segunda-feira, 19 de março de 2012

Restaurante "Macau" na rua Barata Salgueiro

Antes da 'invasão' dos restaurantes chineses, na década de 1960 o restaurante Macau no nº 26 da rua Barata Salgueiro, Lisboa (junto à Cinemateca) era o único de comida oriental em Portugal. Fotografia de Augusto Fernandes.
Publicidade no Diário Popular ca. 1956
A propósito recordo um excerto de uma entrevista de Pedro Barreiros (nascido em Macau): "Desde muito cedo como, penso, todas as crianças, comecei a desenhar e a pintar. Nos primeiros anos do Liceu conheci um pintor chinês que tinha vindo decorar as salas do Restaurante Macau, o primeiro, uma linda moradia na esquina da Barata Salgueiro com a Avenida da Liberdade. Fascinado a vê-lo pintar, aprendi com ele a desenhar com o pincel, e foram em estilo chinês os meus primeiros trabalhos de pintura..."

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mais um ano...

Molhe no Porto Exterior na década de 1960
Como o nº 4 é de mau agoiro na cultura chinesa, prefiro dizer que este projecto vai agora a caminho do 5º ano de vida. Aqui ficam alguns dados estatísticos e o agradecimento aos leitores e mecenas do projecto. Hou To Ché Nei!
- ca. de 2000 post's
- mais de 20 mil imagens
- quase 400 mil pageviews
- 153 leitores/seguidores
- centenas de comentários
"La force d'une nation ne consiste seulement dans son territoire, mais dans son histoire, son passés et ses souvenirs." Thiers
Arco comemorativo na década de 1960. Provavelmente no dia 24 de Junho, o dia da cidade. Foto de JD.
PS: para assinalar o centenário do nascimento de Monsenhor Manuel Teixeira, a partir de 15 de Abril - e até ao fim desse mês - todos os posts serão dedicados a esta figura maior da história de Macau.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gems of the Orient: music by P. J. Lobo

Este é o título de um conjunto de três discos vinil LP's de 78 rpm gravados a título privado por Pedro José Lobo nos estúdios da EMI em Londres entre 1951 e 1955.
1- At Dawn melody (Dr.P.J.Lobo) - Pianoforte solo by Sergio Varella Cid; 2- Smiling Pet-Polka (Dr.P.J.Lobo) Silva Pereira (Violin)/Sergio Varella Cid (Piano); 3- In no man's land-Serenade (Dr.P.J.Lobo)-Silva Pereira(Violin) -Sergio varella Cid (Piano); 4- Pretty Smile-Melody- (Dr.P.J.Lobo)-Silva Pereira (Violin)-Sergio Varella Cid (Piano); 5- Butterfly) Sung by Owen Catley-Orchestra conducted by Philip Green; 6- Kiss me dear(Dr.P.J.Lobo) - Sung by John Hanson-Orchestra conducted by Philip Green.
Não sei se Pedro Lobo participou nas gravações. Certa é a presença do famoso pianista português Sérgio Varella Cid (1935-1981) - e com uma vida ainda mais recheada de peripécias que a do próprio Pedro Lobo e que na época vivia em Londres -  e do violinista Silva Pereira. As músicas são todas da autoria de Pedro Lobo. A maioria são instrumentais.
Casa de Pedro Lobo na década de 1950
Durante as décadas de 1940-50, antes de Stanley Ho aparecer em cena, o homem-forte de Macau foi Pedro José Lobo. Multifacetado, tinha tanto (ou mais) jeito para os negócios (fundou a Matco, Macau Aerial Transport Co. em 1948, na sequência do fim da carreira da Cathay Pacific com os aviões Catalina) como para a cultura (fundou o Círculo Cultural de Macau, Rádio Vila Verde). Era ainda um apaixonado pela música. Escreveu várias obras. Foi considerado o homem mais rico do Extremo-Oriente, sendo a base da sua fortuna o comércio de ouro. O autor de James Bond, Ian Fleming, visitou Macau em 1959 e entrevistou-o. Diz-se que a personagem "Goldfinger" se inspirava nele.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O "Velho" e o "Zarco"

