domingo, 18 de setembro de 2022

"Visits to Macao" em 1835

Visits to Macao are often made by the residents in Canton. The passage-boats, viz: Union, Sylph, and St. George, in comparison with the inside chop-boats of the last century, afford strong inducements to try a change of air and place. By circular it is announced that the "Union" will leave for Kumsing moon and Macao tomorrow at 5 p. m. precisely.” Wednesday , August 12 th.
The passage down the river brings the traveler in view of sights and wonders which can be known only by ocular demonstration. The two Follies, with heads of tigers; the boats of many sorts and sizes; the imperial navy yard ; men-of-war, with barn-doors for helms; fish-stakes; Howqua’s fort, built like a hencoop; the half-way pagoda, &c.; form the landmarks to Whampoa, which we reached in one hour from Canton; having passed in the mean¬ time one of his Siamese majesty's ships bearing tribute.
At 11 o'clock the wind failed, the tide turned, and brought us to an anchor, two miles above Tiger island. Under weigh at 5 in the morning: at half-past 3 p.m. met the Sylph, and exchanged letters; at 4, had a smuggler alongside, with sixty oars and eighty men: wrecks aud relics of the typhoon; a human body floating down the river; anchor in the moon; the fankwci neujin, alias, foreign ladies; an arrival; news; reach Macao; tankea lasses; Chinese custom-house. Friday , August 14 th.

Walks about Macao: Praya Grande; Bishop's walk; bathing in the great ocean; groupers and sole fish; awful havoc made by the late gale; unroofed houses; beggars; ride to the barrier; the Manila and Java ponies; an Arabian horse; Chinese horsemanship. Saturday , August 15th .
The extent of the settlement is less than three miles in length and one in breadth: its topography; how obtained by the Portuguese; its early history ; character of the first adventurers; inner harbor; Typa; Green island. Monday , August 17 th.

Population: Portuguese, say from 4600 a 4700, of these 2600 a 2700 are females, 800 a 900 are slaves, and 300 are soldiers; Chinese population 30,000; education ; great want of good schools ; the newspaper; lack of enterprise, and the causes of it; masquerade; a Caffre with a Jews-harp; vespers. Thursday, August 20 th.

Government of Macao: its precarious footing; its relation to the Chinese and foreign powers not well defined; advantages of being independent of the Chinese and of maintaining amicable feelings towards foreigners; the governor; judge; senate; the king of England’s commissioners. Monday, August 24 th.

The public buildings are old and decayed, and some of them are in ruins. Forts and churches are numerous, and a numerous clergy is connected with the former. The college of St. Joseph has seen its best days; the 'British museum’is defunct; and the cave of Camoens deserted. The aviary and ‘humerous Elogart ’ are not to be forgotten: nevertheless the lions are soon ‘ exhaust,’ and ‘ Macao after all is a dull place,’—not so to me. I shall start for Canton early Monday morning.

Artigo publicado no jornal The Chinese Repository em Outubro de 1835 embora sejam uma compilação de pequenas notícias de Agosto desse ano. Na verdade são excertos de um diário. Segue-se uma tradução/adaptação.
Praia Grande em meados do séc. 19. Espólio S.G.L.

Os residentes de Macau viajam frequentemente até Macau. Os barcos de passagem, a saber: Union, Sylph e St. George, em comparação com os chop-boats domésticos do século passado, são um grande atractivo para mudar de ares. Por circular é anunciado que o "Union" partirá para Kumsing e Macau amanhã às 17h.  precisamente.” Quarta-feira, 12 de agosto.
A passagem pelo rio proporciona ao viajante paisagens e maravilhas que só podem ser apreciadas in loco. As duas Follies, com cabeças de tigres; os barcos de vários tipos e tamanhos; o estaleiro da marinha imperial; navios de guerra, com portas de celeiro para leme; estacas de peixe; o forte de Howqua, construído como um galinheiro; o pagode a meio caminho, etc.; desde as 'marcas' até Whampoa, chegamos em uma hora a Cantão; tendo passado nesse percurso um dos navios de sua majestade do Sião carregando tributo.
Às 11 horas o vento parou, a maré virou e baixamos âncora, duas milhas acima da ilha do Tigre. Mais leves às 5 da manhã, às 15h30 encontramos o Sylph, e houve troca de correspondência entre as duas embarcações; às 4 da tarde, tinhamos um contrabandista ao lado, com sessenta remos e oitenta homens: destroços e relíquias do tufão; um corpo humano flutuando rio abaixo; âncora na lua; a fankwci neujin, aliás, senhoras estrangeiras; uma chegada; notícia; chegar a Macau; moças dos tancares; Alfândega chinesa. Sexta-feira, 14 de agosto.

Passeios por Macau: Praia Grande; passeio do bispo; banho no grande oceano; garoupas e linguados; terrível estrago feito pelo vendaval tardio; casas sem teto; mendigos; passeio até à Porta do Cerco; os pôneis de Manila e Java; um cavalo árabe; equitação chinesa. Sábado, 15 de agosto.
A extensão do território de Macau é inferior a três milhas de comprimento e uma de largura: a topografia; como obtido pelos portugueses; sua história inicial; caráter dos primeiros aventureiros; porto interno; Tipo; Ilha Verde. Segunda-feira, 17 de agosto.

População: portugueses, digamos de 4600 a 4700, destes 2600 a 2700 são mulheres, 800 a 900 são escravos e 300 são soldados; população chinesa 30.000; Educação; grande falta de boas escolas; o jornal; falta de empreendimento e suas causas; mascarada; um Caffre com uma harpa judia; vésperas. Quinta-feira, 20 de agosto.

Governo de Macau: a sua situação precária; sua relação com as potências chinesas e estrangeiras não está bem definida; vantagens de ser independente dos chineses e de manter sentimentos amigáveis ​​em relação aos estrangeiros; o governador; juiz; senado; os comissários do rei da Inglaterra. Segunda-feira, 24 de agosto.

Os edifícios públicos são antigos e decadentes, e alguns deles estão em ruínas. Fortes e igrejas são numerosos, bem como o clero. O colégio de São José já viu melhores dias; o 'Museu Britânico' está extinto; e a gruta de Camões deserta. O aviário e o “humero Elogart” não devem ser esquecidos: no entanto, as grandes atracções depressa se esgotam e “Macau afinal é um lugar monótono” – não para mim. Vou partir para Cantão na manhã de segunda-feira.


sábado, 17 de setembro de 2022

Os "reis" e os "avos"

A 1 de Setembro de 1894, através da Portaria n° 172 (31.8.1894) do Governo da Província de Macau e Timor, toda a contabilidade oficial de Macau passou a ser elaborada com base na moeda local, ou seja, patacas, substituindo assim moeda oficial portuguesa, o real, que embora nunca tivesse circulado no território, era a moeda de referência utilizada nas contas públicas.
Esta profunda alteração teve reflexos em múltiplas situações, nomeadamente nos selos e bilhetes postais, que tiveram de ser alterados para avos de pataca. Assim, o governo de Macau (Portaria nº189 de 14.9.1894) determina que os selos em curso na época (os de D Luís fita direita) fossem 'sobrecarregados' na moeda local publicando para o efeito uma tabela de equivalência feita tendo por base o câmbio que então vigorava que era de 1 avo para 6.40 reis.

