domingo, 27 de outubro de 2013

Adivinhas em patuá

Adivinhas em antigo patois de Macau (1ª parte) livro editado pela IN em 1975.
Recolha da prof. Ana Maria Amaro
Post de homenagem aos 20 anos do grupo de teatro em patuá "Dóci Papiaçám di Macau", uma efeméride assinalada com um espectáculo este sábado em Macau.
Em cima um excerto de um registo de adivinhas do século XIX.
Pode ver mais adivinhas aqui
   
 

sábado, 26 de outubro de 2013

Almirante Magalhães Correia

Luís António de Magalhães Correia nasceu 1873 em Lisboa. Frequentou o Real Colégio Militar, assentando praça, como voluntário 1887, passando depois para a Armada, onde frequentou a Escola Naval e foi o 1º classificado do curso. A 19 de Maio de 1891 era promovido a guarda marinha e em 1897 era 1º Tenente. Em 1923 era capitão de fragata. "Ainda muito novo praticou actos heróicos na campanha de Maubara, em Timor. A canhoneira Diu estava em Macau e deslocou-se rapidamente para Timor, comandada pelo Cap.Ten Manuel Azevedo Gomes, e a 21 de Junho, bombardeou Maubara. O 2º Ten. Magalhães Corrêa fazia parte da guarnição e muito se distinguiu o que lhe valeu a Torre e Espada (03-11-1893). Foi depois Capitão dos portos de Moçambique e a seguir, já 1º tenente, comandou a Esquadrilha de Gaza, e depois ainda Governador de Manica e Sofala. Em 01-07-1907 foi ajudante de campo do Ministro da Marinha."
Esteve embarcado na Fragata D. Fernando, nas canhoneiras Diu e Faro, nas lanchas Capelo e Serpa Pinto, no transporte Índia, no couraçado Vasco da Gama, comandou os torpedeiros vapores Mineiro e Fulminante, o contra torpedeiro Tejo e o Tâmega e o cruzador Vasco da Gama. Foi instrutor de torpedos. Em 1910 foi a Livorno para as experiências do Submarino Espadarte. Comandou ainda a canhoneira Pátria em Macau (e também Índia e Timor), onde foi Capitão de Porto e Chefe dos Serviços de Marinha. Em 1930 é promovido a Contra Almirante e em 1937 a Vice-Almirante.
Em 6 de Outubro de 1929 recebe o navio balizador Almirante Schultz. A 17 de Outubro acompanha Carmona numa visita oficial a Espanha, mas como MNE, cargo que exerceu de forma interina por apenas 10 dias, julga-se que foi por renuncia à viagem do titular da pasta , seu camarada cap. m. g. Jaime Fonseca Monteiro.
Em Maio, a comemoração do aniversário do novo regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926 é no Arsenal, onde Magalhães Correia anuncia o novo estudo de um plano de construções navais, a reorganização da Armada e o seu papel no futuro. Depois dele falou o ministro das finanças, Salazar, com um violento discurso, que iria agitar imenso a oposição e dar lugar ao abortado golpe de 21 de Junho.
É proclamada a Republica na vizinha Espanha e pouco depois sucede a revolta na Guiné (os revoltosos rendem-se a 8 de Maio, data em que o cruzador "London" fundeia no Funchal para proteger, e recolher, a comunidade britânica). Perante este insólito espectáculo o Governo reage e a 21 de Abril parte de Lisboa uma Força naval comandada pelo próprio Ministro da Marinha (MC) embarcado no "Vasco da Gama". Chegados ao Funchal bombardearam com as peças do navio e ataques de hidroaviões, as posições dos revoltosos, que subjugaram a 2 de Maio, sem condições. 
"A 18 de Junho , a maioria dos Oficiais da Marinha prestam homenagem ao seu Ministro, mas como a coisa não poderia dar lugar a más interpretações, também convidaram o Presidente do Conselho, que aliás também se portou muito bem em toda esta embrulhada.
Como que para contrariar esta atitude "naval", a 26 de Agosto rebenta a revolta de "caçadores 7", com Dias Antunes, Helder Ribeiro, Sarmento Beires, Utra Machado e o inefável e omnipresente nestas coisas, Comandante Agatão Lança. 40 mortos e cerca de 200 feridos, custou a aventura. Foram deportados para Timor."
É de realçar neste período de intensa actividade política a formação da Aliança Republicana Socialista (Junho 1931), com 3 nomes de grande prestígio nacional, o General Norton de Matos e os Almirantes Mendes Cabeçadas e Tito de Morais. Magalhães Correia foi representante das colónias do Oriente no Conselho do Comércio Exterior de Portugal, em 1926, Director dos Depósitos de marinha, Chefe do estado Maior Naval, encarregado do Governo e Governador de Macau (1922/1923 - nomeado pelo primeiro-ministro António Maria da Silva), numa situação bem difícil com a influência bolchevique no sul da China e com ataques armados. Foi também Administrador da Zona Internacional de Tânger (cargo de elevada honra) de 1945/1948 , e posteriormente Administrador da Companhia de Moçambique. A ele se deve o Programa Naval Português iniciado em 1931.
"Em 1932 Salazar decide avançar para a chefia do Executivo, e é pedido, pelo PR, aos Chefes Militares que sondassem as respectivas corporações. Ao contrário do Exército, a Marinha considerou o excelente papel de Salazar nas Finanças, mas não concordava com a promoção proposta. Esta resposta foi colhida pelo Almirante Mariano da Silva, Major General da Armada , e transmitida ao Ministro. Este, naturalmente , informou o Presidente. Mas a ideia foi para a frente. Magalhães Correia, com grande prestígio no momento, pôs, uma vez mais a sua ética e dignidade acima do resto, e não pôde aceitar a continuação do cargo de Ministro na nova equipa de Governo."
Foi dos mais distintos Oficiais da Marinha. O seu nome foi dado a uma Fragata, (F474) a 3ª da classe Dealey. Em Macau existe uma avenida com o seu nome (zona da Areia Preta) e na ilha da Taipa uma estrada. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Toda a China - Vol. I

