sábado, 19 de setembro de 2026

Memórias da comissão militar de José Rosa (1969-1971)

José Rosa tinha 21 anos quando chegou a Macau como militar. Numa rendição individual partiu de Lisboa a bordo do navio Timor - Companhia Nacional de Navegação - a 26 de Dezembro de 1969, uma sexta-feira. Atracado no cais da Rocha Conde de Óbidos, o Timor impressionava com 131 metros de comprimento, 7656 toneladas de arqueação bruta e lotação para 387 passageiros e 120 tripulantes.
A bordo seguiam mais cerca de 200 militares. A maioria ficou alojada no porão. Uns iam para Macau outros para Timor, o destino final (Dili). Desde 1967, com o encerramento do Canal do Suez, passou a seguir para o Oriente pela rota do Cabo da Boa Esperança (África) com escalas em Angola e Moçambique. José Rosa fez escala no Lobito (onde visitou a irmã), Luanda, Beira e Lourenço Marques. Ao fim de 48 dias o Timor lançou âncora em Hong Kong. Da então colónia britânica quem tinha como destino Macau podia viajar nos novos hydrofoils ou nos mais velhinhos ferries a vapor, como o Fat Shan, o Tai Loy ou o Tak Shing. A viagem demorava cerca de 3 a 4 horas. Os militares seguiam nos mais baratos e mais lentos ferries. 
Troço final da Av. Almeida Ribeiro nos anos 1970
ilustração criada por IA a partir de fotografia

Quando atracou no Porto Interior, já era noite cerrada daquela quinta-feira 12 de Fevereiro de 1970. Ainda deu para ver o bem iluminado casino flutuante denominado "Casino de Macau".
José Nobre de Carvalho era o governador promovido a general em Novembro de 1970. Os trabalhos para construção da ponte, a primeira a ligar Macau à Taipa, estavam prestes a começar. Uma ponte que haveria de receber o nome do governador... Mas isso seria apenas em Outubro de 1974. Em 1970 ainda pairava no ar a tensão dos momentos quentes da Revolução Cultural chinesa vividos de forma mais intensa entre 1966 e 1967.
Dos tempos de serviço José Rosa recorda fazer rondas com os carregadores vazios, dos corpos de chineses que surgiam junto à costa, afogados, ao tentarem entrar em Macau a nado.
J. Rosa frente ao Hotel Lisboa onde se destaca o trabalho artístico de Francisco Borboa
À chegada o Hotel Lisboa ainda cheirava a novo. Tinha sido inaugurado poucos dias antes, a 3 de Fevereiro, a tempo de aproveitar os festejos do Ano Novo chinês (Ano do Cão). O Lisboa dava também para matar saudades da metrópole, como se dia na altura. Havia comida portuguesa e por vezes sessões de fado. Na gastronomia portuguesa o Lisboa podia ser novidade mas a qualidade a preços mais acessíveis conseguia-se no Ruby, Belo, Safari, Fat Siu Lau, Solmar... No casino os militares não estavam autorizados a entrar, mas podiam ver e jogar nas máquinas de diversão e no bowling. Ou então assistir às corridas de galgos no Canídromo, na época muito concorridas.
O novo e majestoso edifício contrastava com uma urbe que mais parecia uma pequena vila onde as diferentes comunidades pouco conviviam e os militares, não sendo hostilizados, eram olhados com desconfiança. No Porto Exterior, depois da curva dos pescadores, junto ao Reservatório, ainda havia as "barracas de banho".
Um maço de cigarros custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. As marcas eram muitas. Muita oferta tal como nas salas de cinema: Apollo, Nam Van, Vitória, Lido, Capitol, etc...
Na baía a Praia Grande ainda abundavam os pontos de pesca artesanal (umas canas de bambú compridas e com redes agarradas), nomeadamente junto ao Hotel Caravela, na Av. da República.
As saudades de Portugal podiam ser atenuadas em momentos como os que ocorreram em Agosto de 1970 quando no Jardim de Camões actuou (dia 16) a Tuna Académica de Coimbra e a Orquestra de Câmara Carlos Seixas, sob a direcção de Tobias de Lurdes Cardoso... ou quando a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica fez dois jogos (dias 20 e a 22) no Campo 28 de Maio (Canídromo) tendo vencido a selecção local por 4 golos e a selecção de Hong Kong por 7 golos sem resposta. Num jornal da Companhia de Polícia Militar da época pode ler-se:
"Tu vieste a esta pequena parcela do Território Nacional, modificar-lhe a sua maneira de viver durante cinco dias. Tu, Benfica, foste um verdadeiro embaixador da Mãe Pátria. Vieste aqui e todos te reconhecem como um grande no desporto. na correcção e na socialidade. Esse abraço que trouxeste, a nós militares, de todos os portugueses - que tão longe se encontram de nós - não será facilmente esquecido. A nós, militares, foi uma alegria e honra ver a tua atenção para connosco e mesmo procurar a nossa companhia. Nunca nos esqueceremos da fantástica lição de futebol e correcção que deram. Saíste vitorioso do campo, depois de teres feito abrir a boca de espanto e admiração à grande maioria da assistência. Aquele aceno amigo que fizeste no princípio do jogo também não será esquecido... Por tudo, Benfica, por nos teres dado a grande alegria de ver o teu futebol, pela tua correcção, pela tua socialidade e pelas atenções que tiveste com todos os militares, o nosso Obrigado."
Em plena guerra colonial no Ultramar, a José Rosa coube cumprir o Serviço Militar Obrigatório em Macau, um território pacífico, exótico e isolado no Extremo Oriente, escapando à mobilização para a frente de combate em África. Talvez por ser Operador de Rádio, função que ocupou integrado no destacamento de manutenção instalado nas denominadas "Barracas Metálicas" do Quartel de Mong Ha tendo como comandante o capitão Alberto Pereira.

Ao fim dos dois anos de comissão José Rosa regressaria de avião a Portugal em 1971. De Macau ainda levou a recordação de ter participado no Grande Prémio, prova onde os militares serviam por exemplo como 'bandeirinhas' de pista.
PS: Artigo escrito depois do filho de José - Pedro Jorge Rosa - ter-me contactado. Com 78 anos e alguns problemas de saúde, o pai, embora queira - e muito - já não se recorda de muita coisa. Este artigo visa o reavivar da memória e também encontrar antigos militares que tenham estado em Macau na mesma época para troca de impressões com José Rosa. Quem o pretender basta usar os contactos do blogue que reencaminharei a mensagem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On

A Tung On Steamship Company foi uma importante empresa de navegação marítima criada em Hong Kong na década de 1920, tendo a sede em Queen's Road Central e um cais próprio na zona de Sheung Wan. Em 1925 a companhia operava navios a vapor emblemáticos no transporte de passageiros e mercadorias, como o SS Tung On e o SS Sai On, que asseguravam as rotas comerciais regionais entre Hong Kong, Cantão e Macau. A 25 de Julho de 1925 era publicado este anúncio na imprensa macaense dando conta do início da "Primeira carreira entre Macau e Hong Kong" do Sai On.
Anúncio de 25.7.1925

