sexta-feira, 16 de abril de 2021

"Java, Siam, Canton: Voyage Autour Du Monde": 2ª parte

Depois dos excertos em inglês no post de ontem aqui fica o essencial da descrição relativa a Macau  (Fevereiro de 1867) numa tradução livre que fiz para português. Boa leitura!
"Chegamos ao cais (de Hong Kong) para seguir para Macau a bordo do Fire-Dart, um vapor americano de dois andares em que tínhamos como companheiros de viagem seiscentos chineses com as suas mulheres, abarrotados como anchovas num pote. De forma calma fumam ópio aconchegando-se para evitarem o frio. (...)  Três navios desta empresa já caíram nas mãos dos piratas com a cumplicidade dos passageiros que prenderam o capitão e a tripulação quando não tiveram coragem para os massacrar. (...)
Após três horas e meia de viagem, dobramos o molhe da Taipa e a península de Macau aparece-nos sob os últimos raios de sol: as cores portuguesas flutuam nos fortes. (...) Imaginem sete ou oito colinas coroadas de ameias de granito vermelho; uma aglomeração de picos que chegam até aos duzentos metros acima do nível do mar,  nas encostas uma aglomeração de casas com terraços e telhados pintadas de azul, verde e vermelho; uma dúzia de campanários de catedrais, janelas protegidas por barras de ferro, ruelas pavimentadas com dois metros de largura (...) e uma enseada circular e envolvente em que se aglomeram milhares de juncos: eis Macau. (...)
O que existe aqui de mais curioso são as casas de jogo, já que Macau é o Mónaco do Celeste Império. A maior parte dos chineses ricos de Hai-Nan, Kwang-Tong e Fou-Kien são suficientemente doidos para vir aqui perder o seu dinheiro (...). Um croupier patriarca, de trança branca, uma barbicha de quatro pontas e unhas imensamente compridas, preside à banca sobre a qual se acotovelam centenas de jogadores. (...)
(...) conduzidos n parte da manhã por D. Osório, ajudante de campo do governador, e à tarde, por Sua Excelência, D. José Maria da Ponte Horta, major de artilharia, visitámos hoje toda a possessão, o que é fácil visto ter uns cinco quilómetros de comprimento e dois de largura. Esta península tem a forma exacta de uma pegada humana em que o calcanhar está virado para o mar e o polegar termina numa língua de terra que, com quatrocentos metros de largura, liga a península a Hiang-Chan. 
O calcanhar é formado por nove colinas rochosas dominadas pelas fortalezas de Bom Parto, Barra, S. João e S. Jerónimo. A grande curva interior da planta do pé está repleta de habitações sobrelotadas de chineses que são cento e vinte cinco mil, enquanto os dois mil residentes portugueses se concentram na parte oposta e exterior. 
Praia Grande (ilustração não incluída no livro)

