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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Macau em 1973 por Karsten Petersen

Rua da Palha 
 Rua das Estalagens vista da Rua de S. Paulo
San Ma Lou/Av. Almeida Ribeiro
Rua dos Ervanários e Rua da N. Sra. do Amparo
 Rua Almirante Sérgio (Porto Interior): em cima e em baixo
 Rua de S. Paulo
 Rua do Gamboa e Rua da Praia Grande
 Largo da Companhia de Jesus
Ruas de Macau em 1973 fotografadas por Karsten Petersen (thank you) que visitou o território por diversas vezes na década de 1970. Estas e outras fotos podem ser vistas no site Global Mariner.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Leilão de carta de 1838

O mais antigo Clube Filatélico português realiza no próximo dia 3 de Dezembro um leilão filatélico, no Hotel Roma, em Lisboa, onde serão apresentados alguns exemplares com origem em Macau. A estrela do leilão é mesmo uma carta circulada de Macau para Lisboa a 9 de Janeiro de 1838 de Correio Marítimo. Transportada no barco ‘Viajante’ com o porte de 80 réis batido a sépia, dizem os especialistas no assunto que é uma das mais bonitas cartas com esta marca. Tem base de licitação os 10 mil euros.
Carta remetida de Macau (09.01.1838) para Lisboa (27.05.1838) pelo "Viajante", com o porte de 80 reis batido a sépia.
A leilão vai também esta carta - em cima - (base de licitação de 3 mil euros) remetida de Manila (13.02.1855) para Cantão via Macau pelo vapor "Sophia". Marca de trânsito em Macau batida a vermelho. 
Nos lotes em leilão está ainda esta carta remetida de Macau (21.08.1851) para Gibraltar, com trânsito por Hong Kong (23.08.1851)

sábado, 26 de novembro de 2011

Cartografia antiga da cidade de Macau

No artigo resumido * “Cartografia antiga da cidade de Macau, c. 1600-1700: confronto entre modelos de representação europeus e chineses”, Francisco Roque de Oliveira afirma que a planta de Macau (imagem acima) elaborada por Godinho de Erédia entre 1615 e 1622 “talvez seja a mais antiga imagem da península de Macau depois de consumado o estabelecimento dos portugueses em meados do século XVI”.
Com um traçado muito simples, o mapa não regista o casario assinalando apenas algumas edificações de natureza religiosa e militar. Pode ainda ver-se uma cerca delimitando a área do "caza do mandarim", podendo este corresponder à aldeia de Patane.
Mapa do séc. XVIII atribuido aos holandeses

Mapa (raro) do séx. XVII pertença do Arquivo Nacional da China
*Cartografia antiga da cidade de Macau, c. 1600-1700: confronto entre modelos de representação europeus e chineses (Resumo). Francisco Roque de Oliveira. in: Scripta Nova - Revista Electrónica de Geografia y Ciencias Socialess, Universidade de Barcelona. Vol. X, núm. 218 (53), 1 de Agosto de 2006
NA: voltarei ao tema da cartografia antiga e da evolução da cidade muito em breve.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Stanley Ho comemora 90 anos

Afastado dos negócios do jogo e do jogo dos negócios, Stanley Ho celebra hoje 90 anos sem mão firme no cedro do império, muito pelo seu estado de saúde - rastilho para acirradas disputas entre as suas quatro “famílias”. Um bolo em forma de roleta foi preparado para o aniversário do “rei dos casinos” numa das festas que têm vindo a ser organizadas pelas suas “mulheres” em hotéis de Hong Kong, desde domingo, altura em que Stanley Ho apagou as primeiras velas, à luz do calendário lunar.
Foto de Paul Hilton / Bloomberg News

Segundo a imprensa local, perante o rebuliço o magnata manifestou algum cansaço, mas, Pansy Ho, uma das filhas, garantiu que o pai se encontra bem. O alegado traumatismo que sofreu no final de Julho de 2009 confinou Stanley Ho a uma cadeira de rodas e levou-o a afastar-se da gestão das empresas, cujas respectivas participações geraram polémica entre os filhos e mulheres por causa da partilha dos bens.
A disputa foi superada aparentemente, em Março, com um acordo, cujos contornos permanecem desconhecidos do público, mas que travaram a contenda no seio do clã. Stanley Ho, um exemplo acabado de um ‘self made man’, tem 16 filhos vivos de quatro mulheres, incluindo Clementina Leitão Ho, falecida em 2004, alegadamente a única com quem se casou legalmente, e não é claro o tipo de relação que mantém com Lucina Laam, Ina Chan e Angela Leong. A “quarta mulher” destaca-se pelo reforço gradual da posição na estrutura accionista da Sociedade de Jogos de Macau (SJM), que explora uma licença de jogo e uma quota de mercado de 30%, sobretudo após ter assumido o lugar de Stanley Ho como administradora delegada e adquirido as suas ultimas acções.
Stanley Ho nunca escondeu as suas origens como filho de um pai que perdeu a fortuna no jogo da bolsa na II Guerra Mundial, que trocou os estudos pelos negócios e deixou a britânica Hong Kong, fugido da ocupação japonesa, para assentar na portuguesa Macau, onde fez fortuna ao lado da mulher macaense, oriunda de uma das mais influentes famílias da altura. Apesar de sempre ter afirmado que não fazia depender decisões dos mestres de “feng-shui”, o nome de Stanley Ho estará sempre ligado à influência desse tipo de elementos, pois sempre foi voz corrente em Macau que o magnata não descura a importância do equilíbrio com, por exemplo, obras permanentes no velho Hotel Lisboa, um conselho que lhe terá sido dado por um mestre. Indissociavelmente ligado ao desenvolvimento de Macau e Macau ao crescimento da sua fortuna, Stanley Ho, depois de explorar em exclusivo o jogo durante 40 anos, não só ganhou uma das três licenças a concurso em 2001, como fez entrar os filhos Pansy e Lawrence através de subconcessões da sua SJM e da Wynn Resorts.
Ganhou o monopólio em 1960 com uma Macau adormecida e deixou a sua assinatura na transformação da cidade para cujo desenvolvimento tinha de contribuir à luz do contrato de jogo e mandando construir edifícios não muito populares, mas ao seu gosto e com elementos ligados aos novos símbolos de Macau como o Hotel Grand Lisboa semelhante à flor de Lotus. Em 1998, foi dado o seu nome a uma avenida e Stanley Ho tornar-se-ia no primeiro chinês na História de Macau a receber tal honra em vida.
As ligações a Portugal, onde perdeu o primeiro filho num acidente na marginal de Cascais, contam hoje vários investimentos em imobiliário, navegação, hotelaria, banca e jogo, investimentos que se espalham também por África. Negócios à parte, Stanley Ho também desempenhou funções políticas nos processos de transição de Macau e Hong Kong, participou do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, sendo ainda membro do restrito colégio eleitoral que elege o Chefe do Executivo de Macau.
Agência Lusa (por Diana do Mar) 25-11-2011
Escritura da revisão do contrato de jogos, assinada em 30.12.1982 no Palácio do Governo. Governador Almeida e Costa e Dr. Stanley Ho (STDM). No meio, Mário C. Lemos como notário. O monopólio do jogo em Macau pertenceu à STDM entre 1962 e 1982 e a exclusividade seria renegociada neste ano.