A propósito das longas comissões de serviço em Macau nos navios na Marinha Portuguesa recordo os últimos 'exemplares' que eram o garante da afirmação da então soberania. E em especial o último navio da Armada que esteve em comissão de soberania em Macau, o "Zarco". Foi há 48 anos...
Gonçalo Velho (frente) e João de Lisboa em 1951 junto às Oficinas Navais em Macau. Foto de Zaida Estrela
Encomendados a um estaleiro de Newcastle, respectiva­mente em Março e Agosto de 1933, os gêmeos “Gonçalo Velho” e “Gonçalves Zarco” navegaram pela primeira vez, desde a velha Álbion até Portugal, onde na sua qualidade de avisos de 2.a classe, foram aumentados ao efectivo dos navi­os da Armada.
Eram exactamente iguais: deslocavam 1413 toneladas no máximo; comprimento de fora a fora de 81,5 me­tros, 10 metros de boca e um calado máximo de 3,3 metros; velocidade máxima de 16,5 nós e 11 nós cruzeiro, a que correspondia uma autonomia de 9830 milhas; as máquinas, dois motores movidos a turbinas, duas caldeiras, com uma potência de 2000 SHP e utilizando combustível fuel-oil; o armamento constituído por três peças de 120 mm e duas de 40 mm; a lotação recomendada de 119 homens.
O “Velho” efectuou quatro comissões de serviço em Macau, entre 1937 e 1954, tendo sido abatido ao efectivo em 1961. O “Zarco” efectuou três comissões de serviço no território, em 1934,1939, e a última entre 1955 e 1964, portanto nove anos, durante os quais passou 17 meses na então índia portuguesa, 20 em Timor e os restantes na Cidade do Nome de Deus e a navegar. Tendo sido o último navio da Armada que esteve em comissão de soberania em Macau, de onde regressou em Maio de 1964, sendo abatido ao efectivo em Novembro desse ano, seria então o navio de guerra mais velho em serviço, em todo o mundo
Guarnição da Gonçaves Zarco: imagens publicadas na edição de
Fevereiro de 1997 da Revista Macau.
O “Gonçalves Zarco”, aviso de 2.ª classe, deixou definitivamente Macau no dia 28 de Março de 1964, "em ambiente festivo que ficou indelevelmente gravado na memória de muitos residentes. Depois dessa data, deixámos de contar com a permanência de navios da Marinha de Guerra Portuguesa, os quais só ocasionalmente visitaram o território, havendo registos da passagem das fragatas “D. Francisco de Almeida” e “Comandante João Belo”, em Fevereiro de 1966 e em Março de 1970; das corvetas “Afonso de Cerqueira” e “Oliveira e Carmo”, em Outubro de 1975 e em Maio de 1976; e do navio-escola “Sagres”, em 1978, 1983 e 1993 (duas vezes)", recorda Jorge Rangel. 
A 16 de Maio de 1964, à chegada a Portugal, o amboente era bem diferente como recordou Eduardo Tomé num artigo publicado na revista Macau em 1997: "A aguadar a tripulação no cais estavam apenas os familiares, nada de entidades oficiais, nem mesmo da marinha, tão pouco a imprensa. Restava-lhes a consolação do dever cumprido e o feito de terem conseguido trazer para Portugal aquela relíquia naval, que, com galhardia, desempenhou durante nove anos consecutivos a última missão de soberania de um navio da Armada Portuguesa, nas águas de Macau e Timor“.
Fragata João Belo em Macau em 1970. Foto António Silva Martins
Aviso “Gonçalo Velho ” (1933 - 1961)
“Foi construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle, tendo sido lançado à água em 3-8-1932 e aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 1-3-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-4-1933 e em 6-4-1933 iniciou a sua primeira missão na costa norte, tendo entrado a Barra do Douro. Em 3-6-1933 iniciou uma viagem ao Algarve, Açores e Madeira. Em 27-6-1934 saíu para a primeira comissão de 6 meses em Angola, a que se seguiu um ano de permanência em Moçambique. Em 12-8-1937 saíu de Lisboa para uma comissão em Macau, de onde regressou em Fevereiro de 1939. Entre Setembro de 1939 e Fevereiro de 1940 esteve em missão de soberania nos Açores e em afirmação da neutralidade portuguesa na guerra. Em 5-5-1940 largou para uma comissão em Macau e Timor, onde permaneceu cerca de um ano. Entre Julho e Dezembro de 1942 efectuou uma comissão em Cabo Verde. Em 17-4-1943 saíu para uma comissão em Cabo Verde, mas seguiu quase de imediato para Moçambique, onde permaneceu cerca de um ano. Em 6-3-1945 iniciou nova comissão de serviço no Ultramar e Extremo Oriente, tendo permanecido cerca de 4 meses, em Moçambique, 11 meses em Macau e 7 meses na Índia. Em 1948 entrou em grandes fabricos em Lisboa e em 26-12-1949 saíu para comissão no Extremo Oriente. Durante esse longo período em que a guarnição foi substitutída em Macau, permaneceu na Índia, em Macau e em Timor, regressando a Lisboa em 29-1-1955. Entre Abril e Outubro de 1955 manteve-se atracado em Vila Franca de Xira. Entre Novembro de 1955 e Fevereiro de 1956 efectuou uma viagem de instrução na costa ocidental de África. Efectuou depois outras viagens aos Açores e Madeira e, em Setembro de 1957, representou a Marinha nas Festas de N. S. das Angústias, em Ayamonte, de onde regressou em 12-9-1957. Não voltou a sair a barra do Tejo e em 19-6-1961 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada”.
Gonçaves Zarco em 1964
Aviso “Gonçalves Zarco ” (1933-1964)
“Navio-gémeo do ‘Gonçalo Velho’, foi também construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle e foi aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 17-8-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-9-1933, isto é, 5 meses depois do ‘Gonçalo Velho’ e ainda nesse mês entrou a barra do Douro, tendo permanecido em Massarelos. Seguiu depois em viagem à Madeira e Açores. Em 28-2-1934 seguiu para a sua primeira comisssão, tendo permanecido em Moçambique até Janeiro de 1935. Seguiu depois para Timor e Macau, tendo regressado a Lisboa em 21-6-1935. Em Agosto de 1936 seguiu para a Madeira em apoio das forças militares e policiais que pretendiam anular algumas alterações da ordem pública. Em 8-10-1936 partiu para Angola onde permaneceu até Fevereiro de 1937, seguindo depois para Moçambique. Depois de uma estadia de 5 meses em Moçambique regressou a Angola e, passado um mês, voltou a Lisboa onde chegou em 9-10-1937. Em 12-1-1938 largou para outra comissão no Ultramar, tendo permanecido um mês em Angola e dois meses em Moçambique. Em 15-6-1938 saíu para Timor onde permaneceu um mês. Em 4-9-1938 chegou a Macau onde permaneceu até Abril de 1939. Visitou os Açores em Julho e Outubro de 1939 e permaneceu no arquipélago entre Janeiro e Maio de 1940. Em 24-10-1940 saíu para Cabo Verde onde permaneceu até Março de 1941. Em 11-10-1941 largou de Lisboa para uma comissão no Ultramar, chegando a Lourenço Marques em 3-12-1941. Foi designado para comboiar o transporte de tropas ‘João Belo’ destinado a Timor mas, perante uma ameaçadora sugestão japonesa, os dois navios mantiveram-se no mar entre Colombo e Java, entre os dias 18-2-1942 e 15-3-1942, regressando a Colombo e depois a Mormugão. Em Maio voltou a Moçambique onde se manteve até Dezembro e recolheu naúfragos de navios torpeados por submarinos alemães, tendo regressado a Lisboa em 14-2-1944. Em 29-4-1944 saíu de novo para Moçambique, onde voltou a recolher naúfragos. Em 29-8-1945 partia para Timor escoltando o transporte de tropas ‘Angola’, com as forças que iam reocupar a ilha após a derrota japonesa. Juntou-se-lhe o aviso ‘Bartolomeu Dias’ e juntos chegaram a Díli em 27-9-1945. Permaneceu em Timor durante 72 dias e em 16-1-1946 entrou em Lisboa. Em 31-8-1946 saíu para a Índia, onde permaneceu até Abril de 1949. Entre 24-11-1949 e 31-3-1950 efectuou um périplo de África em viagem de instrução de cadetes. Efectuou depois outras viagens no Atlântico e no Mediterrâneo e em 1-8-1943 efectuou uma viagem aos Estado Unidos. Entre 15-11-1953 e 7-3-1954 efectuou uma viagem de instrução e participou nas comemorações do 4.º Centenário da Fundação da Cidade de S. Paulo. Em 1954 esteve por duas vezes em Vila Franca de Xira, para apoio à instrução da Escola de Mecânicos. Em 29-9-1955 saíu para uma das mais longas comissões feitas por navios portugueses. Esteve na Índia durante mais de um ano, seguindo depois para Macau onde esteve entre Outubro de 1955 e Maio de 1958. Em Maio de 1958 voltou à Índia, onde se manteve até 2-7-1959, data em que saíu para Timor, onde permaneceu cerca de 4 meses. Voltou a Macau onde estacionou até 28-3-1964. Chegou a Lisboa em 10-5-1964, após mais de 8 anos de ausência. Em 21 anos fizera mais de 30.000 horas de navegação. Em 4-11-1964 foi abatido ao efectivo dos navios de Armada”.
Elaborado a partir de textos dos seguintes autores:
- Comandante José Ferreira dos Santos, “Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, Academia de Marinha, 2008
- Comandante Adelino Rodrigues da Costa, “A Marinha Portuguesa em Macau - Uma relação muito singular”, Capitania dos Portos de Macau, 1999 e “Dicionário de Navios & Relação de Efemérides”, Comissão Cultural da Marinha, 1996
- Foto-jornalista Eduardo Tomé, artigo intitulado “A última missão naval de soberania no Oriente”, Revista Macau de Fevereiro de 1997

