segunda-feira, 14 de julho de 2014

A singularidade da procissão de S. Roque

A festa e procissão de S. Roque tem cerca de 200 anos em Macau. Tem início da na igreja de S. Lázaro com a imagem do «padroeiro contra a peste». O dia de S. Roque celebra-se em todo o mundo a 16 de Agosto, à excepção de Macau. 
Reza a tradição ter havido no território uma pandemia numa data incerta de um mês de Julho, possivelmente no século XIX. Como havia a urgente necessidade de apelar à intervenção divina, o povo decidiu não esperar por Agosto e realizou a procissão de S. Roque, sensivelmente com um mês de antecedência. O certo é que o surto epidémico desapareceu e, a partir daí, passou-se a celebrar o dia de S. Roque no segundo fim-de-semana de Julho. A tradição caiu em desuso a partir de meados da década de 1960, tendo voltado em força após vários surtos epidémicos terem fustigado o continente asiático, em 2008. Em Macau não existe uma igreja dedicada a S. Roque mas o santo tem nome de rua na zona do bairro de S. Lázaro.
PS: O padre Albino Bento Pais (ordenado em 1967), membro da Sociedade de São Paulo e director do jornal O Clarim desde 1985 quando chegou a Macau, morreu a semana passada em Mafra vítima de doença prolongada. Tinha 73 anos tendo saído de Macau no final de 2013. A última missa que celebrou foi há precisamente um ano na igreja da Sé.

