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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Este nome de Macau... por Graciete Batalha

O nome Macau deve ter sido, a princípio, apenas o do local onde se encontra o Pagode da Barra e onde, segundo a tradição, os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez.
Enquanto a povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas ou chinesas.
É um problema confuso o da origem desta palavra que tendo, segundo tudo leva a crer, um étimo chinês, não é contudo o nome com que os chineses designam a cidade nem parece ter sido o da península antes da chegada dos portugueses aqui.

A designação usada no dialecto cantonense é Ou-Mun, palavra que ouvimos a cada passo, tanto ao homem da rua como ao chinês culto. Na língua oficial pequinense a designação é a mesma, mas pronunciada Ao-Men.
Este nome, posto que bastante antigo, parece ter entrado em uso posteriormente à chegada dos nossos navegantes. Segundo afirma Luís G. Gomes, distinto sinólogo e autor de várias obras muito curiosas sobre história e lendas chinesas, no seu artigo Os diversos nomes de Macau, «O nome actualmente adoptado é Ou-Mun 澳門 que significa "Porta da Baía". Não consta, porém, que este nome tivesse sido empregado nos escritos chineses anteriores à dinastia Mêng 明 (1368-1628)».
E ainda, em A Toponomástica chinesa de Macau:
«Durante a dinastia Mêng (1368-1621) Macau era conhecida por Hói-Keang-Ou海鏡澳(Baía do Espelho do Mar), ou simplesmente por Hói-Kèang, nome sugerido pelo aspecto com que se apresentava a brilhante superfície das águas que formavam, outrora, a encantadora angra da Praia Grande.»

Donde pode concluir-se que a designação Ou-Mun começou a aparecer logo após a dinastia Mêng, isto é, por meados do século XVII da nossa era.
Um das muitas variantes de Hói-Kèang era Hau-Ching-Ao (também transcrito Hao--Quing), usado nos documentos oficiais da mesma época.

Dos já citados artigos de Luís Gomes extraímos várias outras designações mais ou menos poéticas, dadas pelos chineses a este local: "Hèong-Sán-Ou 香山澳 (Baía da Colina Odorífera)", "Lin-Fá-Tou 蓮花島 (Ilha de Nenúfares)", "Lin-Ièong 蓮洋 (Oceano de Lotos)" - e muitas mais poderíamos citar, pois parece que a fértil imaginação chinesa foi especialmente atraída pela singular beleza desta terra, com a sua baía espelhenta e a suave ondulação das suas colinas.
Contudo, todos esses nomes devem ser apenas designações literárias, que o povo chinês provavelmente nunca conheceu.
De qualquer modo nenhuma delas, nem tão pouco Ou-Mun ou Ao-Men, ou ainda Hao-Ching-Ao (baia de Hao-Ching), parecem ter qualquer parentesco com a nossa palavra Macau, a não ser talvez pelo elemento Ao que adiante consideraremos.
Qual seria verdadeiramente o nome que os portugueses ouviram, quando começaram a frequentar este porto ou mesmo antes, quando comerciavam pelas costas da China?
Segundo a teoria, bastante aceitável, do consciencioso investigador da história de Macau, José Maria Braga, os portugueses teriam tido conhecimento do nome Ho-Kiang (ou Hói Kèang), que poderia ter soado O-Keng ou Ho-Keng na fala dialectal das populações marítimas do sul da China, por alturas da primeira viagem de Jorge Álvares ou mesmo antes.
Cita o mesmo autor duas passagens da Suma Oriental de Tomé Pires, escrita em Malaca entre 1512 e 1515, onde se encontra o nome oquem e o que parece ser a variante foquem. 
Ambas as palavras se referem a um porto situado perto de Cantão, a três dias de viagem por terra e a um dia e uma noite por mar. E por esta situação, que se ajusta perfeitamente a Macau e às condições de viagem daqueles tempos; e porque foquem pode ser erro de copista por hoquem (que facilmente Tomé Pires escreveria com e sem h), crê J. M. Braga que Tomé Pires se referia nas duas passagens ao porto de Macau.
Mas se Tomé Pires por qualquer modo conheceu o nome Ho-Keng, pronúncia dialectal (ou até talvez pronúncia dum intérprete malaio) correspondente ao cantonense Hói--Kèang, também os fundadores de Macau o devem ter conhecido, e principalmennte na forma pequinense Hao-Quing, que seria a usada pelas autoridades chinesas com quem tinham de tratar. Contudo nenhuma dessas formas se popularizou entre os nossos homens, mas sim aquela que perdura até hoje - Macau.
Esta palavra Macau tem sido objecto de estudo quer por parte de estrangeiros conhecedores do chinês, quer por parte de historiadores chineses.
Aos investigadores portugueses que aqui em Macau se têm interessado pelo assunto
devemos o meritório trabalho de reunir as diferentes versões existentes acerca duma etimologia que provavelmente ficará sempre hipotética.
Dada a inexistência, nos arquivos de Macau, de documentos relativos aos primeiros tempos do estabelecimento português na China, dado ainda o nosso quase total desconhecimento da língua chinesa (não falando já da escrita), pouco podemos adi-antar na solução do problema; mas poderemos, ainda assim, tomar conhecimento dos étimos propostos e exercer sobre eles uma certa crítica, à luz das leis gerais que regem a evolução das palavras.
Macau parece ser uma palavra composta por dois elementos distintos- Ma e cau - e para estudarmos a palavra teremos de considerá-los separadamente.
As teorias quanto à origem do elemento -cau são diversas, mas quase todas são concordes em relacionar a sílaba Má com o nome do ídolo Má ou A-Má (mãe)que os chineses veneram no velho Má-Kók-Miu, conhecido entre os portugueses por Pagode da Barra. Este templo, que se julga ser anterior à chegada dos portugueses a Macau, ergue-se no lugar onde, segundo a tradição, os nossos mareantes teriam desembarcado pela primeira vez.
Uma poética lenda chinesa faz deste ídolo A-Má uma deusa protectora dos marítimos. E o seu templo, que é ainda hoje um dos mais concorridos, seria o ponto de referência mais importante numa terra escassamente habitada, mas que servia de abrigo temporário, como serve ainda hoje a grande número de pescadores.
É natural, portanto, que os nossos homens, antes mesmo de desembarcarem aqui, quando comerciavam nas ilhas próximas, ouvissem o nome da deusa ligado à designação do ancoradouro onde se encontra o seu templo - o local que hoje chamamos a Barra, à entrada do Porto Interior.
E, se é que conheceram o nome oficial do porto, é natural também que, sendo eles pró-prios homens do mar, lhe preferissem o nome popular da deusa protectora dos marítimos, ainda que deusa pagã.
Os chineses usam geralmente antes dos nomes de pessoa um prefixo A-[á] que é simplesmente protético e sem significação. Assim, o ídolo de que falamos é designado por Má ou A-Má e daqui viriam as formas Amacau e Amagau que precederam a actual forma Macau.
Há, porém, algumas versões chinesas, segundo as quais o nome de Macau não estaria relacionado com o nome da referida deusa, mas, por qualquer motivo obscuro, com uma outra letra Má que significa cavalo.
Uma destas versões que faz de Má-Kao uma «adulteração de Mà-Kók » estabelece no nosso espírito alguma confusão, pelo que preferimos reproduzir textualmente as palavras com que Luís Gomes nos apresenta essa etimologia:
« Quanto à palavra Má-Káu 馬蛟 (Coito do Cavalo), é ela derivada da adulteração de Má--Kók 馬蛟 (chifre do Cavalo), isto é, a Barra, local este, em que, no Verão do ano 36 de Ká--Tchêng 嘉靖(1558), da dinastia Mêng, desembarcaram os primeiros Portugueses que vieram ao Oriente solicitar à China um lugar para ancorar os seus navios e edificar lojas ou armazéns, que foram primitivamente construídos em frente do templo que ainda existe neste sítio.
Não deixa de ser verosímil esta hipótese, além de que bem podia ter-se dado o facto de os nativos, ao terem sido interrogados sobre o nome desta cidade, pelos primeiros Portugueses, lhes tivessem respondido chamar-se Má-Kók, julgando assim satisfazer a curiosidade desses estrangeiros com o nome do sítio onde os mesmos desembarcaram e onde primitivamente se fixaram. Como Má--Kók se pronuncia má-tchiao em pequinense, dialecto oficial dos mandarins, talvez esses primeiros Portugueses tivessem adoptado esta última forma, para designar o sítio onde originalmente se estabeleceram e que, com o tempo, se foi generalizando para designar toda a península. Devia também ter-se dado o caso de os sons má-tchiao terem sido representados, em Português, por ma-chao, que, por erro, se passasse a pronunciar e a escrever Macau.»