A grande rival de capitais britânicos nesta rota era a prestigiada Hongkong, Canton & Macao Steamboat Company, fundada ainda no século XIX, que dominava o transporte regular de passageiros e carga com navios a vapor emblemáticos como o SS Fatshan, o SS Sui An e o SS Kinshan. Ao lado desta, gigantes coloniais britânicos como a China Navigation Company (da Swire) e a Indo-China Steam Navigation Company (da Jardine Matheson) estendiam as suas vastas redes comerciais costeiras e fluviais a estas mesmas águas.
A Tung On Steamship Company operou de forma independente até ao início da Segunda Guerra Mundial, momento em que a sua frota foi destruída ou confiscada devido à invasão japonesa. O fim da atividade da empresa deu-se em Dezembro de 1941, durante a Batalha de Hong Kong. Para evitar que os navios caíssem nas mãos das forças japonesas que avançavam sobre a colónia britânica, o principal navio da companhia, o SS Tung On, foi afundado deliberadamente. O outro navio icónico da frota, o SS Sai On, acabou por sobreviver à guerra, mas o negócio original da Tung On desmoronou-se com o conflito. Capturado durante a ocupação japonesa e rebaptizado como Sean Maru, o Sai On continuou a navegar. Já depois do fim da segunda guerra mundial, após um grave incêndio em 1947 a carcaça foi comprada pela companhia Tai Yip Co. Ltd. e o navio foi inteiramente restaurado e modernizado nos estaleiros de Cheoy Lee regressando à rota Macau-Hong Kong em 1950 com o nome de SS Tak Shing. Em 1968 voltaria a mudar de nome - Tung Shan - e em 1974 foi vendido para sucata.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Procissão de Nossa Senhora dos Remédios é Património Cultural Imaterial

A procissão e a devoção a Nossa Senhora dos Remédios passaram a integrar a lista do Património Cultural Imaterial de Macau segundo o boletim Oficial de 15 de Setembro último.
A devoção a Nossa Senhora dos Remédios é promovida pela paróquia de São Lourenço e a procissão realiza-se anualmente em Outubro.
Entre as manifestações católicas já reconhecidas como Património Cultural Imaterial de Macau contam-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, realizada anualmente a 13 de maio, e do Senhor dos Passos, celebrada no primeiro fim de semana da Quaresma.
Na fotografia uma procissão religiosa tendo à frente D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo de Macau de 1954 a 1960. Atrás, de fato claro e gravata escura, o Almirante Joaquim Marques Esparteiro, Governador de Macau entre 1951 e 1957. Ao lado, de fato escuro e chapéu branco a mulher, Laurinda Marques Esparteiro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Fortaleza do Monte / 大 炮 台: 400º aniversário

Na imagem a pedra de armas da Fortaleza do Monte (Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de São Paulo) colocada sobre a porta de entrada.
O frontão triangular tem esculpida a figura de S. Paulo, patrono da fortaleza. A pedra rectangular por baixo inclui um escudo de Portugal, encimado por uma coroa rematada com cruz. O escudo é flanqueado por dois querubins de pé. O anjo do lado esquerdo ostenta a Cruz de Cristo, e o anjo da direita a esfera armilar rematada por uma estrela. Em baixo tem a inscrição ANNO DNI 1626, ou seja, "No Ano do Senhor de 1626", a data da conclusão da fortaleza cujos primórdios vou abordar de forma sucinta.
A estrutura nasceu originalmente como uma casa forte (cofre) construída pelos jesuítas impulsionados pela organização político-institucional do bispo D. Melchior Carneiro para proteger a fortuna do comércio da seda e da prata com o Japão financiado a uma taxa de 1%.
Na segunda década do século XVII (crê-se que a partir de 1617), ergueu-se a estrutura inicial (paredes de 1,10 m, porta dupla), construída por padres e pelos seus escravos. Com a obra ainda inacabada, em Junho de 1622 quando os holandeses tentaram invadir Macau foi daqui que foi disparado o tiro certeiro que levou à derrota holandesa.
Em 1623 o novo governador de Macau tomou a fortaleza aos jesuítas, recorrendo a um destacamento militar vindo de Manila (Espanha), transformando-a oficialmente em bastião e residência do governador.
Quando concluída em 1626 as muralhas ficaram com cerca de 9 metros de altura, sendo a espessura das paredes na base com 3.7 metros e no topo com 2.7 metros.
Ao longo dos tempos a fortaleza teve múltiplas utilizações. Foi quartel militar, presídio, albergou os serviços de meteorologia (década 1960), foi depósito de vestígios arqueológicos... Com o fim da presença militar em 1975 a fortaleza passou a estar aberta ao público e no final da década de 1990, após obras, foi ali instalado o Museu de Macau (1998), situação que ainda se mantém.
Neste ano de 2026 celebra-se o 400.º aniversário de conclusão da construção da Fortaleza do Monte.
PS: para consultar mais publicações sobre a Fortaleza do Monte utilizar o campo de pesquisa.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa"

As actuais Casas-Museu da Taipa são um conjunto de cinco moradias construídas em 1921 ao longo da Avenida da Praia para residência dos funcionários superiores das ilhas.

O anúncio para a "Construção de casas de habitação para funcionários públicos na Ilha da Taipa" por "arrematação em Hasta Pública" foi publicado no B. O. de 15 de Janeiro de 1921.

Foto publicada no Anuário de 1927

Depois de obras de restauro nas décadas de 1980 e 1990 foram inauguradas em Dezembro de 1999 como casas-museu: Casa Macaense, Casa das Ilhas, Casa das Regiões de Portugal, Casa de Exposições e Casa de Recepções. Em 1992 foram classificadas como património arquitectónico de valor cultural

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Troço da Rua do Hospital no início do século 19

Intitulado "Part of the Hospital Street near the Franciscan Gate - Macao. The redoubt named Nostra Senhosa Gaya on the Hill" - 'Parte da Rua do Hospital* perto da Porta Franciscana - Macau. O reduto na colina chama-se Nossa Senhora da Guia" este desenho é da autoria de John Michael Houghton (c. 1797-1874), um aspirante a oficial que serviu a bordo do HMS Discovery como parte de uma escolta naval que andou pelo sul da Ásia nos primeiros anos de 1800.
A Rua do Hospital corresponde à actual Rua Pedro Nolasco da Silva (desde 1942). A Porta Franciscana referida era uma das existentes na muralha que circundava a a chamada cidade cristã, separando o núcleo urbano do resto da península. Esta porta em concreto permitia a passagem para a zona do campo que posteriormente dava acesso, por exemplo, à fronteira terrestre com a China continental onde fica a Porta do Limite (a versão edificada pelos chineses) e que era aberta em alguns períodos para permitir a entrada de víveres em Macau.
E não foi o único desenho que Houghton fez em Macau. Desenhou ainda, por exemplo, o "Franciscan Monastery at Macao, taken from the window of the Swedish Factory", ou seja, o "Mosteiro de S. Francisco em Macau, visto da janela da Feitoria Sueca."
A passagem do navio Discovery (e de outros navios homónimos) por Macau no início do século XIX insere-se num período de forte tensão geopolítica, exploração hidrográfica e conflitos pelo comércio no Sul da China. O Discovery era um navio de levantamento hidrográfico e exploração Companhia das Índias Orientais (East India Company / EIC). Sob o comando do Capitão Daniel Ross (1780-1846) - conhecido como o "Pai da Hidrografia na Índia" - o Discovery realizou intensos levantamentos cartográficos no Mar da China Meridional, no Estreito de Malaca e ao longo da costa chinesa na primeira e segunda décadas de 1800.
Macau servia frequentemente como o porto de reabastecimento, refúgio contra tufões e ponto de apoio diplomático e logístico para a tripulação.
Em Novembro de 1807, num período de grande atrito entre o Império Qing, os britânicos e as autoridades portuguesas em Macau, o Discovery esteve envolvido na apreensão e inspecção de embarcações suspeitas ao largo das águas de Macau, gerando protestos das autoridades chinesas de Cantão devido à violação da soberania territorial e comercial chinesa.
Naquele início do século XIX a presença de navios de guerra e de exploração britânicos em Macau intensificou-se drasticamente devido às Guerras Napoleónicas. Com a invasão de Portugal por tropas francesas, a Marinha Real Britânica enviou uma frota militar para Macau com o pretexto de "proteger" o território português de um eventual ataque francês. As autoridades portuguesas de Macau e o governo Qing opuseram-se firmemente ao desembarque e à presença de navios de guerra britânicos na baía de Macau. O impasse forçou o recuo britânico após os chineses ameaçarem cortar o abastecimento de mantimentos a Macau e o comércio estrangeiro em Cantão.

