segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

domingo, 20 de dezembro de 2020

"Avizo" do Governador em 1851

Acabado de tomar posse como Governador de Macau, Timor e Solor a 3 de Fevereiro de 1851, Francisco António Gonçalves Cardoso (1800-1875) manda publicar o seguinte "avizo" no Boletim da Província de Macau, Timor e Solor a 8.2.1851:
"São prevenidas as pessoas que quizerem fallar a S. Exa. o Governador sobre negocios d'interesse particular, que o poderão procurar nas Segundas e Quintas feiras, das oito horas da manhã até à uma hora da tarde, mas para os de interesse geral e principalmente os de urgencia estará prompto a qualquer hora. - Macao, 3 de Fevereiro de 1851 - António José de Miranda, Secretario do Governo."
O Conselheiro (real) e Capitão de Mar-e-Guerra, Francisco António Gonçalves Cardoso chegou a Macau a 26 de Janeiro de 1851. Foi nomeado por Decreto de 17 de Outubro de 1850, sucedendo ao Conselheiro e Capitão de Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha, que morrera em Macau. 
O governador nomeado veio de Hong Kong e o desembarque da corveta D. João I (imagem acima) ocorreu ao meio-dia, no cais chamado do Governador (na Praia Grande, frente ao Palácio do Governo e das Repartições que ainda não era o que hoje se conhece por esse nome - é onde está actualmente o antigo Tribunal). Após a recepção no Palácio do Governo ouviu missa na capela do Palácio e à noite participou num jantar com a presença dos membros do Conselho do Governo e da Câmara Municipal, Cônsules, Comandantes das Corvetas e Fortalezas e demais autoridades.
Foi investido na posse do Governo a 3 de Fevereiro de 1851, pelas cinco da tarde, na porta principal da Fortaleza de S. Paulo do Monte, como era tradição, recebendo do Conselho do Governo a chave da dita Fortaleza e o bastão, símbolos da posse do Governo do território. 
Depois da posse o governador dirigiu-se à Igreja da Sé onde depositou o bastão aos pés da Nossa Senhora da Conceição (padroeira de Macau) e onde se cantou um solene Te-Deum com a presença do Bispo D. Jerónimo da Mata. O dia terminou com uma recepção no Palácio do Governo. 
Teve um dos mandatos mais curtos da história dos governadores de Macau - nove meses - sendo exonerado do cargo a 18 de Novembro do mesmo ano em que tomou posse.
Francisco António Gonsalves Cardozo (nome original), era natural de Aljubarrota onde nasceu a 9 de Fevereiro de 1800.
Alistado na Academia de Marinha, completou o curso em 1821 dando início a uma carreira de 50 anos que o levou até ao posto de Contra-Almirante.
Foi ainda Governador-Geral da Província de Angola e recebeu várias condecorações:
Título do Conselho de Sua Magestade, Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, Cavaleiro de Nossa Senhora da Conceição, Cavaleiro e Comendador da Ordem de São Bento de Aviz, Oficial da Legião de Honra (França), Oficial da Ordem da Roza (Brasil), Comendador da Ordem do Leão Neerdelandêz (Holanda), Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica (Espanha).
No final da vida foi Ajudante de Campo de Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Luiz 1º. Morreu a 24 de Fevereiro de 1875.

sábado, 19 de dezembro de 2020

"A Riviera of Cathay"

Travelette - 
By Niksal
A Riviera of Cathay. Macao, a day ride by steam boat from Hongkong or Canton, is a Portuguese city of the far east known to travalers as "The Monte Carlo of the Orient". Whatever gambling hell, opium dens and other rendez-vous of vice the China coast can boast of as 'celebrated' are to be found in Macao. Macao’s similitude with Monte Carlo may be seen from more ancles than one. The city winds itself about a gently sloping hillside. Splendid drives line the waterfront, and picture a strange contrast with the swarms of Junks and sampans cluttered about the wharves. Throughout the town are many subtropical gardens and parks, enveloped in an atmosphere of heavily scented flowers. There are beautiful residences — the most palatial in all China. 
In the heart of the orient, Macao is less oriental than any other city of the east. Its atmosphere, its shops, its customs and even its population are Latin. This may be accounted for by almost five centuries of Portuguese domination. The people of Macao are strangely half Portuguese, half Chinese with the former strain seeming to dominate. Centuries of Intermarriage have brought about this. Superficially. Christianity seems more firmly established In Macao than elsewhere in China. More than half the natives pass as believers, and hundreds of priests and nuns may be encountered in the streets. And yet, Macao has been characterised by travelers as the "most vicious of cities.” The opium habit is more widespread there than anywhere else in the world. Gambling, of course, flourishes openly and is often carried to disgusting excesses. Men have been known to stake their lives, and women their virture, on a single cast of the die, or a single spin of the wheel.
in San Jose Mercury News (EUA), 1.11.1918

