Páginas

sexta-feira, 31 de março de 2023

"Magical Macau"

Joy e Len Rutledge assinam este artigo publicado a 3 de Novembro de 1978 no jornal "Papua New Guinea Post-Courier". Aborda, entre outros temas, os na altura novíssimos jetfoil, o hotel Lisboa (inaugurado 8 anos antes), os casinos... Inclui duas fotografias: Igreja S. Domingos e Casino Flutuante.

Magic and intrigue seem to go hand in hand with our thoughts of the Orient. We dream of smoke - filled rooms where shadowy figures plan deals worth millions or dream up plots to os, overthrow the world - Nowhere are these thoughts put more to the test than in Macau, that tiny Portuguese enclave on the south coast of China.
Our recent visit to Macau dispelled some notions that had been harboring in our minds but much of the magic, and intrigue remains. Here on the back porch of the People's Republic of China are rococo churches and tiled roof-houses, winding; cobblestone streets and sidewalk cafes, cannon - studded fortreses and old men wearing berets.
It was here that East and West first met. Their embrace started a love affair that continues to this present time. This is the oldest permanent European settlement in Asia. It's diverse people appear now to live together in peaceful and harmonious co-existence. It was not  always like this. Macau remains a mystery to many. You look up an airiline time-table and you don't find it listed, for Macau has no airport.  No cruise ships will list it as a port of call and there is no railway.
Unless you are a Communist Chinese, the only way to visit Macau is by boat from Hongkong. In fact there are three choices. The leisurely way is the 3 hours crossing by ferry. The popular way is the 75 minute trip by hydrofoil. We went the so-called exciting way by Boeing jetfoil.
The jetfoil ride is an experience in itself. These revolutionary craft "fly" on underwater wings. The result is the fastest and smoothest luxury passenger sea transport in the world.
Macau, like Lisbon and Rome, is built of seven hills and like those famous cities it too has a glorious and somewhere tempestuous past. The city has grown up with a Portuguese ambience which is proudly displayed in the charm of its buildings. its traditions and its religious festivals. But it is also a very Oriental city, alive with the pulsing rhythms of China, ancient and modern.
Macau is perhaps the most distinctly Chinese place left anywhere in the world. Or perhaps it is just what we Westerners would like China to be? 'We asked Gloria Azedo, our guide from the
Tourist Department, what she thought. Her answer confirmed our thoughts. "In China, the character of the cities: has been largely changed by modernisation and low cost housing  programs and many old Chinese institutions have been sunweased there as remnants of the past." 
In Macau, they all survive and in fact many thrive. There are the small Buddhist and Confucian temples, the traditional lotteries, the many pawnshops and markets and the timeless fishing junks at rest in the harbor.
Macau is surrounded by China. Through the border gate flows a steady stream of food, water and supplies. The so-called bamboo curtain seems hardly to exist here. We watched trucks with dual Macau and China number plates passing through the border with hardly a glance from the guards.
Clearly Macau, could not exist without the close co-operation of China. We wondered just how much, influence China has on life in Macau. There are stories of deals, of Red Chinese control of many activities, but no one will, feall'y say.
Equally Macau in its present form could, not exist without gambling. It is  currently the gambling mecca of the Far East. Macau has always existed by doing things that others considered too daring, dangerous or devious. At other times its major source of income has come from the illicit trade in gold and opium, acting as a middleman in the profitable China-Japan trade when the Chinese were forbidden to trade with Japan and from its opium dens, easy women and unregulated  gambling halls. 
All but the gambling has gone, but as if to compensate for the lost, notoriety gambling has diversified into virtually every form imaginable and its all legal and more highly organised, than ever before.
As the jetfoil approached the shore Macau looked as sleepy, as picturesque and anachron existeally colonial, as anything described by Somerset Maugham with one glaring exception. The exception is the improbable 600 room Hotel Lisboa, whose architecture should only exist in Disneyland, and the adjacent road bridge which rises in curved splendor to pass over the shallow muddy waters of the Pearl River Estuary.
Once you are ashore the atmosphere rapidly surrounds you. A stroll along the waterfront boulevard with its century old trees is a delightful experience. Turn a corner and in a moment you leave the Chinese vessel fishing scene and enter a world of pastel colored "palatios", 17th century-churches and-towering ruins that sneak of Europe.
You can stroll for a whole morning thourgh the humpbacked alleyways and barely see a  European face, yet around the corner are avenues lined with ancient banyan trees which should only exist in Meditarreanean Europe.
Gambling in Macau never stops and, once in Macau, it is almost impossible to avoid a visit to a casino. All city tours include a stop on the itinerary and even if you decide to see Macau on foot we strongly advise you to visit either the casino in the Hotel Lisboa or the floating Macau Palace.
The Lisboa casino has a quiet luxury about it with its carpeted softly clean and well ordered rooms. The floating casino, which was featured in the James Bond film "Man with the Golden Gun", has a more exotic Chinese style of decoration and certainly more noise. There is no entrance fee or formality and without spending a dollar you can watch little old ladies rubbing shoulders with, systems operators and raw tourists.
Distinctions of race, culture and language disappear when the chips are down; then they are all simply gamblers. You will either find the casinos invigorating or depressing. We confess to finding the fanatical gamblers - engaged in - a rather squalid pastime and our stay was fairly short. 

quinta-feira, 30 de março de 2023

Estrangeiros, portuguezes e macaistas no séc. 19

Os estrangeiros em Macau 
 A população de Macau, que não é chineza, consta de: estrangeiros, europeus portuguezes, alguns canarins e malaios, por ultimo, de macaistas (filhos de Macau), como elles próprios se designam. Trataremos por agora dos estrangeiros. Durante o tempo da emigração chineza, negregado trafico, que começou em 1851 e terminou em 1874, havia na cidade do Santo Nome de Deus grande numero de estrangeiros, principalmente hespanhoes, peruanos e cubanos. Estes indivíduos, que faziam rápidas e colossaes fortunas, viviam bizarramente e davam grande animação à terra. Hoje está o seu numero muito diminuído, vêem-se apenas em Macau alguns negociantes de chá, ou seda, cônsules de varias nações e poucos inglezes de Hong-Kong, que ali passam o verão em chácaras ultimamente adquiridas. 
Este decrescido numero de estrangeiros que por lá estanceia pouco anima a cidade. Pode dizer-se que fazem vida á parte e conservam os hábitos das colónias dos seus respectivos paizes. Durante o entrudo, por occasião das festas chinezas aos sabbados, etc, etc, apparecem, ás vezes, em Macau grandes caravanas de inglezes da vizinha colónia, os quaes vêem ali divertir-se a seu modo. No carnaval vão alguns aos bailes de particulares, club e grémio militar, mas, em geral, dirigem-se logo ás casas de fan-tan e acabam á noite por se emborrachar.
É summamente curioso que o dono do único hotel para europeus, um china de nome Pedro Yen-kee,* tenha quartos especiaes e reservados para os inglezes que vêem a Macau embebedar-se. Estes aposentos têem uma situação accommodada ao fim, de sorte que os outros hospedes nada soffrem com os distúrbios que, porventura, ali se façam. Na nossa resenha esqueceu-nos mencionar alguns negociantes árabes, o que em nada transtornava a physionomia da população, porquanto estes, sobraçando sempre o koran, tratam apenas do seu trafico; vivem segundo a sua feição peculiar.

