sábado, 31 de julho de 2021

Lojas com história....

Nos primeiros 20 anos do século 21 já desapareceram espaços comerciais como a Relojoaria Meng Kei, (na imagem acima década 1980) a barbearia Kac Lan (Av. Almeida Ribeiro) e a Tabacaria Lai, só para mencionar alguns exemplos. É inevitável. São as regras do tempo. Dá-e o caso de estes - e outros - exemplos se localizaram no chamado centro histórico onde é imperativo que sejam criadas condições para que espaços com história sobrevivam e não sejam 'engolidos' por marcas de néons gigantes que até tapam as fachadas dos edifícios onde estão implantadas.
Alguns exemplos de lojas que ficaram na história: Mercearias Fan Lei, Ming Kei, San Kuong e Tong San... Livraria Po Man Lau, Lap san... Louçaria Fun On, etc...
Na imagem acima a icónica Kuong Seng On.

Para a história estes espaços comerciais ficaram registados em edições como esta do "Anuário Comercial e Industrial de Macau" de 1963.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

"Macao looks well from the sea"

(...) We were on our way to Macao. Although approached through four miles of shallow and turbid water Macao looks well from the sea. A semicirale of large white houses glitters in the sunshine. Right and left , two hills crowned with forts and covered with foliage protect either horn of the crescent while from the dense city behind domes and cathedral towers rise. But it is the appearance of a past greatness. If we except the houses of the Praia, 'Fuit' is written upon every wall. This dwindling dying city has recently however shown some signs of life.
There are sixty vessels in the harbour the rice for famishing Canton comes this way. Some of the Cantonese merchants have established themselves here and every one of our commercial magnates of Hongkong has a bungalow within the protection of the Portuguese guard.
Round a point about four miles away lies the Raleigh sunk now to her upper deck. The Nankin has in getting the masts out of her In her yellow paint her dismasted state she looks like one of the hulls at have offered her for sale but the sum bid her 5,200 dollars was not worth the risk of keeping ship of war upon an unsafe station at the typhoon season and this precaution would be necessary to protect the purchaser.
The present idea is to blow her up. Macao is open to the sea breeze which Victoria is not. Macao possesses the grave of Camoens which may be important fact to some people. But I agree with American poet who has pencilled upon the tomb:
'I can t admire great Camoens with ease Because I can t speak Portuguese'
Macao also has shady gardens and pleasant walks and rides and is the only place where the poor Hongkongian can go to change his atmosphere There is a mandarin in the neighbourhood of this place who ought to be made to feel that England has a long arm. He has organized a system of coercion upon the Chinese of Hongkong. (...)
in "China, Being 'The Times' special correspondence from China in 1857-58", George Wingrove Cooke, Londres, 1858.
Nota: A pintura - óleo sobre tela - representa a baía da Praia Grande; de autor anónimo pertence à chama "escola chinesa". Mais imagens de Macau nessa época podem ser vistas aqui num artigo de imprensa.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Probe Macao Mistery

No final de Abril de 1957 o misterioso desaparecimento de uma família norte-americana pouco depois de dar entrada no hotel Riviera foi notícia um pouco por todo o mundo. No Diário de Lisboa, saiu na primeira página da edição de 2 de Maio desse ano.

Probe Macao Mystery 
American Family of 3 Vanishes. 
Hong Kong, (UP)— An American businessman vanished April 27 with his Korean wifw and baby in the Portuguese colony of Macao, police disclosed today. (...) They checked into the Riviera Hotel and told the clerk they intended to stay for two days. (...)



quarta-feira, 28 de julho de 2021

Baluartes de S. Jerónimo e S. João

Menos conhecidos das edificações de defesa militar de Macau (que circundava toda a zona centro e sul da península), devido à sua reduzida dimensão, os fortes (tb designados por fortins e baluartes) de S. João (ficava junto à porta de S. Lázaro, nas muralhas que circundavam a chamada cidade cristã) e S. Jerónimo remontam ao século 17 e deixaram de ter fins militares em meados do século 19, sendo grande parte das "antiga muralhas da cidade" demolidas aquando do governo de Ferreira do Amaral.
Ao contrário das demais, estas edificações visavam a parte da terra e não a defesa marítima, estando ligados entre si (e ainda à Fortaleza do Monte, o ponto central do sistema defensivo) por uma muralha que chegava a ter três metros de largura e 10m de altura.
Detalhe de um mapa de 1889
O que resta da muralha junto ao antigo fortim de S. Jerónimo

