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terça-feira, 3 de março de 2026

Instalações da Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II

A Estação Radiotelegráfica de Dona Maria II representa o início da era das telecomunicações modernas em Macau. Inaugurada formalmente a 12 de Junho de 1924, a estação foi instalada no topo da colina de Dona Maria II - junto ao forte com o mesmo nome - para garantir uma melhor propagação das ondas de rádio. 

Inicialmente operada pela Radio Communication Co. do Oriente, a sua entrada em funcionamento permitiu a desactivação da antiga estação de São Francisco, centralizando as comunicações sem fios do território num equipamento mais avançado para a época.
Um dos momentos mais emblemáticos da sua história ocorreu precisamente no dia da inauguração, quando o Governador de Macau, Rodrigo Rodrigues, utilizou as instalações para comunicar com os aviadores portugueses Brito Paes e Sarmento de Beires. Os pilotos encontravam-se então em Kowloon (Hong Kong), na fase final da histórica travessia aérea entre Lisboa e Macau, e a ligação rádio serviu para coordenar a recepção triunfal dos aviadores no território. 
 Torres de Transmissão da Estação Radiotelegráfica Dona Maria. 
Fotógrafo Mei Iun 

Pouco tempo depois, em Fevereiro de 1926, o Governo de Macau adquiriu formalmente todos os equipamentos e antenas da empresa privada, transformando a estação num serviço público essencial.

Ao longo dos anos 30, a estação foi o pilar da radiodifusão local, servindo de base para o que viria a ser o Rádio Clube de Macau. O local não era apenas um centro técnico, mas também um ponto de importância estratégica e militar. A infraestrutura sofreu danos severos durante a Segunda Guerra Mundial, quando a fortaleza foi bombardeada pela aviação norte-americana em Janeiro de 1945, num ataque que visava alvos estratégicos na região. Actualmente a fortaleza é um monumento preservado e um ponto turístico.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

"O ressurgimento de Macau": Diário de Notícias - 20 Agosto 1924

 

Na edição de 20 de Agosto de 1924 o Diário de Notícias publica na primeira página um artigo sobre Macau com o ante-título "Cartas do Oriente" e o título "O ressurgimento de Macau" abordando temas como "As revoltas dos chineses", "A política inabil havida para com a China", "Os monopólios do ópio e do fantan", (...) "O patriotismo dos habitantes da cidade de Macau". Duas fotografias, uma do Palácio do Governo e outra do Largo do Senado, ilustram o artigo.
O autor é Félix Borges Medeiros da Horta, cônsul de Portugal em Cantão (1923-1926). Nesse ano, o cônsul (advogado) recebeu os heróis da aviação portuguesa - Brito Paes, Sarmento Beires e Manuel Gouveia - naquela cidade durante a recepção a cerca de 50 portugueses. O governador de Macau era Rodrigo José Rodrigues.
Coincidência, ou não, nesse ano foi publicado um livro em inglês com o mesmo título "The Renascence of Macao".

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

“O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”

Na edição de 13 de Dezembro de 1924 - há 100 anos - a Empresa Cinematográfica Macaense anunciava no jornal "A Pátria" (Macau) a estreia no Star Theatre em Hong Kong de um documentário intitulado "O Vôo Audaz das Águias Portuguesas" que documentava a chegada a Macau em Junho desse ano dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e do mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes em Abril para pela primeira vez realizaram uma ligação aérea entre Portugal e Macau, um dos maiores feitos da aviação portuguesa.
Este ao foi assinalou-se o centenário do 'raid' e no blogue existem inúmeros artigos sobre o mesmo. Basta utilizar o campo de pesquisa. Em baixo mais um documento raro, publicado em Portugal, que inclui no verso a "chronometragem" e o mapa com a rota percorrida.

sábado, 21 de setembro de 2024

1º Raide Aéreo Lisboa-Macau: resumo

A Hélice numa das paredes do restaurante do Club Lusitano
 (Ice House Street, Central, Hong Hong), no 26º andar

