quarta-feira, 11 de abril de 2012

A viagem do "Pátria" em 1924

Há 88 anos estavam algures nos céus dois portugueses dentro de um avião com uma rota traçada: Macau. Venha daí!  Embarque nessa viagem!
A primeira ligação aérea entre Portugal e Macau iniciada a 7 de Abril de 1924 a partir de Vila Nova de Mil Fontes nasceu da primeira tentativa da viagem aérea à Madeira, que Brito Pais e Sarmento de Beires tentaram concretizar em 1920.
Na esperança de poderem levar avante o sonho da travessia aérea do Atlântico Sul e constatando que o Governo português pouco interesse manifestava em relação a estes feitos, os pilotos recorreram a uma subscrição pública conseguindo uma verba para a compra de um Breguet de bombardeamento nocturno que outrora tinha servido na 1ª Guerra Mundial. Adquirido o avião Breguet 16 Bn-2 com um motor Renault de 300cv foi necessário fazer algumas alterações, nomeadamente retirar-lhe grande parte da sua carga militar e introduzir-lhe depósitos de gasolina suplementares, de forma a aumentar o seu raio de acção. O «Pátria», nome que lhe será atribuído terá como tripulantes, o Major Brito Pais, o Major Sarmento de Beires e o Mecânico Alferes Manuel Gouveia, que se juntou à tripulação em Tunes. Segundo Brito Pais a viagem tinha dois objectivos principais: A ida a Macau e não permitir que a aviação Portuguesa estagnasse. Os contratempos foram de vária ordem com condições atmosféricas bastante adversas, desde tempestades de areia, calores intensos e cartas geográficas sem rigor, o «Pátria» acaba por aterrar no deserto de Thur na Índia, totalmente danificado. Depois do sucedido, chega de Portugal, a notícia de que o Governo autoriza a compra de um novo avião. No dia 7 de Maio o «Pátria I» é substituído por um Havilland Liberty, DH9 de 400cv, comprado na Índia por 4.700 libras, baptizado com o nome de «Pátria II». Para que o «Pátria II» pudesse prosseguir viagem, Manuel Gouveia não acompanha o resto dos tripulantes por uma questão de lotação da aeronave seguindo directamente para Macau. 

Emissão filatélica de 1999: nos 75 anos da viagem
A viagem aproxima-se do fim e no dia 20 de Junho, o «Pátria II» deixa a Indochina rumo a Macau. Por razões de mau tempo, a tripulação viu-se forçada a fazer uma aterragem de emergência numa povoação chinesa junto a Hong Kong depois de ter sobrevoado Macau, tendo o avião ficado danificado embora sem consequências para os pilotos. 
Uma lancha canhoneira - a "Macau" - veio de Macau até Hong Kong para levar consigo os tripulantes. No território após horas à espera a população temeu o pior quando a certa altura viu a bandeira de Portugal a meia haste no Palácio do Governo. Mas nada tinha a ver com os pilotos, mas antes um membro do corpo diplomático que morrera na China.
Sobre o mar, montanha e deserto, o Pátria percorreu 16.380km voados em 115h e 45m para chegar a Macau.
Ainda hoje se encontram no Clube Lusitano de Hong Kong um painel formado com partes do avião para sempre ligado a este feito da Aviação Portuguesa. Em Portugal sugiro uma visita ao Museu do Ar.
No livro de Sarmento de Beires "De Portugal a Macau: a viagem do Pátria" (há uma primeira edição de mais de 200 páginas com muitas ilustrações logo em 1925 da Seara Nova; a 2ª edição é de 1953) pode ler-se sobre Macau:
"A península minúscula em que a secular cidade portuguesa dos confins da Ásia se comprime, na desordem dos seus bairros, entre as Portas do Cerco e o mar, parece a palma da mão que a China estende ao Pacífico, como a mendigar-lhe a esmola das suas ilhas aveludadas e sombrias. A Praia Grande, avenida quase circular, faz a curva entre a chave da mão e o polegar, onde a capelinha da Guia se alcandora no topo de uma colina."
Uma récita que evocou o feito no teatro D. Pedro V a 4 de Julho de 1924
Nota: existem diversos posts relacionados com este tema pelo que sugiro utilização do campo de pesquisa. Em breve vou disponibilizar alguns recortes dos jornais portugueses da época.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Próximas edições do IIM

