sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Macau no diário de Jules Itier

Vista da Praia Grande em 1844 junto ao fortim de S. Pedro.
Jules Alphonse Eugène Itier (1802-1877), geólogo e funcionário da alfândega francesa, foi nomeado em 1843 chefe da missão comercial na China, Índia e Oceânia. Chegou a Macau a 13 de Agosto de 1844 e, como fotógrafo amador, registou a cerimónia de assinatura do tratado sino-francês (Tratado de Whampoa, em 24 de Outubro de 1844) e fotografou a cidade, as ruas do Bazar, a Praia Grande, o Porto Interior, o templo de A-Má, etc. Eram os primórdios do que hoje conhecemos por fotografia mas que em rigor se denominavam daguerreótipos, um processo fotográfico feito sem uma imagem negativa inventado por Louis Daguerre em 1837. 
Legenda original de 1844: Eglise et fort de la pointe San Francisco a Macao.
Deve-se a Jules Itier as primeiras fotografias de Macau (e tb da China). No seu diário escreve como fez estas fotografias no final de 1844.
13 août: L'ancre tombe, nous sommes devant Macao et, à quatre encablures de nous, se balance la frégate la Cléopâtre, montée par le commandant Cécille.
18 et 19 octobre: J'ai consacré ces deux journées à prendre au daguerréotype les points de vue les plus remarquables de Macao; les passans se sont prêtés de la meilleure grâce du monde à toutes mes exigences et plusieurs Chinois ont consenti à poser; mais il fallait leur montrer l'intérieur de l'instrument, ainsi que l'objet reflété sur le verre dépoli; c'étaient alors des exclamations de surprise, et des rires qui n'avaient point de terme.

28 octobre: J'ai employé ma journée à prendre au daguerréotype les divers points de vue qu'offrent Macao et ses environs; les quais de Praja-Grande, la grande pagode, le port intérieur, les rues du Bazar m'ont offert d'intéressants sujets. Aujourd'hui encore j'ai trouvé des Chinois complaisants qui consentaient à former des groupes immobiles, à la condition de voir d'abord l'image reflétée sur le verre dépoli ; leur étonnement n'avait, d'ailleurs, rien de bien profond, c'était plutôt cette vague curiosité qu'éprouvent les enfants à la vue d'un objet nouveau  c'est qu'il est bien des sujets qui n'étonnent que les savants, que les esprits méditatifs, et les phénomènes du daguerréotype sont dans cette catégorie.
Excertos de Journal d'un voyage en Chine en 1843, 1844, 1845, 1846, Volume 1 (de um total de 3 editados em Paris 1848)
Legenda original: Porte de la Grande Pagode de la ville chinoise à Macao
Born in Paris and schooled in France, Alphonse-Eugène-Jules Itier began his professional life working in the Customs Service. He became active in scientific circles in the 1830s and 40s and thus learned about the invention of the daguerreotype early on. From 1842 to 1843, Itier traveled to Senegal and Guiana in Africa and Guadaloupe in the West Indies. He carried daguerreotype equipment, presumably making photographs there. Appointed chief of a commercial mission to China from 1843 to 1846, he also traveled to the East Indies and the Pacific Islands, where he again made daguerreotypes during his leisure time. Returning by way of Borneo, Manila, and Egypt, he settled in France, retiring from the Custom Service in 1857. Itier continued to photograph until his death at age seventy-five.
Alphonse Eugène Jules Itier (1802–1877), geólogo, funcionário superior da alfândega francesa e fotógrafo amador francês é considerado o autor das primeiras fotografias de Macau e da China. Chegou a Macau a 13 de Agosto de 1844 a propósito da assinatura do tratado entre a França e a China, que decorreu a 24 de Outubro desse ano a bordo do vapor Archimède, em Whampoa. Um ano antes Itier tinha sido nomeado director da Comissão de Comércio francesa na China, Índia e Oceania e é nessa condição que se desloca a Cantão e Macau. Como membro da delegação francesa vem negociar o tratado de paz “por dez mil anos” com a China. Aliado ao seu gosto pela fotografia acaba por registar um momento e as paisagens.
O diplomata-fotógrafo regista essa actividade no seu diário de viagem, afirmando que os chineses nas ruas de Macau são prestáveis, posam para si e exclamam a sua surpresa ao verem a sua imagem nas chapas de cobre no interior da câmara escura (daguerreótipo). Até esta altura só havia pinturas e ilustrações.
Vista de Macau no final do séc. 19
No jornal HM de 19 Agosto 2009 um pequeno texto (julgo que da autoria de Rogério Miguel Puiga) explica o que Itier mais deixou escrito.
"No registo de viagem descreve ainda o pagode da Barra, a Casa Branca do mandarim, a Taipa e a viagem para Cantão. Em 6 de Setembro, o viajante descreve a localização geográfica da península de Macau, uma coluna de granito que avança mar dentro, formando, de um lado, o Porto Interior, do outro, a baía da Praia Grande.
O texto resume a História do estabelecimento dos portugueses no território e descreve os bairros europeu e chinês, nomeadamente as casas europeias. As casas chinesas são estreitas, rasas e com um pequeno pátio interior, parecendo que as culturas sínica e lusa em Macau não se misturam. O viajante percorre o bairro chinês com dois padres lazaristas e compara o mesmo a muitas outras localidades da China, listando restaurantes, cambistas, casas de jogo, lojas, ateliers de ourives e jogos como o da mora. No dia 15 de Setembro, Itier visita a ilha da Taipa, descrita como um porto, dependência do estabelecimento e ponto de escala do contrabando de ópio. Em 1 de Outubro o autor refere a chegada do comissário imperial Ky-ing e da sua comitiva a Macau dois dias antes, confessando, em 18 e 19 desse mês, que registara as imagens mais notáveis da cidade no daguerreótipo e que os transeuntes acedem, com simpatia, às suas exigências. No dia 24, o viajante volta a fotografar o comissário chinês e a embaixada francesa e recebe pedidos de diversos nativos, fotografando, cinco dias depois, vistas de Macau, nomeadamente as ruas do bazar chinês, perante chineses espantados. Itier torna-se assim, à semelhança de Felice Beato, John Thompson, Ernest Wilson e John Hinton, um dos primeiros fotógrafos ocidentais a registar imagens da China, tendo os seus daguerreótipos sido expostos no enclave, em Junho de 1990 e recentemente."
Nota: no museu francês da fotografia podem ser vista uma exposição sobre a vida e obra e Jules Itier onde, claro, as imagens captadas em Macau têm especial destaque.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CTIM 70

