quinta-feira, 17 de abril de 2014

Martinho Montenegro: 1864-1919

Martinho Pinto de Queiroz Montenegro (1864-1919), oficial da armada, natural de Marco de Canavezes, no distrito do Porto, foi Governador de Macau entre 5 de Abril de 1904 e 27 de Dezembro de 1906, tendo abandonado efectivamente o Território no primeiro de Abril de 1907. Um consulado curto no tempo, mas grande nos trabalhos para a consolidação política, diplomática e jurídica de Macau.Espreitando para o seu registo biográfico oficial, com inúmeras condecorações e louvores, podemos observar uma distinta carreira militar em Angola, Moçambique e Cabo Verde. Formado na Escola Naval, foi promovido sucessivamente a aspirante (1881), guarda-marinha (1883), 2º tenente (1887), 1º tenente (1890), capitão-tenente (1891), capitão-de-fragata (1911), capitão-de-mar-e-guerra (1917) e a contra-almirante (1918). Foi Chefe do Estado-Maior Naval, Comandante do Corpo de Marinheiros, Capitão do Porto de Luanda, Comandante da Esquadra do Zambeze, Chefe do Departamento Marítimo de Angola, para além de ter comandado diversos navios da armada. A experiência de Martinho Montenegro na administração colonial foi deveras significativa. Foi governador provincial de Moçâmedes, de Benguela, da Zambézia e governador de Macau e Cabo Verde.
O auto de posse como Governador de Macau diz exactamente o seguinte: “No ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e quatro, aos cinco dias do mês de Abril nesta Cidade do Santo Nome de Deus de Macau na China e nos Paços do Conselho, presentes o Exmo. Conselho Governativo, constituído por S. Exª. Revdmª. o Sr. D. João Paulino de Azevedo e Castro, Bispo desta Diocese, Exmos. Srs. Dr. Albano de Magalhães, Juíz de Direito desta Comarca e Albano Alves Branco, Capitão de Mar e Guerra; o Exmo. Leal Senado; funcionários públicos civis, militares e eclesiásticos e o povo; achando-se também presente S.Exª. o Sr. Martinho Pinto de Queiroz Montenegro, Capitão tenente da Armada Real, nomeado para o cargo de governador da província de Macau, foi entregue ao Exmo. Governador nomeado pelo Exmo. presidente do Conselho governativo, o Bastão de comando e com ele a posse do governo desta cidade de Macau e suas dependências; em seguida o Exmo. Presidente do Leal Senado, o Sr. Pedro Nolasco da Silva, entregou a S. Exª. o novo Governador a Chave da Cidade simbolizando o reconhecimento do povo para com a autoridade superior da província, a quem terá de prestar obediência; S. Exª. o novo Governador, depois de a receber entregou-a de novo ao mesmo Exmo. Presidente do Leal Senado para ser depositada nas mãos do Leal Senado e confiada à sua guarda”. A Acta foi subscrita pelo Escrivão do Leal Senado, Patrício José da Luz e essa cerimónia foi presenciada, entre outros, por Augusto Abreu Nunes, José Gomes da Silva, Carlos A. Assumpção, Cristovão Ayres de Magalhães, Eduardo Marques e padre José da Costa Nunes.
Alguma historiografia sempre atenta aos símbolos do poder insiste na importância formal do “Bastão de comando”, sinal visível e inequívoco do exercício e da legitimidade do poder pelo Governador. Se esse símbolo continua a ser mencionado nos documentos, pergunta-se porque é que não existe um qualquer exemplar, uma gravura, um desenho ou mesmo uma fotografia? Bastão similar ao de marechal? Seja.
Para ficarmos com uma ideia das dificuldades na governação de Macau, de natureza interna ou por factores de origem externa, basta dizer que em escassos quatro anos existiram dois Conselhos Governativos, um em 1900, presidido pelo Bispo D. José Manuel de Carvalho e o outro em 1903, presidido pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro. Esta figura jurídica será abandonada no termo da primeira Grande Guerra, optando-se, depois, pela designação de um Governador Interino ou de um Encarregado do Governo, com uma clara demarcação da Igreja. Cada Conselho Governativo significava descontinuidade, paragem ou ruptura nas orientações políticas e económico-sociais. Em quase todos os casos, Macau perdeu sempre.
Em 1904 Portugal fazia um enorme esforço diplomático para readquirir credibilidade no concerto das nações. Mercê dos esforços e do prestígio do Rei D. Carlos realizaram visitas oficiais a Portugal, a Raínha de Inglaterra, o Imperador da Alemanha e o Presidente da França. Para além de tudo o resto, estes países detinham os maiores impérios coloniais intercontinentais, com uma legitimidade reforçada após a Conferência de Berlim. Em Macau, Camilo Pessanha é nomeado Juíz de Direito, em 1904.
Uma das grandes medidas legislativas tomadas por Martinho Montenegro foi a fundação de uma moderna Escola de Pilotagem, em 1905, que assim sucedia à Escola Real de Pilotos, criada em 1814. Em Macau já tinha existido uma Escola de Pilotagem, privada, em 1798 e o próprio Real Seminário de S. José tinha criado uma cadeira de Náutica e Matemática, em 1862. O artigo primeiro do Regulamento da nova Escola de Pilotagem, rezava assim: “É criada na província de Macau uma escola de pilotagem, anexa à Capitania do Porto, que terá por fim habilitar os indivíduos que se dediquem à profissão marítima com a carta de piloto, a qual somente será válida para a grande e pequena cabotagem na mesma província”. O mar e o comércio marítimo foram sempre vitais para a economia, para a defesa e sobrevivência de Macau ao longo dos séculos.
O Leal Senado na época de Martinho Montenegro
Martinho Montenegro, a pedido da Inspecção Geral de Fazenda do Ultramar, projectou o Regulamento para o Comércio de Sal em Macau. Em 1907, já demissionário, podemos ver o modo expedito de calcular a população do Território: “Este consumo é calculado em 2.600 picos de sal supondo que a população de Macau, Taipa e Coloane é de 130.000 habitantes e que cada habitante consome anualmente dois cates de sal, em média”. Contudo, para fazer de “Macau um centro importante do negócio é necessário que este baixo preço do sal se conserve, não convindo, por isso, sobrecarregá-lo com pesados impostos. A compensação das receitas públicas virá a seu tempo, com o desenvolvimento das correlativas indústrias da salga e seca do peixe”. Como se adivinhava, o contrabando era uma preocupação das autoridades, “é impossível calcular o valor real de sal que por esta forma sai para a China, porque isso depende de circunstâncias impossíveis de prever”.
A governação de Macau nestes anos de vertigem pré-republicana na China e em Portugal demandava um Governador esclarecido, discreto e bom diplomata. Martinho de Montenegro esteve à altura das suas responsabilidades. Na correspondência que trocou com o Presidente do Leal Senado, Pedro Nolasco da Silva, é notória uma atenção muito grande para com os problemas do Território, por exemplo, sobre o desenvolvimento do ensino primário, então sob a alçada do Leal Senado.
O caso mais mediático com que lidou foi a prisão e a extradição do mandarim Pui-Keng-Foc, detido na Fortaleza do Monte por tráfico e consumo de ópio. O Vice-Rei de Cantão, o Cônsul-geral de Portugal em Cantão, o Governador de Hong Kong e o inevitável jornal “The Hong Kong Telegraph”, estiveram todos envolvidos num processo político e jurídico que terminou mal para o mandarim. A extradição foi consumada, com a garantia de clemência e comutação da pena capital. Mas essa parte do acordo não foi cumprida. Para a época em apreço foi um incidente internacional com os contornos de um escândalo. Publiquei esta pequena história, em primeira mão no semanário “Tribuna de Macau”, em 1995. Martinho Montenegro teve de lidar com situações muito delicadas, similares a esta, que ainda se encontram soterradas no pó dos arquivos.
A devassa da correspondência particular coloca à luz do dia muitas coisas da vida quotidiana, passando por cima da ética e de outros valores. Mas ajuda a cristalizar melhor a ‘petite histoire’, quantas vezes essencial para se avaliar a conjuntura.
Fortaleza do Monte
Vicente Almeida d’Eça, almirante, director da Escola Colonial e Presidente da Sociedade de Geografia, escreveu ao seu amigo Wenceslau de Moraes para “meter uma cunha” ao Governador Martinho Montenegro. Ajuíze-se a resposta de Moraes, expedida de Kobe, a 3 de Julho de 1905: “Não conheço o Governador, que até pouco amavelmente corresponde à solicitude que mostro em prestar serviço à província. Eu julgo que o meu Amigo devia já atacar fortemente o Governador, directamente se o conhece, ou por alguém que se lhe imponha, melhor se entrar em jogo a política, de modo que ele faça o que puder (que é tudo!) para o rapaz subir de postos. Que me diz? Eu ainda poderei escrever no mesmo sentido ao actual Comandante do ‘Lima’ e a um ou outro mais, mas com toda a diplomacia, para não ofender os melindres do General, que sei ser muito melindroso. Creio, repito, o momento excelente para um forte atracão ao Governador Montenegro, vindo de Lisboa, pois eu infelizmente nem o conheço. Informe do que resolver”. Ontem como hoje, a “cunha” é uma verdadeira instituição nacional.
Artigo da autoria de António Aresta, docente e investigador, publicado no JTM de 12-05-2011