Depois de alguns testes e ensaios, o voo inaugural teve lugar a 2 de Abril de 1924, com o aparelho a descolar da Amadora cerca das 16 horas, perante numerosa assistência e presença de personalidades – e a aterrar em Vila Nova de Milfontes 50 minutos depois.
Nos dias que se seguiram, o mau tempo, surgido inesperadamente, fez com que a aeronave e os seus tripulantes ficassem retidos em Milfontes. Somente no dia 7 desse mês de Abril, pelas seis horas da manhã, o Pátria se elevou nos ares, rumo a Oriente.
Em Tunes, 11 dias depois da partida de Milfontes, aguardava-os Manuel Gouveia, que havia seguido de barco até ali. A partir de então, a equipa ficava completa. De Tunes até à Índia, com paragens em Tripoli, Benghazi, Cairo, Rayak (Líbano), Bagdad, Bushire, no Irão (aqui, as autoridades locais colocaram obstáculos à partida do avião, situação somente ultrapassada por meio de suborno), Bandar-Abbas (cidade iraniana à entrada do golfo de Ormuz), Chahbahar (extremo sueste do Irão) e Carachi, já na Índia, onde chegam a 4 de Maio de 1924, ou seja, mais de um mês após a partida de Lisboa.
No dia sete, partiram com destino a Agra, cidade do famoso Taj Mahal, no estado de Uttar Pradesh ao passarem sobre Bhudana, empurrados pelo terrível vento – sempre esse implacável inimigo –, viram-se forçados a aterrar no deserto em condições tão difíceis que o Pátria se partiu, ficando irremediavelmente inutilizado. Inicialmente acolhidos por habitantes de um oásis, os viajantes, saídos ilesos de tão aparatoso desastre, foram conduzidos à via-férrea e, por esse meio, seguiram para Jodhpur, cidade indiana no estado do Rajastão, onde ficaram alojados na Gest House, sumptuoso bungalow pertença do marajá local.
Foi aí que receberam, poucos dias depois, um telegrama, anunciando que o Governo Português havia, entretanto, autorizado aquisição de um novo avião para que a odisseia pudesse ser prosseguida.
Montado e preparado o novo aparelho, trabalho que se prolongou por alguns dias, o Pátria II (este o nome já esperado) fez o seu primeiro voo de ensaio no dia 29 de Maio. Nos dias seguintes, rumo a oriente, sucederam-se as etapas: Lahore – Amballa – Allahabad – Calcutá – Akyab – Rangum (Birmânia, actual Myanmar) – Banguecoque – Oubon – Hanói – Macau. Face ao espaço acanhado da carlinga deste Pátria II, Gouveia viu-se obrigado a prosseguir por terra, viajando de comboio ou de barco e acompanhando, sempre que possível, as escalas.


A última etapa (Hanói – Macau), no dia 20 de Junho, iniciou-se pelas 10 horas da manhã, com um céu límpido e o avião a fixar-se, nesta fase, numa velocidade cruzeiro de 170 quilómetros por hora. Pouco a pouco, porém, o céu começou a toldar-se; a aeronave, fustigada por furiosa tempestade, aproxima-se de Macau – Ilha da Lapa, Ilha Verde, Portas do Cerco –, a água caindo em cortinas grossas tornavam impossível a aterragem. Os pilotos rumam a norte, tentando subir o rio Cantão; depois, divisando alguma claridade para os lados de Hong Kong para aí se dirigem, porém o Pátria II, ave ferida pela fúria dos elementos, já exausta, não responde, a hélice imobiliza-se. Aos comandos, Sarmento de Beires efectua uma aterragem de emergência sobre o que julga ser um terreno aberto no meio dos arrozais. Num espaço curto, aos solavancos devido à irregularidade do solo, o aparelho acaba por embater numa saliência de terra, partindo a hélice e o tem de aterragem. Tinham, afinal, aterrado num cemitério chinês, em Sâm-Tchan próximo de Kowloon, Hong Kong. 
Eram 14:48 horas; a longa viagem estava cumprida e cumprido estava também o sonho de muitos portugueses de Lisboa e de Macau, de verem reafirmadas as glórias pátrias. Odisseia aventurosa, sentimental, intelectual e de fraternidade com a província e o povo de Macau, conseguida em 117 horas e 41 minutos (tempo total de voo), sobre desertos, mares, planícies e montanhas, num total coberto de 17 570 quilómetros.Após aterrarem, tiveram de andar a pé cerca de dois quilómetros até ao pequeno burgo que era então a cidade de Sâm-Tchan; aí tomaram um comboio para Hong Kong, onde foram calorosamente recebidos por residentes portugueses, à frente dos quais o cônsul de Portugal, Cerveira de Albuquerque.


