quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Vinhos de arroz, de sorgho, etc."

Loja de vinho chinês em Macau: meados do séc. 20

Vinhos de arroz, de sorgho, etc.
Sam-chú, que significa litteralmente vinho queimado, é uma aguardente, muito forte e com um cheiro empyreumatico, que se obtem pela distillação das sementes de algumas gramineas e principalmente do arroz. E' usada em todo o imperio. Segundo Debeaux (de quem tiro estes dados) fabrica-se o Sam-chú molhando o arroz em agua quente, até que os grãos estejam completamente inchados, que é quando se deitam em agua na qual se dissolveu o Péká, preparação composta de farinha de arroz, de raiz de chicorea e alho. O Péká accelera a fermentação do arroz, mas communica-lhe um cheiro particular a empyreuma. Em seguida distille-se o mixto. O Sam-chú é por assim dizer a primeira preparação do excellente Arrack das Indias, que, segundo o mesmo auctor, é distillado em grandes alambiques quer em Java, quer em Goa (sic) ou misturando-se previamente o Sam-chú com xarope de assucar ou com a agua do coco. Segundo o viajante Osbeck, para se obter a aguardente de arroz, ajuntava-se aos liquidos destinados á distillação hastes frescas ou verdes do Holcus saccharatus (Lin), planta cultivada no centro e no norte da China. Os chins tambem usam o vinho de arroz ou d'outros cereaes, fermentado, mas sem ser distillado; emquanto o de uvas é quasi desconhecido, apesar de haver a vinha em muitas provincias do Imperio, cultivada desde a mais remota antiguidade e se referirem os annaes chinezes ao uso d'este vinho. O vinho de cereaes, não distillado, é fabricado por meio do kiu-tzé ou semente de vinho, que é a borra dos toneis em que fermentaram o arroz e outras sementes gramineas. Mistura-se uma pequena porção d'esse kiu-tzé á farinha de arroz (ou de trigo, de milho, de cevada, etc.) que se deita n'umas grandes jarras ou kangs, onde se deixa fermentar tudo. Ao vinho assim fabricado, e especialmente ao de arroz, chama-se Cha-sin-kiú. De maneira que é conveniente não confundir este vinho com a aguardente propriamente dita, que é o sam-chú. Com o sumo do sorgho assucarado, tambem se fabrica vinho e aguardente que contem um oleo essencial, que lhe dá um gosto sui generis. O liu-pun de Macau é uma especie de vinho aguardentado de arroz, muito usado por toda a população china, que tambem tem os deliciosos vinhos de ameixas, de rosas, etc., que são uns verdadeiros licores.

Excerto de "Asia Sinica e Japonica" do frei José de Jesus Maria. Esteve em Macau em meados do século 18. O original é um manuscrito da época dado a conhecer pela primeira vez na publicação "Ta-ssi-yang-kuo: archivos e annaes do Extremo-Oriente portuguez" já no final do século 19. Na década de 1930 Charles Boxer encontrou uma cópia do manuscrito à venda em Lisboa e publicou-o em livro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Centenário do Sporting Clube de Macau: 1926-2026

Na edição de 11.9.2926 o jornal A Pátria informava que "Em portaria provincial, datada de 9 do corrente, foram aprovados os estatutos dêste novo clube. Os nossos parabens". Seria a 25.ª filial do Sporting Clube de Portugal. Da primeira direcção fizeram parte Henrique Nolasco da
Silva (Presidente), Francisco Borralho e Ângelo do Rosário.
A Portaria nº 172 tem a data de 8 de Setembro e foi publicada no dia seguinte no Boletim Oficial do governo da Província de Macau.
O Governador interino da Província de Macau, ouvido o Conselho Executivo, aprova, para os devidos efeitos, os Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau», que baixam assinados pelo Secretário Geral do Govêrno e fazem parte integrante desta portaria. Cumpra-se. Palácio do Govêrno em Macau, 8 de Setembro de 1926. — O Governador interino, Hugo de Lacerda. Estatutos da Sociedade Desportiva «Sporting Club de Macau» CAPÍTULO I Fins e organização 1. A sociedade «Sporting Club de Macau», organizada com o fim de desenvolver a educação física dentro desta Colónia, proporcionará aos seus sócios toda a instrução ginástica, quer individual ou colectiva, quer aplicada, e bem assim a prática de todos os jogos e desportos físicos. 2. A parte de educação física será dividida em quatro secções, regidas por um regulamento interno: 1.ª Secção — Ginástica Suéca e aplicada.
2.ª Secção — Desportos atléticos.
3.ª Secção — Jogos e desportos individuais e colectivos.
4.ª Secção — Náutica. 3. A autoridade soberana da sociedade reside na assemblea geral, reunida conforme as prescrições dêstes estatutos. (...)
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

De acordo com os estatutos (Cap. 17 e 18) as bandeiras e equipamentos do clube ("pavilhão e uniformes") eram:
Os pavilhões serão os seguintes:
N.º 1 — Do Club — Verde, rectangular, tendo no centro o leão do Club inferiormente semi-circundado pelas iniciais S. C. M. em branco. 
 N.º 2 — Dos teams de foot-ball — Rectângulo branco com duas faixas verdes em diagonal, tendo no meio do rectângulo, junto à tralha, o leão do Club. 
 N.º 3 — Da equipe de desportos atléticos e jogos — Rectângulo branco com o leão do Club junto à tralha. 
 § 1.º O pavilhão n.º 1 será hasteado na sede da sociedade e nos campos onde o Club concorra, em dias de festa nacional, domingos e dias de assemblea geral. Será hasteado em funeral, na sede, durante três dias, quando falecer algum sócio. 
 § 2.º Os pavilhões n.º 2 e 3 serão hasteados sempre e onde oficialmente esteja representado o Club, quer em provas de foot-ball, quer em desportos atléticos, quer em jogos individuais ou colectivos.
Imagem criada por IA de acordo com regulamentos de 1926

