sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A embaixada de Macartney: 1792-1794


Em 1793, Lord Macartney (imagem ao lado) liderou uma embaixada britânica destinada a persuadir o império chinês a abrir as portas ao comércio internacional sem ter que passar pela intermediação dos portugueses em Macau ou dos mercadores chineses em Cantão.
 A China recusou a 'oferta' inglesa, "não se dignando exibir a sua majestade a esses atrevidos bárbaros que recusavam o kowtow (prostração) devida ao Senhor do Céu". Os dignitários britânicos foram então conduzidos a uma ala do palácio onde, perante um trono vazio, depositaram as ofertas com que o rei inglês pretendia demonstrar as conquistas tecnológicas da civilização europeia. Estava iminente o choque das duas civilizações. Seguir-se-ia a Guerra do Ópio e anos depois surgiria Hong Kong...

Sir George Staunton, era o secretário de Lord Macartney e registou o diário dessa missão entre 1792 e 1794. Seguem-se alguns excertos relativos à passagem da "embaixada" por Macau.
«In this small spot the Portugueze, to whom it (Macao) was granted at the period of their power and enterprize, carried on for long a considerable trade, not only with the Chinese empire, where they, almost alone of all Europeans, then resorted; but likewise with other countries in Eastern Asia ... In this traffic they soon enriched themselves, the marks of which remain in many large and costly public and private buildings in Macao, several now in a neglected state. It was so much a colony of commerce, that its government often lent money to individuals to carry it on, at a certain rate of interest, which the profits of their voyages enabled them to pay ... Events took place which deprived them of all intercourse with Japan, one great source of their advantages. Revolutions in other countries where they traded, rendered speculations there precarious, and often unfortunate to the undertakers. The settlement gradually fell from its former prosperity.
(...)
«The Portugueze settlers lend their names, for a trifling consideration, to foreigners belonging to the Canton factories, who reside part of the year at Macao. These, with more capital, credit, connections, and enterprize, are more successful; but require to be nominally associated with Portugueze, in order to be allowed to trade from the port of Macao.(...) Relations between the foreigners and the Portuguese at Macao were maintained on a very friendly footing, even though, in the sphere of commerce, the newcomers were in some cases in active competition with the Portuguese merchants themselves. The foreigners were able to avail themselves of the services of Portuguese assistants in various capacities. As interpreters and translators, clerks and copyists, many Macaenses rendered excellent service to their employers. Some of them were gifted linguists, interpreting with ease English conversation into Chinese and vice versa, or from English to Portuguese; in the tri-lingual rendering of the two European languages into Chinese, their work has been recognised as specially meritorious."
Sobre a gruta Camões
«The cave is a little below the loftiest eminence in the town, and called Camoens' Cave, from a tradition current in the Settlement, that the Portuguese poet of that name, who had certaily resided a considerable time at Macao, wrote his celebrated poem of the Lusiad in that spot. This interesting cave is now in the middle of a garden belonging to a house where the Embassador and two of his suite resided at Macao, upon an invitation from one of the gentlemen of the factory, who dwealt in it when not called upon to be at Canton. This house and garden command a very extensive prospect. In laying out the latter, none of its advantages have been neglected. It preserves every variety of surface, and contains a number of beautiful shrubs and fruit trees, growing in such apparent irregularity as to look like the spontaneous production of the place.»
Dessa passagem por Macau, única forma de aceder à China durante séculos, ficou ainda este mapa da península e planta da cidade no final do século XVIII. É apenas um entre os cerca de 80 documentos (mapas, retratos, esboços, etc...) feitos entre 1792 e 1794 por William Alexander, Sir John Barrow, Bart., Sir Henry Woodbine Parish e William Gomm. Muitos deles seriam usados para ilustrar o livro que conta a história da viagem e que foi publicado logo em 1797 não só em inglês como também em francês e italiano.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Procissão do "anno jubilar": 11 Dezembro 1904

A primeira imagem é de um postal intitulado "Carro triumphal que saiu na grande procissão do dia 11 de dezembro de 1904 - anno jubilar". O ano jubilar é o da Imaculada Conceição, santa padroeira de Macau.
Em Macau o Orfanato da Imaculada Conceição recebeu esse nome em recordação do ano Jubilar de 1904 ano em que foi planeada a sua fundação.
Numa edição de 1986 da revista Nam Van o padre Manuel Teixeira explicou assim as origens desta devoção.
"Há perto de 60 anos que andamos procurando nos arquivos e nas várias histórias de Macau a data da proclamação de N. Sra. da Conceição como Padroeiro desta cidade e nunca a encontrámos. Quer dizer que Macau não fez uma proclamação oficial própria nem uma eleição particular da Virgem Imaculada como sua Padroeira. Porquê?
Porque não era necessário. Já o Rei a tinha feito para Portugal e seus territórios ultramarinos, nos quais se incluía Macau. Sendo assim, era desnecessária uma nova proclamação quer do bispo quer do Senado desta Cidade do Nome de Deus. Eis o documento ou provisão régia de 25 de Março de 1646:
«D. João, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, etc… Faço saber aos que esta minha Provisão virem, que, sendo ora restituído, por mercê muito particular de Deus Nosso Senhor, à Coroa destes meus Reinos e Senhorios de Portugal; considerando que o Senhor Rei D. Afonso Henriques, meu Progenitor,… tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus, Nossa Senhora, e debaixo dê sua sagrada protecção e amparo lhe ofereceu todos os seus sucessores, Reinos e Vassalos… Estando (eu) ora junto em Cortes com os três Estados do Reino… Com parecer de todos, assentamos de tornar por Padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição» .
O rei fez ainda a promessa solene de defender sempre a Imaculada Conceição. Supomos que esta decisão foi comunicada a todos os territórios ultramarinos que de boa vontade aceitaram N. Sra. como sua padroeira. Esta suposição torna-se certeza ao ver o que os jesuítas fizeram em Macau, segundo refere o P. Cardim: «E pois a devoção de Sua Majestade à Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora Nossa é tão concluída não só nos reinos de Portugal e seus senhorios mas em toda a cristandade, manifesta pelo decreto que Sua Majestade fez nas cortes de 1646 de defender sempre a Imaculada Conceição, ficara o real Colégio de Macau com o título de Imaculada Conceição; e parece foi já providência divina, que no frontispício, que se fez de padroeira na fachada da igreja do mesmo Colégio, no ano de 1640, se pusesse no nicho do meio uma imagem de Senhora fundida de bronze, com o triunfo da Imaculada Conceição em rodaz aberto na pedra, obra de meio relevo, com que realça mais a majestade do frontispício, e agora o título da igreja e colégio a devoção de Sua Majestade» .
Quer dizer: Ao Colégio e à Igreja da madre de Deus, após as cortes de 1646, foi dado o título de Imaculada Conceição; já em 1640 se colocara a sua brônzea estátua na fachada com os caracteres chineses que dizem; «A Santa Mãe calca a cabeça do dragão», i. é a Imaculada esmaga a cabeça da serpente. Os anjos em volta da estátua veneram a Imaculada, celebrando o seu triunfo.
Macau, território português, recebeu jubilosamente como sua Padroeira a Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal e de seus Reinos e Senhorios. E interessante notar que desde tempos imemoriais se guardava no altar de N. Sra. da Conceição, na Sé, o bastão que os governadores recebiam na tomada de posse e depois ali depositavam.
O Leal Senado não se esqueceu dos padroeiros da Cidade. No Salão Nobre, na ala direita de quem entra, abre-se o Oratório da Imaculada Conceição, com um simples altar, onde campeia a Virgem. À direita da Virgem, ergue-se numa peanha a estátua de S. João Baptista. A estátua da Virgem foi esculpida em Manila em 1819, como se vê da carta que o procurador do Sendo, Domingos Pio Marques, escreveu a Manuel José Peintezenaver, incumbindo-o de «mandar fazer em Manila uma imagem de N. Ser. da Conceição»; deveria ser perfeitíssima, feita pelo melhor artista, «toda de boa madeira e inteiriça, e a sua altura não deverá exceder 4 palmos, incluindo a penha, que tudo deve vir já pintado e doirado no melhor primor»."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O "1,2,3" de 1966 segundo Garcia Leandro

