O ananás, fruto nativo da América do Sul, nomeadamente do Brasil, foi introduzido na China pelos portugueses através de Macau no final do século XVI, sendo o ano de 1594 a data histórica mais consensual para este marco por via dos registos documentais chineses. Após terem descoberto a fruta no Brasil, os navegadores portugueses transportaram as plantas nas suas embarcações para outros destinos. Devido à resistência da planta, esta sobreviveu às longas viagens marítimas, passando primeiro por entrepostos em África e depois em Goa, na Índia, antes de chegar ao enclave de Macau. A partir deste ponto estratégico, a planta espalhou-se rapidamente pela província de Guangdong e por todo o sul da China, nomeadamente em Fujian, onde o clima subtropical favoreceu uma adaptação perfeita. Existem referências em crónicas chinesas da dinastia Ming que descrevem uma "fruta estranha com pele de escamas e uma coroa de folhas" vinda das mãos dos "estrangeiros do mar" (os portugueses).
Em chinês, a fruta é chamada de Feng Li (鳳梨) - significa "pêra fénix", devido à semelhança da sua coroa de folhas com as penas da cauda de uma fénix e à textura da sua polpa - e também de Boluò (菠萝), nome mais habitual em Macau e que aparece em textos médicos e botânicos pouco tempo depois dessa introdução.
Além do ananás, os portugueses foram responsáveis pela introdução na China do milho, batata-doce, amendoim, malagueta, tabaco...
| Planta do Ananás: ilustração criada com recurso a IA |
No livro publicado em 1790 (2 volumes em latim) - "Flora cochinchinensis: sistens plantas regno Cochinchina nascentes, quibus accedunt aliae observatae Sinensi imperio, Africa Orientali, Indiaeque locis variis, omnes dispositae secundum systema sexuale Linnaeanum" o padre jesuíta João de Loureiro - viveu em Macau entre 1779 e 1782 - antes de regressar a Lisboa, classifica a planta como Bromelia ananas.
João de Loureiro nasceu em Lisboa em 1717. Aos 15 anos ingressou na Companhia de Jesus, partindo pouco depois para as missões no Oriente. Após passagens por Goa e Macau, estabeleceu-se em 1742 na Cochinchina, região que hoje corresponde ao centro e sul do Vietname, onde permaneceria durante 36 anos. A sua permanência prolongada num período de instabilidade política deveu-se ao seu valor prático para a corte local, onde serviu como matemático e, sobretudo, como médico. Foi a necessidade de curar sem acesso a fármacos europeus que o levou a estudar profundamente a flora local e a medicina tradicional, tornando-se um botânico autodidata de excecional rigor.
Em 1777/79 Loureiro retirou-se para Macau, permanecendo no território até 1781. No regresso a Lisboa ainda passa por Moçambique onde continua a recolher plantas. A espantosa colecção que reuniu despertou o interesse da comunidade científica europeia.
A sua obra principal, a Flora Cochinchinensis, foi publicada em 1790 (um ano antes de morrer) pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Escrito em latim e organizado segundo o sistema sexual de Lineu, o livro descreve mais de mil e duzentas espécies, muitas das quais desconhecidas na Europa, como certas variedades de citrinos e plantas medicinais asiáticas.
MONOGYNIA. GENUS I. BROMELIA.
Charact. Gener. Cal. 3 - fidus, superus. Petala 3 : squamâ nectariferâ ad basim. Bacca 3 - locularis. Lin. syst. pl. G. 427.
Sp. 1. BROMELIA ANANÁS. v. Thái Thom. Differ. spec. Brom. foliis ciliato-spinosis: spicâ comosâ. Lin. sp. 1. Hab.; & notæ. Caulis 1 - pedalis, perennis, crassus, teres, erectus, foliis ad basim imbricatus, fructu magno, solitario terminatus. Folia 3 - pedalia, subulata, margine utrâque spinosa, canaliculata, crassa, cinereo-glauca, glabra, reclinata. Bacca composita, 8 pollices longa, cylindracea, saepe sub-conica, ovata, aut subrotunda, diametro 5 - pollicari, rubra, squamosa. Flores nitidè purpurei, singulis baccae squamis singuli adnati, supra medium exerti, ante maturescentiam baccae decidui. Cal. 3 - fidus, minimus. Corolla oblonga, campanulata, 3 - petala, in acutum definens. Filamenta 6, tenuia receptaculo inserta. Stigmata 3: stylo profundè 3 - sulcato, & in tres facilè divisibili. Baccae partiales inferae, oblongae, coalitae, succosae, odorae, dulcissimae, sub-acidae, sapidissimae, salubres, 1 - loculares: seminibus tribus, longiusculis.