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Electricidade em Coloane

Decorria o ano de 1928. Encontrava-se a prestar serviço em Macau o primeiro-tenente da nossa Marinha de Guerra, Artur Carmona, imediato da Capitania dos Portos e um técnico destro em questões de electricidade. A pedido de um seu camarada de armas, capitão Alberto Arez, que tinha estado em Coloane, o tenente Carmona assumiu o projecto da electrificação da Vila de Coloane. Aproveitando um grupo gerador a petróleo, que estava armazenado numa oficina das Obras Públicas, e com o apoio de instâncias superiores, lançou mãos à obra. Refira-se que a electrificação destinava-se, essencialmente, a edifícios do Estado e instalações militares, ficando o remanescente da energia canalizado para a povoação de Coloane e para a alimentação de um projector de dez mil velas com um alcance de 2,5 quilómetros.
Os postes em tubo de ferro foram construídos nas Oficinas Navais de Macau. Parte do material relativo à instalação interna, de origem portuguesa, foi adquirido junto da Empresa Electro Cerâmica de Vila Nova de Gaia. Tratou-se do primeiro material eléctrico fabricado em Portugal a ser utilizado em Macau. A outra parte veio de Hong Kong. O custo total da electrificação foi de cinco mil patacas, não contando o encargo do projector, no valor de mil patacas.
Nesta obra de engenharia o tenente Carmona teve como principais colaboradores o tenente Daniel Aguiar, que cuidou muito acertadamente da colocação dos postes de ferro, e o primeiro-sargento de Marinha, artífice torpedeiro, Reinaldo Reis, que se encarregou da instalação e das provas. Terminada a obra deu-se a inauguração, com pompa e circunstância, a 7 de Abril de 1928. O Governador de Macau, acompanhado da sua esposa, dignou-se presidir à cerimónia de inauguração da electrificação da Vila de Coloane. Pelas vinte horas, Coloane estava às escuras! E assim devia ser para melhor se sentir a lei dos contrastes. Os convidados rodeavam a casa do motor. Na hora marcada, a esposa do Governador, a senhora dona Maria Ana Accia oli Tamagnini Barbosa, accionou o botão inaugural e... Coloane iluminara-se. O tenente Artur Carmona foi altamente felicitado pelos presentes, sendo mais tarde louvado em portaria. A festa terminou com um brinde de champanhe.