Por esta altura, em 1966, era quase Inverno em Macau mas ao nível político e social viviam-se dias bem quentes no que ficou para a história como o motim do 1,2,3. No blogue existem dezenas de post's sobre o tema (basta consultar as etiquetas ou utilizar o campo de pesquisa), alguns com testemunhos inéditos, e hoje publico mais alguns elementos que ajudam a compreender o que de facto se passou. Desta feita escolhi uns excertos da visão dos acontecimentos por parte do general Garcia Leandro, que foi governador de Macau entre 1974 a 1979 e publicou em 2011 o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa (1974-1979)”. A imagem é do jornal Star, publicado em Hong Kong.

“As sucessivas revoluções internas que Mao foi desencadeando na China atingiram o seu zénite com a ‘Revolução Cultural’, com consequências graves e violentas em Hong Kong e Macau, em 1966 e 1967. A 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau o governador Nobre de Carvalho. Poucos dias depois, viu-se envolvido na crise do ‘1-2-3’, a mais grave que abalou Macau no século XX e que foi, sem dúvida, o maior levantamento social jamais vivido no Território. Com o apoio político da China maoísta radical, os guardas vermelhos entraram em acção, manifestando-se contra a presença portuguesa e provocando distúrbios públicos, recorrendo à violência física e tentando ocupar edifícios oficiais. Em Hong Kong aconteceu o mesmo.
O novo governador, sem qualquer responsabilidade no que se passara antes da sua chegada e no que veio a ocorrer, foi abandonado pelo Governo de Lisboa e teve de resolver sozinho a situação, tendo a Administração Portuguesa em Macau sido muito humilhada. De um modo que, hoje, é difícil de acreditar!
Em Lisboa, os jornais iam preparando a opinião pública para o pior, chegando mesmo a noticiar «graves acontecimentos»… que não tinham ocorrido. Toda esta crise está bem explicada e detalhada no livro de José Pedro Castanheira ‘Os 58 Dias Que Abalaram Macau’.
A autoridade da Administração só se começou a recompor, de forma difícil e lenta, a partir de 1970. Nobre de Carvalho, que foi ganhando a confiança da população local, teve o seu poder sempre muito condicionado pelos incidentes do ‘1-2-3’, em consequência deste imbróglio, criado pela situação política local e pelas dificuldades de gestão em Lisboa.
Nobre de Carvalho viria a ser apoiado pelos empresários locais e de Hong Kong e concentrou todas as suas capacidades na construção da primeira ponte Macau-Taipa, inaugurada em Outubro de 1974. É ainda durante a sua Administração que se concretizam dois grandes investimentos privados, com muito significado na época: o Hotel Lisboa, da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, em 1970, e o Palácio da Pelota Basca (Jai Alai), em 1974.
Quase no final do mandato de Nobre de Carvalho, no segundo semestre de 1973, viria a ocorrer o ruir brusco e descontrolado da Bolsa de Hong Kong e, em Outubro do mesmo ano, Macau e Hong Kong seriam profundamente abalados pela primeira grande crise mundial do petróleo. Em 1974, a situação agravou-se com a revolução portuguesa de 25 de Abril, que veio pôr, novamente, tudo em causa. Os responsáveis locais e a população foram apanhados de surpresa e o Governo de Macau só veio a reconhecer a nova situação política de Portugal a 29 de Abril… Acontece que o Conselho Legislativo dera, em 22 de Abril, a sua concordância ao governador para ser enviada uma mensagem de apoio e confiança ao professor Marcelo Caetano. Com os acontecimentos do dia 25, caiu-se num impasse, não sendo fácil dar apoio à nova situação que contrariava completamente a linha de orientação anterior. No entanto, no dia 29, seguiria novo telegrama de apoio à revolução, contra a opinião coerente da dra. Graciete Batalha. (Este episódio é explicado num outro capítulo do livro).
Logo nos primeiros dias, sucederam-se os escândalos, publicados diariamente na imprensa. A censura (nunca tinha existido para os jornais em língua chinesa) terminara para a comunicação social portuguesa. E levantaram-se, naturalmente, muitas dúvidas quanto ao futuro de Macau.” (...)


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rua de António Basto 巴士度街 que é "Bastos"


 Com apenas 120 metros é uma das mais pequenas ruas de Macau
Já escrevi várias vezes que a toponímia macaense é rica nos mais variados aspectos, desde  a história que encerra até aos erros e gralhas. O caso de hoje refere-se a uma gralha. A rua em questão, junto à casa-memorial Sun Iat Sen, entre a Av. Sidónio Pais e a Av. Conselheiro Ferreira de Almeida, é das mais pequenas de Macau com apenas 120 metros de extensão. Quem se pretendeu homenagear foi António Joaquim Bastos - e não Basto como aparece escrito - que nasceu e morreu em Macau (1848-1912). O seu pai tinha o mesmo nome pelo que nalguns casos o assinava como AJB Júnior. Foi advogado, vogal do Conselho do governo, agente do Ministério Público, procurador da coroa e da Fazenda, procurador dos Negócios Sínicos, secretário da Missão  Diplomática ao Japao (1882), tenente do Batalhão Nacional, agente consular de França e vice-cônsul de Inglaterra, presidente do Leal Senado, secretário da missão diplomática ao Sião em 1896(Tailândia), membro das sociedades de Geografia de Lisboa e de Londres e da the British and Foreign Association (Londres). Foi alvo das seguintes condecorações:
Legião de Honra (Libéria, Japão e Sião) e Legião de S. Silvestre;  Comendador da Ordem Militar de N.S.J. Cristo pela missão ao Japão em 1882.
Católico convicto, era discípulo dos padres jesuítas do Seminário de S. José. Teve vários filhos e até ao fim dos seus dias defendeu sempre a sua terra e as suas convicções de forma pública, nomeadamente na imprensa local não se importando de atentar contra os poderes instalados...

