonizado pelos "denodados aviadores capitães Sarmento Beires e Brito Pais" na primeira página da edição de 7 de Abril de 1924 com o título "Levantou hoje vôo o Pátria". 
O mecânico e também aviador Manuel Gouveia 'apanharia' o avião um pouco mais à frente no percurso que só terminaria em meados de Junho desse ano na cidade de Macau. Foi um dos maiores feitos da avião mundial na época.
Poucos dias antes da partida em Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) o "Pátria" viera da Amadora o principal pólo da aviação em Portugal na época. 
Na fuselagem do aparelho pode ler-se "Esta é a ditosa pátria minha amada. Foi extraída do Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões, cujo quinto centenário do nascimento também se assinala este ano.

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Precisávamos de vir a Macau"

Por esta altura há 100 anos os heróis da aviação portuguesa e mundial no início do século 20 já regressavam a Portugal. Partiram de Macau rumo a Xangai e dali para o continente americano chegando a Portugal só em Setembro.
Em Macau o povo saiu à rua - Praia Grande - para saudar os aviadores portugueses

"A nossa viagem tinha dois fins. Primeiro: sendo nós oficiais do Exército e patriotas, precisávamos de vir a Macau, terra portuguesa entre as terras portuguesas, onde Camões se inspirou para escrever Os Lusíadas. Aqui estamos. Segundo: sabendo-se que todas as nações se empenhavam na realização de grandes viagens aéreas, a Aviação Portuguesa não podia permanecer apática e indiferente e cumpria-lhe não deixar de participar condignamente na grande competição. Atingimo-lo também."
Discurso de Brito de Paes em Macau citado por José Manuel Sarmento de Beires no livro "De Portugal a Macau: a viagem do Pátria", Seara Nova, 1925.
Cartaz para a recepção em Lisboa

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Récita em homenagem aos Gloriosos Aviadores

A 4 de Julho de 1924 o Grupo de Amadores de Teatro e Música organizou no teatro D. Pedro V uma homenagem aos protagonistas da primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Foi umas das muitas homenagens realizadas em Macau.
No programa da récita incluiu-se um texto do poeta Camilo Pessanha (1867-1926) que aqui se reproduz. De acordo com a imprensa da época não há registo da presença de Pessanha nas homenagens.
Programa impresso pelo tipografia Mercantil, de N. T. Fernandes e Filhos, 1924

"Associo-me comovido, como antigo residente da colónia, (mais de trinta anos de residência), às gerais manifestações de entusiasmo pela chegada triunfal dos ínclitos aviadores Brito Pais, Sarmento Beires e Gouveia. Pelas condições da sua realização, é a sua visita a mais honrosa que Macau recebe desde há séculos.
Toda a população desta remotíssima terra portuguesa estremeceu de patriótico júbilo ao saber que Macau foi a meta escolhida para a grandiosa prova de audácia esclarecida que os dois ilustres aviadores, assumindo para tal fim a representação da nação portuguesa, desinteressadamente se impuseram e que com tanta perícia, e tão deslumbrante êxito levaram a cabo.
Júbilo que não resultou apenas da satisfação de uma fútil vaidade, aliás justificável, de burgo, mas também, e principalmente, de todos compreendermos que o raid Lisboa-Macau foi utilíssima empresa para o prestígio do nome português no Extremo-Oriente, demonstrando do modo mais palpável às populações destes países distantes que Portugal ainda tem filhos capazes dos mais heróicos sacrifícios, dispõe de competências técnicas rivalizando com as das mais cultas nações e acompanhando, portanto, brilhantemente, o progresso do Mundo."
Camilo Pessanha no Teatro D. Pedro V, a 4 de Julho de 1924.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Empresa Cinematográfica Macaense