Ano de 1967
Exercia eu o cargo de Administrador do Posto Administrativo de Coloane, estávamos no auge da crise da Revolução Cultural na China. Os guardas vermelhos oriundos das vizinhanças de Coloane, camuflados de camponeses, visitavam-nos com periodicidade, a fim de se solidarizarem com os habitantes daquela vila nas suas manifestações e contestações. Mas nem por isso a vida administrativa deixava de ter continuidade, apesar dos condicionalismos existentes. Coisa engraçada era o facto das próprias manifestações e contestações serem precedidas de comunicação telefónica que, no entender dos organizadores, substituía perfeitamente a necessária licença administrativa, que nunca lhes foi negada, como é óbvio! E onde está o problema?
As demonstrações eram todas do mesmo género, autenticas cópias das anteriores. Os cortejos percorriam as ruas principais da Vila. Toda a minha gente empunha o seu livrinho vermelho, repetindo passagens dos «pensamentos do Mestre» que os quadros recitavam, ouvindo-se também, alternadamente, gritos sonoros contra os fascistas portugueses. Acusavam o Governador, Nobre de Carvalho, de protelar a assinatura da celebérrima «Nota de Culpa». Tudo isto acompanhado de ensurdecedoras marchas revolucionárias, lançadas por altifalantes colocados nos telhados das casas ao longo de todo o percurso.
Não faltavam também os jornalistas chineses de Macau e de Hong Kong, que vinham propositadamente fazer a reportagem dos acontecimentos. Uma legião de fotógrafos completava a caravana. Coloane estava no mapa.
Pouco mais de uma hora e a Vila regressava ao seu habitual isolamento e à sua adorável insignificância. A festa brava pertencia-nos a partir de então. A «malta» espalhava-se pelos modestos e baratos cafés da Vila, misturando-se com os seus habitantes, os mesmos que minutos antes bradavam contra nós. Bebia-se e conversava-se animada e amigavelmente, como se nada tivesse acontecido. Vamos lá compreender Macau... E onde está o problema? Macau era e é assim mesmo, um rosário de mistérios, um mundo de surpresas e de curiosas contradições.
Av. 5 de Outubro
Entre os projectos concretizados e os ainda em carteira, que tinham por objectivo levantar a moral e o prestígio da Administração, desviando ao mesmo tempo a atenção da população da Vila, a electrificação de Ká-Hó era o principal. A ideia nasceu, inicialmente, de uma rotineira visita de serviço à gafaria, por mim feita ao cair da tarde. Ao passar pela povoação de Ká-Hó, a caminho da leprosaria, uma vez mais senti um certo acanhamento pelo facto dos moradores se encontrarem a jantar à luz de candeeiros a óleo e a petróleo. Daí à resolução de levar luz eléctrica à povoação, foi um passo.
Conseguida a colaboração do bondoso padre Nicosia, na cedência do gerador particular que alimentava a leprosaria; obtido o financiamento para as obras de electrificação, através do sempre pronto padre Lancelote; e garantidos os serviços gratuitos do electricista e proprietário da firma «Santa», In Pang, pusemos mãos à obra.
Curiosamente, o mais dispendioso eram os postes metálicos para o transporte de energia da gafaria à povoação. Estes acabaram por nos cair do céu, ou melhor, do chão.
Foi-me revelado, por um dos meus guardas auxiliares, da existência de inúmeros postes metálicos algures na montanha. Decidido a visitar o local onde estariam os tais postes, encaminhei-me para a área indicada. Para meu espanto, o referido guarda compareceu acompanhado de mais outros dez colegas, empunhando pás e picaretas. Afinal, os postes estavam enterrados bem fundo no solo.
Feitas as escavações em mais de um local, ficámos na posse da tubagem, que estava em muito boa condição e era em número mais do que suficiente para a obra. Quem teria sido o brincalhão? E porquê? O encarregado pela colocação dos postes metálicos foi o ferreiro da Vila, Au Hong, cujo avô paterno, Au Leng, – segundo ele me contou, – era um negociante de ópio em Macau, que explorava o ramo numa casa que mais tarde serviu de sede à Universidade de «Ut Hoi», à Praça Ponte e Horta. Tempos depois cedeu o negócio a um conterrâneo, de nome Pat Loi Kim, um dos pioneiros das corridas de cães.
Decorridos alguns meses, demos a obra por concluída, sem gastar um único tostão dos cofres do Território, sem auxílio de técnicos especialistas e tão pouco de grupos de trabalho, que só serviam para reuniões sucessivas em valsas estonteantes e que geralmente redundavam em minuetes. Enquanto as obras de electrificação prosseguiam, o Governo planeava, em segredo, uma evacuação geral da guarnição militar de Coloane. A notícia foi-me transmitida directamente pelo então comandante militar das Ilhas, o alferes miliciano de infantaria, Rogério Santos (hoje, doutor Rogério Santos, director clínico do Hospital Conde de São Januário, aposentado e residente em Macau).
Como poderei esquecer a mágoa – raiva, direi até, – que se apoderou de mim ao ouvir tamanha irresponsabilidade e criancice da parte das nossas autoridades, para não lhe chamar outra coisa. Mas não fui apanhado completamente de surpresa. Dias antes havia sido informado pelo intendente Fonseca Ramos, chefe dos Serviços de Administração Civil de Macau, que as negociações com os «Maoistas» se estavam a complicar e, como tal, era de considerar a hipótese de uma atitude drástica por parte dos guardas vermelhos acampados na ilha de Vong Cam, a duas centenas de metros de Coloane. Por outras palavras, uma possível invasão, como represália à demora do Governo em aceitar na totalidade as exigências dos «Maoistas» não estava posta de parte. Ainda assim, fez-me ver que era apenas uma hipótese sem qualquer prova fundamentada. Que tivesse muita calma e continuasse a exercer com dignidade e coragem as minhas funções. Na realidade, o que o intendente Fonseca Ramos quis dizer, mas não disse, foi que abandonar o Posto Administrativo de Coloane estava fora de questão.
Por mim estava tudo bem, pois sempre acreditei que o problema havia de ser passageiro. Sempre considerei que, dando tempo ao tempo, haveríamos de voltar aos beijinhos e aos abraços uns com os outros.
Coloane: início séc. XX
A evacuação não teve lugar graças à intervenção corajosa do Rogério Santos que fez ver às altas esferas militares que a invasão estava, à partida, condenada a um triste e perigoso fracasso por razões óbvias: Coloane era uma ilha e à sua volta patrulhava a Marinha de Guerra da República Popular da China; além do mais, Coloane não podia ficar entregue à sua sorte. A tropa ficou e foi salvaguardada a honra. Por associação de ideias sou levado nas asas do pensamento até Timor-Leste. Não apareceu, pelos vistos, qualquer oficial com a coragem de convencer o comandante em chefe das nossas forças militares de que Timor não podia ficar entregue à sua sorte. A tropa não ficou, simplesmente debandou. Refugiaram-se todos na ilha de Ataúro e o resto é história.
Era um Domingo. Acabava eu e o meu braço-direito, o guarda de primeira classe da PSP, Guerra, de prestar as honras do içar da bandeira das Quinas, quando me aparece o padre Nicosia a informar que nessa noite, quando fosse accionado o botão de arranque da geradora da gafaria, os moradores de Ká-Hó já podiam jantar à luz de uma lâmpada eléctrica, ao invés da luz de um candeeiro de petróleo ou de uma vela, coisa que vinham fazendo há mais de um século. E assim se inaugurou, sem pompa e circunstância a electrificação da Vila de Ká-Hó.
Leprosaria de Ka-Hó
Mais tarde, com o «problema de Macau» já solucionado, teve lugar a inauguração oficial com as cerimónias da praxe: queima de panchões, discursos e discursetes, comes e bebes e muitas presenças, o que custou ao erário público mais do que a obra. Apenas uma ausência: a minha, o pai da criança. É que nem faltou a manhosa usurpação da «coroa de louros», por anafado anfitrião, inicialmente pouco aberto à concepção do projecto aqui relembrado.
Embora mencionar tudo isto possa cheirar a auto-elogio, torna-se fundamental que tenhamos a consciência do esforço que se exigiu a todos aqueles isolados numa pequena Vila em hora difícil e grave da História de Macau, esforço que deveria ter recebido diferente tratamento. No dia 16 de Janeiro de 1996, isto é, 29 anos depois dos acontecimentos, reuniram-se para jantar no restaurante do Ténis Civil de Macau os «Cinco Magníficos», nomeadamente In Pang, Albertino Alves de Almeida, o padre Nicosia, Au Hong e o padre Lancelote Rodrigues. Comemoraram a electrificação da vila de Ká-Hó. Eram eles os obreiros do projecto.
Artigo da autoria de Albertino Alves de Almeida publicado no jornal O Clarim

