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sexta-feira, 30 de março de 2012

Alfredo Alves da Silva: militar no início do século XX

Vista a partir do Monte da Guia ca. 1900



Na primeira estada em Macau em 1901
Segundo José Manuel de Oliveira Vieira, "Durante o serviço militar, o Combatente Alfredo Alves da Silva, esteve de 1900 a 1901 em Expedição a Macau e em Comissão na mesma província de 1905 a 1907. Em 1908 esteve 144 dias na Guiné. De 1915 a 1916 fez uma Expedição a Moçambique. De regresso ao Reino, Alfredo Alves da Silva parte em Expedição para França, onde permaneceu de 26 de Setembro de 1917 a 19 de Março de 1919. Já fora das fileiras, Alfredo Alves da Silva, dedicou-se ao associativismo. Parte do seu tempo (faceta pouco conhecida) foi compor músicas para violino, que seu filho Henrique Santos Silva, distinto Maestro do Orfeão Abrantino tão bem soube interpretar." (...)
"A Unidade a que pertencia em Abrantes era o Grupo de Artilharia e deste saiu a Artilharia de Montanha, onde o Sargento Silva estava integrado. Na lapela das fardas são visíveis as “bombardas”, símbolo da artilharia. Em Macau era Segundo Sargento da “Artilharia Expedicionária." 

Na Gruta de Camões em 1906. Fotografia de Man Fook. No verso na fotografia (emoldurada) pode ler-se:  Wen Man Fook Photographer Painter Portraiture Enlargement in all styles Nº 1 Rua da Cadeia, Macao. Antes este fotógrafo estava no Largo da Caldeira, no Porto Interior. A Rua da Cadeia já não existe sob este nome, mas sim sob a designação Rua do Dr. Soares.
A primeira viagem até Macau deve ter sido no âmbito do Corpo Expedicionário criado em Portugal e enviado para Macau para a defender o território da eventualidade de um ataque chinês a propósito da chamada "guerra dos boxers".
A. A. da Silva - sócio nº 133 da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes - deixou um diário sobre a campanha em África e em França durante a primeira guerra mundial. José Manuel de Oliveira Vieira (a quem agradeço algumas das informações prestadas bem como as imagens) tem-se dedicado à análise desse espólio raro.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Paquete "Índia": anúncio de 1952

Anúncio publicado no Diário de Lisboa em 1952
A inauguração desta rota da CNN realizou-se em Abril desse ano com a visita do Ministro do Ultramar - Sarmento Rodrigues - à Índia, Timor e Macau onde chegou em Junho. Em rigor, o Índia ficou atracado em Hong Kong, já que o calado não permitia uma ida a Macau. Daí saiu a fragata Gonçalves Zarco na época de serviço naquelas águas e levou o ministro.
Era esta a rota na década de 1950: (ida) Port Saíd, Port Sudão, Mormugão, Colombo, Goa, Singapura, Hong Kong, Macau. (volta) Manila, Singapura, Colombo, Cochim, Mormugão, Port Sudão, Port Saíd e Lisboa.
Nos anos 60 fazia este percurso: Lisboa, Port Said, Suez, Aden (opcional), Singapura, Hong Kong, Macau, Dili, Singapura, Porto Amélia (opcional), Nacala (opcional), Moçambique (opcional), Beira, Lourenço Marques, Lobito (opcional), Luanda (opcional), Lisboa. 
Funcionou até 1971 altura em que o navio foi vendido à Tailândia, talvez por ser presença habitual nos portos do Extremo Oriente.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ciclo de tertúlias: Macau e as festividades tradicionais

"Evocamos uma festividade, revemos imagens antigas, relemos textos, partilhamos memórias." Será este o mote para o ciclo de tertúlias que a Fundação Casa de Macau agendou para os próximos meses, até Outubro. Sempre ao final da tarde (18 horas), na primeira terça-feira de cada mês e ao sabor de um chá chinês.
Programa: 
Abril - «Ching Ming» 
(devido à semana Santa, realiza-se a 10 de Abril)
Maio - «Tin Hau»
Junho – «Dragão embriagado»
Julho - «Barcos Dragão»
Setembro - «EspíritosFamintos»
Outubro - «Bolo Lunar»
Praça do Príncipe Real, 25 - 1º, Lisboa.
Agradece-se confirmação pelo e-mail fcmacau@netcabo.pt

