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sábado, 17 de outubro de 2026

O "frontão triangular" da SCM

A Santa Casa da Misericórdia (SCM) é uma instituição de caridade fundada em Lisboa em 1498 pela Rainha D. Leonor. Em Macau a SCM foi estabelecida em 1569 por D. Belchior Carneiro (1516-1583), primeiro Bispo de Macau. Foi uma das primeiras organizações de caridade ocidentais na China e pioneira no serviço de assistência social em Macau, tendo fundado o primeiro hospital de estilo ocidental da China (S. Rafael), a primeira instituição para tratamento de lepra, além de uma casa para crianças abandonadas, um lar de idosos e um orfanato.
O edifício-sede da Santa Casa da Misericórdia fica no Largo do Senado onde há muitos séculos foi erigida a Igreja da Misericórdia (pode ver-se em desenhos de G. Chinnery feitos entre 1825 e 1852). O actual edifício sofreu várias renovações ao longo dos tempos. A mais significativa resulta da reconstrução ocorrida em 1905. O edifício tem dois andares e apresenta um estilo arquitectónico neoclássico. A fachada principal é caracterizada por dois níveis de arcadas, com sete arcos separados por pilastras de desenho ecléctico. O corpo central da fachada, ligeiramente avançado, é encimado por um frontão triangular que ostenta o brasão da Santa Casa da Misericórdia de Macau. Recentemente a decoração deste frontão alterou o original e, salvo melhor opinião, inclui um erro.
Esta foto da autoria de Gloria Ma foi tirada já na década de 2020. Pode ver-se do lado esquerdo o que deveria ser a abreviatura MIZA embora surja MAAZ. Tem ainda a cruz latina que representa Cristo Redentor e o calvário, indicativo do carácter religioso e cristão das Santas Casas, servindo como o símbolo do sustento, amparo e conforto prometido aos doentes, pobres e desprotegidos. Por baixo está uma caveira com duas tíbias passadas em aspa, símbolo da morte, para a qual a Misericórdia proporciona conforto espiritual.
Do lado direito as Armas de Portugal: cinco escudetes azuis e a bordadura vermelha com os castelos de ouro), sublinhando a sua fundação de raiz e matriz portuguesas.
Em baixo a versão 'primitiva' do frontão que não só era diferente como não era colorida (não obstante a foto ser a preto e branco). No vértice mais elevado ainda pode ver-se o busto de Melchior Carneiro que entretanto foi retirado e colocado no Museu da SCM.

Caracteres na fachada (lidos da direita para a esquerda): 
仁 慈 堂 o nome oficial em chinês da SCM de Macau:
仁 (Rén): Benevolência, compaixão.
慈 (Cí): Misericórdia, caridade.
堂 (Táng): Salão, casa.
Década 1930/40

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Boa Vista: "hotel de primeira classe" há 100 anos

Anúncio de 1926

Hotel Boa Vista
Hotel de primeira classe para turistas e residentes nesta cidade em geral. Excelente local com vista para o mar gozando sempre duma brisa agradável. Quartos muito arejados mobilados artisticamente, cosinha excelente, e todos os confortos modernos.
PREÇOS
Para uma pessoa - Cama e mesa desde $150.00 - Cama e criados desde $90.00
Para duas pessoas - Cama e mesa $250.00 - Cama e criados $130.00
Reduções especiais para famílias
Fornece-se comida pelos seguintes preços:
Almoço, tiffin e jantar — $90.00 por pessoa
Almoço e jantar — $75.00 por pessoa
Para recepções; jantares e chás, preços convencionais.
Na imagem acima - postal ilustrado - pode ver-se um candeeiro de iluminação pública na Av. da República. A qualidade da imagem não permite afirmar com total rigor o que está escrito. Mas tudo indica tratar-se da indicação de que o poste (terá o número) pertence à rede de iluminação pública concessionada pelo Leal Senado à The Macao Electric Company Limited (Melco).
A designação Boa Vista durou desde a inauguração em 1890 até 1936 quando o hotel passou a chamar-se Bela Vista. Esta fotografia é dessa época. Na entrada do hotel os caracteres chineses 峰景酒店 significam literalmente "Hotel da Paisagem do Pico", ou seja, "Hotel Bela Vista".

