quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A Las Vegas dos Pobres"

Neste post sintetizo - num artigo em português - as ideias subjacentes a alguns dos vários artigos publicados por Roy Essoyan, correspondente da agência noticiosa AP (Associated Press) em Hong Kong e Macau no final da década de 1950. O artigo está escrito como se fosse o próprio Roy o autor.
Roy Essoyan nasceu em 1919 numa aldeia de pescadores no Japão, filho de refugiados arménios que fugiram da Revolução Russa.
Cresceu em Xangai, onde frequentou a escola e desenvolveu a sua curiosidade pelo jornalismo e pela complexa política do Extremo Oriente. Antes de se tornar repórter, trabalhou num navio cargueiro dinamarquês durante mais de um ano.
Após a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para o Havai e tornou-se cidadão americano. Ao serviço da AP foi correspondente em Moscovo de onde foi expulso em 1958 pelas autoridades da União Soviética por "violação rude da censura" quando revelou a ruptura política entre a URSS e a China de Mao Zedong.
Foi então transferido para Hong Kong e Macau, locais que usou como uma "fresta" (peephole) para observar a China Comunista.
Na década de 1960 integrou a equipa de elite da AP no Vietname, reportando frequentemente a partir da linha da frente em missões de helicóptero.
Em 1965, depois de uma breve passagem pelo Cairo, assumiu a chefia das operações da AP em Beirute e terminou a carreira em 1973 como director dos serviços do Norte da Ásia em Tóquio.
Em 1985 regressou ao Havai onde se reformou. Morreu em 2012, aos 92 anos, sendo recordado como um repórter "à antiga", conhecido pela sua coragem e por desafiar a censura.
Curiosidade:
Durante uma visita à Indonésia, anos depois de Roy ter sido expulso de Moscovo, Khrushchev reparou que Essoyan estava num grupo de jornalistas e para desânimo dos outros repórteres, convidou o americano a juntar-se a ele para uma conversa privada. Enquanto conversavam em russo, Khrushchev fez um comentário desdenhoso sobre o boné de basebol de Essoyan: 'Porque é que usa esses bonés ridículos?' Essoyan respondeu colocando, por brincadeira, o boné na cabeça do líder soviético. O momento foi captado pelos fotógrafos nesse dia de 24 de Fevereiro de 1960...
Vista aérea do Porto Interior: década 1950

"Esta minúscula colónia portuguesa de seis milhas quadradas, empoleirada na ponta do continente chinês, continua a ser hoje a "fresta" mais estranha do mundo. É um lugar onde o Ocidente se encontra com o Oriente, não em conflito, mas num abraço silencioso e necessário.
Olhar através do canal estreito do Porto Interior ou estar junto da Porta do Cerco é olhar diretamente para o rosto da China Comunista. Mas, enquanto a "Cortina de Bambu" noutros locais é uma muralha de silêncio, aqui é um portão que gira sobre as dobradiças da fome.
Todas as manhãs, o ritual começa. Trabalhadores, com os rostos marcados pelo cansaço da longa jornada vinda do continente, enxameiam as docas. Carregam o sustento vital de Macau: cestos de couves, grades de porcos a guinchar e feixes de lenha. Sem esta transfusão diária do interior comunista, este entreposto português morreria de fome em quarenta e oito horas.

A Las Vegas dos Pobres
Macau é há muito apelidada de "a Las Vegas dos pobres", e a descrição permanece actual. Sob as sombras dos letreiros de néon cintilantes das casas de jogo, homens apostam as suas últimas patacas na viragem de uma carta ou no cair de um dado em jogos de Fan-Tan. O ar é espesso, com o cheiro a peixe salgado, incenso e o aroma leve e adocicado do ópio que ainda paira nos bairros mais antigos.
Mas o jogo é apenas uma máscara para uma tensão mais profunda. Por trás da fachada das casas de jogo e das redes de contrabando de ouro, esconde-se uma colónia a viver de tempo emprestado.

Um Equilíbrio Delicado
A bandeira portuguesa flutua sobre o palácio do governador, mas o verdadeiro poder faz-se sentir do outro lado da fronteira. Os comunistas poderiam tomar Macau com um único batalhão de infantaria ou simplesmente fechando a torneira da água. No entanto, não o fazem. Macau serve como um pulmão vital para o continente - um local para obter divisas estrangeiras e um ponto de contacto conveniente com o mundo exterior.
Para o ocidental parado na fronteira, a visão da "China Vermelha" é enganadora. Veem-se colinas verdes e camponeses a trabalhar a terra, com um aspecto muito semelhante ao que têm tido ao longo de séculos. Mas os guardas armados, nos seus uniformes acolchoados, observando através de binóculos, lembram-nos de que esta é a fronteira de um mundo diferente.
À medida que o sol se põe sobre o Rio das Pérolas, os barcos antes carregados de legumes afastam-se das docas para regressar ao continente. O portão fecha-se, as luzes do jogo começam a piscar e Macau acomoda-se em mais uma noite de sobrevivência inquieta na orla da Cortina de Bambu."

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