Cheguei a Macau nos princípios de Outubro de 1968, como alferes miliciano de Cavalaria com a especialidade de Polícia Militar e incorporando a Companhia de Polícia Militar 2428, comandada pelo então capitão Fernando Governo dos Santos Maia, que ficou no aquartelamento da fortaleza de Mong-Há.
À nossa espera estava o capitão e chefe do Estado Maior Bacela Begonha. Pelo que nos foi dito o pelotão de Polícia Militar, sediado no quartel da Flora, no centro da cidade, continuaria com as rondas e policiamentos à cidade. À companhia de Polícia Militar, competiriam as guardas de honra, as possíveis dispersões de motins, policiamentos extraordinários e a guarda, manutenção e policiamento ao paiol de Cacilhas.
O capitão Maia, e muito bem, teve de organizar acções para ocupar os tempos mortos do pessoal. O alferes Carlos Peixoto Malheiro, já falecido e genro do insigne advogado macaense, o ilustre doutor Senna Fernandes, ficou encarregue da feitura e respectivo lançamento da revista mensal da Companhia que sairia como “Lanceiros do Oriente”, aberta a todos os elementos que compunham a Companhia; ao alferes Pereira da Silva foi-lhe distribuído o desporto; ao alferes Rui Coentro a legislação militar de Macau e o ensino para quem quisesse seguir os estudos e a mim o lazer dos soldados.
Eu, depois de procurar na Companhia e no Pelotão da Flora, consegui organizar um grupo de Fados que era utilizado pela Delegação de Turismo, aquando da recepção de grupos de agentes de viagens. Mais tarde, foi organizado um grupo de teatro e um outro de declamação de poesia, que actuavam mais pela altura do Natal ou épocas festivas. O pior que havia para um militar era o... tédio.
Em Julho, Agosto ou Setembro do ano de 1969, chegou ao Território o Capitão de Cavalaria Casquilho, que foi ocupar o lugar de comandante do Esquadrão de Cavalaria, que era ocupado interinamente pelo capitão de Cavalaria Fernando Ramos, por saída do capitão Fernandes Thomaz para ir integrar o “staff” do general Spínola. Este passou para chefe da 2a Repartição do Q.G.. O capitão Ramos foi sempre um amante da difusão da voz (já o conhecia do Regimento de Lanceiros, ou não fosse ele o responsável pelas transmissões entre os veículos de ronda e entre estes e a central), e, um dia, no Clube Militar confidenciou-me que gostaria de realizar um programa radiofónico para os militares, que no futuro, poderia transmitir música pedida pelos familiares dos militares que se encontravam na Europa. Respondi-lhe que poderia contar comigo e com o furriel Carolino (tinha uma boa voz) e era tudo uma questão de organização e depois expor o assunto ao Chefe de Estado Maior, para levar a pretensão ao senhor Comandante José Póvoas Janeiro. Se a resposta fosse negativa, tinha tentado... caso fosse afirmativa, haveria uma maior pressão sobre a Rádio Macau, e se eu não estivesse muito enganado...até seria do agrado do próprio Governador, o senhor General Nobre de Carvalho.

O projecto do capitão Ramos foi aprovado, mas este só conseguiu uma hora semanal, ao domingo e só a partir de Janeiro do ano seguinte. O programa foi denominado pelo capitão como “A voz Militar de Macau”. No entanto, o comando não concordou, sugerindo um nome relacionado com o Comando Territorial. Eu e o capitão Ramos, uma noite no Hotel Estoril, chegámos ao nome do futuro programa: CTIM 70! C de Comando, T de Territorial, I de Independente e M de Macau e 70 por, o primeiro programa ir para o ar no primeiro domingo do ano de 1970. O nome foi aceite e ficou como sendo o marco e o princípio para muitos programas, mesmo depois da nossa saída de Macau.
Os primeiros programas (muito apoiados pelo senhor Alberto Alecrim e com a sempre presença do senhor director Luís Gonzaga) foram apresentados pelo capitão Ramos e pelo furriel Carolino. Eu era o responsável pela música, de acordo com o guião, tendo mais tarde passado também a apresentar e a fazer reportagens. Recordo-me especialmente de uma feita ao Eusébio, aquando da primeira visita oficial do Sport Lisboa e Benfica ao Território de Macau. Por esta altura, já se tinha mais colaboradores entre oficiais, sargentos e soldados.
O alferes miliciano de Infantaria Telmo da Fonseca, da Companhia de Caçadores 2424, sediada no aquartelamento da Ilha Verde, só teve intervenção no programa radiofónico militar CTIM 70 quando, ao fazer-me uma maqueta de um programa de aniversário, da saída da CPM 2428 de Lisboa também... quis fazer um para a sua companhia.
Depois de ter terminado a Comissão, o capitão Fernando Ramos, foi substituído na supervisão do programa pelo Chefe de Estado Maior, o Major Maia Gonçalves, ficando eu responsável pela parte operacional, a quem transmiti o desejo do alferes Telmo, o que lhe foi concedido, até porque o programa radiofónico era de todos os militares para todos os militares. O programa do Telmo Fonseca saiu muito bem, não tenho a certeza, mas parece-me que o alferes Telmo da Fonseca só voltou a fazer mais um programa... Antes do meu regresso à metrópole, que foi em Dezembro de 1970, julgo que em finais de Agosto ou de Setembro, que o senhor major Maia Gonçalves informou que o programa tinha terminado.
Resumindo, se há pessoa merecedora de elogios pelo programa radiofónico CTIM 70, essa pessoa é o seu criador, mentor e trabalhador, o capitão de Cavalaria Fernando Ramos, hoje em dia coronel reformado.
A CPM 2428 possui um site: www.cpm2428.com, onde poderá ter acesso a todos os números da revista Lanceiros do Oriente.
Texto de Mário Caetano Silvestre 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Conferências

Nas próximas semanas dois encontros ao nível académico têm Macau como enfoque. Um realiza-se em Lisboa e outro em Macau.
Os 500 anos de presença portuguesa no Sudeste asiático servem de mote à conferência  a realizar na Universidade de Macau entre os dias 30 de Outubro e 1 de Novembro. Segundo Leonor Seabra, da comissão organizadora, a conferência “Relações de Portugal com a Ásia do Sudeste: 500 anos de História” vai abordar a “presença portuguesa no Sudeste asiático, em sentido lato, do Sul da China à Índia”. Macau será abordada sob diferentes ângulos. “Alguns académicos vão reflectir sobre a política linguística, os contactos marítimos ou aspectos culturais como a música ou a literatura”, revela Leonor Seabra, em declarações ao JTM. Num balanço entre passado e presente. “Há abordagens e temáticas muito actuais. A História serve para entender o passado e planear melhor o futuro, mas, enfim, a memória dos homens é curta”. O principal objectivo da conferência passa por “lembrar e fazer um paralelo com a actualidade e chamar a atenção para estas relações tão antigas, seculares, de Portugal com tantos países”, resume a coordenadora.
(...) Lúcio Sousa, da Universidade de Évora, centrará o debate no território através do ensaio “A Misericórdia de Macau, o contrato da seda ou armação e os seguros marítimos: a criação de um sistema financeiro em Macau”. Da mesma universidade chegará Maria de Deus Manso, trazendo o tema “Missionários ou ricos mercadores? O comércio da seda entre o Japão e Macau no século XVI e XVII”.
(...) Paralelamente, são vários os participantes do território, como Custódio Martins e Dora Gago, ambos da Universidade de Macau. O primeiro vai reflectir sobre “História, histórias e políticas linguísticas de Macau”. Já a segunda andará “Pelos trilhos da memória: imagens da cultura chinesa em ‘A Quinta Essência’ de Agustina Bessa-Luís”. Da mesma Universidade, Akiko Sugujama, vai apresentar “Música no mar: algumas observações preliminares nos contactos marítimos e a cultura musical em Macau e no sudeste asiático [1800-1930]”.
Já Mário Nunes, também docente na instituição que recebe a conferência, lançará o debate sobre “Malaca em Macau através do léxico”. O ensaio “Identidades: a identidade goesa de Ângela e a ‘dama de Chandor’” vai ser apresentado por Maria Antónia Espadinha. Enquanto que Paul Spooner reflectirá sob “Uma lenta geopolítica: a missão portuguesa na Ásia no século XVI” e Raquel Magalhães andará pelos caminhos “Da crónica à ficção: impressões de Macau e do Oriente na obra de Jaime do Inso”.
Leonor Seabra trará à conferência “Os portugueses no Sião e a Feitoria de Banguecoque”, enquanto que Vicent Ho vai apresentar uma comunicação sobre “As percepções dos portugueses na China nos registos históricos chineses entre 1550 e 1840”. Já da Universidade de São José, surge o nome de Isabel Morais, com “A verdade de Sofia Agrebom: género, republicanismo e maçonaria na imprensa de Macau (1927-1929)”.
15 a 17 Outubro CCCM
em Lisboa, colóquio internacional
"Macau: passado e presente"
Cinco académicos de Macau e do Continente estão ainda a preparar um ensaio comparativo sobre Macau e Malaca, antigos portos portugueses. O principal objectivo do ensaio é chamar a atenção para a necessidade de preservar a tradição marítima enquanto património cultural, explica ao JTM Francisco Vizeu Pinheiro, docente na Universidade de São José. De acordo com o arquitecto, o estudo – que ainda está a ser elaborado – “estabelece um paralelo sobre as navegações portuguesa e chinesa”.
“O meu ponto de partida é Malaca, que foi uma base marítima chinesa antes da chegada de Jorge Álvares. Malásia e Malaca não existiam como um país. É Zheng He (Cheng Ho, em cantonense) que transformou Malaca numa entidade politica autónoma”, explica Francisco Vizeu Pinheiro. O ensaio vai estabelecer uma comparação entre Afonso de Albuquerque e Zheng He.
“Verificamos que há muita coisa em comum entre a políticas marítimas chinesa e portuguesa da altura”. Foi a partir de Malaca, recorda o académico, que “Albuquerque enviou embaixadas à China, em busca de uma aliança, daí saiu Jorge Álvares”.
Em Malaca, tanto Albuquerque como Zheng He são figuras ainda lembradas, mas em Macau poucos sinais existem da forte ligação do território com o mar, nota Francisco Vizeu Pinheiro. “Os estaleiros de Lai Chi Vun seriam o sítio ideal para as pessoas verem as técnicas de construção de barcos”, sugere. Nessa zona, “deveriam estar, em tamanho real, um ou dois navios chineses ou portugueses ou até de técnicas mistas, como a lorcha”. (...)
Elaborado a partir de um artigo do JTM