* (Pedro) Hing Kee Hotel; ficava na Praia Grande perto do então Palácio das Repartições, sensivelmente onde hoje está o Edifício Comercial Nam Tung.
Europeus portuguezes
Este grupo é constituído principalmente pelos funccionarios públicos, civis e militares, podendo aggregar-se-lhes alguns, mas pouquíssimos negociantes. Estes elementos formam, por assim dizer, uma sociedade á parte; vivem uns com outros e conservam em geral, quasi todos os hábitos pátrios, com pequenas diferenças, absolutamente impostas pelas condições do clima, etc, etc. A cozinha é pouco mais ou menos a que temos por cá; o vestuário pouco varia, a não ser no verão, em que se usam fatos brancos. Os homens passam as noites no club, ou no grémio militar, sociedades onde ha bilhares e partidas de jogo de vasa, cavaco, jornaes, e terraços para se tomar o fresco no estio. 
Hoje ha reunião em casa d'este, amanhã d'aquelle; de quando em quando, organisam-se diversões e merendas no campo, caçadas, etc, etc.; aos domingos toca a musica da guarda policial no passeio publico, etc, etc. Bastantes dos funccionarios públicos são convidados para casa dos macaistas e vão a festas, casamentos ou banquetes, dados pelos chins ricos. Os creados que nos servem são todos chinas, tornando-se difficil ao europeu obter creadas, mas arranjando-se em compensação, bons cozinheiros e espertos ataes (rapazitos), que remedeiam perfeitamente. (...)
Depois de alguns mezes de residência em Macau são as cadeirinhas acceitas como excellente meio de transporte. Entabolam-se relações com facilidade, a vida é barata, o mercado abundante e a gente da terra obsequiosa para connosco. (...)
Duas palavras acerca do vestuário. Como já demos a entender, é Macau talvez a única cidade da China em que se mantém o uso de trajos europeus. Os rapazes da cidade do Santo Nome de Deus são apuradissimos no vestir e apresentam-se nos passeios, na Praia Grande, etc, etc, sempre correctos e aprumados. Exhibem fraques e sobrecasacas acatitadas, calças de cores vistosas, botas feitas a capricho, collarinhos bem engom- mados e gravatas espalhafatosas.
Os funccionarios públicos e outros europeus portuguezes deixam-se levar, ás vezes, pela commodidade e condições climatológicas, elles não. As senhoras de melhor tom ostentam vistosos vestuários de cores vivas, procurando acompanhar as modas de Paris, que, seja dito de passagem, chegam lá bastante antiquadas. 
 Ha, porém, um trajo característico das macaistas. Consiste este n'um dó (mantilha de seda preta que cobre a cabeça e parte do busto), em que vão completamente embiucadas, e n'uma saia preta de lã, com miúdos folhos de alto a baixo. Cremos que por terem, quasi sempre, pé e perna bem feitos, costumam arregaçar bastante as saias e mostrar garridas meias. Em casa usam, homens e mulheres, cabaias de seda. (...)
As senhoras de Macau são bastante indolentes e estão acostumadas a ter creadas para tudo. Apreciam muito as suas partidas de pau preto, jogo a que são muito aferradas e em que se entretêem ás noites; é o dominó modificado. Isto pelo que toca a usos caseiros, pois que no respeitante á vida exterior torna-se necessário juntar algumas palavras. Durante o dia é raro verem-se nas ruas nhonhas (senhoras de Macau). De manhã, porém, ahi das seis ás nove horas, encontram-se em grande quantidade, a caminho das igrejas, ou regressando já de missas e officios. Poucas vezes se vêem á janella, todavia estão quasi sempre por detraz das persianas e gelosias, dando fé do que se passa. Á noitinha, no verão, é frequente saírem a passeio em busca de algum fresco. 
É claro que nos temos referido ás nhonhas propriamente ditas, isto é, às senhoras dê Macau aferradas aos costumes antigos, porquanto ha algumas que dão reuniões, frequentam a nossa sociedade e até fazem gala em europeizar-se, permitta-se-nos o neologismo. Em todo o caso, em geral são muito acanhadas, e têem grande dilficuldade em sustentar uma conversação comnosco, o que não impede que as nhonhonhas (raparigas solteiras) se não dêem por muito felizes em casar com europeus.
Os homens são menos atados para comnosco, mas muito cheios de si e dos seus merecimentos. Quasi todos têem necessidade de empregos públicos, porque as fortunas feitas com a emigração foram breve dissipadas pelo luxo e hábitos de grandeza, porém não querem acceitar senão logares importantes. D'aqui resulta terem alguns sido forçados a abaixar a proa, acceitando cargos somenos em relação ás suas aspirações, mas só depois de luctarem com grandes difliculdades. Outros vêem-se obrigados a expatriar-se, indo para Hong-Kong, vários pontos da China, Cochinchina, etc. 
É preciso dizer, em abono da verdade, que são muito apreciados como empregados de commercio e que têem habilidade para quasi tudo quanto se mettem a fazer. Dentre muitas qualidades boas que possuem, avulta um defeito grave, que consiste em estarem sempre promptos para dizer mal de Portugal, facto que faz péssimo effeito perante estrangeiros. Que os macaistas não tomem entre dentes esta asserção, porquanto não temos duvida em confessar que ficámos sempre gratos á acolhida que nos fizeram, ao que acresce querermos suppor que tal modo de proceder lhes vem do contacto comnosco, que, infelizmente, também temos a mesma pecha. Tenham paciência; a probidade de escriptor obriga-nos a pôr a verdade acima de tudo, tanto mais que nos é lisonjeiro affirmar também que estes sentimentos só se manifestam da boca para fora, pois que o coração é portuguez de lei. Alguns, mas poucos macaistas, occupam-se ainda da vida do mar; outros mantêem emprezas commerciaes, ou são intermediários dos chinas nos seus negócios; terceiros, advogam, etc, etc. Á noite reunem-se os macaistas em grande numero no club**, onde jogam, cavaqueiam e tomam fresco no verão, em varanda apropriada. Poucos frequentam o grémio militar, mas quando lá vão são muito bem recebidos, o que sempre acontece em soirêes, etc, para as quaes são convidados. (...)
Excertos de "Macau e os seus Habitantes", da autoria de Bento da França, publicado em 1897.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Cathay and the Way Thither

