Gary Ngai Mei Cheong, antigo tradutor de Mao Mao Tsé-Tung que se tornou vice-presidente do Instituto Cultural de Macau durante a administração portuguesa, morreu aos 94 anos, noticiou a imprensa local.
Gary Ngai morreu em Macau, em 07 de outubro, e o funeral decorreu na terça-feira, na presença de familiares e amigos, avançou o canal em português da emissora pública TDM – Teledifusão de Macau, na quinta-feira.
Nascido na Indonésia em 1932, Ngai tornou-se o primeiro membro da sua família de seis gerações de chineses ultramarinos a partir para a China, onde nunca havia estado.
Foi inserido num grupo de 80 alunos de escolas chinesas da Indonésia escolhidos para prosseguir estudos na China, o primeiro grupo de estudantes estrangeiros a chegar à nova China comunista.
"Estávamos em agosto de 1950, em pleno início da República Popular da China quando cheguei a Pequim", recordou Ngai à Lusa, numa entrevista em 2016.
Depois de se graduar, em 1956, iniciou a carreira profissional no Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da China.
Esteve com Mao Mao Tsé-Tung "poucas vezes, sobretudo quando líderes comunistas da Europa visitavam Pequim", mas ficava "nervoso por estar muito perto", porque "ele era, afinal, um líder".
Com Deng Xiaoping a relação foi diferente: "Traduzia para ele e para os filhos os filmes de 'cowboys' a preto e branco que adoravam". A relação era boa e a amizade continuou mesmo depois de Mao ter posto Deng de parte.
Gary Ngai começou a perceber que "algo estava a ficar errado", no início de 1959, quando lhe foi negada autorização para se juntar a uma delegação que iria partir para Suíça.
"Soube mais tarde que fui discriminado por ser um chinês ultramarino. Foi um amigo meu que trabalhava no gabinete que fazia a seleção que me disse que só foram escolhidos os que não tinham qualquer tipo de relação com o estrangeiro", recordou.
Seguiu-se uma perseguição no trabalho, buscas em casa, interrogatórios durante dias a fio pela suspeita de "conluio com estrangeiros contra a China", e violência física e psicológica por parte dos próprios colegas de trabalho.
Com a Revolução Cultural (1966-76) em marcha, Ngai foi enviado para a província de Heilongjiang, perto da fronteira com a Rússia, notória pelos invernos rigorosos, com temperaturas que atingem os 36 graus negativos, sendo transferido depois para Henan, no centro da China. No total foram aproximadamente quatro anos.
"Éramos vistos como pessoas que deixaram de ser de confiança. Os chineses ultramarinos tinham conexões com o exterior e, por isso, consideravam-nos 'espiões imperialistas'", disse Ngai.
Em 1972, com a histórica visita do Presidente dos Estados Unidos Richard Nixon à China, foi chamado a Pequim antes do previsto, por causa da falta de especialistas em línguas estrangeiras.
Em 1979, Ngai, então com 47 anos, mudou-se para Macau, onde passou o resto da vida, chegando a ser vice-presidente do Instituto Cultural antes da transição de administração da cidade de Portugal para a China, em 1999.
Artigo (texto) Agência Lusa 16.10.2026
Sugestão de leitura:
"A Witness to History: An Overseas Chinese in Mainland China and Macau"
Biografia da autoria de Barnabas H. M. Koo, edição Macau Society of Social Sciences, 2016.
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| Simpósio Internacional sobre População e Desenvolvimento em Macau Universidade de Macau: 6 e 7 de dezembro de 1993 |



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