terça-feira, 9 de outubro de 2012

HSF: homenagem em selo


Os Correios de Macau colocam hoje à venda (dia mundial dos correios) um selo dedicado ao escritor local Henrique de Senna Fernandes no âmbito da emissão “Escritores da Lusofonia” levada a cabo com outras oito autoridades postais de países lusófonos.
A iniciativa partiu da Associação Internacional das Comunicações de Expressão Portuguesa e é desenvolvida em conjunto pelas nove autoridades postais dos países e territórios de língua oficial portuguesa: Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Macau.
Em Macau, a personalidade escolhida para a emissão local foi Henrique de Senna Fernandes, escritor e advogado de origem portuguesa e nascido em Macau, que morreu em 2010 aos 87 anos, e “cuja obra literária testemunha a cultura e o modo de vida local nas décadas de 30 e 50 do século XX”,
Todos os selos que serão emitidos nos diferentes países e territórios lusófonos apresentam um design desenvolvido pela empresa portuguesa Folk Design e o rosto de um escritor local. O artista macaense António Conceição Júnior é o autor do design do envelope de 1º dia.
Postal máximo

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma história de amor no séc. XVIII

As personagens são figuras da História de Macau e os acontecimentos ocorreram há 300 anos mas, pelos actuais padrões seriam, para além de uma tentativa de homicídio, um problema de pedofilia.
Nesse tempo, Macau vivia numa grande recessão que durou quase todo o século XVIII. Em 1706, chegou a Macau numa fragata o capitão de Infantaria, António de Albuquerque Coelho, e logo se apaixonou por Maria de Moura, de sete anos de idade, que era muito rica. Mas a criança tinha outro pretendente, o fidalgo D. Henrique de Noronha, que estava determinado a desfazer-se do seu rival. Maria de Moura Vasconcelos nascera em 1699 e era filha do comerciante Francisco de Moura e Bastos, que faleceu em 1702, e de Isabel de Vasconcelos, que pouco tempo depois também faleceu, sendo a órfã confiada à sua avó materna, Maria Vasconcelos. O capitão Albuquerque Coelho regressou a Goa na mesma fragata e dali foi enviando cartas tanto para a sua amada, que as recebia via o seu tutor, como para os padres jesuítas.
O capitão regressa a Macau em 1708 e continuou a cortejar a pequena de nove anos, tendo pelo seu lado o tutor dela, o bispo D. João do Casal e os jesuítas. Os adversários eram a avó da órfã, o Juiz dos Órfãos, Manuel Vicente Rosa, o Ouvidor, João Carneiro Zuzarte e D. Henrique de Noronha que também andava embeiçado pela pequena e tinha a preferência da avó, Maria de Vasconcelos.
Mas Albuquerque Coelho tinha protectores nas altas esferas eclesiásticas. A 30 de Junho de 1709, celebra-se o noivado de Albuquerque Coelho e Maria de Moura. Nesse mesmo dia, o bispo D. João do Casal mandou retirar Maria de Moura da casa da avó e depositá-la em casa de Pedro Vaz de Sequeira e de Maria Catarina de Noronha (uma das famílias mais importantes, que deu muitos governadores de Macau) até se realizar o seu casamento com Albuquerque. Desesperado, D. Henrique resolveu desfazer-se do seu rival.
No dia 18 de Setembro de 1709, Albuquerque Coelho vinha a cavalo pelo campo de S. Francisco e foi atacado por um cafre, com um tiro de bacamarte que falhou o alvo. Enquanto perseguia o atacante, já na rua Formosa, é atingido por um outro tiro, disparado por D. Henrique de Noronha da janela duma casa, onde hoje é o Centro Católico. Foi ferido no braço direito, acima do cotovelo.
António de Albuquerque Coelho ferido foi recolher-se ao Convento de S. Francisco. Ao chegar próximo da escadaria do edifício, outro cafre atirou-lhe um tiro que, mas tal como o primeiro, não lhe acertou. Ainda conseguiu pelos seus pés entrar no convento, mas já foi preciso ajudarem-no a apear-se. Os frades recolheram-no no convento, onde o cirurgião da cidade, António da Silva e o cirurgião da fragata Nossa Senhora das Neves, que era cafre, o atenderam.
Correu logo a notícia do atentado e o governador de Macau, Diogo de Pinho Teixeira, mandou buscar à outra banda o Ouvidor, que lá se estava divertindo e ordenou-lhe que prendesse D. Henrique de Noronha, mas este já se tinha escondido no Convento de São Domingos, que foi imediatamente cercado. No dia seguinte, o governador ordenou que se fizesse uma busca em todo o edifício. Também não encontraram D. Henrique que, durante a noite fugira para as casas do Patriarca de Antioquia, Charles Thomas Maillard De Tournon, para os lados da Barra, e assim se refugiou debaixo da protecção do representante do Papa, que na China e aqui em Macau causou grandes tormentas ao Padroado Português e nas relações dos chineses com o Cristianismo. Ali o iam visitar os amigos e todos os da sua parcialidade. A autoridade não tentou tirá-lo de lá.
A avó da órfã, pede em 28 de Novembro de 1709 ao Senado que lhe assegurassem sua neta por ter indícios de que António de Albuquerque Coelho a pretendia levar furtada para Goa. O Ouvidor João Carneiro Zuzarte e o juiz dos órfãos também se opuseram a este depósito e o senado apoiou-os. Logo o bispo D. João do Casal queixou-se ao Vice-rei da Índia. Mas em 17 de Dezembro de 1709 o Senado resolveu indeferir o pedido de ajuda por parte da avó da criança, que nessa altura andaria pelos nove anos de idade. A resposta do Vice-rei à queixa do bispo é de 7 de Maio de 1710, através de uma carta régia que remete ao Senado, verberando o “enjusto procedimento com q’ o juiz dos Orphãos e o Ouvidor dessa Cidade se houverão em quererem alterar o depozito que tinha mandado fazer o bispo da Orpham Maria de Moura de Vasconcellos”. O Rei ordenou que o Ouvidor e o Juiz dos Órfãos fossem suspensos dos seus cargos.
O casamento de António de Albuquerque Coelho com Maria de Moura, que tinha 11 anos de idade, realizou-se na noite de 22 de Agosto de 1710 na capela da casa do Campo de S. Francisco, por ordem do governo pelo julgar ali seguro pois ali estava aquartelada a Infantaria de Goa. No receio de que mesmo ali houvesse um ataque, o comandante da fragata, o capitão Jerónimo de Melo Pereira, mandou destacamentos de marinheiros e da Infantaria da fragata de Goa fazerem a guarda da capela para protecção de Albuquerque Coelho e de Maria de Moura.
Julgando Francisco Leite Pereira, tio da noiva e amigo de D. Henrique de Noronha que vivia em sua casa, que este casamento se iria realizar na igreja de St.º António foi esperar o noivo para o matar, porém o plano ficou logrado. A tensão era contínua. Mas quando a fragata partiu para Goa, Albuquerque Coelho ficou em Macau e a 23 de Dezembro de 1711, figura já no Conselho de Homens-Bons e senhorios de barcos. No penúltimo dia de Fevereiro de 1712 nasceu ao casal a filha Inês, que morreu sete dias depois, a 5 de Março. Foi sepultada no dia seguinte na igreja de S. Francisco com grande acompanhamento do povo e da tropa, que deu três descargas ao baixar à sepultura, enquanto a Fortaleza de S. Paulo deu uma salva de nove tiros. Em 1712 é Vereador do Senado e em 1713 Juiz ordinário.

