sexta-feira, 13 de março de 2026

Memórias de Manuel Cotovio (1970-1971)

Manuel Cotovio prestou serviço militar em Macau entre Fevereiro de 1970 e Dezembro de 1971 pertencendo ao esquadrão de cavalaria nº 4 criado em 1967 e extinto por volta de 1974 quando foi adstrito ao PPM8275.
À semelhança de outros ex-militares, desafiei-o a recordar Macau do início da década de 1970 e o que se segue é o relato na primeira pessoa após várias trocas de emails. Algumas das imagens são de MC outras são da época e pretendem ilustrar a Macau que Manuel Cotovio conheceu. Depois de o ter feito pessoalmente, deixo aqui publicamente o meu agradecimento - e as desculpas pela publicação tardia - por mais este testemunho inédito e exclusivo do blogue Macau Antigo.
Quando fui mobilizado dissera-me que ia para Angola e só quando cheguei aos adidos é que soube que ia para Macau. A viagem começou com o embarque em Lisboa no dia 26/12/1969 no navio Timor. Como era soldado e não havia camarotes era passageiro de 3ª no porão. Eramos quase 200, uns iam para Macau outros para Timor. Fizemos escala em Lobito, Luanda e Beira Lourenço Marques. Mas desembarquei em Hong Kong, apanhei o barco para Macau onde cheguei às 22 horas de 12 de Fevereiro de 1970.
Fui colocado no EC4 (Esquadrão de Cavalaria) que ficava junto ao Jardim da Flora e do Quartel da Policia. O comandante nessa altura era o capitão Casquilho, e o Governador de Macau o Nobre de Carvalho. No inicio fez-me muita confusão quando ia fardado na rua ver as pessoas a desviarem-se e algumas até punham o lenço a tapar a cara, nos autocarros não  se sentavam ao nosso lado, e no cinema com certeza que tinham um código porque os lugares eram marcados quando adquirimos o bilhete e lá dentro nunca tínhamos vizinhos. Mais tarde depois soube que eram restos da rebelião de 1966. Felizmente que isso foi quase logo ultrapassado.
A inauguração do Hotel Lisboa foi nessa altura. Ia lá todos os dias beber um cafezinho no coffee shop e ainda lá ouvi uns faditos. Também gostava do Estoril que ficava perto do quartel. Ao Macau Palace (casino flutuante no Porto Interior) também fui algumas vezes. Havia música. Tenho saudades do Restaurante Belo na Av. Almeida Ribeiro, faziam uns cachorros que era de comer e chorar por mais. Havia ainda o Ruby e o Safari.
À praia a Coloane só fui dois fins-de-semana. Foi também num fim de semana que fui à Taipa. Não havia ponte e a viagem era de barco. Ao Canídromo é que fui mais vezes. Gostava muito do espectáculo e das peripécias que envolviam as corridas de galgos mas era raro jogar. O dinheiro não era muito e tinha de dar para os cigarros.  Um maço custava 20 avos com oferta da caixa de fósforos. Por vezes ia ao cinema. Lembro-me do Apollo onde vi o filme Woodstock e já aqui no blog veio-me à memória o Nam Van. Outra coisa que já não me lembrava mas ao ver as fotos recordei muito bem era aquela técnica de pesca com redes e bambús. O quanto eu fiquei admirado com aquilo...

O EC4 estava aquartelado num edifício tipo pré-fabricado revestido a chapa ondulada de alumínio parecido com os que os americanos usavam no Vietname. As traseiras estavam mesmo junto ao jardim da flora. Do lado esquerdo, num nível inferior, era  uma escola.
Um soldado recebia de pré 100 patacas ora não me dava para grandes aventuras por isso hotéis só ia a esses três que anteriormente referi, e muitas vezes era para ver jogar bowling e nas máquinas que estavam cá fora porque não tínhamos autorização para entrar no salão nobre dos casinos.
Quanto aos soldados éramos 13 mas só me lembro de um nome, foram outros para o Quartel General; não sei se chegamos aos 50. Tinha uma agenda com alguns apontamentos onde tinha nomes e endereços de todos do EC4 e de outros que vieram no barco só que quando chegamos a Lisboa desembarcamos quase madrugada e no quartel dos 'adidos' com a confusão de entregar o espólio perdi uma malita com algumas coisas sem valor material mas com interesse sentimental.
Ir ao SPM (Serviço Postal Militar) era uma das minhas funções: buscar e levar correio. Tinha um cartão de livre trânsito para andar na rua, mas a maior parte das vezes apesar de não ser muito longe ia no jipe com o condutor de dia.
Entrada para o antigo paiol (fotos séc. 21)
Nos primeiros seis meses cheguei a prestar serviço ao paiol da estrada de Cacilhas. Fiz umas guardas nessa guarita frente ao paiol. Nesse espaço, a casa da guarda, dormíamos e tomávamos as refeições. Numa outra guarita fazíamos reforços à noite. Havia aí um túnel que diziam atravessar o monte da guia e ligar à parte sobranceira ao nosso quartel. Não sei se tinha fundamento mas as entradas ou saídas estavam lá.
Uma vez na parte de Cacilhas tentei entrar lá com um cão que era o nosso companheiro nas noites de reforço, mas só andamos uns metros pois o cão começou a ganir e ladrar e a recuar. Eu também tive medo e voltei para traz já que a visibilidade também era pouca."

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