terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aurora Portuguesa

Foto de José Neves Catela na década de 1930 e anúncio da imprensa local em 1938. Há uma versão de "portuguesa" e de "portugueza" para este estabelecimento que ficava na Rua do Campo. Foi pensão, restaurante, mercearia, botequim, salão de bilhar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lembrar Manuel Teixeira

Se fosse vivo, faria 100 anos a 15 de Abril. Por Portugal, a Fundação Oriente e o Centro Científico e Cultural de Macau dizem estar a preparar as comemorações do centenário do padre Manuel Teixeira. Por cá, haverá, pelo menos, um livro sobre a vida e obra do excêntrico missionário. A iniciativa cabe ao Instituto Internacional de Macau.
Pelo menos a Fundação Oriente (FO) e o Centro Científico e Cultural de Macau (FO) vão evocar, este ano, o centenário do nascimento de Monsenhor Manuel Teixeira com algumas actividades. Se fosse vivo, faria 100 anos no dia 15 de Abril. João Calvão, da FO, revelou que a instituição tem previsto realizar em Maio uma conferência por Beatriz Basto da Silva e a apresentação deuma pequena exposição bibliográfica.
Já o CCCM informou o Ponto Final que pretende assinalar esses 100 anos com conferências e uma mostra bibliográfica, em data a anunciar. Recorde-se que Manuel Teixeira doou todo o seu espólio documental (ou parte significativa dele) a este centro, via extinta Missão de Macau: uma biblioteca com cerca de três mil títulos, perto de dois mil manuscritos, além de uma colecção de fotografias que é considerada das mais ricas sobre o Macau português.
Outras entidades poderão realizar iniciativas, mas não são do conhecimento deste jornal. Uma delas, que contactámos, a Fundação Jorge Álvares, não deu resposta ao pedido de informação. Fica também por saber se haverá alguma edição ou reedição de obras de Monsenhor Manuel Teixeira, ele que deixou alguns originais, além de ter editado 123 obras diferentes (várias delas completamente esgotadas). Em 2001 regressou definitivamente a Portugal, tendo vivido os últimos anos em Chaves, onde está sepultado.
Freixo de Espada à Cinta?
Ainda menos provável é que Freixo de Espada à Cinta se lembre deste seu ilustre filho. Manuel Teixeira é um completo desconhecido localmente, não havendo qualquer rua com o seu nome ou registo de qualquer iniciativa promovida pela autarquia para o evocar. Também a casa onde nasceu é uma incógnita. A única irmã de Manuel Teixeira, agora com 86 anos, também ela religiosa (e que ainda não tinha nascido quando o jovem Manuel partiu para o Oriente), disse ao Ponto Final que não se recorda do local e que já não há qualquer familiar vivo que tenha essa informação. A Câmara de Freixo de Espada à Cinta também não respondeu ao pedido de informações deste jornal.
Artigo de João Paulo Meneses publicado no PF de 6-2-2012
Contra o pó, o fumo e a cinza
Após um mês de viagem, atracava em Macau vindo de Trás-os-Montes o seminarista Manuel Teixeira. Tinha 12 anos, a instrução primária concluída e a porta aberta para entrar no Seminário de São José. Estávamos em 1924. Dez anos depois, celebra a primeira missa, na igreja de São Domingos, e aceita dirigir o Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, onde publica trabalhos dos historiadores José M. Braga e Charles R. Boxer, e dá início a 70 anos de edição. Fundador da revista mensal “O Clarim” e autor de mais de uma centena de livros, o padre da batina branca escreveu e fez história: “Quando estudamos o património cultural e a história de Macau, lembramo-nos de imediato da figura de barba grande e branca com um par de óculos grossos do Monsenhor Manuel Teixeira. O homem e a obra ficarão para sempre guardados na memória das pessoas”, declarou Heidi Ho, quando era ainda presidente do Instituto Cultural.
Na vasta obra do missionário, que dominava as línguas chinesa e inglesa, há um “valioso contributo para o estudo da documentação histórica, religiosa e cultural” – o espólio está conservado na Sala de Macau da Biblioteca Central de Macau (BCM) e inclui 130 títulos.
O padre Manuel Teixeira foi também professor (no colégio de S. José, na Escola Comercial Pedro Nolasco, no Liceu Nacional Infante D. Henrique), membro da Associação Internacional de Historiadores da Ásia (e, mais tarde, da Academia Portuguesa de História) e era um nome conhecido por todos: em 1982 foi eleito Figura do Ano em Macau.
Dois anos depois, criou um fundo para o Estudantes Pobres de Macau. No portal da BCM, Monsenhor Teixeira chega-nos na primeira pessoa: “Como estudioso da história de Macau, o mais importante é tomar notas de todos os acontecimentos importantes de Macau e da sua Diocese, pois a história da igreja de Macau está intimamente ligada à história civil do Território (…). O homem é pó, a fama é fumo e o fim é cinza (…), só os meus livros permanecerão (…) e é essa a minha consolação”. O padre Manuel Teixeira despediu-se do mundo a 15 de Setembro de 2003, dois anos depois de ter deixado Macau e regressado a Portugal. Tinha 91 anos.
Artigo de S.N. publicado no jornal Ponto Final de 6-2-2012
Uma vida que dá um livro
O Instituto Internacional de Macau (IIM) prepara-se para lançar este ano um livro sobre a vida e obra do padre Manuel Teixeira, o excêntrico missionário de compridas barbas brancas que chegou a Macau com 12 anos para deixar uma vasta obra escrita sobre a história, os costumes e as gentes da terra. A publicação assinala os 100 anos do nascimento do Monsenhor, que se celebram a 15 de Abril. Haverá mais?
“Para já, temos confirmado o lançamento de um livro sobre a vida e obra do Padre Manuel Teixeira, inserido na nossa colecção ‘Missionários para o Século XXI’”, adianta Jorge Rangel, presidente do IIM, que atribuiu a primeira edição do Prémio Identidade ao Monsenhor em 2003, pouco tempo depois do seu falecimento. Desde então que o galardão distingue personalidades ou instituições que tenham assumido um papel de relevo na preservação e promoção da identidade macaense – os arquivos conservados por Manuel Teixeira são hoje tidos como uma importante fonte para quem investiga a história do território.
Com inclusão na colecção “Missionários para o Século XXI”, que soma cinco volumes, a vida e a obra do Monsenhor passa a ombrear com as biografias já publicadas pelo IIM dos padres Lancelote Rodrigues, Joaquim Angélico Guerra, Mário Acquistapace, Benjamin Videira Pires, Luigi Versiglia e Callisto Caravario. Mas Jorge Rangel diz esperar que haja mais do que um livro a celebrar o centenário do nascimento Manuel Teixeira: “O Monsenhor deixou uma obra extraordinária e é uma figura incontornável da história e da cultura de Macau. Estou convencido que teremos um programa que seja digno da sua dimensão”. O IIM, refere Jorge Rangel, está em contacto com instituições de Macau e de Portugal interessadas em organizar um plano de actividades “durante este ano” para lembrar Manuel Teixeira. “Conferências, exposições,... Há muita coisa que pode ser feita”, diz. O PF entrou em contacto com organizações locais, mas, até ao fecho desta edição, não foi possível confirmar a preparação de qualquer programa. O padre Manuel Teixeira foi agraciado, ainda em vida, com vários títulos: recebeu o prémio de História da Fundação Calouste Gulbenkian, pela assombrosa obra “Toponímia de Macau”, em 1974 foi distinguido Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e, já nos anos de 1980, aceitou, também das mãos do Estado português, a Medalha de Valor. Já após a sua morte, aos 91 anos, o Instituto Cultural rendeu-lhe uma “última homenagem”.
O “mais prolífico dos historiadores de Macau”, na descrição feita à época pelo Bispo da RAEM, D. José Lai, tem o seu espólio a cargo da Biblioteca Central de Macau, que organizou um vasto catálogo, disponível online, onde os escritos do Monsenhor estão distribuídos por três partes, das monografias aos artigos de análise. “Manuel Teixeira dedicou toda a sua vida ao tratamento e estudo da documentação histórica de Macau. Cabe hoje à Biblioteca Central de Macau a missão de cuidar a sua obra”, pode ler-se no portal, onde é também possível aceder a dados biográficos. À instituição foi ainda confiado um arquivo de duas centenas de fotografias que testemunham a última década do padre Manuel Teixeira no território. A Macau, dedicou mais de 100 livros e 77 anos de vida.
S.N.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Macau na Exposição Universal de Paris em 1900

