sábado, 7 de dezembro de 2019

"Jóia das Terras do Oriente"

Em Abril de 1942 a revista "Panorama" (nº 8) publica um artigo sobre Macau assinado pelo "Comandante Jaime do Inso" intitulado "Macau Jóia das Terras do Oriente". É o que reproduzo neste post bem como as imagens que ilustram o artigo.

 Macau, a cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente é um mimo de paisagem e um mimo de tradição. Ali se abriga um pedaço da China milenária, imbuído da alma prodigiosa da gente de Portugal, que desde séculos criou fundas raízes de simpatia entre os filhos do ex-celeste Império. 
O Oriente é, por excelência, a terra dos imponderáveis, e daquele contacto, único na história dos europeus no Extremo-Oriente, das psicologias opostas, como são as das duas civilizações, a ocidental e a chinesa, resultaram também aspectos únicos no campo material, como são aqueles que nos oferece Macau, diferentes de tudo quanto a expansão europeia criou em terras de Catai. 
Macau, com as suas ruas e calçadas tão tipicamente portuguesas, como se não vê em mais colónia alguma do Oriente; com as suas casinhas de côres garridas, como num cenário, espalhadas pelos montes; com as suas vielas e becos nos velhos bairros e edifícios modernos nas novas avenidas, os seus miradoiros, as suas ruínas, muralhas e templos com os sinos a dobrar, aparece-nos como um presépio encantador, em dias de primavera, evocando a maior saudade de Portugal! ´
Macau, com seu bairro china ou Bazar, onde fervilha o formigueiro chinês, num vai-vém constante, por entre os Cou-laus ou restaurantes, as cozinhas ambulantes, os gerinshás e as notas garridas das Pi-pá-chai; com os seus inúmeros Pagodes, onde, na sombra, se divisa Buda por entre as volutas do sândalo queimado; Macau, onde se respira a atmosfera calma e perturbante da China que nos atrai e embriaga, que se detesta e se repele, só para mais nos cingir e dominar, Macau é, ainda, um símbolo do encantamento da China que, quanto mab nos martiriza, mais nos prende e lhe faz querer. 
Macau, janela aberta sôbre a vastidão infinda da Terra Amarela, é um oasis de placidez, estação de repouso inegualável, preciosa e bela, jóia lusitana encastoada nas longínquas costas da China, onde tantos estrangeiros iam respira r uma atmosfera de estranha quietitude no meio da vertiginosa vida do Oriente, naquela mística embaladora que lhe empresta a pátina do tempo, numa evocação nostálgica das aventuras doutras eras. Mas não é uma cidade morta, longe disso! Tanto em terra como no mar, tem uma vida própria, inconfundível, e conhecemos-lhe dias duma palpitação febril e feliz, tanto entre a multidão chinesa como na comunidade europeia. 
O europeu, assim que chega - ou chegava - ao Oriente, como que sobe, domina, sente-se mais alguém, abrem-se-lhe novos horizontes e, em contrapartida, quando regressa ou regressava ao Ocidente, volta ao nível anterior, numa descida tão brusca e desastrada, que não era raro sentir-se ferido... Era assim a vida na China, fácil, faustuosa, servindo-nos vários criados, como o meio impõe, decorrendo num turbilhão constante em que um ano vale por três, durante os quais, numa vida intensa, tôdas as agruras que a China nos reserva, e não só a China como os europeus que lá vivem, como que se esbatem e apagam num sonho de sêdas, num mistério opiante...
Mas, voltemos à paisagem de Macau, recordemos um pouco. A Avenida Almeida Ribeiro, o coração da cidade, regorgita de gente, naquele cenario típico das casas cobrindo os passeios, com arcadas, as paredes revestidas de taboletas, bandeiras e lanternas, ostentando tudo aquela ornamentação tão característica e caprichosa dos extravagantes caracteres chineses, tão decorativos como enigmáticos. Dir-se-ia uma amostra da colmeia da China imensa, asfixiante, onde a custo se divisa um europeu ou eurasiano, como os ingleses chamam aos descendentes de europeus com sangue asiático. Pululam os ric-shós, passam chinas carregando cestos pendentes de bambus, açodados; chineses de calças e cabaia, outras já envergando as nossas saias, acotovelam-se nos passeios, enquanto o moço A-tai, o nosso chauffeur habitual, aparece, calmo e cuidadoso, conduzindo o carro, e vamos encetar o passeio que nunca cansa, tão variados e típicos sfo os panoramas da minúscula e encantadora Macau. Já corremos pelo Patane, bairro excêntrico e marítimo, ao fundo do Pôrto Interior, para contornar os novos atêrros e o antigo Campo de Corridas, subúrbios, por assim dizer, se tal nome se pode aplicar a Macau, e ei-nos na região paradisíaca do Jardim da Flora, pelas estradas assombreadas que vão à Montanha Russa, até começarmos a ascenção da Guia, onde a cada volta da encosta a vista se deleita num variar incessante da paisagem que, vista uma vez, não esquece mais. Oêste lado, é o casario polícromo de Macau que se estende até ao nível da água, com manchas de verdura, como o Jardim da Gruta de Camões emergindo por entre um xadrez de velhos telhados que fazem lembrar Alfama, ou as tôrres dispersas dos templos cristãos; do outro, é a paisagem da Rada, como que mergulhada num sonambulismo fatídico, onde as águas mortas estão salpicadas das sombras das lorchas, embarcações estranhas, típicas, de velas de esteira amarela, que se abrem como braços presos a um destino de séculos sem fim, mergulhados muna tristeza indisível, imensa, que constitui um encanto pungente, um veneno, uma traição da China obcecante ... 