O hotel ficava no número 10 da Rua do Tanque do Mainato. A partir da década de 1950 passou a denominar-se Rua do Comendador Kou Hó Neng. 
Atualmente, o edifício está classificado como património de interesse arquitectónico e serve de residência oficial do Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong desde 1999.

domingo, 4 de outubro de 2026

Edifício antigo no nº 8 da Estrada Coelho do Amaral

Este antigo edifício fica no nº 8 da Estrada Coelho do Amaral, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros/agora Museu - e é uma relíquia da história da arquitectura da cidade.
Do pouco que consegui apurar começou por ser uma mansão, residência de um abastado cidadão chinês. Ao longo dos anos foi alvo de alguns 'acrescentos', nomeadamente no terraço original. Serviu ainda como armazém e loja. Os caracteres chineses a vermelho ainda se podem ver à entrada.

O edifício apresenta uma fachada que funde elementos ornamentais clássicos (ocidentais) com a tipologia de edifícios de uso misto populares na região. A varanda central do primeiro andar possui uma balaustrada de betão moldado com formas bulbosas ou urnas, um elemento decorativo ocidental comum. As varandas laterais têm balaustradas mais simples.
Ilustração criada por IA a partir de foto

O recuo em relação à rua, protegido por um muro e portão, sugere um uso original  como residência. O elemento mais impressionante é a galeria ou loggia no primeiro andar, definida por três grandes aberturas em arco de volta perfeita. Estas arcadas assentam em colunas cilíndricas maciças que atravessam o rés-do-chão e o primeiro andar, terminando em capitéis coríntios estilizados. O parapeito do telhado apresenta uma balaustrada de betão com aberturas retangulares mais simples.
Fachada lateral na Travessa dos Bombeiros
Ilustração criada por IA a partir de fotografia

Este edifício é um exemplar valioso da paisagem urbana. A sua arquitetura eclética combina uma estrutura clássica monumental com elementos funcionais locais, resultando num edifício único que sobreviveu à passagem do tempo. A sua preservação é crucial para a manutenção da identidade histórica de Macau.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Fachadas e janelas num troço da Rua de S. Domingos

Conhecida em chinês como Pan Cheong Tong Kai (Rua do Templo das Tábuas), devido à proximidade da igreja de São Domingos (cuja primeira edificação foi em madeira), a Rua de S. Domingos - começa no Largo de S. Domingos e termina na Rua de Pedro Nolasco da Silva - é ainda hoje uma das mais movimentadas da cidade. Esta característica tem origem no facto de ser um dos principais acessos do que m tempos idos se designava por zona do bazar, espaço ocupado maioritariamente pelo comércio chinês. Estas lojas ficam no piso térreo com as habitações nos pisos superiores. A azáfama do tráfego e a configuração arquitectónica por vezes dificulta a observação mais atenta de alguns dos edifícios históricos ao longo da rua. Aqui ficam alguns detalhes em versão fotografia e desenho gerado por IA a partir das fotos.



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Rua do Roquette" e "Travessa da Misericórdia": desde 1888

"As ruas abertas no local onde esteve o antigo edificio e egreja da Misericordia, receberam os seguintes nomes: Rua do Roquette a que começa no largo do senado e vai desembocar na rua da Sé; e Travessa da Misericordia a que fica parallela á primeira."
in O Independente 14.02.1888
Estes edifícios foram demolidos para a construção
do edifício dos CTT no início da década 1930
É curioso notar que, a estar correcta a notícia, começou por ser uma rua e mais tarde adoptou a designação Travessa do Roquete que ainda hoje mantém na fachada lateral do edifício da SCM. Com cerca de 80 metros de extensão é uma homenagem ao comerciante Francisco Xavier Roquete que fez fortuna na região entre meados do século 18 e o início do século 19 e que doou a sua herança (62 mil patacas) à Santa Casa de Misericórdia de Macau antes de morrer em 1817 em Calcutá sendo considerado o maior benfeitor de sempre da instituição. 
O seu retrato (de corpo inteiro), bem como o de Marta da Silva Merop, podem ser vistos no museu da SCM (Travessa da Misericórdia). Foram feitos "sob contorno e direcção" de José Tomás de Aquino ca. 1833 e executados pelo retratista chinês Vo Qua (ou Yo Qua).
Na fachada estão três elementos que merecem atenção.