18. Os uniformes do Club serão: 
 1. Para foot-ball — Camisa de algodão com frente e costas alternadamente partida em duas metades, uma verde e outra branca.
colarinho e punhos pretos, bolso preto no lado esquerdo, e neste o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M. Calção preto e meias pretas com o canhão verde e branco. 2.º Para tennis, cricket e similares — Calça, meias, sapatos e camisa branca tendo sobre o bolso o leão do Club. Quando se jogar com sweter deverá esta ser branca, sem gola, com fecho verde e preto e o leão no peito. 
3.º Para desportos atléticos, remo, ciclismo, etc. — Calção preto e camisola branca de mangas curtas e sem gola, decotada e debroada a verde, tendo no peito o leão do Club. 
4.º Para natação — Maillot preto debroado de branco tendo no peito o leão do Club semi-circundado pelas iniciais S. C. M., tudo em branco igualmente. 
 49.º O distintivo do Club será um leão em campo verde circundado por uma faixa negra com as iniciais S. C. M. 
 50.º O uso dos uniformes é obrigatório em todas as provas oficiais, em dias de festa do Club e sempre que a direcção o entenda conveniente. 
 51.º É absolutamente vedada a prática de qualquer sport, sem o uniforme apropriado. 
 52.º Os directores, membros da comissão revisora de contas, membros da assemblea geral, directores técnicos e médico, e bem assim os capitães de equipe e dos teams, usarão sobre o leão, quando na efectividade, uma estrela de cinco bicos, em ouro ou dourada.
Bandeira do "Foot-ball" segundo os regulamentos
ilustração criada por IA não garantido ser totalmente fiel ao original

Pouco mais de um mês depois, a 24 de Outubro, era "inaugurado solenemente este novo Clube que tem a sua sede na Av. Conselheiro Ferreira de almeida nº 27", segundo notícia do jornal A Pátria a 22 de Outubro de 1926.
PS:
Sugiro a leitura do artigo publicado no jornal Ponto Final de 22.9.2026 sobre o centenário do SCM. Quando joguei nos júniores do SCM no final da década de 1980 o equipamento já tinha as tradicionais listas horizontais verdes e brancas. Eram camisolas de tecido 'pesado' provavelmente da década de 1960/70. Curiosamente este equipamento surgiu também 1926. Em finais desse ano, ao assistir a uma partida de râguebi em que participava o Racing de Paris, Salazar Carreira ficou tão impressionado com as camisolas usadas por esta equipa, que levou uma para Lisboa e adaptou-a às cores do Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Postal da "Se Cathedral" enviado para Cuba em 1923

Na imagem um postal ilustrado da Sé Catedral de Macau durante o início da década de 1920, exibindo a fachada lateral e a torre sineira equipada com o seu relógio. A estrutura representada corresponde à versão neoclássica do edifício edificada em meados do século XIX, anterior à remodelação que teve lugar em 1937 e que alterou em parte a traça exterior. Na margem inferior da imagem, uma legenda impressa a vermelho "Se Cathedral, Macao".
Do ponto de vista da história postal, atente-se à clareza das marcas de circulação. No canto inferior direito encontra-se afixado um selo de 6 avos obliterado pelo carimbo octogonal do CORREIO CENTRAL - MACAU com a data de 23 de Agosto de 1923. A acompanhar a estampilha, destaca-se um carimbo circular de trânsito e chegada com a inscrição HABANA, CUBA, datado de 22 de Setembro de 1923, o que comprova que esta correspondência demorou exactamente um mês a viajar entre Macau e as Caraíbas.

sábado, 19 de setembro de 2026

Memórias da comissão militar de José Rosa (1969-1971)

José Rosa tinha 21 anos quando chegou a Macau como militar. Numa rendição individual partiu de Lisboa a bordo do navio Timor - Companhia Nacional de Navegação - a 26 de Dezembro de 1969, uma sexta-feira. Atracado no cais da Rocha Conde de Óbidos, o Timor impressionava com 131 metros de comprimento, 7656 toneladas de arqueação bruta e lotação para 387 passageiros e 120 tripulantes.
A bordo seguiam mais cerca de 200 militares. A maioria ficou alojada no porão. Uns iam para Macau outros para Timor, o destino final (Dili). Desde 1967, com o encerramento do Canal do Suez, passou a seguir para o Oriente pela rota do Cabo da Boa Esperança (África) com escalas em Angola e Moçambique. José Rosa fez escala no Lobito (onde visitou a irmã), Luanda, Beira e Lourenço Marques. Ao fim de 48 dias o Timor lançou âncora em Hong Kong. Da então colónia britânica quem tinha como destino Macau podia viajar nos novos hydrofoils ou nos mais velhinhos ferries a vapor, como o Fat Shan, o Tai Loy ou o Tak Shing. A viagem demorava cerca de 3 a 4 horas. Os militares seguiam nos mais baratos e mais lentos ferries. 
Troço final da Av. Almeida Ribeiro nos anos 1970
ilustração criada por IA a partir de fotografia