Largo de Sto. Agostinho
A 20 de Julho de 1714, Maria de Moura deu à luz um filho, o que foi comemorado com grandiosas festas que a Voz do Passado descreve: “No dia 23 mandou fazer comédia à sua porta e em 26, correrias a cavalo e muitos outros divertimentos”. Foi baptizado no dia 27 na igreja de Sto. António, tendo assistido ao acto o Governador António Sequeira de Noronha com duas companhias de soldados. À entrada da igreja houve salva de 7 tiros feitos da Fortaleza de S. Paulo, e à saída, onze tiros. (Jack M. Braga)
Mas Maria de Moura morreu quatro dias depois, a 31 de Julho. Com grande pompa e grande acompanhamento foi sepultada na mesma cova onde já estavam a filha e o braço direito do marido na igreja do Convento de S. Francisco, acompanhada de ofícios e dobre de sinos.
Os conflitos continuavam, acirrando a animosidade entre Vicente da Rosa e Albuquerque Coelho. Em Outubro de 1712, a mando do Senado, Manuel Vicente Rosa foi preso pelo Vereador Albuquerque Coelho, por se recusar a pagar ao Senado a dívida do seu cunhado, o falecido António da Cruz, quando barco deste não foi vendido a um arménio por recusa do Senado. Em 1714 foi a vez de Vicente da Rosa (que fora nomeado Ouvidor a 9 de Maio desse ano) de mandar prender António de Albuquerque Coelho, na Fortaleza da Guia, acusando o seu grande inimigo de abuso de autoridade. Albuquerque Coelho, a 22 de Setembro de 1714, protestou contra a sua prisão em carta dirigida ao próprio Ouvidor Vicente Rosa, alegando que fizera isso por paixão, “como inimigo declarado seu, já de cinco anos a esta parte”.
Quando chegou ordem do Vice-rei para mandarem para Goa António de Albuquerque Coelho para não prejudicar a inquirição das suas culpas, o ouvidor Manuel Vicente Rosa, seu inimigo declarado, mandou-o prender na Fortaleza da Guia, para o ter seguro e assim o poder remeter para a Índia. Albuquerque deve ter partido de Macau para Goa em Dezembro de 1714 e aí vivia no ano de 1717, quando foi nomeado governador de Macau pelo primaz de Goa, D. Sebastião de Andrade Pessanha. Como o barco escalonado para o transportar de Goa a Macau, zarpou do porto sem ele, a viagem, que começou no dia 2 de Junho de 1717, foi longa e cheia de peripécias. Apenas chega a Macau numa embarcação chinesa em 29 de Maio de 1718. No seguinte dia, 30 de Maio, tomou posse como Governador de Macau, lugar que ocupou até 9 de Setembro de 1719. Regressando a Goa, foi depois nomeado Governador de Timor (1722-1725).
Ao regressar de Timor a 29 de Setembro de 1725, passou por Macau onde se alojou em S. Francisco. Em 23 de Novembro mandou celebrar um ofício solene nessa igreja por alma de sua mulher; dobrando todos os sinos, houve salva na Fortaleza do Monte. Mandou abrir a cova e recolheu os ossos numa urna, onde depôs o seu braço e os restos mortais da sua mulher e de sua filha Inês. Esta urna foi trasladada da igreja de S. Francisco, onde foi encontrada por ocasião da demolição da igreja e do convento, para a capela-mor de S. Agostinho, onde ainda se encontra encaixada na parede direita da capela-mor. A lápide tem esta inscrição: “Nesta urna estão os ossos de D. Maria de Moura e Vasconcelos e sua filha D. Ignes e os do braço direito de seu marido António de Albuquerque Coelho que aqui a fez depositar vindo de Governador e Capitão Geral das ilhas de Solor e Timor no ano de 1725”. (ver imagem)
Numa carta escrita a 25 de Janeiro de 1746 pelo Vice-Rei, Marquês de Castelo Novo ao Rei lê-se: “António de Albuquerque Coelho governou Angola e as Minas, de idade 60 anos viúvo sem sucessão. Ocupou vários postos com boa reputação e valor. Com patente de General governou Timor, Macau e Paté (Zanzibar) com prudência e acerto”. Passou a General de Bardez de que fez desistência para recolher aos franciscanos na Província da Madre de Deus onde faleceu alguns anos depois.
Há uns 150 anos, este episódio de amor ainda era comentado e no patois local: “amor de antigo san amor divera nunca san comi di hoje” e terminava: “amor nunca san brinco – olá, pegá, largá”: isto quer dizer: “O amor antigo é amor de verdade, nunca é como o de hoje”...”o amor não é uma brincadeira – olhar, pegar, largar”.
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no JTM de 9-11-2011

Mapa de origem holandesa representando Macua no séc. XVIII
Sobre este mesmo tema o Padre Manuel Teixeira deixou o seguinte texto:

Na parede do lado direito da Capela-Mor da Igreja de S Agostinho, há uma urna com os ossos de Maria de Moura e Vasconcelos e de sua filha Inês e do braço direito de António de Albuquerque Coelho. Outra lápide encontrada em 16 de Dezembro de 1955, na Capela-Mor, diz: «À memória de Joaquim Carneiro Machado Castelo Branco, capitão-de-mar-e-guerra da Armada Real de Goa, professo na Ordem de Cristo, que nasceu na cidade do Porto e faleceu em Macau, a 28 de Maio de 1799; no ano de 1805, D. R. Castelo Branco ofereceu, dedicou e consagrou esta lápide».
Maria de Moura Vasconcelos
Maria de Moura nasceu em Macau em 1699, sendo filha do comerciante Francisco de Moura e Bastos e de sua esposa, Isabel de Vasconcelos, neta de Manuel Rombo de Carvalho e de Maria de Vasconcelos. Francisco Bastos faleceu aí por 1702, deixando sua filha de 3 anos; sua esposa devia ter falecido pouco depois, pois a órfã foi confiada a sua avó Maria de Moura.
Manuel da Silva Mendes, num trabalho histórico sobre «Macau antigo», ao falar de Maria de Moura, mistura alhos com bugadoras e tece um enredo romanesco, que é pura fantasia. Escreve ele: «As claristas, pregadoras mudas, ensinavam meninas; e todas as meninas macaenses ricas iam lá beber o leite da sabedoria. Letras maiores--latim, retórica, o mais difícil do «trivium» e do quatrivium» (excepto a música)eram franciscanos dali ao pé que ministravam.
As crónicas do convento não deixaram registrados os nomes das meninas ali abeberadas: apesar disso, uma que deu grande conta de si e que falar, os livros mencionam. Já disse o nome dela: Maria de Moura e Vasconcelos. Era esta menina filha de um tal Vicente da Moura e Vasconcelos, homem que enriquecera no trato. Da mãi o nome ignora-se, sabendo-se apenas que, tendo-a criado a seus peitos com cuidados extremosos, a deixou órfã em tenros anos ao cuidado de sua sogra, senhora virtuosa e de avançada idade.
De nada se tendo alevantado este Vicente, chegou a ser peloseu trabalho honrado, um dos ricaços de Macau e a ocupar cargos de proeminência, como então era da regra e jus que ocupassem as pessoas pecuniosas, e hoje também é.
Doía a Vicente, porem, seu plebeismo, principalmente quando se via entre fidalgos que entroncavam suas linhagens uns em Carlos Magno, outros em ilustres patrícios romanos.
Não ingnorava Moura quão bastardamente eram tais linhas emendadas: assim mesmo, porém, as invejava. O que frei Pedro de Jesus Manteles observando, um dia em tom grave, lhe afirmou: descender de um santo, em minha estimação, e na consideração de toda a gente muito mais é do que ser tataraneto de Carlos Martel ou de romano patrício; e o senhor Vicente de Moura é...
--O quê? sou o quê?
--Também tataraneto paterno (respondeu frei Pedro) mas... de um santo» 105.
Ora aqui está em que dão certos jornalistas quando se metem a fazer história--simples trapaceiros. Não há sequer nma sombra de verdade nesta página de Silva Mendes.
As clarissas pertenciam a uma Ordem contemplativa, de clausura rigorosa, que nem o rosto podiam mostrar a ninguém. Assim nunca tiveram escola nem podiam ter. Durante três séculos não houve em Macau escola de meninas e estas, em geral, não aprendiam a ler.
Também não houve «trivium nem quatrivium» no Convento de S. Franeisco, mas apenas no Colégio de Madre de Deus dos Jesuítas.
As crónicas das clarissas não chegaram até nós. E mesmo que chegassem, não tinham escola e, portanto, a menina Maria de Moura não foi nem podia ter sido educada lá.
O pai desta menina não era Vicente de Moura e Vasconcelos, mas Francisco de Moura e Bastos. De resto, não existia nenhum Vicente de Moura e Vasconcelos, mas sim Vicente de Moura e Bastos, tio de Maria de Moura.
Nunca existiu no convento de S. Francisco nenhum Pedro de Jesus Manteles e tudo que o autor diz sobre Vicente de Moura é pura fantasia sem fundamento nenhum na realidade. Como nesse capítulo Silva Mendes tece a história de Macau, queremos prevenir o leitor de que não há nesta página um única parcela de verdade.
Dois pretendentes a uma criança
Em 1706, chegou a Macau na fragata Nossa Senhora das Neves o Capitão de infantaria António de Albuquerque Coelho, e logo se apaixonou por Maria de Moura, criança de 7 anos de idade, que era muito rica e formosa. Mas esta tinha outro pretendente, o fidalgo D. Henrique de Noronha, que estava determinado a desfazer-se do seu rival.
Coelho regressou a Goa na mesma fragata e dali apertou o cerco à pequena com cartas aos Jesuítas e ao tutor da órfã. Voltou a Macau em 1708, e continou o assalto à pequena de 9 anos, tendo por seu lado o tutor, os Jesuítas e o Bispo, D. João de Casal. Os seus adversários eram a avó da órfã, o Juiz dos órfãos, Manuel Vicente Rosa, o Ouvidor João Carneiro Zuzarte e os parentes da pequena.
Nesse tempo estas questões resolviam-se a tiro e foi o que sucedeu. Indo Coelho a cavalo para S. Francisco, um cafre, postado no Campo de S. Francisco, disparou sobre ele um bacamarte, que não lhe acertou. Coelho correu sobre o cafre até à Rua Formosa sem o apanhar. Ao voltar, D. Henrique de Noronha disparou sobre ele da janela duma casa, onde hoje é o Centro Católico, e acertou-lhe no braço direito por cima do cotovelo. Ele foi recolher-se a S. Francisco, mas, ao chegar à escadaria do convento, outro cafre atirou-lhe um tiro que não lhe acertou.
Ao chegar à portaria, já não se pôde apear e foi preciso ajudarem-no. No convento foi tratado pelo cirurgião de Macau, António da Silva e por um cafre, cirurgião da fragata.
Dezanove dias depois, chegou a Macau um navio inglês, que tinha um cirurgião a bordo. Chamado este, examinou o ferido e, verificando que o braço estava gangrenado, disse que era necessário cortá-lo para lhe salvar a vida. Coelho mandou perguntar à noiva se casaria com ele sem um braço; esta respondeu que o faria, ainda que lhe faltassem ambas as pernas. O braço foi cortado imediatamente e ele restabeleceu-se.
O Governador Diogo de Pinho Teixeira mandou prender D. Henrique de Noronha; mas este homiziou-se em casa do Patriarca de Antioquia, Charles Thomas Maillard de Tournon, para os lados da Fortaleza Barra e assim se livrou.
Ficou na tradição de Macau uma cantiga acerca deste acidente:
«Não he tão formosa
Nem tão bem parecida
Que por seu dinheiro
Maria arma tanta briga».
Casamento
A 30 de Junho de 1709, celebraram-se os esponsais de Coelho e de Maria; esta foi nesse dia retirada da casa da avó e depositada na casa de D. Maria Catarina de Noronha.
A Collecção de vários factos regista assim o casamento: «1710 --Agosto 22. Neste dia á noite cazou-se Antonio dÁlbuquerque Coelho com Maria de Moura filha de Vicente de Moura, na caza de Campo de S. Francisco (que hoje he de Francisco José de Paiva) onde assestiu a Infantaria da Fragata de Goa, com o seu Capitão, e nella o mesmo Albuquerque por ordem do Governo pelo julgar alli seguro. Julgando Francisco Leite, que este Cazamento, se fasia em St.º António, foi esperar o noivo para o matar, porém ficou logrado».
Note-se que Maria era filha de Francisco e não de Vicente de Moura. Francisco Leite Pereira era amigo de D. Henrique de Noronha, que vivia em sua casa.

Luto
A 6 de Março de 1712, foi sepultada Inês, filha de Albuquerque Coelho e de Maria de Moura, recém-nascida de 7 dias com grande acompanhamento do povo e da tropa, que deu três descargas ao baixar à sepultura, enquanto que a Fortaleza de S. Paulo deu uma salva de nove tiros.
A 20 de Julho de 1714, Maria de Moura deu à luz um filho e a 23 houve comédias, correrias a cavalo e outros divertimentos. Foi baptizado no dia 27 na igreja de S. António, com a assistência do Governador António Sequeira de Noronha, estando ali postadas duas companhias de soldados; à entrada da igreja, houve salva de 7 tiros da Fortaleza de S. Paulo, e à saída, onze tiros.
A 30 de Julho, faleceu Maria de Moura. A Colecção de vários factos diz: Que o que de manhã foi mimo He ja lastima de tarde. Com grande acompanhamento, ofício solene e dobres de sinos, foi enterrada na igreja do Convento de S. Francisco, na sepultura onde já estava a sua filhinha Inês e o braço do marido.
Coelho regressou a Goa. Sendo nomeado Governador de Macau, voltou aqui a 29 de Maio de 1718 e governou até 9 de Setembro de 1719, em que chegou o seu sucessor António da Silva Telo e Meneses, irmão do Conde de Aveiras.
Regressando a Goa, foi nomeado Governador de Timor e passou por Macau. Em 1725, ao voltar de Timor,m andou celebrar um ofício solene por alma de sua mulher, dobrando todos os sinos e salvando a Fortaleza; mandou abrir a cova e recolheu os ossos numa urna que esteve na igreja de S. Francisco até à sua demolição em 1865, em que passou para a igreja de S. Agostinho, onde ainda se encontra encaixada na parede da capela-mor. A lápide tem esta inscrição: «Nesta urna estão os ofsos de D. Maria de Moura e Vasconcellos e sua filha D. Ignez, e os do braço direito de seu marido Antonio dÁlbuquerque Coelho, que aqui afez depositar, vindo de Governador e Capitão Geral das Ilhas de solôr e Timôr no anno de 1725»
Qual foi o fim de Coelho? Eis o que o Vice-Rei Marquês de Castelo Novo escrevia ao Rei, a 25 de Janeiro de 1746: «António de Albuquerque Coelho, filho de António de Albuquerque Coelho, que governou Angola e as Minas, de idade 60 anos, viúvo, sem sucessão. Ocupou vários postos com boa reputação e valor. Com patente de General governou Timor, Macau e Paté (Zanzibar) com prudência e acerto. Ultimamente passou a General de Bardez de que fez desistência para se recolher aos franciscanos na Província da Madre de Deus, onde actualmente faz vida beata. Tem grande entendimento, inteireza e verdade». Ali faleceu alguma anos depois.
Uma nhonha (velha) de Macau comentava há uns 50 anos este episódio de amor, no patois local: «amor de antigo san amor divéra, nunca san comi di hoje». E terminava assim: «amor nunca san brinco--olá, pegá, largá»: o amor não é uma brincadeira--olha, pega e larga.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Carta para Carlos da Maia