Tradução

Travelette - Por Niksal 
A Riviera do Catai. Macau, a um dia de viagem de barco a vapor de Hong Kong ou Cantão, é uma cidade portuguesa do Extremo Oriente conhecida pelos viajantes como "O Monte Carlo do Oriente". Qualquer que seja o inferno do jogo, antros de ópio e outros pontos de encontro de vício na costa da China pode orgulhar-se de ser 'celebrada' pode ser encontrada em Macau. A semelhança de Macau com Monte Carlo encontra-se em vários aspectos. A cidade serpenteia numa encosta ligeiramente inclinada. Esplêndidas avenidas alinham-se à beira-mar onde se apresenta um estranho contraste com os múltiplos juncos e sampanas desordenados nos cais. Por toda a cidade há muitos jardins e parques subtropicais, envolvidos por uma atmosfera de flores fortemente perfumadas. Existem belas residências - as mais palacianas de toda a China. 
No coração do Oriente, Macau é menos oriental do que qualquer outra cidade do Oriente. O seu ambiente, as suas lojas, os seus costumes e até a sua população são latinos. Isto pode ser explicado por quase cinco séculos de domínio português. A população é estranhamente composta por portugueses e chineses, com estes últimos a dominar. Séculos de casamentos mistos levaram a isso. Superficialmente. O cristianismo parece aqui mais sólido do que em qualquer outro lugar na China. Mais de metade dos locais são crentes, e centenas de padres e freiras podem ser encontrados nas ruas. No entanto, Macau tem sido caracterizado pelos viajantes como a "mais cruel das cidades". O hábito do ópio está aqui mais enraizado do que em qualquer outra parte do mundo. O jogo, claro, floresce abertamente e muitas vezes é levado a excessos repugnantes. Os homens são conhecidos por arriscarem a própria vida, e as mulheres a sua virtude, em apenas um lançamento de dados ou num giro da roda de qualquer jogo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Cassete "Macau" da Tuna Macaense: 1983

Depois da gravação em 1970 a Tuna Macaense voltou aos estúdios para gravar esta cassete com 11 músicas editada em 1983 pelo Departamento de Turismo de Macau.



Na fotografia da capa uma guitarra portuguesa e um xaile na Fortaleza do Monte.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Os Mini-Moke

Os mini-moke foram uma 'marca' de Macau nas décadas de 1980-90. O veículo era usado essencialmente por turistas (imagem abaixo), mas a história deste modelo é mais antiga. Em cima uma imagem do Grande Prémio de 1967 atesta isso mesmo.
O modelo foi produzido entre 1964 e 1993. O nome advém da base do veículo, o Mini, e o "moke" é uma alusão ao dialecto arcaico 'donkey. Foi produzido em diversos países, incluindo Portugal (Vendas Novas e Setúbal) na década de 1980. O feito deve-se a Jim Lambert que fixou residência em Portugal e aqui morreu em 2010.
Informação incluída num guia turístico de 1986
Excertos de alguns guias turísticos dos anos 80 e 90 do século 20:
"One of the most convenient and fun ways to get about the enclave is to hire a mini-moke"
"These open - topped jeep - like vehicles are one of the most popular forms of tourist transport"
"This jeep - like vehicle is the latest addition to transportation available in Macau"
"Mokes - small jeep - like vehicles - painted in bright colours, are available for hire at about MOPS220-320 per day (discount given on weekdays), unlimited mileage"
"Taking a mini moke (a small open jeep) is a good way to sightsee"

"The best way to seek it out is by Moke, the only available self - driven rental vehicle. They're brightly colored mini-jeeps with bratty little horns and lots of spunk."
"The only vehicles currently for rental in Macau are mini-mokes, nippy little open jeeps. Drivers need an international license (...)"
Mini-Moke escala 1/43: alusivo a 1999

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Plan de la rivière de Canton, Macao, et autres isles circonvoisines

Plan de la rivière de Canton, Macao, et autres isles circonvoisines, Liébaut, 1736
"Mapa do Rio Cantão, Macau e outras ilhas vizinhas"
Liebaut é o cartógrafo autor desta carta náutica da primeira metade do século 19.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Die Holle von Macao / The Corrupt Ones