Placa Toponímica (Azulejos):
羅 結 地 巷 - TRAVESSA DO ROQUETE

Lápide Antiga em granito:
ESTA CAZA DO RECOLHIMENTO
DAS ORFANS FOI FVNDADA EM
6 DE JANEIRO DE 1637 SENDO
PROVEDOR MIGVEL DE MACEDO

Placa Comemorativa (abaixo)
Texto Principal (Português):
ESTA LÁPIDE FOI ENCONTRADA E RECUPERADA
PELO LEAL SENADO A 20 DE MARÇO DE 1996 NAS
OBRAS DE REPAVIMENTAÇÃO, DEFRONTE DO
Nº 1 DA TRAVESSA DO ROQUETE, LOCAL DA
"CASA DE RECOLHA DE ORFÃOS", SUPOSTA
DEPENDÊNCIA DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, INSTITUIÇÃO PÚBLICA, FUNDADA
EM 1569 PELO BISPO BELCHIOR CARNEIRO.

Texto em Chinês:
此石碑於一九九六年三月二十日,市政廳於羅結地巷一號前
進行鋪設地面工程時被發現。此處曾為"孤兒院"之原址
屬一五六九年由賈尼路主教 (Bispo Belchior Carneiro) 創
辦之澳門仁慈堂附屬機構之古蹟。

Texto de Inauguração (Português):
A CERIMÓNIA DE RECOLOCAÇÃO FEITA A
6 DE JANEIRO DE 1997, FOI PRESIDIDA PELO
EXMO. O PRESIDENTE DO LEAL SENADO DE
MACAU, DR. JOSÉ SALES MARQUES E PELO
PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
DE MACAU, ARQ. CARLOS MARREIROS.

Texto de Inauguração (Chinês):
此石碑重新安放儀式於一九九七年一月六日舉行,
由市政廳主席麥健智先生及仁慈堂堂長馬若龍建築師主持。

Largo do Senado visto da Travessa do Roquete no séc. 21
Ilustração gerada por Ia a partir de fotografia
Travessa da Misericórdia no séc. 21

A Travessa do Roquete (em cima) e a Travessa da Misericórdia (em baixo) contornam o edifício da SCM. Ilustrações criadas por IA a partir de fotografias do século 21.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"A moderna e airosa ermida de Nossa Senhora da Penha"

Situada no topo da Colina da Penha, a primitiva Ermida de Nossa Senhora da Penha de França foi edificada em 1622. Ao longo dos tempos foi alvo de várias remodelações. A ilustração feita por IA a partir de fotografia mostra o aspecto que tinha na primeira metade do século 20.
Nomes em chinês pela qual se designa 主教山聖堂 / 主教山教堂