 Números 3 e 4 da colecção "Suma Oriental"
Numa entrevista a Hélder Fernando publicado no jornal Hoje Macau a 2-4-2012, Jorge Rangel, presidente do IIIM revelou algumas das actividades que o instituto leve a cabo até ao final do ano.
"Muitas edições. Por exemplo, vem a caminho o livro de João Botas sobre “Macau, 1937-1945, os Anos da Guerra”. Um livro muito bom, havia pouco matéria escrita sobre esse período, relacionada com Macau, e que foi vivido com enormes dificuldades. O que existe está disperso. Faremos uma homenagem ao padre Manuel Teixeira, onde estará presente o professor Vinhais Guedes, que acompanhou, em Portugal, os últimos anos de vida dele. Entretanto, no campo das edições, como temos a colecção “Missionários para o século XXI”, vamos editar mais dois livros, um deles dedicado a Manuel Teixeira, uma vez que é o ano do centenário do seu nascimento.
Outro livro será lançado no próximo Encontro Juvenil Macaense. A autora, Alexandra Sofia Rangel - por acaso é a minha filha - concluiu o mestrado e fez um trabalho sobre os chamados “Filhos da Terra, a Comunidade Macaense Ontem e Hoje”. Teve uma alta classificação, 18 valores, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde os professores a incentivaram a publicar o trabalho."

domingo, 8 de abril de 2012

A Capela do Leal Senado

A construção desta capela foi autorizada pela seguinte carta régia:
«A Augusta Prezença de Sua Mag.e subio o Officio désse Leal Senado em datta de 31 de Dezembro do anno proximo passado, em que expunha os motivos que o havião induzido a julgar consequente a distincção, com que o Mesmo Augusto Senhor se Havia Servido Honrallo no Dia da Sua Feliz Acclamação, a prerogativa de lançar de ora em diante os Despachos no Alto das Petiçoens; e posto que fosse sem duvida censuravel que o Leal Senado tomasse o arbitrio de o ficar assim praticando desde logo, quando hum sem.e arbitrio fora expressamente estranhado, e prohibido ao Governador e Cap.m G.1 Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Quiz S. Mag.e todavia dar mais este testemunho de Sua Real Benevolencia Permittindo q' essa Corporação possa dóra em diante no expediente de sua Administração lançar no Alto dos papeis os seus respectivos Despachos.
Pelo mesmo já citado Officio Ficou S. Mag.e informado do assento q' ahi se tomara para a creação de Oratorio nas Cazas do Senado, onde antes da Ordinaria Vereação dos Sabbados, se haja de celebrar Missa, com a intenção expressa naquella fundação: E tendo S. Mag.e approvado aquella deliberação do Leal Senado o Manda nesta occazião Declarar assim ao Bispo Diocezano para que elle haja de conseder as licenças necessarias para a erecção do pretendido Oratorio. O que por tanto participo a V. S.ª para sua intelligencia, e para que nesta conformidade se haja de dar as seguintes dispozições. D.s G.e a VS.ª Palacio do Rio de Janeiro em 28 de Sett.º de 1819.= Conde dos Arcos. S.res Juizes, Vereadores, e P.or do Leal Senado da Camara da Cidade do Nome de D.s de Macáo».
Edifício do Leal Senado nos primeiros anos do séc. XX. Foto (acima) do ACTD/IICT. Em 1937 o edifício foi restaurado. No exterior as grandes mudanças são visíveis na fachada principal (portas, janelas e símbolo da monarquia) e no telhado (deixou de existir).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Confraria e Irmandade da Misericórdia