Em 1880, por iniciativa de Demétrio Cinatti é criado em Macau o Observatório Astronómico,  que viria a ser instalado em 1904 no antigo Forte de S. Jerónimo (corresponde à zona actual do Bairro da Horta da Mitra), ao lado do Hospital construído em 1874.
Em 1900 foi criado o primeiro posto meteorológico do território, designado por Observatório Meteorológico de Macau; ficava na Ermida da Penha e ali funcionou até 1904 quando se mudou para a colina de S. Jerónimo.
Nesse ano também para ali se mudou a Capitania dos Portos, que até então era responsável pelos Serviços de Meteorologia, deixando de o ser nesse ano.
Em Junho de 1966 o Observatório Meteorológico de Macau transfere-se para a Fortaleza do Monte.
*Um baluarte ou bastião, em arquitectura militar, designa uma obra defensiva situada nas esquinas e avançada em relação à estrutura principal de uma fortificação abaluartada.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Regulamento das Agências de Viagem e de Turismo: 1965

Pelo Diploma nº 1664 de 27 de Março de 1965, "dado o incremento do Turismo" no território e a "posição especial que as actividades das Agências de Turismo ocupam nesta indústria" era fixado o Regulamento das Agências de Viagem e de Turismo. 

Nesse ano estavam registadas quatro Agências de Turismo: 
H. Nolasco & Co. Ltd. (Av. Almeida Ribeiro), Tai Yip Co. Ltd (Ponte 12 - Porto Interior), Agência de Turismo Macau (Av. Dr. Oliveira Salazar) e Sociedade de Turismo e Diversões de Macau - Secção de Turismo (Av. Almeida Ribeiro).
Em baixo símbolo da "Agência de Turismo Macau" 
num autocarro da mesma empresa. Foto de 1969. 

domingo, 25 de julho de 2021

A "Casa da Horta"

"Macao Harbor from the Observatory casa da horta, 1819" é uma das dezenas de ilustrações feitas em Macau por John Michael Houghton .
Horta era o nome pelo qual vulgarmente se designava qualquer espaço em volta de um edifício composto simplesmente por vegetação ou pomares. Existiu por exemplo a Horta da Mitra, a Horta da Companhia (de Jesus), etc...
A Casa da Horta era a Casa Garden, na época uma imensa propriedade particular onde estava  - e ainda está - a Gruta de Camões. O "observatory" referido é um miradouro que ainda hoje existe, mas já não proporciona a mesma magnífica vista sobre o Porto Interior. Chegou a ser observatório científico nos tempos das expedições marítimas, sobretudo no século 18.

sábado, 24 de julho de 2021

"A serpente" e o vício do Baccarat

Charles Sobhraj (n.1944), conhecido por A Serpente, tornou-se na década de 1970 um serial killer de renome mundial, nomeadamente devido aos assassinatos que lhe são atribuídos (pelo menos 20, embora ninguém saiba ao certo) em vários países do sudeste asiático.
Já envolvido em negócios obscuros, contrabando de jóias, sobretudo, Charles - ou Alain Gautier, um dos vários nomes falsos que usou - deslocava-se com frequência entre Bangkok e Hong Kong. E foi a partir da então colónia britânica que Charles se deslocou várias vezes a Macau por causa daquele que é conhecido como o seu calcanhar de Aquiles, o vício do jogo, e em especial das cartas do baccarat.
Nos registos que chegaram até hoje, incluindo os que tiveram por base entrevistas com Charles, em Junho de 1971, ele, a mulher e a filha estiveram hospedados em vários hotéis (chegaram a ser expulsos por não pagar a conta), mas era no então novinho em folha Hotel Lisboa que Charles passava horas a fio. A mulher contaria mais tarde que Charles chegou a ganhar 'rios de dinheiro' no jogo mas também perdeu, e muito. A ponto de ter penhorado as jóias da mulher para saldar as dívidas.
“Penhorar as jóias foi insuficiente para pagar as suas dívidas de jogo, colocando literalmente a sua vida em risco por parte dos cobradores dos casino que são muito mais impiedosos do que os seus homólogos americanos ou europeus”, escreve Mark Gribben no livro "Charles Sobhraj: The Tale of the Serpent”.
No território o homem de dezenas de identidades - falsificar passaportes era uma das especialidades - fez-se passar por "J. Lobo", dono de um casino. O apelido "Lobo" era, curiosamente, bastante conhecido no território... A estadia no território terminaria ainda com o abandono da mulher e da filha.
Sobhraj e Leclerc na década de 1970