sábado, 12 de julho de 2014

Hung Heng: uma loja que vende côcos há mais de um século

São nove e meia da manhã quando avançamos pela rua da Tercena, conhecida em chinês pela rua da Fruta, para visitar a loja Côcos Hung Heng, conforme combinado com o senhor Lei, no dia anterior. Uma loja com 142 anos manteve-se até hoje, apesar de todo o comércio da rua ter desaparecido e de sofrer uma renovação após a termos visitado anteriormente. Nesse primeiro contacto fala-nos de ser este um negócio de família, que começou em 1869, sendo o casal Lei, a quarta geração, que desde 1987 toma conta desta loja. O negócio dos gelados atrai muitos jovens, sobretudo de Hong Kong que vêm com o conhecimento transmitido pelos amigos e desviando-se dos circuitos normais dos turistas, aqui se deslocam para provar o saboroso sorvete de coco. De facto, o sabor do coco era intenso e muito agradável mas, a nossa conversa com o senhor Lei, após olharmos para os livros de uma estante, voltou-se para a porcelana. É o tema preferido do senhor Lei e pela quantidade e qualidade dos livros, percebe-se ser um entendido na matéria. Com os olhos a brilhar, aponta para o andar de cima dizendo-nos que ainda tem muitos mais livros. Enquanto a conversa decorre, a sua esposa atende os muitos clientes que ao fim de semana, em grupos, aqui chegam e rapidamente o estoque esgota na arca frigorífica. O dia está a acabar e é hora de fechar. Por isso, combinamos para o dia seguinte assistir ao trabalho com os cocos.
Enquanto com uma máquina eléctrica, a fazer rodar uma lâmina dentada a sair entre tábuas numa pequena banca, vai abrindo ao meio os cocos, que se apresentam como bolas castanhas, o sr. Lei fala-nos sobre a história da loja. Diz-nos que há cem anos, a loja comprava na Malásia os cocos e especiarias e vendia-os para a China Continental. Nesse tempo, o bazar onde a rua da Tercena se encontrava era a zona comercial por excelência.
O negócio era próspero, vendiam-se por dia centenas de cocos e na loja trabalhavam mais de 10 pessoas. O avô tinha-lhe referido que naquele tempo não se dedicavam ao comércio de retalho, mas apenas à importação e exportação. Situação que se manteve até ao início da guerra do Pacífico (1937-45), quando o negócio durante três anos e oito meses sofreu muitos reveses. Pagava-se antecipadamente os produtos e por vezes estes não chegavam, outras vezes exportava-se, mas depois não se recebia.
O trabalho de partir os cocos está feito e começa a retirar o mais possível o miolo branco do interior, que está agarrado à castanha casca grossa exterior. Com o miolo branco do interior, se este estiver maduro, o mais duro, transforma-o em granulado e se ainda estiver mole, coloca-o na máquina de espremer de onde extrai o sumo. Distraindo-se com a conversa, por longos momentos esquece-se do trabalho que está a fazer.
“Em 1949, com o estabelecimento da República Popular da China, esperávamos que o negócio de novo voltasse ao que era. Mas muitas lojas, como os grandes armazéns que vendiam tecidos tiveram que encerrar e as outras lojas de negócios mais pequenos, foram fechando uma a uma. Tivemos que nos adaptar e agora pode ver na rua que, com uma longa história, apenas existe a nossa loja, das muitas que havia naquele tempo. Como é que ainda conseguimos estar abertos? Não é porque tenhamos dinheiro para cobrir os prejuízos mas, porque ajustámos o negócio ao tempo e às necessidades”, explica.Aqui o senhor Lei usa o exemplo do que ocorre nos dias de hoje: “Os gelados, que agora vendemos, começaram a ser feitos no tempo dos meus pais em 1963. Tudo começou devido à quantidade de cocos que tínhamos em armazém e que não conseguíamos vender. Para não se estragarem, os meus pais começaram a vender o leite de coco, assim como a ralar a popa do coco. Quanto aos gelados de coco tiveram a ajuda de um amigo, que há longo tempo fazia e vendia os sorvetes na rua, e que lhes ensinou a técnica. Actualmente são estes gelados que ficaram como a marca da loja, algo que nunca imaginámos”.
Numa máquina, o senhor Lei rala o miolo duro do coco, enquanto noutra coloca a espremer o miolo mais mole, daí saindo um líquido espesso. Parece que tudo está cronometrado já que, quando o fio do sumo acaba de pingar, chega um empregado de um restaurante tailandês que o vem buscar para os cozinhados. É uma prática diária, já que serve muitos clientes da restauração (restaurantes, hotéis e lojas de bolos) com sumo de coco e coco ralado. Com o cliente servido e após este se ter ido embora, aponta para a parede do fundo mostrando-nos uma tabuleta em madeira de cor preta, com os carateres em folha de ouro. Era o original reclame da loja, que já tem 142 anos.
“Nestes últimos 10 anos, as transformações em Macau são enormes mas, como podem ver, esta zona pouco ou nada evoluiu, continuando como que adormecida. Ainda bem, já que por aqui vivemos com tranquilidade e sem grandes reboliços, como os que se encontram noutras partes de Macau. Na rua de S. Paulo é impossível por lá andar”, indicou o senhor Lei.
O trabalho de uma manhã está a terminar. Mais ou menos quatro a seis litros de sumo de coco recolhido para fazer os gelados, que não necessitam de nada mais para ter um sabor fresco e intenso. Por isso é que estes gelados são do agrado de tantos turistas que fazem um desvio da rota turística para aqui virem saborear uma tal guloseima.
“Continuamos a importar os cocos da Malásia, porque segundo a nossa experiência são os que têm melhor sabor. Também passámos a fazer sorvetes com outros sabores como taro, manga (apenas feitos sazonalmente, no período em que estas frutas aparecem) e chocolate”.
Nisto pára uma motorizada à frente da loja e, pela maneira como fala com o senhor Lei, são amigos de longa data. Pede dois copos de gelados, dizendo que toda a noite os dois filhos o aborreceram pois queriam gelados. O sr. Lei entrega-lhe quatro copos de gelado, cobrando apenas dois, e recomenda para guardar o resto no frigorífico. Depois, virando-se para nós, conta que era um seu antigo vizinho e, quando ainda criança, era ele que chorava à noite para os pais lhe darem um gelado; agora são os seus filhos.
“Nos dias que correm, ninguém quer saber destes pequenos negócios mas, nunca se sabe o que nos reserva o amanhã. Já não trabalhamos por dinheiro, mas por prazer e o que nos interessa é continuar este negócio, que sempre foi da família. Os nossos filhos já não estão interessados em o continuar, mas enquanto nós existirmos, este será o nosso trabalho”, assegurou.
Artigo da autoria de José Simões Morais publicado no JTM de 30-8-2011

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Colégio D. Bosco: antes e depois da construção


Este edifício pode ver-se na foto abaixo
Os salesianos do Colégio D. Bosco tem uma longa história em Macau. Após o lançamento da primeira pedra a 6 de Fevereiro de 1949, o Colégio Dom Bosco ficaria pronto dois anos depois sendo inaugurado a 10 de Fevereiro de 1951. No final desse ano começou a construção da  nova ala do colégio: oficinas, salão de teatro e refeitório. Sendo o Colégio fundamentalmente uma escola industrial (oficializada em Julho de 1960), nele funcionaram todos os níveis de ensino não superior e, inclusive, até 1997, o ensino pré-escolar em português, data em que docentes e crianças foram transferidos para o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.