A participação de Macau na Exposição Universal de Paris, em 1900 , constituiu um raro pretexto formal para a internacionalização do Território no seio da constelação colonial portuguesa. Essa iniciativa permitiu à sinologia portuguesa fazer uma prova de vida, quer em termos doutrinários, quer em termos de estratégia política e diplomática.
A Exposição Universal de Paris, com os Jogos Olímpicos a decorrerem em simultâneo , foi inaugurada pelo Presidente Emile Loubet, tendo ocupado uma enorme área de 108 hectares. O Pavilhão de Portugal, onde Macau se integrou, foi concebido pelo arquitecto Ventura Terra.
No dia 11 de Março de 1899, o Governador de Macau, Eduardo Galhardo, faz publicar no Boletim Oficial da Província de Macau uma portaria onde se nomeava uma comissão que iria preparar a representação de Macau na Exposição Universal de Paris em 1900, cuja nota preambular é bem explícita: “Tendo o governo de Sua Magestade resolvido fazer representar as províncias ultramarinas na Exposição Universal de Paris de 1900 e desejando que tal representação se faça por forma que possamos tomar naquele certame o honroso lugar que nos pertence como nação colonial, incumbe-me de promover nesta província uma exposição preparatória de tudo quanto possa dar ideia do desenvolvimento desta colónia”.
A Comissão foi presidida pelo juíz Albano de Magalhães e tinha como vogais Artur Tamagnini Barbosa, António Joaquim Basto, Lourenço Marques, Augusto Abreu Nunes, José Gomes da Silva, António Talone Silva, Leôncio Ferreira, Pedro Nolasco da Silva, Carlos Rocha d’Assumpção, Lu Cao , Chou Sin Hip, Ho Lin Vong, Cuong Fat Ching e Chan Hoc Hin. Como se vê, tudo gente reputada, com influência e reconhecimento social.
Têm o cuidado de escreverem no extenso Relatório, que entregam ao Governador, no dia 30 de Novembro de 1899: “Os europeus, tão desdenhosos, cheios de orgulho pelos progressos que tem feito nas artes e nas ciências nos últimos 300 anos, estão continuamente a informar-se como pensam, raciocinam e sentem os chinas, homens que eles olham como sendo-lhes inferiores sob todos os aspectos; e estes não se importam se os europeus raciocinam nem mesmo se existem!”. Esta notável reflexão é feita em contraciclo, pois o que estava em voga era um eurocentrismo que cavalgava a onda do imperialismo colonial inglês, especialmente activo no extremo oriente.
Continuam a desfazer equívocos: “Os chinas tem sido muito diferentemente apreciados no Ocidente; e essa diferente apreciação provém, em geral, do bom ou do mau humor do narrador que descreve os seus costumes, ou do viajante de quem se ouviram as descrições, nem sempre serenas, desapaixonadas, colhidas na observação fria dos seus hábitos e dos seus costumes, da sua moral e da sua religião. Uns estão em perpétua admiração perante este povo colossal no seu trabalho, na sua filosofia, na sua moral; outros não deixam de os desprezar e de os ridicularizar”.
No Catálogo dos Produtos, escolhidos e enviados por essa Comissão, constam 600 espécimes (a título de exemplo, quadros bordados a seda, leques de bambú, travesseiros de louça, flores artificiais para o cabelo, cabaias de seda, chapéu para mandarim, toalhas para mesa, altar chinês com 10 ídolos, caixa de marfim, escarrador de cobre, latas com frutas de conserva, quadros de jaspe, lanterna para caçar mosquitos, braceletes de prata ou ábaco chinês de prata) e uma valiosa colecção de madeiras (ébano, tamarindo, narra, teca, cânfora, molavel, amoreira e entena).
Uma prenda especial e simbólica foi concebida deste modo: “mandou a comissão expressamente pintar a óleo em placa de marfim o retrato de Sua Magestade a Raínha D. Maria Amélia para lhe oferecer. Foi a pintura executada por uma fotografia de Reutlinger – Boulevard – Montmartre – Paris – que para esse fim foi pedida de Lisboa por obséquio de S. Exª. o Governador desta colónia a instâncias da comissão. A fotografia era já uma bela produção de arte e dava da Nossa Augusta Soberana uma ideia exacta, fidelíssima, não lhe faltando nada na expressão, desde a tradicional meiguice do seu olhar e do seu sorriso até à soberana majestade que irradia do seu rosto encantador. O artista china que foi educado em Macau, no Seminário de S. José, onde aprendeu desenho e pintura, compreendeu-o absolutamente e na pintura que fez por cópia da fotografia foi tão fiel, tão cuidadoso, que a pintura a óleo antes parece a própria fotografia colorida, animada. É um belo retrato em marfim que nada deixa a desejar das produções europeias”. Qual seria a identidade do artista e onde estará a obra de arte?
O espaço dedicado às colónias portuguesas
Essa gentileza deverá ser interpretada como uma mensagem da vera harmonia e da convivência entre portugueses e chineses e o símbolo de uma arte cuja multidimensionalidade não confunde o belo como categoria ética. De resto, e estamos em 1899, a afeição da Comissão ao amanhecer das ideias republicanas na China está bem patente no assentimento e aplauso a uma prática revolucionária, já instituída em Macau, a contestação à aristocracia do andar e do calçar: “nesta colónia tem já criado raízes a conhecida seita estabelecida contra os pés amarrados, e muitos dos chinas principais desta cidade nela estão filiados. Os que abraçam as doutrinas humanitárias da seita comprometem-se a não permitir que sejam deformados os pés de suas filhas e a não deixarem casar os seus filhos com raparigas de pés deformados. O Comendador Ho Lin Vong, membro desta comissão, pertence a essa seita bem como Ip Loc San, ambos importantes negociantes desta praça”.
A plêiade de sinólogos da Procuratura dos Negócios Sínicos, integrando também professores, funcionários públicos, advogados e militares, deixou no Relatório uma marca de erudição, citando, por exemplo, Leibnitz, Humboldt, Voltaire e Montesquieu. O olhar sobre a China é tributário das obras de Du Halde e de Abel Remusat, deixando entrever a influência da sempre actualizada escola francesa do extremo-oriente. Dos portugueses, apenas são citados Calado Crespo, Wenceslau de Moraes e Bento da França.
Esta corrente sinológica, de raíz administrativa e burocrática, esgotava-se no mister de traduzir e de interpretar, o que, em abono da verdade, fazia bem. Ao não passar esse limiar administrativo não se criou um magistério, não se potenciou um imperativo categórico que obrigasse a um agir cultural. Pedro Nolasco da Silva, com outro apoio, poderia ter refundado a Escola Sinológica Portuguesa de Macau.
Pedro Nolasco da Silva (1842-1912)
Realmente, desde 1884, que Pedro Nolasco da Silva persistia na publicação de estudos, ensaios e outros projectos pedagógicos, especialmente interessantes os que direcionou para os alunos da Escola Central de Macau, sem esquecer a tradução, em 1903, da “Amplificação do Santo Decreto”, do Imperador Yongzheng. Dos outros membros da Comissão, Carlos Rocha d’Assumpção também publicou obras escolares dedicadas ao estudo da língua sínica, Leôncio Ferreira estava a preparar a sua última obra de filosofia moral cristã ou Lourenço Marques , porventura o mais culto apologeta do darwinismo, com dois livros publicados em Hong Kong. Quase todos antigos alunos e discípulos de Francisco Xavier Rondina, uma figura de referência do pensamento filosófico neotomista em Macau.
Olhando para o outro lado, também não existiu a fortuna de encontrar um mandarim regional, mesmo um vice-rei, verdadeiramente letrado e com uma visão diplomática para insinuar junto da elite portuguesa uma alfabetização sínica, o gosto pela pintura , pela filosofia e pela fruição da poética. Eram tempos de decadência e de desagregação, como se escreve no Relatório: “os homens de génio, capazes de dar impulso às artes ou às indústrias, ficam paralisados com a ideia de que ninguém premiará o seu mérito, e de que os seus esforços receberão do governo indiferenças em vez de recompensas. Não era assim nos séculos passados”.
A complexa hierarquia do mandarinato civil e judiciário e a do mandarinato militar ocupou a atenção da Comissão que produziu uma bem elaborada síntese informativa, decerto muito apreciada pela diplomacia portuguesa e pelos eruditos.
A difusão da cultura merece duas linhas, mencionando-se a “Tipografia Mercantil de Nicolau Tolentino Fernandes” , a “Tipografia Noronha”, as tipografias dos jornais “Echo Macaense” e “Lusitano” e a tipografia do Seminário de S. José. E “deve dizer-se que a liberdade de imprensa é antiquíssima na China e que os chineses fazem dela um uso moderado, e não estão no hábito de abusar ; imprimem coisas que podem recrear ou instruir o público sem faltar às virtudes fundamentais e sociais impostas por Confúcio”.
Em 1899, na capital portuguesa, João Feliciano Marques Pereira publica uma revista que tem por título ‘Ta-ssi-yang-kuó - Arquivos e Anais do Extremo Oriente Português’, que “constituirá uma espécie de repositório de documentos antigos, inéditos ou não, relativos à expansão portuguesa nessa parte do mundo, e bem assim de estudos, monografias, apontamentos, sobre a história, civilização, etnografia, filologia, linguística, folclore, usos e costumes de todos esses povos que estiveram ou estão em contacto com os portugueses, como, por exemplo, os chins, os malaios, os siameses, os japoneses, etc.”. Foi uma ousada viragem cultural que procurou adicionar ao nacionalismo uma legitimação política com matizes epistemológicos, seguindo o modelo francês. E se a sinologia ganhou um outro veículo difusor dos seus problemas e das suas necessidades de internacionalização e cooperação, não se libertou, contudo, da incestuosa ligação ao orientalismo.
Macau entendido como um entroncamento de culturas não é uma formula gasta e entediante, é sobretudo um conceito intemporal que transcende a retórica e cuja inevitabilidade assumimos com a mesma ironia com que Eça falava dos bacharéis. A persistência deste modo de pensar e de agir, flexível como o bambú, acaba por se revelar uma insuspeita superioridade porque evidencia uma diplomacia cultural de filiação aristotélica que faz do agir prudencial a pedra de toque da acção. E na arte de viver, as sucessivas elites portuguesas de Macau foram tão competentes quanto sábias.
Artigo da autoria de António Aresta publicado no JTM de 3-2-2012
NA: a selecção de imagens é da minha autoria; os dois postais sobre a exposição a cores fazem parte do espólio da Iconoteca do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares de Paris.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A hockey game to remember

