quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quadro do pessoal da Polícia de Segurança Pública: 1937

Publicado no Boletim Oficial nº 29 a 17.7.1937 o diploma nº 533 estabelece no Art. 15.º O quadro do pessoal da Polícia de Segurança Pública de Macau.
O efetivo total da corporação é composto por diversas categorias distribuídas por várias secções. O Comando conta com 1 Comandante (Capitão ou tenente do exército metropolitano com curso da arma), 3 Oficiais subalternos (tenentes do exército metropolitano), 1 Amanuense chinês, 2 Chefes, 4 Sub-chefes, 71 Agentes, 3 Apalpadeiras e 1 primeiro-cabo reformado.
Na Secretaria, encontram-se 1 Escrevente, 1 Chefe e 2 Agentes. O Conselho é constituído por 2 Sargentos, 1 Chefe, 2 Sub-chefes e 2 Agentes. A maior concentração de pessoal está nas Esquadras, Central, Secção Móvel e Secção de Trânsito, que somam 4 Sargentos, 1 Chefe, 17 Sub-chefes, 378 Agentes e 10 Serventes. A Secção Fiscal dispõe de 2 Chefes, 4 Sub-chefes, 90 Agentes e 2 Apalpadeiras. Por fim, a Secção das Ilhas integra 1 Sargento, 2 Sub-chefes e 24 Agentes.
No total geral o quadro fixa-se em: 1 Comandante, 3 Oficiais subalternos, 1 Escrevente, 1 Amanuense chinês, 7 Sargentos, 7 Chefes, 29 Sub-chefes, 567 Agentes, 5 Apalpadeiras, 10 Serventes e 1 primeiro-cabo reformado.
Observações e Notas do Quadro:
O Comandante será um "Capitão ou tenente do exército metropolitano, com o curso da arma".Já os "oficiais subalternos" serão "Tenentes do exército metropolitano".
As categorias de Escrevente e Amanuense chinês serão extintas conforme as vagas ocorram. No Conselho, existe um encarregado da arrecadação entre as patentes de Chefe e Sub-chefe. Relativamente aos Agentes das Esquadras, o número inclui uma ordenança e quatro impedidos do serviço pessoal; na Secretaria e no Conselho, estão previstas, respetivamente, duas e uma ordenança.
É especificado que o pessoal assinalado no Comando (Amanuense, Chefes, Sub-chefes, Agentes, Apalpadeiras e o cabo reformado) presta serviço no Comissariado, nas Polícias Administrativa e de Investigação Criminal enquanto não houver recrutamento directo para essas unidades. Por último, nota-se que as Apalpadeiras estão incluídas no número de auxiliares de 4.ª classe.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Fábrica de Cimento da Ilha Verde: 1886-1936

A 7 de Maio de 1886 celebrou-se o contrato entre o Seminário de S. José (proprietário) e Creasy Ewens que estabelecia, na Ilha Verde, a "Green Island Company Limited",a primeira do género na China. 
Quatro dias depois, a 11 de Maio, era concedido alvará pelo governador (1883-1886) Tomás de Sousa Rosa (1844-1918) ao solicitador judicial de Hong Kong, Creasy Ewens para o estabelecimento da referida fábrica.
"(...) "Faço saber aos que este meu alvará virem que tendo o subdito inglez, mr. Creasy Ewens, requerido licença para estabelecer uma fabrica de cimento na Ilha Verde, e não havendo inconveniente algum em se lhe conceder tal licença por isso que esta fabrica, apezar de ser um estabelecimento comprehendido na 2.ª classe mencionada no decreto de 21 de outubro de 1863, pretende instituir-se em logar despovoado, aonde nenhum damno pode causar;
Concedo, em conformidade com o artigo 4.º do citado decreto, a licença requerida, que caducará nos casos seguintes:
1.º Se a fundação do estabelecimento não começar dentro de seis mezes da data d'esta licença;
2.º Se a sua laboração não principiar dentro de dois annos, depois da mesma data;
3.º Se a laboração se interromper por mais de dois annos;
4.º Se a fabrica fôr transferida para local differente do que por este alvará é auctorisado;
5.º Se forem introduzidas no estabelecimento modificações de tal ordem, que mudem as condições designadas n'este alvará.
As auctoridades, a quem o cumprimento do presente alvará pertencer, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo de Macau, 13 de maio de 1886."
O jornal O Independente publicou a notícia a 22 de Maio de 1886.

Durante muitos anos a empresa 青洲英坭
 prosperou - e até abriu uma nova fábrica em Hong Kong - mas no início da década de 1930 as autoridades da província de Guangdong impuseram um embargo à importação de cimento e, com a perda de sua principal fonte de receita, a Green Island Cement foi forçada a fechar portas em Macau em 1936.
Postal com a legenda errada. Mostra a fábrica de Hong Kong e não a de Macau.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Important from China": The New Yorker 3.8.1839

"Important from China" é o título da notícia publicada na edição de 3 de Agosto de 1839 do jornal The New Yorker que relata os eventos que levaram à Primeira Guerra do Ópio iniciada um mês depois.
Ocorrida entre 1839 e 1842 foi um conflito entre a Grã-Bretanha e a Dinastia Qing da China. O cerne da questão residia no contrabando massivo de ópio por parte dos britânicos para o mercado chinês, uma estratégia utilizada para equilibrar a balança comercial e estancar a saída de prata em troca de produtos como o chá e a seda. O vício generalizado resultante deste tráfico causou uma grave crise social e económica na China, levando o Imperador a nomear o comissário Lin Zexu para erradicar o comércio da droga. A apreensão e destruição de milhares de caixas de ópio em Cantão serviu de pretexto para a intervenção militar britânica, que pretendia proteger os seus interesses mercantis e exigir a liberdade de comércio.
Dada a esmagadora superioridade tecnológica da Marinha Real Britânica, cujos navios a vapor e artilharia moderna neutralizaram facilmente as defesas costeiras e os juncos de guerra chineses, a China foi forçada a render-se. O conflito terminou com a assinatura do Tratado de Nanquim em 1842, o primeiro dos chamados "Tratados Desiguais". Este acordo obrigou a China a ceder a ilha de Hong Kong ao domínio britânico, a pagar indemnizações avultadas pelos custos da guerra e pelo ópio destruído, e a abrir cinco portos comerciais ao estrangeiro, acabando com o regime restritivo que anteriormente limitava o comércio apenas a Cantão. Este evento marcou o início de um período de declínio do poder imperial chinês e de crescente influência colonial das potências ocidentais na região.
Macau na época da 1ª Guerra do Ópio. Desenho de G. Chinnery

A Primeira Guerra do Ópio teve impactos profundos em Macau, alterando o seu papel económico e a sua relação com o Império Chinês. Antes do conflito, Macau era o único local onde os europeus podiam residir permanentemente dentro dos confins do império, servindo como porto de escala obrigatório e refúgio para as famílias dos mercadores que negociavam em Cantão.
Com o início das hostilidades, a neutralidade de Macau foi posta à prova. O Comissário Imperial Lin exerceu uma pressão severa sobre as autoridades portuguesas, ameaçando revistar casas e cortando o fornecimento de provisões através do forte chinês junto à muralha da barreira para garantir a expulsão dos britânicos e a apreensão de ópio. Esta dependência extrema de bens essenciais vindo do continente mantinha a colónia numa situação de "completa sujeição" e humilhação perante o governo chinês.
Economicamente, o conflito trouxe uma crise imediata. A população de Macau enfrentou uma perspectiva real de fome e miséria quando o comércio de ópio foi interrompido, já que a economia local estava profundamente ligada a este tráfico e ao apoio logístico às frotas estrangeiras. Para evitar o confisco chinês, grandes quantidades de ópio tiveram de ser reembarcadas à pressa dos armazéns da cidade para os navios ancorados ao largo.
A longo prazo, o maior impacto foi o surgimento de Hong Kong. Com o Tratado de Nanquim, os britânicos deixaram de necessitar de Macau como entreposto, transferindo as suas feitorias para a nova colónia, que possuía águas mais profundas. Este esvaziamento económico forçou Macau a procurar novas fontes de receita e motivou os governadores portugueses, anos mais tarde, a procurar uma autonomia política semelhante à que os britânicos haviam conquistado em Hong Kong.