Em 1999 encerrou a secção portuguesa. Actualmente denomina-se Colégio Dom Bosco Yuet Wah, tendo apenas a secção inglesa e chinesa. João Bosco (1815-1888), fundador da Sociedade de S. Francisco de Sales (1859), conhecida por salesianos, composta por sacerdotes e leigos e vocacionada para a educação infantil, juvenil e ensino profissional. Foi canonizado em 1934. Tem uma estátua junto ao Jardim da Montanha Russa.
Veja dezenas de imagens neste link

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Viagem da Corveta Dom João I à Capital do Japão no anno de 1860

Chegado a Macau em 1859, Marques Pereira, desenvolveu, a par de funções administrativas sempre marcadas pelo seu marcante espírito de iniciativa, importante actividade cultural, sendo fundador do jornal Ta-Ssi-Yang-Kuo (1863-66), que seria de novo publicado pelo seu filho - João Feliciano Marques Pereira - entre 1899 e 1903. Ocupou sucessivamente postos consulares em Hong Kong, Sião (1875), Singapura e Malaca, antes de transitar para Bombaim, onde morreria precocemente. A viagem aqui narrada evoca a missão diplomática enviada ao Japão em 1860 para negociar um tratado de paz e comércio e foi escrita em em Macau em Maio de 1861.
O capitão português Feliciano Antonio Marques Pereira foi responsável por conduzir no seu navio um plenipotenciário para negociar um tratado com os japoneses. Mal chegou a Macau, Marques Pereira escreveu "Viagem da Corveta dom João I à Capital do Japão no anno de 1860", publicado em 1863 pela Imprensa Nacional.
A narrativa inicia-se a 29 de Junho de 1860. A corveta Dom João I estava em águas chinesas, próximo à foz do rio Wussung, quando surgiu o governador de Macau, Izidoro Francisco Guimarães, que desejava negociar um tratado de paz e comércio com o Japão como ministro plenipotenciário de Portugal. A partida rumo a Yedo (capital do Japão) foi na manhã seguinte, e no dia 9 de Julho avistaram o monte Fuji. No dia 12 informaram-se sobre a situação política no porto de Kanagawa e em seguida partiram para Edo. No dia seguinte o ministro Guimarães desembarcou, hospedando-se no templo onde morava o ministro britânico Rutherford Alcock. Dias depois começaram as negociações. O principal objectivo português era baixar o imposto de importação sobre o vinho o que não veio a acontecer. Apesar desse revés, o tratado foi firmado no dia 3 de Agosto, estando presentes também o capitão e seus oficiais. Dois dias depois, os portugueses partiram para Kanagawa para reabastecimento. A viagem de regresso começou no dia 11.
Durante cerca de um mês Feliciano teve contacto directo com a realidade japonesa e deixou as suas impressões em livro onde aborda temas como a geografia, sistema de governo, sociedade, costumes, comércio e religião.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Zorras

Uma zorra, veículo de leito baixo com duas ou quatro rodas utilizado para transporte de objectos pesados. Na rua São Tiago da Barra, muito perto do pagode da Barra/Templo de A-Ma e num estaleiro naval.
Placa do Leal Senado assinalando uma "Estação para zorras" tal como acontecia com os jerinxás/triciclos/riquexós. Foto Leong Chi Cheng
Estação de Zorras na Rua Nova do Comércio: década 1950
Na Avenida Almeida Ribeiro
Postal da década de 1980 com a legenda "Wooden car"
Uma zorra nos primeiros anos do séc. XX  junto ao Templo de A-Ma
Zorras transportando cereais e porcos