terça-feira, 13 de março de 2012

Exposição: Fausto Sampaio e Herculano Estorninho

"Uma vez mais, Macau reuniu dois Artistas, cujas obras se destacaram na fixação de motivos macaenses através da sua pintura: o metropolitano Fausto Sampaio (1893-1956) que ali passou alguns meses em 1936, em viagem adrede feita, no prosseguimento do seu labor predilecto de transmitir, em tela, os acepctos mais típicos das terras e gentes do multi-secular Ultramar português; e Herculano Estorninho (1921-1994) macaense de gema ali radicado, sorvendo permanentemente o húmus do Solo que lhe serviu de berço, transmitindo-o em aguarelas e óleos, desde os seus quinze anos de idade. Ambos procuraram dar-nos, através da sua arte, nos seus respectivos estilos e vivências em toda a pujança de tons e de cores, como viram e sentiram a vida quotidiana da "Cidade do Nome de Deus na China", com seus pagodes e templos, suas ruas e travessas, sua faina marítima única, sua mistura do oriente e do ocidente.
O primeiro e único encontro físico destes dois pintores verificou-se quando Fausto Sampaio estava no apogeu da sua Arte e Fama, quando Herculano Estorninho, ainda rapaz, ensaiava os seus primeiros exercícios liceais de pintura. Encorajado por Sampaio a prosseguir, Herculano Estorninho vem-nos dando, sobretudo a partir dos anos 60, a sua maneira de sentir, de viver e de amar a sua terra natal.
Tendo em comum a identidade de tema quer macaense quer timorense, embora esta identidade se encontre separada no tempo, a presente mostra reúne pela vez terceira, os dois pintores de Macau, um metropolitano e outro macaense, tendo deste vez Macau por pano de fundo.
Lisboa, 18 de Março de 1983"
In catálogo da exposição que teve lugar na Casa de Macau em Lisboa entre 22 e 29 de Março de 1983; cedido por Zito Estorninho.
PS: Fausto Sampaio (os dois quadros que mostro são da sua autoria) tinha um irmão em Macau, Carlos Sampaio, que era Chefe da Repartição dos Serviços de Administração Civil; hoje em dia, julgo que uma neta vive em Macau.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Compra "estação de broad-casting": 1926

Em Março de 1926 é publicado no B.O. do Governo a compra da "estação de broad-casting estabelecida em D. Maria e pertencente a 'The Radio Communication company (Orient)" por um total de 17 mil patacas.
Década 1930
Década 1950
Década 1960
As três antenas do posto de rádio na D. Maria e o reservatório

domingo, 11 de março de 2012

A comunidade macaense em Portugal

Este é o título da tese de doutoramento - galardoada com o prémio Agostinho da Silva pela Academia de Ciências de Lisboa em 2008 - de Isabel Rijo Correia Pinto, licenciada em enfermagem, mestre em estudos interculturais e doutorada em estudos asiáticos. Viveu 18 anos em Macau onde casou com um macaense e há poucos dias esteve por lá a apresentar o livro. Em declarações ao HM disse:
"Noto que a comunidade macaense em Portugal é uma comunidade envelhecida. As pessoas com quem falei e que normalmente encontro têm todas mais de 40 anos. Os que têm idade inferior a esta, já nasceram lá. São macaenses, mas não por naturalidade. Muitas pessoas que mandavam os filhos estudar para Portugal,  quando se deu o 25 de Abril de 1974, pensaram se deviam continuar a fazê-lo, por isso terá havido uma travagem nessas idas. Actualmente, os mais novos macaenses já não escolhem Portugal para viver. Por outro lado, também considerei fundamental nesta pesquisa, saber o que está por detrás de atitudes e  comportamentos, uma vez que não tive intenção de obter apenas valores estatísticos, mas também perceber quais os sentimentos que conduziram às respostas dadas."
É ainda a autora do estudo “O Comportamento Cultural dos Macaenses Perante o Nascimento”.
Segundo a autora, "Este é um estudo transversal, descritivo e analítico que pretende dar a conhecer como se comporta culturalmente a etnia macaense residente em Portugal. Nesta investigação, analisam-se os aspectos que a nível cultural são predominantes no seu quotidiano, uma vez que a origem euro-asiática leva a que sejam influenciados pelo oriente, principalmente pela cultura chinesa, devido à localização geográfica de Macau. A esta circunstância alia-se o facto de viverem em Portugal e serem também influenciados pela cultura portuguesa, por razões histórico-culturais. Nesta pesquisa, foi utilizada uma amostra de 50 macaenses, cuja selecção obedeceu aos seguintes critérios: nacionalidade portuguesa; naturalidade macaense; ascendência euro-asiática; português como língua materna (podendo além desta ter outras); fixação de residência em Portugal, com permanência aí de pelo menos seis meses no ano; ter mais de 20 anos e menos de 69 na altura da fixação de residência em Portugal. A questões colocadas no inquérito incidiram em temas relacionados com mobiliário e decoração da casa, vestuário, alimentação, passatempos/comunicação, medicina popular, crenças e superstições, festividades e outros eventos e presente e futuro da cultura macaense. Os resultados dos inquéritos foram confrontados com as informações resultantes do enquadramento teórico elaborado versando os mesmos assuntos entre alguns povos europeus e asiáticos, com especial ênfase para os povos chinês e português. Foram também destacados alguns aspectos relacionados com a etnia macaense, considerados relevantes para este estudo."