(...) Nesse Novembro de 1979 saí de Pequim com um grau abaixo de zero, vestindo um casaco acolchoado de algodão e duas camisolas de lã que fui despindo conforme o comboio avançava para sul. Ao chegar a Cantão encontrei 27 graus e as gentes eram outras, o dialecto também, no ar tépido e húmido respiravam-se cheiros, miasmas e realidades bem diferentes. Até Gongbei, ou Kongpak no dialecto cantonense, foram mais cinco horas e cento e trinta quilómetros numa carrinha com dúzia e meia de chineses. Eram outros tempos, fazia-se a viagem pelo itinerário exótico das estradinhas da província de Guangdong, de alcatrão manhoso onde se acotovelavam carroças, camionetas, triciclos, gente, muita gente como em toda a China, e até rebanhos de milhares de patos com o guardador, o “pastor” dos patos a controlá-los com uma extensa vara de bambu. Rumo a Macau, havia ainda os três braços do Zhujiang, o rio das Pérolas para atravessar nos grandes batelões de aço. E os arrozais, a vegetação, as aldeias, as fisionomias das pessoas do China do sul, tudo tão diferente da minha Pequim… Em Gongbei, então pouco mais do que uma aldeia, adivinhei a silhueta dos primeiros prédios altos de Macau. A carrinha deixou-me junto ao posto da fronteira chinesa. No alto do edifício rectangular e feio ondulava a bandeira vermelha das cinco estrelas. Ao fundo, mais baixa, lobriguei desfraldada sobre as Portas do Cerco, a bandeira portuguesa de cinco quinas.
Que viemos de tão longe fazer a esta China? Como foi possível estarmos aqui há quatro séculos e meio? Um nó a crescer na garganta, o coração a borbulhar sensível, a emoção toda num desvairo.
Cumpridas as formalidades alfandegárias do lado chinês, na altura nada simples -- revistavam-se malas, passava-se tudo a pente fino --, questionei-me: “E agora como é, para entrar em Macau?” Existiam uns duzentos metros de uma fronteiriça terra de ninguém e, logo a seguir, as Portas do Cerco. Havia uma pequena fila de chineses a caminhar para lá e para cá, os que entravam e saíam de Macau. “Vou a pé como eles!” De maleta na mão, pisei gloriosamente, pela primeira vez, a terra dos portugueses na China, cidade do Nome de Deus de Macau.
À direita, logo depois das
Portas do Cerco havia um pequeno posto alfandegário com um sargento da polícia de Macau à porta, de serviço. A cara não enganava, era um português dos quatro costados, talvez minhoto ou transmontano, com mais de 50 anos, entroncado, com ar bonacheirão. Saudei-o, satisfeito. “Boa tarde, quer ver o meu passaporte?” O militar, surpreendido pela então raridade de ver um português entrar a pé em Macau pelas Portas do Cerco, com mala e tudo, olhou-me curioso e perguntou: “ Oh, homem, de onde é que você vem?” Respondi: “Venho de Pequim.” O nosso sargento não escondia a estupefacção. “De Pequim? De Pequim?” Eu acrescentei: “Pois, trabalho lá, não quer ver os meus documentos?” O sargento ripostou: “Oh, homem avance, os chineses do outro lado já controlaram tudo, passe bem em Macau.” Ainda lhe perguntei: “Mas vocês aqui não contam o número de pessoas que todos os dias entram e saem de Macau?” O sargento concluiu, mais ou menos assim: “Não, não é preciso. Os chineses do outro lado, ao fim de cada dia, mandam-nos a lista completa das pessoas que entraram e sairam. Eles é que controlam tudo, e estão sempre certos.”
Que confusão me fez a cidade do Nome de Deus na China! E continua a fazer hoje, depois de chegar mais umas vinte vezes a Macau, por terra, mar e ar, ou seja, ainda pelas Portas do Cerco, de jetfoil desde Hong Kong, e de avião vindo da China. Em cada chegada, sempre o mesmo nó que não consigo desatar e vou levar comigo para uma outra vida. Talvez então, sereno, iluminado, descansando numa nuvem, eu possa desenlaçar todos os nós.
No Outono de 1982 bati o meu recorde de permanência em Macau, quase dois meses de incerta estadia. À deriva entre a China e Portugal, procurava novas soluções para a vida e encalhei o meu dia a dia em Macau, à espera de melhores tempos, lutando por novas soluções de vida. Não esqueço a ajuda, o abrigo que encontrei em alguns amigos, o Jorge Neto Valente, o José Rocha Dinis, o Rogério Beltrão Coelho, o padre Manuel Teixeira, os braços fraternos que apoiaram este “português de Pequim” meio perdido pelo Oriente Extremo. Não esquecerei também a tão útil e entusiasmante perninha de jornalismo que fiz no jornal
Tribuna de Macau que então nascia. (...)
António Graça de Abreu in Toda a China - Vol. I. Edição Guerra e Paz, 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Rua e Pátio dos Cules

A Rua dos Cules tem início na Calçada do Tronco Velho. Há ainda um Pátio dos Cules. Cules é a denominação antiga dos indianos, chineses e outros povos asiáticos que emigravam, muitas vezes forçados/vendidos para trabalhar como assalariados em vários países da América do Sul. Esse tráfico começou em Macau em 1851 e só seria proibido em 1873.
Sugestões de leitura sobre o tema (além das referidas noutros posts):
Macau, Eça, Corvo e o tráfico de cules, de João Guedes - Revista de Cultura nº 7/8 Outubro 1988- Março 1989
Do tráfico de escravos à emigração dos cules, de Alfredo Gomes Dias - Revista Lusófona de Humanidades e Tecnologias, 2001 
The contract, signed in Macau, provides for the immigration of a 22 year old man named Chang Teng to the city of Lima for work as a “cultivator, gardener, livestock herder, household servant or general laborer” during a term of eight years, for a salary of eight pesos per month. The contract is also written in Chinese on the reverse side.
Teng, who was probably illiterate, signed with a thumbprint on the Chinese side. Tens of thousands of people immigrated from China to Peru via Macau as indentured servants in the second half of the nineteenth century, marking the first wave of Asian immigration to the country. Today, the Chinese-Peruvian community is over a million people strong.
Documentos do arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Perú.
Sobre o tema existem diversos posts. Sugiro por exemplo este post
 Páteo dos Cules
Placa toponímica: em cima antes de 1999 e em baixo depois de 1999
Neste post (ver link) pode ver uma lista de nomes de cules referente a 1870 (Cuba) e perceber como o nome de Eça de Queirós surge nesta história...
Edição do jornal The Graphic de 1874 com uma alusão ao tráfico de cules a partir de Macau
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

The british presence in Macau

A 24 de Outubro Rogério Puga apresenta na Universidade de Hong Kong o livro "The British Presence in Macau, 1635-1793". No dia seguinte a apresentação acontece na Universidade de Macau (auditório II).
No dia 26, também em Macau, na Fundação Rui Cunha a palestra será sobre o primeiro museu de que há registo na China... foi em Macau em 1829. (ver post)
"For more than four centuries, Macau was the center of Portuguese trade and culture on the South China Coast. Until the founding of Hong Kong and the opening of other ports in the 1840s, it was also the main gateway to China for independent British merchants and their only place of permanent residence there. Drawing extensively on Portuguese as well as British sources, The British Presence in Macau traces Anglo-Portuguese relations in South China from the first arrival of English trading ships in the 1630s through the establishment of factories at Canton and the beginnings of the opium trade to the Macartney Embassy of 1793."