Foi o que aconteceu por exemplo, em Novembro de 1910, quando o comendador já contava 62 anos e tinha-se retirado da vida pública. Ele e o seu amigo Pedro Nolasco da Silva com apoio do bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro foram autores de um abaixo assinado dirigido ao Ministro da Marinha e Colónias, em favor das ordens e congregações Religiosas e sobretudo da conservação dos padres jesuítas em Macau que tinham recebido ordem de expulsão com a publicação de um decreto a 8 de Outubro de 1910, poucos dias depois da implantação da República.
No abaixo assinado publicado no jornal «Vida Nova» de 27 de Novembro de 1910 (do qual era director e editor Luís Nolasco da Silva) pode ler-se:
"Chefes famílias representando todas classes sociais de Macau pedem suspensão decreto 8 Outubro até chegada representação." (...) Ainda nessa edição é publicado um artigo apresentando os argumentos:
"Os abaixo assinados, chefes de família, representando todas as classes sociais de Macau, vêm, por este meio, solicitar de V. Ex.a suspensão do decreto de 8 de Outubro, que determinou a expulsão dos membros da Companhia de Jesus e das demais companhias, congregações, colégios, associações, missões e outras casas de religiosos pertencentes a ordens regulares, se forem estrangeiros, e que se forem portugueses, serão compelidos a viver vida secular ou, pelo menos, a não viver em comunidade religiosa.
A publicação do referido decreto no Boletim Oficial produziu profunda impressão nas habitantes desta cidade e não menos nas comunidades portuguesas e estrangeiras do Extremo Oriente, dando lugar a notáveis reparos dos quatro grandes diários que se publicam na colónia vizinha de Hongkong, os quais aproveitaram-se da ocasião para demonstrar, em estirados artigos, a nossa má administração colonial, patenteando o lamentável estado desta cidade como consequência duma política suicida, que é a vergonha, de Portugal.
O jornal semi-oficial de Peking, num artigo inspirado, acaba de cobrir-nos de opróbrio e não hesitou em dizer que Macau já não tem razão de ser como possessão portuguesa, porque não tem progredido, e diz que aos esforços da China para entrar na senda civilização, a República Portuguesa contrapõe o exemplo de transigir com os vícios de jogo, de ópio e de prostituição, sem mostras de querer combatê-los, ao mesmo tempo que expulsa os inofensivos e beneméritos religiosos, fechando o seminário, os colégios e as casas de beneficência, que são os factores do bem.
É tudo isto, Sr. Ministro, tristes verdades que, com pesar, reproduzem aqui os abaixo assinados, para mostrar a V. Exa. como o mal se vai agravando dia a dia.
Se até aqui lamentávamos o mal material hoje choramos a retirada dos Jesuítas que acabam de sair de Macau e perante a ameaça da expulsão das professoras religiosas.
E quem, tendo filhos a educar, não sentirá a perda de tão exímios professores e professoras? O Governo não previu de certo o alcance do mal, cujas consequências serão, além do nosso completo desprestígio na equação internacional destas remotas paragens, uma verdadeira desgraça para os nossos filhos e filhas pela falta de instrução, e um mau exemplo que damos à nova China, que começa a abraçar com entusiasmo o progresso e a civilização, baseados na moralidade e liberdade e no fomento da educação e ilustração do povo.
Sr. Ministro! Já está cumprido o decreto com relação aos membros da Companhia de Jesus, que abandonaram esta cidade na véspera da publicação do decreto no Boletim Oficial, deixando ermo o Seminário de S. José, onde estavam matriculados 176 alunos, sendo 82 internos e 94 externos! Terá agora o representante do poder executivo de mandar fechar o Colégio de Santa Rosa da Lima, onde se educam 120 meninas, sendo 50 internas, e 70 externas, contando-se, em o número daquelas, 20 estrangeiras, e isto pela razão de haver neste importante estabelecimento, sem igual em todo o ultramar português, um ensino bem organizado e ministrado por professoras de nacionalidades portuguesa, francesa, inglesa, alemã e brasileira, e todas de reconhecida competência.
Vai também deixar de existir o Orfanato da Imaculada Conceição, dirigido por distintos professores italianos, onde se ensinam artes e ofícios aos chineses, de onde saem primorosos trabalhos de sapateiro, alfaiate, tipógrafo e encadernador, distinguindo-se sobretudo a banda de música, composta exclusivamente de alunos chineses que têm sido até convidados por mandarins para abrilhantar as festas de caridade em Cantão e nos arredores de Macau.
Fechar-se-á, por igual a Casa de Beneficência a cargo das Religiosas Canossianas--algumas das quais foram condecoradas pelo governo--e para onde irão esses batalhões de órfãs, aleijadas, cegas, surdas e mudas, velhas, inválidas e outras criaturas desvalidas com filhos, abandonadas pelos maridos e todas sem meio de subsistência, entre portuguesas e chinesas, em número superior a 400?!
Os abaixo assinados, por brevidade, deixam de enumerar todos os benefícios que à pátria, à religião e à humanidade prestam os religiosos e as religiosas nesta cidade, sobretudo os professores jesuítas do Seminário de São José. Ali formam-se sacerdotes para os serviços da religião e para sustentação do padroado, e educam-se os filhos desta terra tanto portugueses como chineses, para ganharem honradamente os meios de subsistência. Só o professor inglês, o reverendo padre William Arkwright, habilitou centenas de rapazes que estão espalhados nos portos da China e do Japão. Por ocasião da passagem do referido professor por estes portos, fizeram-lhe seus antigos discípulos demonstrações de amizade e de reconhecimento.
Sr. Ministro! Que mal ou que crime praticaram em Macau esses religiosos para serem tão ignominiosamente escorraçados por um decreto, como se fossem malfeitores e sem terem sido prèviamente ouvidos? Condenados sem defesa, em paga de revelantes serviços!
É duro, duríssimo! É bom que se diga, de passagem, que em Macau os jesuítas nunca intervieram nos negócios da administração local, tendo-se dedicado ùnicamente ao magistério e à administração de sacramentos. A retirada deles não os prejudica, porque vão aplicar a sua actividade em outros, países, mas prejudica imensamente a instrução pública local. Já foram eles convidados para residir em Manila e em Xangai, onde se não teme o hábito religioso e se sabe apreciar-lhes as virtudes e o mérito.
Sr. Ministro! O que lucra o governo em atacar assim a liberdade de associação, e em condenar os filhos dos abaixo assinados a ficarem privados de instrução, privando-os de tão excelentes professores, obrigando-os a viverem nas trevas da ignorância e negando-lhes os meios de se instruirem para grangear a sua vida pelo trabalho honesto e inteligente fora da sua pátria, onde a luta pela existência se torna cada vez mais renhida?
De que há de viver o macaense sem colocação na sua terra --porque o governo só emprega europeus--e sem instrução para a luta pela existência no estrangeiro, onde já os chineses e japoneses rivalizam com os europeus e americanos?
Sr. Ministro! Abençoado será o novo regimen implantado pela República, se ela puder fazer prosperar esta colónia digna de melhor sorte, garantindo o bem-estar dos seus filhos embora longe da pátria, por meio duma adequada instrução, que infelizmente o Estado não
lhes pode dar senão a troco de grandes sacrifícios, que muito bem se poderiam evitar pela conservação dos religiosos.
As condições desta colónia são diferentes das do reino, e por isso, pedem os abaixo assinados a V. Exa., que não desconhece este meio, se digne providenciar para que fique suspensa a execução do referido decreto de 8 de Outubro nesta colónia, atendendo especialmente a que tanto as religiosas canossianas que têm a seu cargo a Casa de Beneficência em Santo António, como as religiosas franciscanas que têm a direcção do Colégio de St.ª Rosa de Lima, estabelecido no antigo mosteiro de Santa Clara, são umas e outras insubstituíveis por mestras seculares nestas paragens. Além do que, são elas inofensivas, nunca deram razão de queixa ao governo local, e têm prestado ao público português e chinês revelantes serviços, e não menos ao governo, servindo de utilíssimas cooperadoras, nas ocasiões de epidemias, para combater a peste bubónica, a cólera, e bèribéri.
Por todas estas razões e porque é certo que a expulsão dos religiosos e das religiosas concorrerá para desnacionlizar a população de Macau, visto como a juventude macaense terá de ir, por necessidade, a Hongkong receber uma educação inglesa, deixando de cultivar a língua materna, por isso, esperam os abaixo assinados que o seu pedido será deferido." 
Apesar dos protestos dos "chefes de família de Macau" o governo de Lisboa não atendeu o pedido e o decreto, que só foi publicado em Macau no Boletim Oficial de 19 de Novembro (sábado), acabou por ter efeitos nesse mesmo dia. Nesse sábado saíram para Hong Kong e para Cantão os jesuítas que dirigiam o Seminário de São José desde 1890; as Franciscanas Missionárias de Maria, que dirigiam o Colégio de S.ta Rosa desde 1905; as Canossianas que dirigiam vários estabelecimentos de caridade desde 1874, e os Salesianos que dirigiam o Orfanato da Imaculada Conceição, desde 1906.
Curiosamente, nesse mesmo dia chegou a Macau um telegrama do Governo da Metrópole (Lisboa) autorizando os religiosos a ficar, à excepção dos jesuítas.
Segundo Monsenhor Manuel Teixeira, "o comendador Basto foi durante muitos anos director do Apostolado da Oração em Macau, não se envergonhando nunca de usar a sua fita, de vestir uma opa ou de se abeirar da Mesa Eucarística por ocasião de qualquer festividade religiosa, ou de assistir aos exercícios espirituais, que se faziam, anualmente, no Seminário de São José. O governador Eduardo Marques, católico e monárquico, sofreu vexames por causa desse decreto, cuja publicação ele retardou, quanto pôde, e depois dimitiu-se." Ainda no livro Galeria dos Macaense Ilustres, Manuel Teixeira explica que "a atitude desassombrada do comendador António Joaquim Basto, pedindo a suspensão do decreto de 8 de Outubro (...) a bem da instrução e educação dos filhos desta terra, por pouco não lhe custou a vida. Com efeito, esteve quase a ser vítima duma sublevação militar em 29 de Novembro de 1910, a ponto de ter de fugir, nessa mesma noite, para Cantão, juntamente com o Sr. Pedro Nolasco e o bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro. (...) Passados alguns dias, o comendador Basto pôde regressar a Macau, mas desde então, devido ao sobressalto que tivera, nunca mais gozou de boa saúde, devido a uma lesão cardíaca."
António Bastos deixou escritas três pequenas obras (não mais de 60 páginas cada uma):
- O futuro de Macau ou as vantagens que hão de resultar da admissão d'uma delegação da Alfandega Chineza em Macau. Typographia Mercantil, 1873 (Na Holanda um antiquário tem um exemplar à venda por 3500 doláres dos EUA. 
- A justificacao d'uma desobediencia ou a causa d'uma demissao immerecida, 1881
- Impressoes d'uma viagem de Macau a Bangkok. Typographia do Echo Macaense, 1896
PS:  Existe uma planta de Macau datada de 1905 que foi feita por deliberação do Leal Senado sob presidência do commendador António Joaquim Basto. Era governador Martinho Pinto de Montenegro. O mapa/planta esteve a cargo do Barão de Cadoro Carlos, tenente de Cavalaria; e Mário Augusto de Souza Dias, tenente de Infantaria.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