Tendo ficado com um dívida de mais de 70 mil patacas e para garantir que a pagava, a mulher ficaria em Macau enquanto a Serpente vai até Bombaim pedir dinheiro emprestado para saldar a dívida.
Na senda do crime e para fazer face ao empréstimo alguém lhe sugere que o problema poderia ser resolvido com um assalto à mão armada a ter lugar em Nova Deli. O assalto correu mal e Charles foi preso em 1973 mas conseguiu fugir.
Depois de andar fugido durante vários anos regressa à Índia onde conhece Marie Leclerc, a sua nova companheira. Os dois estabelecem-se na Tailândia e é então que começa a série de assassinatos cuja forma de actuação era sempre a mesma. Misturavam sedativos com leite de coco aos turistas e, quando estes adormeciam, o casal roubava passaportes e bilhetes de avião. Quando estes resistiam eram mortos.
No início de 1976 tiveram de fugir do país e foram para a Índia onde repetiram o método e seriam detidos. Na Tailândia já tinham sido condenados à morte. Depois de cumprir pena na Índia A Serpente saiu do país (em 1997 com 52 anos, depois de uma anterior fuga da prisão) e regressou à Europa onde fez dinheiro vendendo a história de vida a jornais, fãs e produtores de filmes.
Em 2003 Charles voltaria ao Nepal onde era procurado pelas autoridades pelo homicídio de um casal de estrangeiros em 1975. Acabou detido e condenado a prisão perpétua.
Mais informações: 
Livros: "Charles Sobhraj, The Tale of the Serpent”, de Mark Gribben" e "The Life and Crime of Charles Sobhraj", de Julie Clarke e Richard Nevillee.
Série televisiva da BBC/Netflix: "The Serpent".

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Rua da Fonte da Inveja

A Rua da Fonte da Inveja tem início na Avenida de Sidónio Pais e termina no acesso ao Túnel do Monte da Guia. O topónimo surge referido no “Cadastro das Vias Públicas e Outros Lugares da Cidade de Macau” publicado em 1925  mas é anterior.
A “Fonte da Inveja” era uma das várias existentes em Macau e refere-se a uma fonte que brotava antigamente na esquina da rua, sendo conhecida em chinês por “I Long Hou” (Garganta de dois dragões). Já uma outra não muito distante, a Fonte da Flora, é conhecida por Tai Long Hau, ou seja Boca do Grande Dragão.
Reza a história que a bica desta fonte tinha a forma dum peixe e o arco do pórtico representava a cabeça dum cão. Os chineses, ao que parece, viram um dragão... Eis a explicação para o nome da rua em chinês. As águas eram provenientes da Colina da Guia.
A origem do nome em português está num relatório de Janeiro de 1883 do director das Obras Públicas, Constantino José de Brito.

População: 1940 versus 1960

Segundo dados oficiais a população de Macau era em 1940 de 374.737 habitantes, uma estimativa muito por baixo. Primeiro porque não se realizou censo nesse ano e depois porque o número de refugiados já era nesta altura muito significativo e viria a aumentar até ao final da segunda guerra.
Com o final da guerra em 1945 milhares de refugiados saíram do território originando uma drástica redução do número de habitantes. No censo de 1950 surgem 188.896 habitantes e em 1960 os números oficiais indicam 169.299 habitantes, menos 205 mil face a 1940.
Excerto de uma audição de William J. Vanden*, Presidente do International Rescue Commite perante o congresso dos EUA em 1962, sobre o "Problema dos Refugiados em Hong Kong e Macau".
"(...) I also went to Macao on this trip and I would make a few comments if I may about that. Evidences of malnutrition were much clearer to me among the refugees arriving in Macao than in Hong Kong. The escapes being made to Macao are much more dramatic in many ways than the escapes being made to Hong Kong involving much peril to the lives of those who had been denied exit permits by Communist officials. Those who escape to Macao having been denied exit permits by the Chinese Government frequently come as a measure of their own personal despair and their own reaction to the Chinese Communist Government. Again I think Macao has done a tremendous job in trying to give sustenance and assistance to the refugees.
The volumtary agencies who work in Macao and in Hong Kong are really worthy of great admiration. Anybody who sees the CARE feeding station in Macao can only be deeply and profoundly impressed, or sees the rehabilitation center established by the American Association for the Overseas Blind, or sees the extraordinary work done by the church groups in Hong Kong and Macao. To spend a day with Father Ruiz in Macao is a personal experience that very few people who have ever had it will forget. He is a person who has given his life to the care of the refugees. (...)"
* esteve em Macau e Hong Kong em 1957.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

BNU: um caso único

Fundado em 1864 o BNU deixou praticamente de existir quando a 23 de Julho de 2001 foi incorporado na CGD. Assinalavam-se na altura 100 anos sobre a criação do BNU em Macau
Escrevi "praticamente" porque a sucursal do BNU de Macau manteve o seu nome e passou a ser uma sociedade subsidiária da CGD, seu único accionista, com sede em Macau. Passou a ser assim o único BNU no mundo. Um caso único...
Cruzamento da Praia Grande com a Avenida Almeida Ribeiro na década 1950/60
Detalhe da fachada da sede em Macau
Na fachada do edifício sede em Lisboa os brasões das províncias ultramarinas, incluindo Macau, onde o BNU foi "banco emissor".

