terça-feira, 18 de agosto de 2026

Fotografia rara de Jack Braga no Seminário de S. José

Jack Braga com seminaristas e padres do Seminário de S. José ca. 1927

As ligações do historiador e erudito luso-descendente José Maria Braga (1897-1988) - conhecido como Jack Braga ao Seminário de São José em Macau são profundas e marcaram o início do seu percurso como um dos maiores investigadores da história da presença portuguesa no Extremo Oriente.
Após a sua família se reinstalar em Macau vinda de Hong Kong no início dos anos 20, José Maria Braga ingressou no corpo docente do Seminário. 
Foi durante vários anos como professor de Inglês, Literatura Inglesa e Inglês Comercial.Impacto na diáspora: Os seus alunos eram jovens macaenses que, graças a esta formação prática em inglês, viriam a alimentar as redes comerciais e a diáspora de Macau para cidades como Hong Kong, Xangai e Cantão.
Foi precisamente nos corredores do Seminário de São José que Jack Braga despertou e consolidou a sua paixão pela investigação documental e história.
Na altura em que Braga ensinava no Seminário, o principal historiador de Macau em actividade era o Padre Régis Gervaix, que ali leccionava francês. Quando Gervaix partiu para a Universidade de Pequim em 1925, Braga assumiu informalmente o testemunho da investigação histórica local.
O Seminário e o seu espólio serviram de inspiração para os seus estudos focados na Companhia de Jesus e no Padroado Português no Oriente. Importa ainda referir que quando o jovem Manuel Teixeira chegou a Macau em 1924, com apenas 12 anos*, para ingressar no seminário, encontrou Jack Braga como seu professor. Refiro-me a Monsenhor Manuel Teixeira que considerou Jack, a par de Charles Boxer, como um dos dois maiores historiadores de Macau.
* estará o ainda menino Manuel Teixeira na fotografia de grupo?

Jack Braga na década 1920

Aquando da morte de Jack Braga em 1988 o padre Manuel Teixeira escreveu no jornal Gazeta Macaense:
"Acaba de falecer em San Francisco, EUA, com 90 anos de idade, este nosso velho amigo. Digo «velho amigo», porque a nossa amizade nunca foi ensombrada durante 64 anos.
Quando chegámos a Macau em 1924, era ele um jovem professor de 28 anos no Seminário de S. José, onde ensinava Inglês e Literatura inglesa.
O único historiador que então florescia era o Pe. Régis Gervaix, nosso professor de Francês, no mesmo Seminário onde leccionava Braga. Mas Gervaix foi convidado pelo Governo Chinês para professor de Literatura francesa na Universidade de Pequim, para onde partiu em 1925.
Jack Braga, que já desde 1920 se interessava pela história de Macau, retomou a bandeira nas suas mãos e ergueu-a triunfante. Durante uma dezena de anos, foi ele o grande historiador desta terra, como o Pe. Gervaix desde 1916. Os seus trabalhos, publicados em Inglês, tornaram Macau muito conhecido no estrangeiro.
Havia outro grande historiador: era Montalto de Jesus, que já em 1902 publicara a sua obra magistral «Historic Macao», que se esgotou rapidamente. Foi Jack Braga que o levou a publicar uma 2a edição e tratou de todos os arranjos; mas, quando esta saiu em 1926, caiu o Carmo e a Trindade; o livro foi queimado junto ao Tanque do Mainato e o seu autor condenado pelo Tribunal, vindo a morrer na miséria. Ainda espera a sua reabilitação. Ficou de pé apenas Jack Braga.
Jack Braga e Boxer completavam-se. Ambos produziram muitíssimo. Braga bem merecia uma condecoração do Governo, que eu propûs várias vezes, mas sem efeito.
Macau tem ainda uma dívida em aberto para com estes seus dois filhos, Montalto e Braga, grandes historiadores da sua terra.
Até quando?"
Igreja do Seminário de S. José
Ilustrações criadas por IA a partir de postais ilustrados
Nota 1:
Jack foi agraciado a título póstumo por Portugal com o grau de Grande Oficial de Ordem de Infante D. Henrique. Inglaterra condecorou-o em 1950 com o título de "Chevalier of the Order of Saint James of the Sward".

Nota 2: Na foto de grupo pode ainda ver-se sentado ao centro Pedro José Lobo (1892-1965)  que chegou a Macau oriundo de Timor em 1901 com apenas 9 anos; e na ponta do lado direito António André Ngan Im Ieoc (1907-1982), ordenado sacerdote em 1931vindo a ser o primeiro padre de origem chinesa a assumir os cargos de vigário-geral e governador do Bispado na Diocese de Macau.

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