A bordo do HMS Parret, um dos navios mais pequenos da frota britânica estacionada em Hong Kong chega a Macau em Setembro de 1945 - terminada a guerra - um grupo de antigos prisioneiros de guerra que tinha feito parte do Corpo de Voluntários de Hong Kong e com ligações familiares a Macau. Ficam cerca de uma semana na cidade - há até a curiosidade de um casamento nessa curta estadia - e no dia 27 fizeram um jogo de hóquei em campo contra o Macau Hockey Club. A maioria dos jogados de Hong Kong eram da equipa do Club de Recreio, campeão da modalidade em 1940-41.
O acontecimento foi recordado em Abril de 2010 por Stuart Braga num artigo publicado na newslewtter da Casa de Macau na Austrália. Aqui fica a reprodução.
Macau na década de 1940
The privations of prisoners of war in the Shamshuipo camp in Hong Kong are well known. Many people have seen Alexander Skvorzov’s drawings of prisoners of war, skin and bone, barely existing from day-to-day. Some did not survive. When Hong Kong fell to the Japanese on Christmas Day 1941, the victors quickly rounded up all the members of the Hong Kong Volunteer Defence Corps they could find and interned them in a military barracks built at Shamshuipo in Kowloon to accommodate far fewer men. They were there for close to four years, until September 1945. Of the seven Infantry Companies of the Hong Kong Volunteers two were Portuguese:No. 5 and No. 6 Companies, whose members were swept up too, along with British personnel.
Only a month after their liberation at the end of August 1945, a large group of Portuguese members of the Hong Kong Volunteers went over to Macau where a scratch team was formed to play a game of hockey against Macau Hockey Club. The Hong Kong Volunteers had spent several years on the verge of starvation.
They were worked as forced labour, beaten and brutally mistreated throughout their captivity.
The fact that, within a month of their release, they were able to field a team is quite amazing. The Hong Kong boys had not held a hockey stick since the last games were played on Sunday 7 December 1941. Seven of the eleven players belonged to the Club de Recreio First Division team, who had been Hong Kong Champions of 1940-1941.
The Macau boys, whose team was known as the Valentes (the Brave Ones) had also been through very hard times, but nothing to compare with the privations of the POWs. If ‘Valentes’ was the name of the Macau team, what name should we apply to the real heroes whose lives had been in great peril, first in the brief, bloody Battle of Hong Kong, and then in nearly four years of brutal captivity? It says much for their
morale that they wanted to play this remarkable game at the first possible opportunity.
In the last few months of World War II, the Macau paper Renascimento published an English edition for the several thousand English-speaking refugees in Macau. On 30 September 1945 it printed an account of this remarkable game, including the names of the players. Both teams included some of the best known names in the Portuguese community in both Macau and Hong Kong, names frequently found in the membership lists of Casas de Macau around the world today.
There is no known photograph of the game played between the Volunteers and the ‘Valentes’. However, this photograph of the Club de Recreio First Division League Champions 1940-41 includes seven of those who played for the Volunteers. It was only four years later, but so much had happened!
The newspaper report read: The Volunteers gave a very creditable performance in the exhibition hockey game on Thursday [27 September] when they met Macau
Hockey Club, Macau Champions, and lost by 4 goals to 3 after leading at one stage by 3 goals to 1. J. Gosano, at inside right, was the outstanding player in the attack and scored all three goals for his side. He was well supported by Capt. Rodrigues at centre forward and Yvanovich on the right wing. In the defence, Tony Alves was very prominent and had the better of a number of interesting tussles with L. Costa and Airosa. The Defence Corps had the assistance of Gonsalves, of the Valentes, at full-back, but were without the services of Reggie and Bobby Reed. M Gonsalves, in goal, brought off some good saves but was weak with his clearances.
Macau did not start with a full team and even after their side was complete were on the defensive for some time. Gosano opened the scoring with a good shot, but Marques equalised shortly after. J. Gosano placed his side again in the lead before the interval.
The Volunteers were playing good hockey and went further ahead when Gosano again scored from a short corner. Macau improved in the closing stages and A. Airosa (2) and Marques scored for Macau before the final whistle. The game was played in the best spirit and all the players gave of their best.
The following were the teams:
Volunteers – M. Gonsalves, J. Gonsalves and B. Alves, M. Remedios, Tony Alves, and H. Soares, P. Yvanovich, J. Gosano, Capt. A.M. Rodrigues, L.G. Gosano and F. Soares.
Macau Hockey Club – R. Leio, R. Lobo and A. Basto, J. Nolasco, Alex Airosa and A. Santos Ferreira, G. Silva, L. Costa, Alberto Airosa, L. Ritchie and F. Marques.
Legenda da foto: Club de Recreio, Hong Kong. (site Macanese Families)
First Division League Champions 1940-41
A. V. Gosano, J. A. Soares. G. N. Gosano, B. T. Gosano. Dr. H. L. Ozorio, J.C. Fonseca, M. Mendonça, P. A. Yvanovich, R. A. Marques, W. A. Reed, A. M. Alves, L. G. Gosano, Dr. A. M. Rodrigues, J. M. Gosano, H. F. Goncalves, J. B. Goncalves, Dr. E. L. Gosano.