domingo, 13 de setembro de 2026

Why not enjoy the most exciting destination in the east?

Na imagem um anúncio da década 1970 - em inglês - do Centro de Informação e Turismo. Numa referência à música de sucesso do final da década de 1940 - On a Slow Boat to China - promove as viagens rápidas de jetfoil a partir de Hong Kong, destacando o contraste com o antigo transporte lento. Na altura o jetfoil fazia a viagem entre Hong Kong e Macau em 50 minutos.
Inclui cupão de resposta para pedidos de informação da agência Furman Associates Inc. e do Macau Tourist Information Bureau.

The slow boat to China doesn't run here anymore.
The fast jetfoil to Macau does. So, when you arrive in Hong Kong by modern jet, why change? Enjoy a different kind of jet travel. To the most exciting destination in the east. Macau. It's a short 50 minute trip from Hong Kong. Jet smooth, jet fast, with all the wonders of the China Sea spread around outside big picture windows. Or choose a Hydrofoil for a different view of our seascape.
At the end of that 50-minute jetfoil run from our "airport", there's Macau. The well-packed-holiday-package. The serenity of quiet beaches. The roar of Grand Prix motors. A water tour between close-packed fishing junks with China so close you can almost touch it.
Shopping for antiques in the quiet back streets. The fastest ball game in the world at the Jai Alai Stadium. Portuguese food and wines. And history. Chinese and Western, written in cobblestones and pink mansions, quiet gardens and old churches that ring bells to celebrate everything from a saint's day to a Chinese festival. And firecrackers play obligato to the peals.
Why not enjoy the most exciting destination in the east?

Formulário:
Macau.
The well-packed-holiday-package.
Book direct for better value. Now.

Furman Associates Inc.
3133 Lake Hollywood Drive,
Los Angeles, California 90068.
U.S.A. Cables: FURDOT Tel: (213) 851-3400

Macau Tourist Information Bureau,
Swire House, 6/F., 8 Spring Street,
Sydney 2000, Australia.
Cables: MAINBURO Tel. (02) 276418

Macau Tourist Information Bureau,
1525 Star House, Kowloon, Hong Kong.
Tel: 3-677747

Please tell me more about the well-packed-package.
Name _____________________
Company __________________
Address ___________________
MACAU
CENTRO DE INFORMAÇAO E TURISMO MACAU TEL NO.: 7218 CABLE: TURISMO TELEX: OM 201.
Anúncio do CIT de Macau na década 1970年代 澳葡政府 旅遊局 廣告

Tradução/Adaptação

O barco lento para a China já não passa por aqui.
O rápido jetfoil para Macau sim. Por isso, quando chegar a Hong Kong num jato moderno, para quê mudar? Desfrute de um tipo diferente de viagem a jato. Para o destino mais emocionante do Oriente. Macau. É uma curta viagem de 50 minutos a partir de Hong Kong. Suave como um jato, rápido como um jato, com todas as maravilhas do Mar da China espalhadas do outro lado das grandes janelas panorâmicas. Ou escolha um Hidrofoil para uma vista diferente da nossa paisagem marítima.
No final dessa viagem de 50 minutos de jetfoil a partir do nosso "aeroporto", está Macau. O pacote de férias completo. A serenidade de praias tranquilas. O rugido dos motores do Grande Prémio. Um passeio de barco entre juncos de pesca alinhados, com a China tão perto que quase a pode tocar.
Compras de antiguidades nas ruas secundárias e tranquilas. O jogo de bola (pelota basca) mais rápido do mundo no Estádio de Jai Alai. Comida e vinhos portugueses. E história. Chinesa e ocidental, escrita em calçada e palacetes cor-de-rosa, jardins tranquilos e igrejas antigas cujos sinos dobram para celebrar desde o dia de um santo até a um festival chinês. E os petardos fazem o acompanhamento aos repiques.
Por que não desfrutar do destino mais emocionante do Oriente?
Coluna da Direita / Formulário:
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Furman Associates Inc.
3133 Lake Hollywood Drive,
Los Angeles, California 90068.
U.S.A. Telex: FURDOT Tel: (213) 851-3400

Gabinete de Informação Turística de Macau,
Swire House, 6/F., 8 Spring Street,
Sydney 2000, Austrália.
Telex: MAINBURO Tel. (02) 276418

Gabinete de Informação Turística de Macau,
1525 Star House, Kowloon, Hong Kong.
Tel: 3-677747

Por favor, enviem-me mais informações sobre o pacote completo de férias.
Nome _____________________
Empresa __________________
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MACAU
CENTRO DE INFORMAÇÃO E TURISMO MACAU TEL N.º: 7218 CABOGRAMA: TURISMO TELEX: OM 201.

sábado, 12 de setembro de 2026

Fotografia das ruínas de S. Paulo ca. 1861/63 por Marshall Milton Miller

Ex-libris por excelência de Macau, as vulgarmente designadas ruínas de S. Paulo, (fachada da igreja Mater Dei erguida em 1602 e destruída num incêndio em 1835), encerram uma história secular de um espaço ímpar que teve múltiplas funções. Actualmente é uma atracção turística e um museu a céu aberto, mas começou por ser um imponente templo católico depois universidade, quartel e cemitério. 


O fotógrafo Marshall Milton Miller (1830-1899) chega a Hong Kong a 19 de Julho de 1860 oriundo de S. Francisco (EUA). Trabalha na Weed & Howard cujos escritórios passa a ocupar a partir de Janeiro de  1861. Adquire o estúdio e espólio desta empresa de fotografia conforme atesta um anúncio publicado na imprensa da então colónia britânica.

No anúncio publicado no "The China Directory for 1862" pode ler-se:

Photography 
Mr. M. Miller, late Operator and Successor to Messrs Weed & Howard, begs to inform residents and visitors of Hongkong, that he has fitted up the room lately occupied by Mr Howard, on the Parade Ground, and is now prepared to take PHOTOGRAPHIC PICTURES of all kinds. Likenesses from Miniature to Life Size, Views of Houses & c., executed at short notice. As his stay at the above place is limited, those wishing his services will please call early. A Collection of Views of various places for sale.
Hongkong, 1st January 1861.