Chapter XIII. 
How our Brother Benedict died in the Chinese territory, after the arrival of one of our members who had been sent from Pekin to his assistance.
Towards the northern extremity of the western frontier of China the celebrated wall comes to an end, and there is a space of about two hundred miles through which the Tartars, prevented by the wall from penetrating the northern frontier, used to attempt incursions into China, and indeed they do so still, but with less chance of success. For two very strongly fortified cities, garrisoned with select troops, have been established on purpose to repel their attacks . These cities are under a special Viceroy and other officials deriving their orders direct from the capital. In one of these two cities of the province of Scensi, which is called Canceu, is the residence of the Viceroy and other chief officers; the other city called Socieu, ' has a governor of its own, and is divided into two parts. In one of these dwell the Chinese, whom the Mahomedans here call Cathayans, in the other the Mahomedans who have come for purposes of trade from the kingdom of Cascar and other western regions . 
There are many of these who have entangled themselves with wives and children, so that they are almost regarded as natives, and will never go back. They are much in the position of the Portuguese who are settled at Amacao in the province of Canton, but with this difference, that the Portuguese live under their own laws and have magistrates of their own, whereas these Mahomedans are under the government of the Chinese. Indeed they are shut up every night within the walls of their own quarter of the city, and in other matters are treated just like the natives, and are subject in every thing to the Chinese magistrates. The law is that one who has sojourned there for nine years shall not be allowed to return to his country. To this city are wont to come those western merchants, who, under old arrangements between seven or eight king doms in that quarter and the Empire of China, have leave of admission every sixth year for two-and- seventy persons, who under pretence of being ambassadors go and offer tribute to the Emperor. This tribute consists of that trans lucent marble of which we spoke before, of small diamonds, ultramarine, and other such matters; and the so-called ambassadors go to the capital and return from it at the public expense. The tribute is merely nominal, for no one pays more for the marble than the Emperor does, consider ing it to be beneath his dignity to accept gifts from foreigners without return. And indeed their entertainment from the Emperor is on so handsome a scale, that, taking an average of the whole, there can be no doubt that every man pockets a piece of gold daily over and above all his necessary expenses. This is the reason why this embassy is such an object of competition, and why the nomination to it is pur chased with great presents from the chief of the caravan, Iwith whom it lies . When the time comes the soi-disant ambassadors forge public letters in the names of the kings whom they profess to represent, in which the Emperor of China is addressed in obsequious terms. The Chinese receive embassies of a similar character from various other kingdoms, such as Cochin-China, Sian, Leuchieu, Corea, and from some of the petty Tartar kings, the whole causing incredible charges on the public treasury. 
The Chinese themselves are quite aware of the imposture, but they allow their Emperor to be befooled in this manner, as if to per suade him that the whole world is tributary to the Chinese empire, the fact being rather that China pays tribute to those kingdoms. Our Benedict arrived at Socieu in the end of the year 1605, and it shows how Divine Providence watched over him, that he came to the end of this enormous journey with ample means, and prosperous in every way. He had with him thirteen animals, five hired servants, two boys, whom he had bought as slaves, and that surpassing piece of jade; the total value of his property being reckoned at two thousand five hundred pieces of gold. Moreover both he and his com panion Isaac were in perfect health and strength. At this city of Socieu he fell in with another party of Saracens just returned from the capital, and these confirmed all that he had already been told about our fathers at Pekin, adding a good deal more of an incredible and extravagant nature; for example, that they had from the Emperor a daily allowance of silver, not counted to them, but measured out in bulk! 
So he now wrote to Father Matthew to inform him of his arrival. His letter was intrusted to certain Chinamen, but as he did not know the Chinese names of our fathers, nor the part of the city in which they lived, and as the letter was addressed in European characters, the bearers were unable to discover our people. At Easter however he wrote a second time, and this letter was taken by some Mahomedan who had made his escape from the city, for they also are debarred from going out or coming in, without the permission of the authorities. In this letter he explained the origin and object of his journey, and begged the fathers to devise some way of rescuing him from the prison in which he found himself at Socieu, and of restoring him to the delight of holding intercourse with his brethren , in place of being perpetually in the company of Saracens. He mentioned also his wish to return to India by the sea route, as usually followed by the Portuguese. The fathers had long ere this been informed by the Superior's letters from India of Benedict's having started on this expedition, and every year they had been looking out for him, and asking diligently for news of him whenever one of those companies of merchants on their pretended embassy arrived at court. But till now they had never been able to learn any news of him, whether from not know ing the name under which he was travelling, or because the ambassadors of the preceding seasons really had never heard of him. The arrival of his letter therefore gave great pleasure to the fathers at Peking. It was received late in the year, in the middle of November, and they lost no time in arranging to send a member of the Society to get him away some how or other and bring him to the capital. However on reconsideration they gave up that scheme, for the bringing an other foreigner into the business seemed likely to do harm rather than good. So they sent one of the pupils who had lately been selected to join the Society but had not yet entered on his noviciate. His name was John Ferdinand, he was a young man of singular prudence and virtue, and one whom it seemed safe to entrust with a business of this nature. One of the converts acquainted with that part of the country was sent in company with him. His instructions were to use all possible means to get away Benedict and his party to the capital, but if he should find it absolutely impossible either to get leave from the officials or to evade their vigilance, he was to stop with our brother, and send back word to the members of the Society. In that case it was hoped that by help of friends at Court, means would be found to get him on from the frontier.
Excertos de "Cathay and the Way Thither: Being a Collection of Medieval Notices of China, Vol. 2, de Odorico (da Pordenone), Rashīd al-Dīn Ṭabīb, Francesco Balducci Pegolotti, Joannes de Marignolis, Ibn Batuta, Bento de Góis, publicado em 1866. Trata-se da reprodução de relatos destes autores traduzido por Henry Yule, responsável pela edição.

O excerto que aqui apresento refere-se ao relato de Bento de Goes sobre a sua viagem à China - entre 1603 e 1607 - conhecida na época por Cataio ou Grão-cataio, daí o nome em inglês "Cathay".

terça-feira, 28 de março de 2023

Recibo de 1986: Kwong Tai Loong Metal Co.