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Quando Macau teve aviação naval

 Década 1920
Antes do Aeroporto Internacional de Macau inaugurado a 8 de Dezembro de 1995... Antes da ligação aérea com Hong Kong, assegurada por uma empresa local — a Macao Aerial Transport Company (MATCO) — desde finais da década de 40 até princípios de 60... Antes da Pan American Airways ter estabelecido uma carreira, com paragem em Macau, entre S. Francisco e Manila, com recurso a hidroaviões, numa viagem inaugural que remonta a 23 de Outubro de 1936... Antes de tudo isto já tinha existido aviação em Macau.
A zona do hangar da Taipa cerca de três décadas depois de ter sido desactivado
e a mesma perspectiva mas já no século XXI
No hipódromo da Areia Preta chegou a ser construída uma pista de 1.200 metros onde aterrou (atolou) um DC 3 (na década de 1940), em voo experimental destinado a abrir uma ligação regular com a colónia britânica. Foi aí que em Novembro de 1934, o tenente aviador Humberto da Cruz e o sargento-mecânico Gonçalves Lobato, num arrojado raid Lisboa-Dili, aterraram. Mas em Novembro de 1927 a Marinha Portuguesa inaugura um Centro de Aviação Naval na ilha da Taipa. O Comandante Adelino Rodrigues da Costa em “A Marinha Portuguesa em Macau, edição da Capitania dos Portos de Macau, 1999, conta essa história.
 “Macau foi o primeiro território de soberania portuguesa onde se instalou um serviço de aviação e a iniciativa pertenceu à Marinha. Alguns incidentes graves acontecidos no Porto Interior em 1921, quando a canhoneira chinesa ‘Kwang-Tai’ e um pequeno torpedeiro guarnecidos por elementos adversos ao governo de Cantão não acataram as instruções das autoridades marítimas portuguesas, revelaram as vantagens da existência de um serviço de aviação no território. Então, sob proposta da Capitão do Porto, capitão-de-fragata Magalhães Corrêa, e com o apoio do Governador comandante Henrique Correia da Silva, foi adquirido algum material à Macao Aerial Transport Co., nomeadamente dois aparelhos para treino do antigo tipo Aeromarine, chegando a montar-se uma escola e a contratar-se um instrutor americano. De seis alunos civis, só dois macaenses concluíram as provas e voaram desacompanhados, chegando também a especializar-se algumas praças do Armada. Porém, em 1923 o instrutor retirou-se, não foi substituído e a experiência caiu no esquecimento.
Quando em 1927 se verificaram perturbações na China, sobretudo na região de Shanghai, algumas nações ocidentais concentraram forças na região para a protecção dos seus nacionais. O Governo Português também reforçou a sua Estação Naval de Macau com os cruzadores ‘Adamastor’ e ‘República’, fazendo deslocar uma secção de 3 hidroaviões ‘Fairey III D’ para Macau, entre os quais se incluía o histórico ‘Santa Cruz’ que concluíra em 1922 a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Os aparelhos foram transportados desde Lisboa no transporte ‘Pero de Alenquer’ e desembarcados em Macau no dia 26 de Outubro de 1927. O objectivo da presença desta secção era o de assegurar rápidas ligações a Hong Kong e o de auxiliar a Polícia Marítima na fiscalização das águas do Rio das Pérolas, então cenário frequente de acções de pirataria e contrabando. Com os hidroaviões ‘Fairey 17’, ‘Fairey 19’ e ‘Fairey 20’ seguiu o pessoal de apoio e os pilotos, respectivamente o 1.º tenente Marcos Vieira Garin e o 2.º tenente Neves Ferreira, a que se juntou depois o 1.º tenente José Cabral, para comandar aquela secção. Na costa sul da Ilha da Taipa foi improvisado e depois construído um hangar para os hidroaviões e algumas moradias para o pessoal deslocado no local.
O Fairey nº 20 voando junto a Hong Kong
O primeiro voo realizou-se no 5 de Março de 1928. Porém, não foi intensa a actividade da secção estacionada em Macau e o ‘Fairey 17’ pouco voou: tomou parte em pesquisas de aviões franceses e americanos perdidos no mar da China, colaborou com as autoridades francesas de Hanói e com as autoridades inglesas de Hong-Kong, tendo sobrevoado território chinês. Em 1929, tal como os navios, também os aviões receberam ordens para retirar para Lisboa. Estavam já encaixotados a bordo do transporte ‘Pero de Alenquer’ para regressar a Lisboa, quando o Governo de Macau insistiu para que permanecessem no território. O ‘Fairey 19’ e o ‘Fairey 20’ foram desencaixotados mas, devido a pressões da Direcção da Aeronáutica Naval, foi decidido que o ‘Fairey 17’ regressasse a Lisboa, pelo que ainda hoje está no Museu de Marinha, constituindo uma das mais importantes peças do seu acervo.
Em Março de 1932 o 1.º tenente José Cabral regressou a Lisboa e o Centro de Aviação Naval de Macau foi encerrado, vindo a ser extinto em 1933. Contudo, a Capitania dos Portos de Macau continuou a assegurar a conservação do hangar da Ilha da Taipa, nele se mantendo o ‘Fairey 19’ e o ‘Fairey 20’.
A instabilidade por que passava a China, com a guerra civil e a invasão japonesa, levaram o Governo Português a destacar para Macau o aviso ‘Bartolomeu Dias’, que embarcou os hidroaviões ‘Ospray 71’ e ‘Ospray 72’, além dos pilotos 1.º tenente Aires de Sousa, 2.º tenente Cardoso Barata e 2.º tenente Rodrigo Silveirinha. O navio chegou a Macau no dia 25 de Outubro de 1937 e os dois aparelhos ‘Fairey’, que desde 1933 se mantinham no hangar da Ilha da Taipa, foram desmantelados para que os ‘Ospray’ pudessem ocupar os seus lugares no hangar, que foi ampliado para receber os novos aviões que tinham maiores dimensões.
Por decreto de 8 de Dezembro de 1937 foi reactivado o Centro de Aviação Naval de Macau, primeiro sob o comando do 1.º tenente Namorado Júnior e, mais tarde, sob o comando do 2.º tenente Freitas Ribeiro. Logo em Maio de 1938 chegaram a Macau 4 novos ‘Ospray’, pelo que a Marinha passou a dispor de 6 hidroaviões em Macau, que nesse ano de 1938 foram integrados na Marinha privativa da colónia. Em 1939 foi criada uma Escola de Aviação Naval e a actividade operacional do Centro de Aviação Naval era intensa, com uma média de quase uma hora de voo diário. (...) Quando o ‘Bartolomeu Dias’ regressou a Lisboa, deixou em Macau os seus hidroaviões, que foram integrados na esquadrilha de Macau e os pilotos destacaram para o ‘Gonçalo Velho’, que entretanto chegara ao território.
Nesta imagem ainda se vê ao fundo, do lado direito, parte do hangar na Taipa
A utilização da Ilha da Taipa era condicionada pelas marés e o uso do hangar era limitado pela escassez de espaço, que obrigava os aparelhos a dobrar as asas para nele entrar ou sair, factos que limitavam a sua utilização em casos de emergência. Além disso, havia as dificuldades na ligação entre a Taipa e Macau. Por isso, foi decidida a construção de um novo hangar nos aterros do Porto Exterior da península de Macau, que foi inaugurado em Março de 1941. Condicionado pelas circunstâncias da Guerra, foi curta a vida do Centro de Aviação Naval de Macau, que passou por dois momentos particularmente graves em Junho de 1942 e em Janeiro de 1945.
No dia 26 de Junho de 1942, quando um ‘Ospray’ voava sobre Macau, teve uma avaria no motor e despenhou-se sobre o casario da rua do Tap Seac, explodindo e incendiando-se, tendo os seus ocupantes — 1.º tenente Rodrigo Silveirinha e 1.º sargento mecânico Macedo Girão — morrido carbonizados. O Centro de Aviação Naval foi extinto pouco tempo depois, mas o hangar foi mantido e nele conservados os 5 hidroaviões existentes. No dia 16 de Janeiro de 1945, quando já estava definido o resultado da Guerra, a aviação americana baseada no porta-aviões ‘Enterprise’ bombardeou o hangar do Centro de Aviação Naval de Macau, destruindo-o com bombas de 50 libras e tiros de metralhadora.”