Mas eis que já se divisa, numa volta da estrada, o alto da Penha, com seu templo antigo, hoje restaurado - um monumento - onde os nossos marinheiros de antanho iam depôr suas promessas à chegada a Macau, como que tecendo um fio de religiosidade entre a barra do Tejo e as distanciadas paragens, daquelas partes da China, como então se chamava. O panorama é soberbo! A nossos pés, estende-se um mapa em relêvo, rico de côres e de contrastes, em recortes caprichosos no arrendado da costa, uma paisagem preciosa e insuspeitada em Portugal. 
Em cima e já perto de nós, eleva-se o primeiro farol que iluminou as costas da China - o da Guia - e vamos agora na descida vertiginosa, deixando o cemitério dos Parses, em alcandorada vertente sôbre a Rada, para penetrarmos de novo na cidade, onde, àquela hora, nos hotéis europeus e chineses, se rende o tradicional culto ao chá.
Mas não é para nenhum daqueles pontos de reunião, tão apreciados no Oriente, que nos dirigimos agora, mas sim para um recinto delicioso, discreto e bordado de verdura, fora do bulício da cidade: o Ténis dos Estrangeiros. Tarde encantadora, quási ao pôr do Sol, o céu deslumbrante de côres, como as dos poentes orientais. A assistência cosmopolita e requintada, toilletes vaporosas, um serviço de chá primoroso, capaz de satisfazer a um sonho de gulosos... Aquele entardecer tem qualquer coisa de subtil beleza e encantamento, soa-nos como uma música suave e exótica, aparece-nos como uma visão de terra de fadas, que se fixa uma vez e não mais se apaga. - Play - e a voz duma inglesa, arremeçando a bola, solta-se, em nota sonora, a chamar-nos ao nosso mundo... 
É manhã. Estamos a bordo da velha Pátria, filha da alma generosa dos portugueses do Brasil, no Pôrto Exterior de Macau, já com pressão nas caldeiras. Na modorra duma neblina que envolve tudo, como visco pardacento, naquela tão característica paisagem da China que pesa como chumbo e nos embota os nervos, toca à faina, subimos à ponte e damos a ordem: -Larga! - o navio deixa a bóia e vamos tateando pelo canal, Rada fora, rumo à ilha de Coloane, donde, em 1910, expulsámos os piratas, para ali fazermos exercícios de artilharia, segundo as ordens do Chefe. Colocam-se as bóias, servindo de balizas, fundeam-se os alvos, inicia-se o tiro com o navio a navegar, só com intervalo para as refeições, e a atmosfera torna-se enervante, aquece, custa a respirar. 'É que, ao largo, há dias que anda um tufão que parece exitante, pára e avança lentamente, e mal termina a faina do dia, recebe-se um aviso de tufão dizendo que êste, quási parado, caminha agora, ràpidamente, em direcção à Colónia Interrompe-se o descanço, recolhe-se tudo a bordo e, ferro em cima, regressamos a Macau, desta vez ao Pôrto Interior para, com maior segurança, recebermos a indesejável visita da tempestade devastadora.
Pelo estreito canal que leva à Ilha Verde, onde o navio se recolhe, era como se a Pátria fôsse navegando pela rua marginal, tão chegada ia à terra. Pegou-se na bóia, as amarras dobradas, máquinas prontas, e aguentámos na ponte, durante dez horas, a espantosa violência do temporal, sem que pudessemos valer a naufragos que passavam perto - tanto era o vento que nem deixava falar! O tufão passou, sombrio e terrível, um dilúvio de água, um inferno de vento, naufrágios, mortes, desastres, um cataclismo de horrores, até que volta a bonança e se reganha a vida que estivera paralizada. O formigueiro humano recrudesce - dir-se-ia, com mais fôrça, - após estes cataclismos que periódicamente assolam a China. Voltam os dias de primavera, volta a sorrir a terra, volta a animar-se o mar, reaparecem as sêdas e as silhuetas das Pi-pa-chai, a vida espraia-se de novo naquele ondear incessante e bonançoso que é a característica da China nos intervalos das procelas. É manhã, um sol doirado ilumina os telhados. Tocam os sinos para a missa e, na velha Fortaleza do Monte tremula, há quatro séculos, a bandeira de Portugal! É assim Macau - A Cidade Santa, a jóia das Terras do Oriente!