quarta-feira, 21 de julho de 2021

"Macao, the tarnished jewel of the East"

"Portugal Antigo na Nova China - Macau, a jóia manchada do Oriente"* é o título da crónica assinada por Robert Bruce - que visitou o território em Dezembro de 1936 - e publicada na edição de 16.10.1937 do jornal The Glasgow Herald.
* O termo 'manchada' refere-se ao vício do jogo: 
"There is a rare, quiet decadence about Macao. It has become a meeting-place for gamblers. Rich chinese merchant from Canton and Hong Kong and office-weary Europeans crowd the tables at the week-ends. From the tables you go to the dance halls. These dance places in Macao have not the purposive, efficiently vulgar splendour oh those in shanghai, nor have the noisy American sialors and elegant Russian 'princesses.' They are more like, Macao itself, familiar and intimate and rather tired."

terça-feira, 20 de julho de 2021

Mapa "China, Terra das Conchas"

Detalhes de uma mapa de ca. 1600 - autor desconhecido - da costa do sul da China onde 'assinalei' Macau. Podem ainda ver-se as representações das ilhas da Taipa Grande, Taipa Pequena, Coloane, Lapa, Montanha, etc...
Numa parte do mapa - não visível aqui - pode ler-se "China, Terra das Conchas"

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Bairro de S. Lázaro: bens imóveis classificados

Segundo Ana Tostões o Bairro de S. Lázaro foi "o Primeiro bairro planeado (1903) e construído no território, de acordo com projeto do arquiteto espanhol J. M. Casuso, com vista a regular a construção a partir de um esquema urbano ortogonal. Desenvolve‐se a partir das ruas Volong, Nova de São Lázaro, de São Roque, de São Miguel e Eduardo Marques. Iniciativa da década de 1920 em plena cidade chinesa, representa a primeira experiência de construção de um conjunto habitacional integrado numa concepção global de planeamento urbano em Macau.Os quarteirões são formados por grupos de blocos de volumes paralelepipédicos de habitação com dois andares. A linguagem é eclética, conjugando as várias influências presentes no início do século, da art nouveau aos revivalismos e ao neoclassicismo, mas que aqui são temperadas com os dispositivos macaenses para garantir ventilação cruzada, sombreamento e frescura usando recuos da fachada, reixados e transparências. Foi renovado recentemente (1987‐1989), sendo as ruas cobertas por calçada à portuguesa."
Calçada da Igreja de S. Lázaro década 1970

O Bairro de São Lázaro inclui a Rua do Volong, Rua Nova de São Lázaro, Rua de São Roque, Rua de São Miguel, Calçada da Igreja de São Lázaro, Adro da Igreja de São Lázaro, Rua Eduardo Marques, Beco de São Lázaro e Pátio de São Lázaro. Foi, noutros tempos, a área de residência dos chineses católicos de Macau. No final do século XIX o Governo elaborou um plano de intervenção para regular a construção na zona e foram construídas uma série de casas e ruas bem arranjadas. Recentemente, o Bairro de São Lázaro foi renovado e algumas das ruas cobertas por calçada portuguesa. Candeeiros de rua ao estilo europeu foram também adicionados, para lembrar às pessoas como eram aquelas ruas no passado.
Texto do Instituto Cultural

sábado, 17 de julho de 2021

"A pesca é largamente praticada em Macau"

Armadilhas de pesca. Porto Interior, década 1920/30

"A pesca é largamente praticada em Macau, não apenas utilizando barcos, mas ainda com redes lançadas de terra e fixas nos bordos das baías. Em 1964 foram manifestadas 8641 toneladas de pescado (...) Havia então 10246 pescadores dispondo de 442 barcos a motor e 2791 barcos à vela ou a remos. (...) As melhores épocas para a pesca (salmonetes, linguados, pâmpanos, camarão, etc.) vão de Abril a Maio e de Setembro a Janeiro."
in "Macau - Pequena Monografia", A.G.U., Lisboa 1965