Seminário sobre língua portuguesa dia 28 em Macau

O Seminário “A Língua Portuguesa no contexto do diálogo entre a China e o Mundo Lusófono”, organizado pelo Instituto Internacional de Macau e pelo Movimento Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas – Festlatino, em colaboração com o Observatório da Língua Portuguesa, vai continuar com uma sessão no dia 28, segunda-feira, pelas 14h30, no auditório da Escola Portuguesa de Macau. 
O evento que foi cancelado devido ao último tufão, reinicia-se agora com esta sessão onde será apresentada a comunicação  “O Patuá em Macau - Memória e Identidade Macaense”, por Miguel Senna Fernandes.  De seguida, o Yao Jing Ming apresentará “Um breve esboço sobre a rtradução e escritores de língua portuguesa para chinês" e José Rocha Dinis (Jornal Tribuna de Macau) dirigie uma uma palestra com o título - “Media de Macau - um futuro com desafios".

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Figuras desportivas do passado

Nesta obra reuniram-se vários artigos da autoria de Francisco Carvalho e Rêgo - publicados na década de 1980 no jornal Gazeta Macaense - sobre os maiores desportistas que nasceram e/ou viveram em Macau. Os seus nomes surgem por ordem alfabética, sejam eles macaenses, portugueses ou chineses, naturais ou não de Macau. O autor adverte para o facto de não ter incluído todos porque não dispunha de informação. Falta lá, por exemplo, a referência a Alberto Ló. De qualquer forma, uma compilação de louvar que inclui ainda diversos artigos de outros autores publicados em jornais ainda mais antigos como o "Renascimento" ou "A Voz de Macau" e outros mais actuais como o "Tribuna de Macau".

Edição do ICM, FO e IDM em 1996

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Chu Kin: 1969-2011

Morreu o juíz Chu Kin. Tinha 42 anos e faleceu num hospital de Cantão, na sequência de um acidente de viação ocorrido no dia 25 de Agosto, na China. Juíz desde 1996, era considerado "moderado, rigoroso e discreto". Nasceu na China em Março de 1969 e chegou a Macau com apenas cinco anos (1974) onde estudou até 1986. Licenciou-se em Direito na Universidade Católica (1989) e, ainda em Portugal, fez o curso de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Lisboa (1987). De regresso ao território em 1994 fez o curso do Centro de Formação de Magistrados, tendo depois estagiado com o juiz Alberto Mendes. Em Outubro de 1996 foi nomeado juiz do tribunal de primeira instância de Macau, sendo o primeiro juiz chinês de Macau. A 20 de Dezembro de 1999 foi nomeado juiz do Tribunal de Última Instância da RAEM. A sua conduta moral e profissional mereceram ao longo da vida o reconhecimento quer dos seus pares quer de toda a sociedade macaense.

Anúncio Turismo de Macau: 1994

Casinos, Crazy Paris Show, hotéis Lisboa e Sintra, jetfoil...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Macau: history and society de Hao Zhidong

"Macau History and Society" illuminates the early Portuguese maritime exploration along China's south coast, political and economic development in Macau, and current social problems. The book makes significant contributions to a political sociology of Macau, emphasizing how different civilizations and cultures interacted with one another, and explores how a new Macau identity can be constructed. Democratization has been a never-ending process in Macau since the 1500's. Macau's experience indicates that sovereignty has been shared rather than exclusive. Although civilizations and cultures do clash, they also cooperate. But the Macau model is deeply flawed - Hao contends that Macau needs to build a new multicultural identity, and a cosmopolitan political and economic identity. 
Blackwell Publishing - Editado em Fevereiro de 2011

domingo, 20 de novembro de 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

Macau perdeu "um português de gema"