Esta hipótese, que Luís Gomes achou verosímil, parece-nos a nós muito difícil de aceitar.
Que os chineses empregassem a palavra Má-Kók «Chifre do Cavalo» (estranha significação) para designar o mesmo local (a Barra) onde se encontra o templo de Má Kók, a deusa, ainda se compreende, sabido como é que a mais ligeira variante de tom, em chinês, produz uma significação completamente diferente.
Mas porque a alterariam para Má-Káu, insistindo na palavra «cavalo»(Má)? Conforme o próprio Luís Gomes diz noutro lugar, «não existiam tais animais em Macau, nos primeiros tempos da sua fundação nem tão pouco a configuração desta peninsulazinha se assemelha a qualquer espécie equina por melhor boa vontade e maior liberdade que se queira dar à imaginação»
Por outro lado, se os nativos indicaram aos primeiros portugueses o nome Má-Kók, também não é provável que fossem estes a fazer a adulteração para Má-Káu, através da pronúncia pequinense má-tchiao, como aventa L. Gomes.
Com efeito Má-Kók seria uma desi-gnação popular com poucas probabilidades de ser usada no dialecto oficial dos manda-rins. Mas ainda que fosse, e de facto pronun-ciada má-tchiao, não cremos que o som tchi viesse a dar o [k] da nossa palavra Macau pelo processo que L. Gomes supõe.
Uma outra versão chinesa, que se afasta também do nome da deusa A-Má, diz que a palavra Macau é uma deturpação de "P'ák--Hâu 泊口 (Boca do Ancoradouro)" ou "P'ák-Ou 泊澳 (Baia do Ancoradouro)", nome que teria sido usado em 1535 por um comandante do destacamento de Tch'in-Sán (povoação próxima de Macau) para comunicar a um superior que tinham passado a fundear barcos estrangeiros neste porto.
Esta informação encontra-se numa Geografia de Macau "Ou-Mun Tei-Lei 澳門地理 " publicada em Cantão em 1946, pelo Colégio Provincial de Artes e Ciências de Kuóng-Tông.
Não sabemos, contudo, até que ponto é digna de fé: se fosse exacta, resolveria inclusivamente o problema da data em que os portugueses começaram a frequentar o porto de Macau.
Mas voltando ao nome P'ák-Hâu: sede facto esteve em uso e os chineses ou os portugueses o alteraram para Ma-cau ou Ama-cau, foi ainda certamente por influência do nome da deusa A-Má, pois de outro modo não se compreenderia tal alteração.
Mais aceitável no aspecto fonético parece uma outra hipótese que supõe vir a palavra do nome Má-Kau Séak, um "famoso rochedo" que existia perto da antiga praia da Areia Preta.
Diz Luís Gomes:
«Quanto ao nome propriamente dito de Macau, aventam uns que ele procede do nome duns escolhos conhecidos por Má-Káu--Séak que foram destruídos, há umas dezenas de anos, quando se iniciaram as obras de aterro do novo porto. [Porto Exterior].
T'ien-Tsê-Chang, na sua obra "Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644" diz a pgs. 86-87 que Má Káu-Séak significa "Rochedo do Cavalo no Coito", sendo tal interpretação reproduzida pelo rev. Manuel Teixeira, a pgs. 77 do seu "Macau e a sua Diocese".
Esta interpretação é errónea e decerto devida ao facto de se julgar que Má-Káu-Seak se escreve 馬交石. O verdadeiro significado é, porém, "Escolhos do Dragão-Cavalo", visto que os caracteres sínicos correspondentes são 馬蛟石, como podem ser verificados no "Ou-Mun Kei-Lèok" 澳門記略 (Monografia de Macau), a obra mais antiga em chinês, que existe publicada, sobre esta colónia.»

Aparentemente, parece não haver que hesitar quanto a este étimo. Ele não explica, porém, antigas formas portuguesas em que entra o elemento Ama-; e, por outro lado, custa a crer que o nome dum simples rochedo, apenas notável pela forma curiosa (de qualquer modo semelhante a um cavalo) e não tão grande que não tenha desaparecido completamente, se tenha generalizado a toda a península.
Os próprios chineses sentem que, semanticamente, este étimo não satisfaz; aliás não seria preciso procurar outras explicações. Vejamos o que diz realmente o escritor chinês Dr. T'ien-Tsê-Chang, tantas vezes citado pelos historiadores de Macau:
«Curiously enough, the name Macao, so widely known in the non-Chinese-speaking world, is nota proper Chinese name for that port. A traveller is sometimes told by its inhabitants that it is but the name of the famous rock called Ma-chiao or Ma-kao in Cantonese. [馬交石 meaning "Rock of mating-horse", apparently from its shape.] Formerly this rock stood somme distance from the peninsula, but recently some new land has been reclaimed from the sea in that part of the bay, and as a result, the rock has been annexed to the mainland and buried under ground. It was either due to misunderstanding or for the sake of convenience that the small peninsula was called after the rock. It is more generally believed, however, that Macao is but an abbreviation of A-ma-ao[ 阿媽澳 ] or A-ma-ngao (with ng strongly nasalized) in Cantonese, i. e., the Bay of A-ma, a navigators' goddess to whom there was a temple at Macao. As A-ma-ngao was a famili-ar name used by Cantonese sailors to desig-nate the port and as a is merely a prefix that may be ommitted, it is more than probable that the Portuguese learned it from them.
The commonest Chinese name for Macao is Ao-mên, i. e., the Portal of the Bay. [ 澳門 ] the most correct name for Macao is, however, Hao-ching-ao or the Bay of Hao-ching. [ 濠鏡澳]»

Este étimo A-ma-ao ou A-ma-ngau é o mesmo que, com ligeiras variantes, foi implicitamente proposto por vários mis-sionários e historiadores estrangeiros dos séculos XVI e XVII, entre os quais, e dos mais antigos, o Pe. Mateus Ricci que em 1609, referindo-se à fixação dos portugueses na península, dizia: « … dove era venerata uma pagoda, che chiamamo Ama. Per questo chiamava quel luogo Amacao che vuol dire in nostra lingua Seno di Ama».