Transcrição:

Important from China - By the arrival at this port of the ship Omega, Capt. Hilbert, from Canton, whence she sailed on the 25th March, we have the important intelligence that the ports of China have been peremptorily closed, for an indefinite period, against all foreigners and foreign trade, on account of the iniquitous and corrupting traffic in Opium, which the merchants persisted in secretly abetting against the positive and repeated orders of the Government, but which the latter has fully determined on enforcing at every cost and hazard. To this end, an Imperial Commissioner, Lin, has been sent from Pekin by the Emperor, clothed with full powers, as Viceroy of Hoo-Kwang, to take the most energetic steps for the suppression of the baneful traffic in a drug which is impoverishing the country, debasing the morals, and destroying the health and physical energies of the Chinese. His Proclamation was issued on the 18th of March, and would fill nearly a column of our paper, narrating the mischiefs and criminality of the Opium trade and the hypocrisy of the merchants, Chinese and foreign, in secretly fostering it, with a plainness, pomposity and Oriental quaintness, at once forcible and amusing.
It seems that at first the merchants considered this one of the periodical tempests of the Government on this subject, which would soon blow over; but they were quickly convinced of their mistake by the appearance, on the 22d, of a mandate, stopping entirely the foreign trade, and forbidding any foreigner to leave Canton. The Omega barely got away with much difficulty. For further intelligence, we copy from the correspondence of the Journal of Commerce:
“The next day an officer and a posse of soldiers entered the factory of Dent & Co., demanding Mr. Dent for his contumacy in not leaving the country at the orders of the Emperor. Mr. Dent not being present, Mr. Inglis went into the city with the officer, accompanied by Thom and Morrison as interpreters. Elliott sent around a circular, on the 23d, in Macao, stating that he had ordered the English part of the Opium fleet back to Hongkong, in company with the Larne sloop of war, and there to put themselves in a state of defence. He left Macao for Canton the same evening, in order to demand passports for all British subjects to leave Canton, but we have not yet heard the result. Most of the Lintin fleet have been in Macao Roads for the last few days, and to-day the Opium in Macao is all re-embarked on board ship, as the Commissioner has threatened to search all the houses in Macao for it. The port government has received orders to fit up a house for the Commissioner, and they are making ready the tavern on the Praya Grande, near the landing place, for his reception. There are 20 war junks anchored in the roads.
“The people in Macao are in great trouble, for if the Opium trade is cut off from the place, they have a sad prospect of starvation, or at least great misery, before them. But in the eradication of an evil of the magnitude of this trade we must expect much distress; if the effect is healing the empire in a measure of a deadly evil, the distress bears but a small proportion to the good. It is estimated that there are a thousand chests in the place, and property amounting to twenty millions on board ship, all of which it is expected must go to Singapore. Out of all evil our hope is that God will bring much good to the empire; we may all be driven from Canton, to return again on a better footing, and an intercourse be commenced more likely to result in mutual advantage. We are all anxiously awaiting the result of the imprisonment of foreigners in Canton, and the summoning of Mr. Inglis into the city.”

Tradução/Adaptação:

Notícias importantes da China - Com a chegada a este porto do navio Omega, sob o comando do Capitão Hilbert, vindo de Cantão, de onde zarpou a 25 de Março, recebemos a importante informação de que os portos da China foram peremptoriamente fechados, por um período indefinido, a todos os estrangeiros e ao comércio externo, devido ao tráfico iníquo e corruptor de ópio, que os mercadores persistiram em apoiar secretamente contra as ordens repetidas do governo chinês, as quais este último está totalmente determinado a fazer cumprir a qualquer custo e risco. Para este fim, um Comissário Imperial, Lin, foi enviado de Pequim pelo Imperador, investido de plenos poderes, como Vice-Rei de Hoo-Kwang, para tomar as medidas mais enérgicas para a supressão do tráfego pernicioso de uma droga que está a empobrecer o país, a degradar a moral e a destruir a saúde e as energias físicas dos chineses. A sua proclamação foi emitida a 18 de março e preencheria quase uma coluna do nosso jornal, narrando os malefícios e a criminalidade do comércio de ópio e a hipocrisia dos mercadores, chineses e estrangeiros, ao fomentá-lo secretamente, com uma clareza, pomposidade e singularidade oriental, simultaneamente contundente e curiosa.
Parece que, a princípio, os mercadores consideraram esta como uma das tempestades periódicas do imperador sobre este assunto, e que logo passaria, mas foram rapidamente convencidos do seu erro pelo aparecimento, no dia 22, de um mandato, interrompendo inteiramente o comércio externo e proibindo qualquer estrangeiro de deixar Cantão. O Omega conseguiu escapar com muita dificuldade. Para mais informações, copiamos da correspondência do Journal of Commerce o seguinte:
“No dia seguinte, um oficial e um destacamento de soldados entraram na feitoria da Dent & Co., exigindo o Sr. Dent pela sua contumácia em não deixar o país sob as ordens do Imperador. Não estando o Sr. Dent presente, o Sr. Inglis foi à cidade com o oficial, acompanhado por Thom e Morrison como intérpretes. Elliott enviou uma circular, no dia 23, em Macau, declarando ter ordenado que a parte inglesa da frota do ópio regressasse a Hong Kong, em companhia da corveta de guerra Larne, para ali se colocarem em estado de defesa. Ele partiu de Macau para Cantão na mesma noite, a fim de exigir passaportes para que todos os súbditos britânicos pudessem deixar Cantão, mas ainda não soubemos o resultado. A maior parte da frota de Lintin tem estado no fundeadouro de Macau nos últimos dias e, hoje, o ópio em Macau foi todo reembarcado nos navios, pois o Comissário ameaçou revistar todas as casas de Macau à sua procura. O governo do porto recebeu ordens para preparar uma casa para o Comissário, e estão a preparar a taberna na Praia Grande, perto do local de desembarque, para a sua recepção. Há 20 juncos de guerra ancorados no fundeadouro.
O povo de Macau está em grandes dificuldades, pois se o comércio de ópio for cortado do local, têm diante de si uma triste perspectiva de fome ou, pelo menos, de grande miséria. Mas na erradicação de um mal da magnitude deste comércio, devemos esperar muita aflição; se o efeito for curar o império de um mal mortal, a aflição representa apenas uma pequena proporção face ao bem alcançado. Estima-se que existam mil caixas no local e carga no valor de vinte milhões a bordo dos navios, prevendo-se que tudo isto tenha de seguir para Singapura. De todo o mal, a nossa esperança é que Deus traga muito bem ao império; poderemos todos ser expulsos de Cantão, para regressar novamente em melhores condições, e que se inicie uma relação com maior probabilidade de resultar em vantagem mútua. Estamos todos a aguardar ansiosamente o resultado do aprisionamento de estrangeiros em Cantão e da convocação do Sr. Inglis à cidade.”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"De Christiana Expeditione apud Sinas"