No tempo em que as crianças brincavam na antiga colónia na praia de Hac-Sá, Francisco Ferreira era o guarda responsável pela segurança e manutenção daquela zona balnear. Conhecido como “o general”, Francisco Ferreira faz parte do imaginário dos que na altura tinham 14 ou 15 anos. É o caso de Aníbal Mesquita Borges, professor no Instituto Politécnico de Macau (IPM), que se recorda de um guarda diferente dos outros. “Não era nada rígido. Era um homem que eu considero como sendo um português de gema em Macau”, contou ao JTM. Apesar do “ar austero” que ostentava, Francisco Ferreira era “boa pessoa, com genuidade e simpatia, sempre disposto a ajudar o próximo”, recordou Aníbal Mesquita Borges.
“O general” também habita as memórias de Carlos Marreiros, director do Albergue SCM. “Recordo-me que era uma figura muito popular no imaginário infantil. Não tinha muito contacto, mas recordo-me de um homem discreto, respeitável, com uma impecável bigodaça, que ostentava há várias décadas”, lembrou.
Tendo pisado o território pela primeira vez nos anos 40, Francisco Ferreira chegou na qualidade de militar, tendo depois ingressado na Polícia de Segurança Pública (PSP), profissão que desempenhou até se reformar. Casado com uma senhora de nacionalidade chinesa e sem filhos, o percurso do homem conhecido por ajudar os outros chegou ao fim aos 87 anos. Foi de “condecorações ao peito”, como contou Carlos Marreiros, que Francisco Ferreira foi ontem a enterrar no cemitério junto ao Jardim da Esperança Pascal, na Avenida do Almirante Lacerda.
Porta do Cerco na época em que "o general" chegou a Macau
As medalhas que carregava ao peito sempre que havia um evento importante na PSP, bem como “o bigode com as pontas retorcidas, que mostrava autoridade”, como contou Domingos Sabugueiro, antigo comissário da PSP, acabaram por lhe dar a alcunha pela qual ficou conhecido, mas o início da carreira como militar é outra das explicações para o nome. Francisco Ferreira “veio para formar uma linha de defesa nas Portas do Cerco, integrado na chamada ‘companhia das metralhadoras”, disse Aníbal Mesquita Borges, mas foi na PSP que fez profissão e ficou conhecido por ajudar os outros. Teve “a missão de dignificar a presença portuguesa em Macau e o trabalho de toda uma vida que dedicou à PSP”, recordou o professor do IPM.
Da época na praia de Coloane, guardam-se outras histórias. Domingos Sabugueiro conta um episódio em que o governador Garcia Leandro, numa festa de São Martinho da PSP, disse a Francisco Ferreira “ó rapaz, eu sou tenente-coronel, tu és general e eu é que tenho de fazer a continência a ti”.
Para António Rodrigues, antigo chefe da PSP, Francisco Ferreira foi como “um segundo pai”. Residente em Macau há 30 anos, recorda-se do homem com quem aprendeu “muitas coisas sobre a cultura chinesa”. António Rodrigues não esquece a “brigada do general”, nome pelo qual era conhecido o grupo de mendigos que Francisco Ferreira acolheu na antiga esquadra número dois na zona do Fai Chi Kei. “Ele tinha um amor àqueles homens...às vezes eram agressivos, assisti a muitas cenas em que ele foi agredido. No Natal e no Ano Novo Chinês visitava-os e costumava dizer-me “ó Rodrigues, eu não tenho filhos, eles são os meus filhos”, recordou.
Antes de vir para Macau, Francisco Ferreira chegou a ser dado como morto, após um problema de congestão, tendo estado dois dias numa morgue. O antigo chefe da PSP conta que “o general” de vez em quando recordava o episódio, dizendo: “eu não morro tão depressa, já morri uma vez e ressuscitei”.
Na zona do Fai Chi Kei, Francisco Ferreira era responsável pelo campo de futebol da zona, onde também tratava do equipamento dos jogadores da equipa de futebol da PSP. “Conheci-o quando entrei para a polícia nos anos 70. Trabalhei com ele na parte do clube de futebol da polícia, onde era um voluntário que ajudava os jogadores”, disse Herculano Ribeiro. O antigo comissário da PSP falou de um guarda, que, para além da farda que vestia, “era um tipo muito prestável, voluntário para tudo, que se integrou bem na comunidade chinesa”.
O desporto foi, aliás, outra das coisas que sempre esteve muito presente na vida de Francisco Ferreira. “Toda a vida colaborou nas iniciativas do Instituto do Desporto, no atletismo. Ia sempre com a mota a abrir caminho, uma pessoa com uma iniciativa fantástica”, afirmou Domingos Sabugueiro, de quem “o general” chegou a ser padrinho de casamento.
Zona da Barra na década de 1960
O seu espírito de ajuda foi também visível ainda no tempo em que Francisco Ferreira estava na esquadra do Fai Chi Kei. Isto porque o antigo polícia fez uma plantação de couves portuguesas atrás da esquadra, onde centenas de pessoas iam receber gratuitamente os legumes. Artur Maurício foi uma dessas pessoas. “Falava com ele um bocadinho e ele contava sempre uma história. Onde ele estava havia sempre alegria. Deixa muita pena”, contou.
O homem que permanece nas memórias de muitos foi “um dos portugueses da velha cepa”, como recordou Carlos Marreiros. Fez parte “dos que vieram fazer a tropa a Macau e ficaram, conheci muitos deles. Estes homens simples hoje estão esquecidos, e fizeram muito pelo português em Macau”, disse o arquitecto.
Artigo da autoria de A.S.S. publicado no JTM de 18-11-2011 a propósito do funeral (no dia anterior).

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Morreu o"general"