Detailed legend (send by Robert Francis Leitão on 20.1.2021)
Back: Adelino Vitus "Lino" Gosano, Jose Alexandre "Billy" Soares, Germano Nicolau "Gerry" Gosano, Belarmino Thomas "Bertie" Gosano, Dr Horacio Luis Ozorio , Joao Carlos "Johnny" Fonseca, Marciano Francisco “Mike” Mendonca. 
Middle: Philippe Antonio “Phil” Yvanovich, Roberto Antonio Marques, Wilfred Alexander "Willie" Reed, Antonio Maria "Tony" Alves, Luiz Gonzaga "Luigi"Gosano. 
Front: Sir Alberto Maria Rodrigues, Jose Maria "Zinho" Gosano, Henrique Francisco "Meme" Gonsalves, Joao Baptista “Johnny” Gonsalves, Eduardo Liberator "Eddie" Gosano

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mapas históricos de Macau

Ao longo de cinco anos, o investigador Victor Fung Shuen Sit produziu uma obra que retrata a história cartográfica de Macau e que será publicada em Abril. Em “Macau ao Longo de 500 anos: Ascensão e Desenvolvimento de uma Cidade Chinesa Atípica” serão compilados em três volumes “os mais representativos” mapas históricos chineses e ocidentais de Macau e do sudeste asiático. Os tomos trilíngues (em chinês, português e inglês) serão editados sob a chancela da Universidade de Macau com o apoio da Fundação Macau.
"É muito interessante para mim, enquanto geógrafo, encontrar uma cidade tão pequena que atingiu um poder tão grande. E isso só foi possível graças à situação geopolítica de Macau, e não ao poder naval dos portugueses, entretanto ultrapassado por outras potências europeias".
Em declarações ao JTM a 15 de Dezembro de 2011, o professor de Geografia na Universidade Baptista de Hong Kong explicou que Macau é um caso “único” e “uma cidade chinesa atípica”. “A característica única é que tem uma contínua e ainda dinâmica relação de troca entre o Ocidente e o Oriente, que é visível em muitos aspectos”, por oposição à “descontinuidade” da presença ocidental noutros locais do Oriente.
A presença permanente dos portugueses levou Macau a ganhar uma importância que o autor considera surpreendente. É o caso de um mapa chinês de 1662 onde o território surge representado com “um tamanho muito exagerado”. Para o investigador, “Macau tinha uma posição proeminente e era já uma metrópole global” pelos séculos XVII e XVIII, quando “cidades como Singapura, Taipé, Xangai ou Banguecoque não surgiam nos mapas”.
Ainda segundo ao autor “a história da cidade pode ser contada por mapas, mas, noutras cidades, isso é muito difícil, dada a menor qualidade dos mapas e o facto de alguns terem sido destruídos”. Não é o caso de Macau, uma cidade representada por “dois estilos diferentes de fazer mapas” (o chinês e o ocidental) e da qual resultou uma cartografia com grande qualidade, quando comparada com os mapas de zonas próximas. E uma das explicações pode estar nas disputas territoriais em torno da delimitação do território. Nesta edição pode ver-se um mapa datado de 1909, de autoria portuguesa, e que para Victor Fung Shuen Sit trata-se de “um pedido de expansão territorial”, que incluía no território de Macau as Ilhas da Montanha e da Lapa, entre outras.
 Nota: na opção "etiquetas" - neste blog à direita - escolha "mapas" e visualize diversos post's sobre o tema.
No texto de apresentação é explicitado que a obra procura mostrar como “no início do século XVI, os portugueses chegaram a Macau e foi criado um importante centro para trocas comerciais e culturais entre o Oriente e o Ocidente” e de como a interacção com os chineses “contribuiu para que Macau evoluísse para ser uma cidade única e moderna”.
Autor de cerca de 40 livros, Victor Fung Shuen Sit é director do Instituto para os Estudos Chineses Contemporâneos da Universidade Baptista e tem desempenhado vários cargos políticos. Entre 1993 e 2008, foi deputado na Assembleia Nacional Popular. Antes, participou no Comité Preparatório para a implementação da RAEHK. Tem sido membro de vários conselhos consultivos do Governo de Hong Kong.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Istmo Taipa-Coloane: antes e depois