Quando atracou no Porto Interior, já era noite cerrada daquela quinta-feira 12 de Fevereiro de 1970. Ainda deu para ver o bem iluminado casino flutuante denominado "Casino de Macau".
José Nobre de Carvalho era o governador promovido a general em Novembro de 1970. Os trabalhos para construção da ponte, a primeira a ligar Macau à Taipa, estavam prestes a começar. Uma ponte que haveria de receber o nome do governador... Mas isso seria apenas em Outubro de 1974. Em 1970 ainda pairava no ar a tensão dos momentos quentes da Revolução Cultural chinesa vividos de forma mais intensa entre 1966 e 1967.
Dos tempos de serviço José Rosa recorda fazer rondas com os carregadores vazios, dos corpos de chineses que surgiam junto à costa, afogados, ao tentarem entrar em Macau a nado.
J. Rosa frente ao Hotel Lisboa onde se destaca o trabalho artístico de Francisco Borboa
À chegada o Hotel Lisboa ainda cheirava a novo. Tinha sido inaugurado poucos dias antes, a 3 de Fevereiro, a tempo de aproveitar os festejos do Ano Novo chinês (Ano do Cão). O Lisboa dava também para matar saudades da metrópole, como se dia na altura. Havia comida portuguesa e por vezes sessões de fado. Na gastronomia portuguesa o Lisboa podia ser novidade mas a qualidade a preços mais acessíveis conseguia-se no Ruby, Belo, Safari, Fat Siu Lau, Solmar... No casino os militares não estavam autorizados a entrar, mas podiam ver e jogar nas máquinas de diversão e no bowling. Ou então assistir às corridas de galgos no Canídromo, na época muito concorridas.
O novo e majestoso edifício contrastava com uma urbe que mais parecia uma pequena vila onde as diferentes comunidades pouco conviviam e os militares, não sendo hostilizados, eram olhados com desconfiança. No Porto Exterior, depois da curva dos pescadores, junto ao Reservatório, ainda havia as "barracas de banho".
Um maço de cigarros custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. As marcas eram muitas. Muita oferta tal como nas salas de cinema: Apollo, Nam Van, Vitória, Lido, Capitol, etc...
Na baía a Praia Grande ainda abundavam os pontos de pesca artesanal (umas canas de bambú compridas e com redes agarradas), nomeadamente junto ao Hotel Caravela, na Av. da República.
As saudades de Portugal podiam ser atenuadas em momentos como os que ocorreram em Agosto de 1970 quando no Jardim de Camões actuou (dia 16) a Tuna Académica de Coimbra e a Orquestra de Câmara Carlos Seixas, sob a direcção de Tobias de Lurdes Cardoso... ou quando a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica fez dois jogos (dias 20 e a 22) no Campo 28 de Maio (Canídromo) tendo vencido a selecção local por 4 golos e a selecção de Hong Kong por 7 golos sem resposta. Num jornal da Companhia de Polícia Militar da época pode ler-se:
"Tu vieste a esta pequena parcela do Território Nacional, modificar-lhe a sua maneira de viver durante cinco dias. Tu, Benfica, foste um verdadeiro embaixador da Mãe Pátria. Vieste aqui e todos te reconhecem como um grande no desporto. na correcção e na socialidade. Esse abraço que trouxeste, a nós militares, de todos os portugueses - que tão longe se encontram de nós - não será facilmente esquecido. A nós, militares, foi uma alegria e honra ver a tua atenção para connosco e mesmo procurar a nossa companhia. Nunca nos esqueceremos da fantástica lição de futebol e correcção que deram. Saíste vitorioso do campo, depois de teres feito abrir a boca de espanto e admiração à grande maioria da assistência. Aquele aceno amigo que fizeste no princípio do jogo também não será esquecido... Por tudo, Benfica, por nos teres dado a grande alegria de ver o teu futebol, pela tua correcção, pela tua socialidade e pelas atenções que tiveste com todos os militares, o nosso Obrigado."
Em plena guerra colonial no Ultramar, a José Rosa coube cumprir o Serviço Militar Obrigatório em Macau, um território pacífico, exótico e isolado no Extremo Oriente, escapando à mobilização para a frente de combate em África. Talvez por ser Operador de Rádio, função que ocupou integrado no destacamento de manutenção instalado nas denominadas "Barracas Metálicas" do Quartel de Mong Ha tendo como comandante o capitão Alberto Pereira.

Ao fim dos dois anos de comissão José Rosa regressaria de avião a Portugal em 1971. De Macau ainda levou a recordação de ter participado no Grande Prémio, prova onde os militares serviam por exemplo como 'bandeirinhas' de pista.
PS: Artigo escrito depois do filho de José - Pedro Jorge Rosa - ter-me contactado. Com 78 anos e alguns problemas de saúde, o pai, embora queira - e muito - já não se recorda de muita coisa. Este artigo visa o reavivar da memória e também encontrar antigos militares que tenham estado em Macau na mesma época para troca de impressões com José Rosa. Quem o pretender basta usar os contactos do blogue que reencaminharei a mensagem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On

A Tung On Steamship Company foi uma importante empresa de navegação marítima criada em Hong Kong na década de 1920, tendo a sede em Queen's Road Central e um cais próprio na zona de Sheung Wan. Em 1925 a companhia operava navios a vapor emblemáticos no transporte de passageiros e mercadorias, como o SS Tung On e o SS Sai On, que asseguravam as rotas comerciais regionais entre Hong Kong, Cantão e Macau. A 25 de Julho de 1925 era publicado este anúncio na imprensa macaense dando conta do início da "Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On.
Anúncio de 25.7.1925