A Praia Grande, esplanada marítima, é o passeio: mansões com grades sombrias, palácio do governador, capitania do porto, casas oficiais ou comerciais alinham-se, apresentando claramente a marca colorida, recurvada e monástica da mãe pátria. 
Imaginem agora que uma muralha (...) vai escalando pelo peito do pé e que todas as articulações dos dedos se crispam formando montanhas no cimo das quais estão os fortes de S. Francisco, da Guia, de S. Paulo do Monte, mais outros sete ou oito. Em baixo fica a planície cultivada pelos horticultores, a vila de Mong-Há e a muralha de dezasseis pés de altura que separa a colónia do território chinês.
As ruas que vamos percorrendo ao longo do nosso interessante passeio são talhadas em granito com o mais belo efeito. Uma centena de canhões de grande calibre, distribuídos pelas alturas, têm o dever de defender a península. (...)
Visitámos depois a Praça da Sé, a catedral e a velha sede do Senado onde se exibe desde 1654 a seguinte inscrição: "Cidade do Nome de Deos - Não há outra mais Leal".
Percorremos as casernas, os mosteiros, a igreja de São Paulo construída pelos jesuítas em 1594 e agora praticamente toda destruída por um incêndio, o Asilo dos Pobres, etc.; numa palavra, uma série de edifícios antigos e cristãos encimada por cruzes, ornada de santos nos seus nichos, cobertos de frescos curiosos. Acrescente-se a mantilha que esconde a cabeça das mulheres, o chapéu escuro e oblongo sobre o qual caminham os frades, a corneta branca das Irmãs de Caridade, e jurar-se-ia, asseguro, estarmos à sombra das basílicas de Lisboa ou de Génova! (...)
Depois (...) percorremos bosques (...) e chegamos à gruta de Camões! A história conta que, em 1556, o grande poeta tinha acabado de escapar a um naufrágio nestes mares pouco hospitaleiros e, tendo salvo apenas os primeiros versos de Os Lusíadas, chegou a nado à colónia que então acabara de começar. Refugiou-se nesta gruta batida pelo mar e, chorando o seu exílio, cantou as glórias da pátria. O sítio (...) isolado e selvagem (...) oferece um espaço que deve ter inspirado a sua admirável epopeia. (...)
Gruta Camões por G. Chinnery (ilustração não incluída no livro)
13 Fevereiro
Já nos vamos habituando à temperatura de Inverno e às longas caminhadas nestes lugares interessantes. (...). No alto do Monte, visitámos as ruínas de um convento de jesuítas e, depois, estudámos em detalhe a coisa mais característica de Macau: os “barracões”, entrepostos famosos da pretensa “emigração dos cules”, mais justamente conhecida por tráfico de chineses. (...)
Numa primeira impressão tudo parece magnífico. Mas (...) apercebemo-nos que, ao longo dos corredores, à direita e à esquerda, se amontoam em armazéns todos os chineses “de partida para a emigração”. Esperam a partida com os corpos de cores macilentas, vestidos de farrapos, exibindo a marca odiosa de uma miséria. (...) É totalmente deplorável esta história do tráfico de chineses. Apesar de ter surgido há apenas dezanove anos, conta já com os mais horríveis massacres, as mais infames especulações, mil vezes mais atrocidades do que as do tráfico negreiro que veio substituir. (...)
Todos os anos partem de Macau cerca de cinco mil chineses para Havana e oito mil para Callao. Certamente, se a emigração fosse dirigida por escritórios desinteressados e honestos poderia ser um imenso benefício para os países que escasseiam em víveres como para os que precisam de trabalhadores. (...)
Felicito do fundo do meu coração a colónia inglesa de Hong Kong por ter, num dos seus primeiros éditos, proibido sobre no seu solo e nas suas águas a emigração dos cules! (...)
Às seis da manhã, embarcámos no “Príncipe Carlos”, bonita canhoneira que o governador de Macau pôs ao serviço do príncipe (francês que fazia parte da comitiva) para ir a Cantão. Contornamos as partes rochosas da península e, a pouco e pouco, a Praia Grande, o forte da Guia onde foi construído o primeiro farol dos mares da China, o Monte e as colinas das fortalezas perdem-se no horizonte; dizemos adeus à colónia, o último entreposto europeu que nos foi dado ver antes de entrarmos no Celeste Império. Macau é o primeiro calcanhar que os navegadores do ocidente colocaram nos bordos da China e a sua história liga-se a todos os eventos da guerra entre a Europa e a grande potência asiática. Foi o português Perestrelo que a abordou, antes de qualquer outro, no rio de Cantão, em 1516. (...)
Mapas de uma edição a cores do livro

Macau conta cerca de 125.000 chineses e 2.000 portugueses. (...) O comércio quase se resume à importação de 7.500 caixas de ópio num valor de 16.310.000 francos e à exportação de chá no valor de 3.400.000 francos. Como podem imaginar, é sobre os chineses que habitam em Macau que caem todos os impostos e, seguindo a regra fatal dos povos asiáticos, é impondo os seus vícios que mais se ganha. Mais de 100.000 piastras (500.000 francos) provêm das casas de jogo; mais de 300.000 francos do ópio e dos barracões! E é significativo num orçamento de receitas de 1.188.000 francos apenas. Quanto às despesas, como o território é exíguo e os dispêndios modestos (18.750 francos para o governador, 11.500 francos para o juiz, 3.900 francos para o coronel, 3.000 francos para o procurador) não ultrapassam os 973.000 francos: os 215.000 francos de benefício entram nos cofres da metrópole. (...)

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