Entretanto a Cidade do Nome de Deus na China enviou a lancha-canhoneira Macau a Hong Kong ao encontro dos heróis. Sob o comando do primeiro-tenente Santos Pedro, o pequeno navio, de fundo chato, venceu as cinquenta milhas de mar revolto durante toda essa noite tempestuosa, fundeando nas águas mais calmas da colónia inglesa pela manhã do dia 21 de Junho. Na tarde desse dia chegou um outro navio português, a canhoneira Pátria, e foi neste que, ao raiar do dia 25, os intérpretes do feito heróico que ilustrava toda a nação portuguesa foram transportados até Macau. De notar o pormenor curioso de o dia anterior, 24 de Junho, ser o dia da cidade de Macau e, por essa razão, terem começado as festas da cidade.
Recebidos pelo governador, Dr. Rodrigo Rodrigues, pela alta oficialidade e por personalidades macaenses, os ilustres visitantes foram cumulados de elogios, ofertas e gentilezas. Pelas ruas de Macau, os festejos em honra dos bravos aviadores tomaram um cariz popular – marchas aux flambeaux, panchões, estalinhos chineses. Todo o território se engalanou, garridamente, para receber os ases da aviação portuguesa, sendo isso um testemunho inequívoco do quanto as gentes de Macau se orgulhavam de pertencer a uma comunidade sob jurisdição portuguesa. Para custear as despesas com estes festejos, foi aberta uma subscrição na Secretaria-Geral do Governo de Macau. 
Também o poeta Camilo Pessanha, natural de Coimbra, mas residente em Macau desde 1894, se associou a estas festividades, escrevendo então um pequeno opúsculo com o elucidativo título "Homenagem aos Aviadores que Completaram o 1º Raid Aéreo Lisboa – Macau". 
Mesmo depois da partida dos aviadores as homenagens continuaram, como é exemplo o facto de a 4 de Julho o Grupo de Teatro e Amadores de Música de Macau ter apresentado, no Teatro D. Pedro V, uma Récita em honra dos Heróis do Raide Lisboa – Macau. Foi ainda sob auspícios do governador de Macau que se providenciou o regresso dos aeronautas portugueses à Metrópole, por mar, via Estados Unidos.
Gazeta de Coimbra: 20 Dezembro 1924
"A nossa viagem tinha dois fins. Primeiro: sendo nós oficiais do Exército e patriotas, precisávamos de vir a Macau, terra portuguesa entre as terras portuguesas (…). Aqui estamos. Segundo: sabendo-se que todas as nações se empenhavam na realização de grandes viagens aéreas, a Aviação Portuguesa não podia permanecer apática e indiferente e cumpria-lhe não deixar de participar condignamente na grande competição. Atingimo-lo também." Capitão Brito Pais num discurso em Macau.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Récita em homenagem aos Gloriosos Aviadores

A 4 de Julho de 1924 o Grupo de Amadores de Teatro e Música organizou no teatro D. Pedro V uma homenagem aos protagonistas da primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Foi umas das muitas homenagens realizadas em Macau.
No programa da récita incluiu-se um texto do poeta Camilo Pessanha (1867-1926) que aqui se reproduz. De acordo com a imprensa da época não há registo da presença de Pessanha nas homenagens.
Programa impresso pelo tipografia Mercantil, de N. T. Fernandes e Filhos, 1924

"Associo-me comovido, como antigo residente da colónia, (mais de trinta anos de residência), às gerais manifestações de entusiasmo pela chegada triunfal dos ínclitos aviadores Brito Pais, Sarmento Beires e Gouveia. Pelas condições da sua realização, é a sua visita a mais honrosa que Macau recebe desde há séculos.
Toda a população desta remotíssima terra portuguesa estremeceu de patriótico júbilo ao saber que Macau foi a meta escolhida para a grandiosa prova de audácia esclarecida que os dois ilustres aviadores, assumindo para tal fim a representação da nação portuguesa, desinteressadamente se impuseram e que com tanta perícia, e tão deslumbrante êxito levaram a cabo.
Júbilo que não resultou apenas da satisfação de uma fútil vaidade, aliás justificável, de burgo, mas também, e principalmente, de todos compreendermos que o raid Lisboa-Macau foi utilíssima empresa para o prestígio do nome português no Extremo-Oriente, demonstrando do modo mais palpável às populações destes países distantes que Portugal ainda tem filhos capazes dos mais heróicos sacrifícios, dispõe de competências técnicas rivalizando com as das mais cultas nações e acompanhando, portanto, brilhantemente, o progresso do Mundo."
Camilo Pessanha no Teatro D. Pedro V, a 4 de Julho de 1924.

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Precisávamos de vir a Macau"

Por esta altura há 100 anos os heróis da aviação portuguesa e mundial no início do século 20 já regressavam a Portugal. Partiram de Macau rumo a Xangai e dali para o continente americano chegando a Portugal só em Setembro.
Em Macau o povo saiu à rua - Praia Grande - para saudar os aviadores portugueses

"A nossa viagem tinha dois fins. Primeiro: sendo nós oficiais do Exército e patriotas, precisávamos de vir a Macau, terra portuguesa entre as terras portuguesas, onde Camões se inspirou para escrever Os Lusíadas. Aqui estamos. Segundo: sabendo-se que todas as nações se empenhavam na realização de grandes viagens aéreas, a Aviação Portuguesa não podia permanecer apática e indiferente e cumpria-lhe não deixar de participar condignamente na grande competição. Atingimo-lo também."
Discurso de Brito de Paes em Macau citado por José Manuel Sarmento de Beires no livro "De Portugal a Macau: a viagem do Pátria", Seara Nova, 1925.
Cartaz para a recepção em Lisboa

quinta-feira, 20 de junho de 2024

"Os aviadores atingiram Macau"

A 20 de Junho de 1924 terminava a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Nesse dia e nos seguintes o feito histórico para a aviação mundial foi notícia em todo o mundo...
Brito Pais e Sarmento de Beires (e Manuel Gouveia em algumas etapas) percorreram cerca de 17.000 kms e voaram mais de 115 horas entre Vila Nova de Milfontes e Macau usando para o efeito dois aviões. Em cima o Pátria II numa escala já na segunda parte da viagem.
Primeira página do Diário de Lisboa a 21 de Junho de 1924
Youngtown Vindicator 20.6.1924