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tintim em Macau?

Um destes dias durante umas pesquisas na internet encontrei este texto que resolvi partilhar convosco. Foi escrito por António Leite da Costa (que julgo não conhecer) no blog Tertúlia Invisível em Março de 2013. É um texto muito diferente do que habitualmente surge aqui no "Macau Antigo" mas pareceu-me uma abordagem, no mínimo, interessante. Espero que gostem.

"Adquiri, há alguns anos, numa loja da movimentada Rua da Palha, umas camisolas de algodão que tinham estampados quadrinhos tirados dos álbuns de Tintim, ou mesmo, nalguns casos, uma prancha completa. A loja já desapareceu. É agora uma sapataria. E as camisolas do Tintim, diferentes todas elas das versões oficiais vendidas nas lojas que mantém a presença de Hergé um pouco por todo o Mundo, continuam a servir no Verão, sobretudo quando vou a banhos. Sempre que passo na mesma rua, ainda tento descobrir o paradeiro da loja desaparecida, na busca de uma nova peça de vestuário, naturalmente contrafeita, que me lembre o velho e saudoso companheiro dos meus tempos de juventude e que continuo a reviver agora, com o mesmo proveito e a mesma alegria. Ando, por isso, aqui, em Macau, à procura do Tintim. Não, como os Dupond e Dupont, a percorrer, disfarçado, a cidade chinesa. Mas com a plena serenidade de quem está, não obstante a língua e os costumes, numa cidade cristã.
Falar de Tintim nesta cidade pode, à primeira vista, lançar alguma confusão. É que tin-tin era o nome que se dava às lojas de bricabraque chinesas que, no século passado, existiam em vários locais, sobretudo para os lados do Porto Interior, num largo dito “das melancias”, a que os chineses chamavam Lan-Kuoi-Lau, sendo também conhecida como “Feira da Ladra”. Ou aos vendedores ambulantes de ferro-velho que tudo vendiam e, aparentemente, consertavam. O nome, creio, tinha a ver com o barulho que o vendedor fazia batendo incessantemente um prego num pedaço de ferro, para chamar a atenção da interessada clientela. Esses tintins praticamente desapareceram. Hoje falar em Tintim – dingding, em mandarim – é lembrar os seus livros, sobretudo O Lótus Azul, a mais conhecida aventura do nosso herói na China e o álbum que mais rapidamente se esgota nestas paragens. Nele, como sabemos, é-nos apresentado um jovem chinês, estudante da Academia de Belas Artes de Bruxelas, e cuja história e amizade com Hergé se tornou lendária.
Zhang Chongren (1907-1998), artista e escultor que ganhou merecida fama e tem, em Xangai, sua cidade natal, um museu que lhe é dedicado, deu origem, no álbum, à figura de Tchang (transcrição fonética de Zhang), grande amigo de Hergé, na vida real, e que reaparece, de forma comovente, em Tintim no Tibete. Publicado inicialmente na revista Petit “vingtième”, entre Agosto de 1934 e Outubro de 1935, com o título de Tintim no Extremo Oriente, o álbum O Lótus Azul é verdadeiramente inovador, dando-nos uma visão mais correcta e realista da China de então, ainda pouco conhecida no Ocidente. Nele, ao contrário do álbum anterior, As Aventuras de Tintim, repórter no Oriente, título inicial da versão moderna de Os Charutos do Faraó, onde surge pela primeira vez o nosso simpático compatriota Oliveira da Figueira, não há qualquer personagem portuguesa. Como sabemos, são apenas três os nossos compatriotas que se cruzam com Tintim. Além de este amigo de toda a hora e dos momentos mais difíceis e inesperados, há o jornalista do Diário de Lisboa, em Tintim no Congo – cuja primeira versão entre nós foi “Tim-Tim em Angola”, na revista O Papagaio – e o Professor Pedro João dos Santos, o célebre físico da Universidade de Coimbra, em A Estrela Misteriosa.
E por que não, pergunto eu ao deambular por esta cidade, onde o Ocidente se cruza com o Oriente, um Tintim em Macau, como continuação de O Lótus Azul, passado em pleno período da Segunda Grande Guerra? Nesta cidade que já foi comparada, nesse período, à Casablanca que o cinema mitificou ou à velha capital portuguesa que, quando a Europa ardia em chamas, mantinha uma paz digna e difícil, embora não isenta de muitos sacrifícios. Uma paz de uma enorme grandeza, transformada na extraordinária Exposição do Mundo Português, em que Macau naturalmente participou, e tanto impressionou o criador de O Principezinho, Antoine Saint-Exupéry.