terça-feira, 27 de março de 2012

Bife "Amalo" no Fat Siu Lau

O Fai Siu Lau é um dos restaurantes mais antigos (desde 1903) de Macau. Actualmente julgo que existem três: rua da Felicidade, Porto Interior e Taipa. Isto muitos devem saber o que poucos conhecem é a história de um dos pratos deste restaurante de comida portuguesa e macaense... o bife "amalo", que ainda hoje pode ser 'visto' na ementa.
Hás uns tempos ouvi uma versão que envolvia um 'tal' de tenente Amaro, alto quadro do governo de Macau que nos anos 60 seria frequentador assíduo do restaurante. Este tenente era o marido - já falecido - da Prof. Ana Maria Amaro.
Contactei-a para averiguar a veracidade da história. A prof. muito amável não a confirma. Mas a sua explicação ajuda a esclarecer o mistério. Ora leiam e fiquem a saber as origens deste bife "com o molho mediterrânico de alho e especiarias"...
Na década de 1980
"Eu e o meu marido só fomos uma vez ao Fat Siu Lau a um banquete de casamento. Regularmente comíamos em casa, principalmente, depois de termos uma empregada chinesa. Antes disso almoçávamos e jantávamos no Clube Militar. (...)
No dia em que chegámos, com o tufão Glória a partir fomos para o Hotel Riviera mas como o dinheiro de que dispúnhamos era pouco indicaram-nos a nosso pedido o Clube Militar como local mais indicado para jantarmos. Nesse jantar foi servido um prato muito estranho que parecia fatias de cobra fritas. Era frango fatiado incluindo a coluna vertebral. Porém, como é óbvio, eu tinha ouvido dizer que os chineses comiam cobra e não jantei. E tão cedo não me apeteceu muito voltar a comer no Clube Militar. Isto até me explicarem e eu perceber o que era aquela "iguaria". Algumas vezes fomos ao restaurante Belo onde havia um belíssimo arroz de frango e um chao min tostado muito bom. Também fomos aos restaurantes de vários hotéis mas não frequentávamos o Fat Siu Lau. (...)
Havia na polícia de Macau um guarda português de nome próprio Amaro e talvez fosse esse o "comedor" dos tais bifes. O meu marido nem apreciava muito carne vermelha. Havia em Kau Long um restaurante chinês que servia uma belíssima sopa que o meu marido muito apreciava. Nós íamos muitas vezes a HK e, naturalmente, a KL; obrigatoriamente ao tal restaurante. O empregado chinês, quando nos via chegar, trazia a lista e dizia muito contente: " I know! Amaro soup!". 
Informações adicionais sobre este restaurante aqui:
http://macauantigo.blogspot.com/2009/04/restaurante-fat-siu-lau-desde-1903.html
Moral da história:
O tal polícia de nome "Amaro" era frequentador habitual do Fat Siu Lau e pedia o bife à sua maneira.. com muito alho e especiarias. Foram tantas as vezes que lá foi que o bife acabou por fazer parte da ementa. E depois, já se sabe, a dificuldade dos chineses em pronunciar o 'r'. Assim, "Amaro" virou "Amalo".
Por fim, acrescento um outro elemento que pode apontar para um outro "Amaro" (ou até o mesmo). Numa fotografia de 1943 de um grupo de militares recrutados em Macau aparece o nome de um soldado Amaro. Ora como era habitual os militares depois de terminarem o serviço militar seguirem carreira na PSP, pode (também) estar aqui mais uma pista para desvendar o mistério do 'tal' Amaro. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Troço da Av. Inf. D. Henrique: 1962-64

Av. Infante D. Henrique ca. 1962-64
Liceu à esq. vendo-se ainda parte do ginásio; ed. D. Leonor ao centro; Campo dos Operários à dta. Foto - cedida por JD - tirada de onde viria a ser a entrada para o casino do hotel Lisboa inaugurado em Fev. de 1970.

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Macau Antigo" no Hoje Macau de 23 de Março 2012

"O blog Macau Antigo fez quatro anos. Desde o seu nascimento, cresceu exponencialmente, constituindo hoje uma das mais importantes referências culturais da iconografia de Macau. O seu autor, João Botas, garante que é para continuar."
Carlos Morais José

A fotografia onde estou é da autoria do João Cortesão e foi feita em 2010 na Delegação do Turismo de Macau em Lisboa para um artigo da revista Macau. A entrevista é do Carlos Morais José.

Excertos da entrevista:
Como nasceu este blog?Tudo começou aquando das pesquisas para o livro que escrevi sobre a história do Liceu de Macau editado em 2007. Deparei-me então com inúmera documentação que não sendo apropriada para o livro achava um 'crime' pura e simplesmente ignorá-la pelo que resolvi partilhá-la. A internet pareceu-me a plataforma mais adequada para o fazer. E foi uma agradável surpresa constatar a forte adesão ao blog desde o início.Tenho ainda um pequeno blog dedicado aos Antigos Alunos do Liceu de Macau onde vou fazendo revisões e actualizações ao livro e que serve também como uma forma de nos irmos juntando de vez em quando. No "Macau Antigo" privilegio os elementos iconográficos e as pequenas histórias ou curiosidades que fazem a História.

Como tem sido a recepção dos internautas?Para responder a esta pergunta comecei pelo seguinte exercício. 'Googlei' na net a expressão "Macau Antigo" e o resultado foi este. Cerca de 1.230.000 resultados em 0,49 segundos com o endereço do blog em primeiro lugar. Em cada post há um espaço próprio para os leitores colocarem os seus comentários mas há também uma página autónoma dentro do blog onde vou colocando as reacções de quem 'navega' no blog e me faz chegar o feedback por correio electrónico. O melhor é passarem por lá, lerem e tirarem as vossas próprias conclusões.
 
Tem sido difícil arranjar apoios para este projecto?
Não quero patrocínios, quero parceiros. Instituições que se envolvam no projecto. Tenho praticamente desde a primeira hora o Turismo de Macau e o Instituto Internacional de Macau. Já tive a Casa de Macau em Portugal e o Museu do Oriente que entretanto saíram. Amigos como dantes. Continuam a ter o mesmo tratamento ao nível dos conteúdos. São apoios simbólicos que ajudam a custear as despesas: acesso internet, deslocações a arquivos e bibliotecas, digitalizações, etc. Ainda recentemente fui sondado pelo Instituto Cultural de Macau. Se não acontecer, não faz mal. Não é isso que me move. Mais do que o aspecto financeiro, para mim, ter parceiros significa que alguém que é exterior ao projecto reconhece-lhe qualidade. Este tipo de projectos na internet nasce e morre de um dia para o outro. Difícil é mantê-los. Muitos ou fazem coisas a pensar no umbigo ou deslumbram-se e acabam por se queimar na 'fogueira da vaidade' deixando-se toldar por um pretenso sucesso. Espero não ser nenhum desses exemplos. Acredito no trabalho e na perseverança.

Pode revelar-nos algumas estatísticas do seu blog, nomeadamente quais os países que mais o visitam?
Formalmente iniciei o blog no final de 2008 mas só a partirde Março de 2009 é que começou a funcionar de forma regular. Desde então já teve cerca de 400 mil visitantes (ou pageviews para ser mais rigoroso). Ora, feitasas contas, dá uma média diária de 300 visitantes e uma média mensal a rondar os10 mil. Os números falam por si. Leitores registados são 154 nesta altura. Origem dosvisitantes (por ordem decrescente): Portugal, Macau/China, Hong Kong, Brasil, Canadá,EUA, Austrália, Reino Unido, Alemanha, França, Moçambique, Angola, Cabo Verde. É, de alguma forma, o espelho da Diáspora macaense.