St. Petersburg Times 20.6.1924

Strait Times 21.6.1924

The Evening Independent 20.6.1924

The Washington Reporter 21.6.1924

quarta-feira, 19 de junho de 2024

A "Gloriosa Viagem"

Há 100 anos, a 19 de Junho de 1924, estava nas bancas mais uma edição da Gazeta das Colónias. Numa das páginas podia ler-se:
"Quando este número da Gazeta das Colónias sair ao público, deve estar a terminar essa gloriosa viagem, com que os heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento Beires, auxiliada pelo dedicado e infatigável mecanico Manuel Gouveia, vem aumentar o brilho do Nome Português e abrir mais uma página da historia, ainda curta mas já cheia de sacrifícios e de glória, que é a da nossa Aviação. (...)"
E assim foi... a 20 de Junho a "gloriosa vigem" chegava ao fim com o Pátria II a sobrevoar Macau em dia de tufão tendo feito uma aterragem forçada a 45 milhas do território, já no continente chinês, na localidade de Sam Chun, muito perto de Hong Kong, para onde seguiram primeiro antes de chegarem a Macau no dia da cidade, a 24 de Junho.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

A "heróica jornada" prossegue nos céus da Índia

Excelsior (França) 29.5.1924

No final de Maio de 1924 a "heróica jornada" da primeira viagem aérea entre Portugal e Macau prosseguia já a bordo de uma outra aeronave, baptizada de "Portugal"/"Pátria II". A imprensa nacional e internacional continua a acompanhar o feito dos "bravos aviadores" Brito Pais, Sarmento Beires e Manuel Gouveia.
Diário de Lisboa 30.5.1924

The Hong Kong Telegraph 31.5.1924

Diário de Lisboa 31.5.2024


Com o Pátria I danificado o que sobrou do avião foi enviado para Portugal. Foi então comprado aos ingleses um DeHavilland DH-9A (motor de 450 cv) por 4.700 libras, dinheiro angariados por subscrições junto dos portugueses em Portugal e Brasil. A 30 de Maio de 1924 o Pátria II - o nome voltou a ser pintado na fuselagem - descolou às primeiras horas da manhã com destino a Ambala (Índia). Seria o tenente Oliver da aviação militar inglesa a acompanhar as primeiras horas de voo e a dar instrução sobre como navegar no novo aparelho. A 1 de Junho o Pátria II chega a Calcutá após uma viagem de 850 Km tendo atravessado a região de Ganges e as montanhas de Parasnath. Ainda faltavam muitos quilómetros e 19 dias para a chegada a Macau, o destino final...

terça-feira, 9 de abril de 2024

Centenário da primeira travessia aérea Portugal-Macau: 1924-2024

A deposição de uma coroa de flores no monumento existente em Vila Nova de Mil Fontes e uma sessão oficial no Museu do Ar em Sintra marcaram o arranque, no passado domingo, das comemorações do centenário da primeira travessia aérea entre Portugal e Macau. 
A viagem teve início a 7 de Abril de 1924 em Vila Nova de Mil Fontes e a Junta de Freguesia associou-se às iniciativa com uma medalha comemorativa de um dos maiores feitos da história da aviação. É apenas uma das várias manifestações agendadas que vão decorrer até Setembro em Portugal, Hong Kong e Macau.
"Há cem anos, a viagem aérea de Portugal a Macau constituiu um notável feito aeronáutico de destaque internacional. Com a sua realização, Portugal competiu com êxito no plano das grandes viagens aéreas intercontinentais que então eram promovidas pelas grandes potências internacionais. Mas, contrariamente a essas grandes potências, o Estado português não apoiou este raide. Foi o povo que se mobilizou para o financiar, através de ampla subscrição pública, numa ação solidária e entusiasta que galvanizou o país
inteiro, desejoso de feitos que animassem os tempos sombrios da I República.
O raide foi sonhado e meticulosamente preparado pelos aviadores Brito Paes e Sarmento de Beires, com o apoio do mecânico Manuel Gouveia. A 2 de abril, o avião «Pátria» (um Breguet 16) dirigiu-se da Amadora para Vila Nova de Milfontes (terra a que Brito Paes estava pessoalmente ligado), pela vantagem oferecida pela pista dos Coitos, a única que garantia a descolagem segura do avião em carga plena.
Partindo a 7 de abril, os aviadores viveram momentos de elevado risco, como o da aterragem de emergência na Índia, que danificou definitivamente o avião e obrigou à aquisição de um um novo aparelho, igualmente custeado pelo povo português. Os aviadores percorreram um total de 16.760 Km em 25 etapas, até aterrarem a 20 de junho em Shum-Chum, na China, após terem sobrevoado Macau, onde não conseguiram aterrar devido a um ciclone." (leia-se tufão).
Texto da Comissão de Organização das comemorações constituída pelo Município de Odemira, Universidade do Porto e Força Aérea Portuguesa.
Os três protagonistas da travessia aérea: Sarmento Beires, Manuel Gouveia e Brito Paes, natural de Colos, concelho de Odemira, a que pertence também a freguesia de Vila Nova de Mil Fontes.