Para a feitura deste álbum podia muito bem contribuir o livro de João F. O. Botas, que o Instituto Internacional de Macau soube, em boa hora, editar. Estudo sério e muito bem documentado, que consegue dar uma boa visão de uma das épocas mais difíceis de este conturbado oásis de paz, entre 1937 e 1945. Oásis de paz, quando à sua volta grassava a guerra, a fome, a doença e a morte, e cujas consequências se faziam sentir também aqui diariamente. Traz-nos este livro figuras dignas de um bom álbum de Hergé e de episódios que dariam magníficas e coloridas pranchas. É certo que a violência parecia correr a par e passo, muitas vezes, com a pacatez do quotidiano. Mas outros álbuns do Tintim, como o próprio O Lótus Azul, já referido, se passam também em plena guerra, com ódios, traições e violências desmedidas. A arte de Hergé saberia, por certo, tudo dosear e fazer de Macau o centro inesquecível de mais uma fabulosa aventura de Tintim.
Fico a pensar em tudo isto quando leio o livro Macau 1937-1945. Os Anos da Guerra. E nele vejo Tintim a falar com Pedro Lobo e com Monsenhor Manuel Teixeira. Imagino Hergé a relatar a chegada a Macau de várias malas de livros do historiador britânico Charles Boxer, quando os japoneses ocuparam Hong Kong.
Como Danilo Barreiros, grande amigo do historiador inglês, possuía a chave de sua casa conseguiu assim salvar a preciosa biblioteca. Impressionante é também a vivacidade e o colorido que o criador de Tintim dá ao quartel-general do pirata Wang Kong Kit, situado na Avenida Horta e Costa. O contraste é Henrique Senna Fernandes – um dos meus escritores da estante reservada – a contar, com toda a graça e encanto que só ele tinha, as trapalhadas dos “detectives” Dupond e Dupont, perdidos entre os refugiados chineses, os macaenses de Hong Kong e os japoneses que se passeiam na cidade. Tudo isto sob o olhar atento do jovem Padre Lancelote Rodrigues, enquanto o pintor russo George Smirnoff tenta transformar rapidamente esta cena numa aguarela. Mas um dos melhores momentos do álbum é, sem dúvida – e penso que o leitor amigo é da mesma opinião -, o episódio, superiormente tratado por Hergé, da intrusão sub-reptícia de Tintim na casa do representante japonês em Macau e, ao sentir-se descoberto, a fuga apressada por um túnel, situado na cave do edifício, que, pensava ele, o traria rapidamente para o exterior. Mas o túnel ligava com a casa do vizinho que era, nem mais, nem menos, a do cônsul inglês em Macau!... Mais a frente, é o espanto de Tintim ao cruzar-se, na Avenida Almeida Ribeiro, com o americano William Gardner, fardado de oficial japonês. Espanto ainda maior, quando na última prancha do álbum, o vê fardado agora de oficial americano e ostentando, garboso, vistosa condecoração. Tintim em Macau, afinal, existe. Embora seja apenas na minha imaginação.

domingo, 20 de outubro de 2013

Um flautista em 1898

Antes da televisão e da rádio, a música ocupava grande espaço do entretenimento. Em Macau no final do século XIX também foi assim.
No jornal O Independente de 20 de Fevereiro de 1898 escreve-se que um "aprimorado gentleman muito conhecido em Macau" inventou uma nova flauta da qual conseguiu tirar sons "especialmente harmoniosos". Acrescenta ainda o artigo que "actos de desinteressa abnegação d‘esta natureza, derivados alem d‘isso d‘uma affirmação perante o Celeste Imperio do talento artístico portuguez, não podem ficar no esquecimento e impõem-se ás gerações futuras."
O instrumento tinha aspecto bicolor, pois havia substituído um dos tubos de ébano - o de maior diâmetro - por um de marfim. 
De acordo com o investigador Alexandre Bispo, "para exibir as possibilidades de seu instrumento, esse artista resolveu realizar uma excursão pelas principais cidades da China. Ia, também como veículo da difusão da música ocidental, pois era o seu objetivo impressionar os chineses e, através de suas aptidões na flauta, impressionar os chineses, demonstrando uma superioridade da cultura musical europeia. O produto desses concertos deveria ser entregue à comissão encarregada de promover em Macau os festejos pelo Centenário da Índia, ou melhor, pelos 400 anos do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, em 1898. Para essas comemorações de Vasco da Gama, comunidades de várias regiões do Oriente estabeleceram ou estreitaram contatos, criando-se redes e possibilitando cooperações e a união de forças. Para tais comemorações, o levantamento de meios financeiros tornou-se questão de importância. Com essa intenção, o flautista tinha também a certeza de receber a simpatia dos macaenses."
O grande interesse pela música originou o aparecimento do comércio ligado à actividade. A "Casa Alto Douro" anunciava ter exemplares à venda de valsas, tangos e maxixes para piano, além de fox-trots e one steps para piano, solos de violino... papel pautado, etc.
Esta casa - situada no nº 53 da rua Central - era uma agência da Costa & Sons de Hong Kong de onde iam os materiais para Macau muito provavelmente importados dos Estados Unidos, em especial da região de São Francisco, onde havia uma forte ligação comercial com Hong Kong.