Recibo de 1986 da Kwong Tai Loong Metal Co., 
empresa localizada da Rua da Ribeira do Patane 

segunda-feira, 27 de março de 2023

Rosenstock's Gazetteer and Commercial Directory of China: 1920

 

Rosenstock's Gazetteer and Commercial Directory of China, 1920
(clicar nas imagens para ver em tamanho maior)

domingo, 26 de março de 2023

From Calcutta to Canton (and Macao): 2ª parte

(...) The most interesting spot in Macao is The Casa, commonly called Camoens Garden, a spacious demesne with beautifully wooded avenues of magnificent old trees. There are many mighty granite boulders with banyan trees so called apparently growing out of them the roots embracing them like cords. In a hollow in one of these boulders, Camoens the Portuguese poet who held the office of Administrator of the estates of his deceased countrymen in the middle of the sixteenth century is said to have composed the greater part of his poem The Lusiad. In an adjoining boulder some 20 feet from the ground lies the body of Camoen's mistress. The entrance to the tomb was indicated by an ornamental balcony now in ruins. A fine bronze bust of Camoens on a handsome pedestal has recently been placed below and on the face of the boulder are large bronze tablets on which are engraved extracts from the Lusiad. Recalled from Macao Camoens sailed for Goa suffered shipwreck and it is said that he only saved the manuscript of the Lusiad by holding it above his head in one hand while he swam ashore with the other. Camoens returned to Portugal and died at Lisbon in extreme poverty in the year 1579 in the 62nd year of his age. 

Nearly three centuries elapsed before his countrymen placed this memorial of him in the garden in which he had spent so many happy hours. There are some other monuments scattered about the garden one to the memory of Mrs John Theophilus Metcalfe whose husband spent six years in China. On the wall of the Casa grounds overlooking the inner harbour still remains the Observatory in which the scientific officers of La Perouse's squadron made Astronomical observations in January 1787. Among former residents in Macao was the Rev Dr Robert Morrison of world wide reputation as a Missionary and linguist. His great work the Chinese and English Dictionary was printed at Macao under the auspices of the East India Company.

Another remarkable resident was George Chinnery by birth, an Irishman by profession, an Artist whose works in portraits crayon sketches and paintings in oil are well known in Calcutta where he arrived in 1807. There are some fine specimens of his portraits in Government House and in the High Court Calcutta and his pencil and pen and ink sketches of native life and character are inimitable. Chinnery was a clever genial man but he was unhappily mated and was besides in trouble with his creditors so he disappeared from Calcutta and came to Macao where after a residence of 27 years he died on the 30th May 1852.

Jas B. Knight in The Indian Magazine nº 239, Novembro de 1890










O edifício do lado esquerdo é o Hotel Boa Vista referido pelo autor do artigo como sendo inaugurado na altura (1890)

sábado, 25 de março de 2023

From Calcutta to Canton (and Macao): 1ª parte

From Calcutta to Canton
My stay at Hong Kong was very short as I was anxious to proceed to Macao, my next stopping place. Macao, the old Portuguese settlement at the mouth of the Canton river respecting which I hope to have something interesting to say next month (...)
The Steamers which sail daily from Hong Kong to Macao and Canton are built in the style of the American River Steamers with three or four tiers of decks and huge paddle wheels. The Kiu Kiang, which I saw at Canton, has paddle wheels 37 feet in diameter and machinery of equally gigantic proportions the piston rod at every stroke rising high above the hurricane deck. The Chinese passengers of the lower class are stowed away in the hold every entrance to which is closed by heavy iron gratings securely locked and guarded by armed sentries the object being protection against pirates who have been known to break out and endeavour to seize the vessel. Chinese passengers of the better class occupy the lower deck and there is a handsome saloon with cabins adjoining for Europeans. An excellent meal is provided on board. The distance from Hong Kong to Macao is 40 miles and the time occupied about four hours. The route is studded with islands one of great extent with a mountain peak 2400 feet high.
The approach to Macao is most picturesque. Captain Alexander Hamilton who visited it in the course of his voyage to the East, from 1688 to 1723, thus quaintly describes it: 
'Maccaw a city built by the Portugese was the first place of Commerce. This city stands on a small Island and is almost surrounded by the sea Towards the land it is defended by three Castles built on the tops of low hills. By its situation and strength by Nature and art it was once thought impregnable Indeed their beautiful churches and other buildings give us a reflecting idea of its ancient grandeur for in the forepart of the seventeenth century according to the Christian Era it was the greatest port for trade in India and China... 
The city contains five churches but the Jesuits is the best and is dedicated to St Paul. It has two convents for married women to retire to when their husbands are absent and Orphan Maidens are educated in them till they can catch a husband. They have also a Nunnery for devout Ladies young or old that are out of conceit with the troubles and cares of the world. And they have a Santa Casa or the holy house of the Inquisition that frightens every Catholick into the belief of everything that holy Mother Church tells them is Truth whether it be really so or no.
In its general aspect I fancy Macao is little changed in the present day but the old forts are in ruins and the stately Cathedral of San Paulo finished in 1575 was destroyed by fire some 30 or 40 years ago. The grand façade still stands very little injured It is built on a considerable elevation and is approached by a fine flight of 130 steps of granite of a width of from 60 to 80 feet which are still in good condition.
Anúncio de 1894