No verso o brasão de V. Nova de Mil Fontes: escudo de prata, semeado de fontes heráldicas de azul e prata e, brocante, uma cruz da Ordem de Santiago, de vermelho; planície ondeada de ouro, perfilada de verde. Coroa mural de prata de quatro torres. 

domingo, 7 de abril de 2024

"Levantou hoje vôo o Pátria"

Há 100 anos tinha início a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. O jornal A Capital (Portugal) noticiou o facto protagonizado pelos "denodados aviadores capitães Sarmento Beires e Brito Pais" na primeira página da edição de 7 de Abril de 1924 com o título "Levantou hoje vôo o Pátria". 
O mecânico e também aviador Manuel Gouveia 'apanharia' o avião um pouco mais à frente no percurso que só terminaria em meados de Junho desse ano na cidade de Macau. Foi um dos maiores feitos da avião mundial na época.
Poucos dias antes da partida em Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) o "Pátria" viera da Amadora o principal pólo da aviação em Portugal na época. 
Na fuselagem do aparelho pode ler-se "Esta é a ditosa pátria minha amada. Foi extraída do Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões, cujo quinto centenário do nascimento também se assinala este ano.

terça-feira, 12 de março de 2024

Primeira ligação aérea Portugal-Macau: medalha do 50º aniversário

Por estes dias, há 100 anos, ultimavam-se os preparativos para o que viria a ser um dos maiores feitos da aviação portuguesa e mundial. A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau. Este é um dos vários posts com que assinalarei a efeméride. 
Um telegrama da agência noticiosa Reuters, a partir de Londres no dia 2 de Abril deu a conhecer a partida ao mundo:
"London, April 2. Lisbon The Portuguese airship will depart at dawn on a projected flight to Macao."
"Londres, 2 de Abril. Lisboa Um avião português partirá de madrugada num voo que tem Macau como destino previsto."
Em 1974, no 50º aniversário da viagem, o Governo de Macau encomendou ao escultor Vasco Costa uma medalha de bronze.
Tem 8 cm de diâmetro, 4 mm de espessura e pesa 211 gramas. Brito Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia foram os protagonistas deste feito histórico a nível mundial.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Flying Around the World

Na década de 1920 vários países, oficial e oficiosamente, empenharam-se nas travessias aéreas intercontinentais. Portugal foi um deles e uma das aventuras, feita sem o apoio oficial do Estado, teve como destino Macau.
Em 1924 - faz no próximo ano um século - dois aviadores militares, José Manuel Sarmento de Beires e António Jacinto da Silva Brito Paes, acompanhados pelo mecânico Manuel Gouveia, fizeram a primeira ligação aérea entre Portugal e Macau.
Num feito notável para a aviação mundial, partiram a 7 de Abril do Campo dos Coitos (Vila Nova de Mil Fontes) e chegaram ao destino a 20 de Junho. Numa viagem muito atribulada e com recurso a duas aeronaves (com o nome Pátria) percorreram 16,760 Km - o dobro da distância da travessia do atlântico sul realizada em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral - num total de 117 horas e 41 minutos de voo.
O excerto de texto abaixo é retirado da edição de Setembro de 1924 da revista Us Air Services.
"(...) The idea of flying around the world is not new it has been the dream of aviators from the beginning and only waited development of a suitable airplane. The United States Army Air Service seriously considered the project in 1921. Sir Ross and Sir Keith Smith, the first to fly from England to Australia, also had planned to make the flight in 1921. Major Blake succeeded in reaching Akyab India in his attempt in 1922 when his plane was wrecked and his crew all but lost their lives. With the approach of 1924 came realization of the high hopes of some and the disappointment of others. The stage was set for circumnavigation of the world by air. The plans of three expeditions representing three great nations were completed and the world waited and watched with interest ready to acclaim the first to accomplish this difficult task. The first to start was the English Flight under the leadership of Capt Stuart MacLaren which left Calshot England on March 15. The British Government was not officially back of this attempt which was financed privately by the company which built the plane.
The Portuguese were next to start leaving Lisbon on April 2. This expedition, like the British, was not an official flight of the Portuguese Government being financed by the donation of Major Brito Pais and by popular subscriptions from the Portuguese people. The pilots were Major Brito Pais and Major Sarmento Beires.
The American Flight left Seattle Washington on April 6 1924 and is the only flight that represents the official effort of any of the nations represented in the race around the world. On July 26 came unexpected announcement that Major Pedro Zanni of the Argentine Army had taken off from Amsterdam, Holland to fly around the world making the fourth entry this year.
Stuart MacLaren, the gallant English man, was forced out of the competition when after a series of misfortunes he was trapped in a dense fog while attempting to fly from Petre pavlosk Kamchatka to Nikolski in the Kom andorski Islands of the North Pacific and upon landing near the shores of Behring Island August 2 his plane was hopelessly damaged MacLaren sent the following message to the Air Ministry in London. For the sake of the Royal Air Force I am sorry I failed but conditions here now are im possible for flying
The Portuguese Flight ended after a game fight against continuing misfortune at Shamiehun China near Macao, the Portuguese settlement. These airmen had suc in southeastern China ceeded in attaining their first goal after having traversed 11,000 miles in 118 hours flying time.  The crash of their plane brought to an end the hope that they could circumnavigate the globe this year.
As this is written Major Zanni commanding the Argentine Flight has reached Hanoi the capital of Indo China In attempting to take off he wrecked the plane and was trying to obtain another plane from Japan after which he hoped to follow the same route proposed by the ill fated MacLaren It is hoped he will have better weather conditions than were experienced by his predecessors.
With the landing of the Am erican World Flyers in Labrador their next stop they will again be on the American continent and although they must reach Seattle before their mission is completed they shall have covered 20,091 miles a greater distance than has ever before been flown by a single aerial expedition Though still 5,000 miles away from their goal they have placed behind them the great obstacles presented by the Pacific and Atlantic Oceans and we may therefore look forward to a successful completion of their great undertaking.(...)
in US Air Services, Setembro 1924
Monumento construído em 1992 em Vila Nova de Mil Fontes.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O raid aéreo de 1924: mais dados

