Em comunicado de dia 24 último o Supremo Tribunal de Justiça anunciou a morte de Rodrigo Leal de Carvalho, 93 anos, personalidade que viveu cerca de 40 anos em Macau onde se destacou no desempenho de várias funções e como autor de vários romances cuja acção decorre no território na primeira metade do século 20
Nascido na Praia da Vitória, na Ilha Terceira, Açores, a 20 de Novembro de 1932, Rodrigo Leal de Carvalho viveu parte da infância também em Trás-os-Montes e no Algarve. Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura. Começou por trabalhar como delegado-interino na Ilha do Pico e depois em S. Tomé. Em 1959 foi para Macau - como Delegado do Ministério Público - "data da minha primeira chegada à Ponte 16 do Porto Interior, no Ferry Tai Loy". Ali viveu até 1963 quando colocado na Guiné como Juiz de Direito. Nessa função regressaria a Macau, onde viveu até 1971. Passou depois por Angola e Moçambique sendo promovido a Desembargador.
| Evento em Macau: dança do dragão |
De volta a Lisboa fez parte da Direção dos Assuntos Jurídicos do Ministério do Ultramar e em 1976 regressou mais uma vez a Macau como Procurador da República, cargo que entretanto tinha sido criado no âmbito do Estatuto Orgânico do Território (Procurador-Geral Adjunto).
Em 1995 foi nomeado Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e no ano seguinte tornou-se Presidente do Tribunal de Contas de Macau, cargo que ocupou até à transferência da Administração de Macau para a República Popular da China, regressando a Portugal em 1999.
Em Macau Rodrigo Leal de Carvalo foi ainda curador da Fundação Macau e membro do Conselho Universitário de Macau.
Em 1986 foi agraciado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Em 1993 foi galardoado pelo IPOR com o Prémio Camilo Pessanha ("Requiem por Irina Ostrakoff" que seria publicado em chinês em 1999). Em 1998 recebeu a Medalha de Valor do Governador de Macau.
Excertos de uma entrevista que fiz a RLC - quando este morava nos Açores - publicada no JTM a 9.10.2009:
- Como surge a oportunidade de rumar até Macau?
Por Vontade própria. Depois de servir em São Tomé e Príncipe, como Delegado do Procurador da República, pedi a transferência para Macau.
- Esteve quase 40 anos em Macau, de 1959 a 1999, com alguns interregnos. Como era Macau quando chegou?
Não é possível, nos limites de uma simples resposta em âmbito de entrevista, dar uma ideia de Macau nessa época. Era uma cidade serena, meio sonolenta, com o aspecto físico misto de Oriente e Ocidente, de sabor quase mediterrânico – o que teria imediatamente a seguir à IIª guerra mundial. A par de algumas Avenidas novas e bem traçadas (Av. Da República, Horta e Costa, Ouvidor Arriaga, Sidónio Pais) com vivendas caras, algumas de luxo, mantinha-se a cidade antiga, a “cidade cristã”, com amplos casarões de godão e sobrado, a par de outras mais modestas. E, espalhando-se entre as vertentes norte das colinas da Barra/Penha, e do Monte e o Porto Interior, o casario pobre do Bazar – o bairro predominantemente chinês. E entre árvores de pagode seculares os templos chineses ombreavam sem conflito com as igrejas católicas.
O mosaico demográfico e social era, pelo seu lado, colorido e heterogéneo. A par de uma comunidade chinesa predominante (calculada em 98% da população) proveniente de várias regiões da China (Kwangtung, Fukien e outras); os restantes 2% dividiam-se entre portugueses de Macau, portugueses da Metrópole (ou reinois) e com menor expressão demográfica ou social, elementos de outras etnias, origens ou nacionalidades – ingleses, americanos, russos “brancos” (refugiados da Revolução bolchevique ) paquistaneses e indianos, australianos, filipinos, malaios, indonésios, etc. etc.
A vida económica, então de reduzida expressão, estava essencialmente na mão de chineses; a vida político-administrativa era feudo dos portugueses – os lugares de chefia, na sua maioria, preenchidos por reinois, os quadros médios e inferiores por reinois e macaenses.
As relações sociais eram no geral harmoniosas e desenvolviam-se, em regra, adentro das respectivas comunidades. Em resultado das dificuldades da língua, o relacionamento entre a população portuguesa metropolitana (que não dominava o chinês) e a chinesa que não falava português, era muito reduzido – limitava-se quase só a contactos de ocasião em cerimónias oficiais, com ajuda de intérpretes, a menos que falassem inglês que era na verdade a língua franca da região. Já os contactos entre chineses e macaenses eram possíveis e quotidianos.
Não obstante estas limitações, a vida social era muito animada quer entre os portugueses (macaenses e metropolitanos) quer entre a população chinesa, seguindo todavia, modelos diferentes: enquanto os portugueses gostavam de receber nas próprias casas, os chineses e um considerável número de macaenses preferiam reunir-se em restaurantes, à volta de um Yam-cha ou de jantar, precedido de intermináveis jogos de ma-cheok. (...)
- Caracterize, comparando, as décadas de 60, 70, 80 e 90...
Anos 60:
1ª Metade: A sonolência e o preguiçoso despertar de Macau; e para mim, a surpresa e o encantamento da descoberta do Oriente.
2ª Metade. O choque traumático da Revolução Cultural.
Anos 70:
O reajustamento político às novas realidades sociais e políticas; O desenvolvimento económico e início da descaracterização da cidade. Gradual diminuição da importância das comunidades portuguesas no panorama social de Macau.
Anos 80:
Consolidação do desenvolvimento económico e destruição de grande parte do património arquitectónico de Macau. Globalização social. Conturbação política entre a Administração e a comunidade portuguesa macaense. Início dos grandes empreendimentos.
Anos 90:
A reposição da paz social. Consolidação dos grandes empreendimentos e intenso desenvolvimento turístico e económico de Macau. Inquietação da população portuguesa – e não só - sobre o seu e sobre o futuro político de Macau. A preparação para a despedida. O adeus a Macau.
Obras literárias:
Requiem por Irina Ostrakoff (1993); Os Construtores do Império (1994); A IV Cruzada (1996); Ao Serviço de Sua Majestade (1996); O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999); A Mãe (2000); O Romance de Yolanda (2005); As Rosas Brancas de Surrey (2007).






Sem comentários:
Enviar um comentário