Finalmente, por que razão se entregou a esta “missão”? É para continuar?
Como já disse antes, achei que deveria partilhar a documentação que tinha e que achava poder ter interesse para mais pessoas e, pelos vistos, não me enganei. E também pelo que 'afirmei' desde a primeira hora. Para contrariar aquilo que me parece continuar a ser o estado das coisas dos portugueses de Portugal sobre Macau, desconhecimento e desinteresse. É para continuar, claro. Já é, muito provavelmente, o maior acervo de textos e imagens da História de Macau disponível de forma gratuita. E vai continuar a ser. Se há mérito que este projecto possa ter, será o de resgatar das gavetas e dos baús documentos que fazem a história do território, em especial, a do século XX, e que os historiadores dentro de alguns anos vão agradecer ter ali uma fonte quase inesgotável de material. E esse mérito é de todos os que colaboraram directa e indirectamente no blog "Macau Antigo" com especial destaque para os que lá nasceram e/ou moraram e os que, como eu, ficaram com Macau 'no coraçom'. Vivi a juventude em Macau pelo que muito do que sou foi aí moldado embroa nessa época não estivesse disperto para a história do território. Talvez por ser muito novo. Mas algo ficou... Nesse tempo a fonte do Lilau já não existia pelo que não bebi dessa água, mas Macau ficou-me no sangue e na alma e isso não se explica. É uma experiência que cada um que por aí passou vive à sua maneira. Considero-me um filho da terra adoptivo e enquanto puder darei o meu contributo para perpetuar no tempo a história dessa terra que é de todos os que a fizeram: portugueses e chineses maioritariamente, mas também muitos estrangeiros. Perceber o significado de amálgama, simbiose, coexistência... é meio caminho andado para entender Macau.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Povoações da Barra e do Patane: 1868

A 24 de Fevereiro de 1868 o Boletim da Província de Macau e Timor escreve:
"Em Macau o aterro do rio, para o lado da Barra, acha-se já unido ao aterro do Pagode chinez, de sorte que hoje as povoações da Barra e Patane se acham em comunicação pela estrada marginal."
Largo do Pagode do Patane - Templo Tou Tei - Foto de Lei iok Tin em 1949
Segundo Luíz Gonzaga Gomes o bairro do Patane estava dividido em duas áreas: Sá Lei T'âu (Cabeça de Pêra), "que abrange o emaranhado labirinto de travessas, calçadas, becos e pátios que existem nas ruas da Pedra, da Palmeira e da Ribeira do Patane" e a de Sân K'iu, onde "se entrecruzam as ruas da Espectação de Almeida, de Corte Real, do Capão, da Erva, da Barca, de Inácio Pessoa, de Marques de Oliveira, da Alegria, de Martinho Montenegro e a Estrada do Repouso".
Sân K'iu era um terreno baldio constituído por "esteve, urze e quejandas plantas agrestes". Daí que na zona as ruas se denominassem, por exemplo, rua da Erva e rua de Entre-Campos. Por aqui passava uma ribeira, a chamada Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu que tinha uma ponte construída em bambú. Em cantonense chamava-se Kók Kiu ou Ponte Sinuosa. A ponte há muito que deixou de existir mas para memória futura ficou a designação toponímica a relembrá-la... a Travessa da Ponte. Há ainda a rua da ribeira do Patane.
Templo da Barra

terça-feira, 20 de março de 2012

Correios no Largo do Senado ca. 1930

Um selo da década de 1930
O edifício dos Correios é uma projecto da autoria do arquitecto Chan Kun Pui que trabalhava na Repartilção das Obras Públicas. Foi construído entre 1928 e 1931 ano em que foi inaugurado. A inscrição romana na fachada assim o indica. Nessa década deu-se uma grande evolução na história dos CTT no território. Está classificado como "edifício de interesse arquitectónico". A história dos correios em Macau começa em 1884...
"Estava na forja a construção doutro edifício considerado imponente: o dos Correios e Telégrafos no Largo do Senado, considerado na altura majestoso e pleno de modernidade. Ninguém apontou, então, que o seu perfil pesado, sem estilo arquitectónico definido, iria contrastar com a fachada do Leal Senado, nem com outros edifícios do largo, todos cheios de arcadas e varandas, duma airosidade que só agora se reconhece".
Henrique de Senna Fernandes in RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, 1994
Veja este mesmo espaço - e outras paisagens de Macau - na década de 1960 aqui

segunda-feira, 19 de março de 2012

Restaurante "Macau" na rua Barata Salgueiro

Antes da 'invasão' dos restaurantes chineses, na década de 1960 o restaurante Macau no nº 26 da rua Barata Salgueiro, Lisboa (junto à Cinemateca) era o único de comida oriental em Portugal. Fotografia de Augusto Fernandes.
Publicidade no Diário Popular ca. 1956
A propósito recordo um excerto de uma entrevista de Pedro Barreiros (nascido em Macau): "Desde muito cedo como, penso, todas as crianças, comecei a desenhar e a pintar. Nos primeiros anos do Liceu conheci um pintor chinês que tinha vindo decorar as salas do Restaurante Macau, o primeiro, uma linda moradia na esquina da Barata Salgueiro com a Avenida da Liberdade. Fascinado a vê-lo pintar, aprendi com ele a desenhar com o pincel, e foram em estilo chinês os meus primeiros trabalhos de pintura..."

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mais um ano...

Molhe no Porto Exterior na década de 1960
Como o nº 4 é de mau agoiro na cultura chinesa, prefiro dizer que este projecto vai agora a caminho do 5º ano de vida. Aqui ficam alguns dados estatísticos e o agradecimento aos leitores e mecenas do projecto. Hou To Ché Nei!
- ca. de 2000 post's
- mais de 20 mil imagens
- quase 400 mil pageviews
- 153 leitores/seguidores
- centenas de comentários
"La force d'une nation ne consiste seulement dans son territoire, mais dans son histoire, son passés et ses souvenirs." Thiers
Arco comemorativo na década de 1960. Provavelmente no dia 24 de Junho, o dia da cidade. Foto de JD.
PS: para assinalar o centenário do nascimento de Monsenhor Manuel Teixeira, a partir de 15 de Abril - e até ao fim desse mês - todos os posts serão dedicados a esta figura maior da história de Macau.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gems of the Orient: music by P. J. Lobo