Estes selos entram em circulação a 1 de Novembro de 1894 

Refira-se que nessa altura chegaram a Macau os selos de D. Carlos I (tipo Diogo Neto), impressos muitos antes das alterações serem decretadas e expressos em reis, a moeda portuguesa. Para poderem circular em Macau o governo decidiu também sobretaxa-los na moeda local. Só que no final de 1894, um decreto do governo de Lisboa (nº 646 de 28.12.1894) proibiu os governos provinciais de sobrecarregar selos e outras fórmulas de franquia, devido aos abusos praticados.
47 avos, equivalente a 300 reis

Francisco Sousa, filho e sucessor de Ricardo de Sousa na direcção dos Correios de Macau, no seu relatório anual de 1896 escreve a este propósito: "Os bilhetes postaes de resposta paga, alterados para provisórios foram todos vendidos em mui pouco tempo, e como foi prohibido fazer mais alferações nos sellos, o correio não tem bilhetes de resposta paga para fornecer ao público".
Esta falta de selos seria recorrente, originando anos mais tarde, já no início do século 20, muitas queixas, nomeadamente do professor do Liceu e advogado Manuel da Silva Mendes.

O único selo de D. Carlos que foi alterado para avos foi o de 2.5 reis (0.5 avos), que servia essencialmente para a franquia de jornais, por ter entrado em circulação a 30 de Junho de 1893. Em suma, sem poderem ser alterados, os selos de D. Carlos continuaram a circular em Macau em simultâneo com os de D. Luís alterados, durante 4 anos até que ambos foram substituídos a 1 de Outubro de 1898, pelos selos de de D. Carlos (tipo Mouchon).

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Casa da Literatura da Macau / 澳門文學館拍攝

Numa das 10 moradias da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida - nº 95 A/B - junto ao Tap Seac, é inaugurada este sábado a Casa da Literatura de Macau. Segundo o IC o espaço "tem como objectivo divulgar a produção literária local e construir uma plataforma de permuta na área da escrita através de um variado leque de exposições e eventos, promovendo assim o espírito criativo da literatura e impulsionando um desenvolvimento cultural inovador."
A Casa da Literatura (Foto IC)

A Casa foi construída nos anos 20 do século passado e inicialmente era utilizada como residência de funcionários públicos, contando-se actualmente entre os bens imóveis classificados de Macau. O edifício de dois pisos apresenta características típicas de estilo português, dispondo de uma sala de exposições permanente, uma sala de leitura, uma sala de exposições temáticas, salas polivalentes, um jardim interior e um jardim exterior.
A sala de exposições permanente apresenta a evolução da literatura local, exibindo as obras e os manuscritos originais de vários escritores influentes e poetas chineses e portugueses, nomeadamente, Tang Xianzu, Wu Li, Luís Vaz de Camões e Camilo Pessanha.
Segundo alguns historiadores Luís Vaz de Camões (1524-1580) terá passado por Macau e escrito na cidade parte da obra "Os Lusíadas". O poeta Camilo Pessanha (1867-1926) viveu quase 30 anos em Macau, onde morreu e está sepultado.
Tang Xianzu (1550-1616), conhecido como o Shakespeare chinês, cuja maior obra, "O Pavilhão das Peónias", inclui uma cena inspirada em Macau; o poeta e pintor Wu Li (1632-1718), foi um dos primeiros padres jesuítas chineses, após estudar no Colégio de São Paulo, em Macau.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Factura da Farmácia de Macau/Macao Dispensary: 1919

Em baixo uma factura da Farmácia de Macau / Macao Dispensary, de Elysio Neves* (o próprio assina o documento), localizada nos números 6, 8 e 10 do Largo do Senado. A mesma - referente a 6 garrafas de água oxigenada - foi passada à Casernaria da Fazenda no valor de 10,50 patacas.
A factura tem ainda a particularidade de ter um selo (emissão D. Carlos I) de 1902, com sobretaxa e sobrecarga "Imposto do Sello", ou seja, reutilizado para fins fiscais: 2 avos s/ 18 avos s/ 50 reis.
* Trata-se de Elysio Fernandes das Neves Tavares que no final do século 19 foi editor do jornal O Lusitano. Por volta de 1908 a farmácia ficava na Rua Central.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

"The Wickedest City"

Na edição de Fevereiro de 1955 da revista de turismo e viagens "Holiday" (EUA) um dos destaques é Macau com um artigo da autoria de Christopher Rand (pp. 46-48) intitulado:
 "The Wickedest City, Macao. The ancient Portuguese colony of Macau, in the shadow of red China, exists gaily and exotically on the fringe of legality".
"A cidade mais perversa, Macau. A antiga colónia portuguesa de Macau, à sombra da China vermelha, vive alegre e exoticamente à margem da legalidade".
Nesta década Christopher esteve várias vezes no território. Desta vez chega a Macau a bordo do ferry Fat Shan que atracava no Porto Interior.
O adjectivo wicked significa perversa/imoral... (cidade do pecado) qualificativos associados ao jogo, ao ópio e à prostituição. Na década de 1950, finalizada a guerra, o Ocidente começava a 'redescobrir' o Oriente e o cinema ajudou a catapultar o nome do território como destino exótico. A baía da Praia Grande fazia lembrar uma paisagem mediterrânica (Monte Carlo, Mónaco) em plena China.
 
No jornal Pittsburg Post Gazette de 13 de Janeiro avança-se com os destaques desta edição da Holiday e escreve-se: 
"Macao has the name of an Oriental pleasure garden where girls, gambling and opium are available round the clock. The reputation has been earned. A thrilling different article that you really want to read." 
"Macau tem o nome de um jardim de prazer oriental onde as raparigas, o jogo e o ópio estão disponíveis 24 horas por dia. A reputação foi conquistada. Um artigo diferente e emocionante que vai realmente desejar ler."
No filme "The Lady from Shangai," de 1948, o termo "wickedest" já tinha sido usado a propósito de Macau num dos diálogos:
Michael: I'll bet you a dollar I've been to the place where you were born.
Elsa: Chifu.
Michael: It's on the China coast. Chifu. It's the second wickedest city in the world.
Elsa: What's the first?
Michael: Macao. Wouldn't you say so?
Elsa: I would. I worked there...
 