sábado, 19 de outubro de 2013

Dicionário da Imprensa de Macau do Século XIX

O “Dicionário da Imprensa de Macau do Século XIX” é o mais recente trabalho da autoria do investigador Daniel Pires. A aventura começou em 1990 e implicou a consulta de milhares de documentos em diversos arquivos portugueses e estrangeiros. Na obra, pronta a ser editada, são descritos todos os periódicos (70) que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo, os jornais em língua inglesa.
Só para aguçar a curiosidade refiro alguns dos títulos da imprensa macaense do século XIX. O primeiro jornal a ser publicado em Macau e escrito em português foi o "A Abelha da China” (12 de Setembro de 1822). O primeiro jornal chinês da região, o "Jornal das Notícias de Macau" (ou, em chinês, o Ou Mun San Man Zhi), foi publicado entre 1839 e 1840, por Lin Zexu, um Comissário Imperial da Dinastia Qing encarregue da destruição do ópio.
Para se ter uma ideia da profusão de títulos, apenas mais alguns exemplos: Gazeta Macaense (1824), Crónica Macaense (1835), O Macaista Imparcial (1837), O Português na China (1840), O Comercial (1841), A Aurora Macaense (1843),(...) Echo do Povo (1859), O independente (1873), O Macaense (1882) (...) A Liberdade (1890), etc...
Em Julho de 1893, um grupo de pessoas onde se destacava Sun Yat Sen e o macaense Francisco Fernandes, criaram o Echo Macaense, um jornal escrito em chinês e português que se intitulava "semanário luso-chinez".
Um último exemplo para referir que em Fevereiro de 1897 surgiu o Jornal - o Reformador da China (em chinês, Chi Xin Bao), fundado por Kang Youwei e Liang Qichao.
De seguida, apresento um excerto da entrevista a Daniel Pires conduzida por Sandra Lobo Pimentel e publicada no JTM de 16-10-2013.
- O trabalho sobre o Dicionário da Imprensa de Macau foi iniciado em 1990. Porque demorou tanto tempo a ser finalizado?
Um dicionário de imprensa pressupõe a leitura e a análise de todos os números dos periódicos que dele constam. E são centenas de números. Além disso, as colecções dos jornais do século XIX estão frequentemente incompletas. Foi necessário portanto recorrer a múltiplos arquivos e bibliotecas, em Macau, Lisboa, Porto, Coimbra, Évora. E, mesmo assim, nem sempre se detecta tudo o que se procura porque muitos jornais se extraviaram, ou seja, pura e simplesmente não existem. Por outro lado, foi necessário, se possível, consultar os documentos manuscritos que se prendem com as relações dos directores dos jornais com o poder constituído, ou seja, o governador, o Leal Senado, o ouvidor e o juiz de direito, que tutelavam a imprensa e impunham uma censura, frequentemente muito apertada. Procurei igualmente os processos judiciais que foram instaurados aos jornalistas. A maior parte desapareceu, outros encontram-se no Arquivo Histórico Ultramarino, no Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e no Arquivo Histórico de Macau.
- Como se dividiu a pesquisa?
A pesquisa teve um ponto prévio: o estudo da realidade macaense durante o século XIX (a política, a história, a religião, a arte, a cultura em geral, o quotidiano). Foi igualmente feito o estudo da história da China, da Índia Portuguesa e de Portugal, dos quais Macau dependia. Munido destes conhecimentos, estava em condições de analisar com mais rigor os periódicos que foram sendo sucessivamente publicados em Macau. O critério perfilhado foi o cronológico. Comecei por ‘A Abelha da China’, o segundo periódico do Extremo Oriente, fundado em 1822 para ser porta-voz do Leal Senado na sua pretensão de deixar de depender, política e administrativamente, do Vice-Rei da Índia, bem como do ouvidor, Miguel de Arriaga, e continuei até 1900, num total de cerca de 70 títulos. Uma novidade do ‘Dicionário da Imprensa de Macau do século XIX’ é a análise dos jornais de língua inglesa que se publicaram simultaneamente em Macau e em Cantão. São agora descritos pela primeira vez em livro. Até à Primeira Guerra do Ópio, os estrangeiros apenas podiam comerciar em Cantão durante seis meses, nos outros seis, o porto estava-lhes vedado. Os ingleses estabeleceram-se então em Macau, onde continuaram a publicação dos seus jornais, que eram fundamentais para os seus negócios porquanto apresentavam informações relevantes sobre a actividade portuária do território: tripulação dos navios, mercadorias que traziam, respectivos preços, câmbios, mercadorias que se exportavam.
- Quais foram os principais obstáculos?
A dificuldade em consultar colecções completas. Alguns jornais nem sequer existem. Como os descrevi? A partir de jornais contemporâneos que os citaram ou transcreveram, ou dos documentos da censura, que se encontram, por vezes, nos arquivos, ou ainda da correspondência e das memórias de alguns dos seus colaboradores, caso, por exemplo, do grande sinólogo Robert Morrison, falecido em Cantão e sepultado em Macau, e de Wenceslau de Moraes.
- Qual a importância que atribui a esta pesquisa sobre conteúdos da imprensa para a compreensão do passado da região?
A imprensa é uma das fontes históricas mais relevantes. É nela que melhor podemos ter acesso ao pulsar quotidiano da sociedade: o seu tecido social, político e cultural. Um livro pressupõe ampla maturação. Em contrapartida, os jornais são publicados em cima do acontecimento, no momento, têm uma dinâmica diferente. Este dicionário analisa, descreve e localiza todos os periódicos macaenses – boletins, jornais, revistas, almanaques – publicados no século XIX. O conteúdo da maior parte destes periódicos é desconhecido. A sua recuperação poderá contribuir para a reavaliação daquele século, porquanto traz à colação elementos marcantes da história de Macau.
- Qual a sua opinião sobre a importância da imprensa no passado e no presente em Macau?
O estudo do passado ilumina o presente, ajuda-nos a ponderar o futuro. Permite-nos, por outro lado, conhecer as nossas raízes, a nossa identidade.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Memórias de João Martins: décadas 1940-1950 (segunda parte)