Chegamos agora ao problema da nossa sílaba-cau.
Partindo do cantonense A-ma-ngao, que os Portugueses poderiam ter entendido A-magau, teríamos Amagau > Amacau> Macau. Esta evolução não é, porém, natural, pois que as oclusivas sonoras não passam normalmente a surdas. O fenómeno normal seria o inverso, isto é, a sonorização do-k- em -g-. Sendo assim, os portugueses transformariam facilmente Amacau em Amagau, mas o contrário não é provável.
Afigura-se-nos mais verosímil que os nossos navegantes ouvissem esta designação de Baía de A-Má, designação popular como vimos, em qualquer forma dialectal não cantonense nem pequinense. Os dialectos do sul da China são vários e só um profundo conhecedor da dialectologia e da história chinesas poderia dizer qual ou quais os dialectos que os Portugueses primeiramente ouviram e que forma tinham esses dialectos há quatrocentos anos. Estes são problemas que não foram ainda, ao que sabemos, esclarecidos, nem o serão talvez jamais. No entanto, parece provado que, ao tempo, a escassa população desta península era formada principalmente por pescadores originários da província de Fuquien e que foram eles quem erigiu o já mencionado templo da Barra, estabelecendo aí o culto da deusa A-Má.
Um dos maiores conhecedores da língua chinesa entre nós, o Sr. António Ferreira Batalha, sugeriu-me que o lugar poderia ser denominado por eles não como Baía de A--Má, mas como Embocadura de A-Má, expressão em que se empregaria o termo Hau (boca, embocadura) como se emprega ainda hoje na designação de outros ancoradouros por estas proximidades.
O nome seria então A-Ma-Hau, com h fortemente aspirado na pronúncia fuquienense, o que passaria facilmente a A-Ma-K'au com k seguido de aspiração, tal como ainda hoje soa na pronúncia inglesa. A qualquer destas formas poderia corresponder, na nossa língua, a palavra Amacau.
Uma última etimologia, que só encontramos na obra de Luís Gomes, apontada como versão chinesa «mais geralmente aceite», é Má-Kóng 媽港ou A-Má--Kóng 阿媽港 que significa também «baía ou ancoradouro de A-Má».
Este étimo, ignorado ou desprezado por Mons. Manuel Teixeira e apenas ligeiramente citado por L. Gomes, é contudo o mais provável se o confrontarmos com as formas mais antigas da nossa palavra Macau - formas essas a que não se tem dado a atenção devida.
Escasseiam-nos elementos para uma investigação séria neste campo, pois que uma distância de meio mundo nos separa dos arquivos que seria necessário pesquisar. Apenas desejamos levantar aqui o problema, na esperança de que alguém, com melhores possibilidades do que as nossas, diga alguma coisa mais sobre o assunto.
Entre as. muitas variantes da palavra Macau que aparecem nos escritos do séc. XVI
algumas apresentam uma nasalação que não podemos hoje saber se representa um erro de copista ou se corresponde a uma pronúncia autêntica.
Estas formas são Amaquam, Machoam e ainda uma outra que encontrámos apenas numa transcrição do Pe. Manuel Teixeira- Amagão.
Consideremos as duas primeiras, Amaquam e Machoam, que se diz serem as mais antigas formas documentadas em português. A primeira teria sido escrita por Fernão Mendes Pinto naquela famosa carta de 20 de Novembro de 1555 que é geralmente apontada como o mais antigo documento português em que aparece o nome de Macau. Nas edições desta carta que pudemos consultar apenas encontrámos formas que variam entre Maquao, Ama cuao e Amaquá; não possuímos informações concretas a respeito de uma outra ou outras cópias, existentes nos arquivos de Lisboa, onde se encontra a forma Amaquam.
Por seu lado, Machoam aparece na data duma das cópias
de outra carta não menos conhecida - a do Padre Belchior Barreto, que teria sido escrita também de Macau, a 23 de Novembro de 1555.
«Deste Machoam porto da China a 23 de Novébro de 1555» - rezaria a dita carta. Ou-tras cópias, porém, trazem apenas «Deste porto da China... », sem a palavra Machoam ou qualquer outra referência a Macau nem na data nem no texto da carta. É evidente que as duas formas de que tratamos estão longe de ser insuspeitas, tanto mais que é muito duvidoso o próprio facto de Fernão Mendes Pinto ou o Pe. Belchior Barreto terem estado alguma vez em Macau. Contudo, mesmo que sejam adições posteriores, ainda essas variantes merece malgum crédito, se admitirmos que, se alguém assim as escreveu, é porque alguma vez assim as ouviu ou assim as leu. De facto, parece encontrar-se uma confirmação dessa pronúncia Amaquam (mais precisamente [amakã] ou [amakão]) em vários documentos espanhóis do tempo de Filipe II de Espanha, I de Portugal, documentos exarados em Manila e referentes às diligências ordenadas pelo então governador das Filipinas para que em Macau se reconhecesse o rei espanhol.
Nesses documentos, a forma espanhola para designar Macau é Macan. Esta forma, se foi aprendida por contacto com os Portugueses de Macau, é um bom argumento a favor da pronúncia portuguesa [amakão]; se foi levada por emigrantes chineses, os quais iam principalmente da província de Fuquien não deixa de confirmar e etimologia A-Má--Kóng acima referida. A terminação nasal há--de ter algures a sua origem e não deve ter aparecido por acaso.
Note-se ainda o que diz C. R. Boxer em The Great Ship from Amacon (Centro de Es-tudos Históricos Ultramarinos. Lisboa, 1959, p. 13): «Of the shipping used in the Macao-- Japan trade, by far the most cele-brated was the annual carrack, or "Great Ship from Amacon", as the contemporary English termed her».
Como as consoantes finais em chinês são muito ténues, a terminação-Kóng passaria fàcilmente a [-kom] na nossa língua, e daí a [-kã] e [-kão].
Como é sabido, foi precisamente no decorrer do séc. XVI que na língua portu-guesa se completou a fusão das terminações -om e -am numa só: -ão
Quanto ao grupo -qu- de Amaquam, re-produzido com ligeira diferença em Amacuao, e ao -ch- de Machoam, são apenas pormenores ortográficos muito comuns na época, devendo corresponder à pronúncia [k].
Existindo o hábito arcaico e popular de substituir qu por c [k] (como ainda hoje na linguagem popular em corenta por quarenta, canto por quanto, etc.), a influência literária no século XVI levava não só a repor o u onde era devido, mas até a introduzi-lo onde não tinha razão de existir. Assim, encontramos em escritos da época coroniquas, embarquação, requado, etc., em que o u não devia ser pronunciado.
Resta analizar a perda da ressonância nasal na passagem para as formas Amaquao, Maquao e Macau. Esta perda pode ter-se dado, e nesse caso supomos que seria devida a uma questão de eufonia. A pronúncia Macã ou Macão não deixaria de sugerir desagradavelmente a palavra cão, também pronunciada cã, como ainda hoje se ouve em Macau. Por outro lado é possível que os portugueses tivessem ouvido simultaneamente aos Chineses as designações A-Má-Kóng e A-Má--K'au atrás referidas e que, portanto, as formas Amaquam e Amaquao fossem coexis-tentes, sendo a primeira rapidamente preterida pela segunda.
Concluindo:
O nome Macau deve ter sido, a princípio, apenas o do local onde se encontra o Pagode da Barra e onde, segundo a tradição, os nossos pioneiros desembarcaram pela primeira vez.
Enquanto a povoação se estabelecia e aumentava, este nome persistiu na boca do povo, a despeito de todas as designações oficiais, portuguesas ou chinesas.
Povoação ou Porto do Nome de Deus foi o nome cristão que lhe deram as nossas autoridades, nome mudado em 1585 para Cidade do Nome de Deus.
É este o nome que se encontra à entrada do Leal Senado, no letreiro mandado gravar por D. João IV: «Cidade do nome de Deus, não há outra mais leal».
É com este mesmo nome que aparecem datadas ao longo do século XVII as actas e outros documentos camarários do Arquivo do Leal Senado, os quais pessoalmente verifiquei. Mas nesses documentos, posto que encimados pela designação oficial de «Cidade do Nome de Deus» ou «Cidade do Nome de Deus na China» ocorre constantemente a palavra Macao e, ocasionalmente, esta palavra aparece até nas datas: «desta Nobre Cidade do Nome de Deos de Macau». Em 1685 já encontramos apenas «Nobre Cidade de Macao» concorrendo com a designação oficial correcta.
Isto mostra que o nome popular foi o que teve sempre maior vitalidade, vindo a conquistar mesmo as classes cultas que a princípio o repudiaram. Ao mesmo tempo, foi-se generalizando a toda a península, à medida que a nossa cidade paulatinamente avançava até às Portas do Cerco, limite que fica precisamente no istmo.
Aditamento
O presente artigo é revisão e actualização de um outro, com o mesmo título, publicado no Boletim de Filologia - Centro de Estudos Filológicos - tomo XVI (1956-1957), Lisboa 1958, pp. 353-363, e também em separata do mesmo Boletim, completamente esgotada há já anos. Um ano depois desta publicação foi editado em Leiden (Holanda), pela revista T'Oung Pao. vol. XLVII, Livr. 1-2, 1959, um douto artigo sobre o mesmo assunto, A Note on the Origin of the Name ofMacao, do Prof. Soren Egerod da Universidade de Copenhaga (Ostasiatike Institut).
Tendo recebido um exemplar da respectiva separata, por amável oferta do Autor, foi-nos grato verificar que este, sem conhecimento do nosso artigo, su-gere precisamente como "the right etymology" o cantonense Ma-Kong, porto de Ma ou A-Ma.
O Prof. Egerod, grande conhecedor do português e do chinês, tem em conta, como nós, não só as antigas variantes portuguesas como Amaquão, Amacão, mas ainda a final nasal que se reflecte também na forma espanhola Macan, tal como em algumas latinas, italianas e inglesas. O A. supõe ainda que a mesma palavra cantonese Kong se encontra provavelmente em Lam-pacau, que teve também as seguintes formas: "Lampa-can, Lampacão, Lampacham, Lampachão, Lampachau, Lampazau, Langpihtsaou, Lampatao, etc. "
in Revista Cultura, nº 1, ICM, 1986 (apenas o texto)

domingo, 30 de dezembro de 2018

O primeiro acordo luso-chinês: 1554

Carta de Leonel de Sousa ao Infante D. Luiz*, irmão de D. João III, escrita em 15 de Janeiro de 1556 em Cochim onde refere a assinatura de um acordo comercial com as autoridades de Cantão (onde Leonel chegou em 1552) tido como o primeiro documento que permitiu o "assentamento" dos portugueses em Macau.
No documento os portugueses comprometem-se a pagar as taxas devidas e a não erguer fortificações. A carta, um dos mais importantes documentos da história das relações Sino-portuguesas, descreve as prolongadas negociações com o superintendente da marinha de Cantão, o Haitao Wang Po. Ambos os lados se mostraram disponíveis para encontrar uma solução para o impasse, uma vez que o porto de Cantão também enfrentava um empobrecimento desde que fora fechado. Leonel de Sousa tentou negociar o pagamento de apenas 10% das taxas, ao que Wan Po contrapôs os obrigatórios 20% mas incidindo apenas sobre metade da carga, o que Leonel de Sousa levou em frente com ajuda do rico mercador Simão d'Almeida, e à margem do governo de Pequim. A este tratado seguir-se-ia o reconhecimento de Macau como entreposto oficial português em 1557.
Com o cargo de capitão-mor, Leonel de Sousa foi assim o equivalente a primeiro governador de Macau.

* na altura em que a carta foi escrita D. Luiz já tinha morrido, mas o facto era desconhecido a oriente...
O documento que a seguir se transcreve foi descoberto por Jordão de Freitas (1866-1946). Foi tornado público pela primeira vez no Archivo Historico Portuguez» (n.ºs 5, 6 e 7 de maio a Julho de 1910, Vol VIII; mais tarde em Macau: na década de 1950 na revista Mosaico e em 1988 no pequeno livro "Macau -  Materiais para a sua História no Século XVI".