sábado, 10 de março de 2012

"Cronologia" vai ser revista

A historiadora Beatriz Basto da Silva (68 anos) regressou a Macau para, a convite de uma instituição académica do território, reescrever e reeditar a “Cronologia da História de Macau”. Assim, para além da nova versão dos primeiros cinco volumes poderá vir a surgir mais um, dedicado aos acontecimentos entre a assinatura da Declaração Conjunta e a transferência de soberania.
Em declarações ao JTM de 9-3-2012 explicou:
“Tenho a minha cronologia esgotada em português e chinês. Mesmo quando estava em Portugal recebi vários ecos de que a obra fazia falta e percebi que era preciso reedita-la com actualizações.” (...) “Hoje em dia, estou em condições para preparar uma cronologia mais rica e abrangente para os primeiros séculos da História de Macau. Esta é uma das coisas que me prende aqui. Há vontade política, os meios são mais folgados e os académicos são muito mais generosos, as pessoas dão mais as mãos. Em Portugal não há tanta vontade de colaborar”.
Outro livro que poderá ser revisto é o “Emigração dos Cules: dossier Macau 1851-1894”, editado em 1994. Na opinião de Beatriz Basto da Silva, “há um estudo a aprofundar nas lápides do Cemitério de São Miguel Arcanjo.” Em tempos idos, foi lá que a investigadora recolheu grande parte das informações. Hoje em dia, pretende regressar “mais vezes” ao local. “Há mais trabalho a fazer, porque as pessoas foram casando mas não esqueceram as suas raízes, visíveis, por exemplo, no nome. E até já tenho um desafio nesse sentido”, desvenda a estudiosa, que faz parte da Academia Portuguesa da História. O vício de vasculhar memórias de Macau promete não sossegar. Esteja aqui ou noutra parte do mundo.
Nota: fico particularmente satisfeito com  a notícia da reedição da "Cronologia". Ainda há cerca de um ano desafiei a Prof. Beatriz a fazê-lo e junto de algumas instituições fiz  notar  a importância desta obra de referência que merece ainda uma edição electrónica que permita uma constante actualização.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Lorcha "Macau" em Portugal

Em 1988, as Oficinas Navais de Macau decidiram recriar pedaços da história dos mares de Macau, ao construir a Lorcha de Macau, réplica das antigas embarcações de madeira que navegavam pela China (ver caixa). Anos depois, foi cedida à Expo 98, tendo posteriormente passado para as mãos da Fundação Oriente (FO).
Actualmente a réplica encontra-se atracada na Marina de Portimão, em estado degradado, estando disponível para venda, pela quantia de MOP 1 milhão (95 mil euros). O anúncio foi colocado a semana passada e pode ser visualizado na internet, estando o negócio a cargo da empresa BlueWater Algarve, empresa correctora de barcos.
O Hoje Macau fez-se passar por um cliente. Do outro lado da linha, confirmaram que se trata da mesma embarcação de cariz histórico, e que o preço está baixo dado o grau de degradação. “O barco praticamente foi abandonado. Está em bastante mau estado e precisa de muito trabalho, por isso é que o preço está assim baixo. Pode ir para a água, mas necessita de reparação.”
A confidencialidade não permitiu revelar o nome do proprietário da embarcação, mas a responsável da BlueWater Algarve adiantou que se trata de “um dono particular”. “Provavelmente o dono do barco está sem dinheiro e o barco foi-se degradando. Durante muitos anos ninguém cuidou dele.” Ana Paula Cleto, coordenadora da delegação Macau-China da FO, disse desconhecer o anúncio. “Confirmei junto da Administração da FO e a Lorcha não está à venda.” Referiu ainda que a FO está em negociações com o Museu da Marinha e diversas universidades portuguesas para que Lorcha de Macau possa ser utilizada para fins educativos.

02-03-1998: A lorcha Macau parte para a sua derradeira viagem na Ásia em direcção a Hong Kong onde será embarcada para Lisboa para estar presente na Expo’98. Foto de K. W.Tam/Lusa  Lopo após o seu lançamento à água, em 1988, a Lorcha Macau navegou até ao Japão para participar no Festival da Espingarda, na ilha de Tanegashima, onde se comemora todos os anos e chegada dos portugueses ao Império do Sol Nascente.
Monjardino não quer vender
Os esclarecimentos da presidência da FO chegaram mais tarde. O titular do cargo, Carlos Monjardino confirmou que não há qualquer intenção de venda da Lorcha de Macau. Quanto ao anúncio, também não sabe de onde vem, mas, admite que possa ter surgido da parte das termas de Monchique, a quem a embarcação esteve cedida até ao ano passado para fins turísticos. “Houve alguns estrangeiros que lá foram, que acharam que era uma embarcação muito interessante. Devem ter depreendido pela conversa que a Lorcha estava à venda. Não temos compromisso em vender.”
Além disso, “é importante salientar que, se vendêssemos, só sabendo a quem vendemos”.
Sem ter conhecimento do anúncio, Monjardino pondera agora contactar directamente a BlueWater Algarve ou as termas de Monchique para resolver a questão. Carlos Monjardino garantiu que, anualmente, a embarcação custa à FO entre MOP 400 mil e MOP 500 mil em despesas normais de manutenção, e MOP 1 milhão de dois a dois anos, para substituição da madeira, afectada por bichos. “Foram feitas obras e gastámos fortunas para recuperar a parte de dentro. A construção é má e não há solução à vista para acabar com a praga. Não se pode manter assim, a Lorcha não é usada, não serve para nada.”
Para Monjardino, a embarcação “nunca deveria ter saído de Macau” e, para já, só vê duas saídas possíveis: a Marinha Portuguesa ou Macau. Em ambas, a FO disponibiliza-se a custear a manutenção. “O problema não são os gastos, mas sim o facto de não ser utilizada. Queremos arranjar uma entidade séria e estamos disponíveis para pagar a manutenção.”
Segundo o presidente da FO, já se realizaram duas propostas à Marinha, que até ao momento não aceitou tomar conta da Lorcha. Monjardino disse também que houve contactos com o Museu Marítimo de Macau.
Sonho de “Bibito”
Quem também concorda que a réplica deveria regressar a Macau é o publicitário Henrique Silva, mais conhecido por “Bibito”. Há um ano, iniciou diversas conversações, tanto em Macau como em Portugal, para angariar patrocínios – queria trazer a Lorcha de volta à sua terra natal. O anúncio da venda revelou-se uma surpresa. “Quando vi, fiquei chocado. É um pedaço de História que está à venda. Mistura a tecnologia chinesa com a portuguesa e representa aquilo que é Macau. Acaba por representar um pouco aquilo que é o navio Sagres para Portugal.” Para Henrique, o ideal seria trazer o barco para o próximo ano, altura em que se comemoram os 500 anos da passagem dos portugueses pelo território. “Simbolicamente fazia sentido. Tenho tentado arranjar patrocinadores, e de Portugal existem algumas logísticas faladas.”
Séculos de história em pedaços de madeira
A Lorcha de Macau, actualmente atracada na Marina de Portimão, representa séculos de navegação e um sinal vivo do património histórico do território. Em meados do século XIX, o porto de Macau albergava cerca de 60 lorchas, algumas com objectivos bélicos. As lorchas também existiam na Tailândia, em Singapura e em Ningpo.
Este tipo de embarcação mostra a junção das técnicas portuguesas e chinesas. Enquanto o casco tem um traçado europeu, o leme e o aparelho vélico possuem traços orientais, o que lhe dá mais rapidez e facilidade de manobra. Construídas em madeira de cânfora e teca, as lorchas tinham entre dois a três mastros e podiam variar entre as 30 e as 50 toneladas. Com uma tripulação mista, serviam, no século XIX, para transporte de carga, serviços de vigilância e defesa contra os piratas. Em Macau, muitas das lorchas de guerra viram o seu armamento reforçado e dedicavam-se apenas a combater a pirataria. As lorchas Adamastor, Leão Terrível, Amazona ou Tritão são exemplos de vasos de guerra que destruíram muitas embarcações de piratas.
Com o passar dos anos, começaram a ser substituídas por embarcações a vapor, que mais rapidamente faziam o transporte de mercadorias para o litoral da China. Aos poucos, as lorchas desapareceram dos portos e do uso diário das gentes de Macau. Nos primórdios do século XX, sumiram-se por completo dos mares do sul da China. Em meados de 1987, 1988, as Oficinas Navais de Macau construíram a Lorcha Macau, uma réplica que pretendia promover a cultura e a história do território. Aquando da Expo 98, o Governo de Macau doou a embarcação à Aporvela. A falta de apoios financeiros fizeram com que a Lorcha de Macau passasse para a Fundação Oriente, que assim ficou responsável por ela.
Artigo da autoria de Andreia Sofia Silva publicado no HM de 9-3-2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