E se regressarmos à década de 1920 voltamos a ver  o termo "wickedest" associado a Macau. 
No jornal The Evening Independent a 10 de Novembro de 1921: "This is a view of one of the main streets in the Portuguese city of Macao, which is proud of its reputation as the wickedest city in the Far East", é a legenda de uma fotografia do Largo do Senado vendo-se à direita os edifícios onde hoje existem os Correios e logo a seguir a Santa Casa da Misericórdia.
Antes, a 3 de Outubro de 1921, o mesmo jornal publica um artigo mais longo, assinado por Philip Simms. "This dying city of 75,000 souls is the wickedest town in the Far East and is proud of it. In facti since Hong Kong set itself up as a port, sin has come more and more Macao's stock in trade, until now gambling and opium-making and smoking are the city's mainstay and pastime. (...) The beautiful crescent-shaped harbor is silting up and all one sees there nowadays is a flatbottomed steamer or so from Hong Kong, or Chinese junks. Approached from the sea, the city looks deserted. But it isn't quiet. Ashore the streets are clean and unusually pretty, and very quiet. Great avenues of trees, centuires old, and beautiful parks, together with an architecture reminiscent of old Spain, make the place onde of the pearls of the Orient, different from anything else in China, or for thst matter, in the world. Under this calm old world exterior, lies exotic sins, unaldulterated and unsashamed. (...) gambling houses (...) Opium farms (...)

Na edição de 4 de Setembro de 1921 o jornal Richmond Times Dispatch também recorre ao termo "wickedest". O título é "Visit to wockedest city of east gives Monte Carlo's Air", Segue-se "Macau China holds title and town is proud of fact. Gambling and opiumdens open to world. City of 75,000 declared to be most immoral municipality in eastern hemisphere."

terça-feira, 13 de setembro de 2022

The casino ship moored in the harbour

"The Macau Palace (the casino ship moored in the harbour) has Macao's only round-the-clock restaurant. (...)" 
in Golden Guide to South and East Asia, 1963
"Macao is a great gambling town. There are two casinos, one on a boat (the Macau Palace) much like the floating restaurants in Aberdeen, the other is the casino at the Hotel Estoril. (...)"
Myra Waldo in Travel Guide to the Orient and the Pacific, 1965
"The floating casino "Macao Palace" is an old converted ferry decorated with all the curlicues , golden panels, red banners and fripperies of modern Chinoiserie. (...)"
Joseph H. Bain in "Casinos: The International Casino Guide", 1995

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Documentário "Macau, Jóia do Oriente": 1956

Miguel Farini Spiguel (1921-1975), um turco radicado em Portugal desde 1944, foi o cineasta que mais filmou o “Oriente português” (Macau, Goa e Timor) tendo 'acrescentado à propaganda política do Estado Novo um pendor de promoção turística dos então territórios portugueses. Contava habitualmente com o apoio de instituições como a Agência Geral do Ultramar mas chegou a fazer pedidos de apoio de forma directa.
A 27 de Dezembro de 1959 enviou uma carta ao governador de Macau, Jaime Silvério Marques: 
"(...) Embora pudesse seguir directamente para Timor, preferi fazer um desvio para Macau, terra da minha preferência, embora esse facto me onerasse de muito as minhas disponibilidades, o meu capital e crédito empenhados neste empreendimento ultrapassa de muito os 500 contos e para os amortizar conto com a boa qualidade e da possível venda dos mesmos às várias entidades oficiais, tais como a Agência Geral do Ultramar, Secretariado Nacional da Informação e Ministério da Educação Nacional. De todos estes documentários o de Macau tem menos defesa, porque já existem quatro feitos por mim e Vossa Excelência sabe tão bem como eu que em matéria de propaganda as atenções do Governo Central dirigem-se de preferência para as nossas províncias de Angola e Moçambique, deixando o resto à iniciativa particular como a minha ou ao critério e julgamento do Governador respectivo. (...)"
"Macau, Jóia do Oriente" - título inspirado em Jaime do Inso - é um documentário (15 minutos) apresentado publicamente em 1956. Face aos anteriores que tinham versado o território, tinha a grande novidade de ser feito a cores. 
Em Macau Spiguel foi quase sempre acompanhado por Aquilino Mendes e pela sua câmara.  Podem ver-se os dois na foto abaixo durante a rodagem do documentário "Macau" de 1960.
Neste, como noutros registos que se seguiram, Spiguel contou com a colaboração musical de Pedro Lobo. 
Entrevistado para a revista "Filme" (n° 14, Maio de 1960) Spiguel afirmou acerca de Macau: 
"Quis mostrar como a obra civilizadora dos portugueses tem um sentido particular, cristão, tolerante. Notou nas imagens do arrear da bandeira como é composta a escola? Notou a profusão de raças entre a juventude escolar? Notou essa mesma tolerância na multidão que povoa as ruas? Depois quis captar uma cidade com imagens de uma cor intensa. Macau a preto e branco não se justifica. O enterro chinês, os barcos à vela, a profusão dos cartazes coloridos, tudo isso pede cor. Devo dizer que a câmara do Aquilino foi particularmente feliz."

Outros registos de Sipguel sobre Macau:
Macau, Jóia do Oriente (1956), 
Pescadores de Amagau (1958), 
Macau (1960) Duração: 60 minutos 
Reportagem - Oriente (1958), 
Operação Estupefacientes (1967), reportagem em 3 episódios sobre a luta da Polícia Judiciária de Macau contra os traficantes de droga no território.
Macau de Hoje (1971), 
Macau Industrial (1974), 
Uma Pérola Chamada Macau (1974) 
Macau (1977), já apresentado depois da morte do realizador.