sexta-feira, 16 de julho de 2021

The Inner Harbour: 1884

Macao is a Portuguese settlement in China stands on a small peninsula projecting from the south east end of Hiang shan island. The peninsula is nearly 2 miles long less than a mile wide at its broades part and is connected with the island by a low narrow sandy isthmus across which extends a barrier wall to exclude foreigners from the interior of the island. The town is built on the declivities of the hills which surround the harbour and are 200 to 300 feet in height the shore beneath being embanked so as to form a marine parade backed by a terrace of white houses. (...)
The Inner Harbour is formed between the peninsula and Patera island to the westward. Its entrance is narrow but the depths are 20 feet at low water close to fort San Tiago or Barra which is built on the southwest point and from thence the soundings are 19 and 16 feet along the western shore to the town. Daily steam communication is maintained with Hong Kong and there is an excellent landing pier in the inner harbour. Steamers also ply between Macao and Canton making the voyage on alternate days. (...)
The port regulations now in force were issued in 1855. They require a report of the arrival of all vessels within 24 hours under a penalty of 100 dollars. Ships papers must be lodged at the office of the captain of the port. A government school of pilotage is established for the instruction and examination of pilots who are not allowed to serve unless duly qualified. The charge for bringing a vessel into the inner barbour is 7 dollars. Canton river pilots are procured at Macao and each receives a chop from the residing mandarin to deliver to the officer stationed at the Boca Tigris describing the force of the ship and to what nation she belongs.
in The China Sea Directory, Volume 3. Great Britain. Hydrographic Department, 1884. (imagens não incluídas)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Excertos da "Primeira circum-navegação brasileira e primeira missão do Brasil à China (1879)"

Excertos do livro referido no post de ontem:
"No itinerário original, a corveta deveria aguardar na China a conclusão dos trabalhos da missão diplomática. Mas, em 18 de junho de 1880, ao chegarem em Hong Kong, o chefe de divisão da Marinha, Artur Silveira da Motta51 (futuro barão de Jaceguay), a quem cabia a responsabilidade da viagem, reportou problemas a bordo e recebeu ordem do governo imperial para que a corveta regressasse ao Brasil pelo caminho mais curto." (...)
Achegada da corveta a Hong Kong se converteu numa festa. Foi na tarde de 28 de maio; e, por muito tempo, a tripulação não fez mais que salvar à terra para responder às salvas de grande número de navios de guerra de várias partes do mundo que estavam no porto. Alguns chegaram a contar o número de disparos a partir da Vital de Oliveira: “foram 11 salvas”.
Logo que fundearam, receberam a bordo Agostinho Guilherme Romano, cônsul do Brasil em Hong Kong, que os acompanhou naquela noite à terra para uma visita à associação portuguesa da cidade, o Club Luzitano. A travessia de Singapura até ali havia durado oito dias, “com ventos favoráveis e mar propício”. (...)

