quarta-feira, 14 de abril de 2021

Comerciantes estrangeiros

Em 1685 o imperador da China Kangxi (governou entre 1662 e 1722) abriu o porto de Cantão ao comércio com os estrangeiros, uma abertura ainda assim parcial, já que ocorria apenas alguns meses por ano e o acesso só era permitido a partir de Macau.
Com esta medida os portugueses de Macau perdem o exclusivo do comércio com a China e passam a ter concorrência de outros países. Em 1688 as autoridades chinesas instalam no porto interior de Macau uma alfândega - o denominado hopu - para cobrança de direitos sobre as mercadorias. Outro hopu seria criado na Praia Grande em 1732. *
Macau entra assim no século 18 com uma frota comercial limitada a 25 embarcações e com maior fiscalização das autoridades chinesas sobre a actividade dos estrangeiros no território. Em 1736 é instituída a figura do Mandarim que a partir da Casa Branca superintende a governação de Macau, já de si dividida entre o Senado e o Governador.
É neste contexto que a vida no território vai mudar de forma substancial. A até então sociedade fechada passa a ter a presença constante de estrangeiros. Sobretudo britânicos, holandeses e norte-americanos.
A maior dessas comunidades era a da "Companhia Inglesa da Índias Orientais" / East India Company (E.I.C.), formada por comerciantes londrinos nos primeiros anos de 1600 baseada numa carta real de outorga de direitos, privilégios e obrigações.
O poderio era de tal ordem - milhares de homens e centenas de navios - que para além dos armazéns em Cantão arrendam (não podiam comprar) vários edifícios apalaçados na orla da baía da Praia Grande. Mais tarde chegou ainda a arrendar durante muitos anos o que hoje se conhece por Jardim Camões e Casa Garden.
Da Holanda chegou a "Companhia Holandesa das Índias Orientais" ou "Companhia Unida das Índias Orientais", resultado da fusão numa única entidade de várias pequenas companhias de comércio que tinham surgido nos Países Baixos. A V.O.C. (Verenigde Oost-Indische Compagnie) estava mandatada para agir em nome do estado holandês, não só para comércio como também para acções militares. Foram os homens da VOC que por diversas vezes, na primeira metade do século 17, atacaram Macau tentando tomar o território de asssalto. 
A China era o último ponto da expansão comercial, mas antes era preciso comerciar na Índia de modo a obter a prata necessária para comprar produtos na China. Chá, seda e porcelana, sobretudo. Não obstante a falta de experiência na região estas "companhias" vão agora sobretudo de forma autónoma.
Por Macau o comércio era feito por privados, mercadores ricos a quem a coroa portuguesa cobrava impostos e que também deixavam parte do lucro nos cofres macaenses.
Um dos comerciantes desses tempos era António José Gamboa. Há registo da actividade desde 1780 no ópio e algodão sendo proprietário de diversos navios. Por via do matrimónio conseguiu ligar-se às famílias de comerciantes reinóis locais, entrando assim no grupo restrito da rica elite macaense (che­ga a ser vereador do Senado várias vezes).
Outro dos homens era Manuel Homem de Carvalho. Com percurso semelhante, por via do matrimónio ficou a pertencer à família Vicente Rosa, uma das mais importantes da cidade, e foi tam­bém membro das vereações do Senado.
Esta situação de comerciantes estrangeiros estabelecidos em Macau - também houve a Companhia Francesa das Índias Orientais e a Companhia Sueca das Índias Orientais - durou sem grandes sobressaltos durante mais de um século. Até que a ganância por lucros maiores e a falta de prata na Europa levam à introdução na China do ópio por parte dos britânicos (pretendem a troca pelo chá). 
O imperador chinês acaba por expulsar os estrangeiros de Cantão que num primeiro momento se refugiam em Macau. A situação levaria à primeira guerra do ópio em 1839, entre chineses e ingleses, que acabaria com a vitória europeia em 1842 dando origem a Hong Kong. 
Entretanto, estas "companhias" extinguem-se dando lugar ao comércio de iniciativa particular.
Sugestão de leitura:
An East India Company Cemetery: Protestant Burials in Macao
Nota: as imagens que seleccionei para este post são desenhos da autoria de George Chinnery e mostam alguns dos edifícios que a Companhia Inglesa das Índias Orientais tinham arrendados na Praia Grande por volta de 1840.
Curiosidade: em 2010 foram comprados todos os direitos - incluindo do brasão de armas - da  The East India Company - e a empresa foi reactivada agora com outros fins, naturalmente.
* os hopus seriam banidos pelo Governador Ferreira do Amaral em 1847.

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