Nos rituais funerários da tradição chinesa, a realização de um funeral condigno é considerada fundamental para que o falecido obtenha a força necessária para renascer no Mundo espiritual dos Antepassados e receber um novo nome. A pompa e ostentação da cerimónia são vistas como um sinal de prestígio para a família e uma demonstração de piedade e consideração filial. É também perfeitamente natural e gerador de tranquilidade para um chinês adquirir o seu próprio caixão ainda em vida, preferencialmente feito a partir de um tronco de árvore antiga revestido com secções em lúnula, e guardá-lo no seu quarto.
As fases rituais iniciam-se no momento do passamento, quando a família reúne o moribundo no chão, sobre uma esteira junto à porta da casa e com os pés voltados para a saída. A confirmação do falecimento é feita através do movimento de fios de seda colocados junto do rosto para recolher o último hálito. Após a morte, o filho realiza a "compra da água" num poço próximo, atirando uma moeda ao dragão guardião da nascente para proceder à lavagem do corpo (começando pelo rosto na China do Sul).
O cadáver é depois vestido com várias cabaias sem botões, que constituem o enxoval para o outro mundo. O caixão é exposto durante pelo menos três dias na sala principal da casa, decorada com panejamentos brancos — a cor de luto que simboliza a passagem e o vazio provisório —, ou num quarto próprio.
Consoante o grau de parentesco, os familiares envergam vestimentas específicas em ramé, burel ou canhâmo, barretinas, capuzes, faixas ou lenços alaranjados (no caso das noras). Os filhos e noras prestam vassalagem realizando o Kau tau (bater com a cabeça no chão três vezes). Durante este período, parentes e amigos visitam a casa com oferendas de tecidos e alimentos, recebendo em troca um lenço, um doce (que simboliza continuidade e longa vida) e um envelope com lai-si para afastar más influências. A família encomenda ainda a estela funerária e reproduções em papel e bambu de bens do falecido (roupas, casas, criados, veículos e até aviões) para o acompanharem no Além.
Exteriormente, o luto é sinalizado à porta de casa através de duas lanternas azuis e brancas e de uma placa de bambu em forma de montanha; contudo, se o falecido for um venerável ancião, a morte é motivo de alegria e utilizam-se balões vermelhos e uma cobertura de caixão em cetim vermelho com símbolos de longa vida e felicidade. Para evitar perturbar os vizinhos e impedir que a alma do morto reconheça a entrada da residência, o caixão sai de casa por uma janela, porta lateral ou escada de bambu exterior.
Já na rua, organiza-se uma longa procissão encabeçada pela figura em papel do Deus do Inferno para afugentar espíritos perturbadores. Segue-se o neto mais velho a carregar um bambu de folha fina e a espalhar sapecas de papel de cinco cores para aplacar os espíritos kwai. Os filhos acompanham o préstito com hastes de bambu forradas de papel branco, simbolizando os bordões de apoio tradicionalmente usados após longos jejuns de filialidade.
A procissão inclui também um longo pano com a biografia e títulos do falecido em letras douradas, andores floridos com alimentos dispostos em pirâmide, sacerdotes bonzos a murmurar orações ao som de instrumentos estridentes, padiolas com vitualhas e músicos. O cortejo fúnebre é assinalado no meio do ruído pelo soar cadenciado de dois grandes gongos de tom lúgubre.
Nota: Resumo do artigo "Rituais de Vida e Morte na China Antiga" da autoria de Ana Maria Amaro publicado na Revista de Cultura nº 18 (1994).



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