terça-feira, 8 de julho de 2014

Memorandum sobre a questão de Macau

Memorandum sobre a questão de Macau: documentos / Ministério das Colónias. Edição reservada. Lisboa: Imprensa Nacional, 1921
Trata-se de um relatório com 521 páginas submetido por Portugal na Conferência de Washington. Ernesto Júlio de Carvalho e Vasconcelos foi o representante de Portugal. Segue-se um excerto:
Senhores,
Em Outubro do ano passado convidou o Presidente dos Estados Unidos da América os Governos da França, da Grã-Bretanha, da Itália e do Japão a fazerem-se representar numa conferência sobre a limitação de armamentos, na qual seriam também discutidas as questões relativas ao Pacífico e Extremo Oriente. Desta segunda parte do programa da Conferência participou também a China.
Em vista dos interesses de Portugal no Extremo Oriente, foi o Governo da República Portuguesa convidado a tomar parte na discussão dos assuntos que fossem versados na Conferência com respeito ao Pacífico e Extremo Oriente. Por idêntica razão e para o mesmofim receberam convite que foi aceite, a Bélgica, e os Países Baixos.
São óbvios os motivos por que o Governo da República acedeu ao convite, tendo-se feito representar na Conferência, cujas sessões se iniciaram em Washington em Novembro último, pelo Ministro de Portugal nos Estados Unidos da América, José de Horta Machado da França, e pelo Capitão de Mar-e-Guerra Ernesto Júlio de Carvalho e Vasconcelos, a cuja competência, dedicação e patriotismo, sempre manifestados no decurso dos trabalhos da mesma Conferência, cumpro o grato dever de prestar a merecida homenagem.
Na Conferência foram concluidos, além de convenções sobre limitação de armamento e assuntos relativos, em cuja discussão Portugal não participou, dois tratados assinados em 6 de Fevereiro deste ano, um sobre a política e princípios a seguir nas questões relativas à China, e outro sobre a revisão da pauta aduaneira chinesa e várias matérias conexas.
Os quatro princípios que orientavam os trabalhos da Conferência e que foram aprovados pelas Potências nela representadas, as quais se manifestaram conformes na maneira de ver sobre a política de "porta aberta" com respeito à China, estado expressos no primeiro dos aludidos Tratados. Não contendem com os direitos de Portugal na China e poderão, especialmente o último, trazer-nos vantagens.
Além destes tratados, prevêem as resoluções adoptadas na Conferência e subscritas por Portugal a nomeação de Comissões incumbidas de regular as questões de capital importância para a China. Dessas Comissões, em que Portugal tem, é claro, representação, citarei, pela sua importância, as seguintes:
Estudo das condições de administração de justiça na China, na previsão de eventual desistência por parte das Potências do direito de extraterritorialidade. Oportunidade de retirada das tropas estrangeiras do território chinês, que será apreciada, quando a China o solicitar,em reunião dos representantes diplomáticos das Potências em Pequim conjuntamente com três delegados Chineses.Resolução das questões sobre execução da política de "porta aberta".
Revisão imediata da pauta adoptada em 1918. A reunião desta comissão em Shanghai, na qual estamos representados pelo Cônsul de Portugal, será seguida, como dispõe o segundo dos referidos contractos, de uma Conferência especial de delegados diplomáticos e técnicos para tratar mais largamente da abolição do imposto do likin e da reforma da pauta chinesa.
Ficou, pois, em resultado da nossa representação na Conferência, reconhecido a Portugal o direito de participar nas futuras deliberações das Potências com respeito à China.
Durante a Conferência e independentemente dela, celebraram os Estados Unidos da América, a Grã Bretanha, a França e o Japão, em 13 de Dezembro de 1921, um tratado para a conservação geral da paz e manutenção dos seus direitos em relação às suas possessões e domínios insulares na região do Oceano Pacífico, tendo entre si concordado no respeito desses direitos. Os quatro Governos signatários notificaram ao Governo da República, em 4 de Fevereiro último, por intermédio dos seus representantes diplomáticos, que, no cuidado de evitar qualquer interpretação contrária ao espírito do referido tratado, o qual não incluíra as possessões portuguesas no Pacífico, declaravam achar-se firmemente resolvidos a respeitar os direitos de Portugal em relação às suas possessões insulares no referido Oceano Pacífico.
Não parece oferecer dúvida a vantagem de ratificarmos os dois Tratados assinados em Washington. A declaração acima citada, cuja importância e alcance escusado seré encarecer, justificaria, se a própria essência dos Tratados o não fizesse, a conveniência de efectuar a ratificação com a maior brevidade possível.
Foi já preparado um Livro Branco contendo os textos das resoluções da Conferência de Washington e mais documentos que lhe dizem respeito. Tendo-se, porém, verificado a impossibilidade de obter a respectiva impressão a tempo de ser distribuído com a presente proposta, distribuição que não deixará de ser feita oportunamente, o Governo da República não quis protelar a apresentando da seguinte proposta de lei que espera merecerá a aprovação do Parlamento Português:
Artigo 1º- São aprovados para ratificação, os Tratados assinados em Washington em ó de Fevereiro de 1922 entre Portugal, a Bélgica, a China, os Estados Unidos da América, a França, o Império Britânico, a Itália, o Japão e os Países Baixos para adopção de uma política tendente a estabilizar a situação no Extremo  Oriente, a salvaguardar os direitos e interesses da China e a desenvolver as relações entre a China e as outras Potências sob a base de igualdade de condições, e para a revisão dapauta aduaneira chinesa e noutras matérias conexas.
Artº2 - Fica revogada a legislação em contrário.
Sala das Sessões da Câmara dos Deputados, em .... de Julho de 1922.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Va Kio: edição 7 Julho 1938