Morreu na passada terça-feira (dia 15 de Novembro), no Hospital C. S. Januário, o guarda da 1ª. Classe aposentado, Francisco de Sá Azevedo Ferreira (mais conhecido por "General"). Tinha 87 anos de idade. Já depois de reformado Francisco Azevedo tomou conta dos deficientes mentais que se encontravam no Posto da PSP junto ao Canídromo, tratava dos equipamentos dos grupos desportivos da polícia e dos jardins de três esquadras. «Dantes também tinha aqui uma horta (esqudra nº2)», disse à Revista Macau há uns anos, acrescentando ainda que «Cheguei a oferecer mais de 100 couves portuguesas por alturas do Natal». Eu e a minha família podemos comprovar. A figura imponente e o bigode retorcido e bem tratado valeram-lhe o cognome de "general"... Como meio de transporte não prescindia do seu motociclo. Voltemos à revista Macau para recordar "o general" que fez o serviço militar durante a II Guerra Mundial.
"Em Junho de 1946 o seu batalhão foi destacado para Macau. Nessa altura ia-se facilmente à China, buscar materiais e até passear. «Em 1947 foi enviada uma delegação militar a Cantão e em 1948 a filha de Chiang Kai Chek veio de visita a Macau, num barco de guerra», relembra o então soldado raso. Porém em 1949, após os comunistas assumirem o poder, fecharam-se as Portas do Cerco. Nessa altura a única rua alcatroada era a Av. Almeida Ribeiro e a Areia Preta era um porto de abrigo. «Só havia pequenos negócios, de peixe salgado, panchões, ou fósforos, algumas lojas que vendiam de tudo e casas de chá», recorda. Transportes, só as carreiras para a China e os riquexós. «Entrei uma vez num mas ao fim de 200 metros saí. Tive pena do homem, a puxar descalço, arreado como um animal», conta. Nunca mais andou de riquexó.
Os portugueses eram quase todos militares e os macaenses empregados da administração pública. Os divertimentos eram poucos, segundo o guarda reformado. «No Hotel Central e no Hotel Xavier havia jogo e dança mas só lá entravam os oficiais.» «Um soldado ganhava 30 patacas e um guarda 200», especifica. Quando entrou para a polícia em 1950 começou por receber 245 patacas e fardamento. «Dava para viver mal». Mesmo assim, nesse ano, casou-se com uma senhora chinesa. «A princípio mal conseguíamos falar mas com o tempo ela aprendeu a língua e a cozinha portuguesas». Também ele aprendeu a falar cantonense, em parte nos cursos que eram obrigatórios para os guardas portugueses. Hoje usa a língua com destreza e rapidez, como se fosse um falante nato.
Sempre ligado ao desporto, era a Francisco Azevedo que competia cuidar do campo de futebol por trás do Posto nº2, o que fazia ajudado por um grupo de presos, «pakfanistas», deficientes e outros indigentes que estavam a cargo da PSP antes do IASM assumir essa responsabilidade. «Sempre lidei bem com eles e os outros polícias não se importavam com o que lhes acontecesse», justifica. Hoje, trata ainda de um grupo de oito indigentes, que comem e dormem ao lado do jardim da esquadra.
Para além do «1,2,3» um dos momentos mais marcantes da história de Macau foi, segundo o «General», o ataque dos chineses na fronteira, em 1952. Quando um soldado de Macau entrou em terra de ninguém para fechar as portas, ao anoitecer, foi atingido numa perna por um tiro do lado chinês. Esvaiu-se em sangue antes de ser socorrido. O governo pediu voluntários para fechar a porta e quando estes o foram fazer os chineses lançaram granadas. «Nessa altura havia cerca de cinco mil soldados em Macau», diz o polícia reformado. A resposta à provocação não tardou «Morreu muita gente do lado de lá sobretudo, civis que viviam em barracas junto à fronteira», relata o «General» que esteve «agarrado» a uma metralhadora no terraço do Posto nº2. Mais tarde houve conversações e Macau pediu uma indemnização para as famílias dos falecidos. «Já nessa altura se falava em entregar Macau, mas os chineses não quiseram», conta.
A partida dos portugueses não o assusta. «Sempre tive mais amigos chineses que portugueses». Apesar de não ter filhos, a esposa tem cá a família, nomeadamente a mãe que vive em Cantão e tem mais de cem anos de idade. «Penso que não haverá grandes desacatos. Talvez algumas rixas provocadas pelos pés descalços levados pela propaganda». Mas, até ver, vai ficando, se bem que não prescinda de umas visitas a Santo Tirso onde toda a sua família se dedica à agricultura e horticultura.
Excerto do artigo da autoria de Clara Gomes publicado na revista Macau em Dezembro de 1999.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Introdução da Fórmula 3

In 1983, the organisers decided that since Formula Pacific was becoming obsolete, the race would be held as a Formula 3 event. Initially, they wanted to run a F2 race, but as they were unwilling to make any large circuit modifications, which included cutting down trees, the organisers settled for F3. This turned out to be a right decision, given the fact that since then it has raised the reputation of the event in the motorsport. The first F3 race was won by Ayrton Senna.
Em 1983, no 30º Grande Prémio de Macau, o evento passou a fazer parte do calendário da Fórmula 3 (Taça do Mundo da FIA). ao pódio subiram, respectivamente: Ayrton Senna (carro nº 3), Roberto Guerrero e Gerhard Berger.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Ponto Final" celebra 20 anos


"O Ponto Final que apareceu nas bancas em finais de 1991 era um diário de formato A4, irreverente na postura e no conteúdo, e por isso incómodo. Assente basicamente numa cooperativa informal de jovens profissionais, não resistiu à asfixia financeira a que conduziram as crescentes dificuldades de angariação publicitária, num território onde, bem mais do que agora, quase tudo se decidia em função da boa ou má vontade do poder. Herculano Estorninho, saudosa figura do meio artístico de Macau e primeiro director do jornal, revelou uma boa dose de generosidade e desprendimento ao contribuir com o seu nome para a credibilização do projecto. Mas menos de um ano depois de ter sido lançado, o Ponto Final teve mesmo de despedir-se dos seus leitores, obrigando ao regresso antecipado a Portugal de Paulo Aido e outros jornalistas ligados à sua publicação. Não eram tempos fáceis para a imprensa, esses em que Rocha Vieira tinha acabado de assumir a governação de Macau.
Ainda em 1992, no primeiro dia do mês de Outubro, o Ponto Final voltou às bancas, propriedade agora de uma sociedade detida pelos advogados Frederico Rato e Francisco Gonçalves Pereira. Tinha-se transformado em semanário, surgia já no actual formato tablóide, e tinha como director o jornalista Pedro Correia. Numa coisa não mudara, no entanto: fazia da realidade política e social de Macau um acompanhamento desassombrado e não raramente crítico, servindo-se para isso de uma vasta e competente equipa de jornalistas e colaboradores. Para citar só alguns: entre os jornalistas da casa,  Luís Ortet, mais tarde também ele director, de novo Carlos Morais José, António Ramos André, Paulo Azevedo e Paulo Rego; entre os colaboradores ou fazedores de opinião, João Paulo Meneses, Sérgio Almeida Correia, António Conceição Júnior e muitos, muitos outros, acreditem. Eu próprio colaborei nesta nova fase da vida do jornal desde o número zero – e orgulho-me disso."
Excerto de um artigo - publicado no PF de 16-11-2011 - da autoria de Ricardo Pinto que já foi director do Ponto Final e é actualmente administrador do jornal.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Macau em... Constância

A partir do próximo dia dia 19 de Novembro (inauguração às 16h) e até ao dia 18 de Dezembro vai estar patente na Casa-Memória de Camões, em Constância, a exposição “O Centro Histórico de Macau - Património da Humanidade", composta por vinte e cinco painéis (fotografias) sobre o Património Mundial de Macau, o qual materializa anos de história portuguesa e chinesa num património histórico invulgar a nível mundial.
Esta mostra resulta de uma parceria entre o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau em Portugal, a Câmara Municipal de Constância e a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo.
Como chegar lá: apanhar a A1-Norte até à saída de Torres Novas e depois  seguir pela A23 até à saída de Constância. Junto ao centro da Vila estacione no largo ou junto ao rio e siga a pé até à Casa memória Camões, tb conhecida por Casa dos Arcos.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Grande Prémio: 1955, 1956 e 1957