A grande rival de capitais britânicos nesta rota era a prestigiada Hongkong, Canton & Macao Steamboat Company, fundada ainda no século XIX, que dominava o transporte regular de passageiros e carga com navios a vapor emblemáticos como o SS Fatshan, o SS Sui An e o SS Kinshan. Ao lado desta, gigantes coloniais britânicos como a China Navigation Company (da Swire) e a Indo-China Steam Navigation Company (da Jardine Matheson) estendiam as suas vastas redes comerciais costeiras e fluviais a estas mesmas águas.
A Tung On Steamship Company operou de forma independente até ao início da Segunda Guerra Mundial, momento em que a sua frota foi destruída ou confiscada devido à invasão japonesa. O fim da atividade da empresa deu-se em Dezembro de 1941, durante a Batalha de Hong Kong. Para evitar que os navios caíssem nas mãos das forças japonesas que avançavam sobre a colónia britânica, o principal navio da companhia, o SS Tung On, foi afundado deliberadamente. O outro navio icónico da frota, o SS Sai On, acabou por sobreviver à guerra, mas o negócio original da Tung On desmoronou-se com o conflito. Capturado durante a ocupação japonesa e rebaptizado como Sean Maru, o Sai On continuou a navegar. Já depois do fim da segunda guerra mundial, após um grave incêndio em 1947 a carcaça foi comprada pela companhia Tai Yip Co. Ltd. e o navio foi inteiramente restaurado e modernizado nos estaleiros de Cheoy Lee regressando à rota Macau-Hong Kong em 1950 com o nome de SS Tak Shing. Em 1968 voltaria a mudar de nome - Tung Shan - e em 1974 foi vendido para sucata.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios é Património Cultural Imaterial

A procissão e a devoção a Nossa Senhora dos Remédios passaram a integrar a lista do Património Cultural Imaterial de Macau segundo o boletim Oficial de 15 de Setembro último.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios é promovida pela paróquia de São Lourenço e a procissão realiza-se anualmente em Outubro.
Entre as manifestações católicas já reconhecidas como Património Cultural Imaterial de Macau contam-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, realizada anualmente a 13 de maio, e do Senhor dos Passos, celebrada no primeiro fim de semana da Quaresma.
Na fotografia uma procissão religiosa tendo à frente D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo de Macau de 1954 a 1960. Atrás, de fato claro e gravata escura, o Almirante Joaquim Marques Esparteiro, Governador de Macau entre 1951 e 1957. Ao lado, de fato escuro e chapéu branco a mulher, Laurinda Marques Esparteiro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fortaleza do Monte / 大 炮 台: 400º aniversário

Na imagem a pedra de armas da Fortaleza do Monte (Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de São Paulo) colocada sobre a porta de entrada.
O frontão triangular tem esculpida a figura de S. Paulo, patrono da fortaleza. A pedra rectangular por baixo inclui um escudo de Portugal, encimado por uma coroa rematada com cruz. O escudo é flanqueado por dois querubins de pé. O anjo do lado esquerdo ostenta a Cruz de Cristo, e o anjo da direita a esfera armilar rematada por uma estrela. Em baixo tem a inscrição ANNO DNI 1626, ou seja, "No Ano do Senhor de 1626", a data da conclusão da fortaleza cujos primórdios vou abordar de forma sucinta.
A estrutura nasceu originalmente como uma casa forte (cofre) construída pelos jesuítas impulsionados pela organização político-institucional do bispo D. Melchior Carneiro para proteger a fortuna do comércio da seda e da prata com o Japão financiado a uma taxa de 1%.
Na segunda década do século XVII (crê-se que a partir de 1617), ergueu-se a estrutura inicial (paredes de 1,10 m, porta dupla), construída por padres e pelos seus escravos. Com a obra ainda inacabada, em Junho de 1622 quando os holandeses tentaram invadir Macau foi daqui que foi disparado o tiro certeiro que levou à derrota holandesa.
Em 1623 o novo governador de Macau tomou a fortaleza aos jesuítas, recorrendo a um destacamento militar vindo de Manila (Espanha), transformando-a oficialmente em bastião e residência do governador.
Quando concluída em 1626 as muralhas ficaram com cerca de 9 metros de altura, sendo a espessura das paredes na base com 3.7 metros e no topo com 2.7 metros.
Ao longo dos tempos a fortaleza teve múltiplas utilizações. Foi quartel militar, presídio, albergou os serviços de meteorologia (década 1960), foi depósito de vestígios arqueológicos... Com o fim da presença militar em 1975 a fortaleza passou a estar aberta ao público e no final da década de 1990, após obras, foi ali instalado o Museu de Macau (1998), situação que ainda se mantém.
Neste ano de 2026 celebra-se o 400.º aniversário de conclusão da construção da Fortaleza do Monte.
PS: para consultar mais publicações sobre a Fortaleza do Monte utilizar o campo de pesquisa.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

domingo, 13 de setembro de 2026

Why not enjoy the most exciting destination in the east?

Na imagem um anúncio da década 1970 - em inglês - do Centro de Informação e Turismo. Numa referência à música de sucesso do final da década de 1940 - On a Slow Boat to China - promove as viagens rápidas de jetfoil a partir de Hong Kong, destacando o contraste com o antigo transporte lento. Na altura o jetfoil fazia a viagem entre Hong Kong e Macau em 50 minutos.
Inclui cupão de resposta para pedidos de informação da agência Furman Associates Inc. e do Macau Tourist Information Bureau.