terça-feira, 15 de abril de 2014

Correio Maritimo: Abril de 1862

"A mala geral para a Europa e Índia por vapor Emeu da Companhia Peninsular e Oriental será fechada neste Correio no Sabbado 12 do corrente, ás 3 horas da tarde. José da Silva, administrador interino. Correio Maitimo, Macao 5 de Abril de 1862."
Anúncio publicado na parte "não official" do "Boletim do Governo de Macao". A CPO foi criada em 1832. A abertura do Canal do Suez em 1860 encurtou em muito o tempo de viagem.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Calafrio"... ao recordar os anos da guerra

Quando vi a foto da capa do livro "Macau 1937-1945: os anos da Guerra" confesso, comecei a sentir calafrio, Sr. Botas. Parece mentira, mas num relance, passou pela minha "caxola" as altas horas pequenos nadas que ouvia, naqueles tempos, dos adultos comentarem (nesse tempo), a falta de arroz, a falta de ... praticamente de tudo.
Meu pai trabalhava nos CTT e regressava as altas horas para casa. Passando pela ladeira que dava acesso à porta lateral do Hospital de Kiang Wu, muitas vezes batia com a cabeça nos pés de suicidas pendurados nos ramos das árvores ao longo dessa rua. Lembro-me de dois mendigos à porrada, porque um viu primeiro um rato morto...
O bombardeamento do hangar no Porto Exterior, combate aéreo entre dois aviões caça japoneses com dois caças americanos, na parte da tarde. Numa manhã no recreio da Escola "Central" Primária, um caça americano voava silenciosamente a pique e ao arrancar com um estrondo medonho (eu tinha +- 7 anos de idade) seguido de um roncar ensurdecedor para ganhar altitude, enquanto que outro caça também americano pela estrela branca bem à vista passava perto do primeiro. Mas graças a Deus, os funcionários públicos, com a política praticada pelo Governador Gabriel Teixeira formou aquilo que se chama Comissão, não faltou com o que comer. Se bem que às meias, mas melhor que nada. No Inverno, mendigos morriam de frio e à fome, petrificados e na posição de pedinte. Lá ia a maca e os maqueiros colocavam-os nessa mesma posição. Muitos suicidavam-se na mata da Colina da Guia...
Testemunho inédito de Mário Gomes macaense de 78 anos radicado em Portimão. A Comissão que Mário refere era a Comissão Reguladora das Importações.

domingo, 13 de abril de 2014

Declaração Conjunta: 13 Abril 1987

Pequim acordava com tempo primaveril e Macau em manhã chuvosa. Eram 11h30 e as televisões estavam ligadas à capital, onde mais de cem jornalistas se preparavam para testemunhar um momento histórico, na maior das 29 salas do Palácio do Povo. Sobre uma mesa coberta pelas bandeiras portuguesa e chinesa, o então primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva, 47 anos, e o seu homólogo, Zhao Ziyang, 67, iriam assinar a Declaração Conjunta Sino- Portuguesa sobre a Questão de Macau – o acordo internacional que estabeleceu um processo de transição de mais de meio século e fazia crer que pouco ia mudar no território quando a bandeira portuguesa fosse arriada. 
Na tribuna atrás de Zhao Ziyang e Cavaco Silva, que chegava com um Governo derrubado por uma moção do parlamento, estava Deng Xiaoping, o líder chinês que via ser aberto caminho à aplicação do inédito princípio ‘um país, dois sistemas’ e à reunificação do país. A Declaração Conjunta aprazava a data para a República Popular voltar a assumir o exercício da soberania sobre Macau a partir de 20 de Dezembro de 1999 e dava à Região Administrativa um "alto grau de autonomia". E a garantia de que "os actuais sistemas social e económico", as "leis vigentes" e a "maneira de viver de Macau" de manteriam até 2049.
Assim falou Zhao Ziyang a 13 de Abril de 1987: "Os Governos da China e de Portugal chegaram, num período relativamente curto, a um acordo total sobre a resolução da questão de Macau (...). [A Declaração Conjunta] assentou um sólido alicerce para a estabilidade e desenvolvimento de Macau (...). Os dois Governos compreenderam-se e cederam reciprocamente".
"Creio, senhor primeiro-ministro, que o acordo que assinámos constitui um marco de história nos nossos dois povos, já que soubemos dar um exemplo de paz, entendimento e progresso. Assinámos um documento que irá aplicar-se no século XXI", declarou Cavaco. O chefe do Governo português dirigia-se a Zhao, enquanto enaltecia a "perspectiva renovada para as relações entre Portugal e a RPC" e a criação de "instâncias que permitirão uma transferência harmoniosa". Mas também dizia "ter presente, neste momento, a população de Macau" – uma postura que não foi reconhecida por todos.
Manuel Dionísio, enviado especial da Tribuna de Macau a Pequim, resumia assim a visita de Cavaco à capital: "Estiveram uns dias bons de Primavera, com sol, disseram-se palavras solenes que a ocasião impunha, multiplicaram-se os abraços de regozijo (...) insistiu-se no espírito de compreensão reinante e nas perspectivas das relações entre Portugal e a China, uma vez apagado o traço de união que é Macau". "‘O acordo é bom, disseram os seus autores’".
A comitiva do primeiro-ministro recebeu as boas-vindas na praça de Tiananmen, "na mesma praça onde os estudantes chineses se manifestavam no início do ano por maiores liberdades", onde uma dezena de bandeiras portuguesas ondulava ao lado das chinesas. Ouviu-se uma salva de tiros e os hinos dos dois países. Cavaco Silva teve o primeiro encontro com Zhao logo de seguida, num diálogo que, segundo a Gazeta Macaense, andou à volta das propriedades do chá verde e que a Tribuna resumiu como "conversa de chá-cha". Já à noite, o primeiro-ministro chinês haveria de fazer "especial referência a uma presença ignorada pelo primeiro-ministro português nos seus discursos": as "personalidades de Macau", convidadas pela Nam Kwong (tida como a representação oficiosa da RPC em Macau) para a cerimónia de assinatura do acordo. Entre outros, estiveram lá Stanley Ho, Ma Man Kei, Carlos d´Assumpção, Roque Choi, Susana Chou, Ng Fok, Edmund Ho (que, à época, não dispensava apresentações, era o "filho do falecido Ho Yin"), Senna Fernandes e Jorge Neto Valente.
"O convite chinês às personalidades de Macau não deixou de contrastar com o alheamento do primeiro-ministro à sua presença" e Neto Valente tentou passar a mensagem quando Cavaco Silva, numa sexta-feira santa, chegou às Portas do Cerco, depois de ter subido "à campeão" a Grande Muralha, para explicar a Macau os termos da Declaração Conjunta. "Foi com lágrimas nos olhos que os portugueses assistiram à cerimónia de assinatura da Declaração Conjunta", escreveu o advogado e ex-deputado, num texto em que reproduzia o que pretendia transmitir a Cavaco, numa sessão da Assembleia Legislativa.
"Se os seus afazeres lho permitirem, poderá ainda compreender por que não viu nem verá da parte das gentes de Macau manifestações de júbilo (...) não se segue que os portugueses devam cantar hossanas ao acordo que afecta direitos legítimos de todos os que aqui vivem", dizia ainda Neto Valente, acusando as reservas da altura sobre o princípio ‘um país, dois sistemas’. Mas o mesmo jornal reconhecia que a autonomia estava "garantida além das expectativas". Por Macau, Cavaco fez a primeira leitura na missa da Páscoa e esteve com a Associação Comercial de Macau. Afirmou: "Penso que os habitantes de Macau em geral, e os empresários em particular, têm razões para estar satisfeitos". Vinte cinco anos depois, será difícil dizer que não estava certo.
Artigo de Sónia Nunes publicado no Ponto Final de 13-4-2012