N. Sra. da Conceição: padroeira de Portugal e de Macau

A festa da Imaculada Conceição, comemorada em 8 de Dezembro, foi definida como uma festa universal em 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV. 
Em 25 de Março de 1646 o rei D. João IV proclamou, em Vila Viçosa, Nossa Senhora da Conceição, como padroeira e rainha de Portugal, em agradecimento da restauração da independência de Portugal em relação a Espanha.
"D. João, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, etc… Faço saber aos que esta minha Provisão virem, que, sendo ora restituído, por mercê muito particular de Deus Nosso Senhor, à Coroa destes meus Reinos e Senhorios de Portugal; considerando que o Senhor Rei D. Afonso Henriques, meu Progenitor,… tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus, Nossa Senhora, e debaixo dê sua sagrada protecção e amparo lhe ofereceu todos os seus sucessores, Reinos e Vassalos…Estando (eu) ora junto em Cortes com os três Estados do Reino… Com parecer de todos, assentamos de tornar por Padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição".
N. Sra da Conceição é um dos quatro padroeiros de Macau, onde a data foi celebrada durante muitos anos com missa pontifical realizada na Sé a que se seguia uma procissão "com a veneranda imagem de Nossa Senhora da Conceição acompanhada de cânticos entoados à Virgem pelas congregações, escolas e colégios que se incorporaram nessa romagem de fé", de acordo com uma notícia de 1953.
Para além de um estátua junto à igreja da Penha virada em direcção ao centro da cidade (na imagem um postal da década 1950), existe uma estátua na Igreja de S. José e na frontaria da igreja Mater Dei, vulgo ruínas de S. Paulo.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Resultados do passatempo "6º Aniversário"

Já estão encontrados os vencedores do passatempo do 6º aniversário do blogue. De um total de 118 concorrentes - a quem agradeço a participação - foram estes os contemplados com livros sobre a história de Macau.
1º prémio (oferta de 10 livros) - Maria Monteiro (Porto)
"Macau Antigo é o mosteiro da era digital, guardião do saber de uma época única; o 'desfolhar da sua história' traz-me a saudade de uma terra que não conheço"
2º prémio (oferta de 5 livros) - Cristina Morais (Figueira da Foz)
"Macau Antigo é o melhor repositório de informação que conheço sobre Macau e é a ele que recorro para aprende mais sobre essa tão maravilhosa cidade que um dia espero conhecer"
3º prémio (oferta de 3 livros) - Luís Silva (Porto)
"Macau Antigo é a minha enciclopédia virtual sobre Macau"
Sorteio assinatura anual da Revista Macau - Dave Smith (EUA)
"Ao longo dos últimos dois anos comecei estudar a história de Macau e do império português na Ásia. Rapidamente percebi que sem conhecimento da língua portuguesa não poderia entender a maioria das obras escritas; portanto decidi aprender português. Tomei essa decisão não só porque não há muitas fontes em inglês sobre a história de Macau, mas também porque queria ler o blogue "Macau Antigo", que me apresentou a pessoas como Padre Manuel Teixeira, Camilo Pessanha, e outras que me inspiraram a aprender mais sobre esta pequena encruzilhada entre oriente e ocidente. O autor do blogue, João Botas, reflecte o lema de Macau quando era a cidade de nome de Deus de Macau: em termos da preservação da memória histórica, "não há outra mais leal".
Apoio: Fundação Oriente, Instituto Internacional de Macau, Casa de Macau (Portugal) e Revista Macau. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

"Macau e os seus habitantes": final do século XIX (3ª parte)

