Se a História de Macau fosse escrita por um romancista de génio — digamos, um Camilo de sobrancelhas carregadas e pena afiada — ninguém acreditaria nela.
Porque Macau, desde o berço, parece ter sido governada por uma lógica própria, meio divina, meio trapalhona, sempre engenhosa e invariavelmente portuguesa.
No princípio eram os jesuítas.
Não apenas pregadores, mas administradores, urbanistas, diplomatas, médicos, contabilistas e, quando necessário, cobradores de impostos com zelo quase bíblico.
D. Melchior Carneiro, bispo e fundador político da cidade, organizou o Leal Senado, a Santa Casa, o Hospital de S. Rafael — e, sobretudo, o sistema que garantia a sobrevivência de tudo isto: o célebre um por cento dos lucros do comércio da seda e da prata do Japão.
Ora, esse um por cento não era bagatela. Era fortuna. E fortuna, como bem sabia qualquer padre prudente, precisa de paredes grossas. Assim nasceu a obra que hoje chamamos Fortaleza do Monte — mas que, na sua origem, não era fortaleza nenhuma. Era casa forte, cofre monumental, arca de pedra onde os jesuítas pretendiam guardar o tesouro que sustentava Macau.
A ideia de fortaleza viria depois, como tantas coisas em Portugal: por necessidade, improviso e um certo fatalismo que transforma depósitos em bastiões.
Na segunda década do século XVII ergueu-se, pois, a grande torre: paredes de um metro e dez, porta de dupla segurança, escadas lançadas com método e ambição.
Não era ainda fortaleza, mas já tinha o ar severo de quem guarda dinheiro alheio.
E como não havia militares disponíveis — nem vontade de os pagar — a obra ficou entregue aos padres e aos seus escravos. Uns construíam, outros carregavam, todos obedeciam. Macau, desde cedo, habituou-se a esta mistura de devoção e contabilidade.
Quando, a 24 de Junho de 1622, os holandeses tentaram desembarcar, a casa forte ainda não era fortaleza completa. Mas era o que havia.
Os jesuítas, que tinham aprendido a manejar canhões com a mesma destreza com que manejavam almas, puseram os escravos a postos. E, segundo testemunhos dos próprios invasores, deram-lhes uma mistura de vinhos — português, chinês e o que mais houvesse — que produziu nos pobres diabos uma coragem tão súbita quanto devastadora.
Os escravos lançaram-se sobre os holandeses com fúria bíblica. Uma bala disparada da torre — ainda inacabada — veio cair no exacto local onde hoje se ergue o Monumento da Vitória.
Foi milagre, disseram uns. Foi vinho, disseram outros. Foi Macau, digo eu.
Mas a glória durou pouco.
Em 1623, o governador D. Francisco de Mascarenhas, recém-chegado e sem residência digna, decidiu que a casa forte — agora fortaleza — não podia continuar nas mãos de padres.
Mandou vir um destacamento espanhol de Manila e tomou a fortaleza à força, expulsando os jesuítas como se fossem intrusos naquilo que eles próprios haviam erguido para guardar o tesouro da cidade.
E assim, a casa forte dos jesuítas, defendida por escravos, só voltou à Coroa quando militares espanhóis a conquistaram.
Depois disso, o Monte foi residência de governadores, quartel, presídio, comando militar, abrigo de polícias e, por fim, museu.
Cada época deixou-lhe uma cicatriz, uma pedra, uma história.
E assim ficou para a posteridade: começou casa forte, tornou-se fortaleza, foi defendida por escravos, tomada por espanhóis, abandonada por soldados, ressuscitada como museu. Uma obra que nasceu para guardar dinheiro e acabou a guardar memórias.
Artigo da autoria de João Guedes publicado a 13.7.2026 na página da rede social FB "Macau Meio Milénio de Aventura".
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| Vista parcial da cidade a partir da Fort. do Monte: década 1980 |


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