Este é o título de um conjunto de três discos vinil LP's de 78 rpm gravados a título privado por Pedro José Lobo nos estúdios da EMI em Londres entre 1951 e 1955.
1- At Dawn melody (Dr.P.J.Lobo) - Pianoforte solo by Sergio Varella Cid; 2- Smiling Pet-Polka (Dr.P.J.Lobo) Silva Pereira (Violin)/Sergio Varella Cid (Piano); 3- In no man's land-Serenade (Dr.P.J.Lobo)-Silva Pereira(Violin) -Sergio varella Cid (Piano); 4- Pretty Smile-Melody- (Dr.P.J.Lobo)-Silva Pereira (Violin)-Sergio Varella Cid (Piano); 5- Butterfly) Sung by Owen Catley-Orchestra conducted by Philip Green; 6- Kiss me dear(Dr.P.J.Lobo) - Sung by John Hanson-Orchestra conducted by Philip Green.
Não sei se Pedro Lobo participou nas gravações. Certa é a presença do famoso pianista português Sérgio Varella Cid (1935-1981) - e com uma vida ainda mais recheada de peripécias que a do próprio Pedro Lobo e que na época vivia em Londres -  e do violinista Silva Pereira. As músicas são todas da autoria de Pedro Lobo. A maioria são instrumentais.
Casa de Pedro Lobo na década de 1950
Durante as décadas de 1940-50, antes de Stanley Ho aparecer em cena, o homem-forte de Macau foi Pedro José Lobo. Multifacetado, tinha tanto (ou mais) jeito para os negócios (fundou a Matco, Macau Aerial Transport Co. em 1948, na sequência do fim da carreira da Cathay Pacific com os aviões Catalina) como para a cultura (fundou o Círculo Cultural de Macau, Rádio Vila Verde). Era ainda um apaixonado pela música. Escreveu várias obras. Foi considerado o homem mais rico do Extremo-Oriente, sendo a base da sua fortuna o comércio de ouro. O autor de James Bond, Ian Fleming, visitou Macau em 1959 e entrevistou-o. Diz-se que a personagem "Goldfinger" se inspirava nele.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O "Velho" e o "Zarco"