 Inauguração em 1968: carro do governador junto ao arco comemorativo
década 1990
década 1980: actualmente esta zona é donominada Co(loane)Tai(pa).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

China Clipper: Manila-Macao flight

Carta enviada de Macau para Manila a 28 de Abril de 1937 no primeiro vôo de correio aéreo assegurado pela Pan Am entre Macau e os EUA. Uma das paragens/escalas obrigatórias era Manila, nas Filipinas.
Nota: aceda aos dois links sugeridos e fique a saber mais sobre o assunto lendo ou relendo outros post's.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Maçonaria em Macau

Muito se tem escrito sobre o papel da maçonaria na implantação da República em Portugal e também no papel decisivo que a Carbonária nela terá desempenhado como braço armado da primeira. Todavia, para além de uma ou outra referência bibliográfica, não é muito o que se sabe da acção destas organizações na instituição do regime republicano em Macau. É certo que os dados escasseiam (mesmo em Portugal), mas do que se conhece pode concluir-se que a Maçonaria também aqui desempenhou papel equivalente ao da sua congénere da “Metrópole”.
Evento em Macau onde são bem visíveis as bandeiras da monarquia: a morte/nascimento de um rei/príncipe?
O mesmo não se poderá dizer da Carbonária. Sobre esta associação secreta a bibliografia não é abundante, mas pelo menos existem alguns trabalhos, de certo detalhe, identificando-a essencialmente como o “exército civil” que apoiou os heróis da Rotunda nos acontecimentos que culminaram no dia 5 de Outubro de 1910. Um dos seus chefes era o próprio Machado dos Santos. O outro era Carlos da Maia que viria a governar Macau em 1914. Todavia, sobre a organização no Território o silêncio é absoluto. Embora a história de associações desse género seja sempre difícil de fazer dado o grau de secretismo de que se rodeavam pode dizer-se, com razoável certeza, que o silêncio que reina se deve apenas ao facto da organização não ter existido de todo na então colónia portuguesa da China, pelo menos nesse período. A única referência à Carbonária em Macau diz respeito à estada na cidade de cinco dos seus elementos presos por subversão em Portugal que para aqui foram exilados em 1898. Os cinco teriam, pouco depois da chegada, tentado aliciar alguns militares no sentido de sublevar a guarnição, prender o Governador e proclamar a República. A tentativa fracassou e os cinco voltaram a ser detidos cumprindo o resto da pena de exílio a que tinham sido anteriormente condenados, mas agora mais longe ainda, ou seja em Timor. Refira-se todavia que o relato destes factos se baseia apenas em alusões breves sem citação de fontes reproduzidas nalguma bibliografia relativa à história do movimento anarquista em Portugal e nada mais.
No que toca à Maçonaria o caso é bem diferente. A sua acção em Macau está relativamente documentada graças ao trabalho de investigação de alguns autores com destaque para o historiador A. H. De Oliveira Marques. Assim sabe-se hoje que o papel dos “pedreiros livres” na colónia portuguesa, reunidos em torno da “Loja Luís de Camões” foi decisivo não só na proclamação da República, como posteriormente no afastamento da elite dirigente monárquica e na consolidação do novo regime. De facto a “Loja Luís de Camões” incluía no seu seio um grande número de funcionários públicos de todos os escalões, militares da marinha e do exército, para além de advogados, engenheiros e jornalistas, ou seja o escol da colónia. Assim não é de admirar que o próprio ajudante de campo do último governador monárquico (Eduardo Marques) Álvaro de Melo Machado tenha sido escolhido para o substituir dois meses depois da proclamação do regime republicano.
Melo Machado era maçom desde 1907 tendo aderido nesse ano à loja lisboeta “Liberdade”. Aqui chegado passou, naturalmente a integrar-se nos quadros da “Loja Luís de Camões”. Para além deste à mesma loja pertenciam também, outros vultos que desempenhariam papel fulcral no rumo político que o Território haveria de tomar no futuro. Entre muitos conta-se com particular destaque a figura bem conhecida de Constâncio José da Silva, advogado jornalista e polemista, proprietário e redactor do jornal “A Verdade”que esteve na primeira linha do republicanismo na campanha pelo afastamento das figuras de proa da monarquia. Constâncio inspirou nomeadamente o levantamento das tropas que cercaram o Palácio da Praia Grande e obrigaram à ponta das baionetas o governador Eduardo Marques a publicar as novas leis da república que insistia obstinadamente em guardar na gaveta. Outro jornalista que ficaria para a posteridade pelas suas relações de medianeiro entre os revolucionários republicanos chineses e as autoridades locais, amigo pessoal de Sun Yat-sen (fundador da República da China) e igualmente redactor e proprietário de vários jornais era Francisco Hermenegildo Fernandes, figura sobre a qual muito se tem escrito e de quem ainda hoje pouco mais se sabe a não ser o que ele próprio de si deixou publicado.
O mais pode resumir-se à frieza de um currículo constante na “Repartição dos Assuntos Sínicos” onde era tradutor e os dados oficiais inclusos nos autos que contra si foram levantados pelos tribunais em diversos processos por alegado abuso de liberdade de imprensa que contra si foram movidos. Com menor destaque, mas não menos eficácia política salientou-se também o coronel José Luís Marques, um dos fundadores da maçonaria organizada em Macau que ocuparia durante largos anos a presidência do Leal Senado. Igualmente pouco citado, mas bem inserido nos centros de decisão encontrava-se o seu camarada de armas António Antunes, igualmente co-fundador da “Loja Luís de Camões”, que nos anos subsequentes a 1910 comandaria a Polícia de Segurança Pública.
Outro advogado de renome e republicano estrénuo pertencente à mesma loja era Damião Rodrigues, personalidade cujo perfil já abordei aqui em anteriores artigos igualmente devido às suas ligações estreitas à revolução republicana da China e também pelo combate desassombrado que travou, especialmente, contra a ditadura do “Estado Novo” de Salazar, já numa fase adiantada da sua vida. Para além dos nomes citados muitos outros o poderiam ser. O poeta Camilo Pessanha, que dispensa biografias, mesmo maçónicas, que outros já fizeram e com pormenor, seria um deles. Deste destaque, necessariamente limitado, fica excluído Rosa Duque, porventura um dos mais combativos jornalistas republicanos de Macau, que com a aproximação do golpe de 28 de Maio de 1926 chegou a anunciar na primeira página do jornal “O Combate” a sua  filiação maçónica e o alto grau de que era detentor naquela organização iniciática. A exclusão deve-se apenas ao facto de no momento em que a república se instaurava nos confins do Oriente, se contar entre os sargentos que na Rotunda, de armas na mão, com Machado Santos, sofriam o cerco e as arremetidas das tropas fieis a D. Manuel II comandadas por Paiva Couceiro.
Este breve artigo não ficaria completo sem uma referência curiosa que parece subscrever o dito do rei D. Carlos segundo o qual “Portugal era uma monarquia sem monárquicos”. Seria? Não se sabe! O que se sabe é que, em Macau, Bernardino de Senna Fernandes, 2º Conde de Senna Fernandes, tal como o ex-realista seu homónimo, Presidente Bernardino Machado, era já maçom e republicano numa época em que a monarquia vigorava em pleno e a República não passava de um ideal cuja concretização até entre os seus correligionários gerava dúvidas.
Texto da autoria de João Guedes publicado no seu blog - que volto a recomendar - Tempos D'Oriente.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Exposição "Nostalgia Renovada"