O Grande Prémio de 1957 realizou-se realizou-se no dia 17 de Novembro de  e contou com a inscrição de 19 pilotos, dos quais alinharam à partida 16. Entre os favoritos destacou-se a presença do Mercedes 300 SL de Pateman, do AC Bristol de Hardwick e do Ferrari 500 Mondial Spyder Scaglietti série II (#528MD) de George Baker, que havia pertencido ao tenente Mário Lopes da Costa, com a qual alinhou no Grande Prémio Macaense em 1955 e 1956. Em 1956, no 3º Grande Prémio de Macau inaugurou-se a bancada central em betão, que englobava 10 "boxes" e uma lotação para 300 pessoas. A prova de 77 voltas foi ganha por Douglas Steane num Mercedes 190 SL, com um avanço superior a duas voltas sobre os seus rivais mais próximos.
1956: terceira edição
"Participaram neste III Grande Prémio de Macau, 18 automóveis, e para além de Mário Lopes da Costa no Ferrari 500 Mondial #0528MD de cor vermelha, de salientar a presença de Douglas Steane num Mercedes 190 SL, Robert Ritchie num Austin Healey M, G. Baker com um Triumph TR2, N. Fullford com um Warrior-Bristol, Fernando Macedo Pinto com um MG A, Teddy Yip com um Jaguar XK 120 e Eduardo Noronha com um Fencar Special, entre outros. A corrida consistiu em 77 voltas ao Circuito da Guia num total de 483,175Km, presenciada por cerca de cinquenta mil pessoas.Na partida, Lopes da Costa passou rapidamente para a frente (foto), logo seguido pelo Mercedes de Steane, tendo o piloto do Ferrari mantido o comando da prova durante 16 voltas, altura em que, quer Lopes da Costa quer Steane tiveram que efectuar paragens nas boxes para efectuarem algumas reparações nos seus automóveis depois de alguns ligeiros toques, devido ao estado extremamente escorregadio da pista em virtude da chuva que caiu insistentemente a partir de determinada altura. No final, Steane triunfou, completando as 77 voltas no tempo de 5 horas, 24′, 18,8” a uma média de 90 Km/h, Lopes da Costa foi segundo a duas voltas do piloto do Mercedes. No 3º lugar terminou o MG A de Fernando Macedo Pinto."
Texto e imagem de Manuel Taboada / Revista ACP
1955
Durante a Primavera e início do Verão de 1955, a totalidade da parte interior do circuito foi encerrada ao trânsito para que os seus velhos paralelepípedos fossem retirados e substituídos por asfalto. Robert Richie, de Hong Kong, venceu o segundo Grande Prémio de Macau, com 60 voltas, num Austin Healey 100, com um tempo de 3:55.55.7. Menos de um segundo depois, terminou o Mercedes 190 SL de Douglas Steane, enquanto o terceiro lugar ia para Neville Fullford, num Triumph TR 2.
Com uma interessante luta inicial entre o 500 Mondial e o 300 SL, a corrida viu à 35ª volta o Ferrari de Baker parar com uma biela partida. A partir daqui o duelo seria entre Pateman e Hardwick no pequeno e ágil AC Bristol. Apesar de um breve ida ás boxes para verificar um possível derrame de óleo, Pateman venceu a corrida, completando as 77 voltas (330 milhas) em 4 h 34 m. e 37 s, constituindo este um tempo recorde para esta prova. Hardwick ficou em 2º lugar a uma volta. A prova foi presenciada por cerca de 25 000 espectadores.
Hardwick, Pateman e Fullford, respectivamente o 2º, 1º e 3º classificados no Grande Prémio
Na grelha de partida: Ferrari 500 Mondial de Baker, Mercedes 300 SL de Pateman e AC Bristol de Hardwick.

sábado, 12 de novembro de 2011

Rua Central e Moosa: década 1970

A rua Central com a loja Moosa à direita em 1973. Foto cedida por Karsten Petersen.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Seminário: Inquisição em Macau (século XVII)

No dia 28 deste mês de Novembro, realiza-se mais uma sessão mensal do SPEM, Seminário Permanente de Estudos sobre Macau.
O seminário é dedicado à Inquisição em Macau (século XVII) e será dirigido por Miguel Rodrigues Lourenço, (CHAM/CEHR). A sessão terá lugar na sala 0.07, no piso 0 do edifício ID da FCSH (Av. de Berna, n. 26, Lisboa), pelas 18 horas.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

IIM inaugura exposições no Brasil

Continuando o seu programa de itinerância das suas exposições por instituições brasileiras, o Instituto Internacional de Macau abriu agora no Gabinete Português de Leitura do Recife a exposição “O Oriente de Influência Cultural Portuguesa”, constituída por 170 ampliações de postais antigos da colecção de João Loureiro e que já havia sido exposta em Macau.
Também a exposição “Macau é um espectáculo”, organizada em colaboração com a Associação de Fotógrafos de Macau e constituída por 51 fotografias das artes nas ruas de Macau,passou a estar presente no átrio da Câmara de São Bernardo do Campo, no Grande ABC, em São Paulo, integrada na cerimónia de abertura da Convenção do Elos Internacional.
Esta exposição,que já foi mostrada anteriormente em São Paulo, na FECOMÉRCIO, no Rio de Janeiro, no Real Gabinete Português de Leitura e na Associação Chinesa, no Recife,no Gabinete Português de Leitura e na Universidade Paula Frassinetti, e em Brasília, na Biblioteca Nacional de Brasília, estará em exibição até ao final de mês de Novembro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Rua Central & O. C. Moosa