sábado, 12 de abril de 2014

Macau na "Volta ao Mundo" de Ferreira de Castro

Em vésperas da Segunda Guerra Mundial Ferreira de Castro(1898-1974), um dos maiores nomes da literatura portuguesa do século XX, fez uma longa peregrinação por terras do Extremo Oriente acompanhado da mulher, Elena Muriel. Reuniu as crónicas do que viu e sentiu, incluindo Macau, no livro "A Volta ao Mundo", cuja publicação inicial é de 1944 e em fascículos. Muito do que viu (às palavras junte-se a profusão de fotografias e ilustrações) não seria mais o mesmo com o deflagrar do conflito e também por isso o seu testemunho é ímpar num diário de viagem escrito entre 1940 e 1944.
Inicialmente planeara ficar somente dois dias mas acaba por ficar duas semanas – pouco antes da invasão de Hong Kong pelos japoneses. Chegou a Hong Kong proveniente de Singapura, tendo viajado até Macau, de barco, numa viagem de cerca de 3 horas... para depois se hospedar no hotel Bela Vista.
 
On the eve of the Second World War, the author Ferreira de Castro and his wife, Elena Muriel, began their journey around the world to visit places that air bombs were soon to transform. They travelled to the cradles of civilisations, ancient and modern, in their humanistic quest to compare and assimilate all cultural differences. This was no lazy cruise to port cities as devised by some travel agency but rather a real adventure that involved twenty different ships and no guides or set departure times. The travel journal was four years in the writing and started to come out in instalments in 1944 with a large quantity of photographs and illustrations