The Peninsula on the extremity of which Macao is built is joined to the mainland by a narrow isthmus half a mile in breadth. The Portuguese are said to have first landed there in 1517 and a few years after were secured in its peaceful occupation. The principal fort the Monte Fort was built on a hill overlooking the city in 1626. The Dutch have made unsuccessful attempts to obtain possession, the last was in 1627 since which time the Portuguese seem to have held undisturbed possession subject to an annual tribute paid to the Chinese Government.
The lighthouse on one of the highest hills is said to be the oldest in the East. Passing this point we see on the right the Praya Granda, the most flattering surviving specimen of this Emporium of Oriental trade. It is a fine wide promenade 700 feet in length lined with well built houses prominent among them being the residence of the Governor. The English Factory (now I believe little more than a name), the Custom house, etc...  
Entering the Inner Harbour, the New Hospital, the Police Barracks and a fine New Hotel just completed, comes into view. The Harbour is crowded with sampans and junks many of the latter being armed with guns as a protection against pirates which abound in the China Rivers.
Macao is situated on the main estuary of the Pearl River and from the town a glorious view is obtained of the numerous islands, of diversified form and perennial green, part of the Grand Ladrones, which form the outposts washed by the China Sea. At the Northern Extremity of the harbour stands Green Island on which the Jesuits formerly had a Church College and Observatory. A portion of the Island still belongs to The Church and there is a large house and grounds in a very neglected state which is still called the Bishop's house. The remainder of the Island is leased to the Green Island Cement Company. With the manager of these works, my nephew, I spent a very pleasant fortnight. The island like most of the islands in the group is a huge mass of granite covered with low shrubs and ferns and the view from the summit is glorious.
Macao is the summer resort of the residents of Canton. Formerly a permit from the Chinese Government was necessary but now visitors can freely enjoy its exquisite climate and its magnificent views over sea and islands of every form and in endless number.
The Mācāistas, says the author of Bits of Old China, generally speak English and are a kind and hospitable people. They enjoy the privilege of living in a city untouched by change as regards its public buildings and defences which remain to day as they were originally built nearly 300 years ago and which bear silent witness to the courage and enterprise of their forefathers the first to lead the way viâ the Cape of Storms to the Far East and who have here left many of the works of their own hands. These remarks probably refer to a period before the Treaty days of 1842. Since that time the trade of Macao has declined and it does not show a relic of its former prosperity. The chief revenue is now derived from the gambling dens with which the city abounds. There are many good houses the mansions of the old Portuguese settlers but the inhabitants where are they Young and old parents and children seem to spend their lives indoors.
The beautiful public gardens are deserted excepting on Sunday afternoon when the band plays and all the rank and fashion of Macao appears on parade. At other times the streets and gardens are forsaken excepting by the Chinese population which number I believe between 50,000 and 60,000. The shops are all Chinese and so far as I saw the Portuguese ladies do not even indulge in the luxury of shopping. There is a Parsee Cemetery on the slope of the hill below the Hospital. The graves are all marked by headstones on which are engraved the names of the deceased and the date of death. The cemetery is kept in good order but I could not see any indication of a Tower of Silence I believe there are no Parsees at present in Macao.                                                                                                                   
Jas B. Knight in The Indian Magazine nº 239, Novembro de 1890
                                                                                                                                    Continua...

sexta-feira, 24 de março de 2023

"Chinese Coolies Destined for Cuba Escaping from the Depot at Macao"

Na edição de 27 de Junho de 1857 o jornal britânico Illustrated Times (1855-1872) - concorrente do Illustrated London News - publicou esta ilustração com a legenda: "Chinese Coolies Destined for Cuba Escaping from the Depot at Macao" / "Cules chineses escapam de um armazém/barracão em Macau".

Refira-se que a mesma ilustração surgiu em jornais um pouco por todo o mundo. Nos franceses - L'Illustration de 13.6.1857 - a legenda era "Evasion des emigrants chinois de leur dépôt à Macau, le 2 avril 1857" suportando um artigo intitulado "Os horrores da emigração chinesa".  O texto e a ilustração são da autoria de M. Victor Paulin.
Oficialmente designavam-se "colonos chinas". Veja-se este excerto de uma carta de Abril de 1857 publicada no Boletim do Governo, escrita pelo Procurador da Cidade, Manoel António de Souza ao governador Isidoro Francisco Guimarães: "Para se evitarem os abusos que se podem commetter tanto da parte dos armadores, como da dos Cules, que em muitos casos se vão engajar só com o fim de serem sustentados nos depósitos, e receberem os adiantamentos que lhe fazem para a viagem, mas com a determinação de se subtrahirem a embarcar (...) torna-se necessária maior cautela nos exames que na Procuratura se fazem aos Colonos antes de entrarem no depósito explicando-se-lhes bem o engajamento que vam tomar. (...)"

quinta-feira, 23 de março de 2023

Cartas da Índia e da China: 1815 a 1835

"Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835 por José Ignacio de Andrade a sua mulher D. Maria Gertrudes de Andrade."
A obra em dois volume teve várias reedições ao longo dos tempos. A primeira é de 1843. A das imagens é de 1847 (Imprensa Nacional, 2 vols.).