População
O ultimo recenseamento official de que temos conhecimento é datado de 1878 e foi publi- cado no Boletim da provinda de Macau e Timor de 31 de dezembro de 1880. Os números ali accusados são os seguintes: habitantes europeus, chinas, macaistas e de outras procedências, na sua totalidade, 68:086. Ao concelho ou cidade de Macau cabiam 59:959 habitantes terrestres e marítimos; ao concelho da Taipa e Coloane pertenciam 8:127 habitantes de terra e respectivos portos. Destrincemos agora por classes e teremos : Portuguezes, na cidade de Macau 4:431 Chins, idem 55:450 Estrangeiros, idem 78 Portuguezes, na Taipa e Coloane 45 Chins, idem 8:082 Total 68:086 N'estes algarismos acham-se comprehendidos os habitantes maritimos, que em 1878 eram 8:935. (...)
Clima
Macau é certamente uma das possessões portuguezas mais salubres. Notam-se ali as quatro estações, cuja duração é a seguinte: o inverno compôe-se de dezembro, janeiro, fevereiro e março; a primavera, de abril e maio; o verão tem junho, julho, agosto e setembro; o outomno abrange outubro e novembro. Os maiores males, que ha a notar no estado atmospherico podem provir ou da muita humidade ou de bruscas passagens de calor para frio. Os mezes mais húmidos são abril e maio, epocha em que o tempo se conserva quasi sempre encoberto; os menos húmidos são outubro e novembro, em que a atmosphera está clara e a temperatura é moderada, posto que haja de quando em quando rápidas descidas thermometricas. A epocha das maiores chuvas vae de maio a agosto; e é de junho a outubro que se desencadeiam também os temíveis cyclones, chamados tufões. O mez de setembro e os princípios de outubro appare cem muitas vezes chuvosos, e ha exemplos de ter havido tufões no começo d'este ultimo. (...) No verão o thermometro chega a marcar 40° centígrados, e então o calor é suffocante; porém a temperatura media n'esta quadra é de 28° a 29° centígrados. No inverno a temperatura geral orça por 14° a 16° centígrados; todavia ha dias em que desce a 5 e 4. (...) Os ventos predominantes são vários nas duas monções, chamadas de NE. e SO.; (...) O estado do céu, a não ser nos dois mezes de outubro e novembro, quasi nunca é completamente limpo, por isso  que a humidade é excessiva, chegando ás vezes a achar-se a atmosphera saturada de vapor de agua. 
Productos nativos 
O limitado território da península produz apenas hortaliças, fructas e pequeno numero de animaes domésticos dos que servem de alimentação ao homem ; as vitualhas que apparecem no bazar ou mercado, vêem das ilhas próximas. A classe pobre alimenta-se, as mais das vezes, de arroz, carne de porco, peixe salgado e hortaliças. 
Arborisação de Macau. É pobre, mesmo muito pobre de arvores, a cidade do Santo Nome de Deus; exceptuando a formosa e fértil Gruta de Camões, o Jardim de S. Francisco, as proximidades de Monghá, o Pagode da Barra e alguns quintaes particulares, vè-se toda a península despida de arvoredo, o que é muito para lastimar. Devemos, porém, aqui consignar que o governador Thomás Rosa envidou todos os seus esforços para arborisar aquellas encostas, montes e estradas; se os seus successores lhe seguirem as pisadas, alimentando os viveiros e proseguindo nas plantações, Macau em breves annos apresentará um aspecto bem mais sorridente. 
O porto
Notam-se três ancoradouros para as embarcações que demandam Macau: o do porto ex- terior (vulgarmente conhecido pela denominação de Rada de Macau, e desabrigado dos ventos de N. e ESE.) o da ilha da Taipa, e o do porto interior. Vejamos o que diz a este respeito o sr. Adolpho Loureiro : «As circumstancias do porto de Macau são deploráveis. «Abandonadas as cousas a si mesmas sem que sejam contrariadas por obras adequadas aos seus naturaes effei- tos, a perda total do porto é não só fatal, mas deve ser próxima. Hoje o porto commercial de Macau só tem accesso para os chamados navios de alto bordo, pela rada exterior. As lorchas e juncos chinezes podem entrar em Macau pelo canal de Malo-chau e da Taipa; mas os navios de maior caladura só podem vir do mar de Cantão atravessando a rada exterior, etc (...)
Largo do Pagode do Bazar

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"Macau e os seus habitantes": final do século XIX (2ª parte)

Excerto de "Macau e os seus habitantes", Bento da França, 1897
Noções geographicas 
Demorando quasi no extremo SE. do vasto império chinez a 22° 12' 44" lat. N. e 122° 43' 45" long. L. (pelo meridiano de Lisboa), acha-se a península de Macau unida á grande ilha Hian-chan («Montes odoríferos») por uma pequena lingua de terra. Hian-chan pertence à província de Cantão. A península de Macau segue primeiro a direcção N.-S., isto no percurso de 720 metros, tendo de largura uns 200 metros. Depois alarga-se bruscamente para E., inclinando- se a sua direcção geral para O., e prolongando-se na extensão de 3:650 metros. (...) A península mede na sua maior extensão 4:400 metros approximadamente, e na máxima largura 1:680 metros, podendo calcular-se-lhe a área em 330 hectares. (...) Quasi todas aquellas collinas estão coroadas por fortalezas, e podem contar-se em numero de oito (...)
Constituição geológica
A formação d'esta península é granítica. Aqui e ali deparam-se-nos grandes rochas d'esta natureza, entremeiadas por delgadas camadas de espatho e quartzo. Do lado do mar, em que são batidas pelas aguas, apre- sentam-se nuas estas fragas, e diversos blocos soltos se sobrepõem irregularmente e em equilíbrio, na apparencia pouco estável. (...)
Depois que deixaram de existir as antigas barreiras da cidade, tem-se esta estendido um pouco mais, comquanto ainda possamos dizer que se circumscreve quasi exclusivamente na área d'antes occupada, dividindo-se em cidade christã e basar (a parte chineza). Em consequência, porém, da área dentro das antigas barreiras não ser suficiente para a excessiva população chineza, começaram os chins por estabelecer cinco povoações ruraes. (...)
Estas ruas e casas, comquanto conservem os característicos chinas, têem modernamente melhorado muito, com proveito da salubridade publica e da esthetica. As enormes lageas primitivas tèem sido substituídas por macadam ou calçada á portugueza; desappareceram por- tanto as fendas no lagedo que punham a descoberto os canos de esgoto. As casas modernas já têem mais ventilação e luz; a agglomeração da gente é menor, posto que ainda se nos offereça o soez espectáculo da vida em commum com animaes domésticos de varias espécies. Os mercados de peixe e de carne também saíram dos sitios apertados e faltos de ar em que se achavam. Emflm, desde que o benemérito governador Ferreira do Amaral tomou a peito tornar effectiva a nossa soberania em Macau, tem-se trabalhado incessantemente no saneamento e aformoseamento da cidade; e, se mais se não tem logrado fazer, a culpa cabe ao governo da metrópole, que lhe está sempre a absorver os rendimentos. (...)
As tres restantes povoações são a do Patane, a de Mong- há, e a de S. Lazaro. A do Patane é de todas cinco a mais importante, já pela industria fabril, já pelo seu commercio, principalmente em madeiras de construcção. Fica no littoral do porto interior, na espécie de cotovello, que a península faz ao formar a enseada da ilha Verde, terminando onde começa a Mong-há.(...)
Existem ali numerosas famílias, que habitam em embarcações de maior ou menor lote. São vários os seus misteres, taes como o de práticos da costa, o de pescadores, etc. ; n'este numero incluem-se muitas mulheres (lançareiras), que se occupam em conduzir passageiros e mercadorias para bordo dos navios fundeados e para as ilhas círcumvizinhas, bem como d'estas e de bordo dos navios para Macau. A cidade christa propriamente dita abrange a parte mais pittoresca de Macau. (...)  A cidade christa tem sido invadida por habitantes chinezes; nos bairros chins é que raro moram christãos. Alem d'isto, na maior parte das casas de moradores portuguezes, ou estrangeiros, ha creados chinezes.(...)