Fresca e airosa, ergue-se, no alto da Penha, a Ermida de Nossa Senhora. É um dos pontos que nos saltam à vista, enquanto nos deslocamos, em passeio ameno, pelas Avenidas que correm ao longo da parte sul da colina. De linhas modernas arquitectónicas, erguendo-se altaneiro o minarete da torre, marca bem a sua presença no cenário desta parte da península.
Domina a enseada da Praia Grande, toda a parte central da cidade, e a marginal do Porto Interior, até se perder de vista, avançando a prospectiva pelo território chinês, num deslumbrante espectáculo, esfumando-se à distância nos cimos das montanhas.
Ponto de interesse paisagístico, de crenças religiosas e de tradições históricas, cremos ser um dos mais apreciados dos que nos visitam e é, com certeza, um dos sítios que vive no coração de todos os portugueses que aqui residem.
Ao lado da Ermida, está a residência episcopal do Bispo da Diocese e, logo na encosta, virada para a cidade, a imagem da Senhora de Lurdes, na sua pitoresca gruta.
Lugar de peregrinações anuais, sobretudo no dia 13 de Maio, também o tem sido em horas de aflição da população citadina. Muito teriam que nos narrar as calçadas que conduzem ao cimo dessa colina se nos quisessem confiar as suas memórias.
E volvendo os olhares sobre o passado vamos descortinar uma ligeira notícia sobre essa colina que não foi descuidada na defesa desta parcela nacional. 
Embora quase à vista estivessem a Fortaleza do Bom Parto e a de S. Tiago da Barra, aproveitou-se a posição do alto da colina que melhor dominaria as proximidades. Com referência ao ponto de vista de fortificação, diz-nos o padre jesuíta José Montanha, na sua obra manuscrita do século XVII «Aparatos para a História do Bispado de Macau», depois de nos descrever o Baluarte do Bom Parto, o seguinte:  «... e deste Baluarte corre o pano de muro para Oeste, e para alto e meio da Ilha está a Hermida de N. Sra. de Penha e desta Hermida descobre o mar da parte de Oeste, e tem uma peça de bronze de seis libras invocada de N. Sra. de Penha, e correndo a ilha da parte de sudeste a largo de tiro de peça está a Fortaleza da Barra».
Numa carta geográfica de Macau, da «Ásia Portuguesa» de Manuel de Faria e Sousa, a Ermida da Penha é-nos apresentada com ligação com a fortaleza do Bom Parto e ainda hoje há vestígios de fortes muralhas, que devem ser os restos das então existentes, com orientação para esse lado.
Noutra carta de Macau, do século XVII, (depois de 1638), extraída duma antiga gravura holandesa, é-nos indicada a posição da Ermida e Fortaleza da Penha, no cimo da colina.
Na descrição de Macau feita pelo italiano Marco de Avalo, incluída na relação da viagem do holandês Rechteren às Índias Orientais (1628-1632), lê-se:
«Edificaram aí uma cidade que é rodeada duma forte muralha e de bons baluartes. Há na ilha três montanhas que constituem como que um triângulo e um forte sobre cada uma delas. Chama-se o mais considerável forte de S. Paulo... Chama-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de la Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome. Está guarnecido com 6 pequenas peças, de 6 a 8 libras de bala».
Na gravura holandesa a que nos referimos anteriormente, «está a muralha que rodeia a ermida coroada de ameias e canhoneiras», na fortificação do alto da Penha. 
Disto podemos inferir que aquela pequena elevação foi de grande valor para a fortificação e defesa da cidade. Mas à medida que se foram apagando as fumaças dos canhões, foi-se erguendo mais a capelinha e a Fé dos portugueses, até prevalecerem sobre os escombros das ruínas dessas heróicas construções.
Ambas erguidas em horas de glorioso patriotismo, aliaram-se em espiritualidade para perpetuar a alma portuguesa, sem desmerecer de quanto foram e serão os corações dos nossos antepassados.
in Macau Boletim Informativo (R.C.S.E.) 15 Set. 1955 
(excepto ilustração por IA e foto a cores)
O aspecto actual resulta das obras de remodelação concluídas em 1935.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma mansão na Rua do Hospital

A Igreja Batista de Macau ( 澳門浸信教會), também conhecida como Primeira Igreja Batista de Macau, é a igreja batista chinesa mais antiga de Macau e está localizada na Rua de Pedro Nolasco da Silva, nº 41.
Legenda: "John and Lillian Galloway Mission House Macao (1935)"