“No Largo (da Sé), todo rodeado de casas assobradadas, ainda adormecidas, escutavam-se os primeiros pregões do vendedor de pão fresco e o encarregado da iluminação pública apagava os últimos candeeiros de petróleo. Havia poucos madrugadores na missa. Só algumas mulheres de do, correndo as contas do rosário ou debruçadas sobre o confessionário, e ainda grupos que iriam passar o domingo em piqueniques, na terra-china, ou à Praia da Boa Vista, à Areia Preta, ou à Praia de Cacilhas, famosa pela transparência das suas águas. O chique era a missa das onze horas e depois o passeio à Rua Central onde os mouro-mouros tinham os seus estabelecimentos, pejados das últimas novidades da moda, e dali se descia a Calçada de Stº. Agostinho, mais conhecida pela Travessa das Onze Horas, para a Praia Grande”.
Henrique de Senna Fernandes. «Uma Pesca ao Largo de Macau» in Nam Van.
Entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX - antes da abertura da San Ma Lou em 1918, a Rua Central foi o centro da vida social e comercial da cidade Cristã. Olhando no mapa, pode ver-se que ficava perto do que de mais importante existia na cidade: o Leal Senado, o Teatro D. Pedro V, o Palácio do Governo, etc... Em chinês, a Rua Central designa-se por Leong Sang Cheng Kai, isto é, Rua Direita do Cume do Dragão.
Situada no bairro de S. Lourenço, foi aí que se instalaram os alfaiates e modistas, ourives e joalheiros, antiquários e livreiros, as lojas dos “mouros”, de sedas, cetins, toalhas e bordados, para além de roupas, chapéus, gravatas e brinquedos. Foi aí que se instalou inicialmente a famosa loja Omar Moosa, expressão da comunidade “moura” de Macau. No dia santo, terminada a missa das onze horas na Sé Catedral, a rua transformava-se numa espécie de 'passeio público', onde se exibiam as últimas modas, importadas das metrópoles europeias, conforme relatou Henrique Senna Fernandes.
Agradecimentos pela imagem (acima) a Joon Do

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mês de Grande Prémio...

Macedo Pinto em 1954 com o seu MG que, dizia-se, não foi mais longe, porque ele se esqueceu de 'tirar' completamente o travão de mão.

O circuito em 1966

 Curva Melco em 1954 (em baixo): Rogers Pennels e 1958 (em cima): nº 30 Triumph TR2 de Scott Leavitts e o nº 7 é Ron Hardwick’s com um AC Ace.
Imagem do cartaz da edição 46 de 1999. Tudo começou em 1954...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Jorge Forjaz: "A identidade macaense é muito forte"