A propósito das longas comissões de serviço em Macau nos navios na Marinha Portuguesa recordo os últimos 'exemplares' que eram o garante da afirmação da então soberania. E em especial o último navio da Armada que esteve em comissão de soberania em Macau, o "Zarco". Foi há 48 anos...
Gonçalo Velho (frente) e João de Lisboa em 1951 junto às Oficinas Navais em Macau. Foto de Zaida Estrela
Encomendados a um estaleiro de Newcastle, respectiva­mente em Março e Agosto de 1933, os gêmeos “Gonçalo Velho” e “Gonçalves Zarco” navegaram pela primeira vez, desde a velha Álbion até Portugal, onde na sua qualidade de avisos de 2.a classe, foram aumentados ao efectivo dos navi­os da Armada.
Eram exactamente iguais: deslocavam 1413 toneladas no máximo; comprimento de fora a fora de 81,5 me­tros, 10 metros de boca e um calado máximo de 3,3 metros; velocidade máxima de 16,5 nós e 11 nós cruzeiro, a que correspondia uma autonomia de 9830 milhas; as máquinas, dois motores movidos a turbinas, duas caldeiras, com uma potência de 2000 SHP e utilizando combustível fuel-oil; o armamento constituído por três peças de 120 mm e duas de 40 mm; a lotação recomendada de 119 homens.
O “Velho” efectuou quatro comissões de serviço em Macau, entre 1937 e 1954, tendo sido abatido ao efectivo em 1961. O “Zarco” efectuou três comissões de serviço no território, em 1934,1939, e a última entre 1955 e 1964, portanto nove anos, durante os quais passou 17 meses na então índia portuguesa, 20 em Timor e os restantes na Cidade do Nome de Deus e a navegar. Tendo sido o último navio da Armada que esteve em comissão de soberania em Macau, de onde regressou em Maio de 1964, sendo abatido ao efectivo em Novembro desse ano, seria então o navio de guerra mais velho em serviço, em todo o mundo
Guarnição da Gonçaves Zarco: imagens publicadas na edição de
Fevereiro de 1997 da Revista Macau.
O “Gonçalves Zarco”, aviso de 2.ª classe, deixou definitivamente Macau no dia 28 de Março de 1964, "em ambiente festivo que ficou indelevelmente gravado na memória de muitos residentes. Depois dessa data, deixámos de contar com a permanência de navios da Marinha de Guerra Portuguesa, os quais só ocasionalmente visitaram o território, havendo registos da passagem das fragatas “D. Francisco de Almeida” e “Comandante João Belo”, em Fevereiro de 1966 e em Março de 1970; das corvetas “Afonso de Cerqueira” e “Oliveira e Carmo”, em Outubro de 1975 e em Maio de 1976; e do navio-escola “Sagres”, em 1978, 1983 e 1993 (duas vezes)", recorda Jorge Rangel. 
A 16 de Maio de 1964, à chegada a Portugal, o amboente era bem diferente como recordou Eduardo Tomé num artigo publicado na revista Macau em 1997: "A aguadar a tripulação no cais estavam apenas os familiares, nada de entidades oficiais, nem mesmo da marinha, tão pouco a imprensa. Restava-lhes a consolação do dever cumprido e o feito de terem conseguido trazer para Portugal aquela relíquia naval, que, com galhardia, desempenhou durante nove anos consecutivos a última missão de soberania de um navio da Armada Portuguesa, nas águas de Macau e Timor“.
Fragata João Belo em Macau em 1970. Foto António Silva Martins
Aviso “Gonçalo Velho ” (1933 - 1961)
“Foi construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle, tendo sido lançado à água em 3-8-1932 e aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 1-3-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-4-1933 e em 6-4-1933 iniciou a sua primeira missão na costa norte, tendo entrado a Barra do Douro. Em 3-6-1933 iniciou uma viagem ao Algarve, Açores e Madeira. Em 27-6-1934 saíu para a primeira comissão de 6 meses em Angola, a que se seguiu um ano de permanência em Moçambique. Em 12-8-1937 saíu de Lisboa para uma comissão em Macau, de onde regressou em Fevereiro de 1939. Entre Setembro de 1939 e Fevereiro de 1940 esteve em missão de soberania nos Açores e em afirmação da neutralidade portuguesa na guerra. Em 5-5-1940 largou para uma comissão em Macau e Timor, onde permaneceu cerca de um ano. Entre Julho e Dezembro de 1942 efectuou uma comissão em Cabo Verde. Em 17-4-1943 saíu para uma comissão em Cabo Verde, mas seguiu quase de imediato para Moçambique, onde permaneceu cerca de um ano. Em 6-3-1945 iniciou nova comissão de serviço no Ultramar e Extremo Oriente, tendo permanecido cerca de 4 meses, em Moçambique, 11 meses em Macau e 7 meses na Índia. Em 1948 entrou em grandes fabricos em Lisboa e em 26-12-1949 saíu para comissão no Extremo Oriente. Durante esse longo período em que a guarnição foi substitutída em Macau, permaneceu na Índia, em Macau e em Timor, regressando a Lisboa em 29-1-1955. Entre Abril e Outubro de 1955 manteve-se atracado em Vila Franca de Xira. Entre Novembro de 1955 e Fevereiro de 1956 efectuou uma viagem de instrução na costa ocidental de África. Efectuou depois outras viagens aos Açores e Madeira e, em Setembro de 1957, representou a Marinha nas Festas de N. S. das Angústias, em Ayamonte, de onde regressou em 12-9-1957. Não voltou a sair a barra do Tejo e em 19-6-1961 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada”.
Gonçaves Zarco em 1964
Aviso “Gonçalves Zarco ” (1933-1964)
“Navio-gémeo do ‘Gonçalo Velho’, foi também construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle e foi aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 17-8-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-9-1933, isto é, 5 meses depois do ‘Gonçalo Velho’ e ainda nesse mês entrou a barra do Douro, tendo permanecido em Massarelos. Seguiu depois em viagem à Madeira e Açores. Em 28-2-1934 seguiu para a sua primeira comisssão, tendo permanecido em Moçambique até Janeiro de 1935. Seguiu depois para Timor e Macau, tendo regressado a Lisboa em 21-6-1935. Em Agosto de 1936 seguiu para a Madeira em apoio das forças militares e policiais que pretendiam anular algumas alterações da ordem pública. Em 8-10-1936 partiu para Angola onde permaneceu até Fevereiro de 1937, seguindo depois para Moçambique. Depois de uma estadia de 5 meses em Moçambique regressou a Angola e, passado um mês, voltou a Lisboa onde chegou em 9-10-1937. Em 12-1-1938 largou para outra comissão no Ultramar, tendo permanecido um mês em Angola e dois meses em Moçambique. Em 15-6-1938 saíu para Timor onde permaneceu um mês. Em 4-9-1938 chegou a Macau onde permaneceu até Abril de 1939. Visitou os Açores em Julho e Outubro de 1939 e permaneceu no arquipélago entre Janeiro e Maio de 1940. Em 24-10-1940 saíu para Cabo Verde onde permaneceu até Março de 1941. Em 11-10-1941 largou de Lisboa para uma comissão no Ultramar, chegando a Lourenço Marques em 3-12-1941. Foi designado para comboiar o transporte de tropas ‘João Belo’ destinado a Timor mas, perante uma ameaçadora sugestão japonesa, os dois navios mantiveram-se no mar entre Colombo e Java, entre os dias 18-2-1942 e 15-3-1942, regressando a Colombo e depois a Mormugão. Em Maio voltou a Moçambique onde se manteve até Dezembro e recolheu naúfragos de navios torpeados por submarinos alemães, tendo regressado a Lisboa em 14-2-1944. Em 29-4-1944 saíu de novo para Moçambique, onde voltou a recolher naúfragos. Em 29-8-1945 partia para Timor escoltando o transporte de tropas ‘Angola’, com as forças que iam reocupar a ilha após a derrota japonesa. Juntou-se-lhe o aviso ‘Bartolomeu Dias’ e juntos chegaram a Díli em 27-9-1945. Permaneceu em Timor durante 72 dias e em 16-1-1946 entrou em Lisboa. Em 31-8-1946 saíu para a Índia, onde permaneceu até Abril de 1949. Entre 24-11-1949 e 31-3-1950 efectuou um périplo de África em viagem de instrução de cadetes. Efectuou depois outras viagens no Atlântico e no Mediterrâneo e em 1-8-1943 efectuou uma viagem aos Estado Unidos. Entre 15-11-1953 e 7-3-1954 efectuou uma viagem de instrução e participou nas comemorações do 4.º Centenário da Fundação da Cidade de S. Paulo. Em 1954 esteve por duas vezes em Vila Franca de Xira, para apoio à instrução da Escola de Mecânicos. Em 29-9-1955 saíu para uma das mais longas comissões feitas por navios portugueses. Esteve na Índia durante mais de um ano, seguindo depois para Macau onde esteve entre Outubro de 1955 e Maio de 1958. Em Maio de 1958 voltou à Índia, onde se manteve até 2-7-1959, data em que saíu para Timor, onde permaneceu cerca de 4 meses. Voltou a Macau onde estacionou até 28-3-1964. Chegou a Lisboa em 10-5-1964, após mais de 8 anos de ausência. Em 21 anos fizera mais de 30.000 horas de navegação. Em 4-11-1964 foi abatido ao efectivo dos navios de Armada”.
Elaborado a partir de textos dos seguintes autores:
- Comandante José Ferreira dos Santos, “Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, Academia de Marinha, 2008
- Comandante Adelino Rodrigues da Costa, “A Marinha Portuguesa em Macau - Uma relação muito singular”, Capitania dos Portos de Macau, 1999 e “Dicionário de Navios & Relação de Efemérides”, Comissão Cultural da Marinha, 1996
- Foto-jornalista Eduardo Tomé, artigo intitulado “A última missão naval de soberania no Oriente”, Revista Macau de Fevereiro de 1997