As origens remontam a Dezembro de 1903 quando o reverendo Charlton Todd e a mulher foram enviados a Macau pela Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos para realizarem trabalho missionário. Em 1904 há registo de terem baptizado cinco pessoas e, em 1905, o número de membros tinha crescido para vinte e cinco. A igreja foi formalmente estabelecida nesse ano como "Igreja Fé e Bênção", a antecessora da atual Igreja Batista de Macau. Inicialmente, alugaram uma casa de três andares na Rua do Campo para reuniões e trabalho missionário.
Em 1908, o Rev. Charlton Todd morreu vítima de doença enquanto regressava aos Estados Unidos para um relatório missionário. No mesmo ano, a igreja americana enviou o Reverendo John Galloway para assumir o cargo que, juntamente com Lilian Lamont Reeves Todd Galloway, a viúva do Rev. Charlton Todd, desenvolveu o trabalho missionário em Macau. Mais de uma década depois os dois viriam a casar.
A Igreja Batista de Macau estabeleceu sucessivamente a "Escola Primária Pui Chi", a "Escola Secundária Pui Ching" (1908-24) e a "Escola de Orientação Espiritual para Meninas" (1913-31). Também adquiriram embarcações para ajudar os filhos dos pescadores a aprender a ler e para transportar alimentos e mantimentos para hospitais de leprosos.
Em 1927, utilizando uma doação da mãe do Reverendo Charlton Todd, a igreja adquiriu o terreno da actual 'sede' da igreja e que na época chamava-se "Todd Memorial Hall" (Salão Memorial Todd). Assim nasce a mansão no então nº 9 da Rua do Hospital (referência ao Hospital S. Rafael), o actual nº 41 da Rua Pedro Nolasco da Silva onde fica a Igreja Baptista de Macau.
A fotografia faz parte do livro "Like A Tree Planted By Streams of Water" da autoria de R. Lawrence Ballew, publicado em 2020.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma antiga inscrição no "Hospital da Santa Caza da Mizericordia"

ESTE HOSPITAL DA SANTA
CAZA DA MIZERICORDIA
MANDOU FAZER LUIS COE
LHO SENDO PROVEDOR
NO ANNO DE 1747.
Em português corrente, "Este hospital da Santa Casa da Misericórdia mandou fazer Luís Coelho sendo provedor no ano de 1747."
Numa leitura individual e sem contexto a inscrição em pedra induz em erro. Na verdade refere-se a uma reconstrução do referido hospital. Uma das várias reconstruções de que foi alvo o hospital fundado no século 16 (1569) por D. Belchior Carneiro como Hospital da Misericórdia, sendo o primeiro hospital de medicina ocidental da Ásia
Principais reconstruções ao longo dos tempos:
1640; 1747; 1887; 1912-1913; 1938-39; década 1980/90. 
O antigo hospital alberga desde 1999 o Consulado de Portugal.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Antigo Tribunal volta a ser Tribunal

Numa altura em que foi anunciado que no final deste mês o Tribunal de Última Instância  da RAEM passará a funcionar na Avenida da Praia Grande, n.º 459, recordo alguns pormenores sobre o edifício que remonta a 1951 e onde nessa época funcionou um tribunal.
Após o final das obras em 1951

O edifício foi projectado pelo arquitecto António Lei em 1949 sendo uma obra de referência do estilo modernista clássico em Macau. As características arquitectónicas principais incluem: uma fachada simétrica de grandes dimensões e quatro colunas jónicas.
Constituído por três pisos começou por albergar as repartições de finanças, registos e administração civil. Foi ainda Tribunal Judicial da Comarca. No pós 1999 e após muitos anos de abandono sofreu obras e no piso térreo realizaram-se várias exposições.