Tripulado pelos oficiais da Aeronáutica Militar, Sarmento de Beires e Brito Pais, grandes impulsionadores dos “raids” aéreos portugueses nos anos 20 do século passado, o “Pátria”, um avião Breguet XVI com motor de 300cv, descolou de Vila Nova de Milfontes a 7 de Abril de 1924, rumo a Macau, que apenas acabou por sobrevoar devido a um tufão que obrigou a uma aterragem forçada na vizinha Hong Kong. 
Na viagem, os dois pilotos estiveram acompanhados pelo mecânico Manuel Gouveia que, no entanto, só se juntou à tripulação em Tunes, para onde viajara de barco. O início da viagem ficou marcado por um forte temporal que obrigou os aviadores a efectuarem escalas em Málaga e Oran, antes da chegada a Tunes. Já com Manuel Gouveia a bordo, a ligação prosseguiu sem contratempos de maior, passando por Tripoli, Homs, Benghazi, Cairo, Rayak, Bagdad, Bushire, Bender Abbas e Dsjask. Em contrapartida, na etapa até Karachi, uma montanha não registada nas cartas de navegação causou alguns calafrios aos tripulantes. A etapa seguinte, com destino a Agria, não foi mais tranquila devido a um problema grave que levaria à substituição do aparelho, depois do voo ter sido interrompido na aldeia de Budana, no percurso para Jodhpur, a 7 de Maio de 1924.
Correio da Manhã (Brasil): edição 10 Maio 1924

Após 22 dias em terra, a ligação foi retomada graças à aquisição de um aparelho, o De Haviland Liberty 9A, de 450 cv, baptizado de “Pátria II”. Na passagem por Ambala, Boumari, Calcutá, Akiab, Rangum, Banguecoque, Oubon e Hanói, a tripulação não encontrou quaisquer problemas que, ironicamente, só voltaram a aparecer na derradeira parte da viagem, rumo a Macau.
Afectado por um violento tufão, o “Pátria II” acabou por aterrar de emergência num cemitério perto de Shum-Chum, nos arredores de Hong Kong, sem que tal tenha inviabilizado o objectivo de sobrevoar efectivamente Macau, facto que aconteceu no mesmo dia - 20 de Junho. Quatro dias depois - dia de Macau, Sarmento de Beires e Brito Pais embarcaram num navio de guerra português e pisaram Macau onde tiveram uma recepção apoteótica. 
José Manuel Sarmento de Beires nasceu em Lisboa a 4 de Setembro de 1892. Frequentou o Colégio Militar e em 1916, concluiu o curso de engenheiro militar na Escola de Guerra. No ano seguinte, com a patente de alferes, terminou o primeiro curso de pilotagem militar efectuado em Portugal, e recebeu o diploma da Sociedade de Geografia de Lisboa. Após a promoção a tenente, partiu para França, integrando os Serviços de Aviação do Corpo Expedicionário Português. Em terras gaulesas, frequenta cursos de aperfeiçoamento e especializou-se em aviação de caça para regressar a Portugal em 1919, vindo a integrar o Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República. Foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal (1920). O aviador esteve também ligado ao grupo da “Seara Nova”, sendo afastado por motivos políticos, devido à oposição a Salazar, mas seria reintegrado com a patente de coronel em 1972. Foi também escritor e jornalista. O homem que um dia escreveu “a aeronáutica militar tem uma missão histórica a cumprir”, morreu em Vila Nova de Gaia a 8 de Junho de 1974.
Em cima: aterragem na Índia e vista da Praia Grande (Macau)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Empresa Cinematográfica Macaense