domingo, 11 de setembro de 2022

"A Abelha da China": 200 anos

Há 200 anos, na quinta-feira, 12 de Setembro de 1822 surgia o primeiro jornal de língua portuguesa a ser publicado de forma periódica em Macau com o título "A Abelha da China" / 葡萄牙语.
O nome será certamente uma alusão ao objectivo da iniciativa: 'picar' o poder instituído, ou seja, o Partido Conservador liderado pelo ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira.
Tendo em conta o contexto da época, o semanário assume-se como ‘porta-voz’ do liberalismo (implantado em Portugal dois anos antes), regime político que então se começava a afirmar na ultra conservadora sociedade de Macau dominada pelas ideias do absolutismo.
O semanário político - resulta da liberdade de imprensa instituída pela revolução ocorrido na cidade do porto - era impresso na "Typographia do Governo", a cargo do Senado. Foi estabelecido pelo cirurgião José de Almeida, pelo chefe do Partido Constitucional no território, o major Paulino da Silva Barbosa e era editado pelo liberal e redactor principal, o vigário do Convento de S. Domingos, Frei António de S. Gonçalo de Amarante.
No primeiro número - teve apenas 67 edições no total - de apenas 4 páginas surgem reproduzidas as actas do Senado, "notícias marítimas", um avizo e o editorial:
"Havendo-nos o Leal Senado incumbido a redacção do presente periódico, julgamos ser uma das principais obrigações de um redactor o expor com verdade e com franqueza os motivos, que acelerarão a gloriosa façanha em o dia 19 do mês passado, em que os Macaenses arvoraram o Pavilhão da Liberdade, e derrocaram o horrendo colosso do Despotismo, que a tantos anos haviam suportado. Confessamos todavia, que esta tarefa é superior às nossas forças; mas nem por isso deixaremos de mostrar, o quanto desejamos cooperar da nossa parte para a justificação de um facto, que pôs termo à arbitrariedade, e que consolidou os direitos e os deveres do Cidadão, instalando-se, entre as salvas de um contentamento público, e incessantes vivas de alegria, um Governo Provisório, segundo a vontade geral de todos os Moradores, o qual no pouco tempo da sua instalação, tem dado sobejas provas do seu patriotismo, do seu zelo e da sua actividade pelos interesses nacionais. 
A Energia porém deste povo, sempre leal ao Seu Amado Soberano, e amigo da boa ordem, manifestou nesta ocasião com a maior evidência, que não é somente ao som de bélicos instrumentos entre o fragor das armas, empunhando a espada e derrotando falanges inimigas, que o Amor da Pátria, o denodo e a coragem se manifesta; que ele na paz igualmente se patenteia, e que nesta também se colhem viçosos e imarcescíveis louros, que ornam a fronte dos seus heróis. 
A paz, a tranquilidade e à boa ordem, com que se conduziu o povo Macaense no referido dia será um monumento eterno, que no provir lhe granjeará os maiores elogios. A falta de confiança pois, que ele tinha na Governança e o aferro com que esta pretendia entronizar-se, valendo-se para este fim de meios não só impróprios, mas até indignos do carácter português, foi a causa principal, porque reiteradas vezes se representou ao Senado a necessidade que havia de um Novo Governo, que obstasse, e servisse de barreira à torrente impetuosa de males, que ameaçavam o comércio; um Novo Governo que impedisse uma inevitável e próxima Anarquia; pois que tudo lhe augurava um futuro assaz desagradável e das mais funestas consequências, uma vez que as coisas continuassem do mesmo modo, que até ali continuado havia: isto é: conservando-se no lugar uma das Autoridades cuja exclusão exigiam, como fonte e origem donde brotava todo o mal ao comércio e por consequência à Cidade inteira."
Avizo
"Todos os Senhores que quiserem sobscrever neste periodico, faser alguns avisos, e inserir suas memorias o poderao fazer em carta fechada ao Redactor, dirigindo-se ao Laboratorio Constitucional em casa do Senhor Joaquim José dos Santos as Janellas verdes, aonde se achará o mesmo periodico de venda pelo preço de 100 Reis."
PS: Em 1994 a Universidade de Macau e a Fundação Macau publicaram uma edição fac-simile do jornal - imagem acima - compilando todas as edições (12.9.1822 a 27.12.1823) num total de 294 páginas.

sábado, 10 de setembro de 2022

A Cidade Christã

A cidade christã propriamente dita abrange a parte mais pittoresca de Macau pois que dilatando se em todo o comprimento da Praia Grande se extende depois por varias encostas insinuando se para um lado até a fortaleza do Monte e Gruta de Camões que fica sobranceira ao Patane, ao passo que para outra banda se alastra até á fortaleza da Barra contornando depois S. Lourenço, o Seminario de S. José, Santo Agostinho e vindo ligar se á outra parte proximo de S. Domingos nas abas de S Paulo do Monte. Daqui se deprehende que a área occupada pelo bazar comparada com a da cidade christã é consideravelmente menor. (...)
A cidade christā tem sido invadida por habitantes chinezes nos bairros chins é que raro moram christãos. Além disto na maior parte das casas de moradores portuguezes ou extrangeiros ha creados chinezes. 
Praia Grande no final do séc.19 
Excerto de uma fotografia de Lai Afong

A arteria principal de Macau é a Praia Grande que se acha povoada de elegantes edificações de architectura europêa terminando ao nascente por um vasto e luxuriante jardim publico. O panorama que se desfructa d'algumas elevações é arrebatador e surprehendente por exemplo do Pharol da Guia, da Gruta de Camões ou ainda melhor da Penha.
As habitações dos Europeus são d'aspecto agradavel; ha algumas mesmo notaveis pelo tamanho e bom gôsto, quasi todas as da Praia Grande teem os seus jardins e ostentam na fachada da frente grandes varandas ou galerias.
O palacio do Governo, antiga habitação dos Barões do Cercal, e o actual edificio dos tribunaes, ex palacio do Governo, são edificios dignos de especial menção. O Theatro de D Pedro V, cuja casa tambem contém o Club Macaense, merece a attenção do viajante, assim como tambem o pequeno mas elegante Gremio Militar não deve ficar esquecido.
A despeito de todos aquelles de que nos temos occupado avulta como monumento o hospital de S Januario. Por ultimo ha ainda a notar o Paço Episcopal, o Senado, a Santa Casa de Misericordia, o hospital de S Lazaro, o de S Raphael, o cemiterio de S Miguel para os christãos, o dos protestantes, o dos parses etc.
Na parte da cidade occupada pelos Europeus nacionaes e extrangeiros e pelos Macaistas contam-se algumas ruas espaçosas e elegantes, predios importantes e de boa apparencia possuindo bastantes d'elles apraziveis jardins e quintaes. Nos arrabaldes da cidade encontram-se algumas quintas bem cuidadas sendo para especialisar a residencia campestre dos Governadores denominada Palacio da Flora que hoje tem habitação e dependencias esmeradamente tratadas. (...)
in "Macau", Bento da França, 1890

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

"Ainda me parece impossível que esteja na China"

No "Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para o ano de 1858" publicado em Lisboa no ano anterior, Alexandre Magno de Castilho reuniu 453 artigos e 99 gravuras.
Um dos artigos é assinado por José Feliciano de Castilho Junior, guarda-marinha do brigue Mondego, que chegou a Macau em 1856.
Castilho começa por explicar a origem do artigo: "O que passa a ler se são trechos de algumas cartas escriptas d aquella cidade por meu sobrinho José Feliciano de Castilho, filho de meu irmão de igual nome e que alli se acha como guarda marinha a bordo do brigue Mondego. Nada disso foi escripto para ser publicado releve se lhe pois a singeleza tão propria de sua curta idade."
Eis então o teor de algumas cartas de José Feliciano onde fala da paisagem, de uma ida ao teatro-china muito atribulada, das nhonhas, dos piratas, da qualidade de construção das casas, do comércio, do ópio, etc... O português é do início do século 19 mas consegue-se perceber perfeitamente.