terça-feira, 13 de março de 2012

Exposição: Fausto Sampaio e Herculano Estorninho

"Uma vez mais, Macau reuniu dois Artistas, cujas obras se destacaram na fixação de motivos macaenses através da sua pintura: o metropolitano Fausto Sampaio (1893-1956) que ali passou alguns meses em 1936, em viagem adrede feita, no prosseguimento do seu labor predilecto de transmitir, em tela, os acepctos mais típicos das terras e gentes do multi-secular Ultramar português; e Herculano Estorninho (1921-1994) macaense de gema ali radicado, sorvendo permanentemente o húmus do Solo que lhe serviu de berço, transmitindo-o em aguarelas e óleos, desde os seus quinze anos de idade. Ambos procuraram dar-nos, através da sua arte, nos seus respectivos estilos e vivências em toda a pujança de tons e de cores, como viram e sentiram a vida quotidiana da "Cidade do Nome de Deus na China", com seus pagodes e templos, suas ruas e travessas, sua faina marítima única, sua mistura do oriente e do ocidente.
O primeiro e único encontro físico destes dois pintores verificou-se quando Fausto Sampaio estava no apogeu da sua Arte e Fama, quando Herculano Estorninho, ainda rapaz, ensaiava os seus primeiros exercícios liceais de pintura. Encorajado por Sampaio a prosseguir, Herculano Estorninho vem-nos dando, sobretudo a partir dos anos 60, a sua maneira de sentir, de viver e de amar a sua terra natal.
Tendo em comum a identidade de tema quer macaense quer timorense, embora esta identidade se encontre separada no tempo, a presente mostra reúne pela vez terceira, os dois pintores de Macau, um metropolitano e outro macaense, tendo deste vez Macau por pano de fundo.
Lisboa, 18 de Março de 1983"
In catálogo da exposição que teve lugar na Casa de Macau em Lisboa entre 22 e 29 de Março de 1983; cedido por Zito Estorninho.
PS: Fausto Sampaio (os dois quadros que mostro são da sua autoria) tinha um irmão em Macau, Carlos Sampaio, que era Chefe da Repartição dos Serviços de Administração Civil; hoje em dia, julgo que uma neta vive em Macau.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Compra "estação de broad-casting": 1926

Em Março de 1926 é publicado no B.O. do Governo a compra da "estação de broad-casting estabelecida em D. Maria e pertencente a 'The Radio Communication company (Orient)" por um total de 17 mil patacas.
Década 1930
Década 1950
Década 1960
As três antenas do posto de rádio na D. Maria e o reservatório

domingo, 11 de março de 2012

A comunidade macaense em Portugal

Este é o título da tese de doutoramento - galardoada com o prémio Agostinho da Silva pela Academia de Ciências de Lisboa em 2008 - de Isabel Rijo Correia Pinto, licenciada em enfermagem, mestre em estudos interculturais e doutorada em estudos asiáticos. Viveu 18 anos em Macau onde casou com um macaense e há poucos dias esteve por lá a apresentar o livro. Em declarações ao HM disse:
"Noto que a comunidade macaense em Portugal é uma comunidade envelhecida. As pessoas com quem falei e que normalmente encontro têm todas mais de 40 anos. Os que têm idade inferior a esta, já nasceram lá. São macaenses, mas não por naturalidade. Muitas pessoas que mandavam os filhos estudar para Portugal,  quando se deu o 25 de Abril de 1974, pensaram se deviam continuar a fazê-lo, por isso terá havido uma travagem nessas idas. Actualmente, os mais novos macaenses já não escolhem Portugal para viver. Por outro lado, também considerei fundamental nesta pesquisa, saber o que está por detrás de atitudes e  comportamentos, uma vez que não tive intenção de obter apenas valores estatísticos, mas também perceber quais os sentimentos que conduziram às respostas dadas."
É ainda a autora do estudo “O Comportamento Cultural dos Macaenses Perante o Nascimento”.
Segundo a autora, "Este é um estudo transversal, descritivo e analítico que pretende dar a conhecer como se comporta culturalmente a etnia macaense residente em Portugal. Nesta investigação, analisam-se os aspectos que a nível cultural são predominantes no seu quotidiano, uma vez que a origem euro-asiática leva a que sejam influenciados pelo oriente, principalmente pela cultura chinesa, devido à localização geográfica de Macau. A esta circunstância alia-se o facto de viverem em Portugal e serem também influenciados pela cultura portuguesa, por razões histórico-culturais. Nesta pesquisa, foi utilizada uma amostra de 50 macaenses, cuja selecção obedeceu aos seguintes critérios: nacionalidade portuguesa; naturalidade macaense; ascendência euro-asiática; português como língua materna (podendo além desta ter outras); fixação de residência em Portugal, com permanência aí de pelo menos seis meses no ano; ter mais de 20 anos e menos de 69 na altura da fixação de residência em Portugal. A questões colocadas no inquérito incidiram em temas relacionados com mobiliário e decoração da casa, vestuário, alimentação, passatempos/comunicação, medicina popular, crenças e superstições, festividades e outros eventos e presente e futuro da cultura macaense. Os resultados dos inquéritos foram confrontados com as informações resultantes do enquadramento teórico elaborado versando os mesmos assuntos entre alguns povos europeus e asiáticos, com especial ênfase para os povos chinês e português. Foram também destacados alguns aspectos relacionados com a etnia macaense, considerados relevantes para este estudo."