Perspectiva a partir do Largo do Senado. Madrugada do Verão de 2009. Foto de JB
A Santa Casa da Misericórdia foi fundada em Lisboa a 15 de Agosto de 1498, pela mão da Rainha D. Leonor e contou com o apoio do rei D. Manuel I. A Macau chegaria 71 anos mais tarde, em 1569, pelas mãos do bispo D. Belchior (ou Melchior) Carneiro (que chegara um ano antes) e com o nome de  Confraria e Irmandade da Misericórdia de Macau.
No “Compromisso", ou estatutos, ficamos a saber a finalidade do que começou por ser uma "Irmandade"  criada em Lisboa por cerca de uma centena de irmãos, que actuavam junto dos chamados "envergonhados", os pobres, presos, doentes a quem era dado um tecto, comida, roupa e medicamentos. "Existe para dar expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça social, dentro do espírito católico e de caridade cristã, que enforma as Misericórdias Portuguesas, para prosseguir entre outros os seguintes objectivos, mediante a concessão de bens e a prestação de serviços; apoio à integração social e comunitária; e protecção do cidadão na velhice e invalidez e em todas as situações de carência ou diminuição de meios de subsistência ou de capacidade para o trabalho."
A Rainha D. Leonor (viúva de D. João II) criou esta Irmandade como invocação a Nossa Senhora de Misericórdia, precisamente no ano em que os navegadores portugueses atingiam a Índia. O “Compromisso” (ou regulamento) originário da Misericórdia de Lisboa, foi aprovado pelo Rei D. Manuel I e depois confirmado pelo Papa Alexandre VI. Deste documento foram feitas diversas cópias. Uma edição impressa em 1516 permitiu a divulgação mais rápida do texto e facilitar a criação de 'réplicas' por todo o Reino e nos territórios de além-mar. Foi graças a D. Belchior Carneiro, o primeiro dos Bispos de Macau, que a Santa Casa se estabeleceu em Macau.
década 1970 vs década 1900
A Santa Casa está em Macau praticamente desde o estabelecimento dos portugueses em 1554. São quase cinco séculos de existência. No Largo do Senado destaca-se um edifício d cor branca classificado como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO. Esta fachada com traços neoclássicos é alvo predilecto das fotografias dos turistas e não pertence ao edifício original. Mas isso é outra história...
É de realçar o Núcleo Museológico, espaço que contêm um acervo de peças valiosíssimas da arte sacra, algumas datadas do século XVI. Foi recentemente ampliado e pode ser visitado. Falar da história de Macau é falar da história da Santa Casa. Foi e continua a ser assim...
 Inauguração do busto de D. Belchior nas instalações da Santa Casa, Verão de 2000
D. Belchior Carneiro chegou a Macau em 1568 e um ano depois criou a Santa Casa. É essa informação que dá numa carta dirigida ao padre geral jesuíta: "Quando cheguei a este porto, dito do nome de Deus, havia cá poucas habitações de portugueses... Mal cheguei, abri um hospital, onde se admitem tanto cristãos como pagãos... Criei, também, uma Confraria da Misericórdia... para prover a todos os pobres e envergonhados e aos que precisem..."
Sugestão de leitura adicional:
"O Compromisso da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Macau de 1893", de Leonor Diaz de Seabra, Centro de Publicações, Universidade de Macau, 2004

quinta-feira, 5 de abril de 2012

“Livro de Receitas da minha Tia/Mãe Albertina”

Tal como já tínhamos revelado no final do ano passado, foi apresentado em Março último em Toronto (Canadá) o “Livro de Receitas da minha Tia/Mãe Albertina”, da autoria de Cintia Conceição Serro. Cíntia nasceu em Abril de 1943, em Macau tendo sido criada no bairro de S. Lourenço. Estudou no Colégio de Santa Rosa de Lima e no Liceu Nacional Infante D. Henrique. Fez toda a sua carreira profissional em Macau tendo trabalhado em diversos organismos públicos. Completou em 1976 o curso de Hotel Operations, na Escola de Indústria Hoteleira de Macau. A convite dos órgãos da Direcção da Casa de Macau de Toronto em 2007, foi representante dessa Casa na Confraria da Gastronomia Macaense, convite esse renovado pela Direcção da mesma Casa de Macau em 2009 e 2011.
O livro foi editado pelo IIM com o apoio da Fundação Macau e do Instituto Cultural de Macau e o título tem uma razão de ser. A autora aprendeu os segredos da culinária macaense com a sua tia, a quem afectivamente tratou sempre por tia-mãe (D. Albertina Borges, de 92 anos) e de quem 'herdou' algumas receitas antigas. O livro, de cerca de 200 páginas profusamente ilustradas, contém uma selecção de muitos pratos tradicionais, alguns deles menos conhecidos.
Na apresentação do livro em Toronto a 18 de Março último Cintia Serro, em português e inglês, afirmou que representava a culminação de um sonho, esperando que o seu trabalho seja um contributo valioso para a promoção e divulgação da tão apreciada gastronomia macaense.
"A autora referiu ainda que a publicação do livro foi possível graças ao apoio recebido não só de amigos e familiares, mas sobretudo do IIM, na pessoa do seu presidente, Jorge Rangel, que se fez representar na cerimónia pelo secretário-geral do mesmo Instituto a quem agradeceu. A oportunidade de divulgar os segredos da centenária gastronomia macaense e a iminente classificação desta como património imaterial da RAEM, foram as razões principais que presidiram a intervenção do IIM na publicação deste valioso livro que será lançado, em Maio em Macau (e depois em Portugal), na resposta do secretário-geral do IIM, Rufino Ramos, que louvou o papel da comunidade macaense da diáspora, em actividades conducentes ao fortalecimento da identidade colectiva." 
Excerto de notícia do jornal luso-canadiano ABC, edição de 26 de Março.
Eis algumas das mais de 80 receitas apresentadas no livro: arroz carregado, arroz gordo, galinha chau-chau parida, capela, caranguejo casquinha, apabico, chilicote frito, bebinca de nabo, chau chau pele, minchi com batata frita, porco bafassá, porco balichão tamarinho, feijoada à moda de Macau, diabo, tacho, baji, bolo menino, bolo de côco, bicho-bicho, doce de camalenga, batatada, marcasotes e rebuçados de ovos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Camões no Oriente" por Eduardo Ribeiro