The slow boat to China doesn't run here anymore.
The fast jetfoil to Macau does. So, when you arrive in Hong Kong by modern jet, why change? Enjoy a different kind of jet travel. To the most exciting destination in the east. Macau. It's a short 50 minute trip from Hong Kong. Jet smooth, jet fast, with all the wonders of the China Sea spread around outside big picture windows. Or choose a Hydrofoil for a different view of our seascape.
At the end of that 50-minute jetfoil run from our "airport", there's Macau. The well-packed-holiday-package. The serenity of quiet beaches. The roar of Grand Prix motors. A water tour between close-packed fishing junks with China so close you can almost touch it.
Shopping for antiques in the quiet back streets. The fastest ball game in the world at the Jai Alai Stadium. Portuguese food and wines. And history. Chinese and Western, written in cobblestones and pink mansions, quiet gardens and old churches that ring bells to celebrate everything from a saint's day to a Chinese festival. And firecrackers play obligato to the peals.
Why not enjoy the most exciting destination in the east?

Formulário:
Macau.
The well-packed-holiday-package.
Book direct for better value. Now.

Furman Associates Inc.
3133 Lake Hollywood Drive,
Los Angeles, California 90068.
U.S.A. Cables: FURDOT Tel: (213) 851-3400

Macau Tourist Information Bureau,
Swire House, 6/F., 8 Spring Street,
Sydney 2000, Australia.
Cables: MAINBURO Tel. (02) 276418

Macau Tourist Information Bureau,
1525 Star House, Kowloon, Hong Kong.
Tel: 3-677747

Please tell me more about the well-packed-package.
Name _____________________
Company __________________
Address ___________________
MACAU
CENTRO DE INFORMAÇAO E TURISMO MACAU TEL NO.: 7218 CABLE: TURISMO TELEX: OM 201.
Anúncio do CIT de Macau na década 1970年代 澳葡政府 旅遊局 廣告

Tradução/Adaptação

O barco lento para a China já não passa por aqui.
O rápido jetfoil para Macau sim. Por isso, quando chegar a Hong Kong num jato moderno, para quê mudar? Desfrute de um tipo diferente de viagem a jato. Para o destino mais emocionante do Oriente. Macau. É uma curta viagem de 50 minutos a partir de Hong Kong. Suave como um jato, rápido como um jato, com todas as maravilhas do Mar da China espalhadas do outro lado das grandes janelas panorâmicas. Ou escolha um Hidrofoil para uma vista diferente da nossa paisagem marítima.
No final dessa viagem de 50 minutos de jetfoil a partir do nosso "aeroporto", está Macau. O pacote de férias completo. A serenidade de praias tranquilas. O rugido dos motores do Grande Prémio. Um passeio de barco entre juncos de pesca alinhados, com a China tão perto que quase a pode tocar.
Compras de antiguidades nas ruas secundárias e tranquilas. O jogo de bola (pelota basca) mais rápido do mundo no Estádio de Jai Alai. Comida e vinhos portugueses. E história. Chinesa e ocidental, escrita em calçada e palacetes cor-de-rosa, jardins tranquilos e igrejas antigas cujos sinos dobram para celebrar desde o dia de um santo até a um festival chinês. E os petardos fazem o acompanhamento aos repiques.
Por que não desfrutar do destino mais emocionante do Oriente?
Coluna da Direita / Formulário:
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Furman Associates Inc.
3133 Lake Hollywood Drive,
Los Angeles, California 90068.
U.S.A. Telex: FURDOT Tel: (213) 851-3400

Gabinete de Informação Turística de Macau,
Swire House, 6/F., 8 Spring Street,
Sydney 2000, Austrália.
Telex: MAINBURO Tel. (02) 276418

Gabinete de Informação Turística de Macau,
1525 Star House, Kowloon, Hong Kong.
Tel: 3-677747

Por favor, enviem-me mais informações sobre o pacote completo de férias.
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CENTRO DE INFORMAÇÃO E TURISMO MACAU TEL N.º: 7218 CABOGRAMA: TURISMO TELEX: OM 201.

sábado, 12 de setembro de 2026

Fotografia das ruínas de S. Paulo ca. 1861/63 por Marshall Milton Miller

Ex-libris por excelência de Macau, as vulgarmente designadas ruínas de S. Paulo, (fachada da igreja Mater Dei erguida em 1602 e destruída num incêndio em 1835), encerram uma história secular de um espaço ímpar que teve múltiplas funções. Actualmente é uma atracção turística e um museu a céu aberto, mas começou por ser um imponente templo católico depois universidade, quartel e cemitério. 


O fotógrafo Marshall Milton Miller (1830-1899) chega a Hong Kong a 19 de Julho de 1860 oriundo de S. Francisco (EUA). Trabalha na Weed & Howard cujos escritórios passa a ocupar a partir de Janeiro de  1861. Adquire o estúdio e espólio desta empresa de fotografia conforme atesta um anúncio publicado na imprensa da então colónia britânica.

No anúncio publicado no "The China Directory for 1862" pode ler-se:

Photography 
Mr. M. Miller, late Operator and Successor to Messrs Weed & Howard, begs to inform residents and visitors of Hongkong, that he has fitted up the room lately occupied by Mr Howard, on the Parade Ground, and is now prepared to take PHOTOGRAPHIC PICTURES of all kinds. Likenesses from Miniature to Life Size, Views of Houses & c., executed at short notice. As his stay at the above place is limited, those wishing his services will please call early. A Collection of Views of various places for sale.
Hongkong, 1st January 1861.