Fotografia
O Sr. M. Miller, antigo operador e sucessor dos Srs. Weed & Howard, tem a honra de informar os residentes e visitantes de Hong Kong de que preparou a sala recentemente ocupada pelo Sr. Howard, no Parade Ground, encontrando-se agora preparado para tirar FOTOGRAFIAS de todos os tipos. Retratos desde miniaturas até ao tamanho natural, vistas de casas, etc., executados com curto prazo de entrega. Como a sua permanência no local supracitado é limitada, solicita-se a quem desejar os seus serviços que se dirija ao local o quanto antes. Encontra-se também à venda uma coleção de vistas de vários locais.
Hong Kong, 1 de Janeiro de 1861.

Na época era um dos três fotógrafos em actividade em Hong Kong sendo a morada "Parade Ground". Em Agosto de 1861 estabelece durante um mês o "Guangzhou Studio", na North Parade Ground, na parte velha da cidade de Cantão
Uma notícia de 21 de Setembro de 1861 do jornal  Friend of China and Hongkong Gazette informa que Miller fora alvo de um roubo de uma caixa de negativos.
Nessas 'deambulações' temporárias pela China continental, Miller visita Macau várias vezes fotografando a Praia Grande, os telhados na zona do Porto Interior, View in Macao - Showing Fort on the Hill, a Gruta de Camões e as ruínas de S. Paulo. Em 1863 Miller regressou aos EUA.
Esta fotografia é raríssima e é muito provavelmente a primeira do actual ex-libris de Macau. Foi feita entre 1861 e 1863 menos de 30 anos depois do fogo que destruiu o colégio jesuíta de S. Paulo e a igreja Mater Dei anexa em Janeiro de 1835. Ainda podem ver-se algumas paredes de pedra que suportavam o tecto feito em madeira. Junto à parede posterior pode ver-se uma estrutura abobadada com uma cúpula. Outro aspecto importante a destacar é o facto da torre campanária que existia do lado direito da fachada principal da igreja já não aparecer na imagem. Muito provavelmente, esta e outras partes das paredes que ficaram danificadas foram utilizadas para a 'construção' nas traseiras da igreja de um cemitério, o cemitério de S. Paulo, para uso da população católica e que só seria desactivado com a construção em 1854, fora dos limites da cidade, do Cemitério de S. Miguel.
Note-se o facto de na altura ainda não existir o templo Na Tcha, que seria construído nas traseiras da antiga igreja Mater Dei em 1888.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Tomb of Lord John Churchill at Macau": 1840

Estes desenhos aquarelados feitos a lápis e caneta com tamanho 14x19cm foram vendidos num leilão em Londres em Julho de 2026 por pouco mais de 5 mil libras. Sem indicação do autor é muito provavelmente uma obra de um autor britânico, militar integrado no contingente que na época combatia as forças chinesas em plena primeira guerra do ópio.
O lote incluía: 
- 4 folhas com esboços de figuras humanas chinesas (estudos) 
- uma ilustração da batalha a 25 de Maio de 1841 mostrando ataques ingleses a Cantão a partir das colinas que circundavam a cidade.
- ilustração panorâmica em duas folhas intitulada "Macau/Fort St Francis, June 16th 41'"
- desenho a lápis aquarelado a cores com a legenda "Lord John Churchill's Monument at the burial ground at Macau, 1840"
- desenho a duas folhas com a legenda "Tomb of Lord John Churchill at Macau"
Lord Henry John Spencer-Churchill, foi um oficial naval britânico de alta patente. Em 1839 assumiu o comando do navio de guerra HMS Druid da Royal Navy (Marinha Real Britânica) e um ano depois seguiu para a região de Macau para se juntar à frota britânica que se concentrava para a Primeira Guerra do Ópio. Acabou por contrair disenteria grave a bordo morrendo em Macau a 2 de Junho de 1840, com 42 anos de idade. Foi sepultado no cemitério protestante, um local histórico hoje classificado como Património Mundial da UNESCO. O seu túmulo ostenta o brasão de armas da família Churchill e um monumento erguido pelos seus oficiais em sinal de estima e afecto.
O cemitério remonta a 1815 quando o proprietário e comerciante português Manuel Pereira arrendou/cedeu parte da sua extensão propriedade (o actual Jardim de Camões e Casa Garden) à Companhia Inglesa das Índias Orientais, mesmo nos limites da então denominada cidade cristã. Aliás, parte dos muros que o delimitavam faziam parte da muralha que rodeava a cidade. Desses tempos ficou na toponímia local nomes como a Escada do Muro e rua do Patane. Esta última em chinês designa-se Rua do Muro de Pedra, e não é por acaso...
O desenho mostra ainda a Fortaleza do Monte com a bandeira da monarquia portuguesa e as traseiras da fachada da Igreja Mater Dei (Ruínas de S. Paulo).

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Breve análise a um esboço de Chinnery

Este esboço a lápis grafite sobre papel é uma obra de George Chinnery (1774–1852), desenhada quando viveu em Macau entre 1825 e 1852.
A composição retrata a proa e o mastro de uma embarcação tradicional da região encalhada na areia - um tancar - acompanhada por figuras locais. No canto superior direito encontram-se as anotações do artista, que combinam datas, marcas de selecção pessoal e símbolos do sistema de taquigrafia de Thomas Gurney, método fonético do século XVIII que Chinnery aprendeu com o avô.

Entre os elementos gráficos visíveis, destaca-se a indicação do ano de 1833, acompanhada pelo sinal (+), a marca com que o pintor assinalava nos seus cadernos os desenhos que estavam prontos para serem convertidos em quadros a óleo no atelier. As pequenas linhas verticais, ângulos e pontos agrupados ao lado e abaixo dos números não formam um código secreto, mas sim palavras e frases fonéticas em inglês escritas em estenografia. Estas notas serviam de guia visual rápido para o artista recordar a iluminação, os tons das sombras na madeira, as cores das roupas das figuras e as correções de proporção da composição ao trabalhar mais tarde no quadro final.
Outra das anotações que se pode visualizar é "1:1". Esta anotação gráfica no método de George Chinnery indica uma razão de proporção de 1 para 1, utilizada pelo artista para determinar que a escala da estrutura principal da embarcação deveria manter uma relação exacta de igualdade com a extensão do plano de fundo ou da linha do horizonte.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Batalha de Flôres" em 1918

A fotografia retrata uma carruagem frente ao Palácio do Governo em 1918. 
"Carro do governador da provincia de Macau, capitão tenente sr. Vieira de Matos, com sua esposa a sr. D. Raquel Swart Vieira de Matos, promotora da festa e sua filha."

A decoração exuberante da carruagem remete directamente para uma manifestação cultural muito popular na viragem do século - a chamada Belle Époque - de origem europeia. A tradição de ornamentar carruagens com arranjos florais teve origem no Carnaval de Nice, em França, espalhando-se rapidamente um pouco por todo o mundo. Nestas celebrações - muitas vezes associadas a efemérides locais/nacionais - a alta sociedade desfilava em carruagens exibindo trajes formais - como os chapéus de aba larga visíveis nas senhoras e os fatos claros dos cavaleiros - enquanto os participantes arremessavam pétalas e botões de flores entre si.
O evento foi notícia na edição nº 642 (10.6.1918) da Illustração Portugueza que dedicou duas páginas profusamente ilustradas à "Batalha de flôres em Macau"...