"Ainda me parece impossivel que esteja na China. Na China não pode ser, é sonho! Mas que remedio senão acreditar se sempre que vou aquella terra alli fronteira me vejo rodeado d'aquellas carantonbas largas olhinhos de toupeira dentes alvissimos rostos de velha e enormes rabichos reaes ou postiços. Parece um carnaval permanente Tem me custado a conformar com a vista de tal gente e a entender-me com ella porém vou me amestrando e já me não enganão como nos primeiros dias. São de uma esperteza extraordinaria e de rara habilidade trabalhando em marfim primorosamente e por preços inacreditaveis.
Os inglezes têem aqui introduzido as suas fazendas de tal modo que é difficil encontrar louça da China por ser da ingleza que todas as lojas estão abundantemente sortidas. Assim mesmo ainda se vêem d aquellas riquissimas jarras de 4 o 5 pés de altura que na Europa tanto valor teem.
A cidade não é feia porém as ruas são quasi todas estreitissimas: aquellas em que os chins se achão estabelecidos distinguem-se por um nauseabundo cheiro de opio, camphora, etc ... estão sempre atulhadas de gente. É grande o movimento na cidade onde aliás se encontrão poucos europeus; a povoação de 20,000 almas é quasi toda chineza.
As nhônhas filhas da terra são em geral exquisitas. O seu modo de fallar assemelha se um tanto ao das mulheres do interior da provincia de S Paulo no Brasil mas é mais affectado tenho summa difficuldade em percebe-las. São muito escarnicadeiras uma das cousas que lhes dá mais no goto é o comprimento das nossas casacas porque se usão aqui abas de uma polegada. Ha um largo arborisado á borda do mar onde se reunem ás quintas e domingos e onde nós vamos para as vermos cortar nos nas abas e ouvirmos a musica do batalhão é o nosso Passeio Publico.
Os piratas já desappareceram. Quando eu esperava practicar actos de valor que dessem brado, quando eu me queria immortalisar é que elles me fogem. Queria ganhar uma condecoração e o posto de 1º Tenente ainda que fosse na cola de uma bala. Quem sabe se não anda em mim o embryao d'um Nelson!...
Fui ha poucos dias por curiosidade ao theatro chinez. A disposição macaqueia a dos nossos theatros mas toda a casa é de bambú. Tudo aquillo está em osso. As vistas não mudão e os actores em scena levão todo o tempo a dar guinchos e pinotes. Em honra da verdade confesso que os gatos lhes devem ter inveja. Apresentão se porém magnificamente vestidos. Talvez que seja muito bonito para quem entende a mim fez me somno O que alli se acha muito aperfeiçoado é o roubo. Houve sujeito a quem estando sentado furtaram os sapatos pelos intervallos do taboado e até a um tal Miranda tiraram do nariz os oculos d ouro sem elle sentir percebendo o apenas pela differença da vista. A policia anda vigilante mas o divertimento dos larapios é illudi la.
A cidade de Macáu está toda a desmoronar-se. Já cahiram 70 casas com as chuvas. É um precipicio n'estes tempos andar pelas ruas pois se corre perigo de ficar debaixo de algum muro. É tão má a construcção das casas que os habitantes se viram obrigados a requerer ao Governador para que o brigue não salvasse no dia 31 do passado, com medo de què viesse a terra o resto da cidade!"

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Macau no diário Carolyn Hyde Butler

No início do século XIX Macau vive um período de prosperidade. A situação fica a dever-se sobretudo ao facto de em 1793 o governo local ter acabado com as restrições à residência de chineses na cidade. A medida permitiu a transferência dos comerciantes mais abastados do Sul da China para Macau. Há ainda que acrescentar ainda o importante papel das companhias estrangeiras que através de Macau iam a Cantão fazer negócios*. Não menos importante para este excelente clima económico, destaca-se a Carta Régia de 1810 que autorizou o comércio directo entre o Brasil e Macau.
* De acordo com as regras das autoridades chinesas os mercadores chineses podiam atracar os navios em Cantão mas era permitido residir nas ditas feitorias durante todo o ano todo, nem de levar as mulheres. É mais um forte argumento para a solidificação de Macau como entreposto comercial de excelência tendo ainda o território para oferecer o clima ameno e um ambiente social com marcas ocidentais, factos que levaram as empresas estrangeiras a instalar no território escritórios e armazéns bem como a residência dos trabalhadores e familiares durante os meses de espera para poder fazer negócios em Cantão.
Diário de Carolyn Hyde Butler- Espólio The New-York Historical Society

A nova-iorquina Carolyn Hyde Butler (1804-1892) foi uma das poucas mulheres ocidentais que acompanharam os maridos em viagem de negócios até ao Oriente em meados do século 19. Escritora de romances e livros para crianças, registou essa experiência num diário, incluindo o período da viagem a bordo do navio Roman em 1836/37. Nos meses que passou em Macau - não podia entrar na China continental - enquanto o marido negociava em Cantão observou in loco como era a vida em Macau na primeira metade do século 19. Eis um excerto.

"Entre os cerca de 50.000 habitantes de Macau, 3.700 eram europeus, incluindo 2700 mulheres esperando por seus maridos ou pais, que se encontravam no mar ou em Cantão, uns 600 eram escravos e o resto, uns 45.000, eram chineses. (...) Durante a maior parte do ano, a população ocidental de Macau era portuguesa. 
O círculo de britânicos e americanos somava uns trinta, a maioria mulheres, que pouco tinham a ver com a comunidade luso-falante, excepto através de cerimónias entre as senhoras. 
O tédio terminava em Abril, quando os mercadores terminavam com as negociações em Cantão e vinham passar o verão em Macau. (...)"



Num "mappa da população portugueza da cidade de Macao" relativo a 1835 refere-se a existência de 3520 "brancos" (1438 homens e 2082 mulheres) e 1284 "escravos". Os números eram em tudo semelhantes aos de 1822 e não incluíam freiras, frades e elementos do batalhão militar. A população chinesa rondava as 30 mil almas...

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A Illustração Luso-Brazileira: jornal universal

"A Illustração Luso-Brazileira: jornal universal” foi uma publicação semanal que existiu nos anos de 1856, 1858 e 1859, em Lisboa, por iniciativa de António José Fernandes Lopes, também editor do jornal O Panorama. Da redacção faziam parte nomes como Alexandre Herculano, Francisco Maria Bordalo e Carlos José Caldeira.
Apesar da curta existência foram vários artigos publicados sobre Macau. A saber, em 1856 nos números 6, 7, 10, 12 (Grande Incêndio do Bazar chinês), 16 (Iluminação do Palácio do Cônsul Brasileiro em Macau - era o Barão do Cercal - e Incêndio do Bazar - com duas ilustrações) e 43 e em 1858 no número 2, uma pequena notícia sobre as "Ruínas do Convento de S. Paulo em Macau".
Carlos C. Caldeira (1811-1882) é quem assina todos os artigos sobre Macau. O mais longo aborda temas como a "prosperidade", o jogo, as lorchas, e "últimos aperfeiçoamentos" com o autor a sugerir que Portugal estendesse o seu domínio a toda a ilha de Heangshan!
Carlos José Caldeira (Lisboa, 1811 - Lisboa, 1882)
Escritor, político e jornalista. Formou-se pela Academia Real de Marinha e frequentou a Aula do Comércio. Foi um iberista convicto, tendo traduzido, anotado e publicado a terceira e última edição da obra A Ibéria de Sinibaldo de Mas, que produziu à época grande controvérsia e que propagava os ideais da União Ibérica. Dentro do mesmo espírito escreveu alguns artigos no jornal O Progresso. 
No funcionalismo público chegou a inspector-geral das Alfândegas e foi o primeiro chefe da Repartição de Estatística criada no Ministério das Obras Públicas. Tal facto deveu-se provavelmente aos profundos conhecimentos de economia que demonstrou nos artigos publicados, sob o pseudónimo de Veritas, em vários periódicos, entre os quais: Arquivo Pitoresco, Arquivo Universal, Correio da Europa, Diário de Notícias, Ilustração Luso Brasileira, Jornal do Comércio e Revista Peninsular. 
Já depois dos 40 anos encetou uma viagem pelos pontos descobertos ou conquistados pelos Portugueses no Mundo, que o levou pelo Mediterrâneo e mar Vermelho até à China, tendo regressado por Moçambique e cabo da Boa Esperança. Deste percurso resultaram diversos trabalhos literários que ilustram o estilo reformador e empreendedor do seu autor. Foi ainda redactor do Boletim Oficial de Macau durante um ano. 
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990 
Apontamentos D'Uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, Volumes 1-2 de Carlos José Caldeira, 1852 e 1853 (reeditado em 1997 como “Macau em 1850”), 
O primeiro volume descreve a China, grande parte do extremo oriente e assuntos relativos à cultura chinesa.
O segundo volume descreve as relações de Portugal com o Reino do Sião (Tailândia) e a costa oriental e ocidental de África. Inclui ainda quadros com dados e mapas estatísticos com análise da evolução da populações; das exportações e importações dos movimentos portuários; dos rendimento e rendas públicas nas colónias espanholas de Puerto Rico e das Filipinas.