"De Christiana expeditione apud Sinas suscepta ab Societate Jesu" (A Expedição Cristã à China) é uma das obras mais importantes da história das missões e da sinologia. Publicado em 1615, o livro é baseado nos diários de Matteo Ricci (que viveu na China entre 1583 e em 1610 quando morreu), mas foi compilado, traduzido para o latim e editado pelo jesuíta belga Nicolas Trigault.
Antes deste livro, a Europa tinha uma visão muito fantasiosa ou fragmentada da China (muito baseada nos relatos de Marco Polo). A obra de Ricci/Trigault foi o primeiro relato científico, geográfico e cultural detalhado sobre o Império Chinês escrito por alguém que viveu lá por quase 30 anos.
O livro não fala apenas de religião, servindo também como uma enciclopédia sobre a China da Dinastia Ming. Descreve o sistema de exames imperiais (o Mandarinato) e a organização do Estado; introduz o Confucionismo ao público europeu, apresentando-o como uma filosofia moral compatível, em certa medida, com o cristianismo; relata como a astronomia e a fabricação de relógios foram usadas para abrir as portas da Cidade Proibida.
Embora o nome de Ricci seja o principal associado ao conteúdo, muitos historiadores notam que Nicolas Trigault fez mudanças importantes: "latinizou" o texto para torná-lo mais elegante e atraente para o público acadêmico europeu da época e enfatizou os sucessos da missão para garantir apoio financeiro e político na Europa.
O livro foi um sucesso imediato, sendo traduzido para o francês, alemão, espanhol e italiano em poucos anos.
A obra descreve Macau - "Amacao" - como o local onde os missionários aprendiam a língua chinesa e os costumes locais antes de tentarem entrar no continente. Refere a prosperidade da cidade devido ao comércio entre a China, o Japão e a Europa (via Portugal), destacando a convivência entre portugueses e chineses. O relato menciona que os portugueses habitavam Macau sob a autoridade dos oficiais chineses (os mandarins), a quem pagavam impostos e rendas, o que diferenciava Macau de uma colónia conquistada pela força.
Um exemplar desta obra do acervo bibliográfico da Brotéria foi recentemente restaurado com o apoio da Fundação Jorge Álvares.
Excertos (com adaptação):
"Os Portugueses ocuparam este lugar, a que chamam Amacao, há cerca de trinta anos. O nome deriva de um ídolo chamado Ama, que tinha ali um templo. É uma língua de terra cercada quase totalmente pelo mar..."

"Embora os Portugueses tenham construído ali uma cidade magnífica, com igrejas e hospitais, os Chineses nunca abdicaram da soberania. Existe uma porta [Porta do Cerco] que separa a península do continente, guardada por soldados chineses, e nenhum português a pode atravessar sem licença."

"Macau é uma península situada na embocadura do Rio das Pérolas... Um lugar onde os mercadores portugueses estabeleceram uma colónia florescente, servindo de entreposto para as sedas da China e as pratas do Japão."

"Embora os portugueses tenham construído casas e igrejas, eles reconhecem que a terra pertence ao Rei da China. Os mandarins de Cantão exercem jurisdição sobre os habitantes chineses da cidade e cobram impostos sobre as mercadorias que entram e saem."

"Os nossos padres [Jesuítas] decidiram que ninguém deveria tentar entrar no interior da China sem antes passar um tempo considerável em Macau, aprendendo não só a língua, mas também os costumes e a etiqueta dos letrados chineses."

"Em Macau, a Companhia fundou um colégio que é a nossa principal fortaleza. É dali que partem os livros e os instrumentos de matemática que tanto admiram os chineses."

"Foi em Macau que começámos a aprender a difícil língua dos Sinas e a ler os seus livros de filosofia. Sem esta base segura e a amizade dos mercadores portugueses, a entrada no interior do Reino teria sido impossível."

domingo, 18 de janeiro de 2026

"Carte Particuliere de l'entrée de la riviere de Canton"

Em baixo, detalhes de uma carta náutica de origem francesa elaborada no século 18, cujo original - acima - está arquivado na Biblioteca Nacional de França.
Intitulada "Carte Particuliere de l'entrée de la riviere de Canton" é uma carta náutica essencial para a navegação naqueles tempos em redor de Macau denominando-se o rio como "Cantão".
Apresenta-se a "Isle de Macao" e Xiangshan que tem como legenda como “Onmooue”, a partir da pronúncia cantonense de Aomen (Ou Mun) 澳門
A Península de Macau é designada como “Ville de Macao” (Cidade de Macau) e “Macane”, uma denominação rara, mesmo no século 18. Mostram-se ainda as ilhas da Taipa, Coloane, Lapa, Montanha, etc...
Algumas das legendas em francês:
Ville de Macao, ou Macane: cidade de Macau com o desenho a mostrar pequenos edifícios com telhados vermelhos, indicando o assentamento urbano.
Enbouchure de la Rivière: "Foz do Rio", referindo-se ao Rio das Pérolas.
I.le St. Pedro: deve ser um erro já que na época na época já era conhecida por ilha dos Padres; corresponde à Ilha da Lapa (Wanzai), situada a oeste da península de Macau.
I.le Montania ou mansanne: Ilha da Montanha (Hengqin), uma das maiores ilhas da região ao sul de Macau. Na época existiam a Pequena e Grande Hengqin.
I.le mafilecam: corresponde hoje à ilha de Xiao Hengqin (a parte norte da Ilha da Montanha) 小橫琴; em tempos antigos também foi designada por D. João; ao lado estão representadas as ilhas Pequena e Grande da Taipa; a designação é tanto mais estranha porquanto na época esta ilha já era conhecida como Macarera/Macarira/Mackkareera e as duas ilhas da Taipa por Typa Kabrado/Quebrado ou Kai Ko Ong.
I.le oukam: ilha de Coloane.
Les neuf pierres: "As nove pedras" (conhecidas hoje como Jiuzhou Liedao/Loochoo Islands),  na verdade "nove ilhas/ilhéus", perigosas para a navegação a nordeste de Macau.
Pierres d’araquin: Outro conjunto de rochedos ou baixios junto à península de Macau e que muitas das vezes só eram visíveis à superfície na maré baixa. Nomes antigos indicam Pedra Areca.
A carta (54x74cm) tem uma meia rosa-dos-ventos de 32 pontas com uma flor-de-lis indicando o norte. A escala é em léguas. O relevo é representado de forma pictórica indicando-se ainda medidas de profundidade, dado essencial para permitir a navegação em segurança. o pontilhado nas costas representa zonas de areia ou baixios (pouco profundas).

sábado, 17 de janeiro de 2026

Nanquim: "Novo cinema sonoro"

 

Uma notícia de 10 de Julho de 1933 informava que estava para breve a inauguração de "um cinema sonoro no último andar" do mercado municipal do Tarrafeiro e que iria exibir "filmes chinêzes". Na verdade viria a ficar na Rua da Ribeira do Patane. Para além de cinema também funcionou para a realização de espectáculos de "auto-china". O nome é uma homenagem à cidade chinesa de Nanking, na altura a capital da China. 
Segundo Henrique de Senna Fernandes "o teatro Nanquim, que pretendeu, no princípio, ser um cinema de estreia, reduziu-se a cinema de bairro, com filmes em reprise." Na época existiam outros cinemas como o Vitória e o Capitol.
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Nesta fotografia pode ver-se o cinema Nam King no cruzamento da Rua da Ribeira do Patane com a Rua de Cinco de Outubro. Viria a fechar na década 1950. O edifício foi demolido na década 1990.
No letreiro superior em português "CASA TOMAR CHA TAT YENG HOU" e em chinês 一定好茶樓日夜茶市, especifica "Serviço de chá dia e noite".
Por baixo o letreiro com o nome NANKING e em chinês 南京大戲院 cuja tradução à letra é  "Grande Teatro Nanjing".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Manifesto de carga da nau portuguesa Nossa Senhora do Bom Despacho: 1755

 

Lista da Carga da Na'o Portugueza chamada Nossa Senhora do Bom Despacho, que partio de Lisboa em 22. de Fevereiro de 1754, e chegou a Macão em 30. de Julho, donde sahio em 13. de Janeiro do prezente anno de 1755 e se recolheo no referido porto de Lisboa em 24 de Julho: e os referidos generos se haõ de vender em Leilaõ publico.