 Lei Chiu Vang: Largo do Senado na década de 1970
 O Largo do Senado no início do século XX numa fotografia anónima
Rua com restaurantes. Foto de José Neves Catela (1925-1941)
Lei Iok tin: Macau visto da Guia em 1968
O Macau antigo está a desaparecer. Nas ruas brilham as luzes de néon, casinos e arranha-céus surgem por toda a cidade. Quantos revêem na “Las Vegas do Oriente” a “pacífica Macau do passado”? Apesar de pertencerem ao passado, as imagens de um Macau antigo foram captadas pelas câmaras fotográficas e estão aqui patentes nesta exposição para reavivar as memórias de todos. A exposição Nostalgia Renovada: Macau Antigo + Novas Abordagens, organizada pelo Museu de Arte de Macau, em torno de antigas fotografias de Macau que servem de mote a um novo olhar contemporâneo sobre a cidade.
A exposição divide-se em duas secções: a primeira apresenta cerca de duzentas fotografias, que documentam a ambiência de Macau antigo. Dos fotógrafos antigos, destacam-se José Neves Catela, Lei Iok Tin, Tam Kai Hon, Ou Ping, Lei Chiu Vang, Fong Chi Fung e Sit Lek Kan, cujas imagens estão organizadas em dez séries de trabalhos, como “Ruínas de S. Paulo”, “Arcos Comemorativos dos Feriados Nacionais”, “Sol e Barco à Vela” e “Cenas de Rua”.
A segunda secção apresenta trabalhos de oito artistas convidados locais: Bianca Lei Sio Chong, Tyr, Vincent Hoi Kuok Meng (imagem acima), Candy Kuok Soi Peng, Wong Chon Kit, Peng Yun, Lou Chong Neng e Yves Sonolet. Estes artistas utilizaram diversas técnicas da arte contemporânea, como os multimédia, a dança e o teatro, para reproduzirem e reinterpretarem a ambiência de Macau antigo. (... )
O Museu de Arte de Macau dedica-se à recolha e estudo de fotografias de Macau antigo, e já realizou várias exposições sobre esta temática com vários fotógrafos locais.
Texto de introdução à exposição. Da autoria de Chan Hou Seng, director do Museu de Arte de Macau onde a mostra pode ser vista até ao próximo mês de Abril.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Loja com 50 anos vai fechar portas

Uma quinquilharia com mais de meio século de história vai encerrar este mês. Factores como a falta de mão-de-obra e de herdeiros levaram o casal Wu a decidir acabar com o negócio. Moradores da zona central da cidade lamentam o fim de mais uma loja antiga
No próximo dia 22, a quinquilharia “Wu Kan Kei” colocará um ponto final numa história com muitos capítulos. O casal proprietário do estabelecimento justificou o fecho de portas com vários factores, salientando que a idade avançada dos dois, a inexistência de herdeiros que pudessem continuar com o negócio e a falta de mão-de-obra pesaram na decisão.
A loja foi aberta há mais de 50 anos pelo pai do senhor Wu, começando por comercializar produtos de uso diário, desde meias a toalhas, passando mais tarde a vender também sapatos e malas. Actualmente, a maioria das vendas envolve artigos para bebés, a maioria dos quais importados do Japão, facto que também tem penalizado o volume de negócios, devido à desvalorização da moeda nipónica.
Situada na Travessa dos Algibebes, na zona central da cidade, a quinquilharia “Wu Kan Kei” é muito popular entre os moradores do bairro, que não escondem a sua tristeza por verem desaparecer mais uma loja antiga em Macau.
Para o casal Wu, o encerramento de lojas nos bairros antigos está relacionado sobretudo com dois problemas: as rendas elevadas e as dificuldades sentidas ao nível da contratação de mão-de-obra. O senhor Wu fez mesmo questão de advertir, em declarações à imprensa em língua chinesa, que a sua loja não é a primeira a fechar pelas razões apontadas nem será a última. Por isso, o casal Wu exortou o Governo a apoiar mais as lojas tradicionais dos bairros antigos.
Notícia do JTM de 19-01-2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Kung Hei Fat Choi - Gong Xi Fa Cai - 恭喜發財

A 23 de Janeiro comemora-se a entrada no ano do Dragão, animal que rege este ano lunar. O último foi no ano 2000. As celebrações prolongam-se até 16 de Fevereiro. Nesta época milhares de chineses viajam até Macau, o único local da China onde é possível jogar, legalmente, em casino.A tradução literal de Kung Hei Fat Choi é esta: 恭喜 significa "parabéns". 發財 significa "ficar rico/prosperidade". Em suma, quer dizer, Desejo-te as maiores felicidades! ou Que a prosperidade te acompanhe. Há quem o entenda como Feliz Ano Novo, mas como se vê não é disso que se trata. De acordo como dialecto falado na China assim muda a pronúncia. Kung Hei para o cantonense (Sul da China), "gong xi..." no mandarim. Na região de Fukien, por exemplo, diz-se de outra forma. Uma coisa é certa, escreve-se sempre da mesma maneira, pois a língua escrita é só uma!
Dragão (long em chinês) segundo a mitologia chinesa, foi um dos quatro animais sagrados convocados por Pan Ku (o deus criador) para participarem na criação do mundo e o único do zodíaco chinês que não é real. Ao contrário do que acontece no mundo ocidental, o dragão da China está associado à água (e não ao fogo) sendo um misto de vários animais místicos: olhos de tigre, corpo de serpente, patas de águia, chifres de veado, orelhas de boi, bigodes de carpa, etc.
É um signo caracterizado pela vitalidade, entusiasmo, orgulho, extravagância e ideais elevados. No Oriente, o dragão simboliza o imperador, e os chineses chamam-no o guardião da riqueza e do poder. É considerado um signo próspero.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cinemas de Macau