"Letters from India and China in the years 1815 to 1835" by J
osé Inácio de Andrade (1780-1863)
Pictures above are from the Second edition, by Imprensa Nacional, in 1847. The 2 vols. include twelve lithographed portraits and one wood cut. This account, which is written in 100 letters, discusses the history, customs, and present state of India, and China, especially Macao, and is based on the author's travels there. It also gives a history of the Portuguese discoveries, settlement and trade in the Far East. The lithographed plates include portraits of Chinese emperors, and portraits of the author and his wife. Andrade, born in the Azores in 1780, made numerous voyages to India and China.
José Inácio de Andrade nasceu nos Açores em 1780 e morreu em Lisboa, em 1863. Como oficial da Armada fez várias viagens à Índia e à China. Foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Lisboa e figura destacada das letras portuguesas da época, deixando vasta obra. Publicou, por exemplo, uma curiosa Memória intitulada sobre a destruição dos piratas da China e o desembarque dos ingleses na cidade de Macau e sua retirada, em 1835, que aborda dois temas significativos da história de Macau, a luta dos portugueses, com os imperiais chineses, contra a pirataria e a tentativa de ocupação de Macau pelos ingleses, sob o pretexto da guerra napoleónica, em que, portugueses e chineses se opuseram, em conjunto, ao ataque britânico. 
Reprodução de uma das cartas (sobre Macau)
Carta XXXII
Estado actual de Macau 
Em outro tempo julgava eu ser este pequeno istmo propriedade lusitana; hoje, estou persuadido do contrário. O poder executivo do miserando Portugal está sem dúvida no mesmo engano. Maior desgraça é achar-se o poder legislativo nas circunstâncias do vulgo e do governo. De tudo quanto posso dizer-te acerca dessa ilusão nada é tão convincente como o decreto do imperador Chin-Tsoung, gravado em pedra na entrada dos Paços do Concelho desta cidade no ano de 1614 (1).
«Artigo 1.° – É proibido, da data deste em diante, aos portugueses admitirem japoneses em Macau.
Artigo 2.° – É igualmente proibido aos portugueses comprar súbdito algum do império chinês.
Artigo 3.° – É proibida a entrada de navio algum no porto de Macau, sem preceder medição, a fim de pagar o imposto que a lei exige.
Artigo 4.° – Era castigado rigorosamente qualquer contrabandista, além de perder os objectos apreendidos.
Artigo 5.° – É proibido aos portugueses edificar novos prédios, sob pena de serem arrasados: mas podem reedificar os antigos.»
Talvez sem a colocação deste monumento nos Paços do Concelho desta cidade não pudessem levantá-los os ilustres varões que os legaram a seus netos.
Assim como o governo chinês é singular, assim deve ser o governo desta cidade em tudo dependente da China. Além dos requisitos necessários para bem governar outro qualquer estabelecimento, precisam-se neste os seguintes: 1.° — verdadeiro conhecimento dos costumes chineses, para não os afrontar; 2.°-consumada prudência para tolerar o desaforo de quem sofre e sustenta homens estranhos em sua terra; 3.° – manter poucos e bons soldados, isto é, robustos e bem disciplinados. Em outro qualquer lugar, seria conveniente um corpo respeitável pela força bruta: em Macau torna-se prejudicial, já pela maior despesa, com que a cidade não pode, já para não ferir o orgulho dos chineses.
É irrisório ver o chefe de duzentos canarins, estacionado nas portas do mar (2) do império chinês, provocar a ira de cento e cinquenta milhões de tártaros à frente de duzentos milhões de chineses. O ministério português esteve sempre vendado acerca deste nosso estabelecimento. Os capitães gerais, não satisfeitos com os antigos privilégios, pediram à Senhora D. Maria I providências para si, e foram-lhe remetidas pela ignorância (em matérias de governo) do bispo confessor, e de Martinho de Mello, que, pouco tempo antes, havia deixado a patriarcal.
Macau é dependente dos chineses por muitas razões: a mais essencial é não produzir alimento algum para sustentar-se. Bastará saber-se que, não tem pasto para duas vacas, nem possui uma só embarcação de pesca. Também não é pequena dependência não poderem seus habitantes renovar uma telha da sua casa sem licença do mandarim, em virtude de não haver em Macau, pedreiro, carpinteiro, ferreiro, etc., que não seja chinês: e estes não trabalham em casa portuguesa sem licença do mandarim.
Acresce a isto, não haver nesta cidade padejo, mercearia ou taberna que não seja dos chineses: os donos, e os artistas, ao verem afixar um edital em nome do imperador para que deixem a cidade, bastam vinte e quatro horas, para de dezoito mil chineses não ficar um em Macau.
Que fará neste caso o capitão-geral? Onde irá buscar alimento para quatro mil e quinhentas pessoas? (3) Que recurso fica ao provocador? Pedir misericórdia, por via do Senado, ao vice-rei de Cantão, a fim de não perecerem à míngua de alimento.
Assim, vês que o governo desta cidade exige muitos conhecimentos especiais e grande prudência. Em todas as épocas anteriores, quem pôs Macau no risco de perigar foram os capitães-gerais, e quem o salvou foi o Senado; isto é, foram os conhecimentos especiais e a prudência dos cidadãos macaenses.
A parte mais essencial deste governo consiste em conservar amizade franca e sincera com as autoridades chinesas e não quebrar as leis do império em relação com a cidade: este requisito é de fácil desempenho ao Senado, já por ser o procurador considerado como autoridade chinesa, já por serem os vereadores os mais interessados na propriedade do estabelecimento.
O capitão-geral deve ocupar-se na disciplina dos soldados, e no emprego deles, em virtude de ordem emanada do Senado. Presida a ele muito embora, quando ali se tratar de negócios políticos, tenha um só voto, pois tem uma só cabeça: seja esse emprego conferido ao capitão-geral como são todos os mais do reino; porém, tenha o Senado faculdade para o demitir, quando abusar da força que se lhe entregou ou infringir as leis: fique o
Senado responsável se a demissão não tiver a razão e a justiça por fundamento.
A Ouvidoria não é agora mais precisa do que em 1588, época em que os macaenses pediram a Filipe II a sua extinção; graça que só vieram a obter no reinado do Sr. D. João IV, no ano de 1642. Haja na cidade um juiz de direito, mas sem ingerência na administração dos fundos públicos. Governe o Senado da Câmara por suas leis, anteriores às providências de 1784, enquanto o poder legislativo não fizer outras melhores.
Oxalá o governo de Portugal chegue a conhecer e a ordenar o que muito convém a este nosso estabelecimento; isto é, a conceder-lhe o que seus moradores pediram em 1821 ao Sr. D. João VI: 1.° a sua forma de governo antigo, acomodado à doutrina da constituição moderna; 2.° a dissolução do batalhão, substituindo-lhe a guarda antiga; 3.° a suspensão das despesas feitas com Timor e Goa (4); 4.° preferir nos empregos militares e civis, os portugueses casados ou nascidos em Macau (5).
Com esta reforma, discutida, votada e pedida pelos mais conspícuos cidadãos macaenses: Pereiras, Paivas, Almeidas, Pegados, Limas, Sarros, Marques, Georges, Cortelas, Figueire­dos, Lemos, e outros, entraria de novo em Macau a paz e a fortuna que dele fugiu há vinte anos. O desgoverno de Portugal, chegando a este país, motivou, além de outros males, emigrações que levaram consigo grande parte da fortuna pública.
A nenhum outro estabelecimento português é mais bem aplicada a epígrafe desta carta do que aos beneméritos e fiéis macaenses. Camões, em seus versos, fala com experiência adquirida entre eles. Tive a satisfação de fazer os apontamentos para esta carta sentado na gruta onde o nosso poeta compôs os Lusíadas.

(1) Chi-Tsoung foi quem cedeu Macau aos portugueses em 1557. Mo-Tsoung, que reinou de 1567 a 1572, conservou aos portugueses a posse que lhes dera seu pai. Chin-Tsoung, filho de Mo-Tsoung, foi quem deu o grau de mandarim ao procurador da cidade em 1584 e o referido decreto em 1614.
(2) Macau, no idioma chinês, significa: portas do mar
(3) Pelo último censo havia em Macau: europeus e mestiços … 1.620
Mulheres cristãs de várias raças e cores … 2.700
Soldados canarins …180
Total dos cristãos … 4.500
Chineses, dos dois sexos, residentes em Macau … 18.000
Total dos habitantes desta cidade … 22.500
Alguns escritores elevaram a sua povoação a mais de cinquenta mil vizinhos: enganaram-se.
(4) Colónias que não rendem para si, devem abandonar-se a seus recursos. Quando não, pagam assim os que têm virtudes para nutrir viciosos.
(5) Em 1835 eram ainda constantes no seu pedido.