No próximo dia 13 de Abril, às 18h30, no Clube Militar de Macau, Eduardo Ribeiro apresenta o seu mais recente livro, "Camões no Oriente", mais um dos vários contributos que tem dado ao tema.
Segundo autor "é o primeiro dos lançamentos há tanto tempo esperados e preparados nos últimos anos. Este é uma coletânea de textos revistos e actualizados que foram publicados na "Labirintos" e em jornais locais... que vão desde a partida de Camões do Reino em 1553, à sua chegada à Índia e depois a Macau e à torna-viagem até à morte." Um outro livro, sobre o mesmo tema ficará pronto muito em breve. "Talvez Junho, mês camoniano..." explicou Eduardo Ribeiro.
A apresentação em Portugal deste "Camões no Oriente" poderá ocorrer em Maio.
Capa do livro editado pela recém criada editora Labirinto de Letras, de José António Barreiros
A gruta em 1873 num postal do início do séc. 20
Eduardo Ribeiro nasceu em Angola (Moçâmedes) em 1948 e é licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. 
Foi magistrado do M.º P.º e Judicial em Angola (1973-1979); advogado, consultor jurídico da Sonangol e director do gabinete jurídico do Ministério dos Petróleos (1979-1982); advogado no Porto, de 1982 a 1985. 
Chegou a Macau em 1985 onde foi director da Inspecção de Contratos e Jogos (1986-1988); director dos Serviços Prisionais e Reinserção Social (1987-1990); coordenador-adjunto do Gabinete para a Prevenção e Tratamento da Toxicodependência (1990-1992) e administrador da Imprensa Oficial (1993-1998).

A investigação sobre a presença de Luís de Camões em Macau começou em 2006 e desde então Eduardo Ribeiro não tem parado. Defende a presença do poeta em Macau e baseia-se em três descobertas (1907, 1917, 1977): uma relação dos bens de raiz do Colégio de São Paulo de Macau, manuscrito encontrado em 1911 por Jordão de Freitas, bibliotecário da Ajuda; uma versão extensa, manuscrita, da Década VIII, localizada em 1917 por João Grave na Biblioteca Pública Municipal do Porto; e o Cancioneiro de Cristóvão Borges, publicado pelo professor Arthur Askinsem.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Hortas de outros tempos