O jornal chinês publicado em Macau - Va Kio - assinala o primeiro ano da segunda guerra sino-japonesa (1937-45).
O jornal fora fundado em Hong Kong mas com a ameaça japonesa decide criar em Macau uma publicação com o mesmo nome, para garantir a sobrevivência do jornal no caso de uma eventual ocupação da vizinha colónia britânica, como aliás veio a acontecer.
O surgimento do jornal dotado do mais moderno equipamento na época, incluindo telex, vai revolucionar o panorama da imprensa chinesa onde já existiam títulos como Wan San, Peng Man, Chi Yen, Tai Chung, San Seng e Tai Lok que o vão tentar boicotar mas sem sucesso. O Va Kio depressa se torna num fenómeno de popularidade tornando-se no mais vendido.
Neste anos o território seria assolado indirectamente pelo conflito mundial vivendo um dos períodos mais difíceis da sua história não obstante a neutralidade portuguesa face à invasão japonesa.

Em cima uma imagem da distribuição de arroz pelos mais necessitados durante a guerra sino-japonesa e guerra do pacífico.

sábado, 5 de julho de 2014

Origens do Boletim do Governo

A 7 de Dezembro de 1836, o Governo Português, através da pasta de Marinha e Ultramar, decretou que nas províncias ultramarinas se imprimisse um Boletim, cuja redacção ficasse a cargo do secretário do governo. Dois anos mais tarde, cumpria-se em Macau esta determinação, aparecendo em 5 de Setembro de 1838 o Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor, sendo impresso na Tipografia Macaense, oficina do Dr. Wells Williams(*). Segundo o mesmo Decreto de 7 de Dezembro de 1836, art. 13.º, o Boletim destinava-se ao aparecimento das ordens, peças oficiais e de tudo o mais que fosse de interesse público; a portaria circular de 14 de Fevereiro de 1855 determinava que nesse se publicassem os documentos mais importantes existentes nos respectivos arquivos. 
Carlos José Caldeira, que chegou a Macau a 10 de Setembro de 1850, tomou conta do Boletim em Dezembro do mesmo ano; António Feliciano Marques Pereira de 20 de Março de 1860 até Abril de 1862.

Até 9 de Janeiro de 1839 saíram apenas cinco números do Boletim que entretanto foi suspenso. Reapareceu a 8 de Janeiro de 1840 e continuou até aos dias de hoje, com algumas interrupções esporádicas. De Janeiro a 9 de Abril de 1840, imprimiu-se na tipografia do mesmo Boletim; nessa data passou para a de Silva e Sousa, depois para as de John Smith, Manuel Córdova, José da Silva, e desde 8 de Janeiro de 1870 para a Tipografia Mercantil de Fernandes e filhos. A partir de 5 de Janeiro de 1901 o Boletim passou a ser impresso na Imprensa Nacional de Macau. Durante muito tempo foi uma folha semanal em três colunas, saindo sempre aos sábados. Depois, o número de páginas variava conforme as necessidades. Pela Port. No. 25 de 6 de Fevereiro de 1879, o governador Carlos Eugénio Correia da Silva determinou que o Boletim fosse publicado em português e chinês, aparecendo em chinês o que interessa à população chinesa. 