A mulher na sociedade macaense: séculos XVI e XVII

Em Mulheres em Macau, Donas Honradas, Mulheres Livres e Escravas (Séculos XVI-XVII) procurámos trabalhar a partir de informação dispersa que fomos compilando, uma tipologia de referências assente em múltiplos textos de filiação masculina, que nos possibilitam, também, o acesso à mentalidade dominante. Embora a informação recolhida tenha por base autorias diferentes, e portanto, um olhar multiforme, permite-nos, justamente por este facto, avançar com o esboço de caracterização da cultura andriarcal perante o qual o heterogéneo segmento populacional feminino se situava. O presente trabalho, ponto da situação de uma via de pesquisa que continuamos a explorar, adianta, por ora, alguns dos dados que nos têm permitido identificar a realidade social e descrever a estruturação social macaense, entre finais de Quinhentos e meados de Seiscentos. Identificar os códigos sociais impostos às mulheres, atendendo à multicultural sociedade de Macau, constitui de igual modo um dos objectivos deste trabalho.
Texto do site do CCCM
Mulheres em Macau, Donas Honradas, Mulheres Livres e Escrava, Elsa Penalva, Lisboa, CHAM-CCCM, 2011
Traje das senhoras de Macau no final do século XVIII
Para 'abrir o apetite' sobre o tema aqui fica um excerto de um texto da autoria de outro académico.
De acordo com o investigador Ivo Carneiro de Souza "no território macaense, distinguindo-se do que se passava em outros espaços coloniais, como Goa ou o Brasil, a presença de mulheres europeias é praticamente inexistente ou fragmentária até quase finais do século XIX, quando o estado central começa sistematicamente a funcionalizar e a assalariar as longínquas administrações, contingentes militares e burocracias coloniais. Em rigor, de forma generalizada, a presença social portuguesa nos diferentes enclaves asiáticos que se organizavam sob a tutela político-institucional do chamado «Estado da Índia», da África Oriental a Timor, não mobilizava mulheres de origens europeias, descontados alguns exemplos, aventuras e esforços de circulação de orfãs, maioritariamente limitado ao enclave goês mas quase sem expressão no devir social de Macau."
Estas mulheres eram "indispensáveis para sustentar os mercados nupciais e matrimoniais que permitiram a sobrevivência de sistemas de parentesco, famílias e unidades domésticas «portuguesas» e «luso-asiáticas» em Macau.
"Diante da escassez de mulheres europeias e a interdição de aceder às mulheres chinesas de mais elevada condição social, muitos comerciantes, soldados, aventureiros e agentes políticos portugueses instalados em Macau começaram, ainda nas décadas finais no século XVI, a perseguir comunicações sexuais e matrimoniais junto de grupos femininos subalternos que, de extracção asiática, chegavam ao enclave através do rapto, da compra, da negociação e do resgate escravista. Identificam-se, desde a década de 1590, várias mulheres compradas e resgatadas em diferentes espaços dos mares do Sul da China e do Sudeste Asiático que, somadas a muitas crianças e jovens chinesas continentais, eram compradas ou raptadas em acções comerciais e marítimas, começando depois a aceder ao casamento com portugueses, a entrar também nos seus serviços domésticos ou a participar num mercado sexual que, em larga medida, se encontra por investigar. Mais tarde, na viragem do século XVI para a centúria de Seiscentos, domina um movimento continuado de resgate e compra de crinças e jovens chinesas que, negociadas com os poderes dos mandarinatos locais, se recrutavam tanto entre as camadas mais pobres da população como entre as situações de orfandade local. 
A partir da sua fundação, em 1569, coube à Misericórdia de Macau passar demoradamente a cumprir a tarefa de controlar social e «moralmente» o mercado nupcial feminino do território, impondo-lhe dotes, regras e, sobretudo, a vigilância da formação católica das jovens e mulheres asiáticas candidatas ao casamento ou ao serviço entre as «famílias da terra». Desde a década de 1590, a Santa Casa começou por apropriar o monopólio do casamento e dotação dos orfãos, exercendo um controlo firme sobre a condição católica destes agrupamentos, depois estendido a outras posições de subalternidade social feminina."
PS: sobre este tema sugiro ainda a leitura do livro "Uma artistocrata portuguesa no Macau do século XVII"

quarta-feira, 7 de março de 2012

Certificado de registo de marca: 1926

First proposed in 1928, the merger of Standard Oil Co. of New York with Vacuum Oil Co. of New York was consummated last week by an overwhelming vote of the companies' stockholders. Excerto de uma notícia da revista Time, 15 Junho de 1931.
B.O. de Macau em Março de 1926 a partir do que foi originalmente publicado em Portugal
Esta marca é a que hoje conhecemos como "Mobil". Ao longo dos existiram inúmeros negócios de compra, venda e fusões. Por exemplo, em 1931 houve a fusão da Socony com a Vacuum Oil Co. em 1931. Mas outros negócios surgiriam. Em 1955, a Socony-Vacuum tornou-se na Socony Mobil Oil Co. e em 1966 passou a chamar-se simplesmente Mobil Oil Corp. A mais recente fusão ocorreu em 1999, quando surgiu a ExxonMobil.