“Passamos ao largo da foz do Rio da Pérola. Pouco depois, à nossa direita, levantam-se duas colinas, a primeira com um farol branco e uma ermida, a segunda com uma igreja. E entre estes dois guardiões dos navegantes espreguiça-se linda enseada. Pelas vertentes corre verde arvoredo e namoram-se níveas casitas. Antes mesmo de que alguém no-lo dissesse, compreendemos que estávamos em Macau. O estilo das casas, a sua brancura, a bucólica suavidade do conjunto, tudo, tudo lembrava certos trechos das províncias de Portugal, com a Senhora do Monte a servir de padroeira. Dir-se-á que os portugueses conseguiram modificar a própria paisagem asiática, as próprias árvores, dando-lhes expressão de terra minhota. Os ingleses chamam a Macau ‘colónia romântica e única’ e, efectivamente, visto do mar, lírico é o burgozito, que se destaca, pelo seu carácter lusitano, de todos os outros encontrados desde a ponta de Sagres ao Japão. Um oficial do navio, nascido em Macau, indica, orgulhoso, a primeira colina: ‘Acolá é o Farol da Guia, o mais velho que existe no Oriente, pois foram os portugueses que acenderam a primeira luz nas costas da China. E além, na segunda colina é a Senhora da Penha. Os primeiros navegadores ergueram ali uma capela, à qual sucedeu o templo actual’.
O vapor passa, lentamente, em frente da cidadezita, cada vez mais linda, contorna um dos esporões da terra e vai fundear no porto interior, espécie de canal entre a península de Macau e a ilha da Lapa, que emerge do outro lado. O ancoradoiro está pejado de sampãs e de juncos, alguns enormes, com as tripulações chinesas semi-nuas, cozinhando, comendo e lavando, numa imensa promiscuidade. À paisagem de Portugal longínquo sucedeu uma paisagem puramente chinesa. Estes juncos têm um ar remoto e parecem sobreviventes duma navegação já naufragada e perdida no mar dos tempos. Eles singram entre as ilhas, vão trafegar ao longe e, depois, com as suas velas de esparto, rotas esteiras, vêm recolher-se aqui, como num armazém, antes de abalarem novamente. Alguns, para evitar perseguições nipónicas, adoptaram a nacionalidade portuguesa e pintaram, no grande bojo, a bandeira lusitana. Há, também, pequenos navios chinos, da linha de Hong Kong e de Cantão, que recorreram, oportunamente, ao mesmo salvo-conduto para as águas onde domina o invasor.
O nosso barco, manobrando entre os juncos que enchem tudo, atraca, finalmente, à velha ponte de madeira. Não prevenimos ninguém sobre a hora e dia em que chegaríamos e não está ninguém à nossa espera. É um prazer enorme desembarcar em terra conhecida por leituras e não encontrar quem nos perturbe a volúpia de percorrer, a sós, a cidade que se trilha pela primeira vez. No porto de Macau não se exige passaporte, nem se abrem as malas. Após Gibraltar, também cidade franca, voltamos a sentir-nos novamente, ao cabo de meio mundo transitado, um forasteiro livre... Ninguém quer saber quem somos. Nos nossos dias, escravos de papéis de identidade, de carimbos, de vistos, de desconfianças, esta indiferença de Macau pela personalidade de cada qual talvez seja a sua principal virtude...
O cais está povoado de homens que conduzem, na extremidade de varas, largas tabuletas e bandeiras de reclamos. A língua portuguesa fraterniza com o idioma chino. Por cima dos caracteres do velho Celeste Império lê-se em caracteres latinos: ‘Curandeiro chinês, Fulano de Tal. Avenida Tal nº tal’. E, nas placas das lojas ribeirinhas, a mesma mistura de palavras e sinais alfabéticos. Quem reside em Portugal dificilmente imaginará o pitoresco desta união gráfica luso-chinesa.
Dirigimo-nos, mais tarde, ao Hotel da Bela Vista, que espairece junto da colina da Senhora da Penha. Ao subirmos as suas escadas, vamos interrogando, em português, a quantos empregados vemos. Mas nenhum deles sabe a nossa língua. Verificamos, depois, que em toda a Macau se passa, geralmente, a mesma coisa. Os chineses, quando aprendem outro idioma além do seu, é o inglês que aprendem, por ser o mais prático no Oriente inteiro. Se alguns destes simpáticos chinos do comércio e dos jirinxás se interessou, um dia, pela língua portuguesa, foi apenas para saber informar: - Senhô, é balato. Custa tantas patacas...
O velho hotel, onde residem muitos funcionários lusitanos, está sobranceiro ao mar. Tem uma larga varanda de pedra e, ao lado, frondosas árvores. Dele se vêem, em frente, algumas ilhas, à esquerda a colina do farol da Guia, mais abaixo a grande e rútila enseada, com a sua praia e seu branco casario. É um panorama fulgurante. Abrimos a janela do pobre quarto, tiramos o chapéu colonial e decidimos passar aqui duas semanas, em vez dos dois dias que tínhamos projectado. (...)
Ao crepúsculo, sentados na varanda, vemos os juncos volverem das suas derrotas diurnas sobre a água verde e tranquila. De grandes velas arcaicas, eles constituem a melhor decoração dos mares do Extremo-Oriente. E a esta hora vespertina tornam-se ainda mais grávidos de beleza e de mistério. Sem eles, sem as suas linhas de outrora e a sua sugestão de vida exótica, o Mar da China ficaria viúvo do seu principal encanto. Por baixo da varanda, pesca-se de modo primitivo, aqui como em todas as arribas chinesas. A rede não tem saco, nem labirinto algum. É uma simples malha quadrada, cujas quatro extremidades estão ligadas por bambus flexíveis, amarrados com cordas, a outro bambu mais forte e mais longo, que o pescador segura. Metida na água, recolhe o peixe que, porventura, sobre ela passe – e não consiga escapar-se enquanto o chinês a eleva. Algumas destas redes são fixas: a maré sobe e, ao baixar, deixa na ligeira concavidade da malha os peixes menos ladinos. (...)
Em frente da varanda, do outro lado da formosíssima toalha verde por onde deslizam os juncos, vê-se a ilha da Taipa, que, como a de Coloane, que se estende mais além, faz parte da colónia de Macau. Lá fomos encontrar alguns soldados e alguns funcionários civis lusitanos; alguns canhões, algumas pequenas igrejas e alguns pequenos edifícios públicos. Ilhas habitadas quase que somente por pescadores, os portugueses têm, todavia, procurado conquistar ao mar longos terrenos, para desenvolvimento da agricultura. Quase ninguém pensa, porém, nas outras terras da colónia quando se fala de Macau ou se visita Macau. Só a capital do ‘Fan-Tan’ açula a curiosidade.

A península de Macau, não obstante a sua pequenez, é formada por duas cidades completamente diferentes: a portuguesa e a nativa. A que se vê quando se arriba é a cidade lusitana. Uma longa avenida ribeirinha contorna a baía até às faldas da colina onde branqueja o farol da Guia. Copudas mangueiras ensombram o caminho e por entre os seus troncos se contemplam deslumbrantes marinhas. Do lado oposto, velhas casas, velhos solares, janelas e varandas de Portugal, numa atmosfera lusitana de outrora. As flores, as cores das paredes, as vidraças em guilhotina, até a soledade e um certo silêncio do sol nas casas lembram as antigas vilas portuguesas. As próprias ruelas que grimpam pelas declividades acusam a pitoresca toponímia dos burgos lusíadas dos séculos idos: Beco da Agulha, Travessa dos Algibebes, Forte do Bom Parto, Rua das Amas, Pátio da Canja, Travessa do Enleio, Travessa das Saudades, dezenas de outras com igual sabor popular. (...)
Macau ultrapassa em beleza natural quanto lhe havíamos creditado. Além disso, os portugueses, talvez por emulação com os seus vizinhos de Hong Kong, realizaram, nesta colónia, mais trabalhos de urbanismo do que têm feito em algumas cidades da própria metrópole”.
"O passado de Macau, é, todo ele, uma fantasia histórica de piratas. Um dia, há mais de quatrocentos anos, andavam os juncos pescando como hoje, surgiram, entre as ilhas, umas embarcações que também erguiam castelo à popa e ostentavam a cruz de Cristo sobre o velame enfunado. Elas deviam, como esses barcos que têm pintados, na proa, olhos de peixe, navegar cautelosamente, olhando a um lado e outro o mar e a terra desconhecidos. Eram os primeiros europeus que atingiam a China depois de Marco Pólo. Os piratas tomaram as naus por juncos de outros piratas, vindos de muito longe. E, por solidariedade de profissão ou por temerem luta com quem se fazia acompanhar de bombardas, deixaram-nos transitar. Os portugueses instalaram-se perto daqui, na ilha de San-Choan, onde devia morrer, mais tarde, S. Francisco Xavier. Com o tempo, outros lusitanos foram chegando, descobrindo as redondezas e remontando o próximo rio Pérola até Cantão. Os lusos vinham pelas riquezas da China e por espírito de revelação; e os piratas, esmoendo o caso, mudaram de atitude e desataram a guerreá-los, considerando-os rivais. Os homens dos juncos, hábeis em todas as abordagens, não se lançavam apenas contra os portuguese, mas também contra os próprios mandarins de Cantão. Dominando inteiramente estes sítios, eles eram senhores de todos os acessos à China do Sul. Então os ricos magnates chinos pediram aos portugueses auxílio para exterminar o inimigo comum. Tumba, tumba, três anos durou a luta, até que os juncos largaram à procura de abrigo em ilhas mais seguras. Por gratidão ao auxílio recebido, o imperador da China decidiu, nesse momento, brindar aos portugueses posse e vida livre duma minúscula península, onde, durante muito tempo, se haviam acoitado os salteadores marítimos. E foi assim que a Cidade do Nome de Deus de Macau veio a ser de Portugal”.
Excerto de "Volta ao Mundo" utilizado no livro de leitura do 2º ano dos Liceus
Agradecimentos: João Neves pela digitalização de algumas das imagens