De 1914 a 1916 José Carlos da Maia foi Governador de Macau deixando uma imagem de extrema competência, patriotismo e seriedade.
No Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, logo à entrada existe um memorial dos seus antigos camaradas de armas, em sua memória como Governador de Macau).
Carlos da Maia vai governar num período complicado já que decorria a I Guerra Mundial mas o rigor e a dinâmica da sua governação deixaram-lhe a fama de ter sido um dos melhores governadores de Macau de sempre. Construiu três escolas e uma leprosaria, organizou um corpo de voluntários, a corporação de bombeiros, melhorou as comunicações rádio-telefónicas (e rodoviárias) entre as ilhas e ainda teve tempo para ajudar os republicanos chineses. Quando saiu recebeu uma mensagem gravada em púrpura e decorada a prata de agradecimento das mais altas individualidades de Macau. Curiosamente esta relíquia foi roubada à família, mal esta regressou a Lisboa, por volta de 1917, e só na década de 1970, foi recuperada pelo seu filho - Francisco Manuel Carlos da Maia - num antiquário.
Uma carta datada de 1916 dirigida ao governador de Macau remetida pelo responsável militar da recém criada República na China.
Rotunda Carlos da Maia em Macau; também conhecida por "Três Candeeiros"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Macau imune às repúblicas

As mudanças de regime em Portugal e na China não resolveram diferendos, defende o historiador Alfredo Gomes Dias. Problemas como a delimitação geográfica de Macau ou a controvérsia do ópio mantiveram-se no início da década de 1910.

Mudaram os políticos, caíram reis e imperadores, mas em 1910/11 os problemas mantiveram-se intactos. Se as boas relações diplomáticas entre Portugal e a China não se alteraram, o problema da delimitação geográfica de Macau ou a controvérsia do ópio transitaram da monarquia para a república tal como, na China, do império para o regime republicano. A agenda manteve-se intocável. Esta foi uma das principais notas que o historiador Alfredo Gomes Dias fez sobressair na primeira de duas conferências da sessão dedicadas ao tempo das Repúblicas na China e em Portugal, no Centro Científico e Cultural de Macau. Dias, que proferiu ainda uma segunda conferência sobras as diásporas macaenses neste primeiro quartel do século XX, não deixou de salientar que, a propósito das mudanças de regime e das convulsões políticas nos dois países, foi graças à continuidade das relações e dos contactos diplomáticos entre os dois países que a presença portuguesa na China se assegurou ao longo do século XX. E, isso, apesar da interrupção de trinta anos entre 1949 e 1979.
Verdade se diga que Macau nunca precisou de qualquer documento jurídico, de nenhum tratado, para existir, ao contrário de Hong Kong, e talvez aí, nesse informalismo resida o segredo da presença portuguesa na China, observou já na parte final, Luís Filipe Barreto, presidente do Centro Científico e Cultural. No diálogo luso-chinês e nos processos de reconhecimento reciproco dos regimes, Macau com todas as questões que suscitava esteve sempre no centro das negociações e dos contactos.
A mesma agenda, o mesmo impasse
Uma agenda que os dois regimes herdaram dos anteriores e que, negociação após negociação, notou Gomes Dias, acabava por redundar em impasses. Dessa agenda de negociações, cinco temas persistiam – as delimitações de Macau, a linha de caminho de ferro entre Macau e Cantão, o tratado de comércio, as questões da extradição e da nacionalidade e o problema do comércio do ópio. São problemas que se arrastavam há décadas, algumas desde finais do século, como era o caso do ópio, outras como o caminho de ferro desde, pelo menos, princípio da década, que resistiam a revoltas e revoluções e que agora voltavam a intrometer-se nos processos de reconhecimento reciproco das duas repúblicas. A premência era tal que, à pressa, os revolucionários portugueses foram obrigados a constituir uma comissão negocial, em Abril de 1911, para resolver toda esta agenda com a parte chinesa. Privados de quadros competentes sobre os assuntos sínicos, absolutamente impreparados, não restou outra alternativa aos republicanos senão convocar uma série de antigos governadores de Macau, do tempo da monarquia, para liderar as negociações com a China. A comissão era chefiada por Aníbal Sanches de Miranda que haveria, aliás, de ser nomeado governador em Julho de 1912 e representante português, em Haia, na I Conferência Internacional sobre o Ópio.
O mapa cor-de-rosa
Um dos diferendos que atravessaram todo o século XX nas relações entre Portugal e a China dizia respeito ao limite geográfico de Macau. A questão não era fácil de ser dirimida. Sobretudo, pelas posições extremadas das duas partes. A China insistia numa visão minimalista do território. A presença portuguesa em Macau deveria limitar-se da Praia Grande até às muralhas, o que implicaria uma redução a metade do território actual. Do lado da república portuguesa, a reivindicação territorial estendia-se até às Portas do Cerco. Mas não só. Para a comissão de Sanches de Miranda, a presença nacional deveria incluir também, além da Taipa e Coloane, as ilhas da Montanha, Lapa e São João. Este era o mapa cor-de-rosa dos portugueses na China. Duas visões, uma minimalista e outra maximalista, que se combatiam e cujo braço de força acabou por perdurar. Perante um impasse, impôs-se o status quo. Sem Montanha, Lapa e São João mas com a Taipa e Coloane intocáveis. Este era, afinal, o plano B porque, como afirmava um ofício do diplomata português, ceder uma polegada na península ou nas duas ilhas “seria consentir um esbulho na colónia”.
Outra ideia que não ultrapassou o impasse ao longo do século passado foi a da construção de uma linha de caminho de ferro entre Macau e Cantão. “É um projecto que ao longo dos tempos vai emergindo e desaparecendo e, depois, lá emerge outra vez”, ironiza Gomes Dias. “Como se fosse um metro de superfície que fica subterrâneo para logo depois ver a luz do dia e voltar outra vez à terra”. A ideia era alimentada por um consórcio local, constituído por membros da elite macaense, que se propunha explorar a vertente comercial da ligação. A comissão chega a admitir a constituição de um grupo técnico misto entre chineses e portugueses mas o projecto acaba por ser suspenso e nunca andará para a frente. Por umas razões compreensíveis, outras nem tanto. A questão das fronteiras atravessava-se no meio do projecto tal como a da fiscalização do comércio entre as duas regiões, e tal como o problema das alfândegas chinesas cujo regresso para o território de Macau era há muito uma reivindicação da parte portuguesa. No fundo, o que esta implícito era outra vez o problema do comércio do ópio. Os portugueses discutiam na comissão a necessidade, ou não, de exigir contrapartidas para Macau devido ao fim daquele comércio ponderando o efeito da proibição nas finanças do território. Se não contrapartidas financeiras, pelo menos tempo de adaptação até à proibição total, discutia-se. Diz o historiador que em virtude destas sucessivas conversações, “até 1926, Macau vai produzindo legislação muito à frente do seu tempo antecipando o que depois, em termos internacionais, se fará para proibir não só o comércio mas também o consumo”. “É claro”, sustenta, “que em 1908/1910 o ópio já não era a principal fonte de receita de Macau, já era o jogo”. O argumento, porém, serviu de arma negocial na disputa com os chineses.
Artigo da autoria de Carlos Picassinos publicado no jornal Ponto Final de 6-6-2012