Autor da obra de referência "Famílias Macaenses" (1996).
Como é que iniciou este projecto de fazer a genealogia das famílias macaenses e o que o motivou?
-Vivi em Macau entre 1989 e 1991, tempo em que fui secretário-geral do Festival de Música de Macau, que faz agora 25 anos. Depois regressei a Portugal, mas já levava comigo o embrião desta investigação. Sou historiador de formação e já realizava os meus projectos de genealogia. Quando vim viver para Macau trouxe comigo alguma documentação para me entreter aqui. Aquela documentação deu-me para alguns bons serões, mas após algum tempo acabou e foi nessa altura que me lembrei do que haveria para fazer sobre Macau. É assim que esta investigação começa do zero. Inicialmente nunca me passou pela cabeça publicar fosse o que fosse, porque nunca pensei que a obra ficasse completa quanto mais que tivesse aquela dimensão. Porém, como já tinha um lote tal de investigação, propus-me a acabar... Mas, para isso precisava de fazer ainda muita investigação. Depois, falei com a Fundação Oriente, que vem a ser o editor do projecto e o apoia entre 1991 e 96, ano em que o livro é publicado. Nesse espaço de tempo vim a Macau todos os anos e a Hong Kong e viajei pelo mundo inteiro. A comunidade macaense é uma comunidade pluri-pátrias... Até em Singapura em Banguecoque existe.
-Foi difícil chegar às 440 famílias que catalogou?
-É fácil para quem sabe, pode é ser mais trabalhoso. Uma coisa é trabalhar uma comunidade toda na Ilha Terceira, onde vivo, em que me sento no arquivo e mando vir os livros e a investigação é feita na mesma mesa durante anos a fio, outra coisa é estar em Macau e ter metade da família em Hong Kong, em Xangai, um bocadinho no Japão e pelo resto do mundo... Isso é mais complicado, sobretudo naquela altura em que se tinha de ir aos locais e se escreviam cartas. Depois, os arquivos também estão em condições muito diversas. As igrejas de Macau têm-nos, mas nem todos estão em boas condições. Depois da recolha dos dados tive também de jogar com os milhares de datas que aparecem no livro, para que haja uma lógica de sequência de pais para filhos, e as pessoas possam compreender. O livro está de forma a que mesmo os que não têm formação histórica percebam a sequência familiar.
-Quais foram as reacções dessas pessoas com quem conviveu? Tinham consciência do que é ser Macaense?
-A reacção foi geralmente muito positiva e quanto mais longe estavam de Macau mais positiva era, curiosamente. Normalmente quem sai da sua terra preocupa-se mais com esta questão. Os que estão na terra acordam, vivem, nascem todo o dia macaenses, estão envolvidos nesta ambiência. Já os que vão cair num meio estranho têm necessidade de reivindicar a sua identidade e ao fazerem-no procuram as suas raízes macaenses.
-Mas, havia essa consciência do ser Macaense, do pertencer a uma comunidade que é metade chinesa e portuguesa?
-Havia. A parte portuguesa da sua identidade todos tinham [assente], mas em relação à parte não portuguesa havia alguma confusão. Uns diziam que eram chineses, outros que eram tailandeses, outros goeses. Às vezes, nem sempre era assim, o goês não era goês era timorense, e vice-versa. E nem sempre era assim porque a dominante portuguesa impunha-se, a outra era uma coisa mais exótica no seu ponto de vista, que entrava, mas essa noção acabava por se perder duas ou três gerações depois. O livro veio esclarecer bem essas origens.
-Então o que poderemos considerar um macaense?
-Para mim um macaense é acima de tudo alguém que pode até nem ser sempre de raiz portuguesa... Estou a lembrar-me de uma família de Raguza, que fica hoje na Ex-Jugoslávia. Embora de origem jugoslava, era uma família macaense pura, porque chegou a Macau e integrou-se numa comunidade local, de raiz e cultura portuguesa e tradição católica e isso é fundamental. Tem de haver é uma integração num espírito cultural português. O macaense tem um tronco comum que é o sentimento de pertença a esta comunidade, identifica-se com este território em qualquer parte do mundo.
-Descobriu raízes mais longínquas do que as que esperava encontrar?
-Estas discussões filosóficas sobre o que é um macaense são as discussões modernas. Os homens do século XVIII não se preocupavam com isso, instalavam-se e queriam ganhar a sua vida. Se eu estava à espera? Uma investigação depende sempre exclusivamente da existência ou não de boa documentação e este tipo de investigação incluiu documentação como os chamados registos de casamento, de baptismo e de óbitos que existem nas igrejas, que eram obrigadas a fazer esses registos desde o século XVI, do Concílio de Trento. Aqui não há registo nenhum dos séculos XVI e XVII, no entanto, havia cá gente. Muitas vezes o que consegui foi chegar lá pelas famílias que vieram para aqui no século XVIII. Encontrei, por exemplo, um indivíduo cujo registo mostrava que era natural de Portalegre, da freguesia de S. Tomé. Encontrei em Portalegre o registo e consegui recuar mais algumas gerações em Portugal.
-Passados quase 12 anos desde a criação da RAEM, o papel dos macaenses ainda está muito acentuado?
-Estive aqui pela última vez em 1999, mas acho que a antiga comunidade macaense está mais pequena e os seus contornos estão menos definidos. Isto porque primeiro são muito mais móveis. Em segundo lugar, há muitos portugueses em Macau, mas ao contrário do que acontecia há 100 anos já não estão preocupados em casar numa comunidade específica e isso não enriquece aquilo que se chamava os macaenses. Os macaenses têm características específicas, como o Patuá, a sua própria culinária e essas coisas têm de continuar a subsistir para que se diga que uma comunidade é macaense. As comunidades no estrangeiro mantêm a sua própria culinária, falam patuá, embora este vá acabar. Quando deixar de haver gente a falar acaba, porque não é uma língua escrita.
-Tem-se feito um esforço neste sentido até com a tentativa de candidatar o Patuá a Património Imaterial...
-Seria muito interessante. A sensação que tenho é que o patuá vivia de uma comunidade estável que entre si falava patuá, fazia os seus teatros, brincadeiras de Carnaval e tinha os seus poemas. Quando a sociedade se internacionaliza demasiado, essas línguas que são muito pequenas, tendem a perder-se.
-Mediante esse cenário qual será o papel dos macaenses no século XXI e a sua projecção?
-É um pouco difícil responder a isso, mas penso que os macaenses têm a título individual de afirmar-se numa comunidade que é avassaladoramente diferente. É uma comunidade muito pequena, hoje serão um por cento e um por cento em qualquer comunidade como se impõe? Impõe-se pelo seu nível intelectual, é a única maneira, porque se a comunidade macaense ficar reduzida a um pequeno grupo de cidadãos, esse grupo acaba diluído. A comunidade tem de se afirmar pela cultura, mantendo-a viva através das suas tradições, exposições, dos seus artistas, bem como através das suas organizações, como é o caso do Albergue, manter os vínculos com o passado.
-Nesse sentido, como vê o projecto da casa museu macaense...
-Isso seria importantíssimo. Os americanos têm um arquivo que é Old China Hands, que é um nome que os anglo-saxónicos chamavam aos antigos habitantes da China, que eram da Inglaterra e América, como grandes comerciantes, e nesses arquivos preservam a memória das pessoas que lá viveram. Aqui temos o próprio Arquivo Histórico de Macau, que é uma memória da presença macaense e portuguesa em Macau, mas um museu dessa natureza também me parece muito interessante. E é pela cultura que se vai lá, porque em matéria de milhões hoje em dia com o sector do jogo são fortunas que se jogam aqui, e diante disso o macaense é nada. Agora, pela cultura pode ser tudo.
-Estudou outras descendências portuguesas. Como é que podemos definir o estado da influência portuguesa no mundo hoje em dia?
- Acho que ainda é imensa. Se não olharmos numa perspectiva de comparar com a Inglaterra, em que há países inteiros a falar inglês, veremos que há um português sempre algures e nos sítios mais espantosos. Vamos a uma cidade grande ou pequena do Japão e temos lá descendentes dos macaenses, que são talvez dos portugueses os mais espalhados. À volta do globo inteiro encontramos macaenses e gente muito distinta não só do ponto de vista intelectual, mas intelectual. Encontramos macaenses na nova Zelândia, o senhor Bernardo d ‘Eça que não fala uma palavra de português, mas continua a escrever o nome com o “ç” contra tudo, porque não há na língua inglesa o “ç”. Há gente de sangue macaense um pouco por todo o mundo a ilustrar o nome macaense. São poucos, mas são bons. Os que estão em Macau têm de ilustrar o seu nome e, fazendo isso, a sua história e a sua presença.
Entrevista de Fátima Almeida publicada no JTM de 3-11-2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ayrton Senna no Grande Prémio de 1983

Junto ao Reservatório na zona da D. Maria
Em 1983 a prova rainha do Grande Prémio trocou a regulamentação obsoleta da Fórmula Atlantic pela da Fórmula 3. Ayrton Senna, na altura mais conhecido por Senna da Silva, venceu a corrida. A vitória em Macau da equipa de Teddy Yip abriu-lhe as portas para a F1 no ano seguinte com a Toleman. Gerhard Berger (tb viria a brilhar na F1) diz que a corrida de 20 de Novembro daquele ano foi a melhor da sua carreira. Foi assim o início da década de 1980 no GP...
As duas últimas imagens retratam as 'memórias' do piloto brasileiro patentes ao público no Museu do Grande Prémio de Macau.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Jornal Tribuna de Macau comemora 29º aniversário