A 3 de Maio de 1968 dava-se a estreia no cinema Eden (imagem abaixo do anúncio publicado nesse dia na imprensa portuguesa) em Lisboa de "Os Corruptos",  um filme "explosivo como dinamite". 
Rodado na Alemanha Ocidental (RFA) em 1966 enquadra-se nos géneros policial, romance, mistério e aventura. Foi gravado num estúdio em Berlim onde se recrearam os ambientes de Macau, mas houve também filmagens em Macau e Hong Kong. Trata-se de uma co-produção entre a França, Itália e a Alemanha, país onde ocorreu a primeira exibição em Janeiro de 1967. Nesse ano foram vários os filmes estreados com alusão a Macau.
De acordo com o país em que foi exibido o filme teve vários nomes: Die Holle von Macao, The Peking Medallion, O Medalhão de Pequim, Os Corruptos, The Corrupt Ones, Hell To Macao, Los Corrompidos, etc... 
Os protagonistas são Elke Sommer e Robert Stack. Stack era a estrela do momento na série televisiva "Os Intocáveis" e Elke a 'sex-symbol' da década de 1960 e uma das poucas actrizes europeias que na altura vingou em Hollywood. Inclui ainda Nancy Kwan uma das primeiras mulheres de origem asiática (nasceu em Hong Kong em 1939) a vingar em Hollywood. A realização desta película de 90 minutos é de James Hill.
"From the four corners of the earth... From the four corners of Hell... the hunt for the Peking Medallion drew them to Macao, the deadliest city in the world!"

"Dos quatro cantos da terra... Dos quatro cantos do Inferno... a caça ao Medalhão de Pequim leva-os a Macau, a cidade mais mortífera do mundo!"

Die Holle von Macao,The Peking Medallion, Hell to Macao,  Os Corruptos, Los Corrompidos, Les Corrompus,  The Corrupt Ones, Il Sigillo Di Pechino... different titles for the same movie from 1967. 
Directed by James Hill and Frank Winterstein and starring Elke Sommer, Robert Stack, Nancy Kwan and Werner Peters. 

The film was a co-production between France, Italy and West Germany although it was shot in English. 
The films German-language title is "Die Hölle von Macao". 
Filme locations: Berlin (studio), Macau and Hong Kong.
A freelance photographer who works in China unwittingly gains possession of a priceless cultural treasure, the Peking Medallion. His find leads him to the arms of two women: one sincere and the other deadly. And also attracts the attention of a number of criminal gangs.


"Apenas Macau, a cidade mais mortífera do mundo actualmente, poderia gerar o mal d' ... Os Corruptos."
"Only Macao, deadliest city in the world today, could spawn the ultimate evil of... The Corrupt Ones."

Embora seja uma produção alemã o filme é em inglês.
A tradução literal do título alemão seria "Macau infernal"

Os dos intervenientes tem nome português, Pinto.
Sinopse: Um fotógrafo freelancer descobre um tesouro antigo, o Medalhão de Pequim, que também atrai a atenção de várias gangues de criminosos.
A crítica da época elogiou a excelente fotografia do filme - em cima rodagem de uma cena em Hong Kong - e deu nota negativa ao excesso de cenas de tortura.



Uma das várias formas de promoção do filme foi este pequeno 'jornal' com o título "The Macao Observer".
Dusty Springfield interpreta o tema "The Corrupt Ones". 
O compositor francês Georges Garvarentz assina a banda sonora.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Grémio/Clube Militar: 150 anos de história

O Grémio/Clube Militar foi fundado em 1870 
conforme consta da acta e da inscrição na fachada do edifício

“Aos vinte dias do mês de Abril de 1870, na sala dos oficiais do Quartel do Batalhão de Infantaria, reunidos os oficiais ao serviços do referido Batalhão, propôs o alferes Dores organizar-se um Grémio não só para ponto de reunião, como,mui principalmente, para nele se estabelecer uma biblioteca de livros militares, cientificos e de qualquer outro assunto, havendo tambem jornais, jôgo de armas e de todos os permitidos por lei. Aceite a proposta pela corporação , nomeou o chefe da mesa preparatoria, da qual tomou a presidencia, a fim de imediatamente se proceder por escrutinio á eleição dos oficiais que deviam elaborar o projecto de estatutos para o referido Gremio. 
Recolhidos os votos, foram eleitos: presidente, o capitão Manual de Azevedo Countinho, vogais, o tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho e o alferes Rafael das Dores, sendo este o secretario. Nomeada a comissão, ficou logo convencionado que podiam ser sócios do Gremio todos os oficials de exercito, marinha, reformados e aspirantes. Em seguida o presidente deu a mesa por dissolvida e encarregou a comissão de fazer convidar para socios todos os oficiais nas circunstancias acima, sendo estes os fundadores, os quais avisariam para as sessões em que forem presentes os estatutos, e assim terminou esta reunião do dia 20 Abril de 1870.”
O edifício foi inscrito na Conservatória do Registo Predial de Macau a 8 de Junho de 1872