Fotografia
O Sr. M. Miller, antigo operador e sucessor dos Srs. Weed & Howard, tem a honra de informar os residentes e visitantes de Hong Kong de que preparou a sala recentemente ocupada pelo Sr. Howard, no Parade Ground, encontrando-se agora preparado para tirar FOTOGRAFIAS de todos os tipos. Retratos desde miniaturas até ao tamanho natural, vistas de casas, etc., executados com curto prazo de entrega. Como a sua permanência no local supracitado é limitada, solicita-se a quem desejar os seus serviços que se dirija ao local o quanto antes. Encontra-se também à venda uma coleção de vistas de vários locais.
Hong Kong, 1 de Janeiro de 1861.

Na época era um dos três fotógrafos em actividade em Hong Kong sendo a morada "Parade Ground". Em Agosto de 1861 estabelece durante um mês o "Guangzhou Studio", na North Parade Ground, na parte velha da cidade de Cantão
Uma notícia de 21 de Setembro de 1861 do jornal  Friend of China and Hongkong Gazette informa que Miller fora alvo de um roubo de uma caixa de negativos.
Nessas 'deambulações' temporárias pela China continental, Miller visita Macau várias vezes fotografando a Praia Grande, os telhados na zona do Porto Interior, View in Macao - Showing Fort on the Hill, a Gruta de Camões e as ruínas de S. Paulo. Em 1863 Miller regressou aos EUA.
Esta fotografia é raríssima e é muito provavelmente a primeira do actual ex-libris de Macau. Foi feita entre 1861 e 1863 menos de 30 anos depois do fogo que destruiu o colégio jesuíta de S. Paulo e a igreja Mater Dei anexa em Janeiro de 1835. Ainda podem ver-se algumas paredes de pedra que suportavam o tecto feito em madeira. Junto à parede posterior pode ver-se uma estrutura abobadada com uma cúpula. Outro aspecto importante a destacar é o facto da torre campanária que existia do lado direito da fachada principal da igreja já não aparecer na imagem. Muito provavelmente, esta e outras partes das paredes que ficaram danificadas foram utilizadas para a 'construção' nas traseiras da igreja de um cemitério, o cemitério de S. Paulo, para uso da população católica e que só seria desactivado com a construção em 1854, fora dos limites da cidade, do Cemitério de S. Miguel.
Note-se o facto de na altura ainda não existir o templo Na Tcha, que seria construído nas traseiras da antiga igreja Mater Dei em 1888.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Tomb of Lord John Churchill at Macau": 1840

Estes desenhos aquarelados feitos a lápis e caneta com tamanho 14x19cm foram vendidos num leilão em Londres em Julho de 2026 por pouco mais de 5 mil libras. Sem indicação do autor é muito provavelmente uma obra de um autor britânico, militar integrado no contingente que na época combatia as forças chinesas em plena primeira guerra do ópio.
O lote incluía: 
- 4 folhas com esboços de figuras humanas chinesas (estudos) 
- uma ilustração da batalha a 25 de Maio de 1841 mostrando ataques ingleses a Cantão a partir das colinas que circundavam a cidade.
- ilustração panorâmica em duas folhas intitulada "Macau/Fort St Francis, June 16th 41'"
- desenho a lápis aquarelado a cores com a legenda "Lord John Churchill's Monument at the burial ground at Macau, 1840"
- desenho a duas folhas com a legenda "Tomb of Lord John Churchill at Macau"
Lord Henry John Spencer-Churchill, foi um oficial naval britânico de alta patente. Em 1839 assumiu o comando do navio de guerra HMS Druid da Royal Navy (Marinha Real Britânica) e um ano depois seguiu para a região de Macau para se juntar à frota britânica que se concentrava para a Primeira Guerra do Ópio. Acabou por contrair disenteria grave a bordo morrendo em Macau a 2 de Junho de 1840, com 42 anos de idade. Foi sepultado no cemitério protestante, um local histórico hoje classificado como Património Mundial da UNESCO. O seu túmulo ostenta o brasão de armas da família Churchill e um monumento erguido pelos seus oficiais em sinal de estima e afecto.
O cemitério remonta a 1815 quando o proprietário e comerciante português Manuel Pereira arrendou/cedeu parte da sua extensão propriedade (o actual Jardim de Camões e Casa Garden) à Companhia Inglesa das Índias Orientais, mesmo nos limites da então denominada cidade cristã. Aliás, parte dos muros que o delimitavam faziam parte da muralha que rodeava a cidade. Desses tempos ficou na toponímia local nomes como a Escada do Muro e rua do Patane. Esta última em chinês designa-se Rua do Muro de Pedra, e não é por acaso...
O desenho mostra ainda a Fortaleza do Monte com a bandeira da monarquia portuguesa e as traseiras da fachada da Igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo).

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Breve análise a um esboço de Chinnery

Este esboço a lápis grafite sobre papel é uma obra de George Chinnery (1774–1852), desenhada quando viveu em Macau entre 1825 e 1852.
A composição retrata a proa e o mastro de uma embarcação tradicional da região encalhada na areia - um tancar - acompanhada por figuras locais. No canto superior direito encontram-se as anotações do artista, que combinam datas, marcas de selecção pessoal e símbolos do sistema de taquigrafia de Thomas Gurney, método fonético do século XVIII que Chinnery aprendeu com o avô.