Nasci "por acaso" em Braga, em 1938, durante uma licenca graciosa do meu pai, que servira na Ilha de Mocambique como Delegado do Procurador da Republica uns anos antes. Pouco tempo vivi em Portugal, porque antes de ter um ano de idade ja estava a caminho de Mocambique e antes dos dois a caminho de Angola, onde passamos grande parte da segunda guerra, em Benguela, Luanda e Silva Porto.
Na minha primeira viagem, de Lisboa para Beira (Mocambique) em Setembro de 1939, segundo me contaram os meus pais, o nosso navio "Niassa" foi intimado por um submarino a seguir para Dakar, a fim de ser revistado. Os passageiros ficaram bastante nervosos pois nao sabiam se o submarino era aliado ou alemao, e neste caso qual seriam as consequencias, a pesar de Portugal nao ser beligerante. (Salazar decretou neutralidade, embora "colaborante" dado a sua simpatia pelo regime Nazi, como o seu colega Franco...) O submarino era ingles, apreendeu uns alemaes que iam para Angola e seguimos viagem...
Em 1945, depois da rendicao da Alemanha voltamos a Portugal seguindo em 1947 para Macau no navio "Lourenco Marques" um dos barcos alemães que estavam no Tejo e que foram apreendidos por altura da nossa entrada na I Guerra Mundial! A viagem durou 77 dias, pois o barco era movido a carvao e periodicamente tinha de se abastecer. Passamos por Dakar, Luanda, Lobito, Mossamedes, Cape Town, Durban, Lourenco Marques. Mombasa, Mauritius, Murmugao, Penang, Singapore, Manila, Hong Kong, Macau!
Em Macau vivemos até 1951, quando seguimos primeiro para Goa e depois Lourenco Marques, onde frequentei os Liceus "5 de Outubro" e "Salazar". Em Outubro de 1955, regressamos a Portugal no paquete "Angola" seguindo nessa viagem o Otelo Saraiva de Carvalho que ia frequentar a Escola do Exército e eu o 6 ano no Liceu Camões.
Depois de acabar o Liceu frequentei a velha Faculdade de Direito no Campo Santana e na Cidade Universitária, tendo como colegas uma rapaziada que se tornou mais tarde conhecida devido à "politica" como o Freitas de Amaral, Jorge Miranda, etc. e como contemporâneos o Rui Machete e o Jorge Sampaio, com quem trabalhei como Director da Seccão Desportiva no ano em que ele foi Presidente da Associação Académica de Direito sendo Vice-Presidente o meu amigo e colega Afonso de Barros (filho de Henrique de Barros, fundador do PS e sobrinho do Marcelo Caetano, que era casado com a irmã do Henrique de Barros).
Depois de ter cumprido serviço militar em Angola, trabalhei a partir de 1966 na Companhia de Diamantes de Angola como Chefe da Secção de Contencioso e Relações Públicas em Luanda ate 1975, quando regressei a Lisboa como o último Representante da Diamang antes da independência do Pais a 11 de Novembro de 1975. Desta experiencia profissional única poderia escrever um livro narrando sobretudo os últimos anos do "Estado de Angola" (curiosa designação adoptada pelo Estado Novo, que comecou por chamar Colonia, tendo ate elaborado o "Acto Colonial de 1933" e criado o "Estatuto do Indígena" (angolanos que não eram assimilados porque não tinham a quarta classe, mas que pagavam imposto se tivessem pêlos no sovaco...) depois das duras criticas da ONU a que Silva Cunha tentava contra-argumentar, foi promovida a Província e mais tarde com Moçambique e a Índia Portuguesa a "Estado"!...)
Em 1976 fui nomeado por Almeida Santos Administrador por parte do Estado da Editora Arcadia, (conhecida entre outras, pelas obras "Portugal e o Futuro" de Spínola e "Portugal Amordaçado" do Mário Soares) uma das muitas empresas falidas que pertencia ao Grupo da Seguradora Império, nacionalizada pelo companheiro Vasco na onda de nacionalizações pelo PREC com bancos e outras empresas.
Por esta altura fui nomeado pelo Conselho da Revolução para Vogal da CARSR, ou Comissão de Análise dos Recursos de Saneamento e Reclassificação, um grupo de "muchachos" com background jurídico e/ou militar, que dava pareceres sobre os recursos interpostos por pessoal do antigo regime que tinham sido sumariamente saneados com ou sem razão...
Curiosamente em 1975 o meu pai, na altura Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça Jubilado (na época em que o Supremo tinha apenas 15 juízes e não os 60/70 ou mais que tem hoje... sem se ver o retorno desse tremendo investimento...) foi nomeado Presidente da Comissão Inter-Ministerial de Saneamento e Reclassificação, cargo de que se demitiu passado uns meses por não ter paciência para aturar a anarquia que o país atravessava.
Em menos de um ano pedi a demissão para trabalhar para a McGraw-Hill International, abrindo a Editora McGraw-Hill de Portugal. O sucesso desta filial, permitiu que fosse dirigir a Editora McGraw-Hill do Brasil em 1980, em São Paulo e daí segui para Nova Iorque para Vice Presidente da Ásia-Pacífico em 1984, vivendo entre 1987/1988 em Singapura, para não ter que passar uns oito meses por ano a viajar pelo outro lado do mundo, sobretudo Austrália, Nova Zelândia e restantes países asiáticos. Foi por essa altura, em 1984, que voltei a Macau depois de ter saído havia uns 33 anos!...
Em 1988 regressei aos Estados Unidos para liderar a nova entidade Medical Publishing Group. Os bons resultados levaram a Pearson (grupo britânico proprietário da revista "The Economist", "Financial Times", Editora "Pinguin" Channel 5TV, etc) a oferecerem-me a chefia do Grupo Internacional, na altura com um volume mais de 500 milhões de dólares.
Acabei a minha vida profissional na "Thomsom" (proprietária da Thomsom Legal & Regulatory - principal fonte de informação jurídica digitalizada nos Estados Unidos, Thomsom Reuters etc.) em 2002, passando agora o tempo a jogar bridge, navegar na net e para variar...viajar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Memórias de João Martins: décadas 1940-1950 (primeira parte)