"Tambem os nossos compatriotas residentes em Macau quizeram testemunhar o seu acendrado patriotismo e patentear o preito que dedicam aos soldados portuguezes que, em luta com os inimigos da cívilisação, honram as gloriosas tradições herdadas.
Por iniciativa da sr.ª D. Raquel de Matos, esposa do distinto capitão tenente sr. Vieira de Matos, governador interino d'aquela florescente colonia, realisaram-se ali varias festas a favor dos nossos mobilisados e da indigencia local, entre elas uma batalha de flores, em que tomaram parte 60 carros, ornamentados com fino gosto, e a que acorreu quanto ha de mais distinto na nossa provincia ultramarina do Extremo-Oriente.
O produto d'estas festas, que, levadas a efeito com manifesto entusiasmo, decorreram com grande brilhantismo, atingiu uma soma consideravel, para o que contribuiu devéras o muito prestigio de que gosa o sr. Vieira de Matos, cujas excelentes qualidades de caracter e esclarecida inteligencia, são justamente apreciadas por todos que anceiam o desenvolvimento d'aquela nossa possessão, no que ele se acha devéras empenhado.
Sua esposa, que com grande devotamento se desobrigou da espinhosa missão, a que se propoz, de minorar a sorte dos nossos soldados e dos que o infortunio avassala, tem recebido inumeros testemunhos de homenagem e de gratidão. E, nunca foram melhor e mais justificadamente merecidos."
Algumas das legendas das fotografias:
Um aspéto da Avenida Vasco da Gama*, onde se realisou a batalha de flôres, vendo-se no primeiro plano a nau S. «Gabriel».
Na Avenida Vasco da Gama onde se realisou a festa, alguns dos carros que n'ela tomaram parte. No primeiro plano o submarino «23», de Mr. Gellion, tripulado por senhoras de sua familia, vestidas de oficiaes de marinha, vendo-se entre elas Mrs. Gellion, trajando um vestido que simbolisava a Inglaterra.
Carro do sr. dr. Americo de Sousa, juiz de direito, e sua familia.
Carro de Madame Ricou.

* inaugurada em 1898 - tendo na altura decorrido também uma "Batalha de Flores" - corresponde a parte do que é hoje a Av. Sidónio Pais.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Pavilhão de Auto-china ca. 1910 / 澳门的一个粤剧剧场,约1910年

A imagem mostra um teatro de ópera cantonense (粤剧) ca. de 1910 em Macau. A estrutura, normalmente de carácter temporário, era feita de bambú e o telhado coberto com palha ou colmo, típico de pavilhões de espetáculos tradicionais da época. 
Entre a comunidade portuguesa/macaense este tipo de espectáculos denominava-se "Auto-China".
A palavra "auto" deriva muito provavelmente do teatro clássico português (como os famosos autos de Gil Vicente). Os portugueses em Macau usavam-na porque, tal como os autos europeus, a ópera chinesa misturava numa só peça elementos dramáticos, líricos, cómicos, sagrados e profanos. Na verdade fundia literatura, artes marciais, dança, acrobacia e malabarismo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Embora já existisse desde pelo menos 1845 o cargo de Inspector das Obras Públicas (exercido por um militar), a fundação do serviço de Obras Públicas no governo de Macau remonta ao mandato do Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) que face à necessidade urgente de reformar os serviços da administração pública nomeou várias comissões para propor alterações.
Carimbo da "Direcção das Obras Públicas de Macau" no séc. 19

Assim, a 18 de Setembro de 1867, uma comissão nomeada por portaria do dia 14 desse mês - composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C. C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C. - elaborou um relatório - publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 - onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas.

domingo, 6 de setembro de 2026

Lai Kei Sorvetes (禮記雪糕): desde 1933

Fundada em 1933 por Kong Lai-king, a Lai Kei Sorvetes ainda existe tendo uma loja no nº 12 da Av. Conselheiro Ferreira de Almeida que mantém a decoração do espaço há décadas.
Os produtos caseiros - refrescos, sorvetes e doces - começaram por ser vendidos apenas nas ruas de Macau. O jovem Kong Lai-king (esquerda), fundador da Lai Kei Ice, era também o autor dos anúncios da sorveteria.

As famosas sanduíches de gelado (conhecidas pela embalagem de papel com a ilustração vintage da imagem), o gelado de coco e o gelado de feijão vermelho são alguns dos produtos imagens de marca da Lai Kei.
Transcrição e tradução (lido da dta. para a esq./de cima para baixo) da embalagem acima:
禮記 (Lai Kei) / Lai Kei (em caligrafia)
雪糕專家 (Especialistas em Gelados)
雪糕雪條 週年冇賣 (Gelados e picolés: Promoção de Aniversário)
家 (Fabricação própria)
美味可口 (Saboroso e delicioso)
熟水製造 (Feito com água fervida)

sábado, 5 de setembro de 2026

"Há para venda neste estabelecimento"

Este anúncio de 1875 do Royal Hotel foi publicado num jornal macaense. O hotel remonta à década de 1860 e estava localizado na Praia Grande, já muito perto do que é hoje o início da rua do Campo. Reflecte parte do comércio de produtos importados de Portugal no último quartel do século 19.
No mesmo espaço vendiam-se bens alimentares (chouriço de Castelo de Vide, paio de lombo, feijão de bico, vinho da Madeira, de Carcavelos...) e material para uniformes militares (botões de infantaria, galões de ouro para divisas de alferes e capitão). Recorde-se que Macau acolhia um contingente militar português.
Os preços eram praticados nas chamadas patacas de prata mexicana (embora não seja referido no anúncio) ou dólares de prata em circulação nas cidades portuárias vizinhas, nomeadamente em Hong Kong. 
As medições misturam o sistema imperial britânico e tradicional (libras para peso, jardas para tecidos/galões), reflectindo a proximidade e influência de Hong Kong e do comércio marítimo global.
O hotel enviava encomendas para Hong Kong e Cantão oferecendo um desconto de 5% para compras em quantidade, o que demonstra uma rede mercantil activa no delta do Rio das Pérolas.

ROYAL HOTEL.
HA para venda neste estabelecimento, chegado de Lisboa, o seguinte: —
Produto / Artigo PreçoChouriços de Castello de Vide, 3 libras por $1.
Aguardente d'erva doce, 12 garrafas 4.50
Paios de lombo, em latas de 18 libras 8.
Ditos, em latas de 10 libras 4.
Feijão de bico, 15 libras por 1.
Vinho fino da Ilha de Madeira, duzia 9.
Carcavellos branco, barril de 5.º 23.
Galão d'ouro para divisas de alferes, jarda 2.
Ditos para divisas de capitão, jarda 3.50
Botões grandes de metal para infanteria e marinha, duzia 1.
Ditos pequenos 0.70
Emblema para officiaes do batalhão 1.50
Chapeos de palha d'Italia 2.00

Garante-se a boa qualidade destes objectos, enviam-se para Cantão ou Hongkong, a quem os desejar, abate-se 5 por cento a quem comprar mais de uma jarda de galão, ou uma duzia de botões.