Nesta imagem (de JD) - feita a partir dos jardins do hospital S. Januário - dos aterros do Porto Exterior no início da década de 1960 são visíveis, para além da ponte-cais da STDM, inúmeras hortas fruto da necessidade e do trabalho árduo  dos milhares de refugiados do continente chinês que Macau, mais uma vez, acolheu, quando a revolução cultural se intensificou na China na década de 1960.
Na época esta era uma zona conquistada ao mar há poucas dezenas de anos e cujos aterros não estava ainda consolidados. Diz-se que os terrenos só ficaram férteis porque foram semeadas plantas que fizeram a dessalinização das terras... Edifícios eram raros. Existiam a torre habitacional dos CTT logo depois do hotel Lisboa e as moradias da av. Dr. Rodrigo Rodrigues, bem como um colégio chinês. Mais para diante, só na década de 1970 surgiria o Casino Jai Alai. Tudo o mais eram hortas.
Foi com este cenário de pequenas hortas que os aterros do Porto Exterior se mantiveram até meados da década de 1980, altura em que surgiram infraestruturas como o Complexo Escolar, Fórum, etc...
Noutros tempos em Macau as pequenas hortas e os arrozais (sobretudo nas ilhas) chegaram a ocupar áreas extensas. Desses tempos restam apenas memórias e registos na toponímia local, como é o caso deste Caminho das Hortas (foto de Ana Margarida) na Taipa.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Alfredo Alves da Silva: militar no início do século XX

Vista a partir do Monte da Guia ca. 1900



Na primeira estada em Macau em 1901
Segundo José Manuel de Oliveira Vieira, "Durante o serviço militar, o Combatente Alfredo Alves da Silva, esteve de 1900 a 1901 em Expedição a Macau e em Comissão na mesma província de 1905 a 1907. Em 1908 esteve 144 dias na Guiné. De 1915 a 1916 fez uma Expedição a Moçambique. De regresso ao Reino, Alfredo Alves da Silva parte em Expedição para França, onde permaneceu de 26 de Setembro de 1917 a 19 de Março de 1919. Já fora das fileiras, Alfredo Alves da Silva, dedicou-se ao associativismo. Parte do seu tempo (faceta pouco conhecida) foi compor músicas para violino, que seu filho Henrique Santos Silva, distinto Maestro do Orfeão Abrantino tão bem soube interpretar." (...)
"A Unidade a que pertencia em Abrantes era o Grupo de Artilharia e deste saiu a Artilharia de Montanha, onde o Sargento Silva estava integrado. Na lapela das fardas são visíveis as “bombardas”, símbolo da artilharia. Em Macau era Segundo Sargento da “Artilharia Expedicionária." 

Na Gruta de Camões em 1906. Fotografia de Man Fook. No verso na fotografia (emoldurada) pode ler-se:  Wen Man Fook Photographer Painter Portraiture Enlargement in all styles Nº 1 Rua da Cadeia, Macao. Antes este fotógrafo estava no Largo da Caldeira, no Porto Interior. A Rua da Cadeia já não existe sob este nome, mas sim sob a designação Rua do Dr. Soares.
A primeira viagem até Macau deve ter sido no âmbito do Corpo Expedicionário criado em Portugal e enviado para Macau para a defender o território da eventualidade de um ataque chinês a propósito da chamada "guerra dos boxers".
A. A. da Silva - sócio nº 133 da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes - deixou um diário sobre a campanha em África e em França durante a primeira guerra mundial. José Manuel de Oliveira Vieira (a quem agradeço algumas das informações prestadas bem como as imagens) tem-se dedicado à análise desse espólio raro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Paquete "Índia": anúncio de 1952

Anúncio publicado no Diário de Lisboa em 1952
A inauguração desta rota da CNN realizou-se em Abril desse ano com a visita do Ministro do Ultramar - Sarmento Rodrigues - à Índia, Timor e Macau onde chegou em Junho. Em rigor, o Índia ficou atracado em Hong Kong, já que o calado não permitia uma ida a Macau. Daí saiu a fragata Gonçalves Zarco na época de serviço naquelas águas e levou o ministro.
Era esta a rota na década de 1950: (ida) Port Saíd, Port Sudão, Mormugão, Colombo, Goa, Singapura, Hong Kong, Macau. (volta) Manila, Singapura, Colombo, Cochim, Mormugão, Port Sudão, Port Saíd e Lisboa.
Nos anos 60 fazia este percurso: Lisboa, Port Said, Suez, Aden (opcional), Singapura, Hong Kong, Macau, Dili, Singapura, Porto Amélia (opcional), Nacala (opcional), Moçambique (opcional), Beira, Lourenço Marques, Lobito (opcional), Luanda (opcional), Lisboa. 
Funcionou até 1971 altura em que o navio foi vendido à Tailândia, talvez por ser presença habitual nos portos do Extremo Oriente.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ciclo de tertúlias: Macau e as festividades tradicionais