Entre os elementos gráficos visíveis, destaca-se a indicação do ano de 1833, acompanhada pelo sinal (+), a marca com que o pintor assinalava nos seus cadernos os desenhos que estavam prontos para serem convertidos em quadros a óleo no atelier. As pequenas linhas verticais, ângulos e pontos agrupados ao lado e abaixo dos números não formam um código secreto, mas sim palavras e frases fonéticas em inglês escritas em estenografia. Estas notas serviam de guia visual rápido para o artista recordar a iluminação, os tons das sombras na madeira, as cores das roupas das figuras e as correções de proporção da composição ao trabalhar mais tarde no quadro final.
Outra das anotações que se pode visualizar é "1:1". Esta anotação gráfica no método de George Chinnery indica uma razão de proporção de 1 para 1, utilizada pelo artista para determinar que a escala da estrutura principal da embarcação deveria manter uma relação exacta de igualdade com a extensão do plano de fundo ou da linha do horizonte.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Batalha de Flôres" em 1918

A fotografia retrata uma carruagem frente ao Palácio do Governo em 1918. 
"Carro do governador da provincia de Macau, capitão tenente sr. Vieira de Matos, com sua esposa a sr. D. Raquel Swart Vieira de Matos, promotora da festa e sua filha."

A decoração exuberante da carruagem remete directamente para uma manifestação cultural muito popular na viragem do século - a chamada Belle Époque - de origem europeia. A tradição de ornamentar carruagens com arranjos florais teve origem no Carnaval de Nice, em França, espalhando-se rapidamente um pouco por todo o mundo. Nestas celebrações - muitas vezes associadas a efemérides locais/nacionais - a alta sociedade desfilava em carruagens exibindo trajes formais - como os chapéus de aba larga visíveis nas senhoras e os fatos claros dos cavaleiros - enquanto os participantes arremessavam pétalas e botões de flores entre si.
O evento foi notícia na edição nº 642 (10.6.1918) da Illustração Portugueza que dedicou duas páginas profusamente ilustradas à "Batalha de flôres em Macau"...

"Tambem os nossos compatriotas residentes em Macau quizeram testemunhar o seu acendrado patriotismo e patentear o preito que dedicam aos soldados portuguezes que, em luta com os inimigos da cívilisação, honram as gloriosas tradições herdadas.
Por iniciativa da sr.ª D. Raquel de Matos, esposa do distinto capitão tenente sr. Vieira de Matos, governador interino d'aquela florescente colonia, realisaram-se ali varias festas a favor dos nossos mobilisados e da indigencia local, entre elas uma batalha de flores, em que tomaram parte 60 carros, ornamentados com fino gosto, e a que acorreu quanto ha de mais distinto na nossa provincia ultramarina do Extremo-Oriente.
O produto d'estas festas, que, levadas a efeito com manifesto entusiasmo, decorreram com grande brilhantismo, atingiu uma soma consideravel, para o que contribuiu devéras o muito prestigio de que gosa o sr. Vieira de Matos, cujas excelentes qualidades de caracter e esclarecida inteligencia, são justamente apreciadas por todos que anceiam o desenvolvimento d'aquela nossa possessão, no que ele se acha devéras empenhado.
Sua esposa, que com grande devotamento se desobrigou da espinhosa missão, a que se propoz, de minorar a sorte dos nossos soldados e dos que o infortunio avassala, tem recebido inumeros testemunhos de homenagem e de gratidão. E, nunca foram melhor e mais justificadamente merecidos."
Algumas das legendas das fotografias:
Um aspéto da Avenida Vasco da Gama*, onde se realisou a batalha de flôres, vendo-se no primeiro plano a nau S. «Gabriel».
Na Avenida Vasco da Gama onde se realisou a festa, alguns dos carros que n'ela tomaram parte. No primeiro plano o submarino «23», de Mr. Gellion, tripulado por senhoras de sua familia, vestidas de oficiaes de marinha, vendo-se entre elas Mrs. Gellion, trajando um vestido que simbolisava a Inglaterra.
Carro do sr. dr. Americo de Sousa, juiz de direito, e sua familia.
Carro de Madame Ricou.

* inaugurada em 1898 - tendo na altura decorrido também uma "Batalha de Flores" - corresponde a parte do que é hoje a Av. Sidónio Pais.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Pavilhão de Auto-china ca. 1910 / 澳门的一个粤剧剧场,约1910年

A imagem mostra um teatro de ópera cantonense (粤剧) ca. de 1910 em Macau. A estrutura, normalmente de carácter temporário, era feita de bambú e o telhado coberto com palha ou colmo, típico de pavilhões de espetáculos tradicionais da época. 
Entre a comunidade portuguesa/macaense este tipo de espectáculos denominava-se "Auto-China".
A palavra "auto" deriva muito provavelmente do teatro clássico português (como os famosos autos de Gil Vicente). Os portugueses em Macau usavam-na porque, tal como os autos europeus, a ópera chinesa misturava numa só peça elementos dramáticos, líricos, cómicos, sagrados e profanos. Na verdade fundia literatura, artes marciais, dança, acrobacia e malabarismo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Embora já existisse desde pelo menos 1845 o cargo de Inspector das Obras Públicas (exercido por um militar), a fundação do serviço de Obras Públicas no governo de Macau remonta ao mandato do Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) que face à necessidade urgente de reformar os serviços da administração pública nomeou várias comissões para propor alterações.
Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Assim, a 18 de Setembro de 1867, uma comissão nomeada por portaria do dia 14 desse mês - composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C. C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C. - elaborou um relatório - publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 - onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas.

domingo, 6 de setembro de 2026

Lai Kei Sorvetes (禮記雪糕): desde 1933

Fundada em 1933 por Kong Lai-king, a Lai Kei Sorvetes ainda existe tendo uma loja no nº 12 da Av. Conselheiro Ferreira de Almeida que mantém a decoração do espaço há décadas.
Os produtos caseiros - refrescos, sorvetes e doces - começaram por ser vendidos apenas nas ruas de Macau. O jovem Kong Lai-king (esquerda), fundador da Lai Kei Ice, era também o autor dos anúncios da sorveteria.