terça-feira, 6 de março de 2012

Vista a partir da Guia ao longo dos anos

Cerca 1900
Década 1940
Década 1950. Foto de Lei Iok Tin

Final da década 1960



Década 1970
Década 1980 (cima) e 1990 (baixo)

domingo, 4 de março de 2012

Paquete "Colonial": 1945

22 Dez. 1945: Notícia da chegada a Hong Kong/Macau do paquete ‘Colonial’, o primeiro navio não militar que aporta ao território depois do fim da guerra sob a direcção do comandante Mário Simões Maia. Partiu de Lisboa a 28 de Setembro. "Vinham muitas coisas nesse barco: bacalhau, vinho branco e tinto”, recordou um dia Henrique de Senna Fernandes que foi aluno de Lara Reis e que neste navio regressa ao território oriundo de Goa onde estava desde o Verão de 1942 como professor. Ainda vai a Lisboa mas regressa a Macau onde morre em Janeiro de 1950.
10 Janeiro 1946: O paquete “Colonial” parte de Macau em direcção a Portugal. A bordo seguem muitos civis (várias dezenas de famílias num total de várias centenas de pessoas) e militares (69 cabos e soldados europeus e 133 cabos e soldados indígenas), estes para gozar licenças graciosas especiais que podiam chegar aos 120 dias ou mais. Ao fim de vários anos de guerra uns aproveitam para ir à Metrópole tratar de assuntos pendentes, outros abandonam definitivamente Macau. O embarque de passageiros (ca. 300 no total), malas e bens (mobílias incluídas) começou dois dias antes.
O “Colonial” fazia parte da “carreira rápida da costa Ocidental e Oriental” da Companhia Colonial de Navegação (CCN) - não confundir com a CNN. Os bilhetes mais baratos eram os da 3ª classe. Partiu na madrugada deste dia em direcção a Hong Kong onde recebeu um carregamento de canela. Seguiu depois para Bombaim, Cochim, Moçambique, Angola e Madeira. A 27 de Março o “Colonial” passou pelo porto do Funchal e no dia 31 ancorou na gare marítima de Alcântara com 400 passageiros a bordo.
A bordo há registo da edição de um pequeno jornal (logo 10 dias depois do início da viagem), dirigido pelo padre Manuel Teixeira e contou com a colaboração do “poeta-soldado” J. J. Monteiro. Este militar, que haveria de regressar a Macau organiza ainda uma festa de beneficiência a bordo no dia 22 de Março.
Este paquete, um antigo vapor alemão de 1908, entrou ao serviço da CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1930 e cessou actividade em Maio de 1949.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Pharmacia Popular: Janeiro 1897

Esta farmácia foi fundada em 1895 por Pedro Nolasco da Silva, mas já antes outras tinham surgido. O anúncio é do jornal Echo Macaense. Numa leitura mais atenta consegue-se perceber a variedade de produtos que eram vendidos (medicamentos, sabonetes, perfumes, chocolates, etc...). Daí a expressão "há de tudo como na farmácia!"