«Senhor-Eu fuy á China numa embarquação de mercadores, como esqreui a Vossa Alteza de Malaqua o fino de cinquoenta e dous, pelo Vizo Rey Dom Affonso me nam ordenar as Viages, como Vossa Alteza mandaua; aonde vim envernar o Março pasado por nam poder vyr á Indya, hay soubemos as novas do falecimento do Primcipe que Santa Groria aja, que nesas partes, e em todos nós pôs muito espamto, he trysteza, pelo que demos muitas graças a Nosso Senhor, pera vermos taõ altos mysteyryos que parece servirse das grandes adverçidades, e nojos de Sua Alteza, e de Vossa Alteza, pera mays perfeição de seus Reaes Estados, e vydas em sua Santa Grorya; pois com suas grandes e virtuozas paciemcias nos daõ tamanho emxempro, e ensinã a Louvar a Deos, e a elle emcomendo ha Real Pessoa, e Estado de Sua Alteza e de Vossa Alteza pois em cousas taõ alltas nã pode falar hum taõ pequeno Vasallo.
Quanto aos negocios, e Vyagem da China toquarey em pouquos, porque pus tres annos nella e tiue muitos de que tirey pouquo proveyto, achey os Portos todos cerrados com muyta garda, e porvimento darmadas pera nos não deyxarem fazer fazenda, nem nola consentirem dar do que fuy logo avizado por hum China alevantado e de purtuguezes que lá estavam prezos, que estivesse bem aprecebido que aviam de peleyar comigo, e que de nenhua maneira farya fazenda, por que o mandava asy El Rey, por ser emformado, que ha faziamos furtadamente, e mandava que toda ha geração de mercadores deixassem entrar, e pagar direitos, se não aos Franges que eram homens de corações sujos, que são os purtuguezes, e os tinhaõ por ladroims, e alevantados que amdavam fora da obediencia de seu Rey.
Como achey a terra desta maneira e com o avizo que tive pus logo o mylhor requado, e goarda que pude nos Navios, e purtuguezes que estavam comygo, que nam alevantassem a terra nem fizessem sem rezomes de que estavam escamdelizados dos passados, sofrendo com isto alguas necessidades, e myngoa de mantimentos por mos nã darem da terra; e aprouue a Nosso Senhor que me mandaram cõmeter paz, e que assantase direitos como estavam em custume aseytey este requado cõ conselho de todos, que ho ouveram por muyto serviço de Deos, e de Sua Alteza pelo nã poderem alcamçar até ly os que lá hiã e ter El Rey asantado de nos primeiros purtuguezes de os nam consentyr na China, e asy pera fazerem esta paz nos mudarão os nomes de Franges que nos dantes chamavaõ a purtuguezes de purtugal, e Malaqua, que nam eramos da geração dos primeiros, e por suas sortes, e agoyros que he muyto de gentyos que elles são, deziaõ que esta ventura me gardara Deos que pelles portas das Cidades, e lugares ma aviam de mandar esqreuer o nome.
Esta paz, e direitos mandou cometer ho Aytao da Cidade, e Reyno de Cãtaõ, que he officio e Denydade grande e Estado como Almyrante do Mar, que provê em todolos negocios dos Portos de Mar asy na fazenda como Armadas, em que as vezes sahe em pessoa com muyto poder, quando ay ha causas peta isso, da qual paz não fiz com elle pauta nem assanto pelo nã levar por Regimento, e que aviamos de pagar a vinte por cento, como hera custume, e paguavam os Syames do Reyno de Siã, que navegam na China por previlejo, e licença d'ElRey, nos quaes Direitos a vymte por cento, nam consenty em mays que ha dez por cento ao que me respondeo que elle os nã podia abaxar, porque eram Direitos Reaes que o faria saber a ElRey, que pera o ãno achariamos a reposta, que aquele nam podia vir, que eram tres ou quatro mezes de caminho aonde ElRey estava, e que por então nam pagassemos mais Direitos aos vinte por cento que dametade das fazendas que levavamos, e asy fyquariam aos dez por cento que dezia, e que me pedia que mandase fazer bom gasalhado dos Mandarys que saõ como Desembargadores, que os viessem fazer aos Navios, que não oulhase que eram Chis senã as devizas, e Armadas do Estado d'ElRey que traziam, que malembrava que por hua descortezia que fizerão os primeiros purtuguezes a hum Mãdarim os nã consentio ElRey mais na China, e pois minha ventura fora tão boa que se nã perdesse.
Desta maneira fiz paz; e os negocios na China com que todos fizeram suas fazendas, e proueitos seguramente foram muytos purtuguezes á Cidadde de Camta e outros lugares por onde andaram folgando algūs dias, e negociando suas fazendas á sua von-tade sem receberem agravo, nem pagarem mais Direitos dos que atras digo que muytos pelo que esquonderam nã fiquaram pagando mais Direitos que da terça parte das fazen-das. Cantaõ está trinta legoas por hum Rio dentro do Porto de Sã Choam que he amtre huas ylhas aonde estava com os Navios, porque me nã quis meter em lumpaquã que he na boqua do Ryo, aonde me mandavã hyr por me nã fiar tanto delles, nem numa Cidade que chamão Quoay, que era dahy cinquo ou seis legoas; estas duas Cidades são bem amuradas, e fortes, e asy dizem, que o são as mais, e a de Cantaõ dizem, que he muyto grande em camtidade, e de gramde negocio.
Estes negocios, e paz acabei com muytos trabalhos, e custo que os nã posso esqrever, que doutra maneira se nam puderam fazer pera quam desacreditados estavam os purtuguezes na China emcarreguei delles ha hum Simã d'Almeyda omem onrrado, e cavaleiro, que da China tem muyta esperiencia por navegar nella num Navio seu ha dias; o que fez com muyta deligencia, e dezejos de servir Sua Alteza, por alguas obrigações de seu serviço, que lhe pus diante foi sempre omrradamente, e vêo, e á sua custa, e ale do que gastou, soube que dera alguas dadivas a pessoas, e Ofeciaes do Aytao, com que negoceou mais brebe do que ho pudera fazer sem iso, nem eu servi a Sua Alteza como ho servi se nã fora sua ajuda, e Conselho, porque eu tinha pouquo cabedal pera suprir, mais do que sopri, nem elle o quis de mim, e dixe sempre, que se nisso servia a Sua Alteza, que delle queria o galardam, e nam doutrem, e por descargo de minha conciencia faço esta lembrança a Vossa Alteza, porque se o Sua Alteza ha por seu serviço, elle, e eu receberemos muyto grande merce satisfazelo Sua Alteza com onrra, e merce, porque não he de Sua Alteza por exempro dos que se acharem em partes tão remotas, que folge de servir Sua Alteza com pessoas, e fazendas como elle fez.
Ao tempo da minha partida me mandou dizer o Aytao, que se queriamos navegar na Chyna, que fosse Embaxador de Sua Alteza pera ElRey se emformar por elle de nos e que gete heramos, e a paz ficaria fixa, porque os que navegam na China, navegam com licença d'ElRey, e tem Portos limitados aonde am dir, e asy nã pode navegar nenhum China pera fora do Reyno, e o que navega am-no por tredo, e alevantado, e logo he ponido, se o tomam, o porque abitaõ muytos por Malaqua, e outros Reynos, e vã roubar a costa; porque esta gente arrecea-se muyto de forasteiros principalmennte dos purtuguezes, porque nos tem por omes buliçozos, e mal sofridos, e a China he terra de muyta Justiça, e cruaa, e cada hum se áde livrar por ella que nã gardam liberdade a ninguem, e ategora se nam acabam de decrarar comnosquo, e determinaram, e dizem que nos nossos Navios nã parecemos ladromes, que são muyto carregados, mas que Mercadores nam negoceam com as Armas na sinta, que nos elles muyto estranhaõ, e asy lhes he, muyto defezo nas Cidades, que ninguem nas tras se naõ os que defendem na terra, e garda dos Ofeciaes.
Tiveram commigo algus pontos d'onrra, hum que veo aos Navios, que estava ymleito pera Aytaõ em que nos haviamos bem, e sem escandalo, porque em tudo os soube relevar, e conservarlhe seus custumes, e cortezias, que ha amtre elles muyto grandes, e foram de mim muyto bem hagasalhados, e banqueteados com alguas dadivas, que elles tomaram escondido, porque tem por isso grandes penas, e saõ muyto meudos que apertaram comigo que lhe dixese se era Capitam de Mercadores, se de Sua Alteza, e se o era de Sua Alteza, que lhe mostrasse seu sinal, que elles muyto mal conheciam, e çatisfeitos disto, e asantarem que era Czapitam por sua Altesa tiveram comigo grandes comprimentos, e cortezias, e imteiramente me gardaraõ a jurdiçaõ, assy dos purtuguezes, como de toda a outra geração que estavam debaxo de minha bandeira dezasete vellas, que em nada quyseram emtender, e tudo remetiam a mym, e quanto queriam ir fazer as deligencias, mandavam-me pedir licença, e que mandasse hum purtugues com elles, e foram muyto comtentes, e çatisfeitos de mym, de que ho Aytam o foy mais, e toou muyto pola terra, e desta maneira deixei a China de paz, e pacifiqua com me vyr o Mercador omrrado, que andava nos requados acompanhãdo até fora do Porto, e tomar minha derrota; praza a Nosso Senhor que a comservem, pera que della tirem nas Alfandygas de Sua Alteza, e os omens muyto proveito, como os já comessou a receber Alfandyga de Malaqua com mynha vinda, que he o que senty, de que se Sua Alteza pode servir da China, porque tem muytas Mercadorias, e boas, com que nos omens se podem aproveitar sem cargo de suas comciencias, e fazerem-se riquos, mas os Mercadores nã ouveram de ser purtuguezes, porque gardaõ mal a Justiça, e conservam pyor as terras, por omde amdão, que são condiçomes comtrayras á China, que são pacifiquos, e governados por Justiça.