Já há bastante tempo recebi este e-mail do leitor do blog João Martins (Ramsey, NJ, EUA). No dia 15 último reencontrei-o em Algés aquando de uma palestra que proferi a convite do Rotary club de Algés sobre Macau durante a Segunda Guerra Mundial pelo que me veio à memória este e-mail já antigo e que reproduzo nos próximos dois dias. Ao João Martins os meus agradecimentos.
Tive a oportunidade de em 1948 ter feito o exame de admissão no Liceu Nacional Infante D. Henrique no Tap Seac. Lembro-me de na mesma sala e na carteira ao lado estar a Carocha Barros Lopes, nossa amiga e filha do Dr. Barros Lopes. O irmão dela formou-se em Medicina em Hong Kong e casou com a Ana Maria Bernard Guedes, filha do General Bernard Guedes, que na altura era Comandante Militar de Macau. 
O Reitor do Liceu nessa altura era o Dr. Garcia da Silva, que uns anos mais tarde foi meu professor de matemática no Liceu Salazar em Lourenço Marques. Infelizmente não me recordo dos nomes dos professores que nesse longínquo ano de 1948 fizeram os exames de admissão ao Liceu. Será que algum dos alunos dessa época se lembra?
Fica a pergunta que espero vários leitores possam responder. Entretanto, pedi ao João para escrever um pouco mais sobre as suas memórias de Macau na já longínqua década de1940-50.
(...) Entre 1947 e 1951 o meu pai foi Juiz de Direito da Comarca de Macau, depois te ter servido em anos anteriores em Moçambique e Angola. Passei aí uns tempos inesquecíveis, frequentando os últimos anos da primária no Colégio D. Bosco, que na altura estava nas instalações das Oficinas de S. José, situadas frente da Igreja de S. Lourenco, aonde ainda lá se encontram. O director, Padre Antonio Giacomino, um brasileiro paulista que ainda estava vivo há uns anos e o professor Padre Montini, italiano e sobrinho do Papa Paulo VI (Cardeal Montini) eram alguns dos docentes a que se juntava o professor de Inglês, Joe Thomson, um negro americano, antigo marinheiro que trocou a circum-navegacao pelos braços de uma chinesa de Macau, lançando ferro de vez no território...
O núcleo Lusitano era muito limitado, com a composição tradicional de metropolitanos que exerciam funções na então colónia e macaenses, sobretudo descendentes dos casamentos entre portugueses e chinesas, que por lá foram ficando e continuaram por várias gerações...
O Governador era o Comandante Albano de Oliveira, que com a esposa Maria Helena e filha Norma eram uma das famílias mais simpáticas dessa época. O comandante militar era o Coronel Cotta Morais, que mais tarde foi substituído pelo brigadeiro Bernard Guedes, que com a sua mulher Maria José e filha também Maria José, se não me engano, eram também uma simpatia. Voltamos a encontrá-los em Lourenço Marques (1951-1955) onde o Bernard Guedes foi Comandante Militar de Moçambique e mais tarde em Goa, onde foi Governador Geral.
O bispo de Macau era o D. João de Deus Ramalho, o Comandante da PSP Capitão Paletti, das Obras Públicas Poaires Baptista e o 'verdadeiro' governador de Macau era o Pedro Haydman Lobo, Director dos Serviços Administrativos e Económicos e a ponte de ligação entre as entidades públicas portuguesas com as chinesas...
Conheci-o muito bem porque frequentemente usávamos a piscina da sua casa chamada Vila Verde, que tivemos oportunidade de assistir a sua inauguração, integrando mais tarde a Rádio Vila Verde, já que o Pedro Lobo era chegado à musica e teatro, tendo levado à cena várias operetas nos jardins da casa, estreando numa delas uma das mais famosas cantoras chinesas da época chamada Dora Chi. Era um autêntico mecenas que gastava rios de dinheiro com orquestras (que dirigia...) e músicos e artistas...
Também nos encontramos várias vezes com alguns dos líderes da comunidade chinesa com Kou Ho Neng, Fu Tak Iam, Ho Hin, Sir Robert Ho Tung (que quando ia a Macau visitava o Colégio D. Bosco e eu era o encarregado do discurso de boas vindas em português, enquanto outros dois colegas apresentavam a tradução em chinês e inglês, tudo muito bem urdido pelos padres com o objectivo de sacar mais umas patacas ao generoso bilionário, tio do Stanley Ho...
(...) Gostava de destacar no período em que vivemos em Macau 1947-1951 os eventos ocorridos em 1949, com a chegada às fronteiras de Macau (Portas do Cerco) e Hong Kong (New Territories) do People's Liberation Army de Mao Tse Tung, da fuga das tropas do Koumitang de Chiang Kai-Check que pediram asilo a Macau e da reacção da população civil e militar, que tivemos a oportunidade de viver e testemunhar.
O texto do João Martins suscita muitos e interessantes temas e figuras da história de Macau. Sugiro novas leituras de apenas três. Para outras que v. possam suscitar interesse  aconselho a utilização do pcampo de "pesquisa" e/ou as tags/etiquetas.
Sobre o governador Albano de Oliveira 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Misericórdias Portuguesas no Mundo

Título de uma colecção de gravuras editada em Portugal em 1945. As obras são da autoria de João Carlos Celestino Pereira Gomes. A Santa Casa da Misericórdia de Macau é o nº 5 desta colecção.
João Carlos Gomes nasceu em Ílhavo a 5 de Outubro de 1899. Fez a instrução primária em Ílhavo e ainda antes do ingresso no liceu recebe aulas de francês ao mesmo tempo que é iniciado nas técnicas do desenho. Frequenta o liceu José Estevão, em Aveiro, onde, aos 12 anos, sugere a feitura de um jornal de turma que manuscreve e ilustra. Aos 15 anos colabora no prestigiado jornal ilhavense “O Nauta” sob o pseudónimo de Carlos Doherty. Com 16, representa com os amigos do liceu, a sua peça In Hoc Signo, no Teatro da Vista Alegre. Em 1917 faz a sua primeira exposição no Clube dos Novos.
Enquanto estuda medicina no Porto funda a revista literária “Humus” e frequenta os ateliers de grandes artistas da época, como Henrique Medina (retratista). Na sua terra funda e dirige o jornal local “Beira-Mar” e é um dos co-fundadores da agremiação cultural Pléiade Ilhavense. Dedica-se à xilogravura, a pequenos gouaches e aguarelas e também a grandes óleos.
Em 1927 termina o curso de medicina que passa a exercer em simultâneo com a carreira de artista. Chega mesmo a ilustrar diversas obras de educação sanitária. Em 1935 vai a Paris à sua grande mostra na Casa de Portugal. A década de 1940 fica marcada por ilustrações para livros como  “A Medicina na Literatura Portuguesa”, “Livro de Ester” (1943), Farsa dos Físicos, Epigramas Médicos de Bocage, Misericórdias Portuguesas (1945), Momentos da Medicina. Em 1946 escreve o seu último romance intitulado “A estrada de Fogo”.   Médico conceituado empenha-se na divulgação higiénica (diversos livros e até um programa na RTP nos anos 50) e passa a colaborar a partir de 1949 no “Diário de Notícias” com a rubrica é Bom Poupar a Saúde. Na década de 1950 abandona o formato pequeno e regressa à grande dimensão. Em 1951 fica pronta a “Ceia”, para o refeitório do Seminário dos Olivais. Apenas um exemplo de muitas obras que em 1957 estarão patentes em três exposições: S.N.I., Galeria Babel em Lisboa e Coliseu do Porto.
Morre a 11 de Novembro de 1960.  Fica para a história como escritor, poeta, desenhador e pintor. Em Ílhavo, a sua terra natal, foi homenageado tendo ‘emprestado’ o seu nome à Escola Secundária Dr. João Carlos Celestino Gomes.