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Biblioteca do Liceu: logotipo de 1936

O jornal The Far Eastern Herald fez uma edição especial a 11 de Abril de 1937 dedicada totalmente a Macau a propósito da chegada do governador Tamagnini Barbosa para o seu terceiro (e último) mandato. Entre os diversos artigos encontra-se esta referência ao trabalho de João Siu, estudante do Liceu, que em 1936 ganhou o prémio da escola nesta categoria ao criar o logotipo da Biblioteca do Liceu.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Fotografias de Ou Ping

Numa pesquisa pela internet sobre Macau de outros tempos o mais provável é encontrarmos fotografias da autoria de Ou Ping embora muitas vezes nem sempre surjam identificadas. Admito que o mesmo se possa passar aqui no blog embora faça todos os esforços para identificar os autores.
Numa das últimas visitas a Macau trouxe comigo vários livros. Entre eles um catálogo - editado pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e pelo Museu de Arte de Macau - da exposição "Uma Viagem no Tempo-Fotografias de Macau por Ou Ping" realizada em 2005. Ali encontramos centenas de fotografias, incluindo estas.
 
Praia Grande (ao fundo a Guia e a silhueta do Liceu): anos 60
Ou Ping trabalhou durante mais de 40 anos como jornalista no jornal de língua chinesa conhecido pelo título inglês Macao Daily News mas segundo consta nunca ali publicou uma fotografia. Foi ainda vice-presidente da direcção da Associação Fotográfica de Macau e membro honorário da Hong Kong International Vision Association. Iniciou a sua actividade e estudo da fotografia no início da década de 1960, cujo trabalho foi expondo ao longo dos anos em diversas exposições, quer em Macau, quer no estrangeiro, incluindo China e Portugal. Ainda em 2013 esteve patente em Macau a mostra "Traços do Tempo".
Numa entrevista a um jornal local falou sobre os anos 60 e 70 quando tirou a maior parte destas imagens: "Naquele tempo era muito difícil. Não só não tínhamos muito dinheiro para apostar nesta arte, como também éramos olhados com suspeita. As pessoas achavam que por termos uma máquina fotográfica éramos ricos e isso fazia com que não gostassem muito da nossa presença."
Pesca na Taipa ca. 1970
Pesca no Pontão nº 1 do Porto Exterior 
Ponte Macau-Taipa quase pronta em 1973
Mercado Vermelho
 Vista da Penha (anos 60)
Paragem de autocarro na av. Almirante Lacerda (1978)
Azáfama na rua de João de Araújo
Praça de Ponte e Horta (1961)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Soldados de Portugal!: 9 Abril 1923

General Gomes da Costa: Alocução proferida na revista passada pelo General Gomes da Costa, a todas as fôrças da Província de Macau, em 9 de Abril de 1923, 5º aniversário da Batalha de Lys.
Publicação ordenada pelo Governo da Colónia para distribuir pelos quartéis. Macau. Imprensa Nacional. 1923
Devido (ou a pretexto de) aos tumultos de 1922 o governo português decidiu enviar de Lisboa o general Manuel Gomes da Costa (1863-1929) ao Oriente para realizar uma inspecção às tropas. Nesse périplo de dois anos passou pela Índia, Macau (Abril) e Xangai. 
De regresso a Portugal, Gomes da Costa aceita chefiar o golpe militar em 28 de Maio de 1926 pondo fim à primeira República.
Manuel de Oliveira Gomes da Costa nasce em Lisboa a 14 de Janeiro de 1863, filho de Carlos Gomes da Costa, oficial subalterno de modesta origem camponesa e Madalena Rosa de Oliveira Costa. Seguindo a carreira de seu pai, passa parte da infância em Timor e em Macau, onde faz o primeiro exame no Seminário de São José. Frequenta o Colégio Militar, ingressando depois no Curso de Infantaria da Escola do Exército.

terça-feira, 8 de abril de 2014

"Esboço crítico da civilização chineza"

"Esboço crítico da civilização chinesa" da autoria de J. António Filippe da Moraes Palha com um prefácio do Exmo. Sr. Dr. Camillo Pessanha. Publicado em Macau pela Typ. Mercantil N. T. Fernandes e Filhos em 1912.
Camilo Pessanha era amigo de Moraes Palha (médico). Neste prefácio denota o seu profundo conhecimento de Macau e da China.
Celina Veiga de Oliveira escreveu em "Camilo Pessanha e o sistema judiciário da sua época" (Revista Administração n.º 92, vol. XXIV, 2011-2.º):
 "Pessanha chegou a Macau a 10 de Abril de 1894. No ano anterior tinha sido aberto no Diário do Governo concurso documental para professores do Liceu de Macau. Com as cartas de bacharel e de formatura obtidas na prestigiada Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, concorreu e foi nomeado professor da 8.ª cadeira, Filosofia.
Em Macau, entre 1894 e 1926, data da sua morte, Camilo Pessanha, conhecido preferencialmente pela poesia simbolista de que foi um dos maiores cultores, leccionou também outras disciplinas, como Direito Comercial, História da China, Português, História e Economia Política.
Era uma personalidade de vasta cultura geral e jurídica, reconhecida até por adversários, e de enorme curiosidade, pelo que o universo civilizacional da China aparecia aos seus olhos como um ilimitado campo de estudo e de observação. Para melhor o entender, estudou a língua e a cultura e pôde beneficiar do conhecimento pluridimensional da China, próprio da tradição portuguesa, hoje conhecida apenas em círculos académicos."
No prefácio Pessanha descreve assim o sistema penal chinês.
"Adoptado pela dinastia manchu recentemente deposta, da qual lhe vem o nome de Tai-Cheng-Lóc-Lai, às necessidades da sua dominação, é, todavia, com as ligeiras modificações introduzidas para esse fim, a reprodução de antiquíssimos preceitos, dos quais não só a origem mas até a tradição dos primeiros trabalhos de codificação se perdem na noite dos tempos. Como interpretação, sob o ponto de vista jurídico, das acções humanas, é pelo rigor de observação que demonstra e pelo alto espírito de justiça e de bondade que o inspira, um dos mais assombrosos monumentos de sabedoria legados pelos séculos."
Sugestão de leitura: “Camilo Pessanha - Prosador e Tradutor”, organização, prefácio e notas de Daniel Pires, Macau: IPOR/ICM, 1992

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cheng Meng ou Festividade da Pura Claridade