sábado, 10 de março de 2012

"Cronologia" vai ser revista

A historiadora Beatriz Basto da Silva (68 anos) regressou a Macau para, a convite de uma instituição académica do território, reescrever e reeditar a “Cronologia da História de Macau”. Assim, para além da nova versão dos primeiros cinco volumes poderá vir a surgir mais um, dedicado aos acontecimentos entre a assinatura da Declaração Conjunta e a transferência de soberania.
Em declarações ao JTM de 9-3-2012 explicou:
“Tenho a minha cronologia esgotada em português e chinês. Mesmo quando estava em Portugal recebi vários ecos de que a obra fazia falta e percebi que era preciso reedita-la com actualizações.” (...) “Hoje em dia, estou em condições para preparar uma cronologia mais rica e abrangente para os primeiros séculos da História de Macau. Esta é uma das coisas que me prende aqui. Há vontade política, os meios são mais folgados e os académicos são muito mais generosos, as pessoas dão mais as mãos. Em Portugal não há tanta vontade de colaborar”.
Outro livro que poderá ser revisto é o “Emigração dos Cules: dossier Macau 1851-1894”, editado em 1994. Na opinião de Beatriz Basto da Silva, “há um estudo a aprofundar nas lápides do Cemitério de São Miguel Arcanjo.” Em tempos idos, foi lá que a investigadora recolheu grande parte das informações. Hoje em dia, pretende regressar “mais vezes” ao local. “Há mais trabalho a fazer, porque as pessoas foram casando mas não esqueceram as suas raízes, visíveis, por exemplo, no nome. E até já tenho um desafio nesse sentido”, desvenda a estudiosa, que faz parte da Academia Portuguesa da História. O vício de vasculhar memórias de Macau promete não sossegar. Esteja aqui ou noutra parte do mundo.
Nota: fico particularmente satisfeito com  a notícia da reedição da "Cronologia". Ainda há cerca de um ano desafiei a Prof. Beatriz a fazê-lo e junto de algumas instituições fiz  notar  a importância desta obra de referência que merece ainda uma edição electrónica que permita uma constante actualização.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Lorcha "Macau" em Portugal

Em 1988, as Oficinas Navais de Macau decidiram recriar pedaços da história dos mares de Macau, ao construir a Lorcha de Macau, réplica das antigas embarcações de madeira que navegavam pela China (ver caixa). Anos depois, foi cedida à Expo 98, tendo posteriormente passado para as mãos da Fundação Oriente (FO).
Actualmente a réplica encontra-se atracada na Marina de Portimão, em estado degradado, estando disponível para venda, pela quantia de MOP 1 milhão (95 mil euros). O anúncio foi colocado a semana passada e pode ser visualizado na internet, estando o negócio a cargo da empresa BlueWater Algarve, empresa correctora de barcos.
O Hoje Macau fez-se passar por um cliente. Do outro lado da linha, confirmaram que se trata da mesma embarcação de cariz histórico, e que o preço está baixo dado o grau de degradação. “O barco praticamente foi abandonado. Está em bastante mau estado e precisa de muito trabalho, por isso é que o preço está assim baixo. Pode ir para a água, mas necessita de reparação.”
A confidencialidade não permitiu revelar o nome do proprietário da embarcação, mas a responsável da BlueWater Algarve adiantou que se trata de “um dono particular”. “Provavelmente o dono do barco está sem dinheiro e o barco foi-se degradando. Durante muitos anos ninguém cuidou dele.” Ana Paula Cleto, coordenadora da delegação Macau-China da FO, disse desconhecer o anúncio. “Confirmei junto da Administração da FO e a Lorcha não está à venda.” Referiu ainda que a FO está em negociações com o Museu da Marinha e diversas universidades portuguesas para que Lorcha de Macau possa ser utilizada para fins educativos.

02-03-1998: A lorcha Macau parte para a sua derradeira viagem na Ásia em direcção a Hong Kong onde será embarcada para Lisboa para estar presente na Expo’98. Foto de K. W.Tam/Lusa  Lopo após o seu lançamento à água, em 1988, a Lorcha Macau navegou até ao Japão para participar no Festival da Espingarda, na ilha de Tanegashima, onde se comemora todos os anos e chegada dos portugueses ao Império do Sol Nascente.
Monjardino não quer vender
Os esclarecimentos da presidência da FO chegaram mais tarde. O titular do cargo, Carlos Monjardino confirmou que não há qualquer intenção de venda da Lorcha de Macau. Quanto ao anúncio, também não sabe de onde vem, mas, admite que possa ter surgido da parte das termas de Monchique, a quem a embarcação esteve cedida até ao ano passado para fins turísticos. “Houve alguns estrangeiros que lá foram, que acharam que era uma embarcação muito interessante. Devem ter depreendido pela conversa que a Lorcha estava à venda. Não temos compromisso em vender.”
Além disso, “é importante salientar que, se vendêssemos, só sabendo a quem vendemos”.
Sem ter conhecimento do anúncio, Monjardino pondera agora contactar directamente a BlueWater Algarve ou as termas de Monchique para resolver a questão. Carlos Monjardino garantiu que, anualmente, a embarcação custa à FO entre MOP 400 mil e MOP 500 mil em despesas normais de manutenção, e MOP 1 milhão de dois a dois anos, para substituição da madeira, afectada por bichos. “Foram feitas obras e gastámos fortunas para recuperar a parte de dentro. A construção é má e não há solução à vista para acabar com a praga. Não se pode manter assim, a Lorcha não é usada, não serve para nada.”
Para Monjardino, a embarcação “nunca deveria ter saído de Macau” e, para já, só vê duas saídas possíveis: a Marinha Portuguesa ou Macau. Em ambas, a FO disponibiliza-se a custear a manutenção. “O problema não são os gastos, mas sim o facto de não ser utilizada. Queremos arranjar uma entidade séria e estamos disponíveis para pagar a manutenção.”
Segundo o presidente da FO, já se realizaram duas propostas à Marinha, que até ao momento não aceitou tomar conta da Lorcha. Monjardino disse também que houve contactos com o Museu Marítimo de Macau.
Sonho de “Bibito”
Quem também concorda que a réplica deveria regressar a Macau é o publicitário Henrique Silva, mais conhecido por “Bibito”. Há um ano, iniciou diversas conversações, tanto em Macau como em Portugal, para angariar patrocínios – queria trazer a Lorcha de volta à sua terra natal. O anúncio da venda revelou-se uma surpresa. “Quando vi, fiquei chocado. É um pedaço de História que está à venda. Mistura a tecnologia chinesa com a portuguesa e representa aquilo que é Macau. Acaba por representar um pouco aquilo que é o navio Sagres para Portugal.” Para Henrique, o ideal seria trazer o barco para o próximo ano, altura em que se comemoram os 500 anos da passagem dos portugueses pelo território. “Simbolicamente fazia sentido. Tenho tentado arranjar patrocinadores, e de Portugal existem algumas logísticas faladas.”
Séculos de história em pedaços de madeira
A Lorcha de Macau, actualmente atracada na Marina de Portimão, representa séculos de navegação e um sinal vivo do património histórico do território. Em meados do século XIX, o porto de Macau albergava cerca de 60 lorchas, algumas com objectivos bélicos. As lorchas também existiam na Tailândia, em Singapura e em Ningpo.
Este tipo de embarcação mostra a junção das técnicas portuguesas e chinesas. Enquanto o casco tem um traçado europeu, o leme e o aparelho vélico possuem traços orientais, o que lhe dá mais rapidez e facilidade de manobra. Construídas em madeira de cânfora e teca, as lorchas tinham entre dois a três mastros e podiam variar entre as 30 e as 50 toneladas. Com uma tripulação mista, serviam, no século XIX, para transporte de carga, serviços de vigilância e defesa contra os piratas. Em Macau, muitas das lorchas de guerra viram o seu armamento reforçado e dedicavam-se apenas a combater a pirataria. As lorchas Adamastor, Leão Terrível, Amazona ou Tritão são exemplos de vasos de guerra que destruíram muitas embarcações de piratas.
Com o passar dos anos, começaram a ser substituídas por embarcações a vapor, que mais rapidamente faziam o transporte de mercadorias para o litoral da China. Aos poucos, as lorchas desapareceram dos portos e do uso diário das gentes de Macau. Nos primórdios do século XX, sumiram-se por completo dos mares do sul da China. Em meados de 1987, 1988, as Oficinas Navais de Macau construíram a Lorcha Macau, uma réplica que pretendia promover a cultura e a história do território. Aquando da Expo 98, o Governo de Macau doou a embarcação à Aporvela. A falta de apoios financeiros fizeram com que a Lorcha de Macau passasse para a Fundação Oriente, que assim ficou responsável por ela.
Artigo da autoria de Andreia Sofia Silva publicado no HM de 9-3-2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