Ho que da China alcansei, que he Reyno muyto grande, e tem mais de quinhentas legoas de costa, porque foram já Reynos devedidos, que agora saõ de um só Rey, mas diversos nas lingoas, e todos Chins; por huma banda do Sertão a salteam os Tartaros, e por outra dizem que se mete hum Mar morto, que se nã navega, por onde já vieram á China parcios, cortam no grandes Rios de duzentas, trezentas legoas, são omens alvos e fornydos e os do sertão mais apaçeonados e mais alluos que os da fralda do Mar, custumam Roupas compridas e asy as Molheres, a maneira de Saios; os que mandão são muyto graves, e iproquetas, mandão apresuradamente com estrondo e falaõ alto, são muyto crús e justiçozos, que todos metem ao açoute, e tormento, e trazem Menistros comsigo pera isso com seus estormentos, destas cruezas repremdendo-os disso, me dixerã que eram conformes á gente, que era tão perversa, que ainda nam a bastavam.
«He terra que se governa toda por Letrados, e nelles andam as denidades e officios asy do Reyno, como do Rey, e tem ElRey por todo o Reyno Esquolas Geraes, e Emgeminadores, que amdaõ emgeminando os Moços, e como sabem bem ler, e esqrever, passaõ-nos as Esquolas áprender o seu Latim, que he lingoa mandarim, que são como Desembargadores, e tem precedencias, com o de Bachareis, e Leecenciados, e Doutores, e a outras da Ordem da Cavalaria, e nestes anda todo o governo, asy do Regimento da Justiça, como da Fazenda, e outros cargos, e ha emtre elles grandes Leis e Ordenações, e ha hũs, que são como Juizes, e outros Corregedores, e Regedor da Justiça, que despacha com votos doutros; pom Libelos, e tem apelações, e as apelações dos Forasteiros, prin-cipalmente dos purtuguezes, vão a ElRey, porque os nã cativaõ, se nam prendenos por malfeitores, domde saem sentenceados de morte, ou degradados, segundo as culpas de cada hum.
Vem da Corte todo-los annos hũa Justiça Mor a prover nas Cadeas, e dar a pena a cada hum, que merece, e estes trazem as apelações dos forasteiros despachadas por ElRey das penas, que hadaver; e por isso nam trouxe hum Mateos de Brito, e outro Amaro Pyreira, que estavam em Cantaõ prezos, porque eram as apelações em Caza d'ElRey, e mandouse-me desculpar do Aytaõ, que os nã podia dar sem licença d'ElRey, desaliviou-lhe as Prizoens, que são muyto asparas, e morrem muytos nellas, e mandou-me dizer que nã morreriam que o esqrevia ha ElRey; porque ho Amaro Pyreira estava sentenciado á morte.
«A terra he toda d'ElRey, e nam ha Senhor de Titolo, nem de Renda, que todolos Cargos e Denidades andaõ nos Letrados, que são estes Mandaris, e precedem-se huns a outros até chegar a ElRey, e assy nã fiqua nenhum sem Supryoll, e todos tem comedias, e tenças d'ElRey, e os Grandes, ou Parentes d'ElRey, que não tem Cargos, ou Denidades, da-lhe el rey comedias, e apouzentaos em Lugares, aomde as esta comendo, e os que governaõ, e tem mandos, mudam-nos duns Reynos pera os outros, e todo o Reyno, e Provincias estão repartidos, e tem seus Governadores e Ofeciaes assy maiores como menores, e tudo vay por sua ordem.
Ho mais deixo a Nosso Senhor, e a Vossa Alteza, que se lembre quantos serviços tenho feitos nestas partes á trinta e tantos annos, e os trabalhos, que levei, há tres annos nesta Viagem, e em pacifiquar a China, e trazer ao Estado, que a trouxe, que verdadeiramente foram muitos, donde venho velho, e camsado; porque tudo se perde por nossa culpa, e aja por seu serviço, que a merce, que me tem feita ou outra venha a effeito, e me satisfaça como Principe tão vertuoso como Vossa Alteza he, e tão cheo de justiça, e mo faça fazer com Sua Alteza em minha velhice, porque com menos desgosto busque a salvação de minha alma, e remedio de minha vida; porque os omens são fraquos, e a vergonha troua os muito, quanto mais eu, que arado amtre os que me viram servir, e a quem nã tenho desculpa que dar, e nam peça Nosso Senhor comta a quem tem a culpa de trazer isto tantas vezes á memoria a Vossa Alteza e a Sua Alteza, pois tão mal me gardaram, e compriram as Provizoens e mandados de Sua Alteza para me tirarem meus merecimentos, e vida, e dala a outrem, de quem não receberiam mais enterece, do que de mim puderam receber; porque venho, muito prove e nã sei se me abastará pera pagar o que trago; porque bem sabe Vossa Alteza quem são. Mercadores, e o gasto, que averia mister em tres annos pera os negocios, que tive, que só os de Malaqua abastaõ pera me destroirem, e eu não levei mais que a licença e trabalhos de Capita sem nenhũa ajuda, nem favor de cousa de Sua Alteza; mas ainda a Provedoria dos Defuntos, que os outros sempre levaram, me tiraram ha mim, e sómente a licença me deram, que dão a quantos la querem ir assy os Governadores, como Capitães de Malaqua, he á China quem uma leva cabedal, não no tras porque nam tem, se nam vender, e comprar.
Lembro a Vossa Alteza, que pera diante nã tenho, se nam a Deos e sua grandeza, e vertudes, com que ha de ver minha justiça, e merecimentos, e fazer-me prover de cousa em que nã tenha duuida, ou ma mandem cumprir espressamente; porque me nã digaõ como dixe Dom Affomso, que Sua Alteza nã me mandava dar Náo, que se o mandara, que ma dera, e nam abastou mãdarme ordenar as viagens pera me dar o favor, que levaram os que lá são Dom Francisco Mascarennhas, e António Pyreira, que prazerá a Deos que acabaram d'asantar a China, poys he tudo serviço de Deos, he de Sua Alteza; porque alem dos proveitos ja nam avera tantas mortes, e perdas de Navios todolos annos como havia; porque hera hua das partes, aonde se gastava muita gente, e cabedal; porque como a terra he muito fria, e tempestoza, e na costa sempre amdam grandes Armadas em garda, e se nã podiam aquolher aos Portos do Mar ou de os tomarem nam esquapavão, ou de se perderem.
Tiram tamto pela China os Governadores pera seus chegados, que descomfio tirar ja de láa proveito, se Sua Alteza nam prove como peço a Vossa Alteza que me faça merce, e faça com Sua Alteza, que me faça tres Viagens do Porto Pequeno em Navio de Sua Alteza, que per minha idade, e trabalhos pouquo ma basta, e dezejo ter conta com minha alma, e digo Porto Pequeno de Bengala, porque são na China dous Capitaens Mores, e dizem-me que haa ja outro e nam he serviço de Vossa Alteza hirem tamtos, huns sobre os outros, e os que la ouverem d'ir, am-se daver muito sezudamente.
Das cousas destas partes nã faço lembrança a Vossa Alteza, porque ha muito que sou fóra, sómente Malaqua he cousa, que tem muito nome amtre todos os Reis do Sul e China, e que satisfaz ao Estado de Vossa Alteza, e Terra haomde he muito grande desserviço de Sua Alteza aver numqua Guerra, se nam muito comservada, e os Mercadores, que pagam seus Direitos franqueados, e bem agasalhados, porque he gramde cargo de conciencia tomarem-lhe Calioym, nem outras mercadorias a menos preços, pois pagam seus Direitos pera Sua Alteza, nem Capitam, nem outros ofeciaes; porque ha y algũas tiranias, alembro a Vossa Alteza que o d'Achem se faz muito poderozo de Navios e Artelharias, Espingardaria, e sospira por Malaqua, e ela nã tem nenhũa força. Dias de vida, e Estado de Vossa Alteza Nosso Senhor acrecente por muitos annos. Amen. Desta Barra de Cochim aos quinze de Janeiro de 556. Lionel de Sousa.
Sobrescripto: «Ao Imfante nosso Señor»
Testemunhos da época:
Fr. Gaspar da Cruz, que esteve na China em 1556 escreve assim no Tractado das Cousas da China e de Ormuz:
"Do ano de cincoenta e quatro a esta parte sendo capitam moor Leonel de Sousa natural do Algarve e casado com Chaul, assentou com os Chinas que pagariam seus direitos e que lhes deixassem fazer suas fazendas nos seus portos. E de entam pera ca as fazem em Cantam, que be ho primeiro porto da China: e alli acodem os Chinas com suas sedas e Almizcle, que sam as fazendas principaes que na China fazem os Portugueses. Alli tem portos seguros onde estam quietos sem risco, e sem os inquietar ninguem. E assi fazem ja agora os Chinas bem seus tratos: e agora folgam muito os grandes e os pequenos com ha contrataçam dos Portugueses, e corre a fama dellas por toda ba China. Pelo que algus principaes da corte vieram a Cantam soo pollos ver por averem ouvido ba fama delles. Antes do tempo sobredito, e depois do alevantamento que causou Fernam Perez Dandrade faziam se as fazendas com muito trabalho, nam consentiam os Portugueses na terra, e por odio e aborrecimento lhe chamaram Fancu, que quer dizer homens do diabo. Agora nam nos comunicam debaixo de nome de Portugueses, nem este nome foy a corte quando assentaram pagar direitos: se nam debaixo do nome de Fangim, que quer dizer gente doutra costa".