A partir de Hong Kong, a oficialidade da Vital de Oliveira visitou Macau e Cantão. Em Macau, foram ver o hospital da colônia chinesa, que chamou a atenção, porque “os quartos para os doentes eram escuros e sem ventilação; os leitos de pedra, tendo por travesseiro um cilindro de madeira, ao lado do leito um escoadouro de ladrilho, que serve de mictório. Alguns dos doentes têm apenas para cobertura um pano de lã. Os médicos não procedem a exame físico,ouvem as declarações dos doentes, olham para eles e receitam-lhes panaceias”. Em seguida, visitaram a gruta onde Luís de Camões, exilado em Macau, recolhia-se para escrever seu épico Os Lusíadas.
“Hoje a gruta acha-se completamente transfigurada, pois pertence a um abastado cidadão português, o senhor Lourenço Marques”.
Lembra Henrique Lisboa, secretário da missão diplomática, que na “minha chegada à poética gruta, onde refere-se a tradição que concluiu Camões a primorosa obra que lhe deixou imortal o nome (Os Lusíadas); esta gruta acha-se situada dentro de uma propriedade particular, cujo dono tem prazer em franquear o acesso ao pitoresco sítio, onde, à sombra de frondosa vegetação, cantava o vate lusitano as glórias da pátria ingrata. Numa cavidade, entre dois rochedos, vê-se um busto do autor dos Lusíadas, rodeado das inscrições com que os visitantes prestam justa homenagem a uma glória hoje universalmente reconhecida. Obtém-se daí uma esplêndida vista de Macau e da sua plácida baía e compreende-se que se prestasse esse ameno refúgio a tão sublimes inspirações”. Já para Elysio Mendes, na gruta “levantaram uns detestáveis arcos, que lhe tiram toda poesia selvagem e todo o encanto primitivo”. Elysio, Callado, Saldanha da Gama, Motta e Vissière escreveram poemas e homenagens a Camões que estão até hoje no livro de memórias do evento. (...)
A delegação brasileira resolveu aproveitar o tempo de folga e visitar Macau. A cidade ocupada pelos portugueses desde 1563, mediante um tributo, foi muito importante por causa do seu comércio, exportando para todo o Ocidente as especialidades industriais da China. Mas começou a decair depois da posse de Hong Kong pelos ingleses. (...)
Os habitantes de Macau “constituem um tipo curioso e digno de estudo, emigram na totalidade para ganhar a vida sob proteção da colônia inglesa. O que sustenta hoje aquela colônia [...] é o imposto sobre casas de jogos”. Na época da passagem da Vital de Oliveira,
Macau tinha uma população de 25 mil chineses e cinco mil portugueses. Segundo o médico, a cidade “divide-se em bairro chinês e europeu. A parte europeia contém bons edifícios públicos e particulares [...], são também dignos de visitar-se os templos chineses, jardins públicos e a quinta onde existe a celebrada gruta de Camões (exilado em Macau nela teria escrito Os Lusíadas). A condução, como em Hong Kong, é feita em cadeirinhas carregadas por dois coolies. As ruas são geralmente estreitas, tendo muitas ladeiras”.
Em Macau, eles foram recebidos pelo cônsul brasileiro, o barão do Cercal, Alexandrino António de Melo. Também o governador português, Joaquim José da Graça, foi anfitrião da delegação brasileira e até lhes deu um jantar muito concorrido. “Nesse dia, Macau ficou vestido de galas. O palácio do governador iluminado de noite.
No dia seguinte, os navios de guerra portugueses içaram a bandeira do Brasil no mastro grande e a infantaria fazia guarda de honra no lugar de embarque dos ministros”.
Lembra Motta que eles foram em romaria à legendária gruta de Camões. “Camões! Macau! Eis aí duas palavras que resumem por si só o prestígio do império português no Oriente sobrevivendo ao seu aniquilamento através dos séculos!”
A tripulação visitou também Cantão, “a cidade chinesa por excelência, com suas indústrias variadas, seu labirinto de ruas estreitas, ladeadas de belas lojas e crivadas de tabuletas de mil cores, com seu bairro flutuante e o burburinho incessante de uma população de
dois ou três milhões de habitantes”. (...)
Em Hong Kong os embaixadores, comitiva, comandante e oficiais foram convidados pela colônia portuguesa para assistirem à festa em memória ao tricentenário de morte de Luís de Camões, o poeta imortal português, no dia 10 de junho de 1880. A festa, um sarau literário e musical, seguido de ceia e baile, foi toda abrilhantada pela banda da Vital de Oliveira.
No salão principal do Club Luzitano, estava exposto um busto do poeta e embaixo dele entrelaçadas as bandeiras portuguesa e brasileira. O governador de Hong Kong, sir John Pope Hennessy, esteve na festa com seu estado-maior. A cerimônia começou com a entrada
de “cerca de 12 meninas que carregavam buquês de flores depositados em torno do pedestal do busto de Camões. A festa foi até as 4 horas da manhã, com uma hora de intervalo depois da meia-noite para o supper”. Lembra Silveira da Motta que “estes nossos primos antípodas nos fizeram obsequiosa recepção da qual guardo as mais gratas recordações, especialmente para com o sr. conselheiro A. G. Romano, cônsul do Brasil ali há longos anos”. (...)
A missão diplomática brasileira desembarcou em Hong Kong no dia 16 de junho de 1880. Callado e Motta seguiram para Cantão e depois para Shanghai. Na volta a Hong Kong, encontraram Elysio Mendes, um dos proprietários do jornal carioca Gazeta de Notícias, que se juntou à missão. Na descrição deste jornalista, “Hong Kong é uma ilha interessante, com seus picos elevados e estreitos vales. O solo não parece muito fértil, mas o inglês tem conseguido melhorá-lo. A cidade de Vitória é assaz grande e parece trepar pela encosta acima da Victoria Peak, no bairro habitado pelos europeus as casas são vastas, bem construídas e luxuosas; no bairro chim, a aglomeração é maior, conquanto as ruas conservem essa regularidade característica das cidades inglesas”.
A passagem por Hong Kong foi movimentada. Na época a cidade festejava o tricentenário da morte de Camões celebrado com pompa, pela numerosa colônia portuguesa – na maior parte de nascidos em Macau. Em Macau seguiram em romaria à legendária gruta de Camões.
No dia da comemoração, à noite, todos foram ao Club Luzitano onde aconteceu um sarau literário e musical e em seguida uma ceia e baile, em que tocou a banda da corveta Vital de Oliveira. No grande salão estava o busto de Camões, o mesmo que se achava na gruta em Macau.

