segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

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