Coluna da Esquerda 
1267 Peças de Cabayas de 4. fios.
489 ... ditas. ... de 6. fios.
292 ... ditas. ... de 8. fios.
190 ... ditas. riscadas.
42 ... lustrinas.
50 ... riscadas.
98 Peças de Chamalotes.
298 ... Nobrezas riscadas, e flores.
45 ... ditas. de [branco]
200 Peças de meyos Gorgoroes lustrados
25 Peças de Setins.
992 ... lizos.
295 ... ditos. de [branco]
500 ... ditos. de [branco]
190 ... de duas cores, e [branco]
100 ... ditos adamafcados.
149 Peças de Damascos.
200 ... ditos. ... de [branco]
99 Peças de Gorgoroes.
503 Peças de Mellanias de flores.
343 Peças de sedas de matizes.
48 ... de Lós, e flores de ouro.
90 ... de seda
50 Lins de Nankin.
225 Cabayas pintadas.
40 ... ditas. de [branco]
68 Setins bordados.
190 Peças de lenços de 20. em peça.
7680Peças de Sedas.

150 Cortes para vestias de seda tecidos
80 Sayas de Setim bordado.
12 Mantilhas.
31 Colxas
30 ditas bordadas de sedaquinha.
14 Aventaes. (Bordadas)
14 Lenços. (Bordadas)
6 Cobertas. (Bordadas)
2000 Peças de Cangas de Nankin.

Coluna da Direita (Especiarias, Chás e Diversos)
192U321 Arrateis de Chá Boy.
215U513 ... Verde.
12U934 ... Sequim.
3U832 ... Cangubim.
17U001 ... Aiton.
1U152 ... Gobim.
3U679 ... Canfú.
1U178 ... Sevehon.
U336 ... Pego.
446U946 arrateis de Chá.
U844 Bulles de Chá de diversas qualidades.
25U516 Arrateis de concha de madre perola.
1U237 ... de Ruybarbo.
U334 ... de Goma gutta.
U256 ... Azebre.
U180 ... de Ságue de Drago.
U287 ... de Pimenta longa.
U640 ... de Aniz.
U233 ... de Trincal.
12U337 ... de Pau China.
11U330 ... de Galingalla.
49U561 ... de Páo Sapaõ.
U016 ... de Almifcar.
U023 ... de Aljofar botica.
312 Caixas, e cachões de louça de diferentes qualidades.
3 ... De cobre esmaltado
50 ... de Charões.
3 ... de Papeis pintados
2 ... de cor em pasta.
7U136 Leques de diversas qualidades.
32 Bocetas de louça.
26 ditas de cobre esmaltado.
28 ditas de Tinta de Nankin.

Esta nau descarregou em Lisboa apenas três meses antes do grande terramoto de 1 de Novembro de 1755. Muitos dos tecidos e luxos listados neste documento podem ter sido destruídos no incêndio e maremoto que se seguiram ao desastre.As minhas pesquisas indicam que pertencia a Feliciano Velho Oldemberg, o fundador da Companhia da Ásia Portuguesa, empresa de navegação com sede em Lisboa.
Uma nau portuguesa no século 18

Notas:
"U": Era utilizado em documentos comerciais portugueses do século XVIII para separar os milhares (ex: 192U321 = 192.321).
Arratel (Arrateis): Antiga unidade de peso, equivalente a aproximadamente 459 gramas.
Cabaia: Tipo de túnica ou casaco longo usado no Oriente.
Nankin: Refere-se a produtos provenientes de Nanquim, na China.
Boceta: pequena caixa ou estojo
Cabayas (Cabaias): Eram túnicas ou casacos longos, de origem oriental (muito usados na Índia e China). No documento, são listadas por "fios", o que indicava a densidade ou a qualidade da tecelagem.
Chamalotes: Um tecido luxuoso, originalmente feito de pelo de camelo ou cabra angorá misturado com seda, que apresentava um aspecto ondeado ou "furta-cor".
Nobrezas: Um tipo de seda muito fina e lustrosa, altamente valorizada para a confecção de roupas de gala.
Gorgorões: Tecidos de seda ou lã com nervuras transversais (relevos), conhecidos pela sua resistência e corpo.
Cangas de Nankin: A "canga" era um pano de algodão resistente e azul vindo de Nanquim. Era tão popular que o termo acabou por dar origem à palavra "ganga" (o denim ou jeans atual).
Chá Boy (Bohea): O termo vem das montanhas Wuyi (pronunciado Bu-yi). Na época, referia-se geralmente ao chá preto de qualidade superior.
Chá Verde: O chá não fermentado, muito apreciado pelas suas propriedades medicinais.
Chá Cangubim / Canfú: Variações de nomes chineses (como Congo ou Campoi) para diferentes graus de folhas de chá preto.
Ruybarbo (Ruibarbo): Uma das raízes mais valiosas da época, usada como purgante e para problemas digestivos. Vinha da China através de rotas perigosas.
Ságue de Drago (Sangue de Dragão): Uma resina vermelha brilhante extraída de certas palmeiras. Era usada como medicamento, verniz para madeira e até na alquimia.
Goma gutta: Uma resina amarela intensa usada como pigmento em pinturas e também como um forte laxante.
Páo Sapaõ (Pau-Sapan): Uma madeira que, ao ser fervida, soltava um corante avermelhado usado para tingir tecidos. É um "primo" botânico do Pau-Brasil.
Almifcar (Almíscar): Uma substância odorífera caríssima obtida de uma glândula do veado almiscareiro, base para os perfumes mais caros da Europa.
Charões: Refere-se a objetos de madeira ou metal revestidos com laca japonesa ou chinesa (o verniz "charão"), conhecidos pelo brilho negro profundo e decorações douradas.
Aljofar botica: "Aljôfar" refere-se a pérolas pequenas, irregulares ou moídas, que eram utilizadas em preparações farmacêuticas ("botica") da época.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A Las Vegas dos Pobres"