Júlio César de Noronha


A passagem por Macau com suas características portuguesas fez os viajantes terem saudades de casa. Conta Henrique Lisboa que “a suas ruas escabrosas, com suas escadinhas que lembram as velhas calçadas lisbonenses, as suas casas de construção irregular, ornadas de balcões de madeira verde, estilo árabe, ou de janelas engradadas, as numerosas igrejas e os conventos empoeirados, residências de padres que circulam gravemente, como quem tem consciência de sua influência, vestindo amplas batinas e deitando a benção sobre transeuntes, o contínuo repique os sinos e o retumbar dos tambores da guarnição, tudo dá a Macau uma fisionomia que contrasta com a das outras cidades [...]”.
Segundo a documentação disponível, o estabelecimento dos portugueses em Macau, através de uma feitoria livre, ocorreu a partir de assentamento em 1554, sendo que a cessão legal daquele sítio ao Império português data de 1557. Essa cessão foi feita pelas autoridades provinciais de Cantão, confirmada, em seguida, pelo imperador Chi-Tsung. [...] Macau continuou, entre o século XVII e meados do XIX, a ser o principal porto aberto à navegação internacional, entreposto das relações da China com os povos ocidentais. Nesta feitoria, estabeleceu-se uma rica burguesia comercial, levando à criação de uma municipalidade – o Senado da Câmara.
Chamou muito atenção da missão a vocação para o jogo, que surgiu com a decadência de Macau após a tomada de Hong Kong pelos ingleses. Macau durante séculos monopolizou as transações comerciais da Europa com a China mas, na época da passagem da missão brasileira, estava reduzida a uma modesta colônia que sobrevivia de seus cassinos. “Proibidas as casas de jogo pela legislação do Império, obtém Portugal uma importante renda desses estabelecimentos, que transformam sua colônia em um verdadeiro Mônaco chinês. Aí
acodem de Cantão e das cidades da costa até Shangai, os devotos da sorte, chins, pela maior parte e europeus alguns.
Existem em Macau estabelecimentos para todas as bolsas e condições sociais, desde a espelunca onde, à noite, numa atmosfera impregnada da fumaça do ópio e tabaco ou das emanações de aguardente de arroz, dos whisky e outras importações civilizadoras, a ralé da população arrisca ruidosamente aos dados as sujas sapecas (moeda de cobre que vale 2 réis) ganhas a custo do trabalho diário, até o elegante edifício onde mandarins e negociantes endinheirados, pagam, as emoções do jogo pelo sacrifício de avultadas quantias.”
Na cidade portuguesa os visitantes foram recebidos oficialmente pelo governador Joaquim José. “O palácio do governo de Macau é um vasto edifício cuja arquitetura nada tem de notável. A mobília que o guarnece merece, porém, a atenção dos amantes de coisas antigas, e algumas peças obteriam, certamente, como tais, preços fabulosos em Paris ou Londres. Também admirei ali o magnifico serviço de porcelana chinesa antiga, com o qual ofereceu o amável governador Graça um banquete à missão de que eu fazia parte”.
O palácio do governador ficou iluminado a noite inteira e, no dia seguinte, os navios de guerra portugueses içaram a bandeira brasileira no mastro grande e a infantaria fez guarda de honra no lugar de embarque dos dois ministros (Motta e Callado)."

quarta-feira, 14 de julho de 2021

"Primeira circum-navegação brasileira e primeira missão do Brasil à China (1879)"

Entre 1879 e 1883 a marinha do Brasil efectuou a primeira viagem de circum-navegação tendo passado por Macau no âmbito de uma missão diplomática à China cujo principal objectivo era garantir mão de obra para a agricultura, especialmente a cultura de café (a escravatura fora abolida), nomeadamente dos chamados cules chineses que por essa altura já seguiam aos milhares, via Macau, para vários países da América do Sul.
Marli Cristina Scomazzon e Jeff Franco contam essa história num livro agora disponível intitulado "Primeira circum-navegação brasileira e primeira missão do Brasil à China (1879)".
Segundo os autores: “Nossa proposta foi recuperar uma aventura levada com heroísmo por centenas de marinheiros anônimos, alguns dos quais até perderam a vida. A viagem é um episódio da história brasileira que estava escondido em vários repositórios. Em outros arquivos foi possível recuperar os registros da primeira missão brasileira à China, envolvendo uma grande polêmica, o que é um exemplo de como os fatos evoluem na crônica da vida política do nosso país”, explicam os autores. “Escrevemos este livro com muito entusiasmo por recuperar um tema até então inédito, uma parte interessante da memória nacional e também por ser uma história repleta de curiosidades”.
A viagem de volta ao mundo, na corveta Vital de Oliveira, durou 430 dias, sendo 268 de viagem e 162 nos portos e foi comandada pelo capitão de fragata Júlio César de Noronha. 
A missão custou aos cofres imperiais 120 contos de réis e esteve a cargo de 197 homens: 22 oficiais, 126 marinheiros imperiais, 15 foguistas e 21 soldados navais. "Muitos deles marinheiros acabaram ceifados por enfermidades como o beribéri. Alguns, desertaram e outros não puderam voltar com a guarnição, pois permaneceram hospitalizados."
A rota seguida: do Rio de Janeiro para Lisboa. Em seguida, Gibraltar, Toulon, La Valeta-ilha de Malta, Áden-Iêmen, Ponta de Galle-Ceilão (actual Sri Lanka), Hong Kong, Macau (em Junho 1880), Negasaki, Yokohama, São Francisco de Califórnia, Acapulco, Valparaíso, Lota, Huamblin, Port Otoway (actual Porto Almirante Barroso), Punta Arenas, Montevidéu e regresso ao Rio de Janeiro.