Desde os primórdios do cinema, Macau 'acolheu' de forma entusiasta a 'democratização' da sétima arte. Nos primeiros 50 anos do século XX o território bateu recordes, quer em termos de número de salas de cinema quer em termos de espectadores.
Henrique Senna Fernandes, amante do cinema, num livro editado a título póstumo escreveu: “O mais remoto cinematógrafo de que temos notícia foi o «Chip Seng», situado na Rua da Caldeira…(…). Outro cinematógrafo, também situado no dédalo do Bazar, era o «Tin Lin», no Largo do Hong Kong Mio que, em 4 de Fevereiro de 1909, como reporta «A Verdade» da mesma data, exibia, além de filmes, trabalhos de prestidigitação(…). O primeiro cinematógrafo chamado o «Vitória», também um barracão, foi inaugurado em 9 de Janeiro de 1910, no terreno onde se ergue hoje o edifício dos Serviços Técnicos Municipais, na Rua do Dr. Soares, antigamente Rua da Cadeia (…)… temos a certeza de que, em 1915, era essa mesma companhia a companhia que explorava o «Victoria Theatre» de Hong Kong) que dirigia a exploração do segundo «Vitoria», agora instalado no edifício de tijolo e alvenaria da Rua dos Mercadores…”
Duas fotografias do cine-teatro Nam Van (1964-1995), um dos maiores que Macau teve, cedidas por Jon Doo.
No Anuário de Macau de 1950 vem publicada a 'planta' do cinema Vitória na rua dos Mercadores que era apresentada na bilheteira aquando da aquisição do bilhete. As galerias estava tinham duas classes de bilhete (1.ª e 2.ª) e a plateia três: 1.ª, 2.ª e 3.ª classe.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Delfino José Rodrigues Ribeiro: 1930-2012

Nasceu em Macau a 24 de Maio de 1930 (na casa da avó à Rua do Campo) e licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa tendo ingressado na Função Pública.  Iniciou a carreira profissional como subdelegado do Procurador da República da Câmara de Lisboa em 1955. Anos mais tarde, regressa a Macau, onde prosseguiu a carreira. Foi director do Arquivo Provincial do Registo Criminal, juiz do Tribunal de Polícia de Macau; director e docente dos cursos técnicos da Polícia Judiciária; inspector-adjunto da Polícia Judiciária (1969). A 22 de Abril de 1961 acontece a cerimónia de confirmação da posse como Inspector-Adjunto da Policia Judiciária que fundou.
Enquanto estudante, desenvolveu diversas actividades no Centro Universitário da Mocidade Portuguesa. Foi ainda director-geral dos Serviços de Intercâmbios da Mocidade Portuguesa.
Foi deputado por Macau em Portugal - Círculo de Macau - Comissão Ultramar entre 1969 e 1973 (X e XI legislaturas) onde se destaca pelo apoio ao Decreto-Lei n.º 420/70, que condiciona a produção, o tráfico e o uso de estupefacientes.  Em 1973 publica o Exame Prévio sobre a Toxicomania (editado pelo Centro de Informação e Turismo). Em 1980 foi eleito deputado por sufrágio indirecto para a Assembleia Legislativa de Macau. Morreu no passado dia 17 de Janeiro de 2012.