Neste post sintetizo - num artigo em português - as ideias subjacentes a alguns dos vários artigos publicados por Roy Essoyan, correspondente da agência noticiosa AP (Associated Press) em Hong Kong e Macau no final da década de 1950. O artigo está escrito como se fosse o próprio Roy o autor.
Roy Essoyan nasceu em 1919 numa aldeia de pescadores no Japão, filho de refugiados arménios que fugiram da Revolução Russa.
Cresceu em Xangai, onde frequentou a escola e desenvolveu a sua curiosidade pelo jornalismo e pela complexa política do Extremo Oriente. Antes de se tornar repórter, trabalhou num navio cargueiro dinamarquês durante mais de um ano.
Após a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para o Havai e tornou-se cidadão americano. Ao serviço da AP foi correspondente em Moscovo de onde foi expulso em 1958 pelas autoridades da União Soviética por "violação rude da censura" quando revelou a ruptura política entre a URSS e a China de Mao Zedong.
Foi então transferido para Hong Kong e Macau, locais que usou como uma "fresta" (peephole) para observar a China Comunista.
Na década de 1960 integrou a equipa de elite da AP no Vietname, reportando frequentemente a partir da linha da frente em missões de helicóptero.
Em 1965, depois de uma breve passagem pelo Cairo, assumiu a chefia das operações da AP em Beirute e terminou a carreira em 1973 como director dos serviços do Norte da Ásia em Tóquio.
Em 1985 regressou ao Havai onde se reformou. Morreu em 2012, aos 92 anos, sendo recordado como um repórter "à antiga", conhecido pela sua coragem e por desafiar a censura.
Curiosidade:
Durante uma visita à Indonésia, anos depois de Roy ter sido expulso de Moscovo, Khrushchev reparou que Essoyan estava num grupo de jornalistas e para desânimo dos outros repórteres, convidou o americano a juntar-se a ele para uma conversa privada. Enquanto conversavam em russo, Khrushchev fez um comentário desdenhoso sobre o boné de basebol de Essoyan: 'Porque é que usa esses bonés ridículos?' Essoyan respondeu colocando, por brincadeira, o boné na cabeça do líder soviético. O momento foi captado pelos fotógrafos nesse dia de 24 de Fevereiro de 1960...
Vista aérea do Porto Interior: década 1950

"Esta minúscula colónia portuguesa de seis milhas quadradas, empoleirada na ponta do continente chinês, continua a ser hoje a "fresta" mais estranha do mundo. É um lugar onde o Ocidente se encontra com o Oriente, não em conflito, mas num abraço silencioso e necessário.
Olhar através do canal estreito do Porto Interior ou estar junto da Porta do Cerco é olhar diretamente para o rosto da China Comunista. Mas, enquanto a "Cortina de Bambu" noutros locais é uma muralha de silêncio, aqui é um portão que gira sobre as dobradiças da fome.
Todas as manhãs, o ritual começa. Trabalhadores, com os rostos marcados pelo cansaço da longa jornada vinda do continente, enxameiam as docas. Carregam o sustento vital de Macau: cestos de couves, grades de porcos a guinchar e feixes de lenha. Sem esta transfusão diária do interior comunista, este entreposto português morreria de fome em quarenta e oito horas.

A Las Vegas dos Pobres
Macau é há muito apelidada de "a Las Vegas dos pobres", e a descrição permanece actual. Sob as sombras dos letreiros de néon cintilantes das casas de jogo, homens apostam as suas últimas patacas na viragem de uma carta ou no cair de um dado em jogos de Fan-Tan. O ar é espesso, com o cheiro a peixe salgado, incenso e o aroma leve e adocicado do ópio que ainda paira nos bairros mais antigos.
Mas o jogo é apenas uma máscara para uma tensão mais profunda. Por trás da fachada das casas de jogo e das redes de contrabando de ouro, esconde-se uma colónia a viver de tempo emprestado.

Um Equilíbrio Delicado
A bandeira portuguesa flutua sobre o palácio do governador, mas o verdadeiro poder faz-se sentir do outro lado da fronteira. Os comunistas poderiam tomar Macau com um único batalhão de infantaria ou simplesmente fechando a torneira da água. No entanto, não o fazem. Macau serve como um pulmão vital para o continente - um local para obter divisas estrangeiras e um ponto de contacto conveniente com o mundo exterior.
Para o ocidental parado na fronteira, a visão da "China Vermelha" é enganadora. Veem-se colinas verdes e camponeses a trabalhar a terra, com um aspecto muito semelhante ao que têm tido ao longo de séculos. Mas os guardas armados, nos seus uniformes acolchoados, observando através de binóculos, lembram-nos de que esta é a fronteira de um mundo diferente.
À medida que o sol se põe sobre o Rio das Pérolas, os barcos antes carregados de legumes afastam-se das docas para regressar ao continente. O portão fecha-se, as luzes do jogo começam a piscar e Macau acomoda-se em mais uma noite de sobrevivência inquieta na orla da Cortina de Bambu."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Sermão pela "troca das infantas"

"Oração, que na solemne accaõ de graças tributada na Santa Igreja Cathedral da Cidade do Nome de Deos de Maca'o na China, pelo Illustrissimo, e Reverendissimo Cabido da mesma Santa Igreja na occasiaõ dos augustissimos desposorios de suas Altezas Reaes o Serenissimo Senhor D. Joaõ Infante de Portugal com a Serenissima Senhora D. Carlota Joaquina Infanta de Hespanha, e do Serenissimo Senhor D. Gabriel Infante de Hesp. com a Serenissima Senhora D. Marianna Victoria Infanta de Portugal. Pregou o P. M. Fr. Antonio da Purificaçaõ, Lente Jubilado na Sagrada Theologia, Ex-Provincial da Provincia da Madre de Deos dos Menores Reformados da India, e Commissario Provincial dos Religiosos, e Religiosas da dita Provincia em Macáo, &c."

Este é o frontispício do livro publicado em Lisboa em 1787 e que regista uma oração (sermão) proferida na Sé catedral em Macau no ano de 1785 pelo Frei António da Purificação para celebrar o duplo casamento real entre as coroas de Portugal e Espanha. Os casamentos citados são: D. João (futuro D. João VI) com D. Carlota Joaquina e D. Gabriel de Espanha com D. Mariana Vitória de Portugal, filhos de D. Maria I de Portugal e os filhos de Carlos III de Espanha.
O episódio ficaria para a história como a "troca das infantas", uma estratégia da diplomacia para selar a paz definitiva entre as duas coroas, neutralizar ameaças evitando que a Espanha se aliasse à França contra Portugal e estabilizar as fronteiras nas colónias americanas através de laços de sangue.
D. João (Infante de Portugal) e D. Carlota Joaquina (Infanta de Espanha) viriam a ser os pais de D. Pedro I (do Brasil). D. Gabriel e D. Mariana Vitória morreram de varíola pouco tempo depois do casamento, em 1788.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os passeios de Harriet Low

A estadia de Harriet Low (1809-1877) em Macau, entre 1829 e 1833, é um dos registos históricos mais fascinantes da presença estrangeira em Macau na primeira metade do século XIX. Harriet viajou de Salem, nos Estados Unidos, para acompanhar o tio, o comerciante William Henry Low - e a tia - que trabalhava para a firma Russel & Co. Na época os comerciantes estrangeiros só podiam viver cerca de seis meses em Cantão, pelo que a restante parte do ano, viviam em Macau em casas arrendadas. Os Low viveramn o nº 2 do Pátio da Sé, ao alto da Calçada de S. João. Na altura as mulheres estrangeiras estavam proibidas de entrar em Cantão. Ainda assim, Harriet desafiou a proibição... 
Os dias em Macau ficaram marcada por bailes, visitas sociais e a constante observação das dinâmicas entre as comunidades chinesa, portuguesa e inglesa.

Vista parcial de uma pintura de G. Chinnery em 1833

Harriet passava grande parte do tempo em visitas sociais - era habitual trocar visitas com outras famílias de mercadores ingleses e americanos - para tomar chá, refeições, bailes...; passeios por Macau, em especial na Praia Grande, ao fim da tarde, quando o calor diminuía, a elite estrangeira passeava pela marginal (a Praia Grande) para apanhar ar fresco. Sendo protestante Harriet também frequentava os cultos do missionário Robert Morrison.
Também teve algumas aulas de pintura com Chinnery para quem pouso para um retrato finalizado em 1833.
Em casa Harriet lia e escrevia cartas à família e o diário. Estes dois tipos de registos permitem fazer uma retrato físico e social de Macau na época. Em 1829 Harriet tinha apenas 20 anos...
imagem criada por IA

Algumas 'entradas' do diário de H. L. que traduzi/adaptei para português...

