segunda-feira, 19 de abril de 2021

"A secret gateway for mainland China trips"

Deng Xiaoping chega ao poder na China em 1978 e em pouco tempo as políticas que implementa vão transformar de forma radical o país - reformas económicas -  e a sua relação com o resto do mundo - abertura como nunca antes ocorrera.
No final de 1979 - ano em que Portugal e China restabeleceram relações diplomáticas - assistiu-se a uma pequena revolução no sector do turismo para quem pretendia visitar a China.
Por regra, o país não permitia a entrada a estrangeiros embora existissem excepções, ainda assim apenas permitidas em condições muito especiais e com restrições nas deslocações no interior do país sempre acompanhas por elementos das autoridades locais. Em 1965 apenas 4 mil estrangeiros foram autorizados a visitar a China. Em 1979 foram 960 mil! 
No final da década de 1970 o turismo era o sector com maior crescimento no país. Entre 1977 e 1979 o número de turistas a entrar no país triplicou. A maioria era ainda composto por cidadãos chineses a residir no estrangeiro, mas já havia norte-americanos, ingleses, australianos, japoneses e tailandeses... 
Em 1979 nas primeiras estatísticas reveladas sobre as receitas deixadas por estes turistas indicam uma subida de 54% face ao ano anterior.
Em 1980 - ano em que o governador de Macau Melo Egídio visitou a china, a primeira visita depois do reatar das relações diplomáticas - as agências de viagens escreviam nos anúncios:
"Why not combine your trip with a two or three night holiday in exotic Macau or a visit to mainland China!"
Numa primeira fase as entradas na China só eram permitidas a partir de Macau mas depois também foram autorizadas a partir de Hong Kong. 
Os chineses de Hong Kong faziam a viagem de comboio ou autocarro. No caso de Macau, bastava fazer umas escassas dezenas de metros a pé e entrava-se na China passando literalmente por baixo do arco da Porta do Cerco (o postal ilustrado acima é dessa época). As visitas à China eram apenas permitidas por um dia - não se pernoitava - e limitadas à região de Zhuhai, que acabara de ser tornada em região económica especial. 
A novidade era enorme e representava uma diferença abissal - recorde-se que nem fotografias eram permitidas na zona da porta do Cerco.  Tudo começou a 15 de Outubro de 1979 - sem anúncio formal - com um número limite de 200 estrangeiros por dia e durante um período experimental de seis meses. As visitas eram feitas em excursões de autocarros - ficaram famosos as dezenas de Isuzu com ar condicionado que passaram a circular - sempre acompanhados de guias turísticos.
Vejamos o artigo de um jornal do Canadá, o The Montreal Gazette de ‎10 de Novembro de 1979 com o título "Macao, A secret gateway for mainland China trips" / "Macau, uma porta secreta para viagens à China continental".
"One of the best kep secrets of the enigmatic Orient is out. China is now welcoming day trippers - yes, day trippers! - with open arms. Virtually all you need to slip through the Bamboo Curtain is a valid passport, the tour fee of about Cdn$30 and your sea fare to Hong kong's neighbouring Portuguese province of Macao. (...) In fact, right until the day-tours started last month, Brian Cuthbertson. who heads the Macao Information Bureau in Hong Kong wasn't too sure what visitors were going to be offered. (...)
It's been a similar story in Macao, where visitors have been unable to photograph — let alone pass through — the massive arched border gate (Portas do Cerco) for years. With the advent of the one-day junkets, all this has changed. (...)" 
"Um dos segredos mais bem guardados  do enigmático Oriente foi descoberto. A China passou a recebendo turistas - sim, turistas! - de braços abertos. Praticamente tudo que precisa para passar a chamada Cortina de Bambu é um passaporte válido, a taxa de turismo de cerca de 30 dólares do Canadá e o bilhete da passagem por via marítima para a vizinha província portuguesa de Hong Kong, Macau. (...) Na verdade, até ao início das excursões diurnas no mês passado, Brian Cuthbertson, que dirige o Gabinete de Informação de Macau em Hong Kong, não sabia muito bem o que os visitantes iriam poder ver. (...) É uma história semelhante em Macau, onde os visitantes não conseguiam fotografar - muito menos atravessar - o enorme portão em arco da fronteira (Portas do Cerco) há anos. Com a chegada destas excursões de um dia de duração, tudo isso mudou. (...) "
Dados sobre fluxo de turistas na China de 1979 a 1989* 
Artigo de 12 de Agosto de 1979

* Em 1979 Pequim permitiu que um conjunto de 30 cidades chineses pudessem ser visitadas por turistas estrangeiros. A estadia no país não poia ultrapassar os 20 dias. Era sempre feita em regime de excursão e os visitantes acompanhados por guias turísticos chineses.

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