Habitat in magnâ copiâ in agris, & hortis Cochinchinae, ubi, quamvis optima, vili pretio venditur, praecipuè in provinciâ Doung-nai ad decimum gradum latitudinis Borealis. Anassa. Rumph. Amb. l. 8. cap. 41. tab. 81. Ananás. Tournef. Inst. p. 653. tab. 426, 427, 428. Acosta. Arom. p. 44. Virtus: fructus. Diuretica, Stomachica. Ex fermentatâ fit vinum, & hujus spiritus, sapidum quidem, sed minus salubre. Varietas Bromeliae occurrit, in Cochinchinâ dicta Thom nép, cujus fuetus sapore non inferior, in maturescentiâ permanet viridis, & pulpa alba, sed specie non differens.
MONOGYNIA (Uma só estames/estilete). GÉNERO I. BROMELIA.
Características do Género: Cálice trilobado, superior. 3 Pétalas: com escama nectarífera na base. Baga com 3 lóculos. (Ref. Linnaeus).
Espécie 1. BROMELIA ANANÁS. Nome vulgar: Thái Thom. Diferença da espécie: Bromélia de folhas com espinhos ciliados: espiga com penacho. Habitat e Notas: Caule de 1 pé de altura, perene, grosso, cilíndrico, ereto, com folhas sobrepostas na base, terminado por um fruto grande e solitário. As folhas têm 3 pés de comprimento, em forma de sovela, espinhosas em ambas as margens, sulcadas, grossas, de cor cinza-azulado, lisas e reclinadas. A baga é composta, com 8 polegadas de comprimento, cilíndrica, frequentemente subcónica, oval ou arredondada, com 5 polegadas de diâmetro, vermelha e escamosa. As flores são de um roxo brilhante, cada uma ligada a uma escama da baga, projetando-se acima do meio, caindo antes da maturação do fruto. Cálice muito pequeno. Corola oblonga, em forma de sino, com 3 pétalas terminando em ponta. 6 filamentos finos inseridos no recetáculo. 3 estigmas: estilete profundamente sulcado em 3 e facilmente divisível em três partes. As bagas parciais são inferiores, oblongas, fundidas, suculentas, perfumadas, muito doces, ligeiramente ácidas, de sabor muito agradável, saudáveis, com 1 lóculo e três sementes compridas.
Habitat: Em grande abundância nos campos e hortas da Cochinchina [atual Vietname], onde, embora de excelente qualidade, é vendido a preço baixo, especialmente na província de Dong Nai, aos dez graus de latitude Norte.
Referências: Anassa (Rumphius), Ananás (Tournefort), Acosta (Aromatum et Medicamentorum).
Virtudes: Do fruto: Diurético e estomacal. Do fruto fermentado faz-se vinho e um espírito (destilado), saboroso, mas menos saudável.
Variedade: Ocorre uma variedade de Bromélia, chamada na Cochinchina de Thom nép, cujo fruto não é inferior em sabor, permanece verde na maturação e tem a polpa branca, mas não difere na espécie.
Nota: Entre as várias espécies da flora de Macau que João de Loureiro classificou, aqui ficam alguns exemplos: Longane (Euphoria longan (Lour.) Steud.); Vompi (Clausena lansium (Lour.) Skeels); Tangerineira Anã (Fortunella marginata (Lour.) Swingle); Árvore da Pata de Pato (Schefflera octophylla (Lour.) Harms); Falso Castanheiro (Aleurites montana (Lour.) Wils.); etc., Alfenheiro da China (Ligustrum sinense Lour.) e a Laranja-Mandarim (Citrus nobilis Lour)"...
Terá por certo recorrido ao Horto dos Jesuítas/Horta da Companhia de Jesus, junto ao colégio de S. Paulo. Na toponímia local chegou a a existir a Rua da Horta da Companhia, actual Rua de D. Belchior Carneiro.
A palavra ananás deriva de "nana" - termo nativo Tupi - que significa "fruto excelente".

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