Fernão Mendes Pinto, que esteve em Macau no Outono de 1555 escreve uma carta a 20 de Novembro de 1555 ao reitor do Colégio de Goa onde é usado pela primeira vez o nome "Macau":
"A graça e amor de Cristo n. sr. e rendentor seja sempre com V. R. e com todos os charissimos Yrmaos amen. Por o tempo me não dar luguar lhe não escrevo tam largo com desejava p. a lhe dar conta de toda nossa viagem e o socedim, ta della e o quanto trabalho temos passado dispois q de V. R. nos apartamos. Mas p q oje cheguei de lampacau, q he o porto onde estavamos, a este amaquao que he outras seis leguoas mais duante onde achei o p. e m. e belchior q de cantão aqui veo ter onde era ido auia vente e cinquo dias a resguatar Matheus de Brito q he hu home fidalgo e outro homem os quoais custarao mil taeis q são mil e quinhentos crusados, e asy auer a cidade a manra da gente e terra e trabalhar p. a uer se podia la deixar o Irmão Luiz de Guois pa. aprender a lenguoa."



"A graça e o amor de Cristo Nosso Senhor e redentor seja sempre com VR e com todos os caríssimos irmãos ámen. Por o tempo me não dar lugar lhe não escrevo tão largo como desejava para lhe dar conta de toda nossa viagem e sucesso dela e o quanto trabalho temos passado que de VR nos apartámos. Mas porque hoje cheguei de Lampacau que é porto onde estamos a este Macau que é outras seis léguas mais avante achei o Padre Mestre Belchior que de Cantão aqui veio ter onde era ido vinte e cinco dias a resgatar Mateus de Brito que é um homem fidalgo e homem os quais estavam presos no tronco da cidade havia seis anos os custaram mil taéis que são mil e quinhentos cruzados, e assim a ver a cidade, a maneira da gente e terra e trabalhar para ver se podia lá deixar o Irmão Fróis, para aprender a língua (...)


Gregório González, padre espanhol, escreveu por volta de 1570 uma carta a D. Juan de Borja, então embaixador espanhol em Lisboa, em que fala da chamada fundação de Macau:
"Eu há vinte anos que estou na Índia de Portugal, e tantos há que fui enviado ao reino da China, pelas muitas guerras que há muitos anos que em tal reino há com os portugueses, apesar das quais sempre fizeram seus negócios, até ao ano de cinquenta e três. E neste tempo vieram notícias à Índia que queriam os chineses fazer pazes com os portugueses, como de facto se fizeram.
E com esta notícia fui para lá enviado, e permaneci na terra no primeiro ano com sete cristãos, onde me cativaram a mim e aos demais até à vinda dos navios no ano seguinte. E no segundo ano me começou Nosso Senhor a alumiar, com o que converti alguns chineses à fé de Jesus Cristo, e permaneci na terra, onde tinha edificado uma igreja de palha. E logo que se vieram os navios para a Índia e para outros reinos, me tomei a deixar ficar na terra com 75 cristãos, onde todos fomos outra vez cativos, sendo derramados por diversas partes, sem saber uns dos outros, gritando os chins comigo, porque me deixava ficar na terra, que seria alguma traição. E detiveram-nos até ao ano seguinte, (...) (altura em) que chegaram os navios e fomos todos soltos e juntos, e tornei a fazer (uma) igreja, e os portugueses casas donde fiquei conhecido deles (chineses) daí em diante pacificamente.
E comecei a entender a terra e a fazer cristandade, trabalhando sempre (para) que os da terra fossem favorecidos, sabendo perdoar-lhes as suas faltas, tratando com eles e fazendo-os tratar (com) muita verdade, donde vim a fazer, no decurso do tempo, que foram doze anos, uma powação muito grande na ponta da terra firme que se chama Macau, com três igrejas e um hospital de pobres e casa da Misericórdia, que agora é uma povoação que passa de cinco mil almas cristãs. Da qual povoação e trato vem agora à Índia o principal sustento do seu Estado, pelas muitas riquezas que de tal reino a ela e a suas alfândegas vêm."

sábado, 29 de dezembro de 2018

Imagem rara de uma 'versão' do edifício do Senado

O Leal Senado foi fundado em 1582-83 por uma assembleia de moradores convocada por iniciativa de D. Melchior Carneiro, e que escolheu para sua administração a forma senatorial baseada nas franquias municipais outorgadas pelo Rei a algumas cidades em Portugal.
Por volta de 1584 foi adoptado o nome de “Senado da Câmara" composto por dois juízes ordinários, três vereadores e um procurador da cidade, todos escolhidos anualmente por eleição popular.
Em Abril de 1586, o Vice-Rei da Índia (D. Duarte de Meneses) autorizou o Conselho Municipal de Macau a eleger os seus oficiais por um triénio, mantendo a composição original e sendo o procurador da cidade representante da mesma junto das autoridades chinesas.
Antes deste edifício de finais do século 18 só se conhece a versão que vem no livro Ou-Mun Kei-Lèok 澳門記略 (Monografia de Macau), a obra mais antiga em chinês publicada sobre Macau, em 1751.
A construção original do edifício da imagem acima é de 1784 - clicar para ver em tamanho maior - num local onde antes as funções do Senado eram desempenhadas. Sofreu grandes obras de reconstrução em 1876 ficando com a fisionomia abaixo representada numa imagem do final do século XIX.
Na fachada ao longo dos tempos foi desaparecendo a 'pedra' com o símbolo da monarquia; depois o símbolo de Macau (os anjos); e finalmente, em 1999, a própria designação Leal Senado deu lugar ao IACM- Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais.

Década 1920/30

O edifício viria a ter novamente obras de remodelação profunda na década de 1940 ('perdeu' o telhado) passando a assumir a fachada e aspectos que ainda hoje se mantêm (séc. XXI).
1938
Década 1980
Século XXI


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Geografia: Portugal continental, insular e ultramarino

 Geografia Continental, Insular, Ultramarino
Ed. Porto Editora, Lda.
do Prof. António Branco

Neste livro está incluído um mapa da década de 1950/60. Como curiosidade destaco o facto de estar assinalado um "aeroporto" no Porto Exterior quando na verdade o que existia era um pequeno hangar que servia de apoio aos aviões anfíbios que faziam a ligação a Hong Kong e amaravam nas águas do rio.
Em termos de 'pontos de interesse' assinalam-se a Porta do Cerco, Gruta de Camões, Ruínas de S. Paulo, Catedral (a Sé) e um Templo chinês (o de Kun Iam Tong na Av. Coronel Mesquita).
Do lado direito está a península de Macau bem como as ilhas: Lapa/Patera, Macarira/D. João, Wang Cam/Montanha, Coloane (povoação de Lai Chi Van, baía de Hac-Sá, Ka Hó (e não Caá); as ilhas da Taipa (Pequena e Grande) estão ainda separadas pois os aterros que as 'ligaram' só foram consolidados na década de 1950; não há istmo entre a Taipa e Coloane (só surgiu em 1968) e, claro, também não está indicada a primeira ponte que ligou Macau à Taipa apenas em Outubro de 1974.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ilustrações de Macau em meados e finais do século 19