Ao  longo do tempo o Boletim teve várias designações: Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor; Boletim do Governo de Macau; Boletim do Governo da Província de Macau e Timor; Boletim do Governo de Macau e Timor; Boletim da Província de Macau e Timor; Boletim Oficial do Governo da Província de Macau e Timor.
A 2 de Janeiro de 1897 aparece como Boletim Oficial do Governo da Província de Macau. A partir de 7 de Janeiro de 1928 e até Junho de 1951surge como Boletim Oficial da Colónia de Macau. Desde 7 de Julho de 1951 passou a designar-se Boletim Oficial de Macau.
(*) Esta tipografia pertencia ao Dr. Williams, mas figurava como gerente Manuel Mário Dias Pegado para cumprir as formalidades da lei.
A partir de um texto do Padre Manuel Teixeira in "O Jornalismo em Macau".
Referência à criação do Lyceu Nacional de Macau no Boletim de 16.08.1894
Último BO sob administração portuguesa: domingo 19 Dez. 1999

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O padre Álvaro Semedo e o "Imperio de la China"

Por ocasião do 4º centenário da fundação do colégio de S. Paulo (1594-1994) foi reeditada a principal obra do Padre Álvaro Semedo (Relação da Grande Monarquia da China), traduzido do italiano por Luís Gonzaga Gomes em 1956. (Colecção Notícias de Macau [volumes nº xv e xvi. Composto e impresso nas Oficinas do Jornal Notícias de Macau).
A edição de 1994 tem 416 páginas e divide-se em duas partes. A primeira tem como título, Do Estado Temporal da China, onde encontramos um amplo conjunto de descrições e informações que vão desde a geografia, o ordenamento do território, o clima, as populações, a sociedade. A segunda parte do livro Na Qual se Trata da Cristandade da China, é um relato, circunstanciado da presença europeia, evangelizadora, na China
"Dos que têm escrito acerca da China verifico que alguns, deixando quase todas as verdades no olvido, se entretêm apenas com coisas que andam afastadas da veracidade, pois que, encontrando-se esse reino longínquo e, tendo sempre esquivado, com todo o empenho, à comunicação com o estrangeiro, além de guardar para si, com particular cuidado, as suas coisas como se as guardasse até de si mesmo, resultou que, fora dele, só se conhece aquilo que deixa escorrer, como por excesso, pelas faldas da região de Cantão, parte desse Império aonde chegaram os portugueses."
Álvaro Semedo曾德昭, Zeng Dezhao, earlier 謝務祿 Xie Wulu, nasceu em Nisa no ano de 1585. Ruma a Évora, com apenas 17 anos e ingressa na Companhia de Jesus (Jesuítas). Estuda no colégio da Ordem, e em 1608, com 23 anos, seguiu para a Índia, onde conclui os seus estudos teológicos, em Goa. Chega a Macau em 1610 e em 1613 foi enviado para a China.  Adopta o nome nativo de Sé Mou–Iôk e fixa-se em Nanquim, cidade na qual começa a dedicar-se ao estudo da língua chinesa, conhecimento que lhe seria indispensável para poder prosseguir com êxito o seu trabalho de evangelização.
Em Nanquim, em 1617, os elementos da nova cristandade foram alvo de feroz perseguição e sobre o seu catequizador mais se encarniçou a fúria demoníaca. Álvaro Semedo, doente, foi encarcerado e submetido a tratos desumanos. Chegaram a encerrá-lo numa gaiola de ferro, onde não podia estender e acomodar o corpo, nem mudar de posição. Nessa gaiola o fizeram seguir para Cantão e dali para Macau onde ficou até 1621. Mas, logo que recuperou alento, volta a Nanquim, disposto a continuar a sua missão de evangelizador.
Tão bem desempenhou as suas funções que foi nomeado Procurador da sua Ordem em Roma e por esse motivo regressou a Portugal (1640) a fim de receber instruções que o habilitassem ao desempenho do novo cargo. Nesta passagem pelo Ocidente acabaria por conhecer em Madrid o português Manuel de Faria e Sousa (1590-1649). Este padre seria essencial para a publicação em 1641 do original “Relação da Propagação da Fé no Reyno da China e outros adjacentes”, e que em castelhano ficará conhecido por “Imperio de la China y Cultura Evangelica en el, por los religiosos de la Compañia de Jesus. Sacado de las noticias del padre Alvaro Semedo de la propria Compañia, por Manoel de Faria y Sousa, cavallero de la Orden de Christo, y de la Casa Real”.
Álvaro Semedo partiu para a China mais uma vez (1645), mas, agora, incumbido de nova e mais importante missão, a de Provincial e Visitador de todas as Missões.
Morreu em Cantão a 6 de Maio de 1658 (outras fontes indicam 18 de Julho), com setenta e três anos de idade, e quarenta e seis de missionário. Está sepultado em Macau (Cemitério Velho), segundo informa o padre Philipe Couplet no “Catalogus Societatis Jesu...”, pág.17, nº XXV. Ao Padre Álvaro Semedo é ainda atribuída a introdução do chá na Europa.