As famosas sanduíches de gelado (conhecidas pela embalagem de papel com a ilustração vintage da imagem), o gelado de coco e o gelado de feijão vermelho são alguns dos produtos imagens de marca da Lai Kei.
Transcrição e tradução (lido da dta. para a esq./de cima para baixo) da embalagem acima:
禮記 (Lai Kei) / Lai Kei (em caligrafia)
雪糕專家 (Especialistas em Gelados)
雪糕雪條 週年冇賣 (Gelados e picolés: Promoção de Aniversário)
家 (Fabricação própria)
美味可口 (Saboroso e delicioso)
熟水製造 (Feito com água fervida)

sábado, 5 de setembro de 2026

"Há para venda neste estabelecimento"

Este anúncio de 1875 do Royal Hotel foi publicado num jornal macaense. O hotel remonta à década de 1860 e estava localizado na Praia Grande, já muito perto do que é hoje o início da rua do Campo. Reflecte parte do comércio de produtos importados de Portugal no último quartel do século 19.
No mesmo espaço vendiam-se bens alimentares (chouriço de Castelo de Vide, paio de lombo, feijão de bico, vinho da Madeira, de Carcavelos...) e material para uniformes militares (botões de infantaria, galões de ouro para divisas de alferes e capitão). Recorde-se que Macau acolhia um contingente militar português.
Os preços eram praticados nas chamadas patacas de prata mexicana (embora não seja referido no anúncio) ou dólares de prata em circulação nas cidades portuárias vizinhas, nomeadamente em Hong Kong. 
As medições misturam o sistema imperial britânico e tradicional (libras para peso, jardas para tecidos/galões), reflectindo a proximidade e influência de Hong Kong e do comércio marítimo global.
O hotel enviava encomendas para Hong Kong e Cantão oferecendo um desconto de 5% para compras em quantidade, o que demonstra uma rede mercantil activa no delta do Rio das Pérolas.

ROYAL HOTEL.
HA para venda neste estabelecimento, chegado de Lisboa, o seguinte: —
Produto / Artigo PreçoChouriços de Castello de Vide, 3 libras por $1.
Aguardente d'erva doce, 12 garrafas 4.50
Paios de lombo, em latas de 18 libras 8.
Ditos, em latas de 10 libras 4.
Feijão de bico, 15 libras por 1.
Vinho fino da Ilha de Madeira, duzia 9.
Carcavellos branco, barril de 5.º 23.
Galão d'ouro para divisas de alferes, jarda 2.
Ditos para divisas de capitão, jarda 3.50
Botões grandes de metal para infanteria e marinha, duzia 1.
Ditos pequenos 0.70
Emblema para officiaes do batalhão 1.50
Chapeos de palha d'Italia 2.00

Garante-se a boa qualidade destes objectos, enviam-se para Cantão ou Hongkong, a quem os desejar, abate-se 5 por cento a quem comprar mais de uma jarda de galão, ou uma duzia de botões.

Fachada do Royal Hotel na Praia Grande

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Restaurante/Marisqueira Mou Kei 毛記海鮮飯店

Localizado no nº11 da Travessa do Mastro* (perto da Rua da Felicidade e da Avenida de Almeida Ribeiro) 澳門新馬路爐石塘巷11號地舖 o restaurante Mou Kei fechou ao fim de cerca de 60 anos de actividade. 
Imbatível na relação preço-qualidade, ali o tempo parecia ter parado. E nas fotos mais recentes concluo que pouco mudou dos tempos em que fui clientes nas décadas de 1980 e 1990. A decoração pouco se alterou talvez porque o foco deste restaurante de cariz familiar sempre foi proporcionar pratos da gastronomia cantonense com qualidade e acessíveis. Nomeadamente o peixe e o marisco frescos.
O Mou Kei com os típicos aquários na montra

Sopa de peixe com tofu Fish Soup with Tofu (鱼头豆腐汤), o peixe a vapor Yellowfin Sea Bream (黄脚立), a sopa de barbatana de tubarão, o caranguejo ou uns simples mas gostosos camarões cozidos eram alguns dos pratos mais conhecidos deste restaurante familiar. 

* A Travessa do Mastro (Lou Sék Tóng Hóng) remete para um topónimo já desaparecido, a Rua do Mastro, rebaptizada Rua de Camilo Pessanha em 1926 quando o poeta português morreu.

PS: A fotografia é do amigo Paulo Coteriano que me informou do encerramento. Entre os cartazes na porta pode ler-se: 
招財進寶: Frase tradicional de boas-vindas/prosperidade: "Que a riqueza entre"
歡迎光臨: "Bem-vindo"
今天特價: "Promoção de Hoje" / "Especial do Dia"
雲吞雞煲翅: Cartaz do prato especial: "Sopa de barbatana de tubarão com frango e wonton"