"Evocamos uma festividade, revemos imagens antigas, relemos textos, partilhamos memórias." Será este o mote para o ciclo de tertúlias que a Fundação Casa de Macau agendou para os próximos meses, até Outubro. Sempre ao final da tarde (18 horas), na primeira terça-feira de cada mês e ao sabor de um chá chinês.
Programa: 
Abril - «Ching Ming» 
(devido à semana Santa, realiza-se a 10 de Abril)
Maio - «Tin Hau»
Junho – «Dragão embriagado»
Julho - «Barcos Dragão»
Setembro - «EspíritosFamintos»
Outubro - «Bolo Lunar»
Praça do Príncipe Real, 25 - 1º, Lisboa.
Agradece-se confirmação pelo e-mail fcmacau@netcabo.pt

terça-feira, 27 de março de 2012

Bife "Amalo" no Fat Siu Lau

O Fai Siu Lau é um dos restaurantes mais antigos (desde 1903) de Macau. Actualmente julgo que existem três: rua da Felicidade, Porto Interior e Taipa. Isto muitos devem saber o que poucos conhecem é a história de um dos pratos deste restaurante de comida portuguesa e macaense... o bife "amalo", que ainda hoje pode ser 'visto' na ementa.
Hás uns tempos ouvi uma versão que envolvia um 'tal' de tenente Amaro, alto quadro do governo de Macau que nos anos 60 seria frequentador assíduo do restaurante. Este tenente era o marido - já falecido - da Prof. Ana Maria Amaro.
Contactei-a para averiguar a veracidade da história. A prof. muito amável não a confirma. Mas a sua explicação ajuda a esclarecer o mistério. Ora leiam e fiquem a saber as origens deste bife "com o molho mediterrânico de alho e especiarias"...
Na década de 1980
"Eu e o meu marido só fomos uma vez ao Fat Siu Lau a um banquete de casamento. Regularmente comíamos em casa, principalmente, depois de termos uma empregada chinesa. Antes disso almoçávamos e jantávamos no Clube Militar. (...)
No dia em que chegámos, com o tufão Glória a partir fomos para o Hotel Riviera mas como o dinheiro de que dispúnhamos era pouco indicaram-nos a nosso pedido o Clube Militar como local mais indicado para jantarmos. Nesse jantar foi servido um prato muito estranho que parecia fatias de cobra fritas. Era frango fatiado incluindo a coluna vertebral. Porém, como é óbvio, eu tinha ouvido dizer que os chineses comiam cobra e não jantei. E tão cedo não me apeteceu muito voltar a comer no Clube Militar. Isto até me explicarem e eu perceber o que era aquela "iguaria". Algumas vezes fomos ao restaurante Belo onde havia um belíssimo arroz de frango e um chao min tostado muito bom. Também fomos aos restaurantes de vários hotéis mas não frequentávamos o Fat Siu Lau. (...)
Havia na polícia de Macau um guarda português de nome próprio Amaro e talvez fosse esse o "comedor" dos tais bifes. O meu marido nem apreciava muito carne vermelha. Havia em Kau Long um restaurante chinês que servia uma belíssima sopa que o meu marido muito apreciava. Nós íamos muitas vezes a HK e, naturalmente, a KL; obrigatoriamente ao tal restaurante. O empregado chinês, quando nos via chegar, trazia a lista e dizia muito contente: " I know! Amaro soup!". 
Informações adicionais sobre este restaurante aqui:
http://macauantigo.blogspot.com/2009/04/restaurante-fat-siu-lau-desde-1903.html
Moral da história:
O tal polícia de nome "Amaro" era frequentador habitual do Fat Siu Lau e pedia o bife à sua maneira.. com muito alho e especiarias. Foram tantas as vezes que lá foi que o bife acabou por fazer parte da ementa. E depois, já se sabe, a dificuldade dos chineses em pronunciar o 'r'. Assim, "Amaro" virou "Amalo".
Por fim, acrescento um outro elemento que pode apontar para um outro "Amaro" (ou até o mesmo). Numa fotografia de 1943 de um grupo de militares recrutados em Macau aparece o nome de um soldado Amaro. Ora como era habitual os militares depois de terminarem o serviço militar seguirem carreira na PSP, pode (também) estar aqui mais uma pista para desvendar o mistério do 'tal' Amaro. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Troço da Av. Inf. D. Henrique: 1962-64

Av. Infante D. Henrique ca. 1962-64
Liceu à esq. vendo-se ainda parte do ginásio; ed. D. Leonor ao centro; Campo dos Operários à dta. Foto - cedida por JD - tirada de onde viria a ser a entrada para o casino do hotel Lisboa inaugurado em Fev. de 1970.