quinta-feira, 1 de março de 2012

Procissão Senhor dos Passos

A Procissão de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos é quase tão antiga como esta cidade e sempre se tem celebrado com grande solenidade, muita concorrência e profunda devoção.
E quando há dois séculos e meio, ou seja, em 1717, deixou de se celebrar pela ausência dos frades de S. Agostinho, que haviam sido expulsos para Goa, houve tão grande carestia que os gentios se dirigiram ao Procurador da Cidade a pedir que fizesse sair à rua «aquele homem de madeiro às costas», que eles pagariam todas as despesas. Assim se fez e cessou a carestia. Estamos, pois, em presença dum espectáculo que tem comovido e impressionado todos os portugueses, chineses e estrangeiros que aqui viveram ou por aqui passaram nestes 400 anos.
A procissão do Senhor dos Passos marca o inicio da Quaresma em Macau
No tempo em que os conventos regorgitavam de frades - franciscanos, dominicanos e agostinhos, além dos numerosos Jesuítas de S. Paulo e S. José e de todo o clero diocesano, todos ou com os seus hábitos religiosos ou com as suas capas negras e o bispo à frente- devia ser muito imponente esta procissão. Acresce que, além da Verónica, que nunca faltou, iam também os Anjinhos com os instrumentos da Paixão do Senhor, lançando flores.
As tochas odoríferas, levadas pelos Irmãos da Confraria, de opas rochas, espalhavam jorros de luz muito mais brilhante que a fraca luz dos candeeiros que iluminaram as ruas.
Já se celebrava esta Procissão três séculos antes da fundação de Hong Kong. E quando milhares de portugueses foram procurar na nova colónia britânica meios de vida, vinham eles todos os anos, quase em massa, associar-se ao seu querido Bom Jesus. E quando os Irmãos da Confraria de Macau alegaram que não tinham forçapara levar aos ombros a pesadíssima estátua do Senhor, pretendendo levar outra menor, os portugueses de Hong Kong protestaram com toda a veemência, oferecendo-se para transportar aos seus ombros a antiga estátua e pagar todas as despesas da procissão. Os de Macau não cederam esse privilégio aos de Hong Kong, como veremos abaixo.
Outrora a procissão dos Passos era mais longa, pois havia passos à entrada das igrejas da Sta. Casa, de S. Domingos, de S. Francisco e da Capela do Bom Jesus, construída em 1743 por Francisco Xavier Doutel, no Monte do Bom Jesus. Quanto ao Passo da Rua Formosa, a revista Religião e Pátria de 10-3-1957 informa: «A Baronesa de Portalegre, madrinha de José Joaquim de Azevedo, Major de Infantaria, deu, por sua morte, a capelinha da Rua Formosa a este senhor. O Sr. Major, por sua morte, ocorrida por 1889 (cfr. o túmulo à entrada do Cemitério de S. Miguel, à direita), deixou a capelinha a sua esposa, D.ª Engrácia Maria Braga de Azevedo, que faleceu por 1907. D.ª Engrácia entregou a capelinha ao cuidado da sua filha, D.ª Paquita de Azevedo Cardoso, viúva do Cap. Cardoso, falecido em 1952; nesse ano tomou conta desse Passo D. Mily Catela».
Ljungstedt descreve assim esta procissão em Historical Sketch of the Portuguese Settlements, p. 1551: «Passemos agora da alegre procissão (de S. António) para a mais séria e melancólica de todas. O Domingo da Cruz — a julgar pelos emblemas exibidos nesta procissão — representa a transição do paganismo para o cristianismo. O Redentor — uma imagem do tamanho dum homem — revestido com um manto de púrpura, levando na cabeça uma coroa de espinhos e ao ombro uma pesada cruz, dobra um dos joelhos sobre o fundo dum andor, transportado por oito dos mais distintos cidadãos. O bispo com o clero secular e regular, o governador, os ministros, a nobreza, os militares e toda a população católica romana, pode dizer-se, assistem, profundamente comovidos por uma cena que prognostica o divino sacrifício que se vai realizar para reconciliar o homem com o seu Criador. Crianças — de rostos claros e escuros — revestidas de vestidos de anjos, com lindas asas de musselina nos ombros, levam os instrumentos em miniatura, que serviram para a crucifião. Esta procissão percorre quase toda a cidade; ao terminar, a imagem é depositada no seu santuário no Convento de S. Agostinho».
Sobre esta procissão Carlos Francisco Gracias escreveu em «O Clarim» de 7-3-1965:
«A introdução desta festividade católica em Macau deve-se aos religiosos de Santo Agostinho que vieram da Espanha, por via das Filipinas. À semelhança da Península Ibérica, o culto à Paixão de Cristo tomou aqui forte incremento e os milagres atribuídos estendiam-se muito em breve aos pagãos. O Sr. Jack Braga reproduziu no «Boletim Eclesiástico», recentemente, um códice do séc. 19, encontrado na Biblioteca de Évora, que é uma colectânea de «vários factos» ligados à história de Macau durante o período 1553-1748, e nessa fonte vem relatado um caso interessante: «Aos 14 de Fevereiro de 1721 houve nesta cidade uma grande carestia pela falta de mantimentos e os chineses atribuindo isso ao facto de se não fazer a procissão dos Passos, requereram ao Pro. curador do Senado para que fizesse andar pelas ruas aquele homem de pau às costas (palavras deles), oferecendo-se para os gastos». Com efeito a escassez desapareceu depois de feita a procissão e os chineses, contentes, cumpriram com o acordo.No século passado um abastado comerciante macaense, apelidado Dias, encomendou de Portugal uma imagem de Cristo com a Cruz às costas, para o seu oratório particular; contudo o navio em que a encomenda vinha sofreu um naufrágio e em-breve circulava na cidade a notícia dessa perda já considerada total. Passados dias, foi encontrado na praia um caixote endereçado ao Sr. Dias. A imagem estava em perfeitas condições, e tem sobrevivido até aos nossos dias, hoje, encontrando-se em Lisboa na posse da Sra. Da. Aurelina Dias—até há uma década, residente e funcionária dos C.T.T. de Macau—um dos directos descendentes do aludido comerciante.
Quando nos meados do século passado, os macaenses emigraram para Hong Kong e outros portos da China, a devoção do Senhor dos Passos enraizou-se mais profundamente na vida católica do macaense a ponto de ele instituir essa prática no seu novo local de domicílio. Ainda hoje, perdura esse costume em Hong Kong, onde na Catedral se realiza anualmente a procissão organizada pela respectiva Confraria, no segundo Domingo da Quaresma. Na Igreja do Rosário em Kowloon, uma imagem é exposta à veneração dos fiéis durante uma quinzena (coincidindo com as novenas em Macau e Hong Kong) e segundo velhos residentes esta prática deve ter pelo menos cinquenta anos.
Aqueles emigrantes macaenses que se encontravam com possibilidades de virem a Macau para a novena, estabeleceram desse modo uma peregrinação anual que se tem mantido, embora actualmente se limite apenas a umas escassas dezenas de pessoas. Até há uns anos, era costume de certas famílias de Macau colocarem lanternas de petróleo a pressão, em certos locais do percurso na noite de sábado; na Rua Central, a família Assunção ainda mantém esta prática tão cheia de simbolismo — bem como, algumas famílias de Hong Kong traziam (até há uns cinco anos) tochas de enxofre que eram acesas em frente e aos lados do andor. Quebrou-se assim o elo da cadeia do passado, devido aos inconvenientes que o fumo provocava aos devotos, por se ver que não havia nenhuma utilidade prática. Outro aspecto de grande emoção para todos os fiéis, na procissão de domingo, está naquele cântico de perdão e misericórdia do Povo ajoelhado face ao Senhor no fim da devoção em cada Passo. Muita gente de Macau ainda se recorda dum peregrino de Hong-Kong conhecido por «Joe Sousa Misericórdia», pela sua voz de tenor (ou barítono, como alguns querem). Outrora, o percurso da procissão era diferente da actual; contudo não nos é possível assentar nas variantes havidas, exceptuando os seguintes factos concretos, respigados da mesma fonte histórica acima citada. Num registo datado a 25 de Março de 1708 diz-se que a procissão saiu de Sto. Agostinho e «foi até S. Domingos onde ficou ali», fornecendo-nos ainda o pormenor de que «os irmãos que acompanhavam o Senhor iam com capa branca e murça roxa». Em 1712, aos 14 de Fevereiro, «levaram o Senhor para S. Lourenço, donde saiu a procissão na véspera à noite para a Sé, e se recolheu noutro dia em S. Domingos». Como teria evoluído o trajecto, durante todos esses anos, até ao presente? Infelizmente, só podemos conjecturar, tal como fizeram outros estudiosos das coisas macaenses.