Álvaro Semedo was born in Nisa, Portugal in 1585. He entered Jesuit novitiate in 1602, and on 29 March 1608, he left for Goa and the Far East aboard Nossa Sra. do Vencimento. He arrived in Macau in 1610, and Nanjing in 1613. Along with another Jesuit, Alfonso Vagnoni, he was imprisoned during an anti-Christian campaign in Nanjing in 1616, and then sent back to Macau, where he stayed till 1621.
As the persecution campaign in the mainland China abated, Fr. Semedo changed his Chinese name from Xie Wulu to Zeng Dezhao and re-entered China, now working in Jiangsu and Jiangnan provinces. He spent most of his term in China in the central and southern provinces; perhaps his only trip north was the one he made to Xi'an in 1625, during which he was the first European to see the recently unearthed Nestorian Stele.
In 1636, Semedo went back to Europe as a procurator, sent by his order to recruit more people for the China mission and to ensure continued assistance from the church in Europe. During his sojourn in Europe, he published in 1642 a long report on China, best known under its Spanish title, Imperio de la China.
After his return to China, Semedo served in Guangzhou (Canton) as the Vice-Provincial of the Jesuit China Mission. During several years after the fall of Beijing to the Manchus in 1644, he continued to work with the Ming loyalist regimes in the Southern China (notably, sending Michał Boym to the court of the Southern Ming Yongli Emperor), even as most of Jesuits elsewhere in China were switching their loyalty to the recently established Qing Dynasty. Once the Qing took Canton, Semedo was detained, but was freed a few months later, reportedly due to the interference of Beijing-based Johann Adam Schall von Bell.He spent the rest of his life in Guangzhou, where he died.
O livro "Imperio de La China" foi tendo várias edições ao longo dos tempos. Na imagem ao lado vê-.se a segunda edição, dedicada ao rei D. João V.
“Imperio de la China y cultura evangelica en el, por los religiosos de la Compañia de Jesus. Sacado de las noticias del P. Alvaro Semmedo de la propria Compañia. Madrid, por Juan Sanchez 1642. 4.º - É dividida em tres partes, das quaes a. I tracta geralmente da descripção do paiz, e de suas provincias, sitio, e qualidades: a II do seu governo, e do tocante ás pessoas e costumes de seus habitadores: a III emfim do que diz respeito á cultura evangelica, e introducção do christianismo no imperio. Foi tão bem aceita esta relação, que todas as nações da Europa se apressaram a transportal a para os seus idiomas, o que se prova pelas traducções que d’ella se fizeram, a saber: Em italiano com o titulo: Relazione della grande monarchia della Cina, Roma 1643. 4.º, adornada com o retrato do auctor, e reimpressa ibi, 1653. 4.º - Em francez, com o titulo Histoire universelle du grand royaume de la Chine composée en italien par le P. Alvares de Semmedo, et traduite en notre langue par L. Coulon. Paris 1645. 4.º Reimpressa em Lyon 1667. 4.º, da qual tinha um exemplar o cav. Francisco José Maria de Brito. - Em inglez: History of the grande and renowed monarchy of China. London 1665 fol. illustrada com mappas, e retrato do auctor, da qual Barbosa declara ter tido um exemplar. Reimpressa ibi, 1665 fol., se é exacto o que diz Mr. Ternaux Compans na sua Bibliotheque Asiatique et Africaine n.º 2001.[O] original manuscripto, tal como o escrevera o P. Semmedo, e que parece ter estado em poder de Manuel de Faria, que por elle fez a sua versão, esse original é mais que raro, e mesmo se ignora, creio, o destino que levou: A traducção de Faria (n.º 265) sahiu novamente com o mesmo titulo, Lisboa Occidental, na Off. Herreriana 1731. fol. de XVII 252 pag., por diligencia de Miguel Lopes Ferreira, a quem muito se deve pelo serviço prestado ás lettras nas varias publicações que fez de alguns ineditos, e nas reimpressões de livros antigos e estimaveis que se iam tornando raros.
PS: este ano celebram-se os 420 anos da fundação do colégio de S. Paulo em Macau. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Ermida/Igreja N. Sra. da Esperança

