Em cima um postal ilustrado publicado em Hong Kong - Graça & Co. - no final do século 19/início do século 20 (os selos são já da República). Tem como legenda "Mulheres de Dó, Macao". Tudo indica que a fotografia foi tirada na Praia Grande.
"A sahida da missa" é a legenda da fotografia publicada na "Illustração Portugueza", edição semanal do jornal O Século (Portugal), a 4.12.1908.
Excerto do artigo:
"Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.
A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive."
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| Desenho por IA a partir do postal referido |
No contexto do crioulo-português de Macau, "nhonha" é usado para designar uma moça, garota ou mulher nova. As nhonhonas eram as mulheres/senhoras que vestiam o traje de "dó" em certas ocasiões, como a missa. As mulheres usavam uma saia comprida e um manto largo que cobria a cabeça e os ombros. Em situações de luto fechado, o manto era puxado para a frente para esconder parcialmente o rosto, como se vê nas figuras à esquerda.
Na livro "O Traje da Mulher Macaense Da Saraça ao Dó das Nhonhonha de Macau", de Ana Maria Amaro (Instituto Cultural de Macau, 1989):
"Nos primeiros tempos da ocupação de Macau pelos portugueses as mulheres asiáticas ou euro-asiáticas que os acompanhavam usavam um trajo original que se vulgarizou em todas as cidades do Oriente onde estes se fixaram. Este trajo nem era aquele que usavam as mulheres portuguesas da Europa nem o trajo próprio de nenhuma das etnias asiáticas. Como teria nascido este trajo que, no Oriente, era conhecido por saraça-baju ou pano-quimão?"




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