Antes do período abordado neste livro já existia imigração chinesa para o Brasil via Macau, embora em número reduzido, nomeadamente para o cultivo de chá.
Numa edição de Agosto de 1871 do Diário do Rio de Janeiro pode ler-se:
"A emigração chinesa feita pelo porto de Macau continua a dar motivo a cenas horríveis, demasiadamente repetidas... A última catástrofe de que em Lisboa há noticia, é a do navio D. Juan saído de Macau a 4 de Maio com um carregamento de mais de 650 emigrantes chins, chuchaes, coolies, ou escravos brancos, que por todos esses nomes vão ali conhecidos estes emigrantes livres, os quais lançaram fogo à embarcação, sendo vítimas quase todos do seu desespero."
Num debate político em 1879, no Brasil, um deputado argumentou assim a favor da mão de obra chinesa: "O trabalhador chim, além de ter força muscular, é sóbrio, laborioso, paciente, cuidadoso e inteligente mesmo — argumenta no Senado, em 1879, o primeiro-ministro Cansanção de Sinimbu. — Por sua frugalidade e hábitos de poupança, é o trabalhador que pode exigir menor salário. Assim, deixa maior soma de lucros àquele que o tem a seu serviço. É essa precisamente uma das razões por que devemos desejá-lo para o nosso país."
O tema gerou polémica com a sociedade dividida e muitos a defender que se estava perante uma nova forma de escravatura.
Depois de intensas negociações, a 3 de outubro de 1881, um tratado foi assinado e ratificado no Brasil mas na prática nenhum chinês emigrou para o Brasil por via do acordo. Ainda assim foram estabelecidas relações diplomáticas e instalado um consulado-geral do Brasil em Xangai, em 1883.
Nesse ano o governo brasileiro ainda criou a Companhia de Comércio e Imigração Chinesa em parceira com a companhia chinesa de navegação China Merchants.

PS: no post de amanhã publicarei alguns excerto do livro referentes à passagem da missão brasileira por Macau e Hong Kong.

terça-feira, 13 de julho de 2021

"Colony prepares for heavy influx of tourists"

"The people of Macau are gearing up with new tourist services and facilities for the onslaught that is bound to come. (...) The 300-room Hotel Lisboa, which opened some rooms in 1970 but went into full operation only last year, has done much to upgrade the hotel scene. It attractively perched by the sea, and its main tower which looks for all the world like a frosted wedding cake - can be seen from most vantage points in the city. (...)"
The Financial Post. 25.3.1972
Hotel Lisboa: inaugurado (parcialmente) em Fevereiro de 1970

A ligação de helicóptero entre Macau e Hong Kong chegou a ser equacionada pela STDM mas não avançou nesta época, só muitas décadas mais tarde. O artigo refere ainda a particularidade do turista poder ver e ouvir fado no hotel Lisboa. Quanto à restante oferta hoteleira do tipo ocidental surgem os nomes da Pousada Macau e dos hotéis Estoril e Bela Vista. Em 1972 o hotel Riviera fechara portas recentemente e o hotel Sintra ainda estava em construção. Havia ainda o Matsuya e o Caravela, este último por pouco tempo.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

"Annuncio: Precisa-se Enfermeiro"

 
"Anuncio" de 1867 informando a contratação de um 2º enfermeiro para o "Hospital de S. Raphael" que estava a cargo da "Santa Casa da Mizericórdia". Oferecia-se 14 patacas de salário mensal e "casas para morar".
O hospital é o apresentado em cima numa foto da década de 1940 - após obras de remodelação - e é actualmente o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong.

domingo, 11 de julho de 2021

História Ilustrada do Comércio do Ouro (séc. 20): 2ª parte

 
Encarada com desconfiança um pouco por todo o mundo, esta actividade salvaria as finanças públicas de Macau e tornou-se essencial para a China, que estava sob um embargo do ocidente. Mais uma vez o pequeno território, com um estatuto que não agradava totalmente ao novo poder na China, reforçava a sua posição estratégica ímpar.
Mais informações aqui
Para se ter uma ideia da importância deste comércio e da quantidade de barras de ouro em Macau na época, convido-os a ver um artigo da revista Life (EUA), a 8 de Agosto de 1949


Outras fotografias sobre a forma como era transportado o ouro.