Devido à gentil informação do Sr. Braga, eminente investigador histórico, soube que ele e o falecido Chantre Morais Sarmento procuraram, baseados em dados transmitidos oralmente por pessoas mais idosas, delinear um trajecto com certa aceitação lógica. Repetimos, o traçado, que se segue, é apenas uma conjectura: 1.º Passo —Catedral, em seguida, a igreja da Misericórdia (i. e. da Santa Casa) situada mais os menos onde se encontra actualmente a Travessa da Misericórdia e os seus prédios de numeração par; S. Domingos; Hospital de S. Rafael; aqui, estamos numa encruzilhada, pois teria o Passo da Rua Formosa existido contemporâneamente ao de S. Francisco? Anteriormente à extinção do Convento de S. Francisco, a procissão ia ter até aos degraus da escadaria do Convento, portanto avento a hipótese de que o Passo da Rua Formosa foi trasladado do Convento de S. Francisco; actualmente, temos um passo na Praia Grande, — é bem possível que tivesse vindo da residência do Governador situada aproximadamente no actual Palácio das Repartições; outra alternativa seria o Passo de S. Francisco ter-se transferido para este local, o que quer dizer que o da Rua Formosa já existia; o penúltimo Passo encontrava-se no Convento do Bom Jesus, dos Agostinianos, (presentemente o Claustro das Carmelitas), tendo agora lugar no tardoz da Igreja de S. Lourenço; finalmente a procissão terminava em Sto. Agostinho. Assim deveria ter sido há cem anos; e tanto quanto é licito esperar das conjecturas, o trajecto devia ter sofrido poucas alterações.
Para concluir este esboceto: Uma senhora contemporânea ao facto contou-me que durante a tomada de Hong Kong pelos nipónicos na 2.ª Grande Guerra, uma das últimas lanchas a partir de Kowloon estava sendo alvejada pelas tropas em avanço - inclusive com apoio dum avião de combate - e devido ainda à sobrecarga de passageiros, a tarefa do patrão-mor da lancha tornava-se cada vez mais difícil para escapulir aos projécteis inimigos e em dada altura parecia já iminente o seu afundamento; entretanto, naquela amálgama de pessoas aterrorizadas perante a expectativa da morte, uma senhora portuguesa de Hong Kong levantando bem acima da sua cabeça a redoma encaixilhada de vidro contendo uma estátua do Senhor dos Passos invocou a Protecção Divina para quantos iam naquela frágil arca. Essa prece foi atendida, pois o ataque vindo da terra ia-se tornando fraco à medida que o barco se afastava para a outra margem do porto, enquanto que o avião se viu pouco depois sem munições. Infelizmente, ainda não me foi possível obter factos maisconcretos que permitam reconstruir na sua inteira perspectiva a história acima relatada».
Imagens do Senhor dos Passos
A antiga imagem do Senhor dos Passos, que se levava nas procissões de sábado e domingo, era depois recolhida e conservada, até ao ano seguinte na residência do Comendador Lourenço Marques, no Jardim de Camões. A madeira — rija e forte — do andor viera do Brasil, sendo de lá trazida por seu pai, o Comendador Domingos Pio Marques, que aqui chegou no navio Ulisses a 14 de Outubro de 1818; ele fora ao Rio, como deputado de Macau, para assistir às festas de aclamação ao trono de D. João 6.º celebradas a 6 de Fevereiro de 1818.
A rica cortina, bordada a fios de ouro, que ainda se usa na procissão nocturna de sábado, é obra de D. Leonor Maria Marques.
A velha imagem que existia em Santo Agostinho, há um século, foi para Timor. O Conde Bernardino de Senna Fernandes, tesoureiro da Confraria de N. S. Bom Jesus dos Passos, ofereceu, a 12 de Fevereiro de 1876, cem patacas para comprar uma nova imagem que ele mesmo mandou vir de Paris.
Além desta imagem, havia outra mais pequena que estava na sala das sessões da Confraria e à qual a esposa do Governador José Maria Lobo d'Ávila (1874-1876) ofereceu uma rica túnica; a 10 de Fevereiro de 1884, foi esta túnica oferecida às Missões de Timor.
A 17 de Janeiro de 1907, um português de Hong Kong, João Joaquim Gomes, ofereceu um andor com a respectiva armação, para levar a imagem.
A imagem vinda de Paris e oferecida por Bernardino de Senna Fernandes, em 1876, foi levada em procissão, pelas ruas de Macau, durante 34 anos (1876-1910). Mas, após o advento da República em 5 de Outubro desse ano, não sabemos se por diminuição da Fé ou das forças físicas, os Irmãos acharam-na demasiado pesada. E, na sessão da Confraria, de 5 de Abril de 1911, resolveram «levar para o futuro nas procissões a imagem pequena do Senhor dos Passos que está na sala das sessões, visto a que se levara até aqui não ser própria, tanto pelas proporções exageradas como seu peso demasiado que fatiga excessivamente os irmãos condutores a ponto de quererem furtar-se a esse trabalho, como mostra a experiência; devendo-se para esse fim arranjar o competente andor com a maxima brevidade».
Esta decisão motivou um protesto da Comunidade portuguesa de Hong Kong, cujo ofício vamos transcrever para se ver quão arreigada era esta devoção entre as comunidades portugueas do Extremo Oriente.
«Confraria de Nosso Senhor dos Passos. Hong Kong, 13 de Fevereiro de 1912. Exmo. Sr.
Tendo nós sido informado por alguns irmãos da Confraria tanto de Macau como de Hong Kong, da infelix resolução tomada pela Mesa Administrativa, de que V. Exa. é presidente, para descontinuar com a antiga e veneranda Imagem e Andor do Bom Jesus dos Passos para as procissões nos dias 24 e 25 do corrente, e cuja resolução foi, outrossim, transmitida pelo nosso Revdo. Capelão, a quem a mesa fallou quando estava em Macau há dias atraz, esta inesperada noticia causou-nos grande surpreza e um descontentamento geral na nossa comunidade. 1.º Porque as tradições antigas devem ser sempre conservadas e respeitadas, como foram pelos nossos antepassados. 2.º Que sendo a antiga e veneranda Imagem bem conhecida e existente d'ha muito; desde os tempos dos nossos avós e bisavós, não deve, por uma causa qualquer que seja, ser substituida por uma outra muito mais pequena e assás indigna para ser conduzida em trajecto publico, e também sendo esta Imagem já muito antiga e devota dos habitantes de Macau e o respeito e veneração que os muitissimos pagãos da localidade tributam a Ella, cremos que não se deve fazer alteração alguma. Pedimos, portanto, que a digna Mesa Administrativa se digne considerar a resolução já tomada e, se for possivel, revertel-a aos antigos costumes, sem alteração ou innovação alguma; e se julgarem incapazes de retroceder a dita resolução por falta de tempo e dinheiro, nós, os Irmãos da Confraria de Hong Kong, nos responsabilizaremos de proporcionar fundos necessarios para este fim. Constam-nos que o antigo esqueleto da dita Imagem foi deteriorado por formigas brancas e que os Mezarios se resolveram a queimal-o, sem contudo mandar previamente fazer outro para o substituir; e constam-me tambem que alludiram ser o antigo andor muito pesado e não haver quem o pudesse levar durante a procissão. Se estas duas allegações forem exactas, tambem estaremos promptos a remedial-as, mandando fazer um novo esqueleto à nossa custa, e que os Irmãos de Hong Kong estarão sempre promptos a levar o andor por mais pezado que seja, se lhes proporcionarem este devoto privillegio. Por tanto, bem vê que ha ainda muito tempo para revogar a resolução tomada e esperamos que os dignos Mezarios se comprazam com a devida devoção e desejo da maioria dos devotos do Bom Jesus dos Passos, mandando revogar e dita resolução. Na certeza de que o nosso justo pedido será devidamente attendido, subscreve-se com toda a consideração Att.to V.r e criado (ass.) José da Graça. Vice-Presidente. Exmo. Sr. Daniel da Rosa, Digmo. Presidente da Confraria de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, Macau».
Da imagem antiga que em 1911 os Irmãos se recusaram a levar na procissão, por ser muito pesada, restam pedaços — o rosto, as mãos e os pés. Os Irmãos não aceitaram a oferta dos portugueses de Hong Kong, mas nos anos seguintes arrumaram essa estátua na sala das sessões da Confraria. Ali esteve, durante muitos anos, até que um dia o Pe. Júlio César da Rosa, Capelão da Confraria, a mandou serrar. Era feita de roca e o seu rosto sofredor despertava piedade, causava compaixão e infundia devoção.
Ficou apenas no armário o rosto, os pés e as mãos. Um belo dia, o Presidente da Confraria, Artur Tristão Borges, vendo-a tão só e abandonada, levou-a para sua casa, aonde muita gente se dirigia, só para a admirar. A esposa deste Presidente, Angiolina Pacheco Borges, era quem ensaiava a Verónica e fazia os ensaios em sua casa, diante da veneranda imagem.
Na sala das sessões da Confraria. achava-se outra mais pequena. Foi esta que, quando se renovou a igreja de S. Agostinho e se fez o altar mar de marmorite, foi ocupar o nicho desse altar. Antes, nunca a imagem estivera no altar nem lá cabia, mas numa mesa em frente do altar de Nossa Senhora de Piedade, onde era venerada pelo povo. (...)
Nota: Desconheço o autor deste texto (é apenas uma excerto); provavelmente trata-se de Monsenhor Manuel Teixeira.