"Viagem a Macau" — Diário dum Grumete a bordo do N. R. P. João de Lisboa" é um pequeno livro de 77 páginas, edição de autor, escrito em 1996 por Mário Gonçalves (com residência em Maçussa - Azambuja).
Conta a história da sua viagem - então com 17 anos - no N. R. P. João de Lisboa (Aviso de 2ª classe) iniciada a 6 de Março de 1949 e terminada em Outubro de 1951, tendo por base um diário que escreveu na época.
No prólogo pode ler-se:
"Numa curta vida de voluntário da Armada, de 1 de Maio de 1947 a 22 de Outubro de 1952, usufrui nesses anos de juventude duma riqueza de experiência da vida e de conhecer algum Mundo que me vinculou para sempre a esse período. A par dos princípios de disciplina e estudo que a Escola de Alunos Marinheiros me proporcionou, do primeiro contacto com o mar na viagem da Sagres em 1948 à costa oeste dos Estados Unidos, continuando com a fiscalização da costa norte portuguesa no N. R. P. Flores, ao treino no N. R. P. Vouga e à última e inconcluída comissão no N. R. P. João de Lisboa, finalizando com a demorada estadia curativa na Serra do Caramulo, tudo foi uma rápida aventura da qual algumas memórias e documentos sobreviveram arrecadados nas subsequentes dezenas de anos, e que agora na 3ª fase da vida pude activá-los porque recordar é viver.
Viver pois na homenagem aos que comigo neste mundo já não estão, saudar e conviver com os que a estas letras ainda chegarem.
Recordar o espírito de amor a Portugal que testemunhei em cada porto onde apareciam portugueses, desde as colónias lusas da América aos que em Hong-Kong viviam, passando pelos da Índia, na interminável Diáspora dos filhos desta terra terem de pelo mundo procurar um futuro melhor do que aquele que na terra mãe lhe é inexplicavelmente arisco ao longo de quase 9 séculos de história, em que tanta riqueza se trouxe para este cantinho, tanta riqueza se ofertou e se fez ostentação para afinal, em cada geração que passa, continuarmos a ser um país pobre, parecendo que não nos sabemos governar."
É complementado por excertos de uma narrativa publicada em 1951 na revista Defesa Nacional pelo então Primeiro-Tenente António da Costa Pereira e inclui uma recorte de imprensa do jornal "Notícias de Macau" (10 de Maio de 1949) que noticiava a chegada do aviso "João de Lisboa" e o alvoroço e alegria gerados na comunidade portuguesa do Extremo Oriente.
O autor contextualiza a sua vida como voluntário da Armada entre 1 de Maio de 1947 e 22 de Outubro de 1952. Reflecte sobre a formação na Escola de Alunos Marinheiros, outras comissões (como no N. R. P. Flores e N. R. P. Vouga) e o valor de "recordar é viver". Destaca a importância de dar a ver a vida de bordo vista a partir da "coberta" (o poiso dos marinheiros) e a realidade da diáspora portuguesa pelo mundo.
Termina com uma reflexão sobre o valor da amizade desinteressada e do "espírito de corpo" característico do pessoal da Armada.
Estamos pois perante um testemunho importante e raro porquanto é feito pela perspectiva de quem vivia a bordo na coberta e não era oficial, o tipo de relatos mais habituais em livros.
Transcrição da notícia de capa da edição de 10.5.1949 do Notícias de Macau (não incluída no livro bem como a foto-montagem abaixo):
Salve, Marinheiros de Portugal!
A chegada do Aviso "João de Lisboa"
Constituiu motivo de grande alegria para a população desta colónia portuguesa do Extremo Oriente.
Como era esperado, entrou ontem, por volta das 10 horas, aproximadamente, no nosso porto, o Aviso de 2a. classe da Marinha de Guerra Portuguesa “João de Lisboa”, que aqui vem em missão de soberania. A’ entrada das águas de Macau, o Aviso deu a salva do estilo, respondendo, como era da praxe, da terra, uma bar bateria de artilharia posta na Colina da Guia. Cerca de uma hora antes, largara ao seu encontro uma vedeta da Capitania dos Portos, levando a bordo o Capitão dos Portos, Sr. Comandante, Augusto Castro Rodrigues, o Comandante da Polícia Marítima e Fiscal, 1o. Tenente, Sr. António Lopes Marques, e o Ajudante de Campo de Sua Exa. o Governador da Colónia, Sr. Capitão José Rodrigues de Oliveira e vários oficiais da nossa marinha de guerra. As duas referidas entidades foram apresentar os primeiros cumprimentos de boas vindas.