A 8 de Fevereiro de 1924 Lucrécia Maria Borges, Gerente da Empresa Cinematográfica Macaense (ECM), solicita ao governo para lhe ser concedido "o exclusivo da exploração da indústria cinematográfica nesta colónia”.
O pedido acabaria por ser aceite e pelo “exclusivo dessa exploração no território da Colónia pelo prazo de dez anos” a ECM ficou encarregue de realizar documentários sobre Macau, “onde serão apanhados todos os assuntos mais notáveis da vida da colónia”. 
Era uma pedra no charco mas não era a primeira vez que viriam a ser feitos filmes em Macau. Já em 1922 o Cinematógrafo Macau exibira “uma fita sobre Macau, destinada à Exposição do Rio de Janeiro” (...) “inteiramente feita por um amador, Sr. Antunes Amor.”
Ainda assim, dois anos depois de ser criada, a ECM viria a ter oportunidade de exibir os seus filmes. Foi em 1926 durante a primeira Feira e Exposição Industrial do território onde a ECM também rodou um filme em jeito de reportagem. Para que a rodagem decorresse da melhor forma, a ECM convidou o público a aparecer no recinto no dia 11 de Dezembro, penúltimo dia do certame, pelas 15 horas, “para que o filme possa ficar o mais movimentado possível”.
Esse filme seria visto apenas anos depois. Mas no evento seriam exibidos inúmeros filmes. Segundo o jornal A Pátria a 11 de Dezembro foi projectado - pela segunda vez no território - o filme "Os Fidalgos da Casa Mourisca", do romance de Júlio Dinis.
No dia seguinte, o último do evento, foram exibidos outros filmes numa sessão dedicada ao Governador Tamagnini Barbosa e ao Almirante Hugo de Lacerda.
O Almirante Hugo de Lacerda Castel-Branco foi Governador interino de Macau de 29 de Julho de 1926 até à chegada de Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, o que ocorreu somente a 8 Dezembro. Por isso a exposição foi prolongada até à meia-noite de domingo dia 12. Proveniente de Hong Kong o novo governador desembarcou com a mulher e os cinco filhos no cais provisório do novo porto exterior, sendo recebido pelas autoridades civis, militares e eclesiásticas da cidade. Seguiu-se uma visita às obras do novo porto e só depois aconteceu a tomada de posse no salão nobre do Leal Senado onde foi feita a “simbólica entrega da chave de ouro por parte do Presidente da Câmara” Damião Rodrigues. Depois, seguiu para o Palácio do Governo. À noite deu-se a visita ao certame.
Ali a ECM teve oportunidade de mostrar as suas produções.
Entre os títulos apresentados estava “O Vôo Audaz das Águias Portuguesas”, sobre a chegada a Macau dos aviadores, Major Brito Pais, Capitão-tenente Sarmento Beires e o mecânico Alferes Manuel Gouveia. Partiram de Vila Nova de Mil Fontes no dia 7 de Abril de 1924 e depois de uma viagem atribulada chegaram a Macau a 25 de Junho (um dia depois do dia do território), onde foram recebidos em grande festa pela população.
O segundo filme intitulava-se “Os Funerais de um Capitalista” e o terceiro, “Comemoração do Quarto Centenário de Vasco da Gama”, uma reportagem que inclui o desfile de um cortejo na Praia Grande, na Avenida de Vasco da Gama, junto do busto do navegador, com homenagens da Colónia, das comunidades holandesa e chinesa e dos portugueses de Hong Kong, no Leal Senado, uma missa campal e vários aspectos da iluminação na cidade e no porto.
O quarto filme era sobre “O Casamento de Mr. & Mrs. Francis Young Po Nam” e o quinto, uma produção recente, “O Voo Madrid-Manila” filmado em Maio de 1926, aquando da passagem por Macau dos aviadores espanhóis Capitão Gallarza e Loriga. 

O sexto filme da ECM a ser exibido foi “O Concílio Episcopal em Xangai”. O sétimo seria o documentário de propaganda sobre “As Obras do Porto de Macau”, uma reportagem sobre da cerimónia da dragagem do último metro cúbico de lodo do canal de acesso do novo Porto da Rada, ocorrida a 26 de Agosto de 1926 no Porto Exterior.
Vários selos da emissão ‘Ceres’ com sobrecarga local (Exposição/Industrial/1926)

Nota: No início do século XX existiam várias salas de cinema no território mas poucos exibiam filmes portugueses. O teatro D. Pedro V era um deles. Em Fevereiro de 1926, por exemplo, foram exibidos os filmes mudos portugueses “O Soldado desconhecido” e “A Rosa do Adro”.

domingo, 14 de abril de 2019

"Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada"

Depois da travessia aérea do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, três aviadores portugueses aventuram-se na tentativa de escrever mais uma vez o nome de Portugal na história da aviação mundial.  A 7 de Abril de 1924 descolam de Vila Nova de Mil Fontes (está lá uma estátua a recordar esse dia) - voaram antes oriundos da Amadora - rumo a Macau. Ou sejam, por estes dias, há 95 anos, o "Pátria" rasgava os céus em direcção a Macau...
O avião escolhido foi o Breguet 16-Bn2 com motor de 300 cavalos de potência, adquirido por subscrição pública e equipado com depósitos suplementares para aumentar a autonomia. Na fuselagem tem pintado a expressão: “Esta é a Ditosa Pátria Minha Amada”.
Ao fim de vários dias de viagem, no deserto de Thur, na Índia, o Pátria acaba por se despenhar. Estava em jogo o prestígio do país e de Lisboa depressa segue a autorização para comprar outro avião para concluir a viagem. O avião escolhido foi um DeHavilland DH-9A com um motor de 450cv, comprado por 4.700 libras e baptizado de Pátria II mas com lugar apenas para dois tripulantes. Os restos do primeiro “Pátria” foram encaixotados e enviados para Lisboa e a 30 de Maio de 1924 o “Pátria II” descolou às primeiras horas da manhã, rumo a Ambala.


