LEILÃO
POR ordem do ill.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Bernardino de Sena Fernandes, encarregado do consulado de Perú, os abaixo assignados venderão em hasta publica, no dia sexta-feira 3 de fevereiro, ao meio dia, nas casas n.º 53, sita na Praia Grande, toda mobilia do defunto Eᴅᴜᴀʀᴅᴏ M. Dɪ-Nᴇɢʀᴏ, constando de guarnição de sala, sofás, espelhos, piano, magnificas estampas em molduras, candieiros de augmento de pendurar, cadeiras, mesas de marmore, camas, commodas, lavatorios, armarios, mesas de jantar, e varios outros artigos, segundo o catalogo que se publicará.
E TAMBEM, Uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos, &c., &c., &c.
MARQUES & C.ᵃ Macau, 30 de janeiro de 1871.
Eduardo M. Dinegro era cidadão peruano e morreu a 24 de Janeiro de 1871 em Hong Kong. A existência de um consulado do Perú em Macau deve-se ao comércio/tráfico de cules/coolies (trabalhadores chineses contratados, muitas vezes sob condições de quase escravatura) entre 1851 e 1874. O Perú era um dos principais destinos para onde estes trabalhadores eram enviados para trabalhar nas plantações agrícolas e nas minas.
Com a abolição progressiva da escravatura negra no Perú (concluída na década de 1850), a elite proprietária de terras deparou-se com uma grave escassez de mão-de-obra. A importação de trabalhadores chineses sob contratos de servidão surgiu como a alternativa económica para sustentar a agricultura e a exploração mineira.
Macau transformou-se no principal porto de embarque devido às proibições impostas pelos britânicos noutras regiões da costa chinesa. Agentes privados e firmas locais (como a Dinegro & Landabaso) implantaram-se em Macau servindo de intermediários e operando os chamados "barracões", onde os trabalhadores eram reunidos (quando chegavam da China continental), os contratos eram assinados e os embarques eram organizados.
O inventário dos bens a leilão revela que Eduardo M. Di-Negro pertencia à elite abastada de Macau. Tal como a localização da residência, no nº 53 da Praia Grande, a maio da baía semi-circular. Desde o "piano" às "magnificas estampas em molduras" passando pelas "Mesas de marmore", espelhos, "sofás", "candieiros de augmento de pendurar" e, por fim, mas não menos importante, "uma rica carruagem, arreios, 3 cavallos".
Ter uma carruagem e cavalos na Macau oitocentista era um sinal claro de imensa riqueza. Manter cavalos e carruagem era um sinal de ostentação já que nas estreitas e íngremes ruas da cidade este meio de transporte era altamente desaconselhável sendo usadas habitualmente as chamadas liteiras (ou palanquins), cadeiras de braços compridos à frente e atrás, que eram levadas por homens.
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