O panorama que se disfructa de algumas elevações é arrebatador e surprehendente (por exemplo, do pharol da Guia, da Gruta de Camões, ou ainda melhor da Penha). As habitações dos europeus sao de aspecto agradável, ha algumas mesmo notáveis pelo tamanho e bom gosto; quasi todas as da Praia Grande têem os seus jardins e ostentam na fachada da frente grandes varandas ou galerias.(...)
Na parte da cidade occupada pelos europeus (nacionaes e estrangeiros) e pelos macaístas, contam-se algumas ruas espaçosas e elegantes, prédios importantes e de boa appa- rencia, possuindo bastantes d'elles aprazíveis jardins e quintaes. Nos arrabaldes da cidade encontram-se algumas quintas bem cuidadas (...). Occupemo-nos agora dos templos. Ha em Macau varias igrejas (todas ellas,  senão sumptuosas, pelo menos bellas e muito cuidadas). Antes porém, de tudo mais, falemos da frontraria de S. Paulo. 
Esta magestosa peça architectonica foi o que se poude salvar do incêndio de 1835, que devastou o sumptuoso templo dos jesuitas. É toda de granito e de graciosa architectura grega, e está por tal sorte disposta que se vê de quasi todos os pontos da cidade. Vem aqui de molde falar da Sé, que é uma das freguezias, citar S. Lourenço, S. Lazaro e Santo António, mencionar o vasto seminário de S. José, a igreja de Santo Agostinho, a de S. Domingos e Santa Clara, não convindo deixar no olvido as ermidas de Nossa Senhora da Guia e da Penha de França. 
(...)  D'entre as construcções chinezas ha a notar os quatro principaes pagodes, suas pittorescas cercas e mais accessorios, sempre collocados entre penedos e copadas arvores.
Dos principaes pagodes, a que nos vimos referindo, acham-se situados, um no Patane, outro em Mong-há, o terceiro próximo das Portas do Cerco, e o ultimo, que é o mais formoso, nas immediaçôes da fortaleza da Barra. (...)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

"Macau e os seus habitantes": final do século XIX (1ª parte)

"Macau e os seus habitantes" da autoria de  Bento da França foi editado em Lisboa em 1897. Nas primeiras páginas o autor explica a razão de ser da obra.
"A obra que apresento a publico é filha das observações feitas e apontamentos tirados durante cerca de quatro anos de permanência nas nossas possessões junto da China e da Oceania. Não tem grandes pretensões o trabalho, mas afianço que foi elaborado com amor e consciência, e creio achar-se aqui compendiado tudo de mais interessante e útil que possa importar aos que tenham interesse, ou tão somente curiosidade, em conhecer os nossos recursos e vida na antiga Cathay, ao que acresce fornecer bastas noticias sobre Timor, districto que, com o de Macau, constitue a nossa provincia ultramarina mais oriental.
Estive em terras portuguezas de alem mar, dou conta do que vi e das sensações experimentadas; d'est' arte julgo concorrer para que nos vamos todos familiarisando com os dominios coloniaes. Se vi mal e falseei as conclusões, talvez que os bons desejos de elucidar o publico dêem azo a que penna mais auctorisada me corrija os erros, estabelecendo a verdade. É sempre de vantagem ventilar estes assumptos. 
O plano do livro é este: Resumo da historia de Macau. Noticia geographica administrativa e política. Raças usos e costumes dos habitantes de Macau. Relações com Timor, dados sobre a ultima colónia. A primeira parte é extrahida de outra obra do audor, Subsídios para a historia de Macau, mandada publicar a expensas do ministério da marinha e ultramar em 1888. A segunda foi compilada de informações officiaes e varias rebuscas ; contém um documento curioso para os camoneanos. A terceira nasceu, principalmente, de observações (...) A quarta consta da matéria contida n'um folheto escripto por mim para a Bibliotheca do povo e das escolas, acrescentada com vários artigos que publiquei em differentes jornaes. Devo também prevenir os leitores de que, na terceira parte não tenho em vista descrever os costumes chinezes cm toda a sua interessante e complicada contextura, apresento apenas um pallido escorço do viver dos que habitam Macau. Como, todavia, a curiosidade de alguns se pode aguçar, permittam-me que lhes indique onde a poderão satisfazer. 
Afora outras de menor vulto, recommendâmos-lhes as seguintes publicações: 
Apontamentos de uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa - Carlos José Caldeira.
Cartas da índia e da China - José Ignacio do Andrade.
Os chins de Macau - Manuel de Castro Sampaio, Hong-Kong, 1867.
La vida en el Celeste Império - Edoardo Toda, Madrid, 1887.
A China e chins - Henrique G. R., Lisboa, Montevideu, 1888.
A traveis la Chine - por Rousset.
Ten years in China - J. Thompson.

 


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Manuel Cardoso: paixão pela fotografia

Filho de pai português e mãe chinesa, o macaense Manuel Alexandre Cardoso distinguiu-se na fotografia, actividade a que se dedicou desde 1964. Morreu esta semana ao fim de meio século a fotografar Macau.
Entrou para a função pública durante o governo do General Nobre de Carvalho, tendo trabalhado no Centro de Informação e Turismo de Macau, mudando depois para o Gabinete de Comunicação Social. Foi o fotógrafo oficial de vários governadores, colaborando também com diversos jornais locais ao longo de meio século. Em 1985, Manuel Cardoso foi agraciado com a Medalha de Mérito Profissional pelo governador Almeida e Costa. Fotografou até ao fim dos seus dias e ainda na Primavera deste ano estava patente em Portugal uma exposição com fotografias da sua autoria.
Dragão com 238 metros no Ano Novo Lunar (2014) no Largo do Senado. Foto de MC