30 Setembro 1829, quarta-feira (chegada a Macau)

"Macao from the sea looks beautiful, with some most romantic spots. We arrived there about ten o'clock, took sedan chairs and went to our house, which we liked the looks of very much. The streets of Macao are narrow and irregular, but we have a garden in which I anticipate much pleasure." 

"Macau vista do mar é linda, com alguns pontos muito românticos. Chegamos lá cerca das dez horas, pegamos nas cadeirinhas e fomos para nossa casa, de cuja aparência gostamos muito. As ruas de Macau são estreitas e irregulares, mas temos um jardim no qual prevejo muito regozijo."  

18 Outubro 1829, domingo (Passeio na Praia Grande)

"I forgot to tell you of the walk we had yesterday afternoon. We went out with the coolie, and he took us all round the Praya Grande, over a great hill, and back through the town, — a monstrous walk, and for the first one it was terrible. It is so long since we have walked that it overcame us all. The streets here are intolerable, — hilly, irregular, and horribly paved. We met no one but Portuguese and Chinamen, who annoyed us very much by their intent gaze. On our way, however, we saw two of their women with small feet. I was perfectly astonished, although I had heard so much of them; but I never believed it, and always supposed I must be deceived. (...)"

"Esqueci-me de te contar da caminhada que fizemos ontem tarde. Saímos com o coolie, e ele levou-nos pela Praia Grande, ao longo de um grande colina, e de volta pela cidade, - um monstruoso passeio, e para primeiro foi terrível. Há muito tempo que não andávamos e ficámos arrasados. As ruas aqui são intoleráveis, acidentadas, irregulares, e horrivelmente pavimentadas. Não vimos ninguém a não ser portugueses e chineses, que nos incomodavam muito com a forma fixa com que nos olhavam. No passeio vimos ainda duas mulheres chinesas com pés pequenos. Fiquei totalmente surpreendida, embora já tivesse ouvido muito sobre elas, nunca acreditei, e sempre supus não ser possível"
A Praia Grande na época de Harriet
Guache sobre papel - autor anónimo

27 Outubro 1829, terça-feira (Passeio no Campo - zona do Tap Seac)

"We went to the Campo, a beautiful place. The Campo is out of the town some way, is between two high hills, and the sea washing up on side. I ascended one of the hills, which is very high, and on looking round, found my party at great distance below. They had not followed my rash steps, but I was not sorry. It was a perfect spot and I shall try it again."  

"Fomos ao Campo, um lugar lindo. O Campo fica a alguma distância fora da cidade, entre duas colinas altas, com o mar a bater-lhe de lado. Subi uma das colinas, que é muito elevada, e ao olhar em volta, encontrei o grupo com quem passeava a uma grande distância mais abaixo. Eles não tinham acompanhado os meus passos precipitados, mas mão me arrependi. Era um local perfeito e eu vou lá voltar."

Visita à Casa Garden /Jardim Camões (na altura arrendado a uma empresa estrangeira)

"Tuesday we were invited to Mrs. F. 's, to take tea and walk in the garden. It is the most romantic place, is very extensive, and abounds in serpentine walks. There is a beautiful view of the sea, and immense rocks and trees, and several temples in the garden. In another part there is a cave in the rocks where the celebrated Camoens wrote his "Lusiad. " A bust of him stands in the cave. It is a wild and delightful spot." 

"Na terça-feira, fomos convidados para a casa da Sra. F. para tomar chá e passear pelo jardim. É um lugar extremamente romântico, muito extenso e repleto de caminhos sinuosos. Há uma bela vista para o mar, rochas e árvores imensas, e vários templos no jardim. Numa outra parte, há uma gruta nas rochas onde o célebre Camões escreveu os seus "Lusíadas". Um busto dele está na gruta. É um lugar selvagem e encantador."

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

"Macao" no mapa do "Reino do Annam" ou Tonquim

Capa do livro publicado em Roma em 1650 que é um relato missionário jesuíta sobre Tunchino (Tonquim), zona norte do actual Vietname.
RELAZIONE De' felici successi della Santa Fede PREDICATA DA' PADRI DELLA Compagnia di GIESV NEL REGNO DI TVNCHINO, ALLA SANTITA' DI N. S. PP. INNOCENZIO DECIMO. DI ALESSANDRO DE RHODES AVIGNONESE Della medesima Compagnia, e Missionário Apostolico della Sacra Congregatione de Propaganda Fide.
In ROMA, Per Giuseppe Luna. L'anno del Giubileo 1650. Con licenza de' Superiori. Donum Auctoris.

RELAÇÃO Dos felizes sucessos da Santa Fé PREGADA PELOS PADRES DA Companhia de JESUS NO REINO DO TONQUIM, À Santidade de Nosso Senhor Papa INOCÊNCIO DÉCIMO. POR ALEXANDRE DE RHODES, AVINHONES Da mesma Companhia, e Missionário Apostólico da Sagrada Congregação de Propaganda Fide.
Em ROMA, Por Giuseppe Luna. No ano do Jubileu de 1650. Com licença dos Superiores. Oferta do Autor.
O livro inclui este mapa onde o foco é o Reino do Annam/Tonquim. É considerado na época um dos registos cartográficos mais importantes do Sudeste Asiático. "Macao" está assinalado no canto inferior direito.
Missionário da Cochinchina, o padre jesuíta francês Alexandre de Rhodes (1591-1660) viveu largos anos em Macau, território que serviu de base para as viagens missionários que fez na região.

domingo, 11 de janeiro de 2026

"Cornelius Suhr’s malerische Reise um die Welt"

Este documento é um anúncio de 1841 para uma exposição de 'arte panorâmica' em Leipzig, Alemanha, que incluía pinturas de locais como Macau, Cantão, Constantinopla, Estocolmo, Paris, Nápoles e Londres.
Transcrição (Alemão)
Cornelius Suhr’s malerische Reise um die Welt ist während dieser Messe hierfelbst einem verehrten Publikum zur Ansicht ausgestellt. Sie enthält: mehrere der merkwürdigsten Hauptstädte Europa's, die See mit deren Schifffahrt und die schönsten Gegenden der Welt.
Unter diesen findet man vieles Neue und Interessante, indem ich, als Maler derselben, stets Rücksicht auf die neuesten Ereignisse nehme, um diese Ausstellung für den Besuch der Kunstfreunde so genussreich wie möglich zu machen, und so gleichsam eine Reise um die Welt zu bilden.
Die Haupt-Gegenstände sind:
Eine Seeschlacht der Chinesen mit den Engländern in der Anson-Bay am 7. Januar 1841.
Macao in China.
Der grosse Tempel in Macao.
Die Factoreien in Canton am Tigrisflusse.
Constantinopel, ein volles Rundgemälde.
Stockholm.
Das Palais Royal in Paris.
Paris.
Neapel mit dem rauchenden Vesuv.
London.
Der grosse Schiffbauplatz in Rostock.
Die Colonne Trajano in Rom.
Eintrittspreis 5 Ngr. Kinder die Hälfte. Cornelius Suhr, Ehren-Mitglied der Patriotischen Gesellschaft zur Beförderung der Künste in Hamburg.