No dia 20 de Junho o “Pátria II” descolou de Sontai rumo a Macau a mais de 1000 quilómetros de distância No diário de bordo escrevem:  "O motor funcionava admiravelmente, o tempo conservava a transparência de um dia de Novembro, no nosso pensamento só uma ideia vivia, só uma aspiração vibrava - chegar a Macau."
E assim parecia que ia acontecer. Só que o mau tempo pregou uma partida. «Sobe o açoite furioso dos aguaceiros densos, rompemos para o Istmo de Macau, e passamos sobre a Ilha Verde e as Portas do Cerco."
Em Macau a população em peso olha para os céus e testemunha as cores de Portugal só que o vento impede a aterragem.
"São cinco minutos de voo inacreditável, indescritível, irreal. O aparelho parece levado como uma folha de árvore, na violência do furacão"
Perante a intempérie rumam a Cantão onde fazem uma aterragem forçada junto à linha férrea (que ligava a hong Kong). Avistam um pequeno campo perto de um cemitério na aldeia Sham Chun (o rio com o mesmo nome faz a fronteira em Hong Kong e a China). Na aterragem batem numa sebe e partem a hélice e o trem de aterragem. Era o fim da viagem.

O "Pátria II" na aldeia chinesa de Sham Chum (entre Cantão e Hong Kong): Junho 1924
Debaixo de chuva, Sarmento de Beires e Brito Pais procuram ajuda. Sem ninguém que os compreenda caminham até Hong Kong onde foram recebidos pela colónia portuguesa e pelo cônsul. Por esta altura a notícia do feito alcançado já se espalhara por todo o mundo. Os jornais do dia 21 de Junho de 1924 não falam de outra coisa.
"Victoria! Brito Paes e Sarmento Beires chegaram a Macau": título da primeira página totalmente dedicada ao raide da edição de 21 de Junho de 1924 do jornal brasileiro "A Noite".
Nesse dia a canhoneira “Macau” que partira do território chega a Hong-Kong. O navio tinha andado o dia anterior em buscas para encontrar o “Pátria II” que se admitia poder ter-se despenhado no mar devido ao mau tempo. No dia 23, um grupo de mecânicos desmontou o “Pátria II” e no dia 25, Sarmento de Beires e Brito Pais, chegaram a Macau a bordo da Canhoneira. No território Sarmento de Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia foram recebidos entusiasticamente e como heróis de uma façanha nunca antes alcançada: 16.380 Km percorridos em 115 horas e 45 minutos.
Na sessão de 23 de Junho no parlamento português o feito também não passou despercebido. Na sua intervenção Jaime de Sousa diz: "Sr. Presidente: é do conhecimento de V. Exa. e da Câmara, e conhece o país inteiro, o facto extraordinário da chegada a Macau dos ilustres aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires, que em condições tam difíceis, sob o ponto de vista material, chegaram a terras nossas no Oriente, demonstrando a sua audácia e habilidade. Há quarenta e oito horas que Portugal inteiro vibra de entusiasmo por êsse rasgo de audácia. O nosso coração de portugueses regista mais uma vez as energias duma raça."
Por via do que fora alcançado nesta sessão parlamentar acaba por ser  concedida uma amnistia aos aviadores que estavam presos em S. Julião da Barra.

Na edição de 10 de Julho de 1924 da Gazeta das Colónias escreve-se:
"Terminada a viagem dos heroicos aviadores Brito Pais e Sarmento de Beires , mal apagadas ainda as ultimas manifestações do entusiasmo, em que o País inteiro vibrou, procurámos colher sobre o valôr do brilhante raid as impressões de alguem que pudesse dar-nos uma opinião segura , imparcialmente formada nos moldes da técnica, liberta de quaisquer tendencias que pudessem desvirtua-la" (...) “A Gazeta das Colonias presta hoje as suas sinceras homenagens aos intrepidos aviadores, majores Brito Pais e Sarmento de Beires e ao seu habil e dedicado mecânico, alferes Manuel Gouveia os quais pelo brilho e pela bravura com que empreenderam e rialisaram a travessia Lisboa-Macau foram lá longe, no Extremo Oriente, aviventar o prestigio do nome de Portugal e mostrar ao mundo que na velha Raça Portuguesa ainda perduram as virtudes que a tornaram grande".