A 8 de Fevereiro de 1924 Lucrécia Maria Borges, Gerente da Empresa Cinematográfica Macaense (ECM), solicita ao governo para lhe ser concedido "o exclusivo da exploração da indústria cinematográfica nesta colónia”.
O pedido acabaria por ser aceite e pelo “exclusivo dessa exploração no território da Colónia pelo prazo de dez anos” a ECM ficou encarregue de realizar documentários sobre Macau, “onde serão apanhados todos os assuntos mais notáveis da vida da colónia”. 
Era uma pedra no charco mas não era a primeira vez que viriam a ser feitos filmes em Macau. Já em 1922 o Cinematógrafo Macau exibira “uma fita sobre Macau, destinada à Exposição do Rio de Janeiro” (...) “inteiramente feita por um amador, Sr. Antunes Amor.”
Ainda assim, dois anos depois de ser criada, a ECM viria a ter oportunidade de exibir os seus filmes. Foi em 1926 durante a primeira Feira e Exposição Industrial do território onde a ECM também rodou um filme em jeito de reportagem. Para que a rodagem decorresse da melhor forma, a ECM convidou o público a aparecer no recinto no dia 11 de Dezembro, penúltimo dia do certame, pelas 15 horas, “para que o filme possa ficar o mais movimentado possível”.
Esse filme seria visto apenas anos depois. Mas no evento seriam exibidos inúmeros filmes. Segundo o jornal A Pátria a 11 de Dezembro foi projectado - pela segunda vez no território - o filme "Os Fidalgos da Casa Mourisca", do romance de Júlio Dinis.
No dia seguinte, o último do evento, foram exibidos outros filmes numa sessão dedicada ao Governador Tamagnini Barbosa e ao Almirante Hugo de Lacerda.
O Almirante Hugo de Lacerda Castel-Branco foi Governador interino de Macau de 29 de Julho de 1926 até à chegada de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o que ocorreu somente a 8 Dezembro. Por isso a exposição foi prolongada até à meia-noite de domingo dia 12. Proveniente de Hong Kong o novo governador desembarcou com a mulher e os cinco filhos no cais provisório do novo porto exterior, sendo recebido pelas autoridades civis, militares e eclesiásticas da cidade. Seguiu-se uma visita às obras do novo porto e só depois aconteceu a tomada de posse no salão nobre do Leal Senado onde foi feita a “simbólica entrega da chave de ouro por parte do Presidente da Câmara” Damião Rodrigues. Depois, seguiu para o Palácio do Governo. À noite deu-se a visita ao certame.
Ali a ECM teve oportunidade de mostrar as suas produções.
Entre os títulos apresentados estava “O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”, sobre a chegada a Macau dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e o mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes no dia 7 de Abril de 1924 e depois de uma viagem atribulada chegaram a Macau a 25 de Junho (um dia depois do dia do território), onde foram recebidos em grande festa pela população.
O segundo filme intitulava-se “Os Funerais de um Capitalista” e o terceiro, “Comemoração do Quarto Centenário de Vasco da Gama”, uma reportagem que inclui o desfile de um cortejo na Praia Grande, na Avenida de Vasco da Gama, junto do busto do navegador, com homenagens da Colónia, das comunidades holandesa e chinesa e dos portugueses de Hong Kong, no Leal Senado, uma missa campal e vários aspectos da iluminação na cidade e no porto.
O quarto filme era sobre “O Casamento de Mr. & Mrs. Francis Young Po Nam” e o quinto, uma produção recente, “O Voo Madrid-Manila” filmado em Maio de 1926, aquando da passagem por Macau dos aviadores espanhóis Capitão Gallarza e Loriga. 