Tradução 
A Jornada Pitoresca de Cornelius Suhr à Volta do Mundo está em exibição para o distinto público durante esta feira. Ela contém: várias das mais notáveis capitais da Europa, o mar com sua navegação e as mais belas regiões do mundo.
Entre elas encontra-se muito de novo e interessante, pois eu, como pintor das mesmas, sempre levo em conta os acontecimentos mais recentes, a fim de tornar esta exposição o mais prazerosa possível para a visita dos amigos da arte e, assim, formar, por assim dizer, uma viagem ao redor do mundo.
Os objetos principais são:
Uma batalha naval dos chineses contra os ingleses na Baía de Anson em 7 de janeiro de 1841.
Macau na China.
O grande Templo em Macau.
As feitorias em Cantão no Rio Tigre.
Constantinopla, uma pintura panorâmica completa.
Estocolmo.
O Palais Royal em Paris.
Paris.
Nápoles com o Vesúvio fumegante.
Londres.
O grande estaleiro em Rostock.
A Coluna de Trajano em Roma.
A exposição está localizada na Rossplatz, no Jardim de Reimer, na barraca 4... aberta o dia todo até as 9 horas da noite.
Preço da entrada: 5 Ngr (Neugroschen). Crianças pagam metade. Cornelius Suhr, Membro honorário da Sociedade Patriótica para a Promoção das Artes em Hamburgo.

Contexto Histórico
Cornelius Suhr (1781-1857) e o irmão Peter foram dois nomes de relevo no mundo das artes em Hamburgo. Naquela época - quando a fotografia ainda dava os primeiros passos - estas exposições de pinturas em grande formato (às vezes giravam ou eram iluminadas de forma especial.. os chamados cosmoramas) eram a principal forma de "turismo visual" para o público europeu. Em Inglaterra também eram muito concorridas. Os artistas referidos não estiveram nos locais, baseavam os seus trabalhos noutros existentes na época, como as ilustrações de Thomas Allom. Existem registos de os irmãos terem publicado um livro/catálogo intitulado "Malerische Reise um die Welt" com litografias das ilustrações expostas acompanhadas de pequenos textos. 
A ilustração "Macau na China" é acompanhada de um texto que remete para a ilustração de Thomas Allom (imagem acima): 

"Eine weite Aussicht über die Stadt mit ihren Festungen, den Canton-Fluß mit seinen bergigen Inseln. Der Standpunkt ist auf einer Höhe, wo der Begräbnißplatz befindlich, auf welchem eine Beerdigung mit den dort gebräuchlichen Ceremonieen stattfindet."

"Uma ampla vista sobre a cidade com as suas fortalezas, o Rio de Cantão com as suas ilhas montanhosas. O ponto de vista situa-se num local elevado, onde se encontra o cemitério, no qual está a decorrer um funeral com as cerimónias ali habituais."

O "grande templo de Macau" referido é o templo de A-Ma situado "na entrada do Porto Interior" (an dem Eingange des innern Hafens). No texto pode ler-se: "O grande Templo em Macau com a vista sobre o porto interior e uma parte da cidade. Na praça em frente ao Templo veem-se dois mastros muito altos de abeto e cedro, com bandeirolas e estandartes compridos, que são hasteados em honra do ídolo no interior do Templo, etc."
A descrição é bastante clara e remete para a ilustração abaixo, também da autoria de Thomas Allom.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Macau num mapa da costa da província de Guangdong

Em cima Macau num excerto de um mapa maior de origem chinesa intitulado 廣東沿海統屬圖, ou seja, Mapa geral da costa da Província de Guangdong. Indica como data de produção 嘉慶二十四年, o 24.º ano do reinado de Jiaqing (Dinastia Qing), isto é, 1819.
No topo está na escrita tradicional, lida da direita para a esquerda: 門澳 (Mén Ào), ou seja, 澳門 (Àomén) cuja tradução é Porta da Baía, isto é, Macau.
Ao centro - entre as representações de vários edifícios - estão os caracteres chineses 三巴寺 que significam Templo/Igreja de São Paulo. 三巴 é a transliteração de Sanba/S. Paulo, a antiga Igreja da Madre de Deus (cujas ruínas são hoje o ex-líbris de Macau).
O texto seguinte - caracteres chineses na vertical no canto inferiro direito - descreve algumas rotas marítimas e distâncias: 三巴起由外海至崖門約有一百五六十里大小船至新會縣七十里
A tradução é:
"A partir de São Paulo [Macau], seguindo pelo mar exterior até Yamen [Porta das Falésias], são cerca de 150 a 160 li. Para barcos de todos os tamanhos chegarem ao condado de Xinhui (a partir de Yamen), são 70 li."
Nota: Macau ocupa uma área importante no sul do condado de Xiangshan. Pode ver-se a Porta do Cerco (fronteira terrestre) ainda na versão da construção chinesa, as muralhas da cidade e a representação de alguns edifícios dentro da muralha. Um deles é a Igreja Mater Dei. Interpreto esta inclusão por ser uma referência visual em termos de navegação costeira. Fora da muralha está representado um edifício que poderá ser uma referência ao templo de A-Ma.
"Li" é a antiga unidade chinesa de distância; 1 Li corresponde a cerca de 500 metros. Assim, indica-se que de Macau a Yamen/actual Jiangmen (崖門-Porta das Falésias) no distrito de Xinhui (Jiangmen) era uma distância de cerca de 90 km. Dali para chegar ao centro urbano do Condado de Xinhui (新會縣) a distância era de 42 km.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Vestígios Sagrados de Macau" por Gao Jianfu

Esta pintura das Ruínas de S. Paulo (aguarela e tinta da china - 43.5 x 46.5 cm) é uma das últimas obras da autoria do conceituado pintor Gao Jianfu (1879-1951), nome maior da pintura chinesa moderna com fortes ligações a Macau. 
Produzida ca. 1950 inclui elementos das pinturas ocidental e chinesa evidenciando-se o domínio da técnica de caligrafia chinesa e da pintura de paisagem, incluindo árvores, animais e figuras humanas.
A fachada da igreja Mater Dei é apresentada numa perspectiva pouco habitual sendo vista a partir da Calçada de S. Paulo, aparesentando-se à direita o templo de Na Tcha.
No topo os caracteres na horizontal 馬交聖蹟 significam "Vestígios Sagrados de Macau". Em baixo para além da assinatura do pintor está um poema.
O texto começa com a identificação do local: 三巴門外 que significa "Fora da Porta de São Paulo". Segue-se uma descrição da atmosfera do local evocando a passagem do tempo e a decadência da antiga glória do Colégio e Igreja de São Paulo, mencionando o contraste entre as pedras sobreviventes e a vida humilde que se instalou ao seu redor. Referem-se ainda "vendedores" e "trabalhadores" (como os carregadores que vê na pintura) que circulavam naquelas ruas estreitas em meados do século 20.

Detalhe da 'assinatura' da pintura no canto inferior esquerdo: 
Caracteres pretos na vertical 劍父 (Jiànfù) e carimbo vermelho em estilo de sinete.