Nota: Nesta data assinala-se o bicentenário da independência do Brasil (7.9.1822).

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Tráfico ilícito do ópio e outros estupefacientes

"(...) medida legislativa tendente a reprimir com maior eficácia o tráfico ilícito do ópio e outros estupefacientes (...)"
in Boletim Oficial de Macau, 20 Setembro 1930

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

The Old Protestant Cemetery in Macao

The Old Protestant Cemetery in Macao
Lindsay Ride (sir) 1898-1977
Journal of the Hong Kong Branch of the Royal Asiatic Society. 1963
Editado em 1963 este pequeno livro de 27 páginas - incluindo um mapa - teve por base uma conferência realizada a 7 de Maio de 1962 por Lindsay Tasman Ride em Hong Kong a propósito dos 162 túmulos existentes no Antigo Cemitério Protestante de Macau. Lindsay (militar de carreira australiano e vice-chanceler da Univ. de Hong Kong) e a mulher  May investigaram o assunto nos sete anos anteriores a esta apresentação pública que depois passou para o formato de livro.
This 1963 small book is based on a lecture delivered by the Vice-Chancellor of the University of Hong Kong in May 7th 1962 about the 162 members of the Old Protestant Cemetery of Macau that Lindsay Ride and his wife had spent the seven years prior to this lecture researching.

domingo, 4 de setembro de 2022

A fine marine drive overlooking the bay

The Praya Grande* is a fine marine drive overlooking the bay of the same name. The Governor's residence, many fine private and public buildings, and the Government Offices, are situated along this crescent shaped bay, facing the open sea, while shady banyans line this beautiful road. Perhaps the most delightful and romantic scene in Macao is the full moon shining across the waters of the Praya Grande Bay, its silvery rays flooding the sparkling waters, and Chinese fishing craft serenely gliding across the scene.
in "Macao: A Handbook" - Conselho de Administração das Obras dos Portos, Macau, 1926
PS: imagem não incluída no livro referido

sábado, 3 de setembro de 2022

Reconstrucção de S. Paulo

A igreja da Madre de Deus, vulgo S. Paulo, foi diversas reconstruída devido aos vários incêndios que sofreu. O mais grave foi o de 1835 e já no início do século XX houve um projecto para a reconstrução integral do edifício chamado "Avante pela Reconstrucção de S. Paulo", que incluiu lotarias, quermesses, peditórios, mas vicissitudes várias fizeram com que não fosse "avante" ficando até hoje apenas a fachada em pedra.

O padre António José Gomes foi o grande entusiasta da ideia. E não foi o primeiro. Antes dele, o comendador Albino Pedro Pereira da Silveira, homem abastado nascido em Macau em 1823, chegou a mandar fazer desenhos da igreja, mas com sua mor­te a 31 de Outubro de 1902 morreu o projecto.
Imagens (canecas) de Arlete Carion


A imagem acima foi retirada do livro "Um Marinheiro em Macau 1903 Álbum de Viagem", editado em 1997 pelo Museu Marítimo de Macau tendo por base o que Filipe Emílio de Paiva escreveu num álbum com anotações da viagem da canhoneira Diu durante a estação de serviço no Oriente em 1903, em 3 volumes. A sua viúva ofereceu os referidos volumes à Sociedade de Geografia de Lisboa em 1957. Ali ficaram durante quase 40 anos até Jorge Graça e A. Cação os encontrarem quando procediam a investigações para o futuro Museu de Macau permitindo assim a edição de 1997.
Emílio de Paiva era então 1º Tenente de Marinha (mais tarde Contra Almirante) e guardou tudo dessa viagem e estadia em Macau, incluindo os convites para diversos espectáculos, récitas, jantares, angariações de fundos, colectas, etc... É assim que ficamos a saber que no início do século XX tentou-se a recuperação do edifício da Igreja Mater Dei.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

"A New Fantan House"

Em Dezembro de 1934 a conceituada revista The New Yorker (EUA) dava conta da abertura de uma casa de fantan em Macau referindo ainda outros 'vícios' do território vizinho de Hong Kong.

"Macao, its charmingness has brought the resort of all kind of people in the world, by no means, it is the richest of place to be lapped in luxury. Just imagine what luxury is obtained when you stay in this grand building and set your heart adrift, drinking and whoring. Now the scheme for enjoying yourselves has been discovered and Macao is expected to be your favorite resort. Being so kind to come over us, you are certainly were well received."
In The New Yorker, 8 Dezembro 1934

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Sud de la Chine: Hong kong, Canton, Macao, le Si-kiang

"Sud de la Chine. Hong kong, Canton, Macao, le Si-kiang" é um livro de apenas 39 páginas da autoria de Claudius Madrolle (1870-1949) publicado em 1904 pelo Comité de l'Asie française. Faz parte de uma obra de maior dimensão dividida em dois volumes - Norte da China e Sul da China", considerada o primeiro guia turístico da Indochina e do Extremo Oriente.
Trata-se de uma guia turístico destinado ao público que domina a língua francesa e que a partir dos domínios franceses que França possuía nesta época na Ásia - Indochina - tinha mais condições, pela proximidade, para viajar pela China e pelo Japão. Neste volumes surgem textos de vários autores sendo Madrolle o editor. Ele próprio fez a viagem pelos destinos indicados em 1895 e quando regressou a Paris iniciou a publicação de guias turísticos que tiveram mais de 70 edições incluindo 11 em língua inglesa.
"Macau está a 40 milhas sudoeste de Hong Kong. O serviço de vapor é diário entre as duas cidades, com a excepção de domingo; a travessia é de 3 horas. De Macau a Cantão a distância é de 88 milhas; os vapores circulam pelos numerosos canais do delta e fazem escala nalguma cidades chinesas importantes. De Hong Kong a Macau a navegação é bastante interessante através das ilhas que parecem vigiar a foz do Tchou-kiang; aldeias, pescadores, juncos, sucedem-se. Macau aparece com as suas colinas coroadas de fortes da Idade Média. Rapidamente, a cidade distingue-se mais claramente; importantes edifícios de origem monástica, construções pintadas de azul, rosa, verde, amarelo, como nos países mediterrânicos, descem das alturas até às sombras da Praia Grande. O vapor contorna o rochedo sobre o qual repousa o hotel da Boa Vista e chega, por fim, ao porto. À esquerda, a alfândega chinesa da Lapa ou Lipa e, ao fundo da baía, a Ilha Verde. À direita, o cais de Macau e as suas casas com arcadas. Macau é um porto franco, os europeus não têm problemas com as suas bagagens."

