segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Rua de João Lecaros(z)

Há em Macau na zona da ainda Praia do Manduco, no Porto Interior, uma Rua de João Lecaros. O nome da rua homenageia Juan Lecaroz (aportuguesado para João Lecaros), um célebre e abastado negociante de origem espanhola que viveu em Macau mais de 50 anos
Descendente de uma família de origem espanhola estabelecida no Oriente, Juan Lecaroz nasceu em Manila (Filipinas) em 1834. Mais tarde, mudou-se para Macau onde assumiu os negócios da família, focados nas rotas comerciais marítimas entre Macau e Manila.
Em 1874, casou-se com Ana Josefa Sabina Carneiro (1839-1900), uma herdeira abastada. Com a morte da esposa a 10 de Março de 1900, Lecaroz herdou uma fortuna ainda maior e o famoso "Palácio do Barão", um enorme palacete residencial - seria três vezes maior que o Palácio do Barão do Cercal (que viria a ser o Palácio do Governo) - numa propriedade que cobria toda a área onde hoje se situam o Mercado de São Lourenço e os bairros circundantes na Praia do Manduco. O antigo palácio do Barão de S. José de Porto Alegre foi comprado pelos pais de Ana Josefa, Bernardo Estevão Carneiro e Ana Maria Peres da Luz e Silva (após 1825).*
Em Fevereiro de 1888, o herói nacional filipino, Dr. José Rizal, visitou Macau vindo de Hong Kong. Durante a sua estadia de cerca de dois dias, Rizal e o seu companheiro José Maria Basa ficaram hospedados na luxuosa residência de Juan Lecaroz. Nos seus diários, Rizal descreveu Lecaroz como um homem riquíssimo que passava os dias a cultivar plantas e flores exóticas trazidas das Filipinas
A enorme riqueza de Lecaroz esteve intimamente ligada a um dos períodos mais sombrios da história de Macau: o tráfico de cules. O território serviu como o principal porto de embarque de milhares de trabalhadores chineses recrutados (muitas vezes sob falsas promessas ou coerção) para trabalhar em condições análogas à escravatura em plantações agrícolas e minas nas Américas (especialmente em Cuba e no Peru).
Juan Lecaroz morreria em Macau a 7 de Setembro de 1904. Como morreu sem herdeiros directos ou obrigatórios, a sua imensa fortuna e as suas dezenas de propriedades imobiliárias e terrenos na zona do Porto Interior foram a leilão público em 1907.
O seu nome ficou perpetuado pelo Leal Senado que dividiu a antiga Rua da Praia Do Manduco (ele vivia no nº2) e um dos troços passou a chamar-se Rua de João Lecaros  李加祿街.
* O palácio foi adquirido pelo governo a 15 de Setembro de 1919 por $50.000,00; seria demolido em 1938/39 por ameaçar ruína.

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