Excertos de uma entrevista de MC a António Falcão no jornal Macau Hoje de 1.2.2011
A sua história como fotógrafo já é bastante longa. Como tudo começou?
Foi em 1964 que comecei a aprender a fotografia. Na altura não havia livros ou se havia, havia poucos e praticava muito. Fui aprender a fotografia na Foto Maxim’s, na Rua do Campo. Achei aquilo interessante. Depois comecei a aprender a misturar os líquidos ao peso. Tanto de hidroquinona [que hoje em dia se usa para tirar manchas da pele], tanto de metol, tanto de sulfito de soda.
Já ninguém sabe o que é isso...
(Risos) Já ninguém sabe, já passou à história. Mas fui aprendendo e aprendendo e mais de dez anos depois concorri ao Centro de Informação e Turismo, que mais tarde se tornou no Gabinete de Comunicação Social, onde continuei. A partir daí comecei a trabalhar para o Governo e a acompanhar os vários governadores. Em 1985, tive a medalha de mérito profissional. Na altura tinha o quê? Alguns 30 anos de idade, no máximo, quando fui condecorado.
Que momentos mais o marcaram nesse seu percurso pela história de Macau?
Foi nas conversações da entrega de Macau, da visita de Mário Soares e da assinatura de Cavaco Silva em Pequim. Aquelas fotografias que aparecem nos jornais desse momento são minhas. E há também outra fotografia, muito conhecida na altura, de um adivinho a puxar as bochechas de Mário Soares que também é minha (risos).
Com tantos governantes que passaram pelas suas lentes, como foi a sua relação com essas pessoas com quem trabalhou? Para bem e para o mal.
Para o mal não vejo nenhum. Agora para o bem... Digam o que quiserem dizer mas para mim o Almeida e Costa era um bom homem. É como tudo: há quem goste e quem não goste. Eu gosto. Ele tratou-me bem. Trabalhei com os outros governadores todos. Ainda hoje quando vejo o Melo Egídio ele cumprimenta-me. O Garcia Leandro... eu, quando o vejo, ele aproxima-se de mim. Todos os governadores com quem trabalhei são todos boas pessoas. Eu nunca os tratei mal nem eles me trataram a mim. Mesmo aquele que era professor. Como é que ele se chama? O médico... Como é que se chama o médico?
Stanley Ho por MC na década de 1980.
"É um dos melhores retratos que fiz."
Pinto Machado...
Sim, esse. Esteve cá pouco tempo. Esteve cá meses. Não se deu bem com o Mário Soares, pediu demissão do cargo e foi-se embora. Mas também me dei bem com ele.
Integrou-se bem nos acontecimentos da cidade captando toda essa mistura de culturas. Existiam muitos fotógrafos na altura?
Chineses havia muitos, portugueses quase nenhum. Se formos a olhar para o meu trabalho agora, é como se fizesse parte da lusofonia. É como uma herança para o mundo lusófono. Não fui um pioneiro, mas fui um dos que levei a fotografia a sério. Fui fazendo fotografias atrás de fotografias, mesmo após ser condecorado. Mas aquilo não dava dinheiro nenhum e perguntaram-me o que é que eu queria. Eu respondi: “Quero estudar!” Então fui para Portugal tirar um curso de realizador de televisão. Na altura ainda não havia curso de Comunicação Social, o curso de realizador era feito na RTP, no centro de formação.
Nunca chegou a exercer essa profissão?
Nunca. Porque a mim não me quiseram pagar e eu não aceitei estar debaixo dos outros. Disse sempre: “O enfermeiro é enfermeiro, o médico é médico. Cada macaco no seu galho.” Nunca aceitei ficar subjugado por outros sem curso. Por isso continuei na fotografia.
Tendo acompanhado as duas épocas de Macau com um olhar atento, que diferenças consegue observar que sejam mais evidentes?
Agora há mais eventos, há mais fotografias. Antigamente não havia tantas. “Dar a César aquilo que é de César”: hoje há mais oportunidades para a fotografia. Claro que já não há aquela cidade de Macau de outrora. Se quiser fotografar aquelas casinhas antigas, aqueles bairros todos, certas profissões que existiam, já não é possível porque desapareceu tudo. É verdade, isso é o preço do desenvolvimento e como tal é mesmo assim, não há umas coisas mas há outras.
Carlos d'Assumpção, Manuel Cardoso e o gov. Nobre de Carvalho
Como vê a evolução da sua cidade?
Hoje é mais próspera. Macau é um território mais rico. Mas para mim é a mesma coisa, continua a ser a minha terra. A mim não me afecta, sou um funcionário aposentado e não sinto a diferença.
Conseguiu captar os momentos com muita naturalidade.
É assim. Normalmente não falo com as pessoas que fotografo. Não dialogo, não digo nada, fico por aí, não peço autorização, nem nada. Subo, entro, finjo como se nada acontecesse, como se fosse o homem invisível, e vou fotografando, enquanto não me mandarem embora fico por lá. É preciso ter uma certa lata, claro. (...)
Que conselhos dá a quem queira abraçar esta profissão?
Digo já: é uma profissão muito cansativa. Ser fotógrafo é uma vida muito árdua. Eu não aconselho muita gente a entrar para a profissão. Só é fotógrafo quem tem paixão pela fotografia. É quase como ser padre.
Porque diz isso?
É preciso ter vocação, quem não tem vocação não consegue lá chegar.
Manuel Cardoso com os pais
Continua a fotografar?
Todos os dias. Vou para o jardim, vou para o mercado. Para a Taipa, para Coloane. Vou para todo o lado. Mas só faço fotografias de Macau.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Morreu o fotógrafo Manuel Cardoso