Mapa incluído no livro com localização dos hotéis Boa Vista e Hing Ke, e ainda do Palácio do Governo, Palácio de Justiça (Repartições), Igreja de S. Paulo (fachada) e Jardim Camões.

Para além das informações de carácter útil para os viajantes, a obra inclui contexto histórico de cada local recorrendo, neste caso, a textos da autoria do orientalista francês Georges Weulersse (1874-1950).
Seguem-se alguns excertos, apresentando nalguns casos uma tradução.

"La fondation de Macao remonterait à cette époque, mais l'origine et la date de l'établissement portugais varient selon les auteurs.
Si l'on s'en tient aux «Chroniques du Hiang-chan-hien», ce serait en 4553 (d'autres disent 1552 et 1557), que des vaisseaux portugais poussés par un typhon arrivèrent à Macao; les autorités voulurent les chasser, mais les marchands chinois, dans l'espoir d'un gain facile, obtinrent l'admission de ces étrangers sur le terriloire de l'Empire. Ljungstedt, dans son  «Histoire de l'établissement des Portugais en Chine» adopte cette version et, contrairement aux chroniques de Macao, il considère la suppression des pirates par les Portugais comme une légende." (...)

"Macao, 78.627 habitants (en 1896), compte 74.508 chinois, 161 étrangers européens et 3.898 Portugais (dont 615 nés en Europe)" (...)
"Macau, 78.627 habitantes (em 1896), dos quais 74.508 chineses, 3.898 portugueses (615 nascidos na Europa) e 161 estrangeiros europeus. As ilhotas de Tai-pa e Ko-lou-an dependem desta colónia portuguesa"

"On a comparé le site de Macao ù celui de la principauté de Monaco; l'hôtel Boa-Vista représentait le rocher de Monaco; la Praia-Grande, la Gondamine; la Fortaleza da Guia, Monte-Carlo. On pourrait encore ajouter que les joueurs viennent nombreux à Macao tenter les chances du fan-tan (baquan des Annamites).
Le quartier riche est celui de la Praia-Grande, promenade agréable, ombragée, ouverte sur la baie entre Boa-Vista et la «fortaleza de S. Francisco», et terminée vers le N. par un jardin dans lequel des concerts sont donnés. C'est sur ce boulevard que le Tout-Macao vient respirer la fratchéurf se montrer et potiner. Des habitations importantes y eont édifiées : l'Hôtel Hing-kee, le Palais du Gouverneur, le Palais de Justice." (...)

"Tem-se comparado o aspecto de Macau ao do principado do Mónaco: o hotel Boa Vista representaria o rochedo do Mónaco, a Praia Grande a Condamine e o forte da Guia, Monte Carlo. Pode ainda acrescentar-se que os jogadores são numerosos em Macau: o ba-quan, conhecido aqui pelo nome de fan-tan, é um importante rendimento do governo local. Joga-se na rua e nas casas, sem contar com os 16 estabelecimentos que têm o monopólio do jogo. 
A zona rica é a da Praia Grande, agradável passeio, sombreado, ao longo do mar entre o Boa Vista e o forte de São Francisco, terminando a leste num jardim onde se dão concertos aos sábados e quartas-feiras. É nesta avenida que todo o Macau vem respirar a frescura, mostrar-se e coscuvilhar. Aqui ficam os edifícios mais importantes: o hotel King-kee, o Palácio do Governador, o Palácio da Justiça (Repartições)."

Hotéis: 
Boa Vista, com uma bela localização, rua do Tanque do Mainato, 1; King-Kee, bom, Praia Grande, 65. 
Círculo: União. Posto de correio, telégrafo, cabo. 
Consulados: de França (Calçada da Paz), de Inglaterra, dos Estados Unidos, da Holanda, de Espanha, do Sião. 
Transporte: aqui chamam-se riquexós. 
Cultos: católico – catedral Sé, S. José ao seminário, S. Lourenço, etc. 
Navegação: 
Macau a Hong Kong, partida todas as manhãs (excepto Domingo), às 8 h, chegada às 11 h da manhã. Preço: 4 piastras. 
Macau a Cantão, partidas segundas, quartas e sextas, às 7h30m, chegada às 3h da tarde. Preço: 5 piastras. 
Curiosidades: Passeio da Praia Grande; Jardim e Gruta de Camões; Fachada da igreja arruinada de São Paulo.

De Hong-kong à Macao, 40 milles 1/2. Il y a des services à apeur, matin et soir, vers 8 h. m. et 2h . s. dans chaque sens. La raverséc est de 3 11. à 3 h. 1/3. Prix selon les compagnies: p. et 3 p. 
La navigation ne manque pas d'intérêt, on passe à proximité de Lantin et d|iïots qui jalonnent l'embouchure du Tchou-kiang; des pêcheries, des jonquesse succèdent. Macao enfin apparaît avec ses sommets couronnés de vieux forts. «Sur les collines abruptes, parmi des verdures sombres s'élève un phare blanc: c'est le phare Guia, le premier feu européen allumé dans les mers de Chine! La ville entière se déroule devant nous, mollement étendue au fond d'une haie ouverte. Grand front d'arcades colorées en crème, en rose, ou en bleu; terrasses aux balustrades ornées de faïences; toits de tuiles brunes; tours carrées aux coins relevés de clochetons; la large façade de l'Hôpital militaire; le fort Monte, tout noir, qui regarde sur la colline en face le couvent de Santa Sanclia; les tours de la cathédrale auxquelles répondent celles de San Lorenzo; au centre la coupole et le fronton mauves du Club et les grands murs du collège Saint-Joseph; et s'élevant plus haut, la grande silhouette ajourée des ruines de San Paulo, semblables à un arc de triomphe chinois: toute la ville en un instant défilé à nos yeux, toute ramassée, toute petite. 
Dans la haie pas un vapeur; seulement quelques barques de pêche. «Il semble que nous passions. Mais doucement nous tournons: nous doublons une pointe rocheuse, où s'élève une redoute délabrée comme une redoute chinoise. Tout d'un coup un autre fond de ville se découvre: une longue rangée de maisonsbasses à vérandas, d'une uniforme teinte jaune crème; tandis que dans le fond d'une autre baie plus étroite les jonques se pressent. A ce moment unique, Macao donne l'illusion d'une grande ville. Mais voici sur la crête de l'isthme reparaître les remparts du Fort, le portail de San Paulo: Macao se réduit, se replie sur elle-même: elle est toute en façade.»  Weulersee, Chine ancienne et nouvelle. 
Cette partie du port est battue, au S., par la «fortaleza», forteresse, de San Thiago da Barra, près de laquelle se détache la caserne des Hindous de Goa, bâtiment rappelant le style arabe. — Sur le rivage opposé, la douane chinoise de Lappa c. Vers le fond de la baie, l'lha Verde (Ile Verte, Green Island). A droite, les quais de Macao et ses maisons à arcades. Les paquebots accostent aux appontements. (...)