Sobre Macau, José Ignacio de Andrade foi ainda autor do livro "Memoria dos feitos Macaenses contra os piratas da China: e da entrada violenta dos Inglezes na cidade de Macáo. & Segunda parte: Invasao das tropas Inglezas em Macáo e sua retirada." A segunda edição foi feita em Lisboa por A.C. Dias em 1835.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Emissão filatélica "Fortalezas de Macau"

3 de Outubro de 1986 foi o 1º dia de circulação da emissão filatélica "Fortalezas de Macau" pelos Correios e Telecomunicação de Macau. Selos com valor facial de 2 patacas.
Os desenhos das fortalezas de S. Paulo do Monte, Taipa, S. Francisco e Nossa Senhora da Guia são da autoria de Luíz Duran que foi autor de outras emissões em Macau.
Folha de 16 selos

Nesse ao comemorava-se o 10º aniversário das FSM. Um texto do Coronel José Eduardo C. de Paiva Morão, 2.º Comandante das Forças de Segurança de Macau, enquadrava assim este emissão filatélica:
"As Forças de Segurança de Macau (FSM) foram criadas em 1 de Janeiro de 1976, por Decreto-Lei do extinto Conselho da Revolução na fase de reorganização das forças militares e militarizadas e de outros órgãos de Segurança de Macau, visando uma maior eficiência na salvaguarda dos bens colectivos e privados, na garantia de segurança pública de defesa civil contra calamidades e na contribuição para o progresso e desenvolvimento social e económico da população de Macau. As FSM compreendem além do Comando e Quartel General, as seguintes Corporações: Polícia de Segurança Pública, Polícia Marítima e Fiscal, Corpo de Bombeiros e Polícia Municipal. Dispõem ainda de um Centro de Instrução Conjunto.
As FSM herdaram as tradições históricas das Instituições Militares Portuguesas, as quais, estiveram nos finais do século XVI na origem da construção das primeiras fortificações permanentes em Macau destinadas à protecção das populares e do comércio local em especial das acções da pirataria marítima.
No início do século XVII, os ataques desencadeados pelos holandeses levaram à construção do primeiro sistema de defesa para a cidade que incluía fortalezas, fortes, outros recintos abaluartados e muralhas que abrangiam toda a orla marítima e que visava especialmente a detenção dos ataques provenientes do mar. O conceito de defesa mantem-se inalterável até meados do século XIX, altura em que o esforço defensivo foi orientado para as acções ofensivas provenientes de terra, sendo então construídos os fortes dos locais dominantes de interior da cidade. É ainda deste período a construção das fortalezas nas ilhas. Finalmente, já no século XX o sistema de defesa incluiu a construção de galerias, de instalações subterrâneas de comando, observação e controlo de tiro e paióis e ainda de novas posições, nos pontos dominantes da cidade, tendo em vista a defesa em todas as direcções."

terça-feira, 21 de março de 2023

"Hotel Kuok Chai também conhecido por Grand Hotel"

Ao fim de quase 30 anos ao abandono o antigo Hotel Kuok Chai/Grand hotel deverá reabrir no próximo mês de Agosto, depois de ter sido comprado por empresárias de Macau há poucos anos. Segundo a edição de hoje do Jornal Tribuna de Macau o agora denominado Grande Hotel, de duas estrelas,  "ocupa 10 pisos, disponibilizará 96 quartos e acolherá alguns espaços comerciais que poderão ser lojas de lembranças locais, de obras artísticas ligadas a Macau ou até um museu."
Foto de 1945

O hotel foi inaugurado a 7 de Março de 1941 (sexta-feira) sendo na altura o edifício mais alto do então império colonial português. Tinha 11 andares e ficava no fim da avenida Almeida Ribeiro (San Ma Lou) junto ao Porto Interior. Rivalizava em altura com o mais 'velhote' Hotel Central, que inicialmente teve menos pisos, mas que em 1942 passaria a ter nove.
Foto Fabricio Croce

A sua localização junto às pontes-cais do Porto Interior visava ir de encontro à principal porta de entrada dos turistas em Macau até à década de 1960. O público-alvo era a população chinesa.
Tinha três designações: Grande Hotel (português), Grand Hotel (inglês) e Kuok Chai (Tai Chan Tim), em chinês -國際大酒店. Ao total tinha 97 quartos, salão de dança no 1º andar, cabeleireiro e salão de chá no último andar - chegava-se de elevador - onde a vista sobre a cidade e as ilhas em redor, nomeadamente a Lapa, era de cortar a respiração, segundo relatos da época.
Na inauguração esteve presente o Governador de Macau, Gabriel Maurício Teixeira, e Sir Robert Ho Tung, que se deslocou de Hong Kong expressamente para o efeito.
Publicação do final da década de 1950

O hotel pertencia à família Fu que detinha na altura o monopólio do jogo. Foi projectado pelo engenheiro civil macaense João Canavarro Nolasco e Chan Kwan Pui em 1937 e construído pelo empreiteiro Tai Man Hou. Para a época apresentava linhas modernas características da corrente art deco: "O edifício articula‐se a partir de um corpo central, constituído pela torre que se estende a uma altura equivalente a 12 pisos (ca. 40 metros). De cada lado da torre, sobressai o corpo dos quartos que parecem suspensos na fachada."
A empresa que o explorou foi a Heng Vo, sociedade por cotas criada na altura com o capital social de cem mil patacas, divididas em partes iguais pelos dois sócios: Fok Pen Heng e Ung Heng Ip. Estava encerrado desde 1996.

Documento de Fevereiro de 1941

segunda-feira, 20 de março de 2023

"The city of calm and of the past"