Fachada do Royal Hotel na Praia Grande

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Restaurante/Marisqueira Mou Kei 毛記海鮮飯店

Localizado no nº11 da Travessa do Mastro* (perto da Rua da Felicidade e da Avenida de Almeida Ribeiro) 澳門新馬路爐石塘巷11號地舖 o restaurante Mou Kei fechou ao fim de cerca de 60 anos de actividade. 
Imbatível na relação preço-qualidade, ali o tempo parecia ter parado. E nas fotos mais recentes concluo que pouco mudou dos tempos em que fui clientes nas décadas de 1980 e 1990. A decoração pouco se alterou talvez porque o foco deste restaurante de cariz familiar sempre foi proporcionar pratos da gastronomia cantonense com qualidade e acessíveis. Nomeadamente o peixe e o marisco frescos.
O Mou Kei com os típicos aquários na montra

Sopa de peixe com tofu Fish Soup with Tofu (鱼头豆腐汤), o peixe a vapor Yellowfin Sea Bream (黄脚立), a sopa de barbatana de tubarão, o caranguejo ou uns simples mas gostosos camarões cozidos eram alguns dos pratos mais conhecidos deste restaurante familiar. 

* A Travessa do Mastro (Lou Sék Tóng Hóng) remete para um topónimo já desaparecido, a Rua do Mastro, rebaptizada Rua de Camilo Pessanha em 1926 quando o poeta português morreu.

PS: A fotografia é do amigo Paulo Coteriano que me informou do encerramento. Entre os cartazes na porta pode ler-se: 
招財進寶: Frase tradicional de boas-vindas/prosperidade: "Que a riqueza entre"
歡迎光臨: "Bem-vindo"
今天特價: "Promoção de Hoje" / "Especial do Dia"
雲吞雞煲翅: Cartaz do prato especial: "Sopa de barbatana de tubarão com frango e wonton"

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"Material de guerra" em 1870

Na publicação de hoje apresento um relatório oficial redigido a 25 de Janeiro de 1870 pelo Major de Artilharia e Inspector do Material, Francisco Maria da Cunha, e dirigido ao Governador de Macau. Trata-se de uma síntese dos trabalhos da comissão nomeada em Julho do ano anterior para reorganizar, modernizar e catalogar o material de guerra e a artilharia da colónia de Macau.
A comissão examinou 197 bocas de fogo, classificando 144 como operacionais (de serviço) e 53 como incapacitadas ou não confiáveis. Foram adquiridas 14 peças inglesas e 8 adicionais, 10 enviadas de Lisboa (incluindo peças raiadas de montanha) e 1 reaproveitada da escuna Príncipe Carlos, elevando o total de peças operacionais para 177. As peças de campanha foram alocadas ao Batalhão Nacional (instrução), à 1.ª Companhia do Batalhão de Linha, ao Corpo de Polícia e à Fortaleza de S. Pedro, ficando algumas unidades guardadas em reserva.
O Forte de S. João foi desartilhado devido à ineficácia do seu alcance. O Forte de D. Maria manteve-se temporariamente guarnecido com caronadas. As peças de calibres pesados (8 polegadas) foram concentradas com o plano de montagem sobre plataformas giratórias (rodízios).
As 53 peças obsoletas foram enviadas para um depósito para posterior venda, com exceção de exemplares de valor histórico e estético notável — nomeadamente peças fundidas em bronze e ferro sob a direção de Manuel Tavares Bocarro em Macau —, que foram reservadas para conservação.
Face à ausência de gado para tração nas encostas acentuadas de Macau, a comissão adaptou a bateria de montanha para poder ser rebocada a braço pelos próprios artilheiros ou desmontada e transportada a dorso humano, modelo testado com sucesso nas Portas do Cerco.
Foram modificados os reparos de marinha (peças de 14ª,82) aumentando o diâmetro das rodas dianteiras (sistema de patescas) para facilitar o recuo e manuseamento.
Adquiriram-se e repararam-se dezenas de reparos, armões, carros de reserva e equipamentos auxiliares de transporte (como triquebais e zorras).
Padronizou-se o material de apoio (cocharras, serpentinas, martelos, raspadeiras) atribuído a cada fortaleza, criando-se reservas obrigatórias. Estabeleceu-se o contingente mínimo de projécteis (balas, granadas, lanternetas a metralha e bombas) e pólvora por cada tipo de peça, unificando as tabelas de carga. Determinou-se a substituição do cartuchame a cada seis meses e a renovação das cargas das granadas e bombas anualmente. Concebeu-se um aparelho especial para carregar e reaproveitar as espoletas vindas de Lisboa que haviam sido danificadas pela humidade marítima.
Foram reestruturados e armados os pontos fortificados do Bom Parto, S. Pedro, S. Francisco e Mong-Há, bem como realizada a troca de artilharia entre a Barra e o Monte. Na Fortaleza de S. Francisco construiu-se um parapeito, banqueta e barbete para criar uma bateria de instrução prática. Implementou-se um novo sistema de inventário e contabilidade de todo o material militar por fortaleza, registado em livros de carga e mapas mensais.
O relatório encerra com um louvor especial ao Capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, reconhecido pelo desenho dos carros, armões e modificações técnicas nos reparos, além da direção das obras e movimentação de artilharia

Vista panorâmica ca. 1870

Exmo. Sr. Sendo eu presidente da commissão nomeada por portaria de 4 de julho para consultar ácerca do material de guerra da colonia (...) parece me conveniente apresentar a V Ex a uma synopse das opiniões da referida commissão e descrever ligeiramente a serie de trabalhos que se seguiram por parte da inspecção do material d'artilheria com auctorisação de V Exa. (...)

Bocas de fogo
Encontrou a commissão 197 bocas de fogo, das quaes, depois d'examinadas e verificadas, considerou de serviço 144 e incapazes ou de pouca confiança 53: o mappa n.º 1 descreve aquella classificação.
Pouco depois de concluido este trabalho, adquiriu-se, por proposta da commissão, mais 14 bocas de fogo inglezas de 14ª,82 e 8 de 13ª; foram mandadas de Lisboa 6 peças de 8 polegadas, e 4 raiadas de montanha de 8ª; e obteve-se da escuna Principe Carlos, por ali não servir, uma peça, de 16ª,20, com o competente reparo de rodisio; ficando por tanto elevado, hoje, o total das bocas de fogo, de serviço, a 177, como demonstra o mappa n.º 2; e o das de pouca confiança ou incapazes a 53, como se vê do mappa n.º 3.
Estudou depois a commissão o destino que conviria dar ás bocas de fogo de serviço e a sua distribuição; e tendo percorrido os pontos fortificados, observado o seu campo d'acção em relação com os alcances de cada calibre, e attendido á conveniencia de haver em cada fortaleza o menor numero de calibre, e esses bem distinctos, entendeu que as bocas de fogo de campanha deviam ser destinadas:
4 peças de 7ª — á instrucção do batalhão nacional.
4 das. de 8ª
4 obuzes de 12ª / — á 1.ª companhia do batalhão de linha.
1 do. de 12ª — ao corpo da policia.
4 peças de 9ª — a armar a fortaleza de S. Pedro.
Ficando, por tanto, em reserva:
4 peças de 5ª,2.
3 das. de 8ª,26.
1 da. de 9ª.