Hôtels: Boa Vista, dominant la ville, 1 rua do Tanque do Mainato, depuis 8 p. — Hing-kee, 65 Praïa Grande, dep. 6 p., petit déj. à 7 h., breakfast à 9.h., lunch à 1 1/2, thé à 4 h., dîner à 7 1/2.
Cercles: Civil ; militaire. 
Pousse (jinricksha): l'heure ou fraction d'il., 10 cents (en ville), et 15 c. (tour de la colonie). 
Chaise (chair) à 2 porteurs: la course, 15 c.; 0 heures, 50 cents: la journée 1 p. 
Poste, télégraphe, câble.
Consulats: de France (Calçada da Paz), d'Angleterre, dos Etats-Unis, de Hollande, d'Espagne, de Siam.
Cultes: 
Catholique: Cathédrale Se; S. Jose au séminaire; S. Lawrenzo; etc. 
Maisons de jeu: 
Etablissements principaux: Wong-hang, et Wong-wo. Le gagnant touche au fantan deux fois sa mise, moins 8 %. S'y rendre le soir.
Navigation: 
Sur Hong-Kong. Par H. C. and M. S. C.; départ de Macao chaque matin (excepté le dimanche), à 8 heures ; arrivée à 11 h. 1/4 du m. Prix 4 p. 
Par la China Merchant, service journalier, dép. à 2 h. du s. ; prix 3 p. 
Par Wingon S. C, dép. chaque jour à 2 h. du s. ; traversée en 3 h. 1/2 ; prix 2 p. 
Sur Canton: Par H. C. and M. S. C, départ de Macao le lundi, le mercredi, le vendredi, à 7 h. 30 le matin: arrivée à Canton à 3 h. du soir. Prix 5 piast. Le repas, 1 p. 1/2, servi à S h. 1/2 le m., à 2 h. le s. 
Par la ChinaMerchant C: le mardi, le jeudi, le samedi matin. Prix 4 piast. 
Chemin de fer: 
Le Gouvernement chinois a accordé, en 1903, au Portugal l'autorisation de construire une voie ferrée de Macao a Canton. 
Industrie: Bouilleric d'opium. Filature de soie. Manufacture de tabac. Brasserie française. Curiosités: 
Promenade Praia Grande, Avenue Vasco de Gama. Tour de la Colonie (3/4 d'h. en pousse). Jardin et Grotte de Camoëns. Portail de l'église ruinée de San Paulo. — Le soir : Maisons de jeu.



No circuito de visita ao território proposto estão locais como o Cemitério dos Parses, o forte de Mong-Ha, a fábrica de cimento da Ilha Verde, o Pagode da Porta do Cerco (Templo Lin Fong), o Jardim e busto de Camões e as ruínas de S. Paulo (o autor atribui a causa do incêndio de 1835 a chineses fanáticos).

Tour de la Colonie. 
En se dirigeant de la Praia vers le territoire chinois, une belle route en corniche domine la mer; elle mène au fort de Guia dans lequel a été élevé un phare. Sur la g., un petit cimetière portugais; sur la dr., celui des Parsis et des musulmans.
L'anse de la Praia de Gacilhas où échoua au XVII siècle un des débarquements des Hollandais. La plage est dominée par la «fortaleza de Dona Maria II».
Près de la route, quelques tombes, avec des inscriptions en anglais, sont du XVIII siècle. Un jardin public sur les pentes d*un mamelon, surmonté dun petit belvédère.
La langue de terre, qui réunit Macao à la terre chinoise, est commandée par la «fortaleza de Mong-ha». La limite du territoire portugais est marquée par une porte imposante : Porta do Cerco, sorte d'arc de triomphe, portant bien en vue llannée 1849. Cette date oàt celle de l'assassinat du gouverneur Amaral (22 août) par des Chinois à la solde des mandarins de Gantoa, elle est celle aussi de la Véritable indépendance portugaise à Macao.
Au delà, les Chinois avaient élevé en 1573, une barrière, aujourd'hui disparue, pour fermer la presqu'île et retenir les Portugais chez eux.
En revenant sur la ville, par la Estrada do Coelho do Amaral: une longue digue mène à Vile Verte (Ilha Verde), où a été élevée une fabrique de ciment. A la naissance de ce remblai, la Pagoda das Portas do Gerco.
On rejoint le faubourg industriel où sont installées une filature de soie, et une manufacture de tabac.
La gloire de Macao est Camoéns. 
Un buste en bronze du poète a été posé sur un socle de flfranit entre d'énormes blocs de rochers, dans le parc de Inspection du matériel de guerre » (...)
De ce jardin, silencieux, planté de grands banians et de frêles bambous, on aperçoit, à travers la feuillée, L'lle Verte et le vaste Océan, mais si on s'avance jusqu'à la terrasse, on voit avec regret, au pied du rempart rocheux, un quartier populeux aux toits toujours gris, aux murs sombres, dans lequel vit tout un monde de Chinois.
Ce lieu paisible fut la retraite de Louis de Camoëns ; c'est là qull termina les Lusiades  poème où il chante les gloires de son pays.
San Paulo, dont il ne reste plus que le portail, est pré- cédé d'un vaste escalier de pierre, qui, autrefois, conduisait la foule recueillie à l'ancienne cathédrale. Saint-Paul, fut bâtie de 1594 à 1602 par des ouvriers japonais dirigés par des jésuites portugais.
Ce monument fut brûlé par des Chinois fanatiques dans la nuit du 27 janvier 1835. Le feu détruisit l'ancien couvent, puis l'intérieur de la basilique, enfin quelques habitations voisines, cependant il laissa presque intacte la façade en granit de l'église avec ses statues, ainsi que les murs latéraux qu'on abattit en 1838.
Les restes de l'église sont du style grec; trois portes sont percées sur la façade; elles sont entourées de piliers d'ordre ionique, continués par autant de colonnes du style corinthien, entre lesquelles ont été ménagées cinq niches. Au-dessus de la porte principale la Mater Dei, dont on lit encore l'inscription. Une statue du Christ, la figure mutilée. A gauche, un navire du xvr siècle, et la Vierge le protégeant. A droite, une Vierge triomphante ayant a ses pieds le dragon. Vers le sommet, la statue de Saint Paul, au-dessus duquel la colombe déploie ses ailes.
Une jolie route, bien entretenue, traverse la presqu'île dans son milieu, c'est l'ancienne «Estrada da Flora», appelée aujourd'hui Avenida Vasco da Gama. (...)