A mulher na sociedade macaense: séculos XVI e XVII

Em Mulheres em Macau, Donas Honradas, Mulheres Livres e Escravas (Séculos XVI-XVII) procurámos trabalhar a partir de informação dispersa que fomos compilando, uma tipologia de referências assente em múltiplos textos de filiação masculina, que nos possibilitam, também, o acesso à mentalidade dominante. Embora a informação recolhida tenha por base autorias diferentes, e portanto, um olhar multiforme, permite-nos, justamente por este facto, avançar com o esboço de caracterização da cultura andriarcal perante o qual o heterogéneo segmento populacional feminino se situava. O presente trabalho, ponto da situação de uma via de pesquisa que continuamos a explorar, adianta, por ora, alguns dos dados que nos têm permitido identificar a realidade social e descrever a estruturação social macaense, entre finais de Quinhentos e meados de Seiscentos. Identificar os códigos sociais impostos às mulheres, atendendo à multicultural sociedade de Macau, constitui de igual modo um dos objectivos deste trabalho.
Texto do site do CCCM
Mulheres em Macau, Donas Honradas, Mulheres Livres e Escrava, Elsa Penalva, Lisboa, CHAM-CCCM, 2011
Traje das senhoras de Macau no final do século XVIII
Para 'abrir o apetite' sobre o tema aqui fica um excerto de um texto da autoria de outro académico.
De acordo com o investigador Ivo Carneiro de Souza "no território macaense, distinguindo-se do que se passava em outros espaços coloniais, como Goa ou o Brasil, a presença de mulheres europeias é praticamente inexistente ou fragmentária até quase finais do século XIX, quando o estado central começa sistematicamente a funcionalizar e a assalariar as longínquas administrações, contingentes militares e burocracias coloniais. Em rigor, de forma generalizada, a presença social portuguesa nos diferentes enclaves asiáticos que se organizavam sob a tutela político-institucional do chamado «Estado da Índia», da África Oriental a Timor, não mobilizava mulheres de origens europeias, descontados alguns exemplos, aventuras e esforços de circulação de orfãs, maioritariamente limitado ao enclave goês mas quase sem expressão no devir social de Macau."
Estas mulheres eram "indispensáveis para sustentar os mercados nupciais e matrimoniais que permitiram a sobrevivência de sistemas de parentesco, famílias e unidades domésticas «portuguesas» e «luso-asiáticas» em Macau.
"Diante da escassez de mulheres europeias e a interdição de aceder às mulheres chinesas de mais elevada condição social, muitos comerciantes, soldados, aventureiros e agentes políticos portugueses instalados em Macau começaram, ainda nas décadas finais no século XVI, a perseguir comunicações sexuais e matrimoniais junto de grupos femininos subalternos que, de extracção asiática, chegavam ao enclave através do rapto, da compra, da negociação e do resgate escravista. Identificam-se, desde a década de 1590, várias mulheres compradas e resgatadas em diferentes espaços dos mares do Sul da China e do Sudeste Asiático que, somadas a muitas crianças e jovens chinesas continentais, eram compradas ou raptadas em acções comerciais e marítimas, começando depois a aceder ao casamento com portugueses, a entrar também nos seus serviços domésticos ou a participar num mercado sexual que, em larga medida, se encontra por investigar. Mais tarde, na viragem do século XVI para a centúria de Seiscentos, domina um movimento continuado de resgate e compra de crinças e jovens chinesas que, negociadas com os poderes dos mandarinatos locais, se recrutavam tanto entre as camadas mais pobres da população como entre as situações de orfandade local. 
A partir da sua fundação, em 1569, coube à Misericórdia de Macau passar demoradamente a cumprir a tarefa de controlar social e «moralmente» o mercado nupcial feminino do território, impondo-lhe dotes, regras e, sobretudo, a vigilância da formação católica das jovens e mulheres asiáticas candidatas ao casamento ou ao serviço entre as «famílias da terra». Desde a década de 1590, a Santa Casa começou por apropriar o monopólio do casamento e dotação dos orfãos, exercendo um controlo firme sobre a condição católica destes agrupamentos, depois estendido a outras posições de subalternidade social feminina."
PS: sobre este tema sugiro ainda a leitura do livro "Uma artistocrata portuguesa no Macau do século XVII"