Depois das celebrações do Ano Novo, este é um dos momentos com maior tradição na cultura chinesa. Acontece no 104º /105º dia após o solstício de Inverno.
… É durante a celebração de Cheng Meng que as famílias chinesas vão depositar pivetes e velas aromáticas em frente das campas dos seus antepassados, onde são colocadas também pequenas malgas de arroz cozido e pratinhos com guloseimas várias. Sobre o túmulo dos defuntos queimam-se diversos objectos de papel, incluindo o tradicional “Dinheiro do Inferno”. No final das cerimónias em honra dos mortos, os familiares realizam uma espécie de piquenique em pleno cemitério, junto à campa dos seus entes desaparecidos, regressando a casa ao final da tarde. Manda ainda esta tradição que durante o período em que decorre o festival as mulheres não utilizem agulhas de costura nem lavem o cabelo”.
Sugestão de leitura: António Pedro Pires, O Culto dos Antepassados em Macau. Edições Afrontamento, 1999
Ficava junto à carreira de tiro. Imagens da década de 1960

domingo, 6 de abril de 2014

Gov. Bernardes de Miranda (1885-1957)

Num telegrama de 25 de Agosto de 1935 o governador de Macau dirige-se assim ao ministro das Colónias.
"Minha comissão termina dia 21 Junho próximo; minha ida Lisboa tão perto fim comissão será definitiva porque não convém nem ao Estado nem a mim o meu regresso a Macau para uma estada de 4 ou 5 meses. Fatigado e desgostoso com trabalhos governação nada me prende hoje a esta Colónia senão dever bem servir o meu cargo e por isso regresso com prazer a Portugal (…)"
António José Bernardes de Miranda foi governador de 21 Junho de 1932 a Outubro de 1935. Neste mês, a bordo do "Baloeran” escreve um relatório de 68 páginas sobre o seu mandato que envia a Salazar.
O documento merece leitura atenta. Fica a saber-se, por exemplo, que com a despesa dos serviços militares o governo gastava quase 1/3 da receita total da colónia… Nos anos seguintes houve uma diminuição do contingente e quando eclodiu a segunda guerra sino-japonesa e depois a guerra do Pacífico era diminuta a presença militar portuguesa em Macau.
O mandato de Bernardes de Miranda ficaria marcado pela questão do (fim) comércio do ópio a nível internacional, nomeadamente na esfera da Sociedade (Liga) das Nações. Para o seu lugar irá em Abril de 1937 (o território ficou quase dois anos a ser gerido pelo encarregado do governo) Artur Tamagnini de Sousa Barbosa. Seria o seu 3ª e último mandato. Morre em Macau em Julho de 1940.
Bernardes de Miranda viria a ser chefe de gabinete do presidente Óscar Carmona.

sábado, 5 de abril de 2014

A revolução a mais de dez mil quilómetros de distância

O 25 de Abril apanhou Macau "de surpresa",  com o Governo local, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, a reconhecer a nova situação política em Portugal apenas quatro dias depois do golpe. Hoje coronel na reserva, Manuel Geraldes era, aos 23 anos, um jovem alferes, quando na madrugada de 25 de abril de 1974 participou na tomada dos estúdios da RTP, em Lisboa, sob o comando do capitão Teófilo da Silva Bento.  "É quase como se nos saísse a taluda: uma pessoa ter o privilégio de participar num acontecimento desses", disse Manuel Geraldes à agência Lusa em Macau, onde reside desde o final dos anos 1980.   
Palácio do Governo em 1973. Foto W.L.
Aquela que "foi uma noite especial" para Manuel Geraldes terá sido um dia normal para António Dias Azedo, então "um jovem estudante, no quinto ou sexto ano do Liceu Nacional Infante D. Henrique" de Macau. "Deve ter sido o meu pai - ele era polícia - que nos disse quando voltou do serviço", recordou António Dias Azedo, sem conseguir precisar o momento da notícia da revolução.   Mas a sua primeira reação foi de receio: "Falavam num golpe, numa revolução, depois é viemos a saber que era a revolução dos cravos, com poucas mortes."
 Advogado em Macau, António Dias Azedo estava em abril de 1974, "na fase do cabelotugal é reconhecida pelo Governo de Macau a 29 de abril de 1974, o mesmo dia em que, segundo relata a Gazeta Macaense, o arquiteto José Maneiras declamou a "liberdade" de Manuel Alegre na Assembleia Legislativa onde era vogal. "No meu país há uma palavra proibida/ Mil vezes a prenderam mil vezes cresceu/ E pulsa em nós como o pulsar da própria vida", bradou José Maneiras, jubiloso por o poema conter já "verdades do passado".    
Molhe no Porto Exterior: ao fundo o hotel Lisboa e o edifício residencial dos CTT
(de Manuel Vicente - já demolido)
Em "Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979", Garcia Leandro escreve que a Revolução dos Cravos apanha Macau de surpresa e deixa uma população portuguesa - europeia e macaense - dividida. "Os mais velhos, com maiores responsabilidades e interesses locais, sentiram-se quase perdidos, levantando muitas interrogações quanto ao futuro. Os mais novos aderiram rapidamente à revolução", sustenta aquele que viria a ser o primeiro governador de Macau no pós-revolução, sucedendo a Nobre de Carvalho. No seu livro, Garcia Leandro recorda a nova realidade de Macau com o fim da censura nos jornais em língua portuguesa - a chinesa nunca terá estado sob o lápis azul, segundo o autor - e a formação de movimentos associativos ligados a partidos políticos em Portugal. 
Mas para estudantes como António Dias Azedo, a Revolução dos Cravos trouxe o fim das "paradas enfadonhas" da Mocidade Portuguesa e mais alunos de Portugal para os bancos das escolas de Macau, com mais liberdade "no vestir, no estar e no pensar".  "Os rapazes começaram a fumar mais e as meninas subiram um bocado as saias. As festas duravam até à meia-noite. O pessoal e os professores começaram a ter mais barba, mais bigode, mais cabelo, não é?", atirou, entre risos.   
No 25 de Abril, António Dias Azedo tinha 16 anos, os mesmos com que Manuel Geraldes assistiu, pela televisão, a comemorações do Estado Novo, realizadas em Braga, sem saber que viria a participar na viragem do regime quase uma década depois.  "Eram umas comemorações de uma formalidade tremenda, e de pessoas velhas, mas hoje, ver a juventude participar espontaneamente nas celebrações do 25 de Abril? De facto, não pode haver melhor para nos sentirmos felizes e compensados por algum risco da nossa participação na revolução", afirmou Manuel Geraldes.  "Valeu a pena, sem dúvida", rematou. 
Artigo da agência Lusa (FV/NS/PJA) de 3.4.2014  
Baía da Praia Grande em 1973/74 com destaque para o Liceu e os hotéis Lisboa e Sintra (ainda em construção)
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