"Hoje, o Jornal Tribuna de Macau comemora a entrada no 29º ano ininterrupto de publicação. Desde 30 de Outubro de 1982, como semanário, e após 1 de Novembro de 1998, como diário resultante da fusão com o “Jornal de Macau”. Hoje é o único diário local em Língua Portuguesa que se publica seis vezes por semana. Estamos à beira de entrar no 30 º ano de publicação, um marco na imprensa diária local, não confessional, em Língua portuguesa. Ao longo dos séculos, muitos foram os diários em Macau que apareceram e desapareceram. A passagem do 29º ano é, desde já, um record que nos orgulha, e que nos acarreta ainda maior responsabilidade.
Tem sido um percurso tão trabalhoso, como difícil mas fascinante. Muitos foram os profissionais que por aqui passaram, sendo a Tribuna conhecida como uma escola prática de jornalismo. Orgulha-nos também que tenha sido nas páginas da Tribuna que muitos membros das comunidades locais, portuguesa e chinesa, iniciaram as suas colaborações escritas. A todos a minha gratidão, com uma palavra especial, para alguns que faleceram nestas décadas, mas fazem parte da História do jornal e de Macau.
Tivemos sempre objectivos estratégicos bem definidos. A “nossa gente” é a população que nasceu e trabalha em Macau. A comunidade de luso-falantes que reconhece a seriedade de processos que fazem parte do nosso Estatuto Editorial e que reconhece credibilidade e qualidade no trabalho diário que apresentamos, em Língua Portuguesa. Membros de outras comunidades residentes em Macau têm-nos dado provas de que acreditam no JTM, acompanhando-nos nesta já longa jornada. É para todos eles que trabalhamos.
Não temos dúvidas que se o passado e o presente foram difíceis, o futuro será igualmente repleto de desafios.
Agora numa renovação constante, estamos crentes que, com trabalho sério e determinação, continuaremos a servir Macau. Aproveitando o avanço das novas tecnologias, estaremos abertos a todas as correntes de opinião e sem “tabús” noticiosos.
Em termos gerais podemos garantir que defenderemos até aos limites, os princípios Humanitários, Democráticos e de são convivência que são as mais distintas marcas da secular vida de Macau."
Editorial assinado por José Rocha Dinis na edição de 1-11-2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lapsos e erros - I


Errar é humano, já se sabe. Ao longo dos anos que tenho dedicado à História de Macau tenho deparado com muitos exemplos de lapsos (alguns cometidos por mim...) e até mesmo erros grosseiros que induzem em erro os mais incautos. Com este post inauguro uma série em que vou procurar corrigir as situações apontadas. Algumas, à custa de tanto se terem repetido, tornaram-se verdades incontestáveis mas, como poderão verificar, não é disso que se trata.
Esta imagem e legenda fazem parte do livro "Fontes para a história de Macau em Portugal e no estrangeiro".
Não se trata da igreja de s. Lázaro mas sim do convento onde hoje está o Quartel de S. Francisco.
Pedro de Ál(v)faro, natural de Sevilha, e João Baptista Lucarelli, italiano, natural de Pesaro, chegaram a Macau num domingo, 15 de Novembro de 1579 e levantaram o convento franciscano, que foi inaugurado a 2 de Fevereiro de 1580: «Escolheu-se o sítio com uma fonte de água viva, fora de pequena aglomeração. Em seguida, após uma missa solene com música, dirigem-se em cortejo para o local; o bispo (D. Melchior Carneiro) tira a primeira pazada e, depois dele, o reitor dos jesuítas (Pe. Cristóvão da Costa)... Queriam concluir os trabalhos para a festa da Purificação (2 de Fevereiro de 1580) e consagrar a capela a Nossa Senhora dos Anjos».
O P. Alexandre Valignano, em carta ao Geral da Companhia de Jesus, de 28-8-1580, informava: «Sete religiosos franciscanos vieram de Luçon (Filipinas) a Macau: são todos castelhanos, excepto um que é italiano; passaram quatro meses em Cantão; um faleceu; quatro preferiram regressar a Luçon; aos outros, o bispo deu-lhes um convento de mil escudos».
Um franciscano espanhol, que esteve em Macau em 1672 e que viveu nesse convento, escrevia: «O Convento é o do Nosso Padre S. Francisco. Está quase fora e apartado da cidade; as suas cercas servem pela maior parte de muralha a Macau. Ergue-se sobre uma penha, que as ondas ferem por três partes; é, por isso, muito vistoso, alegre e sadio. Foi fundado pelos filhos desta Província de S.Gregório das Filipinas, à maneira dos nossos conventos pobres da Espanha. E agora pertence à Santa Província da Madre de Deus dos religiosos descalços, aos quais os portugueses chamam frades capuchos. E assim este convento bem como o de S. Agostinho foram fundados por frades castelhanos e estiveram por algum tempo dependentes das Províncias das Filipinas.» (Sinica Franciscana, Vol. VII, p. 802).
O convento foi construído no sopé da colina à beira-mar; no topo da colina, construiu-se uma ermida a N. Sra. do Rosário para os que quizessem gozar mais completa solidão. A nova fundação franciscana foi chamada Custódia de S. Gregório da China.
Frei Jacinto de Deus, O. F. M., diz que o convento se construiu «sobre hum pequeno monte da parte do Oriente, em respeito da cidade, no começo de hua fermosa praya, cujas ondas de continuo ferem os muros, ficando o Convento com a vista para o mar, ao Leste, Norte, e Meio Dia, e das muitas Ilhas que por essas partes lançou a natureza, e tambem do principal da Cidade, que lhe fica ao Ocidente... O zelo das almas lhe acrescentou hum Seminario, em que se criassem 20 meninos».
Postal do final do séc. 19 vendo-se o coreto do Jardim de S. Francisco e ao fundo o quartel.
Este coreto nada tem a ver com o chamado 'pavilhão octagonal' construído décadas mais tarde e ainda hoje existente.
Foi Coelho do Amaral (governador) quem mandou demolir o convento e construir o quartel, segundo informa A. F. Marques Pereira nas Efemérides: «30 de Março de 1861:- Portaria do ministerio da marinha e ultramar, autorisando a demolição do convento de S. Francisco de Macau, e a construção no mesmo lugar, de um quartel para o batalhão de primeira linha».
«30 de Dezembro de 1866 - O batalhão de primeira linha de Macau tomou néste dia posse do seu novo quartel, vastíssimo e solido edificio, construido, desde os alicerces, no lugar do antigo convento de S. Francisco, pelo desenho e debaixo da immediata direcção do governador José Rodrigues Coelho do Amaral. Ao mesmo governador se deve a construção do forte de S. Francisco, ahi junto, que também ocupa o lugar do antigo forte, sendo porém, a planta e a obra, como no quartel, inteiramente differente e nova».
O quartel foi reconstruído em 1937. Junto ao convento havia um espaço arborizado, chamado Campo de S. Francisco; Coelho do Amaral transformou esse campo em jardim, fechando-o com uma balaustrada, a qual já desapareceu há muito. (...)
Nota: O texto não é de minha autoria mas não consegui até agora identificar o autor.