No mapa acima (ca. 1880) pode ver-se assinalado uma igreja denominada N. Sra. da Esperança que não é mais do que actual igreja de s. Lázaro. O primeiro edifício erguido neste local foi a Ermida de Nossa Senhora de Esperança entre 1557 e 1560. É uma das três igrejas mais antigas de Macau. D. Belchior Carneiro Leitão estabeleceu uma leprosaria (assinalado no mapa como Hospício dos Lázaros) perto da igreja para atender os leprosos. A este hospício foi dado o nome de São Lázaro, o protector dos leprosos. A leprosaria foi transferida em 1882 para a ilha de D. João e em 1947 para Coloane.
Quando a Diocese de Macau foi fundada em 1576, a Igreja de S. Lázaro era então a Catedral da Diocese, mas devido ao desenvolvimento da cidade, cujo centro passou para o Largo do Senado, a Igreja da Sé passou a ser, em 1623, a nova Catedral. Apesar de ter deixado de ser a catedral da diocese, é tido como importante centro de evangelização cristã dos católicos chineses que viviam naquela zona da cidade.
A actual Igreja de S. Lázaro, construída em pedra, foi edificada em 1885/1886. Em 1956, a fachada principal neoclássica e assimétrica encimada por um frontão foi revestida com "shanghai plaster". No frontão estão gravadas as 3 virtudes teologais: , esperança e caridade. O altar-mor foi renovado em 1970. O interior da igreja é composto por duas naves. Lá dentro existe também uma estátua do santo protector das epidemias - São Roque - cuja festa é celebrada anualmente no segundo domingo de Julho. No adro, à entrada, ergue-se a Cruz da Esperança da capela original.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

"Macao L'enfer du jeu": o filme e o livro



 
O livro de 1938 que deu origem ao filme rodado em 1939
Macao enfer du jeu is a plunge into the world of the Chinese gambling mafia, a cocktail of exoticism and the charm of the Roaring twenties. In 1937, when China and Japan were at war, Macao, on the Chinese border, was a hubof all kinds of illicit dealings. Over this disreputable but profitable empire ruled Mr Yasuda, a Japanese businessman nicknamed the ‘uncrowned king’. His daughter, Miss Kasuko, was innocent of his shady affairs. She led the life of a model pupil in a fine boarding school in Hong-Kong. Until Werner van Krall, ex-officer of the German army and occasional arms dealer, arrived, determined to make off with a fortune and the young Kasuko.
A estreia em Portugal ocorreu a 23 de Julho de 1947 quase dez anos depois da estreia mundial, com o curioso título  "Labaredas" por oposição ao mais óbvio mas menos conveniente "Inferno do Jogo". O filme esteve em exibição nos cinemas Odeon e Palácio. Talvez pelo facto do filme passar uma imagem muito negativa dos efeitos do jogo o filme praticamente passou despercebido, quer junto do público quer junto da crítica. Não nos podemos esquecer que havia censura. A este propósito Luís de Pina escrevia num artigo em 1991 que "Falando com Alberto Armando Pereira, cuja distribuidora, Aliança Filmes, lançou Labaredas, disse-me que poderá ter havido cortes de censura que tiraram ao filme a sua ambientação portuguesa.”

Em 1970 surgiu a tradução e edição para português do livro: "Macau: Inferno do Jogo". em inglês chamou-se "Macao: Gambling Hell" e em castelhano "Infierno del Juego".