Delfino graduated in Law from the Classic University in Lisbon, Portugal, where he lived many years. In 1961, he returned to Macau to found and direct the Judiciary Police for 9 years, during which he held other posts such as Police Court Judge, Director of Criminal Archives, Director of Drug Addiction Combat Centre and Consultant for the International Institute for the Study of Drug Addiction in New York , USA. In 1970, after being classified in 1st place in all overseas territories of Portugal, was appointed Notary Public in Macau and began simultaneously to exercise liberal professional as a Lawyer.
For two mandates not completed because of the Revolution, he was Deputy of the National Assembly of Portugal as the only representative of Macau where he was elected Permanent Secretary of Overseas Commission. From 1979 to 1983 , he served as a member of the Macau Legislative Assembly. In November 1987, he led the first group of Portuguese Lawyers that, at the invitation of the Chinese Authorities, visited Mainland China (Canton).
In 1989, co-founder of the Law Association of Macau where he presided over the Superior Disciplinary Board of Lawyers (Conselho Superior de Advocacia).
He was also co-founder of ADIM (Civil Association for the Protection of Macau Interests ) and of Elos Club de Macau , President of Tennis Civil ,Vice-President of APIM (Associação Promotora de Instrução dos Macaenses ,ie, Association for Promoting Macanese Instruction ) and Vice-President for Asia of “Elos Internacional da Comunidade Lusíada”(an organization that, established in Brasil, links all Portuguese speaking Communities around the world ) and is an honorary member of Casa de Macau in São Paulo, Brasil.
After retiring as a lawyer and notary public, Delfino became the president of the Board of Trustees (presidente do Conselho de Curadores) to a Foundation he and a group of Macanese established in 1996 in Lisbon, with the main aim of giving assistance to those families that, due to the handover of Macau, decided to move their home to Portugal, although the institution is open to everybody. Its name is “Fundação do Santo Nome de Deus” (Holy Name of God, a title granted to the city of Macau by the King of Portugal) is located in a very good residential area with head office in a 8 storey building, comprising a home for seniors with 38 rooms and in the neighboring building, a small apart hotel that has been a meeting point for Macanese people that visit or pass by Lisbon especially from Macau, Brasil,USA and Canada. Delfino was married to Lorraine Au (b. 11 November 1931 Hong Kong).
Em Maio de 2006 Delfino Ribeiro proferiu uma palestra no Instituto Internacional de Macau (IIM), integrada na série de “serões macaenses” levados a efeito e que viram a luz do dia no formato livro através da colecção “Mosaico”.
“Retalhos de uma vida” foi o título escolhido pelo próprio autor. No texto reúne as memórias da sua vida, desde a infância até aos dias de hoje,  dedicando especial atenção à Fundação do Santo Nome de Deus, a cujo conselho de curadores presidiu, depois de intensa vida profissional e activa participação cívico-política em Macau e em Portugal.
Infância e escola
“O meu primeiro contacto com as letras foi pela mão da Soror Arminda, na secção infantil do Colégio de Santa Rosa de Lima, das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, e também através de Adelina Outeiro, que dava aulas na sua residência à Rua de Inácio Baptista.
A primária, tive-a na Calçada de Bom Jesus, na Calçada do Gamboa, ou seja, no cimo da Calçada do Tronco Velho, perto da antiga Escola Comercial e, por fim, em Tap Seac, no estabelecimento que continua hoje a exercer o seu mister. Em relação aos professores, vêm-me à memória Celestina de Mello e Sena, Vera de Senna Fernandes, Luís Gonzaga Gomes, Danilo Barreiros e Francisco Carvalho e Rêgo.
Com excepção do 7º ano, que frequentei no Monte Estoril, no Colégio João de Deus, cujo director e proprietário era o grande pedagogo João Dias Valente, fiz o liceu na Rua do Campo, em Tap Seac, no prédio onde está presentemente o Instituto Cultural.
Conheci vários professores: Torquato Gomes, Artur de Almeida Carneiro, Rodrigues Lima, Craveiro Lopes, Humberto Rodrigues, Mariazinha de Sousa Afonso, Clement Braga, Guedes de Andrade, Mercedes Pacheco Jorge, Pedro Guimarães Lobato, Ferreira de Castro, Garcia da Silva, Padres Maciel, Manuel da Costa Nunes, Júlio Augusto Massa, Manuel Teixeira e Áureo da Costa Nunes e, ainda, em educação física, Fernando Homem da Costa, Veríssimo do Rosário e João dos Santos Ferreira – este último famoso hoquista, que foi meu vizinho quando regressei a Macau em 1961 e, depois, colega de foro.(...) De entre os docentes que citei, destaco o Padre Massa, que foi quem mais me impressionou, quer como pedagogo e humanista quer pela enorme influência que exerceu nos seus alunos, dentro e fora do liceu, com eles convivendo nos eventos desportivos, nos passeios, bailes e em outros actos da vida quotidiana.(...)
Foi para mim uma elevada honra tê-lo como amigo e confidente durante mais de meio século e a ele devo em grande parte a minha formação, naquilo que porvenura tenha de bom. Doutorado em Filosofia pela Universidade de Salamanca depois de se licenciar pela Universidade Gregoriana de Roma, e com pós-graduação em Ciências Sociais no Instituto Leão XIII de Madrid, faleceu há perto de três anos em Lisboa, onde se encontrava há muito radicado. Purista na arte de escrever, deixou uma valiosa obra em prosa e verso, como grande pensador e magnífico poeta virado para o soneto (produziu 600!) – isto, segundo as suas próprias palavras, ‘pela sua concisão, pelo ritmo, pela música, a traduzir o pensamento, sobretudo filosófico’.
A todos estes docentes que contribuíram em maior ou menor grau para a educação da minha geração, vai a minha respeitosa homenagem. Estava-se então na II Guerra Mundial, em que o número de refugiados, incluindo os membros da comunidade portuguesa de Hong Kong, aumentava assustadoramente e a falta de géneros alimentícios e outros de primeira necessidade se agravava, arrastando consigo a fome, a doença, os furtos, roubos, assaltos e outras sequelas nocivas ao bem estar das pessoas e à segurança dos bens.
As incertezas sobre o devir eram enormes e, talvez por esta razão, apenas se podia contar com o presente, que se procurava aproveitar o melhor possível, preenchendo-o com reuniões sociais, culturais e desportivas e outras festas, o que dava à urbe um ambiente trepidante e aparentemente alegre e despreocupado, em contraste com a miséria que, de mãos dadas, grassava em todos os cantos e recantos.”
A guerra
“Os que viveram nesta época devem estar lembrados do clima de tensão que pairava neste centro de espionagem em que actuavam, dum lado, os homens de Chiang Kai Cheak e das forças aliadas e, do outro, os nipónicos que dominavam toda esta região, sendo lugar comum e prato do dia os tiroteios, homicídios, assaltos, e outros incidentes e atropelos à lei e à ordem pública. A este propósito, em 10 de Julho de 1945, um tio meu, Fernando de Senna Fernandes Rodrigues ou simplesmente Fernando Rodrigues, conceituado comerciante que presidia à Cruz Vermelha, foi, à saída de um funeral no cemitério de S. Miguel, barbaramente assassinado, a mando do sinistro comandante militar japonês Coronel Sauer, com vários tiros por um capanga do famigerado facínora e mercenário Vong Kon Kit (cujo fim acabaria posteriormente por ser também trágico), tendo as duas filhas do meu tio, que o acompanhavam, sido feridas. Este atentado foi como que o funesto desfecho de um litígio provocado pelo abastecimento de arroz, cujo acesso a Macau se fazia por dois canais marítimos: um controlado pelos japoneses, que cobravam uma taxa alfandegária que vinha onerar em muito o custo deste alimento de primeira necessidade, e outro que era utilizado pelos “contrabandistas” (assim classificados pelas autoridades nipónicas) que traziam o arroz, que era vendido a preço inferior, estimulados pelo meu tio, que, brigão e temerário, se mostrava indiferente a contínuas ameaças de represália. Ora, para minorar este estado de coisas, a PSP, com a aprovação do Governador Comandante Gabriel Maurício Teixeira (que, mais tarde, com a rendição das forças do eixo, viria a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique), e sob o comando do capitão Carlos Alberto Rodrigues Ribeiro da Cunha, criou uma brigada especial dirigida por Sebastião Voltaire Pinto de Morais, que passou a ser alcunhada de “Spitfire”, devido talvez à presteza e precisão com que actuava nas suas missões, à semelhança dos aviões de caça britânicos do mesmo nome, que imenso terror provocaram na II Grande Guerra. Brigada que foi, em momentos tão conturbados, uma referência marcante da administração portuguesa.
Todavia, instaurada a paz, o capitão Ribeiro da Cunha, o chefe Pinto de Morais e os seus subordinados subchefe José António David e guarda Alberto Cortiço Paz foram presos em 31 de Julho de 1946 e transferidos para Moçambique, sob a alegação de prática de vários crimes, tais como extorsão junto de fumatórios de ópio e de emissores clandestinos, roubo, homicídio, rapto e cárcere privado em que teriam sido vítimas alguns chineses (um dos quais Chan Va Ian, procurado por traição pelo General Van Ian Chek da China Nacionalista) e José Maria Alves, intérprete da Secção Especial do Exército Japonês, e sua companheira Rony, arrebatados da hospedaria ‘Aurora Portuguesa’ da Rua do Campo.
Os arguidos, posteriormente enviados para a capital do nosso País, mantiveram-se escandalosamente presos durante 14 anos até Julho de 1960, quando foram julgados e absolvidos pelo Colectivo do 2.o Tribunal Militar Territorial de Lisboa.”