 
De um jornal alemão de 1878

Antes da massificação da fotografia eram os desenhos que ilustravam os textos dos jornais e livros. Muitos eram inspirados em pinturas. Macau surge quase sempre representado por vistas panorâmicas da península - vendo-se de cada uma dos lados o porto interior e exterior - tomadas a partir da Penha ou então com a perspectiva da baía da Praia Grande. É sobre isso que fala Dyer Ball num texto publicado em 1905 e do qual seleccionei um excerto.
The Portuguese Colony of Macao is situated on a rocky peninsula in the Heung Shan (Fragrant Hills) District in in the Kwong Chau Prefecture of the Kwong Tung, or Canton Province, in the south eastern part of the Empire of China. (...)
The whole peninsula on which Macao is built is about miles long from the extreme point which the steamers round on passing from the outer to the inner harbour to the long narrow isthmus of sand where Macao is joined to the Chinese empire and less than a mile in breadth and the circuit is said to be about 8 miles. On this peninsula are two principal ranges of hills running north and south and east and west respectively. They rise from 200 to 300 feet in height. Besides all the hilly portions which lend Huch a variety to the coup d'ceuti and throw up into prominence the public and private edifices crowning their heights or built on their sides, are numerous tracts of level land largely utilised for the erection of houses. Not only does the hilly nature of the peninsula give more variety to the scene; but the chance of a breeze is also enhanced bythe rising ground on which the rows of houses climb and detached residencies are perched. Several forts crown the different heights and churches as well as other public buildings are by no means wanting.
Many a picturesque view is to be obtained, the fine sweep of the the Praya Grande being universally admired. The streets are kept bautifully clean and the public and private buildings are often gaily coloured. (...)
One of the most enchanting scenes in Macao is that of this beautiful bay, quiet and graceful sweep of sea wall and rows of houses rising up the gentle slopes and the ancient forts and modern public buildings dotted here and there, while behind all rise the Mountains of Lappa and to the right those beyond the Barrier.

All descriptions are imperfect; some fail from an attempt to liken this beautiful little gem with another worldrenowned spot, the Bay of Naples. Let it be acknowledged at once that each is mi generis and attempt no comparison. There is no doubt when coming in from sea towards Naples and trying to detect Macao in Naples one does see a faint resemblence in one of the houserlad hills of the latter to Macao's central portion; but rather let one be content with enjoying the beauties of each and attempt no belittling of the grand proportions of the one or try to greaten the sweet gemlike curves and colour hof dear old Macao. (...)
Unfortunately the outer Harbour on which the Praya Grande faces is shallow and any large vessels which may call at Macao have to lie some miles from the shore in the offing. The Inner Harbour lying between the Peninsula and the Island of Lappa affords a secure harbour, but, unfortunately it has been silting up with mud for many years past. Of late years, however, a dredger has improved matters.

The Praya on the Inner Harbour presents a great contrast to the other Praya for whereas quiet reigns on the seaward one, the inland one is all bustle; rows of Chinese vessels are anchored off the shore and boats and sampans line the banks on which coolies are busy loading or unloading cargo to carry into the stores, shops, and wholesale Chinese merchants' places of business on this Menduia Praya or into the back streets.
Dyer Ball in "Macao The Holy City The Gem Of The Orient Earth", 1905

The Praya Grande (‘Large Bay’), also known as Nam Wan (‘South Bay’) in Chinese, is located on the eastern side of the Macau peninsula. Its distinctive curved shoreline and rows of European-style buildings made it one of the most popular port scenes in the genre of trade paintings. The scene above depicts the bay from south to north, with the Fortaleza do Monte at the center, St. Paul’s Church , the Palacio and the East India Company, with the Guia Fortress at the highest point on the right. Trading and fishing boats dock in the calm bay waters.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

"O Independente" - 26 Dezembro 1868


Excerto da primeira página do jornal "O Independente jornal político, noticioso e comercial" propr. Constâncio J. da Silva (1824-1898), edição de 26.12.1868. Há 150 anos...
"Por ter sido hontem dia de Natal, um dia tão solenne para nós todos os cathólicos, foi o motivo porque não podemos dar publicidade a este número do nosso jornal. Por esta ocasião cumprimos dever de dirigir os nossos votos de consideração a todos os seus ilustres assignantes, desejando-lhes boas festas, e as maiores prosperidades."

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Baía da Praia Grande no final do século 19

Em cima uma fotografia da baía da Praia Grande no final do século 19 que muito provavelmente terá inspirado o quadro na imagem abaixo. Entre alguns elementos que permitem datar os registos estão o Grémio/Clube Militar (1870), o Hospital Militar S. Januário (1874) e o Farol da Guia (1865). Dos dois registos não consegui encontrar até agora referências sobre o autor. 
Fica aqui o convite para o regresso a Macau no final do século 19 segundo o testemunho do Conde de Arnoso que chegou ao território a 23 de Junho de 1897: "Embarcados na canhoneira Rio Lima, levantámos ferro do porto de Hong-Kong, pelas oito horas da manhã do dia 23 de Junho, em direcção a Macau. Navegando contra vento e corrente, cinco horas levámos a percorrer as quarenta milhas que separam as duas cidades. Pela uma hora da tarde entrávamos na rada em frente da Praia Grande. Com respeito e orgulho olhámos para essas águas, que foram sepultura dum antepassado nosso, Jorge Pinheiro de Lacerda que, pelejando ali, pelos tempos da restauração da casa de Bragança, contra os holandeses, e cedendo o esforço à multidão dos contrários, como refere o cronista, se matou deitando fogo ao paiol do navio depois de lhe arrancar os sinais do triunfo já arvorados nos mastros. Volvidos mais de dois séculos, é-nos grato a nós, que vimos de igual sangue e usamos do mesmo apelido, aportar às mesmas águas num navio da marinha portuguesa com oficiais que, em circunstâncias semelhantes, não hesitariam um só momento entre o render-se e morrer".

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O "Natal" ao longo dos 10 anos do "Macau Antigo"

Telegrama de boas festas para o governador em 1946


De acordo com uma nota da Diocese de Macau serão celebradas em português, na Sé Catedral, a Missa do Galo, à meia-noite de 24 para 25 de Dezembro, e a Missa do Dia de Natal, às 11 horas de terça-feira. Para a igreja de São Lázaro, também em português, está agendada missa para as 18 horas do dia 25 de Dezembro. No mesmo dia será realizada missa na igreja de Santo António, pelas 11 horas. Na igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Taipa, a missa do Dia de Natal será celebrada às 11 horas e 15.
Alusão ao Natal em patuá, num texto de José dos Santos Ferreira de 1983

Natal qui´iou más lembrá,
Qui más guardá na coraçam,
Sã quelora quiança, tentá
Pesépio, rezá …
Rezá com devoção.
   Jesus, masqui dormido,
Sinti ta´uvi iou-s´oraçam,
Ta abri Su úvido
Uví … p´alegrá más unga coraçam.
Telegrama 'natalício' de 1959: enviado de Portugal para Macau
Na prática o remetente pagava pela mensagem (nº de palavras escritas), neste caso, "boas festas e felicidades no ano novo") e em Portugal os CTT escreviam a respectiva mensagem num telegrama previamente impresso para o efeito. No caso, uma ilustração de Alfredo Moraes.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Representação de Macau por Gentiloni

Detalhe de um mapa de 1784
Representação de Macau num quadro de Gentiloni do final do século 18

Este quadro faz parte do acervo do Museu Marítimo de Hong Kong (Hong Kong Maritime Museum) e pode ser visto na Central Ferry Pier 8 de Victoria Harbour no Deck C1. Trata-se de uma representação da península de Macau no final do século 18. e um documento precioso para a história da cartografia local.

Tem como dimensões 83x170 cm e a autoria é atribuída a Gentiloni que pintou outras cidades portuárias vizinhas de Macau, como Whampoa, Cantão, Hong Kong e Zhaoqing, por exemplo. Sobre o pintor mais nada consegui até agora encontrar...
Segundo o museu os quadros foram pintados em Macau e adquiridos (ou oferecidos ao) pelo diplomata Camillo de Rossi no Rio de Janeiro por volta de 1810. Mantiveram-se na família Rossi até 2010 quando foram comprados e oferecidos ao museu.
Cav. Camillo de Rossi, avô da marquesa Natalia de Rossi, comprou estes quatro quadros com vistas de cidades portuárias chinesas no Rio de Janeiro quando ali estava como secretário da legação papal ao rei D. João VI de Bragança aquando das invasões francesas a Portugal. Na verdade Rossi era o secretário particular do Núncio Apostólico, D. Lourenço de Caleppi, de 67 anos, convidado por D. João a acompanhá-lo na viagem ao Brasil. Por motivos irrelevantes para este post, acrescenta-se que estes dois personagens não seguiriam na viagem com o rei e só chegaram ao Brasil um ano depois, em 1808.
No canto inferior esquerdo do quadro está escrito "Macao". Para ajudar na datação do mesmo pode tomar-se como referência a igreja (1758) e o seminário de S. José (1728). A perspectiva do autor é o porto interior (em primeiro plano) vendo-se ao fundo a baía da Praia Grande. Destaque para as representações das ermidas da Penha e da Guia, da ilha Verde, da Porta do Cerco, da igreja Mater Dei (vulgo S. Paulo), mesmo ao lado da Fortaleza do Monte. Na pintura é ainda representada a igreja da Sé, o Templo de A-Ma (na Barra), o forte da Barra, o forte do Bom Parto, os muros que cercavam a edificação urbana, as várzeas de Mong-Há...