Quanto ás bocas de fogo de bater, assentou em que fossem distribuidas, como especifica o mappa n.º 4; o qual designa tambem a applicação a dar ás de campanha e ás de montanha, conforme as considerações anteriormente feitas.
Julgou-se igualmente acertado que o forte de S. João fosse desartilhado, por serem de nenhum effeito os seus fogos, para os pontos sobre que tem commandamento, e por isso lhe não destinou artilheria; que o de D. Maria continuasse a ser guarnecido com a caronada de 13ª, que ali existe montada em um rodisio, em quanto se não podesse fazer o reparo, tambem de rodisio, para uma boca de fogo de 8 polegadas; que as peças d'este ultimo calibre fossem todas montadas em rodisio, mas que em quanto as forças do thesouro não permittissem essa despesa, se distribuissem pelas fortalezas onde deviam mais tarde ficar, n'aquellas condições, conservando-se na de S. Francisco as destinadas á da Guia e a de D. Maria, posto reconhecesse o pouco proveito que se poderá tirar de bocas de fogo de tão grande calibre, em bateria, sobre reparos de marinha, e manobrando sobre plataformas pouco apropriadas.
Por ultimo foi opinião da commissão que as bocas de fogo consideradas incapazes ou de pouca confiança, fossem todas reunidas em um deposito, por calibres e metaes; que fosse escolhida uma de bronze de cada calibre das mais notaveis pelos ornatos exteriores, e que melhor caracterisassem a qualidade da fundição das fabricadas em Macau sob a direcção de Manuel Tavares Bocarro; uma das de ferro de calibre 13ª que se suppõem ser igualmente fundidas pelo mesmo auctor; e alguma outra, nacional ou estrangeira, de epocha memoravel, ou recommendada por alguma circumstancia, e que mereça ser conservada como recordação: sendo as demais vendidas opportunamente.

Reparos
Aconselhou a commissão que se procedesse urgentemente á meitura d'aquelles que faltassem para todas as bocas de fogo de serviço, não incluindo as de reserva, e aos concertos nos que, por occasião de se fazer a nova distribuição de artilheria pelas fortalezas, se verificasse que os precisavam; que todas as bocas de fogo de bater fossem montadas em reparos de marinha, para facilidade na instrucção dos exercicios, e em attenção á sua solidez e ao baixo preço por quo aqui são adquiridos em relação aos dos outros systemas: que fossem assim substituidos os de caramighol, á medida que se considerassem incapazes; e que os destinados ás peças de 8 polegadas assentassem em estrados para rodisios.
Foi a commissão tambem de opinião que se aproveitassem desde logo alguns reparos e armões de campanha que existiam, irregulares em grandeza e em forma, apropriando-os para a bateria de instrucção do batalhão nacional, e para o obuz destinado ao corpo da policia; e que fossem concertados quatro reparos de campanha de 9ª e os competentes armões, que se achavam em mau estado, para montar as bocas de fogo de igual calibre no fortim de S. Pedro.
Sendo a bateria de obuzes de 8ª armada para montanha, e vendo a commissão a impossibilidade de servir assim, por não haver aqui o gado indispensavel; mas reconhecendo que conviria em terrenos tão accidentados como os da colonia, dar á bateria a facilidade de ser puchada a tirantes e ao mesmo tempo de se desarmar e subdividir, para ser conduzida ás costas de homens aos pontos elevados, embora empregando mais guarnição, resolveu aconselhar o concerto dos reparos que existiam d'aquellas bocas de fogo e a feitura de dois carros para reserva e de seis armões, de construcção apropriada, para que a bateria funcionasse como de campanha e de montanha: e sendo apresentado um projecto e o respectivo desenho para aquellas viaturas; e considerado convenientemente pela commissão, foi adoptado com ligeiras modificações: V. Ex.ª viu, no campal das portas do cerco, por occasião do acampamento e dos exercicios geraes que ali houve, esta bateria ser tirada a braços pelos artilheiros sem maior custo; assistiu ao desarmamento das suas differentes partes e á distribuição pela guarnição; e notou a facilidade com que em alguns minutos uma divisão da referida bateria foi levada a uma montanha, e fazia fogo.

Mandou V. Ex.ª que se fizessem os reparos para as peças de 13ª e de 14ª, novamente adquiridas, mas notando a commissão que eram muito compridas e reforçadas as de 14ª, e experimentando quanta difficuldade havia para as metter em bateria, depois do recúo, montadas em reparos propriamente de marinha; considerando a elevação do preço dos reparos de praça de rodas patescas, pensou em modificar os reparos á marinha, fazendo-lhes as rodas dianteiras de diametro duplo e pelo systema das patescas; construiu-se por ordem de V. Ex.ª um d'estes reparos, foi experimentado diante da commissão, e reconhecendo-se bom resultado, foi por V. Ex.ª mandado adoptar, como modêlo. Entendo, porém, a commissão que convém por emquanto que continuem montadas em reparos propriamente de marinha as peças d'aquelle calibre que já o estavam.

Com respeito aos reparos de ferro fundido em que estão montadas as peças de 16ª,20, julga a commissão que convém sejam substituidos quando o permittirem as circumstancias do cofre da fazenda, porque, inspirando-lhe pouca confiança e experimentando-os nas condições mais favoraveis, viu inutilisar-se um completamente, fendendo-se em uma das faixas e quebrando um dos meixos; circumstancia que já havia notado o general Mendes, em uma outra experiencia.
Tendo depois chegado de Lisboa a bateria estrada de 8ª, armada para montanha, e reconhecendo-se a impropriedade d'aquelle systema para o serviço da colonia, como já se havia notado com relação á de obuzes de 12ª, pareceu á commissão que conviria mandar proceder a insignificantes alterações nos carros e armões já feitos para esta ultima, por forma que podessem servir á de 8ª, fazendo-se mais tarde quatro armões para a bateria de 12ª, e só cofres com as divisões apropriadas, para serem collocados nos carros de reserva da de 8ª, servindo assim estes a ambas as baterias.

Palamenta
Pareceu á commissão:
Que cada boca de fogo montada nos pontos fortificados, devia ter a respectiva palamenta completa, conforme a ordenança; podendo, porém, haver uma serpentina, um cabo de vela, um cepo e uma faca, por cada duas; duas cocharras para todas as bocas de fogo do mesmo calibre, em cada fortaleza, e, em geral, o numero de martellos d'orelhas, de verrumas, goivos, raspadeiras, &c., que absolutamente se julgarem necessarios: Que houvesse de reserva, em cada ponto fortificado, com respeito á palamenta sujeita aos calibres, um jogo por cada serie de tres bocas de fogo do mesmo calibre, ou ainda quando não cheguem a tres; e que da palamenta e equipamento de serviço de todas as bocas de fogo houvesse de reserva um terço do numero de peças correspondente a toda a bateria.
Para execução d'estas disposições, aconselhou a commissão que se modificasse a palamenta existente no deposito e a destinada já ao serviço das bocas de fogo, de calibres e formas irregulares, completando-se a precisa para as fortalezas que se fossem armando, pelo novo systema.

