A Batalha de Macau, travada entre 22 e 24 de junho de 1622, é considerada uma das vitórias mais improváveis e espetaculares da história militar luso-asiática. No contexto da Guerra Luso-Holandesa (durante a União Ibérica), a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) tentou conquistar Macau para arrancar de Portugal o lucrativo monopólio do comércio de seda e prata com a China e o Japão.
O que se seguiu foi um autêntico "milagre" militar, onde uma força improvisada derrotou uma armada profissional.
O Cenário e a Desproporção de Forças
A armada holandesa, comandada pelo almirante Cornelis Reijersen, surgiu ao largo de Macau com 13 navios e cerca de 1.300 homens (incluindo soldados europeus, mercenários japoneses e guerreiros de Banda).
Do lado de dentro, Macau estava quase desguarnecida. O grosso dos homens aptos tinha partido na viagem comercial anual para o Japão ou estava a lutar na China Continental contra os tártaros a pedido do Imperador Ming. O Capitão-Mor Lopo Sarmento de Carvalho contava com uma força ínfima:
Cerca de 50 a 150 soldados e moradores luso-macaenses capazes de pegar em armas.
Um contingente de escravos africanos (de Moçambique e Angola) e asiáticos.
Alguns frades e jesuítas dispostos a lutar.
A Fortaleza do Monte, que ainda estava em construção.
O Relato do Confronto
1. O Bombardeamento Inicial (23 de junho)
Os holandeses começaram por bombardear o bastião de São Francisco para criar uma distração. Os marinheiros invasores, confiantes na vitória, passavam a noite a tocar tambores e trombetas, chegando a gritar ameaças para a costa. O capitão Reijersen enviou espiões para saber se a população chinesa da cidade (cerca de 10.000 pessoas) se juntaria a eles; os espiões regressaram informando que os civis chineses tinham simplesmente fugido para o interior, permanecendo neutros.
2. O Desembarque na Praia de Cacilhas (24 de junho)
Ao amanhecer do dia de São João Batista, cerca de 800 soldados holandeses e mercenários desembarcaram na Praia de Cacilhas sob fogo cerrado de um pequeno grupo liderado pelo macaense António Rodrigues Cavalinho. Na escaramuça inicial, o próprio almirante holandês Reijersen foi baleado no ventre e teve de ser evacuado para o navio, passando o comando a Hans Ruffijn.
Os holandeses conseguiram avançar terra adentro, forçando a retirada dos portugueses, e marcharam em direção ao centro da cidade, passando pelas faldas da Colina da Guia.
3. O Tiro de Sorte dos Jesuítas
Foi neste momento que a engenharia e a sorte mudaram o destino da batalha. Na Fortaleza do Monte, o padre jesuíta Giacomo Rho (um matemático e astrónomo italiano) apontou pessoalmente um dos grandes canhões da fortaleza em direção ao corpo principal do exército holandês em avanço.
A bala de canhão atingiu em cheio o carro de pólvora e munições dos holandeses, provocando uma explosão devastadora que quebrou a linha de avanço, espalhou o pânico e deixou os invasores sem capacidade de reabastecimento.
4. A Carga dos Escravos e a Vitória Final
Aproveitando o caos provocado pela explosão, Lopo Sarmento de Carvalho gritou o famoso brado de ataque. Quem liderou a investida mais feroz e decisiva foram os escravos africanos dos moradores de Macau, armados com lanças, alabardas e mosquetes. Motivados pela promessa de alforria em caso de vitória, e os jesuítas que os incentivavam com imagens de São João Batista, os escravos investiram com tanta fúria que os holandeses, aterrorizados, começaram a recuar em debandada.
O comandante holandês substituto, Hans Ruffijn, foi morto no combate. Os invasores fugiram em pânico absoluto de volta à Praia de Cacilhas. Muitos afogaram-se nas águas de Macau quando os barcos de salvamento viraram com o excesso de peso dos soldados em fuga.
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| Mapa publicado no boletim da Agência Geral das Colónias em 1926 |
O Rescaldo do "Milagre de São João"
As perdas foram extraordinariamente desproporcionais:
Holandeses: Entre 300 a 500 mortos (incluindo 7 capitães), centenas de feridos e a perda de quase todas as suas armas e bandeiras no campo.
Portugueses: Apenas 4 europeus mortos e cerca de duas dezenas de escravos e locais falecidos.
Consequência Histórica: Impressionado com a lealdade e a eficácia da defesa da cidade (e a bravura dos escravos, muitos dos quais foram imediatamente libertados pelos seus senhores), o Rei de Portugal nomeou no ano seguinte (1623) o primeiro Governador oficial de Macau, fechando as portas a novas investidas europeias e garantindo a permanência portuguesa no território por mais de 350 anos.
São João Batista foi imediatamente declarado o Padroeiro de Macau, e o dia 24 de junho foi celebrado na cidade como o "Dia de Macau" durante séculos.

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