Quer nos navios quer nas fortificações militares e alguns edifícios religiosos, o autor colocou a bandeira cruz da Ordem de Cristo, também denominada Cruz de Portugal, símbolo nacional instituído por volta de 1520 pelo Rei Dom Dinis.


Nota: O Museu Marítimo de Hong Kong tem uma vasta colecção de pinturas do período China Trade que merecem também uma visita atenta. Entre mapas (séculos 18 e 19) e pinturas, há muito para ver sobre Macau no museu. Está lá por exemplo um quadro que representa a explosão da Fragata D. Maria II em 1850.

sábado, 22 de dezembro de 2018

A "reconstrução" da Igreja Mater Dei em 1904

Imagem  de um filme/documentário dos anos de 1930
No séc. 21 vista a partir da Fortaleza do Monte
Recorro ao "Toponímia de Macau", da autoria do padre Manuel Teixeira para recordar a história da reconstrução da igreja Mater Dei. Uma reconstrução que nunca chegou a acontecer. O mote da campanha de angariação de fundos era "Avante pela reconstrucção de S. Paulo"
“A igreja começada em 1602, ficou concluída em 1603, sendo inaugurada na noite do Natal, tendo trabalhado nela cristãos japoneses fugidos da sua pátria devido às perseguições contra a religião. A fachada levou muitos anos a construir. Peter Mundy diz que a obras de cantaria já estava pronta em 1637; Cardim informa que ainda em 1640 se colocou nela uma imagem de N. Senhora; em 1608, fez-se a porta da igreja, da banda de oeste com seu arco de pedra e o corredor do coro. A 26 de Janeiro de 1835, um incêndio devorou completamente a Igreja e o Colégio de S. Paulo, ficando apenas de pé a fachada da Igreja.
Houve alguém que sonhou na reconstrução de S. Paulo. O sonhador foi o dr. António José Gomes, que nós muito bem conhecemos.
A 4 de Dezembro de 1904, o bispo de Macau D. João Paulino d’Azevedo e Castro celebrou missa nas Ruínas de São Paulo e lan­çou a primeira pedra para a reconstrução desse antigo e histórico templo, destinado à futura igreja paroquial de Santo Antônio. Subiu a um púlpito improvisado o Pe. Dr. António José Go­mes, pároco da Santo António que, num sermão empolgante, pediu fundos para essa obra. Dizia ele:
«Este lugar é santo! estas venerandas ruínas, esta mole imensa de granito, aprumada e indestrutível, este majestoso frontispício, este colosso três vezes secular, que a despeito do olvido dos homens e das injúrias do tempo, se ergue ainda em toda a sua envergadura arquitectónica, rasgando as nuvens e desfraldando em pleno céu o lábaro sacrossando da Redenção… tudo isto está clamando que este lugar é santo… Uma escadaria, a mais ampla, a mais bela, a mais bem lançada que os meus olhos têm contemplado, servindo de escoadouro de lavaduras infectas, transformada em limiar de casas de gentio… Ai! Quantas injúrias não tens tu sofrido, ó preciosa relíquia da arte cristã! Tentaram roubar-te os santos de bronze, que ador­nam os teus nichos, para os fundirem, mas os santos não cederam o seu posto, foram mutilados, mas ficaram inabaláveis! Estilharam-te as colunas, britaram-te os capiteis, quebraram-te os ângulos, man­charam e poluíram as tuas bases … e, não obstante, tu aí estás ainda em pé, miraculosamente, para pungir a consciência de todos e cada um»!
Na peroração o dr. Gomes convidou os ouvintes a jurar que reconstruiriam a Igreja da Madre de Deus: «Soou a hora solene, chegou o momento crítico, o momento decisivo … o momento de fazermos sobre estas ruínas o mais solene dos juramentos! «Ah! se no meio de vós está alguém atrabiliário, algum inimigo desta obra santa e patriótica . . . saia! . . . fuja deste recinto . . . não queira ser um perjuro!»
Neste momento, um soldado disse para os que estavam junto dele: — «Não, eu é que não juro»; saltou e fugiu dali para não ser perjuro. O orador, a quem passou despercebido o incidente, continuou: — «Ninguém sai? . . . Ninguém se retira?».
E então fez o juramento, em nome de todos: — «A cidade de Macau, pela boca do vosso ministro, jura hoje solenemente, à face do céu e da terra, desagravar o Vosso Santo Nome, restituir-vos a vossa herança!» E terminava entusiasmado: — «Avante, senhores, avante pela reconstrução de São Paulo!»
Organizaram-se lotarias, promoveram-se quermesses e festas para angariar fundos, mas pouco se conseguiu.
Foram mandadas fazer na América várias tapeçarias com as gravuras da fachada, do bispo D. João Paulino e outros motivos religiosos. Mas, quando se abriu a grande remessa, viu-se que os ba­cios tinham no fundo a vera imagem do prelado!!! Foram logo retirados da venda. Existe ainda na Diocese um fundo dumas $20.000,00 em acções, chamado «Fundos da Reconstrução de S. Paulo».
Já antes do dr. Gomes, aparecera outro entusiasta da reconstrução: era o rico proprietário, comendador Albino da Silveira, que tencionava empregar a sua fortuna nessa obra. Chegou a mandar fazer o plano da igreja, aproveitando a fachada, mas com a sua mor­te em 31 de Outubro de 1902 morreu o seu projecto.”
As ruínas assinaladas por mim num desenho de Cheong Pow de 1818
Em 1905 chegou a ser editado um pequeno livro intitulado "Sermão Pregado dentro das ruínas da egreja da Immaculada Conceição Vulgarmente chamada de S. Paulo em Macau por ocasião do lançamento da primeira pedra para a reconstrucção d´este antigo e histórico templo destinado a futura egreja Parochial de Santo Antonio".
Este sermão ocorreu a 4 de Dezembro de 1904 (no interior das ruínas), Anno Jubilar da Immaculada Conceição, e foi feito pelo padre António José Gomes, Doutor em Theologia, Parocho da freguesia de Santo António.
Excerto do sermão:
"Senhores: o que nos resta, pois, fazer d´esta ruina? Conserva-la, dizem alguns, conservar esta ruína, remover todo este lixo, gradear este recinto e pôr aqui uma vigia.
Senhores, isto não basta. Há muitos anos que uma tal resolução deveria ter sido tomada. Hoje, depois de tantos annos de profanação a mais ignóbil e vergonhosa, é mister recorrer à mais completa das desaffrontas e à mais solemne das reparações!
Conservar isto como ruína, dizem alguns, e basta. É uma obra d´arte antiga, é uma preciosa relíquia do passado, é uma pagina brilhante da historia de Macau; conserve-se, pois, como está, como monumento archeologico.
Quem fala d´este modo, meus senhores? Falam aqueles que nunca subiram essas escadas, aquelles que talvez hoje pela primeira vez entram dentro d´este recinto, aquelles que há trinta, quarenta e mais anos não visitam esta ruína!
E são estes pretensos admiradores de monumentos archeologicos que falam em conservar esta ruina! Elles que a votaram sacrilegamente a todas as profanações as mais odiosas! Conservar esta ruina, quando tanto se tem feito pela derruir! Conservar esta ruina sagrada ao pé d´um templo idolatra! Conservar esta preciosa relíquia da arte christã no meio d´um foco de peste, d´essa montureira que se estende por ali abaixo, com centenares de suínos a refocilarem-se dentro e fóra d´ella! Conservar a mais bela ruina de Macau, a mais bela ruina do Oriente, no meio d´um bairro, talvez o mais sujo e repelente, que existirá sobre a face da terra!
Oh! Não, nunca! Venha mais depressa uma horda vandálica, sacrílega e brutal, e derrua tudo! Saccudam essas columnas, fundam esses bronzes, revolvam esses alicerces, varram essa mole de granito, rasguem essa pagina gloriosa da historia de Macau, apaguem esse pharol inexistingivel da fé dos nossos maiores! Façam tudo isso, se podem!
Mas se não podem, se o vandalismo em arte e o sacrilégio em religião os faz recuar, se o dedo oculto de Deus sustenta essa mole de granito, então nada mais resta que reedificar. "
Na contra capa da referida publicação pode ler-se: "Qualquer donativo que seja oferecido em troca d'Este Opusculo reverterá em benefício da reconstrução De S. Paulo e podem ser enviado ao auctor Parochia de Santo Antonio China Macau."
O convite e parte do projecto arquitectónico da reconstrução
Quem estava por esta altura em Macau era Emílio de Paiva que testemunhou este evento.
A igreja da Mater Dei foi inaugurada na véspera de Natal do ano de 1603.