Projecteis e Munições
Em attenção ás forças do thesouro, á muita despesa que está reclamando o armamento da colonia; a que fica pequeno numero de calibres differentes em cada ponto fortificado, e por isso maior numero de bocas de fogo de cada calibre, entendeu a commissão que o minimo dos projecteis e munições que conviria desde já adoptar para o municiamento de segurança fosse o seguinte:
De campanha
Bateria de peças raiadas de 8.ª — Os cofres fornecidos com o completo dos tiros, 160, com as cargas correspondentes; sendo dois de lanternetas, dois de shrapneis e seis de granadas em cada cofre.
Dita d'obuzes de 12.ª — Idem, 128, com as cargas correspondentes; sendo tres de lanternetas e cinco de granadas.
Obuz de 12ª do corpo da policia. — Idem, 18, com as cargas correspondentes; sendo 9 granadas e 9 lanternetas.
De bater
Balas. — 50 por cada boca de fogo.
Granadas para peças. — Duas carregadas e espoletadas, e tres descarregadas, por boca de fogo.
Lanterneta a metralha em geral. — Cinco tiros por boca de fogo.
Bombas. — Vinte por cada morteiro, sendo cinco carregadas.
Granadas para obuzes. — Idem.

Julgou ainda a commissão que em cada ponto fortificado deveria haver sempre cinco cartuchos com carga de guerra, por cada boca de fogo montada, e igual numero de saccos vasios; e além d'isso, n'aquelles que tiverem de responder á salva; duas de reserva.
Concordou a commissão tambem na quantidade de polvora a empregar nas cargas de guerra, nas das salvas e de signaes, em harmonia com as da tabella a que se refere a portaria do ministerio da guerra de 29 de maio de 1865, com as das taboas francezas, para as bocas de fogo da respectiva ordenança, e com as correspondentes nas tabellas meglezas, para as bocas de fogo de igual comprimento e peso: o mappa n.º 5 refere-se a este trabalho.

Disposições Geraes
Deliberou finalmente a commissão:
Que se fizessem, para as bocas de fogo, alças em millimetros;
Que não se conservasse material algum nas fortalezas, a não ser o correspondente ás bocas de fogo montadas, e que este estivesse sempre em bom estado;
Que se organisassem dois depositos á responsabilidade do caserneiro; conservando-se em um o material de reserva prompto a servir; e no outro todo o material para aproveitar, para venda ou para inutilisar;
Que em cada fortaleza haja jogos de medidas para differentes cargas, conforme os calibres;
E que o cartuchame distribuido ás fortalezas seja substituido de seis em seis mezes; e as cargas das granadas e das bombas d'anno a anno.
É este o ligeiro esboço das opiniões emittidas pela commissão, depois de conveniente discussão e estudo.
Em execução das ordens de V. Ex.ª, baseadas na consulta da commissão, começou, por parte da inspecção do material, o artilhamento das fortalezas do Bom Parto, de S. Pedro, de S. Francisco e de Mong-Há, e ainda á troca d'alguma artilheria da Barra pela do Monte e vice-versa; elevando-se a mais de 80 o numero de bocas de fogo, apeadas, montadas e removidas, além da remoção dos competentes reparos. Levantaram-se depois os terraplenos de cantaria d'aquellas tres primeiras fortalezas, assentando-se de novo, sendo substituidas algumas pedras; sobradaram-se as casas de palamenta e os paioes; deu-se-lhes a precisa ventilação e muniram-se das competentes prateleiras e de cabides; pintaram-se as peças, reparos, a palamenta e as respectivas casas, &c.
Construiu-se, com auctorisação de V. Ex.ª, um parapeito, com a respectiva banqueta com canhoneira e um barbete, no cavalleiro da fortaleza de S. Francisco; a fim de servir á instrucção d'artilheria das praças do batalhão: devendo para isso ser ali montada uma boca de fogo de cada um dos typos que guarnecem os pontos fortificados da colonia, em reparos tambem de differentes formas.
Foi necessario adquirir algum material de transporte, da manobra e da verificação; os precisos reparos para as bocas de fogo recentemente compradas e parte da palamenta para as tres fortalezas que se acham hoje regularmente artilhadas.
Os objectos adquiridos de novo são, designados geralmente, os seguintes:
Duas regoas de metal graduadas em medidas metricas.
Trinta e uma passadeiras de metal.
Um triquebal completo.
Uma zorra sem rodas.
Dormentes.
Vigotas.
Bimborras.
Rodos.
Cem espeques de manobra.
2 reparos de marinha para peças de 14ª,82.
10 ditos de igual calibre modificados.
8 de 13ª propriamente de marinha.
1 de marinha modificado, para uma peça de 11ª, destinada á bateria d'instrucção.
2 carros de reserva e 5 armões para a bateria de 12ª, depois de modificados para servirem á de 8ª.
3,000 balas de 16ª,20.

Fizeram-se além d'isso tambem de novo ou compraram-se:
Tapas.
Lemes.
Botas-fogo.
Serpentinas.
Gancho de ferro para conducção de bombas.
Facas para cortar velas.
Martellos.
Diamantes.
Cadeados para armões.
Bolsas.
Tirantes com cassonetas de pau e de ferro.
Prolongas com cadeias e ganchos.
Tacos para balas e para lanternetas.
Chapas de ferro para os fundos das mesmas.
E outras miudezas.

Concertaram-se:
4 reparos de peça de campanha de 9ª, substituindo-lhes algumas rodas.
4 ditos de obuzes de 12ª.
1 dito e o correspondente armão tambem de 12ª.
4 ditos de 7ª.
Uma zorra de rodas baixas, &c., &c.

Tendo-se encontrado, como V. Ex.ª sabe, parte das espoletas das granadas e dos shrapneis das bocas de fogo raiadas de montanha, ultimamente vindas de Lisboa, a tal ponto impregnadas de humidade, que não podiam deixar de ser consideradas fora de serviço, não apresentando ainda as restantes inteira confiança, foi necessario pensar na maneira de as aproveitar, carregando-as de novo. Foi mandado fazer um apparelho, que V. Ex.ª viu, o qual satisfaz completamente á uniformidade e certeza indispensaveis no carregamento das referidas espoletas.

Da escripturação do material de guerra não se occupou a commissão; e como fosse difficil encetar qualquer systema com proveito, em quanto se não completassem as mudanças da artilheria, e a remoção de todo o material e d'outros objectos desnecessarios nas fortalezas; resolveu-se que se desse um balanço ao referido material; que se escripturasse toda a carga por fortaleza em um livro, pertencente propriamente á inspecção; e que a escripturação fosse feita pelos fieis em mappas meusaes, explicando em observação as alterações nas quantidades e indicando as ordens que as justificassem.

Terminando, devo dizer a V. Ex.ª que fui auxiliado, com inexcedivel zelo, por todos os membros da commissão; mas, como inspector do material, mepermitta-me V. Ex.ª que especialise mais uma vez os serviços prestados pelo capitão Manuel d'Azevedo Coutinho, o qual confeccionou o projecto e os respectivos desenhos para a construcção dos carros e armões da bateria mixta de montanha e de campanha, e para as modificações nos reparos de marinha para as peças de 14ª,82; apresentou a ideia no apparelho para o carregamento das espoletas das granadas e dos shrapneis; dirigiu mequellas construcções e a do triquebal, os concertos no material, e o movimento da artilheria; e mesatisfez, em geral, com intelligencia e dedicação a tudo de quanto o encarreguei neste ramo de serviço, o qual desempenhou comulativamente com o do batalhão, sem que qualquer d'elles se ressentisse de tanta accumulação de trabalho.
Releve-me V. Ex.ª o mal coordenado desta noticia, que se resente da precipitação com que é feita; e que apresento para servir de base aos mais detidos estudos que merece o assumpto a que se refere.
Macau, 25 de janeiro de 1870.
Francisco Maria da Cunha,
Major d'artilheria, inspector.