Jaime do Inso (1880-1967) foi um oficial da marinha Portuguesa que serviu em Macau e Timor na primeira metade do século XX.  Pertenceu à chamada geração de orientalistas portugueses, juntamente com nomes como Wenceslau de Moraes, Alberto Osório de Castro e Camilo Pessanha. Escreveu várias obras sobre a China e Macau que podem ser vistas aqui no blogue.

Biografia resumida
Jaime Correia de Inso nasceu a 12 de Outubro de 1880 em Nisa. Aos 18 anos assentou praça no regimento da Infantaria 22 e integrou, no ano seguinte, o corpo de alunos da Armada. Em 1903 é promovido a guarda-marinha e três anos depois a segundo-tenente. Ao longo da carreira ascendeu ainda à posição de capitão-tenente e capitão-de-fragata, cargo no qual passou à reserva em 1938.
Em Macau, terra à qual dedicou praticamente toda a sua obra literária, serviu na Estação Naval e também na Marinha Colonial, tendo comandado a canhoeira “Pátria” entre 1926 e 1929, altura em que esta se encontrava em serviço no Mar da China. Durante o período em que esteve em comissão de serviço no Extremo Oriente manteve uma colaboração com o semanário de Macau “A Pátria”. Já em Portugal, os seus contributos para a imprensa estenderam-se entre outros, ao jornal “Diário de Notícias”.
Em 1932 e 1933 Jaime do Inso publica duas edições de autor, respectivamente, “O Caminho do Oriente” e “Visões da China”. 
Sobre o primeiro, o conde de Penha Garcia, que assina o prefácio da obra, escreve: "O autor conhece bem esse maravilhoso caminho, elaborou através de um enredo simples uma série de descrições de viagem palpitantes de vida, que terminam com um pequeno drama sentimental vivido em Macau.” 
Ao longo da carreira militar dirigiu a Escola Prática de Artilharia Naval e prestou serviço na Direcção Naval do Atlântico-Sul, no Corpo de Marinheiros, na Majoria General da Armada, na Intendência do Arsenal e no Estado-Maior Naval, tendo ainda desempenhado funções de defensor oficioso no Tribunal da Marinha. Já no fim da carreira teve a seu cargo a direcção da Biblioteca e do Museu da Marinha, ao qual legou alguns objectos seus e um espólio fotográfico. Morreu em Lisboa a 7 de Outubro de 1967.

2 comentários:

  1. Maravilhoso artigo adoro Jaime do Inso...A quando da minha estadia em Macau, Visões da China ���� foi o meu livro escolhido para a viagem... Parabéns João por este lindíssimo artigo ��☺️

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