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

De rua nova d'el Rei a rua cinco de Outubro

Foto da década de 1950-60 cedida por JD e na década de 1930-40 numa foto de José Neves Catela
A rua "5 de Outubro" (ou Cinco de Outubro - 十月初五街 ) é uma das ruas que 'atravessa' a San Ma Lou.  Começou por chamar-se Rua Nova de El-Rei (皇家新街) mas a partir de 1910, com a implantação da República em Portugal, (5-10-1910) e o fim da monarquia, passou a chamar-se Rua de Cinco de Outubro.
"A Rua 5 de Outubro é o coração do bairro china de Macau, onde ressalta, com extraordinário brilho, todo o pitoresco desconcertante da vida chinesa das ruas, alacre de cores, com as suas casas de tabuletas características que são um dos atractivos que nos enfeitiçam nos meandros do Bazar".
Jaime do Inso sobre um quadro de Fausto Sampaio (na imagem de cima)
Fachada de um prédio na rua 5 de Outubro que resistiu até ao séc. XXI
 
Na comunidade chinesa a rua é conhecida por Si Mang Kai, ou seja, a tradução do nome Simão (Rua do Simão). Este Simão deverá ser Simão Peres de  Andrade, irmão de Fernão Peres de Andrade. Na época, séc. XVI, havia ainda nesta zona um cais com o mesmo nome. A rua começa junto à rua do Norte na Rua da Ribeira do Patane e vai terminar na travessa Cinco de Outubro, junto à Rua das Lorchas.
Em mapas de origem chinesa (dinastia Ming) podem encontrar-se as seguintes referências:  大碼頭 "Cais Grande" ou 十八間 "18 Casas". Junto à alfândega (税館) é possível ver um barco que representaria o cais do Simão - 呬𠵼碼頭 - e a estrada ficou conhecida por 呬𠵼街.
Nos registos mais antigos que encontrei o nome desta artéria em chinês era 呬𠵼街, um nome que não tem qualquer significado. Mas foneticamente dá algo como "Simão" (呬𠵼).

San Ma Lou junto à rua 5 de Outubro

Evento em Macau nos últimos anos da monarquia


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Inéditos de Henrique de Senna Fernandes

Era uma obra que já estava dactilografada e não tem fim, ou melhor, o último capítulo pertence ao leitor. “Os Dores” é um romance inédito de Henrique de Senna Fernandes que vai chegar às mãos dos leitores em Outubro, numa edição do Instituto Cultural, dois anos depois do falecimento do autor. Além deste inédito, será ainda reeditado “Amor e Dedinhos de Pé”. Uma homenagem ao homem que deixou um “legado cultural” e um testemunho da Macau do seu tempo
Procurou palavras como pessoas. Descreveu-as com a mestria e a dor implícitas à condição humana, no espaço que a rodeia ou a cerca, sem desistir. Às vezes o peito doía. Pelo quão ingrato é escrever-se, sem fim à vista, sem saber se os escritores macaenses tinham público. Acabava por ser “uma aventura completa”, mesmo que as obras, tal como os seres, nem sempre pudessem ter o último capítulo, a encerrar a história. Aliás esta parece sempre uma “carreira peregrina”, com páginas e páginas, e múltiplas versões, como se as mãos se multiplicassem, até à combustão.
O Pai das Orquídeas: manuscrito de HSF
E Henrique de Senna Fernandes chegou a queixar-se dessa dor, que não se evita, desse receio que ataca quando o ensaio é humano e o seu valor está tão entranhado, que o corpo desaparece, esfuma-se, mas os livros – que são a alma da sua terra – permanecem, renascem de gavetas, procuram-se e continuam a surpreender, depois da vida, sem fim.
Para recuperar o legado deixado pelo escritor, conhecido como um verdadeiro contador de histórias, o Instituto Cultural irá reeditar o livro “Amor e Dedinhos de Pé” e publicar um inédito - “Os Dores” -, que o escritor deixou dactilografado, mas sem um final, contou ao JTM o filho Miguel de Senna Fernandes. Numa cerimónia que deverá ter lugar a 15 de Outubro, na Fundação Rui Cunha, o homem que “descreveu Macau como mais ninguém” será homenageado no dia em que completaria 89 anos.
A vontade de colocar a obra mais perto do público surgiu no ano passado. “O IC manifestou para já o interesse de republicar as obras e de saber qual o manancial de manuscritos existentes para saber se era possível fazer mais alguma coisa”, referiu Miguel de Senna Fernandes. Além de relançar uma das obras mais conhecidas do escritor foram ainda ao baú e pegaram num texto já dactilografado, que será publicado, como o autor o deixou, na sua génese. “Vai ser assumido como o livro de um autor macaense. Antes havia palavras com aspas e itálico, mas foi assumido como português de Macau. E isto é de aplaudir. Vai ser engraçado”.
“OS DORES ”, UMA NOVA AL MA DA TERRA . Miguel de Senna Fernandes ainda ficou com reservas de ver publicadas as páginas do pai por estas não terem um fim, mas a história “muito bonita” é capaz de cativar, como qualquer narrativa aberta, onde o leitor se descobre e adivinha, através do silêncio e das pistas do autor. “O IC entendeu que se devia publicar e sempre achei que fosse viável, mas tinha algumas reservas. É um assumir do livro como ele está. Fica ao critério do leitor ou de alguém que o acabe... não sei se acabará”, explicou ao JTM.
O que se pode esperar do inédito é uma nova radiografia da alma de Macau, uma descrição intensa de “outros tempos”. A história decorre no início do século XX e como todas as heroínas de Henrique de Senna Fernandes também a protagonista desta “passa um mau bocado”. É o que pode chamar um verdadeiro “ensaio sobre a condição humana”. “Trata-se da vida de Leontina e as suas peripécias. Foi abandonada e cresceu no mundo dos chineses, depois foi resgatada por uma família macaense”, antecipa Miguel de Senna Fernandes.
Depois o leitor viaja por lá, pela crueza das situações porque a vida é assim: um misto de emoções, de momentos bons e maus. “Macau nunca foi um paraíso, mas mesmo nas desgraças o meu pai encontrou um paraíso em Macau. É a realidade das coisas”, relembra saudosista dos tempos em que se sentava no escritório com o pai a conversar sobre os livros, que às vezes são pessoas.
Ainda que a obra não esteja completa, aliás como todas as de autores que procuram mais do que um fim, “Os Dores” tem elementos suficientes para surpreender. “Estou convencido que mesmo que a obra esteja incompleta as pessoas vão gostar do que lêem”, acredita Senna Fernandes. “Há sempre pistas e é fantástico que dão azo à imaginação das pessoas”, acrescentou. “O livro não foi deixado incompleto propositadamente”, talvez acontecesse pela falta de tempo ou por o tempo se perder nas tantas outras páginas, mas ao ler, quem gostar de prever o fim que o autor lhe poderia ter dado vai conseguir adivinhar a “probabilidade de um ou outro desfecho”.
GAVETAS DE MACAU . Esta iniciativa de publicação póstuma é uma homenagem que deixaria Henrique de Senna Fernandes satisfeito e que poderá desencadear um interesse pela escrita em torno de Macau. “A primeira vez que se falou na reedição dos seus livros ainda era vivo. Já estava bastante enfermo, mas ficou muito satisfeito com esta manifestação de interesse”, recordou o filho. O que será feito depois destas edições Miguel Senna Fernandes não sabe, mas acredita que o IC tem a ideia de republicar tudo o que já foi feito. Contactado pelo JTM, o organismo disse apenas que está a preparar a edição do livro inédito e a reedição de “Amor e Dedinhos de Pé”, remetendo outras informações para mais tarde.
Mas foram tantas as páginas que Henrique de Senna Fernandes deixou em gavetas. “Há muitas histórias que estão ainda escritas à mão. Descobri um manuscrito quase completo, se a sua letra não me trair é de 1958”, referiu ao JTM. Este poderá ser um dos romances que o pai pensava ter perdido nas mudanças de escritório. “Fiquei por saber se este é o livro que pensava perdido, mas que se calhar estava mesmo entre os manuscritos. Agora consegui ter mais vagar e vou ler para ver se está completo”, disse Senna Fernandes, notando que até está encadernado. “Espero bem que seja o que julgava perdido para que fique com a alma em paz”, referiu, acrescentando que “O Pai das Orquídeas” é outro dos manuscritos encontrados. A Miguel de Senna Fernandes os livros recordam-lhe as conversas com o pai. Mas quando partiu para a leitura surpreendeu-se ainda mais. Era como se as páginas aumentassem os diálogos entre pai e filho, desvendando mais pedaços da vida e da terra. “Li primeiro o ‘Amor e Dedinhos de Pé’. Li-o de cabo a rabo durante uma viagem de avião no regresso de Portugal e depois reli. E surpreendeu-me. Não me contava tudo e às vezes o livro completava o que ficava por dizer”, partilhou.

