Situada no topo da Colina da Penha, a primitiva Ermida de Nossa Senhora da Penha de França foi edificada em 1622. Ao longo dos tempos foi alvo de várias remodelações. A ilustração feita por IA a partir de fotografia mostra o aspecto que tinha na primeira metade do século 20.
Fresca e airosa, ergue-se, no alto da Penha, a Ermida de Nossa Senhora. É um dos pontos que nos saltam à vista, enquanto nos deslocamos, em passeio ameno, pelas Avenidas que correm ao longo da parte sul da colina. De linhas modernas arquitectónicas, erguendo-se altaneiro o minarete da torre, marca bem a sua presença no cenário desta parte da península.
Domina a enseada da Praia Grande, toda a parte central da cidade, e a marginal do Porto Interior, até se perder de vista, avançando a prospectiva pelo território chinês, num deslumbrante espectáculo, esfumando-se à distância nos cimos das montanhas.
Ponto de interesse paisagístico, de crenças religiosas e de tradições históricas, cremos ser um dos mais apreciados dos que nos visitam e é, com certeza, um dos sítios que vive no coração de todos os portugueses que aqui residem.
Ao lado da Ermida, está a residência episcopal do Bispo da Diocese e, logo na encosta, virada para a cidade, a imagem da Senhora de Lurdes, na sua pitoresca gruta.
Lugar de peregrinações anuais, sobretudo no dia 13 de Maio, também o tem sido em horas de aflição da população citadina. Muito teriam que nos narrar as calçadas que conduzem ao cimo dessa colina se nos quisessem confiar as suas memórias.
E volvendo os olhares sobre o passado vamos descortinar uma ligeira notícia sobre essa colina que não foi descuidada na defesa desta parcela nacional. Embora quase à vista estivessem a Fortaleza do Bom Parto e a de S. Tiago da Barra, aproveitou-se a posição do alto da colina que melhor dominaria as proximidades. Com referência ao ponto de vista de fortificação, diz-nos o padre jesuíta José Montanha, na sua obra manuscrita do século XVII «Aparatos para a História do Bispado de Macau», depois de nos descrever o Baluarte do Bom Parto, o seguinte: «... e deste Baluarte corre o pano de muro para Oeste, e para alto e meio da Ilha está a Hermida de N. Sra. de Penha e desta Hermida descobre o mar da parte de Oeste, e tem uma peça de bronze de seis libras invocada de N. Sra. de Penha, e correndo a ilha da parte de sudeste a largo de tiro de peça está a Fortaleza da Barra».
Numa carta geográfica de Macau, da «Ásia Portuguesa» de Manuel de Faria e Sousa, a Ermida da Penha é-nos apresentada com ligação com a fortaleza do Bom Parto e ainda hoje há vestígios de fortes muralhas, que devem ser os restos das então existentes, com orientação para esse lado.
Noutra carta de Macau, do século XVII, (depois de 1638), extraída duma antiga gravura holandesa, é-nos indicada a posição da Ermida e Fortaleza da Penha, no cimo da colina.
Na descrição de Macau feita pelo italiano Marco de Avalo, incluída na relação da viagem do holandês Rechteren às Índias Orientais (1628-1632), lê-se:
«Edificaram aí uma cidade que é rodeada duma forte muralha e de bons baluartes. Há na ilha três montanhas que constituem como que um triângulo e um forte sobre cada uma delas. Chama-se o mais considerável forte de S. Paulo... Chama-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de la Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome. Está guarnecido com 6 pequenas peças, de 6 a 8 libras de bala».
Na gravura holandesa a que nos referimos anteriormente, «está a muralha que rodeia a ermida coroada de ameias e canhoneiras», na fortificação do alto da Penha.
Disto podemos inferir que aquela pequena elevação foi de grande valor para a fortificação e defesa da cidade. Mas à medida que se foram apagando as fumaças dos canhões, foi-se erguendo mais a capelinha e a Fé dos portugueses, até prevalecerem sobre os escombros das ruínas dessas heróicas construções.
Ambas erguidas em horas de glorioso patriotismo, aliaram-se em espiritualidade para perpetuar a alma portuguesa, sem desmerecer de quanto foram e serão os corações dos nossos antepassados.
in Macau Boletim Informativo (R.C.S.E.) 15 Set. 1955
(excepto ilustração por IA e foto a cores)
O aspecto actual resulta das obras de remodelação concluídas em 1935.

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