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Macau Antigo" no Hoje Macau de 23 de Março 2012

"O blog Macau Antigo fez quatro anos. Desde o seu nascimento, cresceu exponencialmente, constituindo hoje uma das mais importantes referências culturais da iconografia de Macau. O seu autor, João Botas, garante que é para continuar."
Carlos Morais José

A fotografia onde estou é da autoria do João Cortesão e foi feita em 2010 na Delegação do Turismo de Macau em Lisboa para um artigo da revista Macau. A entrevista é do Carlos Morais José.

Excertos da entrevista:
Como nasceu este blog?Tudo começou aquando das pesquisas para o livro que escrevi sobre a história do Liceu de Macau editado em 2007. Deparei-me então com inúmera documentação que não sendo apropriada para o livro achava um 'crime' pura e simplesmente ignorá-la pelo que resolvi partilhá-la. A internet pareceu-me a plataforma mais adequada para o fazer. E foi uma agradável surpresa constatar a forte adesão ao blog desde o início.Tenho ainda um pequeno blog dedicado aos Antigos Alunos do Liceu de Macau onde vou fazendo revisões e actualizações ao livro e que serve também como uma forma de nos irmos juntando de vez em quando. No "Macau Antigo" privilegio os elementos iconográficos e as pequenas histórias ou curiosidades que fazem a História.

Como tem sido a recepção dos internautas?Para responder a esta pergunta comecei pelo seguinte exercício. 'Googlei' na net a expressão "Macau Antigo" e o resultado foi este. Cerca de 1.230.000 resultados em 0,49 segundos com o endereço do blog em primeiro lugar. Em cada post há um espaço próprio para os leitores colocarem os seus comentários mas há também uma página autónoma dentro do blog onde vou colocando as reacções de quem 'navega' no blog e me faz chegar o feedback por correio electrónico. O melhor é passarem por lá, lerem e tirarem as vossas próprias conclusões.
 
Tem sido difícil arranjar apoios para este projecto?
Não quero patrocínios, quero parceiros. Instituições que se envolvam no projecto. Tenho praticamente desde a primeira hora o Turismo de Macau e o Instituto Internacional de Macau. Já tive a Casa de Macau em Portugal e o Museu do Oriente que entretanto saíram. Amigos como dantes. Continuam a ter o mesmo tratamento ao nível dos conteúdos. São apoios simbólicos que ajudam a custear as despesas: acesso internet, deslocações a arquivos e bibliotecas, digitalizações, etc. Ainda recentemente fui sondado pelo Instituto Cultural de Macau. Se não acontecer, não faz mal. Não é isso que me move. Mais do que o aspecto financeiro, para mim, ter parceiros significa que alguém que é exterior ao projecto reconhece-lhe qualidade. Este tipo de projectos na internet nasce e morre de um dia para o outro. Difícil é mantê-los. Muitos ou fazem coisas a pensar no umbigo ou deslumbram-se e acabam por se queimar na 'fogueira da vaidade' deixando-se toldar por um pretenso sucesso. Espero não ser nenhum desses exemplos. Acredito no trabalho e na perseverança.

Pode revelar-nos algumas estatísticas do seu blog, nomeadamente quais os países que mais o visitam?
Formalmente iniciei o blog no final de 2008 mas só a partirde Março de 2009 é que começou a funcionar de forma regular. Desde então já teve cerca de 400 mil visitantes (ou pageviews para ser mais rigoroso). Ora, feitasas contas, dá uma média diária de 300 visitantes e uma média mensal a rondar os10 mil. Os números falam por si. Leitores registados são 154 nesta altura. Origem dosvisitantes (por ordem decrescente): Portugal, Macau/China, Hong Kong, Brasil, Canadá,EUA, Austrália, Reino Unido, Alemanha, França, Moçambique, Angola, Cabo Verde. É, de alguma forma, o espelho da Diáspora macaense.