“Predio urbano de um andar que contem 13 janelas, 6 portas que deitam para as varandas e 2 de serventia, medindo a area de toda a propriedade dois mil duzentos e onze covados quadros portugueses; é situado na Rua da Praia Grande entre o jardim e a Fortaleza de S. Francisco, freguesia da Sé, e tem o numero de policia; confina pelo Norte com a parada do Quartel do Batalhão de Linha; pelo Sul com a rua publica; pelo Nascente com a Fortaleza de S. Francisco e pelo Poente com o jardim publico. Não teve este prédio dono anterior por ter sido mandado edificar pelos actuais donos. Calculei o valor venal deste predio em presença do referido documento apresentado e da declaração do apresentante em doze mil patacas e o seu rendimento liquido anual setecentas patacas.”
Foi o capitão Azevedo Coutinho, na qualidade de presidente, que procedeu ao registo predial da sede do Grémio Militar. 30 anos depois, o edifício ameaçava ruína, tendo o Governo decidido arcar com os custos de reparação, estimados em 1.670$720 patacas. Novas obras de vulto foram realizadas depois da Guerra do Pacífico, devido ao estado depauperado em que as instalações tinham ficado, por terem andado de mão em mão. Primeiro, nos tempos difíceis de 1941-45, serviram de abrigo a refugiados de Hong Kong. Depois, em 1945, o governador, que tinha ficado com o controlo do edifício, decidiu ali instalar a Repartição da Fazenda.
Em 1951, depois de a Fazenda passar para o antigo Palácio das Repartições, o Governo nomeia uma comissão para levar a cabo a recuperação do edifício. À sociedade do Grémio, o Governo paga 31.920,00 patacas, a título de reembolso, pelos anos em que ocupou gratuitamente a sua sede, conferindo-lhe ainda donativos da ordem das 16.500,00 patacas. É deste dinheiro, cerca de 48 mil patacas ao todo, que a direcção se serve para repor a dignidade perdida do velho clube. Foi igualmente necessário proceder à renovação do mobiliário, que praticamente desaparecera ou estava arruinado. Salvou-se o piano. Monsenhor Teixeira conta a história:
“Um dia, o tenente Manuel Vieira entra no Grémio e depara-se-lha esta cena à americana: um refugiado a tocar ao piano música de cabaret e dois melros a cantar e a dançar em cima do mesmo piano!... Perante este espectáculo tão edificante, ele pediu ao Cap. Salgado que permitisse recolher o piano no Quartel de S. Francisco para salvar esse pobre refugiado das carícias febris dos refugiados...” 
Quis o destino que o capitão Salgado, amante do desporto náutico, naufragasse no seu veleiro, em águas chinesas. Preso e levado para Cantão, seria mais tarde visto a vaguear pelas ruas daquela cidade, onde esteve cerca de três anos. E o piano do Grémio, que tinha sido confiado à sua guarda, ficou também em paradeiro incerto. Até que... “Um belo dia, os militares deram um sarau no Ginásio do Liceu, no Tap-Seac, junto da casa do Tenente Vieira; este viu com surpresa o piano do Grémio a ser transportado para o Ginásio!” Facilmente, o tenente Vieira provou a “paternidade” do piano, e este lá voltou à casa..."
Texto do site do Clube Militar de Macau
1973. Foto de Karsten Petersen
Nos dias de hoje. Foto de Manuel Cardoso


25 de Maio de 1912: foto no acesso lateral do Grémio. A 'nata' da sociedade de Macau: governador Álvaro de Melo Machado, Sun Iat Sen (ao centro), Camilo Pessanha (à esq), Lou Lim Ioc (à dta), etc...
 Nas paredes do Clube Militar podem ver-se fotos como estas 
que recordam tempos passados (década 1940-50)
Medalha comemorativa em bronze