Nascido em Panyu (Cantão), Gao Jianfu (em chinês: 高劍父/ "Gou Gim Fu" é reconhecido por liderar o esforço da Escola Lingnan para modernizar a pintura tradicional chinesa como uma "nova arte nacional".
Aos treze anos ingressou no atelier do artista chinês Ju Lian, em Lishan, onde serviu como seu aprendiz durante os sete anos seguintes. Durante este período, Gao Jianfu pintou num estilo semelhante ao do mestre: vibrante, colorido e realista. Os temas das suas pinturas eram sobretudo pássaros, flores e paisagens[3]. No estúdio de Ju Lian, Gao Jianfu tornou-se amigo próximo de Chen Shuren, também ele artista.
Em 1903, Gao Jianfu começou a trabalhar com o pintor e colecionador Wu Deyi tendo os primeiros contactos com a pintura tradicional chinesa.
Estudou no Canton Christian College, hoje conhecido como Universidade de Lingnan. Dois dos seus professores mais influentes foram "um professor francês de pintura conhecido apenas pelo seu nome chinês, Mai La," e Yamamoto Baigai, um dos muitos professores japoneses que então viviam na China. Profundamente inspirado pelos seus professores, Jianfu viria a viajar para Tóquio no inverno de 1906 mas seria uma curta estadia. Devido à falta de recursos regressou a Cantão para passar o verão. Em 1907 regressou a Tóquio com o seu irmão de dezanove anos, Gao Qifeng, tendo convivido com o amigo Chen Shuren.
Durante a sua estadia no Japão, os três homens foram expostos aos debates nacionalistas "que então ocorriam no mundo da arte japonesa sobre o impacto modernizador da arte ocidental nas tradições artísticas locais do Japão". Jianfu interessou-se pelas sínteses das abordagens ocidentais e tradicionais, que eram paralelas ao trabalho no mundo da arte contemporânea japonesa. Jianfu, juntamente com os seus pares da Escola Lingnan, viu esta mistura de estilos como um modelo para a arte nacional moderna. Muitos dos estudantes da Lingnan juntaram-se ao movimento anti-Manchu de Sun Yat-sen, um movimento nacionalista revolucionário. Mais tarde, Gao juntou-se ao Corpo de Assassinos Chinês, um grupo anarquista chinês.
Em 1912, após a queda dos manchus, Gao Jianfu e o seu irmão mudaram-se para Xangai. Começaram a publicar um jornal intitulado Zhen xiang huabao (O Registo Verdadeiro). A publicação apresentava artigos sobre arte e política, bem como ensaios que promoviam uma nova arte nacional modernizada na China. Embora tenha durado apenas um ano, o jornal foi um dos primeiros a levar a arte ao grande público. Os irmãos defendiam o apoio governamental às artes e abriram a primeira galeria pública do país para a exposição e venda de obras de arte, a Livraria Estética. Em 1918 saíram de Xangai e foram para Cantão onde em 1923 fundaram a Academia de Arte do Despertar da Primavera em Cantão.
Em 1929 Jianfu foi acusado de sentimentos xenófobos durante o seu período como principal organizador da primeira Exposição Nacional de Arte do governo, realizada em Nanquim. Devido à grande importância da Escola Lingnan, houve uma reação hostil à inclusão de tendências artísticas não chinesas.
Em 1936, Jianfu começou a lecionar na Universidade Sun Yat-sen. Continuou a publicar artigos, nos quais defendia o seu conceito de nova arte nacional. Sugeriu que a pintura nacional abandonasse o "elitismo" da arte tradicional e se envolvesse mais directamente com o público chinês. Com a invasão da China pelo Japão em 1937 Gao Jianfu deixou Cantão e foi para Macau em 1938 onde viveu até 1945. Regressaria a Cantão onde viveu até 1949. Com a chegado ao poder de Tsé-Tung em 1949 fugiu novamente para Macau onde fundou uma escola e viria a morrer a 22 de Maio de 1951. Gao Jianfu legou a Macau um grande número de obras que constituem um verdadeiro tesouro artístico do território e tem sido exibidas em várias exposições.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Placa toponímica da "Calçada do Monte"

Na actual placa toponímica da "Calçada do Monte" (em português) os caracteres chineses são 大砲台正街.
大 (Dà) significa grande.
砲台 (Pàotái): significa fortaleza ou forte.
斜巷 (Xié xiàng): significa "travessa inclinada"
Pode traduzir-se por "Travessa inclinada da grande Fortaleza", ou seja, a calçada de acesso à Fortaleza do Monte.
Em placas toponímicas mais antigas a designação em português é a mesma mas a designação em chinês é ligeiramente diferente. Inclui os caracteres 大砲台正街 cuja tradução literal para português é: "Rua Principal da Grande Fortaleza". 
De facto em tempos antigos este era um dos principais acessos à Fortaleza do Monte. O topónimo remonta a pelo menos 1867, ano em que se encontra referido na edição de 18 de Março do Boletim da Província de Macau e Timor: "Grandes festas tiveram logar nos dias passados no Matapau, Calçada do Monte e Rua Formosa por occasião do casamento de um filho do rico negociante china Senqua. (...)"

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Estrada do littoral"

Em Abril de 1884 no "ante-projecto" para o melhoramento do Porto de Macau, o engenheiro Adolpho Loureiro defende a criação de uma estrada litoral que ligasse a zona da Praia Grande com o Porto Interior. Nessa altura a estrada que existia terminava na zona da fortaleza do Bom Parto. O projecto viria a ficar pronto por volta de 1910 passando esse troço de estrada a chamar-se Avenida da República. Já as obras do porto foram feitas por fases. Algumas poucas ainda no final do século 19 no Porto Interior, sendo que a grande empreitada só arrancou já na década de 1920.
Detalhe de um mapa de 1889 onde assinalei o troço que faltava da "estrada do littoral"

Estrada do littoral
Toda a peninsula está hoje circumdada de uma estrada littoral muito commoda e pittoresca, com excepção somente da Praia Grande até å fortaleza da barra e porto interior. Julgo conveniente preencher esta lacuna e indico na planta geral a estrada que entendo deve ser construida desde a ponta do Bom Parto até á do Mainato e d'aqui até á barra.
Esta estrada será sustentada por uma muralha ou muro de supporte do lado do mar. Um aterro terminado para o interior em talude de 3:2 e de 16m de largura constituirá a avenida que em continuação da da Praia Grande deve ser levada à fortaleza da barra .
Será talvez util abandonar aquelle forte e estabelecer uma obra militar um pouco acima e com mais valor defensivo do que o d'elle.
A estrada, porém, depois de passada a ponta da Bahia do Bispo, deve ser levada por terreno superior aos prea mares havendo todo o cuidado em conservar as restingas que eriçam aquella parte da costa e que funccionam como um verdadeiro quebra mar que destroe a força da vaga e quebra a ondulação para o interior do porto.
Reputo esta obra muito util mas entendi não dever occupar-me do traçado d'este lanço de estrada cujo estudo e execução deve competir á direcção das obras publicas.
Adolfo Ferreira Loureiro (1836-1911), militar, engenheiro, escritor, poeta e político, bacharel em Matemática em 1856 e em Engenharia Civil em 1859. Entrou na escola do Exército em 1858 tendo seguido a carreira militar. Em 1883 foi em Comissão à Índia Britânica, a Ceilão, Singapura, China e Macau.
Chegou a Macau em 1883, como Capitão de Engenharia e Major do Estado Maior, tendo como missão resolver o problema do assoreamento do porto de Macau. Elaborou o projecto dos aterros do porto interior que foi depois várias veze alterado. Ainda assim, o seu trabalho foi elogiado tendo em 1884 recebido do Leal Senado a honra de ter o seu nome num arruamento executado entre 1882 e 1883, a Estrada de Adolfo Loureiro.
Apoiado pelo Partido Progressista, foi eleito Deputado para Legislatura de 1890, pelo 1.° Círculo Eleitoral de Macau, de que prestou juramento a 15 de Janeiro de 1890, e, na Legislatura de 1890-1892, representou o referido Círculo Eleitoral como Deputado da Legislatura anterior, até ao dia 27 de Maio de 1890.
Foi autor de mais de duas dezenas de publicações de carácter literário e profissional, sendo a mais notável o seu diário de viagem "No Oriente: De Nápoles à China", publicado em Lisboa em dois volumes em 1896 e 1897.
Dessa viagem Adolfo Loureiro deixou ainda 6 álbuns inéditos com 545 fotografias em albuminas originais da viagem: fotografias de portos caminhos de ferro, pontes, monumentos, arte, povos e costumes, paisagens, edifícios, etc. Porventura a sua ideia era também as publicar o que nunca aconteceu.