Ca. 1955 já com a Estátua de Jorge Álvares em frente
Sensivelmente a mesma perspectiva mas no séc. 21

Excertos do jornal Notícias de Macau a 21.6.1952:
"(...) Visita ao Palácio das Repartições
Pelas 10.15 horas, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província, visitou o Palácio das Repartições Públicas, em cujo rés-do-chão se encontram instalados os Serviços de Fazenda e Contabilidade, no primeiro andar os Serviços de Justiça e, no segundo, os Serviços de Administração Civil, a Administração do Concelho e o Tribunal Administrativo.
Os Srs. Comandante Sarmento Rodrigues e Marques Esparteiro foram recebidos, à entrada do imponente edifício, por várias altas individualidades, civis, militares e eclesiásticas e Chefe dos Serviços ali estabelecidos, cujas dependências Suas Exas. visitaram com interesse, tendo para com todos os funcionários, indistintamente, palavras amáveis.
O ilustre Titular da Pasta do Ultramar a todos impressionou com a captivante simpatia da sua pessoa e trato lhano.
A inauguração do Tribunal Judicial da Comarca
Finda a visita ao Palácio das Repartições, o Sr. Ministro do Ultramar, acompanhado do Sr. Governador da Província e outras altas individualidades, dirigiu-se ao primeiro andar, afim de inaugurar as novas instalações do Tribunal Judicial da Comarca, onde já se encontravam outras entidades, distintas senhoras, e numeroso público. (...)"
Fachada do edifício após 1999 tendo sido retirados a inscrição em numeração romana de 1951 e o escudo de Portugal.

domingo, 12 de julho de 2026

Mercado Vermelho/紅街市

Desenhado em 1934 pelo arquitecto macaense Júlio Alberto Basto, o que viria a ficar conhecido como Mercado Vermelho, foi construído para dar resposta ao crescente aumento populacional nomeadamente para zonas longe do centro da cidade. O local escolhido era então bastante amplo e com poucos edifícios.
Trata-se de um edifício típico do estilo art deco. Tem três pisos, desenho simétrico, uma torre do relógio ao centro e uma torre de vigia em cada esquina. Entrou em funcionamento em Julho de 1936.
Desenho/Planta de 1934

De acordo com a arquitecta Ana Tostões o edifício "
representa a primeira construção claramente devedora das correntes do movimento moderno internacional" e "desenvolve‐se em três pisos, definindo o quarteirão a partir das quatro torres situadas em cada esquina. Desenhado segundo dois claros eixos de simetria, com a torre do relógio no centro, enquadrando a entrada principal, e as restantes em cada esquina. A entrada principal é marcada por uma ampla abertura, que se conjuga com o corpo da torre do relógio, mais alta e recuada em relação ao plano da fachada. A estrutura em betão, formada pelo sistema de pilar‐viga, é assumida como gramática formal marcando o ritmo, desenhando-se as aberturas das janelas nos espaços intersticiais da estrutura portante."
Apesar de ser conhecido desde cedo como "Mercado Vermelho" 紅街市 (Hung Kai Si em cantonense) devido à cor dos tijolos, o nome formal foi Mercado Municipal da Avenida Horta e Costa. Fica localizado na esquina desta avenida com a  Avenida Almirante Lacerda.
Oficialmente receberia a designação: Mercado Municipal Almirante Lacerda (提督街市), uma homenagem a Hugo de Lacerda Castelo Branco (Almirante Lacerda), figura proeminente em Macau, responsável por importantes obras portuárias e aterros na zona no início do século XX.
O Mercado Vermelho está inscrito na Lista do Património de Macau sendo classificado como "edifício de valor arquitectónico".
O mercado abriu ao público em Julho de 1936
Na altura da construção o mercado é referido como estando localizado na Av. Horta e Costa.
Jornal A Voz de Macau em Julho de 1936

Na edição de 7.7.1936 o jornal A Voz de Macau refere que o edifício seria inaugurado em breve:
"O edificio, com dois pavimentos, afóra o terraço, construção em cimento armado, é amplo, majestoso, podendo dizêr-se que é o melhor existente em tôdo o Extremo Oriente. Os seus compartimentos, muito claros, são espaçosos e higienicos, havendo um espaço destinado a frigorifico e junto á escada que conduz ao pavimento superior um outro espaço reservado a elevadôr."