Manuel Cardoso, um dos fotógrafos que melhor registou os últimos 50 anos em Macau, morreu. Ainda há dias ele recordava os primeiros tempos da sua paixão pela fotografia (começou em 1964) a propósito de uma imagem do istmo Taipa-Coloane que dizia ter-lhe valido 100 patacas na década de 1960. Conheci-o em Macau e de vez em quando falávamos. Sempre admirei as suas fotografias e ele gostava muito deste projecto. Quando precisava de alguma imagem para ilustrar um texto Manuel Cardoso esteve sempre disponível. Agradeci-lhe sempre que isso acontecia e volto a fazê-lo agora de forma pública. Obrigado! Obrigado pelas fotos de paisagens, das cenas de rua, das flores de lótus... mas sobretudo pela essência humana que captou em muitos dos seus registos.
"Macau - a ponte da China para a Lusofonia Global", foi uma das suas últimas exposições. Amanhã recordarei mais detalhes sobre a sua vida e obra. A seguir recordo uma entrevista dada ao JTM em 2011 e intitulada "O preservador de memórias em papel fotográfico"
Fotografa no mínimo entre três a cinco horas por dia. Solitário. A máquina faz parte do seu quotidiano há décadas. Já na altura em que o Governador Nobre de Carvalho tomou posse registava, no Palácio, os momentos da História. Na lente de Manuel Cardoso tudo cabe, desde que misture arte e técnica. Depois de em Janeiro ter inaugurado uma exposição que findou no mês seguinte, partilha ao JTM algumas das imagens que enquadram uma vida ligada às lides da fotografia. Um paixão que chegou aos tempos modernos.
Anda sozinho com toda a calma. Vai para o terreno tirar fotografias, volta a casa vê o resultado, se não gostou, por causa do ângulo, da exposição ou da luz, regressa para fazer a mesma coisa – duas, três, quatro, cinco ou dez vezes, se for necessário. Como uma paixão que não cessa. Um dia, Manuel Cardoso, estava no jardim do Mirabelle, em Salzburgo, com uma “paisagem muito bonita”, mas “infelizmente a hora certa já tinha passado”. O sol tinha espalhado muitos raios. “E agora?”, pensou. Não havia nada a fazer se não arranjar outro espaço de tempo perfeito para fotografar. “No ano seguinte, na mesma data, [mas] duas horas antes estava lá. No mesmo dia duas horas antes, porque sabia que na altura do nascer do sol é que era o momento mais bonito”.
Ao mesmo tempo que recorda aquele episódio, levanta-se e encaminha-nos. “É que às vezes o contra-luz dá coisas lindíssimas. Vai verificar como o contra-luz é bonito”, diz e observa no Jardim de Lou Lim Ioc os pelinhos do pé da folha que nem sempre são visíveis a quem vagueia. É disto que também vive, de um olhar que não pára quieto, que repara, absorve a realidade para uma imagem, em qualquer latitude. Manuel Cardoso é assim quase puramente fotografia. E não é de agora. Já muitas épocas correram, muitos ventos varreram Macau, e a máquina não lhe sai das mãos. As milhares de imagens que captou são uma espécie de rolo gigante que revela a cidade (escondida). No papel fotográfico cabe-lhe tudo com arte e técnica – flores, as cenas do quotidiano, as gentes da terra e da tradição, os gatos.
O gosto pela fotografia surgiu ainda nos tempos de escola. Tornou-se amigo de um fotógrafo. Tinha 17 ou 18 anos e nunca mais parou, já o cabelo desponta grisalho. Ainda se lembra da primeira máquina uma Pentax, das que já nem existe. Aprendeu dentro e fora de paredes. Começou a traçar o conhecimento no antigo Foto Maxim, quando ainda era um espaço propício aos retratos. Teve lá dois grandes mestres, mas não se ficava por aqui o menino que nasceu em Macau. Já no término da década de 60 viria ao território um fotógrafo da “National Geographic” com quem aprenderia uns truques. “Eu era um rapazote que andava com a mala dele de borla para aprender os truques da fotografia. Foi um grande mestre meu. Ensinou-me muita coisa, porque também não recebi um centavo dele”, conta Manuel Cardoso. E como é que aprendia? “Andava a ver como é que ele trabalhava. A minha aprendizagem não foi ele ensinar-me directamente. Disse-me: ‘agora vais ver como é que eu faço, e através daquilo que vês um dia mais tarde hás-de perceber. E assim foi”, acrescentou. Isto tudo aconteceu quando ainda trabalhava no Turismo de Macau.
Cardoso avança e recua no tempo como se tivesse na mão um elástico que permite viajar em momentos diferentes desta terra. É quase impossível não juntar na mesma página as suas lentes e a história. Até quando o governador Nobre de Carvalho (1966-1974) “tomou posse já estava a fotografar para o Notícias de Macau e para a Gazeta”. Este mundo das figuras políticas voltar-lhe-ia a entrar no quotidiano várias vezes quando começou a trabalhar no Gabinete de Comunicação Social, após a sua criação. Nem sempre é fácil, mas aprendeu muito. E depois “tinha sempre uma coisa em mim: o chamado brio profissional. Era um fotógrafo incapaz de fazer uma reportagem e depois ver num jornal qualquer pessoa que fazia um trabalho melhor do que o meu; ficava logo pior do que estragado”, ri-se.
Manuel Cardoso preza muito o conhecimento. Chegou a ir para Portugal e tirar um curso de realizador de Televisão, na RTP, mas acabou por ser a fotografia o grande enquadramento da sua vida. “Para dizer a verdade o meu pai [português natural de Proença-a-Nova e casado com uma mulher nascida em Coloane] partiu-me cinco vezes a câmara escura antes de ser fotografo profissional (...) depois disse-lhe já ganho a vida com isto”, e foi-se desfazendo o receio. É que “ser fotógrafo naquelestempos era como ser músico ou pintor, era ser artista [pelo] que [pensavam que] não dava para ganhar a vida”, explicou. E foi de imagens que viveu por dentro e por fora. De tal maneira, que não se cansa de dizer, mesmo que soe a frase feita, “para se ser um bom fotógrafo é preciso ter paixão”. Já lho indicam há décadas os ossos do ofício.

Em Janeiro, Manuel Cardoso inaugurou uma exposição comemorativa do 11º aniversário da criação da RAEM. Falhámos a mostra, no antigo mercado da vila da Taipa, mas a sua generosidade trouxe até à mesa de pedra do jardim alguns dos exemplares do seu trabalho. “As fotografias eram sobre o ciclo de Lótus e a Ópera de Cantão”, prontifica-se a elucidar, acrescentando que a “história dos 11 anos da RAEM era um pretexto”. Em “Macau funciona assim”, lamenta. Para algumas das fotografias, o fotógrafo, que não perdeu a locomotiva das novas tecnologias, deixou-se também perder em técnicas de outrora. “Esta folha toda desfocada foi com a vaselina colocada na lente, é uma coisa já antiga, já esquecida, [mas] como estava a fazer um trabalho sobre a Flor de Lótus resolvi utilizar para ser um bocadinho diferente”, diz. E desengane-se quem pense que técnica velha não dá trabalho. “Tive de aprofundar muito em teoria, porque não é tão fácil como as pessoas pensam – que é só colocar a vaselina na lente e já está, não é bem assim”, ressalva. É preciso, por exemplo, “saber um pouco de física e depois vai-se experimentando. Há coisas que se podem fazer e outras não. Tem limites”, esclarece.
O mesmo acontece com as máquinas. Não é preciso um último modelo para se tirar boas fotografias. “Depois de tantas voltas resolvi utilizar a maquineta [uma qualquer de 3.000 patacas] e não é que dá resultado?! Seja qual for a máquina, desde que se faça o trabalho dentro dos seus limites tudo é possível”, assegura, dando como exemplo as fotografias que nos mostra. Agora é que voltou a comprar uma melhorzita, com a qual se prontifica para nos ajudar a tirar as fotografias. E, na verdade, um fotógrafo deve saber de física, matemática, química, meteorologia, salienta.

Nas lides da fotografia “é preciso ter muita técnica e arte”, insiste. E apesar de ser uma paixão que consome, o estado de apaixonado por si só não é suficiente para progredir. “Só gostando muito não se pode. A fotografia é como outra arte qualquer, a prática e a teoria vão sempre juntas”, reitera sublinhando que sem uma daquelas vertentes “chega-se a um certo patamar e fica-se parado”. Para não estagnar tentou sempre ler livros, procurar informar-se sobretudo na era das novas tecnologias e claro perder-se do tempo a fotografar horas diárias. “Agora na época digital – coisas de que eu estava fora do assunto – tive de aprender tudo de novo... quem tem bases tudo aprende”, foca o homem que já viu o seu trabalho condecorado com mérito.
Na linha das mudanças aproxima-se para conhecer mais um pouco e não despreza as novidades. “As novas tecnologias deram um grande avanço à fotografia sem dúvida. As coisas são mais fáceis, mais baratas, acessíveis e é possível fazer certos trabalhos em computador, que antigamente demorávamos dias a fazer”, ilustra. Mas rejeita que o computador substituta o trabalho que o esforço humano é capaz de produzir ao mover-se na realidade.Da fotografia em Macau considera que se tem desenvolvido, contudo, os traços poderiam ser melhores se houvesse mais estudos, atesta. A fotografia sempre “exige”. Já olhando para trás, depois de milhares de fotografias que também agrupa em álbuns na Internet, exposições cá e em Portugal, “o macaense, português ligado a Macau”, deixa nas mãos do futuro o legado. Se o muito que já fotografou contribuirá para a história de Macau? “O tempo o dirá não posso julgar esse aspecto”, afirma. Mas é um preservador de memórias, "evidentemente". 
Artigo da autoria de Fátima Almeida publicado no JTM de 28-04-2011