segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"De Christiana Expeditione apud Sinas"

"De Christiana expeditione apud Sinas suscepta ab Societate Jesu" (A Expedição Cristã à China) é uma das obras mais importantes da história das missões e da sinologia. Publicado em 1615, o livro é baseado nos diários de Matteo Ricci (que viveu na China entre 1583 e em 1610 quando morreu), mas foi compilado, traduzido para o latim e editado pelo jesuíta belga Nicolas Trigault.
Antes deste livro, a Europa tinha uma visão muito fantasiosa ou fragmentada da China (muito baseada nos relatos de Marco Polo). A obra de Ricci/Trigault foi o primeiro relato científico, geográfico e cultural detalhado sobre o Império Chinês escrito por alguém que viveu lá por quase 30 anos.
O livro não fala apenas de religião, servindo também como uma enciclopédia sobre a China da Dinastia Ming. Descreve o sistema de exames imperiais (o Mandarinato) e a organização do Estado; introduz o Confucionismo ao público europeu, apresentando-o como uma filosofia moral compatível, em certa medida, com o cristianismo; relata como a astronomia e a fabricação de relógios foram usadas para abrir as portas da Cidade Proibida.
Embora o nome de Ricci seja o principal associado ao conteúdo, muitos historiadores notam que Nicolas Trigault fez mudanças importantes: "latinizou" o texto para torná-lo mais elegante e atraente para o público acadêmico europeu da época e enfatizou os sucessos da missão para garantir apoio financeiro e político na Europa.
O livro foi um sucesso imediato, sendo traduzido para o francês, alemão, espanhol e italiano em poucos anos.
A obra descreve Macau - "Amacao" - como o local onde os missionários aprendiam a língua chinesa e os costumes locais antes de tentarem entrar no continente. Refere a prosperidade da cidade devido ao comércio entre a China, o Japão e a Europa (via Portugal), destacando a convivência entre portugueses e chineses. O relato menciona que os portugueses habitavam Macau sob a autoridade dos oficiais chineses (os mandarins), a quem pagavam impostos e rendas, o que diferenciava Macau de uma colónia conquistada pela força.
Um exemplar desta obra do acervo bibliográfico da Brotéria foi recentemente restaurado com o apoio da Fundação Jorge Álvares.
Excertos (com adaptação):
"Os Portugueses ocuparam este lugar, a que chamam Amacao, há cerca de trinta anos. O nome deriva de um ídolo chamado Ama, que tinha ali um templo. É uma língua de terra cercada quase totalmente pelo mar..."

"Embora os Portugueses tenham construído ali uma cidade magnífica, com igrejas e hospitais, os Chineses nunca abdicaram da soberania. Existe uma porta [Porta do Cerco] que separa a península do continente, guardada por soldados chineses, e nenhum português a pode atravessar sem licença."

"Macau é uma península situada na embocadura do Rio das Pérolas... Um lugar onde os mercadores portugueses estabeleceram uma colónia florescente, servindo de entreposto para as sedas da China e as pratas do Japão."

"Embora os portugueses tenham construído casas e igrejas, eles reconhecem que a terra pertence ao Rei da China. Os mandarins de Cantão exercem jurisdição sobre os habitantes chineses da cidade e cobram impostos sobre as mercadorias que entram e saem."

"Os nossos padres [Jesuítas] decidiram que ninguém deveria tentar entrar no interior da China sem antes passar um tempo considerável em Macau, aprendendo não só a língua, mas também os costumes e a etiqueta dos letrados chineses."

"Em Macau, a Companhia fundou um colégio que é a nossa principal fortaleza. É dali que partem os livros e os instrumentos de matemática que tanto admiram os chineses."

"Foi em Macau que começámos a aprender a difícil língua dos Sinas e a ler os seus livros de filosofia. Sem esta base segura e a amizade dos mercadores portugueses, a entrada no interior do Reino teria sido impossível."

Sem comentários:

Enviar um comentário