O Aviso recém-chegado fundeou no Quadro de navios de guerra, na Barra, amarrando na boia que fica à popa do Aviso “Pedro Nunes”.
O Aviso “João de Lisboa” é comandado pelo Capitão-tenente Sr. João Xavier Rainha-Lho Rosa, que já esteve em Macau, embarcado no Aviso “Gonçalves Zarco”, trazendo Como Imediato, o 1o. Tenente Sr. António Benard da Costa Pereira. Pelas 12 horas, o Comandante, Sr. Capitão-tenente Ramalho Rosa foi a bordo do Aviso “Pedro Nunes”, apresentar cumprimentos ao seu colega, Sr. Capitão Joaquim José da Costa, Comandante do referido Aviso. Pelas 15 horas, o Sr. Comandante Ramalho Rosa esteve na Capitania dos Portos, a apresentar cumprimentos ao Capitão dos Portos, Sr. Capitão de fragata Augusto de Castro Rodrigues. Meia hora depois o Comandante do Aviso “João de Lisboa” dirigiu-se ao Palácio da Praia Grande, apresentando cumprimentos a Sua Exa. o Governador da Colónia, Sr. Comandante Albano Rodrigues de Oliveira.
O Aviso “Pedro Nunes”, logo que o Aviso “João de Lisboa” amarrou, içou o distintivo de “navio-chefe”, pois o Sr. Comandante Joaquim José da Costa é o oficial mais antigo, embora da mesma patente. Ao fim da tarde, oficialidade, sargentos e marinheiros desembarcaram dando uma nota alegre às ruas da cidade. Muita já aí estiveram, em anteriores missões, enquanto que outros, a maioria, pisa pela primeira vez este torrão português do Extremo Oriente. Encontram-se, presentemente, no porto de Macau, duas unidades da nossa gloriosa Marinha de Guerra, onde flutua a bandeira verde-rubra, marcando, como um traço de união entre a Metrópole e estas distantes terras do Ultramar, a presença perene de Portugal.
A população desta terra portuguesa, que recebe sempre com júbilo a vinda de qualquer navio português rejubilou-se com a chegada do Aviso “João de Lisboa”, que, ao lado do Aviso “Pedro Nunes” no Quadro de navios de Guerra, até parecem dois irmãos gêmeos.
A guarnição do Aviso “João de Lisboa” é de 141 homens, entre oficiais, sargentos e marinheiros. Damos a seguir os nomes dos Srs. Comandante, Imediato e demais oficialidade do bordo, que nos foram amavelmente cedidos pelo Tenente Sr. Sousa e Costa, a quem não podemos deixar de agradecer a gentileza e bem assim a forma cativante com que se dignou receber a bordo o representante do nosso jornal, na ausência dos Srs. Comandante e Imediato. Comandante – Capitão-tenente Sr. João Xavier Ramalho Rosa; Imediato – 1o. Tenente Sr. António Benard da Costa Pereira; Os. Tenentes – Sr. António Rodrigo Salema e Santos, Alfredo José Estevam Sousa e Costa, Francisco José de Oliveira Seixas, Rui do Carmo Fernandes e António Egídio de Sousa Leitão, 2o. Tenente-médico Sr. Rúben Lopes Louvara; Tenente-maquinista-naval – Sr. José Alberto da Silva Mendes; 2o. Tenente da Administração Naval, Sr. Cupertino Ferreira Guerra; Guarda-marinha-maquinista naval, Sr. Júlio Antunes Lopes.
Por intermédio do Sr. 2o. Tenente Sousa e Costa, que também já esteve entre nós embarcado no “Bartolomeu Dias”, tivemos a satisfação de saber que o referido Aviso partiu de Lisboa em 7 de Março findo, com destino a esta colónia, via o Canal de Suez. Toda a viagem correu boa, com mar e vento favoráveis, com excepção no Mediterrâneo, à saída do “Port Said”, onde o navio foi colhido por um temporal, felizmente sem consequências de maior. Interpretando os sentimentos de toda a população desta terra portuguesa, o “Notícias de Macau” suda efusivamente as pessoas dos Srs. Comandante, Imediato, oficiais, sargentos e demais guarnição, e bem assim nos seus colegas do “Pedro Nunes”, os bravos Marinheiros de Portugal!"





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