Finalmente, por que razão se entregou a esta “missão”? É para continuar?
Como já disse antes, achei que deveria partilhar a documentação que tinha e que achava poder ter interesse para mais pessoas e, pelos vistos, não me enganei. E também pelo que 'afirmei' desde a primeira hora. Para contrariar aquilo que me parece continuar a ser o estado das coisas dos portugueses de Portugal sobre Macau, desconhecimento e desinteresse. É para continuar, claro. Já é, muito provavelmente, o maior acervo de textos e imagens da História de Macau disponível de forma gratuita. E vai continuar a ser. Se há mérito que este projecto possa ter, será o de resgatar das gavetas e dos baús documentos que fazem a história do território, em especial, a do século XX, e que os historiadores dentro de alguns anos vão agradecer ter ali uma fonte quase inesgotável de material. E esse mérito é de todos os que colaboraram directa e indirectamente no blog "Macau Antigo" com especial destaque para os que lá nasceram e/ou moraram e os que, como eu, ficaram com Macau 'no coraçom'. Vivi a juventude em Macau pelo que muito do que sou foi aí moldado embroa nessa época não estivesse disperto para a história do território. Talvez por ser muito novo. Mas algo ficou... Nesse tempo a fonte do Lilau já não existia pelo que não bebi dessa água, mas Macau ficou-me no sangue e na alma e isso não se explica. É uma experiência que cada um que por aí passou vive à sua maneira. Considero-me um filho da terra adoptivo e enquanto puder darei o meu contributo para perpetuar no tempo a história dessa terra que é de todos os que a fizeram: portugueses e chineses maioritariamente, mas também muitos estrangeiros. Perceber o significado de amálgama, simbiose, coexistência... é meio caminho andado para entender Macau.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Povoações da Barra e do Patane: 1868

A 24 de Fevereiro de 1868 o Boletim da Província de Macau e Timor escreve:
"Em Macau o aterro do rio, para o lado da Barra, acha-se já unido ao aterro do Pagode chinez, de sorte que hoje as povoações da Barra e Patane se acham em comunicação pela estrada marginal."
Largo do Pagode do Patane - Templo Tou Tei - Foto de Lei iok Tin em 1949
Segundo Luíz Gonzaga Gomes o bairro do Patane estava dividido em duas áreas: Sá Lei T'âu (Cabeça de Pêra), "que abrange o emaranhado labirinto de travessas, calçadas, becos e pátios que existem nas ruas da Pedra, da Palmeira e da Ribeira do Patane" e a de Sân K'iu, onde "se entrecruzam as ruas da Espectação de Almeida, de Corte Real, do Capão, da Erva, da Barca, de Inácio Pessoa, de Marques de Oliveira, da Alegria, de Martinho Montenegro e a Estrada do Repouso".
Sân K'iu era um terreno baldio constituído por "esteve, urze e quejandas plantas agrestes". Daí que na zona as ruas se denominassem, por exemplo, rua da Erva e rua de Entre-Campos. Por aqui passava uma ribeira, a chamada Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu que tinha uma ponte construída em bambú. Em cantonense chamava-se Kók Kiu ou Ponte Sinuosa. A ponte há muito que deixou de existir mas para memória futura ficou a designação toponímica a relembrá-la... a Travessa da Ponte. Há ainda a rua da ribeira do Patane.
Templo da Barra

terça-feira, 20 de março de 2012

Correios no Largo do Senado ca. 1930

Um selo da década de 1930
O edifício dos Correios é uma projecto da autoria do arquitecto Chan Kun Pui que trabalhava na Repartilção das Obras Públicas. Foi construído entre 1928 e 1931 ano em que foi inaugurado. A inscrição romana na fachada assim o indica. Nessa década deu-se uma grande evolução na história dos CTT no território. Está classificado como "edifício de interesse arquitectónico". A história dos correios em Macau começa em 1884...
"Estava na forja a construção doutro edifício considerado imponente: o dos Correios e Telégrafos no Largo do Senado, considerado na altura majestoso e pleno de modernidade. Ninguém apontou, então, que o seu perfil pesado, sem estilo arquitectónico definido, iria contrastar com a fachada do Leal Senado, nem com outros edifícios do largo, todos cheios de arcadas e varandas, duma airosidade que só agora se reconhece".
Henrique de Senna Fernandes in RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, 1994
Veja este mesmo espaço - e outras paisagens de Macau - na década de 1960 aqui