O sexto filme da ECM a ser exibido foi “O Concílio Episcopal em Xangai”. O sétimo seria o documentário de propaganda sobre “As Obras do Porto de Macau”, uma reportagem sobre da cerimónia da dragagem do último metro cúbico de lodo do canal de acesso do novo Porto da Rada, ocorrida a 26 de Agosto de 1926 no Porto Exterior.
Vários selos da emissão ‘Ceres’ com sobrecarga local (Exposição/Industrial/1926)

Nota: No início do século XX existiam várias salas de cinema no território mas poucos exibiam filmes portugueses. O teatro D. Pedro V era um deles. Em Fevereiro de 1926, por exemplo, foram exibidos os filmes mudos portugueses “O Soldado desconhecido” e “A Rosa do Adro”.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

A "Gloriosa Viagem"

Há 100 anos, a 19 de Junho de 1924, estava nas bancas mais uma edição da Gazeta das Colónias. Numa das páginas podia ler-se:
"Quando este número da Gazeta das Colónias sair ao público, deve estar a terminar essa gloriosa viagem, com que os heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento Beires, auxiliada pelo dedicado e infatigável mecanico Manuel Gouveia, vem aumentar o brilho do Nome Português e abrir mais uma página da historia, ainda curta mas já cheia de sacrifícios e de glória, que é a da nossa Aviação. (...)"
E assim foi... a 20 de Junho a "gloriosa vigem" chegava ao fim com o Pátria II a sobrevoar Macau em dia de tufão tendo feito uma aterragem forçada a 45 milhas do território, já no continente chinês, na localidade de Sam Chun, muito perto de Hong Kong, para onde seguiram primeiro antes de chegarem a Macau no dia da cidade, a 24 de Junho.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"Sagres": 1987


1987: One more episode is achieved in Aviation History between Portugal and Macau. The “Sagres” - a Mooney Super 21 (M-20E), CS-ALG, connects Portugal to Macau, recalling the aerial raid by Brito Pais and Sarmento Beires. Two pilots, Maj. Jorge Cruz Galego and Armando Leal, and the mechanic Álvaro Mendes composed the crew. 
Sagres departed Tires aerdrome on January 10, 1987 and landed in Macau 27 days later (February 6, 1987) in a small improvised compacted runway which was prepared in the Concordia reclaimed area next to the Karting Track in Coloane Island. After landing and on behalf of the 3 aviators Jorge Cruz, read the following Luis de Camões statement: “esta é a minha ditosa pátria minha amada- sentiu-o aqui Camões e nós compreendemo-lo”. 
Days later, on attempting a return flight to Lisbon, Portugal, the airplane experienced a forced landing just to the northwest of Macau, following a technical failure.
Once practically recovered, "Sagres" became a point of attraction exhibited in Granja Municipal Park in Coloane Island located pretty much close to the place this "beauty" first landed in Macau, after a long aerial raid adventure...
The original a/c propeller was somehow "repaired" and forwarded to Hong Kong where is now exposed in the portuguese "Lusitano" club.
Total flight time: 65h30m in 27 days.
Night time: 40h45m.
Number of landings: 23.
Ground distance: 8150 NM = +/- 15000 KM.
Text/photos: Carlos Fragoso Costa
More about this here
http://macauantigo.blogspot.com/2009/05/raid-aereo-lisboa-macau.html

terça-feira, 12 de março de 2024

Primeira ligação aérea Portugal-Macau: medalha do 50º aniversário

Por estes dias, há 100 anos, ultimavam-se os preparativos para o que viria a ser um dos maiores feitos da aviação portuguesa e mundial. A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Este é um dos vários posts com que assinalarei a efeméride. 
Um telegrama da agência noticiosa Reuters, a partir de Londres no dia 2 de Abril deu a conhecer a partida ao mundo:
"London, April 2. Lisbon The Portuguese airship will depart at dawn on a projected flight to Macao."
"Londres, 2 de Abril. Lisboa Um avião português partirá de madrugada num voo que tem Macau como destino previsto."
Em 1974, no 50º aniversário da viagem, o Governo de Macau encomendou ao escultor Vasco Costa uma medalha de bronze.
Tem 8 cm de diâmetro, 4 mm de espessura e pesa 211 gramas. Brito Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia foram os protagonistas deste feito histórico a nível mundial.