"All Round the World: An Illustrated Record of Voyages, Travels, and Adventures In All Parts of the Globe with two hundred illustrations" é o longo título de um livro cuja primeira edição data de 1860, em Londres, da autoria de William Francis Ainsworth (1807-1896), cirurgião, geógrafo, geólogo e viajante britânico.
O livro é composto por quatro volumes e foi publicado ao longo de vários anos. William Ainsworth viajou por várias partes do mundo mas não por todas as que se referem no livro, tendo recorrido a relatos de outros viajantes para esta compilação de viagens pelo mundo.
Macau surge no primeiro volume ("First Series"), entre as páginas 91 e 99 incluindo duas ilustrações assinadas por um dos vários desenhadores que assinam as centenas de gravuras dos milhares de páginas deste livro. Entre eles estão Gustave Dore, Bayard e Jules Noel.
Macau está 'dentro' do capítulo intitulado "China, Cochin China and Japan". Para além de algumas informações de carácter histórico e geográfico do território em meados do século 19, destaque ainda para a descrição detalhada do assassinato do governador Ferreira do Amaral em Agosto de 1849, o Jardim de Camões, na época ainda propriedade privada, o cemitério dos parses, o Porto Interior, o Templo da Barra, etc...
"(...) Macao. We leave Hong Kong as quickly as any man should do who has no business to keep him there and taking the steamer a pleasant voyage of thirty miles the last four of which is through shallow water arrive at the Praya Grande the celebrated promenade and landing place seep to the quaint old settlement of the early Portuguese kings Macao This voyage short as it is and through a narrow sea as crowded as the Thames was not until the present year secure from disorderly roving bands of Chinese seamen and boatmen who organise themselves into fleets as pirates and way lay vessels not even excepting the passage steam boats one of which The Queen it will be remembered that they captured and murdered all the foreign passengers.
The first thing an European landing at Macao in olden times did was to go and see the Chinese Pagoda at the Rocks. He could wend his way there and back in a tanka or native boat or he could stroll there by the sea side. Now we can visit pagodas of far more imposing aspect and dimensions; nay, we even meet one that far surpasses it on his way the great Pagoda of Singapore. But if the temple Macao is poor and badly kept its position is picturesque. The inner harbour with its legion of junks and tankas lies at its feet above it are huge blocks of granite and secular trees whose vigorous roots fasten in the crevices while close by are kiosks and little oratories in honour of inferior divinities. On the portico is a great junk painted in red and there is an inscription in Chinese on the neighboring rock. The air of respectable antiquity presented by the old Portuguese settlement of Macao is refreshing after the parvenu character with which its ostentatious magnificence invests Hong Kong.
The narrow streets and grass grown plazas the handsome facade of the fine old cathedral crumbling to decay the shady walks and cool grottoes once the haunts of the Portuguese poet, his tomb, and the view from it all, combine to produce a soothing and tranquilising effect. Hong Kong represents the commercial and political movement of the present. Macao is the city of calm and of the past.
The time is gone by when the intrepid Portuguese navigators dominated in these seas. Their degenerate descendants are now reduced in order to obtain a livelihood to seek for employment in the great English or American houses. The bright day for Portugal is gone by and fickle fortune rallies under other standards.
If the colony passes by chance into the hands of a man of genius like Amaral, he is assassinated by the emissaries of the mandarins, and if the Court of Lisbon bent upon avenging the outrage despatches its best frigate to the Chinese seas it is blown up in the very harbour of Macao by a reprobate who gluts his vengeful fury for a slight punishment by the destruction of 300 of his countrymen!
Amaral, a captain in the Portuguese navy, had displayed so much energy and abilityas Governor of Macao as to have drawn upon himself the most malevolent feelings of a reprobate race of people and mandarins He had defeated organized bands of robbers on several occasions and visited piracy with condign punishment A price had in consequence been set upon his head but the brave old captain who had lost one arm in the service of his country disdained to take any precautions. Every evening he used to ride out accompanied only by his aide de camp and with only a brace of pistols in his holsters. On the 22nd of August 1849 he was returning from his usual ride at sunset when a number of Chinese suddenly presented themselves to obstruct his progresso. A child who carried a bamboo to the extremity of which it appeared as if a bouquet had been attached moved out from the crowd towards the Governor Amaral thinking that he came to present a petition was about to stoop when he felt himself struck violently on the face. Manto, rascal! he exclaimed and pushed his horse on as if to punish his assailant. But at the same moment six men rushed upon him whilst two others attacked his aide de camp.
The assassins drew from beneath their garments their long straight and not very sharp swords generally used by the Chinese and repeatedly struck the governor with these upon his only arm. Taking the bridle in his teeth Amaral made vain efforts to get at his pistols. Attacked on all sides and covered with wounds he was soon struck down from his horse when his murderers throwing themselves upon him tore off his head rather than out it off and added to their horrid trophy the only hand that remained. This accomplished they fled into the interior the Chinese soldiers who were on duty at the town gates close by witnessing the tragedy without condescending to interfere In the meantime the terrified horse had galloped into the town without a master the first who saw it felt that an accident had happened and hastened towards the gate but on their way they were met by the aide de camp who had only received some slight wounds and whose torn habiliments and expression of horror told too plainly of the sad event which was soon confirmed by the discovery of the unfortunate old Governor's mutilated remains.
The neighbourhood of Hong Kong takes from Macao almost all its advantages as a free port add to which the sea is daily invading its harbour as it does the whole of the right shore of the Canton river Vessels of considerable tonnage are obliged to anchor a mile or two from the harbour and only small gunboats can lay off the quay of Praya Grande. Nevertheless Macao notwithstanding its decline is not wanting in claims to interest the claims of memory more especially .
This town was for a long period of time the sole centre of the relations of Europeans with the Chinese. Camoens, Saint Francois Xavier and other great men have lived there. Its churches, its convents, its public monuments dark with age attest of splendour long gone by.
The garden of Camoens is in the present day private property; it belongs to a Portuguese gentleman of the name of Marques who allows strangers to saunter beneath shady recesses so rare in China. Within this garden is the celebrated grotto where the poet is said to have in main composed his Lusiad Quotations from that immortal epic are now cut into the marble and what is more delightful to French visitors some Gallic verses in honour of the poet and the locality.
The inner port can be contemplated from a terrace in this garden as from the Pagoda of Rocks with a less oppressive noise the shouts of the tnnkaderes or boatmen and boatwomen and terrible gongs heard assiduously beaten to drive away the evil spirits a junk about to proceed on its journey come softened by distance.
The Parsees have a cemetery that rises in steps or terraces above the sea and this with the Portuguese forts built like eagles nests the so called Green Island the narrow strip that encircles Macao to the main island and the wide extent of the Celestial Empire beyond fill up a picture that is not easily forgotten by those who have once seen it. We wandered about this splendid relic of gaiety and wealth now a disjointed collection of deserted palaces haggard boat women ugly dames of Portuguese descent with handkerchiefs pinned over their faces long narrow alleys decaying churches walks parades gardens forts all corroded by time.
From the top of a great stone arbour in the old palace garden we had a fine view the old town and both harbours the inner and the outer. We came back through the Chinese town where with restless activity mechanics were working at their respective trades. Shopmen were doing a thriving business while barbers never were busier and your barber is an important personage here as elsewhere as such a man needs must be where every man has his head shaved twice a week.
No Chinaman uses anything but hot water his razor is onlytwo inches long by an inch wide which is sold for twopence and the strop a piece of stout calico may be had for a penny. See here the sallow Chinaman stretched at full length in an easy chair is enjoying his shampooing and pommellings. Shaving the head costs half n farthing yet there are seven thousand barbers in the city of Canton only. To which city we will now go steaming on as fast as the crowd of boats will let us. (...)

Nestas cerca de 10 páginas o 'retrato' de Macau é feito por um oficial da armada britânica por volta de 1859. Não se refere o nome embora nas muitas e longas notas de rodapé surjam nomes como Robert Fortune, um botânico, e George Wingrove Cooke (1814-1865), formado em direito e história que durante a Segunda Guerra do Ópio foi correspondente (jornalista) do jornal The Times (1857)
As ilustrações têm como título: The Landing Place at Macao e The Pagoda of the Rocks at Macao, representando o Porto Interior na zona do Pagode da Barra.