Com esta iniciativa de partir para a publicação de um inédito e da reedição de “Amor e Dedinhos de Pé”, Miguel de Senna Fernandes mostrou-se satisfeito e grato pelo reconhecimento dado à obra do pai. “É uma cabal demonstração. Sempre se queixava que era ingrato ser escritor em Macau, porque não havia no geral a literatura macaense, mas escritores isolados, e não havia público”, referiu. Mas nada fez desistir o autor de “A Trança Feiticeira”, até porque sentia: “não sei o quanto valem os escritos, mas escrevo e estou bem comigo”. E assim, “deixou-nos um legado importante” e um “testemunho” do que foi Macau. Como numa narrativa aberta, Henrique de Senna Fernandes nunca partiu e os livros são a prova disso.
Artigo da autoria de Fátima Almeida publicado no JTM de 28-9-2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A revolução republicana chinesa

Neste dia assinalam-se aos 101 anos da revolução republicana e a figura de Sun Yat-sen, o primeiro Presidente provisório, eleito a 29 de Dezembro de 1911. A China iniciava-se na era moderna e as décadas que se seguiriam até 1949 (RPC) mostram que por esta transição todos pagaram um preço elevado. Para além dos fortes conflitos internos, acrescente-se a guerra sino-japonesa. Recordo a este propósito alguns excertos de uma comunicação da autoria do prof. António Vasconcelos de Saldanha, catedrático do ISCSP-UTL, intitulada “Sun Yat-sen e a fundação da República Chinesa vista de Portugal — Uma aproximação política e diplomática”. O título já deixa antever que é um olhar distante, mas simultaneamente próximo e com Macau no contexto como não poderia deixar de ser...
Porto (Interior) de Macau nas primeiras décadas do séc. XX
“O estado de desagregação e insatisfação generalizada não só permitiu que a maioria das guarnições imperiais do centro e do Sul se unissem aos revoltosos de Wuchang, mas que inclusivamente, em 20 de Outubro, fosse constituído um governo republicano provisório. Xangai iria também aderir, mercê de uma revolta popular que neutralizou as tropas e a administração imperial. Seguiu-se Hunan, através da quase pacífica acção dos notáveis da Assembleia provincial, e depois Cantão, onde, também por acção da Assembleia local, foi colocado à frente de um governo provisório Hu Hanmin, um velho companheiro de Sun Yat-sen. E assim, se em finais de Outubro de 1911, para terror e espanto do Governo Imperial, dois terços da China já apoiavam abertamente a República, a queda de Nanquim em 2 de Dezembro consolidou definitivamente o poder revolucionário.”
O Cônsul de Portugal em Cantão era Carlos d´Assumpção que foi dando conta do que se ia passando.
“Não é demais sublinhar o importante papel catalizador da actividade revolucionária cantonense em todo o processo que conduziu à fundação da República. Tinha sido em Cantão que, enquanto Sun Yat-sen partia para o Ocidente em busca de apoios, o Tongmenghui se reorganizara e continuara a promover uma série de acções subversivas. De facto, a metrópole do Sul, era por excelência um centro de oposição aos Manchús, onde qualquer actividade subversiva levada nesse sentido poderia contar com o apoio das sociedades secretas legitimistas e com o sustento de vastas camadas tanto de uma burguesia como de uma ‘intelligentsia’, revigoradas numa cidade aberta havia cem anos ao contacto com os estrangeiros, economicamente próspera e intelectualmente avançada. À frente das operações e na ausência de Sun Yat-sen, encontrava-se Hu Hanmin, um revolucionário cantonense da 1.ª linha, que, nas palavras do Cônsul de Portugal em Cantão, ‘mais de uma vez deu provas do seu heroísmo e acrisolado patriotismo e que tomou parte em dois assaltos temidos e arriscados: um contra o palácio imperial de Pequim, e outro contra o palácio da vice-realeza de Cantão. O partido político do qual ele é chefe compõe-se de filhos de famílias ricas que cursaram os seus estudos no estrangeiro e que são, como o seu chefe, destemidos e decididos a jogar a vida para levarem avante o seu ideal...’.”
Correio registado 1913 (selo república): Portugal e China 'aderiram' quase em simultâneo à 'República'.
O que se passava na China naqueles anos não deixou indiferente o mundo...
“Apesar das garantias prontamente dadas aos diplomatas estrangeiros que a ordem pública não sofreria alterações, era-lhes difícil abstrair de todos os rumores que anunciavam a rebelião final para dali a poucos dias. Por uma questão de prudência, logo no dia 26 fundeavam no porto de Cantão oito canhoneiras estrangeiras, sendo 2 inglesas, 2 francesas, 2 americanas e 2 japonesas; a 27, a pedido do Cônsul de Portugal e com a concordância do Governador de Macau, arrancava também do território rumo a Cantão a lancha-canhoneira Macau, uma presença que se pretendia servisse, explicava Carlos d’Assumpção, ‘para incutir no ânimo dos Chins a impressão de que Portugal tem também interesses a defender e proteger na China’.Num ambiente da maior tensão, os boatos redobravam de intensidade. Esses boatos — explicará depois o Cônsul — propalados pelos revolucionários, com o fim de ‘incutir na massa popular o espírito da independência, eram a dado passo destruídos pela ameaça das forças tártaras, que a nada cediam e que deixavam bem a descoberto o seu inveterado ódio contra os Chineses, os quais, por seu turno, queriam à viva força sacudir o jugo tártaro, de maneira que tudo fazia prever que entre as tropas fiéis ao Império e as que se uniram aos revolucionários abririam pelejas em que aquelas levariam a vantagem por estarem bem preparadas e na posse das fábricas de pólvora e do depósito de munições, ao passo que as últimas nem de armas nem de munições dispunham por terem sido bem cedo desprovidas do que lhes era preciso para a luta’. Contudo, as sucessivas derrotas sofridas pelas tropas imperiais no vale do Yangtze, a paralisação das transacções comerciais ocasionada pelo êxodo de Cantão para Macau e Hong Kong, e a acção devastadora dos bandos de malfeitores no delta do Rio do Oeste, tanto eram factores de encorajamento para o redobro dos esforços dos revolucionários, como de erosão da ‘tenacidade das tropas imperiais, nas quais, insensivelmente, se criava e aumentava o desânimo’.”
Largo do Senado. ca. 1900-10
Tal como em Portugal os tempos que se seguiram à implantação da República na China foram marcados por muita instabilidade. Sun Yat-sen seria eleito Presidente provisório da nova República, mas ficaria no poder durante muito pouco tempo, surgindo na política Yuan Shikai que seria eleito Presidente a 14 de Fevereiro de 1912, um dia após Sun ter resignado ao cargo e dois dias depois de assinado o edito imperial anunciando a abdicação formal do Imperador.